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Entre cafés e livros

Por Marcelo Alves

Dizem que as primeiras cafeterias do mundo surgiram no começo do século XVI no pujante Império Turco-otomano. Em Meca, no Cairo e, claro, na capital Constantinopla/Istambul. Nelas jogavam-se xadrez e gamão. Havia música e dança. O café não era a única bebida servida, por óbvio. E o mais importante para nós: discutiam-se tanto as fofocas do dia como os assuntos mais elevados. As cafeterias já eram até conhecidas como “escolas de cultura”.

Faço essa pequena introdução porque ela é importante para entendermos a “cultura dos cafés”, como conhecemos hoje, no mundo ocidental. Reza a lenda que essa ideia nos chegou com a vitória do Império Austro-húngaro no segundo cerco de Viena pelos turco-otomanos em 1683. Paradoxalmente, vencidos conquistando culturalmente os vencedores, como comemoração do triunfo, dá-se início à era dos cafés vienenses.

Café Landtmann da capital austríaca, ativo desde 1875 (Foto: Web)
Café Landtmann da capital austríaca, ativo desde 1875 (Foto: Web)

Como anota Noël Riley Fitch em “The Grand Literary Cafés of Europe” (New Holland Publishers, 2007), no que toca à Europa e à civilização ocidental, “outras cidades podem reclamar a primeira cafeteria, mas há pouca dúvida de que foi em Viena que a cultura do café/espaço de convivência tomou a sua forma mais característica. É na Áustria que essa cultura tem durado mais, tem mudado menos, e ela tem sido a mais imitada pela Europa afora”. Mesmo sendo Paris a cidade dos cafés mais badalados, Viena é, para nós, origem e modelo. Fato!

Embora Viena hoje tenha um ar mais provinciano – “antiquado” talvez seja até a palavra mais justa – que Londres ou Paris, ela foi antanho a capital de um enorme Império. Foi quando cidade imperial e nos anos imediatamente seguintes que os seus cafés literários tiveram os seus dias de glória.

As mesas do Central, do Landtmann, do Imperial, do Sperl, do Museum, do Griensteidl e de outras casas menos votadas fervilhavam, de fatos e de gente. Entre os habitués estavam gigantes das letras como Stefan Zweig, Elias Canetti, Robert Musil, Rainer Maria Rilke ou Karl Kraus.

Havia Peter Altenberg, o “Sócrates de Viena”, que fazia do Café Central seu “domicílio”, seu salão de receber e sua sala para estar, sonhar e escrever. Era até possível esbarrar com Franz Kafka no Café Herrenhof. Se esse fosse o meu caso, certamente perguntaria a ele sobre a “lógica do arbítrio” do seu romance jurídico “O processo”. E isso sem falar dos gigantes do verbo musicado. Afinal, Viena é também uma ode à melodia. Schubert (o mais vienense dos grandes compositores), Johann Strauss I e II (e suas valsas vienenses), Brahms, Bruckner, Richard Strauss, Gustav Mahler e Arnold Schoenberg, todos eles viveram ali.

De toda sorte, ainda hoje, poucas cidades podem rivalizar com Viena em número de cafés históricos e literários. “Viena é uma cidade de cafés”, diz Antonio Bonet Correa em “Los cafés históricos” (Ediciones Cátedra, 2014). E complementa: “Verdadeiras instituições da vida cotidiana, pública ou privada, os cafés da capital austríaca desempenham um papel de primeira ordem no que atine à imagem da cidade”.

Estive na capital da Áustria duas ou três vezes, se não estou enganado. Vi seus monumentos antigos. A Wiener Staatsoper (Ópera Estatal de Viena), a Catedral da cidade e a Karlskirche (Igreja de São Carlos), os palácios de Schonbrunn, Hofburg e Belvedere, e fui até o Prater, tido como o parque de diversões mais antigo do mundo. Na verdade, cheguei até a fazer um “turismo jurídico”, indo em busca do direito puro, na figura de Hans Kelsen, para nós, o “Mestre de Viena”. Foi tudo muito gostoso, relembro.

Todavia, se retornasse hoje a Viena, eu sobretudo iria me sentar num dos seus muitos cafés, pediria um expresso ou um café turco, abriria um livro e veria o passado e o presente passarem. E, se morasse lá, faria como o comerciante de livros usados da novela do citado Stefan Zweig: teria o meu escritório, onde exerceria o meu mister, em um dos cafés literários da cidade.

Bom, será que dá para fazer isso em Natal ou Recife? Falo de montar meu gabinete numa cafeteria descolada. Ou é apenas mais uma loucura de alguém louco por café e cafeterias? 

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Uma força da Natureza

Por Marcelo Alves

Otto Maria Carpeaux (1900-1978) – austríaco naturalizado brasileiro, jornalista e ensaísta dos grandes, historiador e crítico de literatura, arte e música, polímata e poliglota, autor de “A História da Literatura Ocidental” (volumosa magnum opus) e de “A história concisa da literatura alemã” (que, em edição da Faro Editorial, 2013, tenho citado aqui) – foi uma força da natureza.

