Por Josivan Barbosa
Analisando as propostas dos candidato(a)s à prefeitura de Mossoró percebe-se claramente a falta de um projeto de melhoria da qualidade da educação fundamental e o despreparo da maioria deles ou delas para discutir o tema.
Como a educação não é um serviço público que a população percebe a sua eficiência com facilidade, os postulantes deslizam nas propostas e o cidadão absorve sem discussão. É lamentável, mas esta é a realidade.
Nenhum dos nomes que se apresenta como mudança propõe a valorização do professor e quando falam sobre o tema não conseguem entender a importância desse profissional no futuro dos alunos.
A importância do professor
A valorização do professor e dos demais profissionais da educação é uma atitude básica de qualquer gestor público. Bons professores têm impacto significativo sobre o capital humano na vida adulta e no bem-estar social. Faz um bom tempo que a pesquisa econômica vem mostrando o papel fundamental do capital humano no desenvolvimento. Não foi sempre assim. Até a década de 80, alguns economistas enfatizavam principalmente o papel da estrutura produtiva (indústria) para o desenvolvimento. O capital humano tinha papel secundário no progresso econômico e social para esses economistas.
No entanto, a estrutura produtiva e o uso eficiente dos fatores produtivos dependem também da qualidade da mão de obra, que por sua vez é função das políticas educacionais. Não que uma sociedade não necessite de indústrias, mas o foco do desenvolvimento deve também ser os indivíduos. Esse tipo de pensamento com foco na industrialização influenciou nossa política econômica durante décadas. Só a partir dos anos 90 o Brasil começou a priorizar lentamente a educação pública. Mas ainda continuamos bastante atrasados e isso é refletido no discurso dos nossos gestores públicos, a exemplo do que estamos vendo nessa campanha em Mossoró.
Política educacional
Uma política educacional séria e comprometida com o cidadão deve contemplar o papel de abonar bons professores e atrair pessoas talentosas a esta profissão. Isso requer uma valorização da carreira como um todo: desde condições de trabalho adequadas até claro, salários competitivos e premiações financeiras. Infelizmente, nas propostas apresentadas, principalmente pelos candidato(a)s principiantes, não se consegue verificar essa tendência.
A importância da educação
Concluir o ensino superior no Brasil é uma batalha vencida por apenas 4% dos filhos de analfabetos; quando chegam ao mercado de trabalho, ganham menos da metade daqueles que são filhos de pais que têm o ensino superior. O sucesso escolar e a sequência nas etapas seguintes estão fortemente ligadas à escolaridade dos responsáveis.
Esses dados foram divulgados pelo IBGE (Pesquisa PNAD) que revela ainda que 69,1% dos filhos de pais que tem nível superior conseguem concluir o ensino superior. A pesquisa revelou, também, que mesmo que um filho de um analfabeto conclua o ensino superior, ele tende a ganhar três vezes menos do que o filho de um pai que tem o ensino superior.
A análise mais detalhada da pesquisa revela, portanto, que creche de boa qualidade, estímulos desde a primeira infância, livros, viagens, escolas e universidades de melhor qualidade para os filhos de pais com nível superior fazem a diferença.
Saeb
Uma boa referência para que os postulantes à prefeitura de Mossoró possam incorporar verdadeiramente a educação no discurso pode ser o Saeb. O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que avalia o desempenho dos alunos do quinto e nono anos em matemática e português, tem sido capaz de monitorar de forma razoável os resultados nessas matérias, com microdados que permitem a avaliação individual e por escola, município e Estado. Esse monitoramento contribui para uma correta compreensão dos obstáculos existentes. Não obstante, as intervenções e respostas resultantes desse monitoramento não alcançaram êxito expressivo. Os resultados favoráveis obtidos ainda são muito concentrados em ações específicas de alguns Estados e municípios.
A importância da família
A parcela de mães dos alunos do 5º ano que tem ensino médio ou superior dobrou entre 1999 e 2005, passando de 26% para 50%, como reflexo da expansão do ensino médio que ocorreu no Brasil. Vários estudos mostram que a escolaridade das mães é um dos principais fatores que aumentam o aprendizado dos alunos, por todo o investimento que as mães fazem nas crianças desde os primeiros anos de vida. Esses estudos mostram que o “background” familiar explica cerca de 2/3 do aprendizado do aluno, ficando a gestão escolar com 1/3.
Diante dessa realidade é fundamental que as propostas dos postulantes à prefeitura possam contemplar a interação da escola com a família, com ênfase na nova realidade do cotidiano.
Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido