Por Marcos Pinto
“Qual o tamanho da noite? A noite tem o tamanho do tamanho que a noite tem. Nenhuma noite é maior que aquela quando o homem está só” (Lude Mendes)
Quando Deus criou o mundo, enfeitou magnificamente a noite com o brilho mágico da lua e a luz especial das estrelas, imprimindo-lhes um encantamento voluptuoso aos olhos das almas ardentes. Inspira poesia em demasia aos poetas notívagos.
A esses, não importa o tamanho da lua nem a quantidade das estrelas. Nossos boêmios noturnos sempre deixam impressões de fidalgos empobrecidos e orgulhosos, verdadeiros “poços de orgulhos”, altivamente desocupados, desafiadoramente ociosos – espécimes de rasgos de ócio.
Cínicos para sobreviver a má sorte, são donos de humor satírico, a princípio ingênuo e depois perverso até onde vai a pilhéria.
Patéticos e estoicos nas suas pobrezas duramente escondidas. Mais pose do que capacidade intelectiva. Irrequietos folgazões com horizontes limitados, acumulando contratempos, dificuldades cruentas e até desfechos em crimes passionais. Ocultam suas dores em pileques etílicos homéricos.
O alcoolismo tem o poder de nos transportar ao mundo das evocações silenciosas, restritas ao ego, de coisas vividas ou simplesmente imaginadas. O seu manto apresenta-se sob vários matizes. Escura e silenciosa, a noite acumplicia-se ao universo dos espectros malignos e imaginosos, projetando sombras maquiavélicas cheias de inventivas mortais.
Os espectros do mal aproveitam-se do crepe para concretizarem o golpe fatal, forjado na virulência letal e exterminante. Os mistérios sombrios da noite emolduram-se de forma magistral ao silêncio e a escuridão, como marcas inconfundíveis.
Emite imagens fantasiosas nas mentes das crianças, surgindo em forma de lobisomens, mulas-sem-cabeças, papa-figos, tipos tradicionais das ruas e das estradas. Essas figuras lendárias da noite tem surtos de aparição em “suas horas”, essas “horas” que elas próprias escamoteiam, burlando armadilhas em forma de emboscadas.
Ao despontar do dia, servem de elementos fomentadores aos cochichos dos madrugadores desocupados, criadores de estórias envolventes de honras alheias, em conclusões precipitadas. Nas guerras, os universos de estratégias bélicas são formatadas no silêncio da noite.
Esta, por sua vez, tem sido diuturna escola tanto para homens rudes, educados na valentia, como para homens de singelos hábitos e de imperturbáveis serenidades, o que lhes proporciona estoicismo ante as adversidades.
Noites que retratam sem retoques homens e fatos em suas exatas configurações. Na juventude, a noite é um romance, desejo incontido de que as noites de amor durem a noite toda.
Na velhice, é um recordar incessante, com a ansiedade premente de um rápido amanhecer. Durante a noite dos idosos a vida pesa indubitavelmente monótona, e ás vezes cheia de agonias.
Todos nós temos nossas horas de angústias e aflições caladas e reprimidas na solidão da noite. Revela-se atroz no ermo de nossas almas feridas, sem perspectiva senão a de ver o último sol se por. Equilibramo-nos de acordo com as circunstâncias entre tendências em conflito e a permanente insatisfação com o modo de vida. Não há como deixar de escapar um traço de recalque e de rancor.
A noite engendra conspirações com requintes de pormenores, que até a lucidez mais moderada se deixa eclipsar. Satura a alma de ilusões e desencantos, testemunhando ao longo da vida o triunfo quase sempre da utopia deprimente.
Revelam uma multiplicidade de portas e partos prematuros de sonhos irrealizáveis. Espreita com precisão cirúrgica a distância das recordações, promovendo presenças, mapeando estratégias, catalogando tristezas, revelando instigantes e voluptuosos desejos.
Inté.
Marcos Pinto é escritor e advogado