Carpeaux nasceu em Viena, então capital do Império Austro-Húngaro, numa família judia (pelo pai) burguesa de classe média. Estudou direito sem terminar. Foi cursar filosofia e química, ainda na Universidade de Viena, obtendo graduação nessas duas ciências. Tentou dar aulas por ali. Partiu Europa afora. Berlim, Roma, Amsterdam, Londres, Paris e por aí vai. Sempre estudando (literatura, cinema, música, ciência política etc.) e já fazendo jornalismo internacional.Otto Maria Carpeaux

Voltou a Viena. Casou. Com a morte do pai, converteu-se ao catolicismo. Escreveu mais crítica literária e jornalismo. Fez política nos níveis mais altos do governo austríaco. Com a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, fugiu de sua terra natal. Destino final: Brasil. Sorte nossa.

A estada de Carpeaux entre nós viria a durar décadas. De 1939 a 1978, o ano de sua morte, do coração, no Rio de Janeiro, cidade que adotou como sua. E quem não gostaria de morar no “Rio antigo”, “como nos velhos tempos”, conforme descrito na música do nosso Chico Anísio (1931-2012)? No Brasil, ele teve seus anos mais produtivos. Foi bibliotecário e enciclopedista importante. A partir do saudoso Correio da Manhã fez muito jornalismo. Publicou livros à saciedade. “A História da Literatura Ocidental”, que tenho aqui numa coedição da UniverCidade Editora e Topbooks, é originalmente de 1959-1966. Monumental. E, quando caiu em si, foi um feroz crítico do regime militar/ditatorial brasileiro (1964-1985).

A influência de Carpeaux no panorama cultural brasileiro foi enorme. Eis as palavras de Willi Bolle, no texto “À sombra do muro (anos 1960 a 1990)”, que atualiza “A história concisa da literatura alemã”: “A vocação de Otto Maria Carpeaux como historiador da cultura manifesta-se desde obras de grande abrangência, como História da Literatura Ocidental, até os ‘pequenos’ ensaios publicados em jornais. No meio do caminho situa-se seu livro sobre A Literatura Alemã (1964), que oferece ao leitor da América Latina e especialmente no Brasil uma visão do universo cultural de origem do seu autor.

O que destaca a obra de Carpeaux é sua repercussão formadora no meio intelectual brasileiro. Contribui para isso a capacidade de síntese com que ele expõe um panorama da literatura alemã, desde os primórdios até os autores contemporâneos. Panorama organizado por estilos de época – Barroco, Classicismo, Romantismo etc. – ou pelo recorte alternadamente estático e político: Revolução, Expressionismo, República de Weimar… Contribuem também a escolha acertada dos autores e das obras, bem como a sensibilidade e firmeza na avaliação, trabalho em que Carpeaux se baliza pelo estado da Ciência e da crítica literária do seu tempo. Na caracterização dos períodos e na arte de torná-los concretos, através dos retratos de escritores e textos, revela-se o grau de compreensão do historiador”.

Se a grandeza e a influência de Carpeaux parecem patentes (há gente mais habilitada para tratar disso do que eu), eu quero aqui deixar registrado o que mais me impressiona na vida desse cidadão do mundo e do Brasil (sobre as minhas impressões, quem melhor fala sou eu mesmo).

Como imigrante, Carpeaux aqui aportou com muito pouco. E menos sabia do Brasil. Embora poliglota – li que dominava alemão, francês, flamengo, inglês, italiano, espanhol, catalão, galego, provençal, servo-croata e o clássico latim –, o homem não versava o português. Dizem até que originalmente mandava seus textos jornalísticos em francês, que eram traduzidos para publicação. Outros tempos.

Mas ele aprendeu bem a nossa língua. Embora, nas leituras de “A história concisa da literatura alemã”, eu tenha notado alguns erros (não sei se de edição) e sobretudo tenha tido a impressão de estar diante de um texto escrito por alguém que não teve o português como língua materna.

Bom, a obra brasileira do “nosso” escritor é impressionante. Monumental, repito. E quem já precisou escrever em alto nível, em língua não maternal, sabe o quão difícil, quase impossível, isso é. É necessária muita força. Uma força da natureza, como no caso de Otto Maria Carpeaux.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Morre Niki Lauda, uma lenda do automobilismo mundial

Uma das páginas mais importantes da história do automobilismo mundial terminou de ser escrita nesta segunda-feira. Aos 70 anos, morreu Niki Lauda, tricampeão mundial de Fórmula 1 e atual presidente não executivo da Mercedes.

Ele estava em Viena (Áustria), teve falência renal e morreu ao lado dos familiares.

Niki Lauda apesar de ser originário de uma família milionária, não teve apoio da família para ter carreira vitoriosa (Foto: Web)

Nascido em 22 de fevereiro de 1949, Andreas Nikolaus Lauda era de família rica. Apesar de ter passado uma juventude abastada, o austríaco quis seguir carreira no automobilismo.

Sem apoio do avô banqueiro e dos demais familiares, Niki tomou um empréstimo num outro banco e passou a investir na carreira.

Depois de comprar uma vaga na equipe March de Fórmula 2, Lauda rapidamente foi convidado para correr na F1, estreando no GP da Áustria de 1971.

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