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José Dirceu diz que Bolsonaro não deve ir para sistema penitenciário

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT) afirmou que considera “justo” manter o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em prisão domiciliar. A declaração foi dada em entrevista à BBC News Brasil, nesta segunda-feira (6). Para Dirceu, o líder da direita não tem condições de cumprir pena em presídio comum por motivos de saúde e segurança.

– Dado o estado de saúde dele, acho que é justo. Acho muito improvável colocar presos vulneráveis no sistema penitenciário – disse

O petista comparou a situação de Bolsonaro à de outros ex-presidentes, lembrando que Lula chegou a ser preso, mas em condições especiais.

– É verdade que não foi assim com o presidente Lula, mas ele ficou na sede da Polícia Federal, em uma prisão especial – explicou.

Dirceu disse ainda que, caso Bolsonaro fosse enviado para uma penitenciária comum, ele teria de ficar isolado.

– Nós mesmos, quando presos, ficamos na área de vulneráveis. Não tínhamos contato com outros presos, íamos sozinhos para o pátio e para a biblioteca, por questão de autoproteção – afirmou.

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Fome leva crianças ao desmaio em escolas públicas

Por Thaís Carrança (Da BBC News)

“Essa aluna chegou bem atrasada. Ela bateu na porta da sala de aula, eu abri e notei que ela não estava bem, mas não consegui entender o porquê. Passei álcool na mão dela e senti a mão muito gelada, num dia em que não estava frio para justificar.”escola, criança com fome, arte de André Valente - BBC News Brasil

“Ela sentou e abaixou a cabeça na mesa. Eu estranhei e chamei ela à minha mesa. Ela veio e eu perguntei se ela estava bem. Ela fez com a cabeça que estava, mas com aquele olhinho de que não estava. Perguntei se ela tinha comido naquele dia, ela disse que não.”

“Fui pegar algo para ela na minha mochila — porque eu sempre levo um biscoitinho ou uma fruta para mim mesma. Mas não deu tempo. Ela desmaiou em sala de aula.”

O relato é de uma professora da rede municipal do Rio de Janeiro. A aluna tem 8 anos, é negra e estuda em uma escola localizada em um complexo de favelas na Zona Norte carioca. O episódio aconteceu em setembro deste ano.

“Eu fiquei realmente sensibilizada por essa situação”, conta a professora. “Por que é isso: a fome. Uma fome que a criança não sabe expressar a urgência. E que envolve muitas vezes a vergonha. Para ela é algo humilhante, por isso ela não consegue expressar.”

O caso ocorrido na escola do Rio de Janeiro não é isolado. Professores da rede pública de todo o Brasil relatam episódios semelhantes, num momento em que o país soma 13,7 milhões de desempregados e a inflação de alimentos consumidos em domicílio acumula alta de mais de 13% em 12 meses, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo estudo da Universidade Livre de Berlim, a insegurança alimentar grave — como é chamada a fome na linguagem técnica — atingia 15% dos domicílios brasileiros em dezembro de 2020. Esse percentual chegava a 20,6% nos lares com crianças e jovens de 5 a 17 anos.

Agressividade

Os professores ouvidos pela BBC News Brasil relatam que os alunos com fome sofrem com perda de motivação e apresentam episódios de agressividade com colegas e educadores.

Na volta às aulas presenciais, após o período de ensino à distância forçado pela pandemia, os estudantes enfrentam os efeitos da perda de emprego e renda dos pais e do falecimento de avós que muitas vezes sustentavam a família com suas aposentadorias.

Conforme os professores, jovens estão abandonando os estudos para trabalhar e ajudar suas famílias na geração de renda e crianças moradoras de favelas estão, em alguns casos, mudando para regiões ainda mais precárias das comunidades, devido ao custo do aluguel.

Nesse cenário de crise social que bate à porta das escolas, os educadores fazem o que podem, organizando coletas de alimentos e direcionando as crianças e famílias que estão passando por necessidade à rede pública de assistência social.

Apoio

“Procuro manter meu coração sempre firme, não cair em desespero”, diz uma professora de língua portuguesa na rede estadual do Paraná, com quase 30 anos de profissão.

“A gente respira fundo e vai fazer campanha para cesta básica, para coleta de alimentos, para mantê-los em sala de aula. Eu me sinto às vezes cansada, mas me sinto na obrigação de me manter firme e fazer algo por essas crianças, para que eles sintam que podem contar conosco, que não seremos mais um a abandoná-los.”

A BBC News Brasil optou por manter todos os entrevistados anônimos, como uma forma de preservar a privacidade das crianças citadas em seus relatos.

Veja matéria completa clicando AQUI. Mas, antes, respire fundo. Não é fácil.

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Uma morte que, 200 anos depois, ainda é um grande mistério

Por Siân Rees (BBC News Brasil – História)

“Minha morte é prematura. O oligopólio inglês e seu assassino contratado me assassinaram.”

Estas foram as palavras maliciosas de Napoleão Bonaparte quando fez seu último testamento em abril de 1821. Bonaparte, um dos estrategistas mais talentosos da história, foi um homem que levou suas vinganças para o túmulo.

No dia seguinte à sua morte sob custódia britânica, 5 de maio de 1821 (fez 200 anos nessa quarta-feira última), dezesseis observadores compareceram à autópsia, sete médicos entre eles. Eles foram unânimes em sua conclusão: Napoleão morrera de câncer no estômago.

No entanto, as dúvidas que Napoleão alimentou sobre o que “realmente” aconteceu nunca desapareceram completamente. O governo britânico apressou sua morte? Seus rivais franceses derramaram veneno em seu vinho? Foi realmente Napoleão quem morreu em Longwood House em maio de 1821?

Napoleão morreu na ilha de Santa Helena, como prisioneiro da Coroa britânica (Reprodução de arte)
Napoleão morreu na ilha de Santa Helena, como prisioneiro da Coroa britânica (Reprodução de arte)

Por quase dois séculos, todas essas questões e outras foram debatidas e contestadas.

Nascido em 1769 em uma família da Córsega de recursos modestos, em 1811 Napoleão Bonaparte governou 70 milhões de pessoas e dominou a Europa.

Quatro anos depois, seus sonhos dinásticos, políticos, imperiais e militares foram destruídos e ele foi exilado na remota ilha de Santa Helena.

Até sua morte, ele e sua família viveram em uma vila chamada Longwood House.

Uma morte lenta

A morte de Napoleão não ocorreu de repente.

Durante meses, ele sofreu de dores abdominais, náuseas, suores noturnos e febre. Quando não estava constipado, tinha diarreia. Perdeu muito peso. Ele reclamava de dores de cabeça, pernas fracas e desconforto sob luz forte. Sua fala ficou confusa. Os suores noturnos o deixavam encharcado. Suas gengivas, lábios e unhas eram incolores.

Ocorreu-lhe que estava sendo envenenado, mas então decidiu que tinha o mesmo câncer que matara seu pai e que toda ajuda médica seria inútil.

Em 4 de maio de 1821, ele perdeu a consciência. Em 5 de maio, a notícia de que o grande homem havia morrido causou um choque mundial, e as perguntas começaram a surgir.

O primeiro teórico da conspiração foi o médico irlandês Barry O’Meara, que havia sido cirurgião no navio HMS Bellerophon quando Napoleão se rendeu a seu capitão depois de Waterloo e se tornou o médico pessoal do líder francês.

O’Meara cuidou do ex-imperador por três anos, até fazer a explosiva afirmação de que o governador britânico de Santa Helena, Sir Hudson Lowe, teria ordenado que ele “abreviasse a vida de Napoleão”. Como esperado, O’Meara foi demitido depois disso.

O médico e o prisioneiro

Lowe era o sujeito perfeito para desempenhar o papel do vilão britânico, que é a versão que entrou para a história e, não por acaso, a versão que Napoleão queria que o mundo acreditasse.

Retrato inacabado de Napoleão feito por Jacques-Louis David (Reprodução)
Retrato inacabado de Napoleão feito por Jacques-Louis David (Reprodução)

Napoleão tinha um plano astuto para escapar de Santa Helena, alegando que o clima o estava enfraquecendo fatalmente e usando a autoridade médica do Dr. O’Meara como amparo.

O’Meara se encantou com o famoso charme de seu paciente e apoiou suas alegações: em 1818, ele acusou o governador Lowe de tentar apressar a morte de Napoleão e, em 1822, publicou um livro no qual afirmava que o governo britânico estava determinado a eliminar qualquer possibilidade de outro retorno napoleônico.

Muitas pessoas suspeitaram que O’Meara estava certo, mas ninguém poderia provar isso. Ainda não existia nenhum método para identificar a presença de arsênico em um cadáver.

Se Napoleão tivesse sido assassinado, o assassino aparentemente escapou impune. Até que um dentista sueco descobriu a história real cerca de 100 anos depois, e retomou tudo de onde O’Meara havia parado.

Investigações

Quando os diários privados do criado de Napoleão foram publicados na década de 1950, oferecendo relatos íntimos dos últimos dias do imperador, o dentista sueco Sten Forshufvud acreditou ter encontrado uma prova irrefutável.

Dos 31 sintomas de envenenamento por arsênico descobertos por cientistas desde 1821, Napoleão apresentou 28, então Forshufvud pediu a uma universidade escocesa que fizesse um teste de detecção de arsênico recém-inventado.

A análise de ativação de nêutrons (NAA) foi realizada nos cabelos da cabeça de Napoleão datando de 1816, 1817 e 1818, e revelou níveis fatalmente altos de arsênico em seu sistema. O’Meara, ao que parecia, estava certo: Napoleão foi morto, mas quem o matara?

Assassinato

O milionário canadense Ben Weider (descobridor do jovem Arnold Schwarzenegger) chegou à mesma conclusão usando um método diferente.

Convencido de que Napoleão havia sido assassinado, Weider revisou as inúmeras memórias escritas por aqueles que moraram na casa de Longwood em busca de pistas.

Ele e Forshufvud coletaram evidências para os sintomas descritos nas memórias e as compararam aos picos da absorção de arsênio mostrados pela análise de NAA. Com base nisso, acreditaram possuir evidências de doses da substância administradas em intervalos ao longo de vários anos.

Imagem da NASA da ilha remota, que ainda é britânica, habitada por quase 5.000 pessoas (Reprodução)
Imagem da NASA da ilha remota, que ainda é britânica, habitada por quase 5.000 pessoas (Reprodução)

O livro de Ben Weider intitulado Assassinato em Santa Helena também mencionou um novo suspeito: o ex-amigo de Napoleão, Charles Tristan, o Marquês de Montholon, um personagem sombrio cuja esposa Napoleão havia seduzido, que estava desesperado para sair da ilha, e se beneficiaria pessoalmente da morte do ex-imperador.

Os reis Bourbon restaurados da França (que tinham tanto interesse quanto os britânicos em manter Napoleão sob controle) haviam ameaçado (segundo Weider e Forshufvud) tornar público o desvio de fundos militares por Montholon se ele não concordasse em envenenar Napoleão com arsênico.

O debate sobre arsênico

No entanto, essa teoria elaborada não convenceu a todos: mesmo que o arsênico fosse a causa da morte de Napoleão, isso não significava que alguém teria matado o ex-imperador francês com essa substância.

Na década de 1980, o debate sobre o envenenamento tomou uma direção diferente: Napoleão poderia simplesmente ter absorvido arsênico suficiente de seu ambiente para morrer.

Qualquer casa do século 19 estava saturada de arsênico: cosméticos, tônico para o cabelo, cigarros, cera de lacre, panelas, repelentes de insetos, veneno de rato, cobertura de bolo. Tudo era tóxico.

Quando um químico da Universidade de Newcastle fez um teste com um pedaço de papel de parede de Longwood, roubado por um turista do século 19, ele descobriu que gases venenosos exalados por um mofo crescendo atrás dele poderiam ter contribuído para o declínio fatal de Napoleão.

Pesquisadores posteriormente compararam os cabelos do filho de Napoleão com sua primeira esposa, a imperatriz Josefina, com os de 10 pessoas vivas, e concluíram que os europeus no início do século 19 tinham até 100 vezes mais arsênico em seus corpos do que uma pessoa viva hoje.

Mas aqueles que estavam convencidos de que Napoleão fora assassinado não aceitaram essa hipótese.

Por vários anos, as duas escolas de pensamento lutaram com evidências e contra-evidências: o FBI, a Scotland Yard, o Instituto Forense de Strasbourg, os laboratórios da polícia de Paris… todos realizaram testes e todos confirmaram os altos níveis de arsênico no sistema de Napoleão.

No entanto, nenhum dos dois conseguiu estabelecer definitivamente como o veneno foi parar lá.

A teoria da substituição

Enquanto isso, um segundo debate surgiu: sobre substituição.

A ideia do imperador substituto tem sido usada em filmes e romances e certamente os fãs mais apaixonados de Napoleão tinham (e têm) certeza de que o homem que morreu em 5 de maio era outra pessoa.

A versão mais surpreendente das teorias da substituição afirma que Napoleão nunca foi a Santa Helena: que eles enviaram um sósia em seu lugar. O ex-imperador teria se aposentado em Verona e virado vendedor de óculos, mas foi baleado enquanto tentava escalar as paredes de um palácio austríaco para ver seu filho mais novo.

Essa história, no entanto, não tem nenhum fundamento em documentos.

Segunda teoria

Uma segunda teoria da substituição gira em torno de Jean-Baptiste Cipriani, mordomo em Longwood até sua morte em fevereiro de 1818 durante uma epidemia de hepatite, e enterrado nas proximidades.

A ‘escola Cipriani’ afirma que os britânicos desenterraram secretamente o corpo de Napoleão no final da década de 1820 por razões inexplicáveis.

Quando confrontados com um pedido francês em 1840 para desenterrar Napoleão e trazê-lo de volta a Paris, os britânicos desenterraram Cipriani rapidamente e o jogaram na tumba vazia de Napoleão.

Por que, dizem os adeptos desta teoria, o oficial britânico encarregado só permitia que os observadores franceses presentes vissem o corpo à meia-noite, à luz de tochas? Por que não permitia que fossem feitos esboços? Por que o caixão foi aberto apenas por dois minutos antes de fechá-lo novamente e levá-lo a bordo da fragata francesa?

Cortejo fúnebre de Napoleão na ilha de Santa Helena (Reprodução)
Cortejo fúnebre de Napoleão na ilha de Santa Helena (Reprodução)

Máscaras mortais falsas, meias podres, cicatrizes faciais desbotadas, a posição dos vasos que prendem as vísceras: os detalhes levantados e negados são muitos para listar aqui, mas eles mantiveram os estudiosos de Napoleão felizes por anos.

Em 1969, no bicentenário do nascimento de Napoleão, um jornalista francês chegou a publicar um “apelo” deliberadamente sensacionalista aos britânicos: “Anglais, rendez-nous Napoleon!” (Britânicos, devolvam-nos Napoleão!).

Sua surpreendente acusação foi a de que a família real britânica mandou reenterrar Napoleão na Abadia de Westminster, o que teria sido um insulto final.

A verdade mais prosaica é que o corpo de Napoleão (quase) certamente está sob a cúpula de Les Invalides em Paris.

No entanto, até que as autoridades francesas permitam que o caixão seja aberto para exumar o corpo, as teorias sobre o destino final de um dos personagens mais fascinantes da história continuarão a assombrar.

Veja AQUI, também, outras curiosidades sobre esse fascinante persongem.

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A história de adolescentes que caçavam e matavam nazistas

Da BBC News Brasil

Durante a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista da Holanda levou três adolescentes a se tornarem ferozes combatentes da resistência. Hannie Schaft tinha 19 anos e as irmãs Truus e Freddie Oversteegen apenas 16 e 14 anos, respectivamente, quando os nazistas ocuparam seu país, em 10 de maio de 1940.

Truus e Freddie Oversteegen nasceram na cidade de Schoten – agora parte de Haarlem – e cresceram sozinhas com a mãe, uma mulher de profundas convicções antifascistas.

Hannie Schaft e as irmãs Truus e Freddie Oversteegen eram adolescentes quando os nazistas ocuparam a Holanda (Reprodução BBC)

Em entrevistas com a antropóloga Ellis Jonker, coletada no livro “Under Fire: Women and World War II” (Sob o Fogo: Mulheres e a Segunda Guerra Mundial), de 2014, Freddie Oversteegen lembrou que sua mãe as incentivou a fazer bonecas para crianças que sofreram na Guerra Civil Espanhola, e que, no início dos anos 30, se ofereceu como voluntária na International Red Aid, uma espécie de Cruz Vermelha Comunista para prisioneiros políticos em todo o mundo.

Embora vivessem na pobreza, a família recebeu refugiados da Alemanha e Amsterdã, incluindo um casal judeu, uma mãe e um filho que passaram a viver no sótão de sua casa.

Quando os nazistas invadiram a Holanda, os refugiados foram transferidos para outro lugar, pois os líderes da comunidade judaica temiam uma possível incursão policial devido às conhecidas tendências políticas da família Oversteegen.

“Todos foram deportados e mortos”, disse Freddie Oversteegen a Jonker. “Nunca mais tivemos notícias deles. Ainda fico muito emocionada, toda vez que falo sobre isso.”

As duas irmãs e sua amiga Hannie Schaft, uma jovem ruiva que abandonou a faculdade de Direito depois de se recusar a jurar lealdade à Alemanha, eram membros proeminentes da resistência.

Todas as três são lembradas por sua técnica de atrair colaboradores nazistas para a floresta e depois executá-los.

Célula especial

Quando a ocupação começou, as irmãs Oversteegen passaram a desempenhar pequenas tarefas para a crescente resistência clandestina. Distribuíam panfletos (“A Holanda deve ser livre!”) e colavam cartazes antinazistas ( “Para cada homem holandês que trabalha na Alemanha, um alemão vai para o front”).

Hannie Schaft deixou faculdade de Direito e se uniu à resistência (Reprodução BBC)

Acreditava-se que a resistência holandesa era uma tarefa masculina em uma guerra de homens. Se as mulheres se envolvessem, provavelmente não fariam nada além de entregar panfletos ou jornais anti-alemães.

Mas os esforços das irmãs Oversteegen atraíram a atenção de Frans van der Wiel, comandante do Conselho de Resistência clandestino de Haarlem, que as convidou para integrar sua equipe, com a permissão de sua mãe.

“Acho que elas eram apenas adolescentes tímidas. A guerra logo as transformou em mulheres corajosas”, diz Martin Menger, filho de Truus Oversteegen.

As irmãs Oversteegen eram oficialmente parte de uma célula de resistência composta por sete pessoas, que cresceu em 1943 com a incorporação da Schaft.

Mas as três meninas trabalhavam principalmente como uma unidade independente, seguindo instruções do Conselho da Resistência, de acordo com Jeroen Pliester, presidente da Fundação Hannie Schaft.

Assim, Truus e Freddie Oversteegen e Hannie Schaft foram exceções: três adolescentes que pegaram em armas contra os nazistas e os “traidores” holandeses nos arredores de Amsterdã.

Execução de traidores

“Era atípico que meninas participassem da resistência armada e, principalmente, executassem traidores, algo que essas três adolescentes fizeram”, diz Liesbeth van der Horst, diretora do Museu da Resistência Holandês.

Pouco tempo depois, o papel delas passou a ser mais ativo, envolvendo ação direta.

“Mais tarde, ele (comandante Frans van der Wiel) nos disse o que realmente tínhamos que fazer: sabotar pontes e linhas ferroviárias”, disse Truus Oversteegen em sua conversa com Jonker.

“Dissemos a ele que gostaríamos de fazer isso.” E aprender a atirar, atirar nos nazistas”, acrescentou.

As adolescentes geralmente se encarregavam dos colaboradores nazistas locais.

“Mais do que os alemães, essas jovens executaram principalmente traidores holandeses, simplesmente porque costumavam ser uma ameaça ainda maior do que os nazistas”, diz Truus Menger, filha de Truus Oversteegen.

Segundo o próprio relato de Truus, foi sua irmã Freddie quem primeiro atirou e matou alguém. “Foi trágico e muito difícil, e depois choramos por isso”, disse.

“Não acreditávamos que nos adaptaríamos, ninguém nunca se adapta, a menos que você seja um verdadeiro criminoso … Você perde tudo. Envenena as coisas bonitas da vida.”

Remy Dekker, filho de Freddie, acredita que isso aconteceu quando sua mãe tinha 15 ou 16 anos.

“Ela executou uma mulher que, de acordo com a resistência, queria passar os nomes de todos os judeus de Haarlem para os serviços de inteligência nazistas”, diz Dekker.

“Minha mãe se aproximou dessa mulher em um parque e pediu seu nome para confirmar sua identidade. Depois que ela o fez, ela atirou nela.”

Talvez em sua ação mais ousada, as três adolescentes aproveitaram sua aparência jovem e inofensiva para atrair seus alvos em tabernas ou bares. Eles foram convidados a “dar um passeio” na floresta e, então, “executados”.

“Tivemos que fazer isso”, disse Truus Oversteegen a um entrevistador.

“Era um mal necessário matar aqueles que traíam pessoas boas”. Quando questionada sobre quantas pessoas ela havia matado ou ajudado a matar, se recusou a respondeu: “Ninguém perguntaria nada disso a um soldado”.

“Levar os nazistas e traidores para a floresta foi uma coisa brilhante, porque eles pensavam que estavam flertando com as adolescentes”, diz Dekker.

“Obviamente nada aconteceu na floresta. Antes que eles tentassem beijá-las, eram mortos.”

No entanto, nem todas as execuções seguiram o mesmo esquema.

Ícones da resistência feminina

“Às vezes elas matavam suas vítimas enquanto andavam de bicicleta, para que pudessem fugir rapidamente”, diz Martin Menger. “Essas execuções não envolviam flerte”.

Schaft, cujos cabelos ruivos a tornavam reconhecível pelos nazistas, foi capturada e executada em 17 de abril de 1945. Ela tinha 24 anos.

Apenas 18 dias depois, a Holanda foi libertada.

Aproximadamente três quartos da população judia holandesa foram mortos durante a ocupação.

“Quando era criança, com apenas 8 anos, tínhamos um livro de história na escola sobre uma garota ruiva Hannie Schaft”, lembra Dekker.

“Enquanto eu lia, minha mãe começou a chorar. Ela me disse que tinha sido amiga dela durante a guerra e que havia sido morta pelos alemães.”

“Ela mencionava a guerra e Hannie com frequência. Isso permaneceu com ela durante toda a vida, o fato de que ela sobreviveu à guerra e Hannie não.”

As irmãs Oversteegen sobreviveram à guerra e tiveram uma vida longa.

Freddie Oversteegen atirou pela primeira vez em uma pessoa com 15 ou 16 anos

Em 1996, elas criaram a Fundação Hannie Schaft , para promover o legado de sua amiga.

“Schaft se tornou o ícone nacional da resistência das mulheres”, disse Pliester, diretora da Fundação.

Após a guerra, Truus Oversteegen trabalhou como artista, fazendo pinturas e esculturas inspiradas em seus anos de resistência e escreveu suas memórias. Ela morreu em 2016.

Sua irmã Freddie disse à Vice em 2016 que enfrentava os traumas da guerra “casando e tendo filhos”. Ela morreu em 2018.

Nas entrevistas, Freddie Oversteegen costumava falar sobre a sensação física de matar, não a sensação de puxar o gatilho, mas a inevitável agonia que se seguia à morte de suas vítimas.

“Sim”, disse ela a um entrevistador, de acordo com o jornal holandês IJmuider Courant, “eu mesma atirei com uma arma e os vi cair. E o que está dentro de nós naquele momento? Você quer ajudá-los a se levantar”.

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Veja retrospectiva da marcha de um vírus que muda o mundo

Há 6 meses, uma “pneumonia misteriosa” era notificada em Wuhan, China.

Nesse tempo, o que parecia algo controlável mudou o mundo. Relembre, mês a mês, como foi a evolução da pandemia, em trabalho jornalístico da BBC News Brasil, com uma clipagem de imagens e textualização.

A Covid-19 segue sem controle.

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Experiência alemã mostra como é difícil guerra contra Covid-19

O jornalista Ricardo Senra, da equipe da BBC News Brasil, baseado em Londres, mostra como um dos países mais ricos do mundo, com uma estrutura de saúde invejável e alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a Alemanha, está enfrentando a Covid-19.

A experiência alemã se baseia em quatro pontos fundamentais, descritos por Senra.

Os resultados preliminares no enfrentamento são bons, mas não significa que a doença está vencida e superada. Os alemães sabem que o pior está por vir e o tamanho do estrago depende só deles.

O relato do jornalista revela profundas diferenças com o que testemunhamos, por exemplo, no Brasil.

Outra guerra

Tem relação direta com perfil do próprio povo (disciplinado, consciente, austero) e a liderança de seu governo, comandado pela premier Angela Merkel.

A antecipação de medidas logo ao surgimento dos primeiros casos, até aqui tem sido um dos pontos cruciais nessa guerra que é vista por Merkel como o grande desafio da Nação pós-Segunda Guerra Mundial.

Nessa postagem, também colocamos um pronunciamento de Merkel, feito há poucas semanas (20 de março), em que fala dos problemas e da necessidade de superação. As dificuldades estavam apenas começando.

Um país destruído por duas guerras mundias na primeira metade do século passado, obrigado a assumir enorme sacrifícios de reparações a vencedores dos conflitos, dividido em dois durante décadas e reunificado no fim dos anos 80, tem muito a nos ensinar.

Óbitos

Mesmo com todos os esforços, a nação unida e grande volume de recursos, a Alemanha tem hoje 2.736 óbitos, 65.522 registros da doença e 53.913 recuperados.

Acompanhe por esse visualizador (clique AQUI) atualizado, como está a pandemia em todo e qualquer país do mundo.

Às 8h18 deste sábado (11), o mundo contabiliza 103.502 óbitos (6.05% dos registros), com 1.225.017 de casos ativos382.053 (22,33%) recuperações.

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“O rico vai ter que ajudar o pobre”, alerta empresário

Para o dono da rede de lojas TNG e presidente da Associação Brasileira dos Lojistas Satélites (ABLOS), Tito Bessa Junior, de 62 anos, chegou a hora de os mais ricos protegerem os mais pobres diante dos efeitos recessivos da pandemia do coronavírus no Brasil.

As pequenas e médias empresas, comparando ao corona, estão sem imunidade', afirma Tito Bessa (Foto:divulgação)

Isso valerá, também, para o universo dos pequenos e médios empresários de shoppings, que, na estimativa de Bessa, respondem por uma cadeia produtiva que emprega entre 4 e 5 milhões de pessoas, entre vendedores e fornecedores, que podem ficar sem salários já a partir de maio.

“Eu preciso pagar meu funcionário, eu preciso pagar o meu fornecedor para que ele pague o funcionário dele”, diz.

Em entrevista à BBC News Brasil, Tito faz um desabafo, mostra números e caminhos para que o país não enfrente consequências nunca antes vistas.

BBC News Brasil – O senhor vê o risco de que, quando isso passar, muitas empresas tenham fechado?

Bessa – Eu vou dar um dado. Na crise de 2014, 2015, fecharam ao longo dos dois anos 120 mil pequenos negócios. Agora você imagina as pequenas e médias empresas, que, comparando ao corona, estão sem imunidade. Então elas vão morrer, precisamos de um respirador.

Qual vai ser o respirador que o governo vai nos dar? Vamos depositar o salário do funcionário, vamos te dar dinheiro para pagar 20% do que você deve. Vamos ter que flexibilizar o dinheiro a chegar nas empresas, sem haver oportunismo, sem haver o pró-rico.

Sem dar dinheiro para o cara sair comprando empresa no exterior, ou comprando todo mundo que quebrar, sem concentração. Os grandes, capitalizados, que fizeram sua capitalização, tudo bem, parabéns, eles não precisam, eles aguentam. Quem precisa é aquele pequeno: é a padaria, o sorveteiro, é quem tem dez lojas, cinco lojas, cinquenta loja.

Veja entrevista completa clicando AQUI.

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Oito décadas depois, morte de Lampião ainda causa debate

Por Raíssa França (BBC News Brasil)

Mais de oito décadas se passaram, e a história ainda não chegou à conclusão de como Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi morto. O debate ainda rende entre pesquisadores do cangaço e segue longe de um consenso sobre como se deram os últimos suspiros de Lampião. Há até mesmo quem duvide de sua morte.

Uma novidade trouxe mais elementos a um debate que parece não ter fim. Trata-se de uma perícia feita nas roupas e objetos que estavam com Lampião no dia da emboscada policial na grota do Angico, sertão de Sergipe, em 27 de julho de 1938. Após as mortes, as cabeças de Lampião, sua esposa Maria Bonita e outros cangaceiros foram cortadas e expostas ao público como troféu no Recife.

Perícia pedida por historiador deu mais detalhes sobre morte de Lampião (no centro) em 1938 (Foto: Benjamin Abrahão)

As peças estavam guardadas intocáveis até então no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas – como a operação que caçou o cangaceiro na caatinga foi feita pela Polícia Militar do Estado, Alagoas herdou o material e o guarda como relíquia até hoje.

A análise foi feita pelo perito Victor Portela, do Instituto de Criminalística de Alagoas. A BBC News Brasil teve acesso ao documento inédito, datado de 19 de julho de 2019, que atesta que Lampião teria recebido três tiros.

Mas a morte do rei do cangaço apresenta teses e mais teses. Uma delas é que Lampião e o bando foram envenenados antes do tiroteio, e que a polícia disparou contra o grupo já morto. Há quem defenda que o rei do cangaço não morreu em Angico, mas, sim, um sósia – o verdadeiro cangaceiro teria morrido com 100 anos em Minas Gerais.

“Se quiser, conto as duas mil teses que existem sobre a morte”, brinca o historiador e jornalista João Marcos Carvalho, autor do documentário ainda inédito Os Últimos Dias do Rei do Cangaço. Foi ele quem pediu ao perito alagoano uma análise das peças, que deve reabrir um debate que parecia ter encontrado seu fim no ano passado, quando o escritor Frederico Pernambucano de Mello publicou livro Apagando Lampião.

Segundo perícia, tiro acertou o punhal usado por Lampião e foi desviado para a região umbilical (Foto: Ingryd Alves)

Na publicação, o pesquisador do cangaço afirma que Lampião morreu com um único tiro disparado a oito metros de distância pelo cabo Sebastião Vieira Sandes. A versão ainda diz que o tiro certeiro foi dado de fuzil, conforme relatado pelo próprio policial alagoano autor do disparo – que o procurou quando estava com doença terminal em 2003 para revelar o que seria o maior segredo.

Debate

Para Carvalho, a tese de Frederico está errada. Ele diz que Lampião foi morto pela polícia em uma emboscada e estava com outros integrantes do grupo quando foi surpreendido.

Em busca de mais detalhes sobre o enigma da morte do cangaceiro, Carvalho pediu um laudo ao perito alagoano. “Procurei o perito Victor Portela e solicitei a análise daqueles objetos que estavam guardados e nunca tinham sido mexidos”, explicou.

Victor Portela analisou roupas e objetos que lampião portava quando foi morto no sertão sergipano (Foto: Ingryd Alves)

À BBC News Brasil, o perito disse que de imediato aceitou a missão. Ainda em 2018, ele iniciou a análise no punhal, nas cartucheiras e nos bornais (tipo de bolsas usadas pelo cangaço) de Lampião. Segundo ele, foram percebidos pontos de impacto e perfurações nos materiais utilizados.

O laudo de Portela diz que foram três tiros. O primeiro deles acertou o punhal, e a bala acabou desviada para a região umbilical; outro atravessou a cartucheira – que era utilizada no ombro – e atingiu o coração; e o terceiro atingiu cabeça.

Para o perito, é impossível saber qual dos tiros – ou se a combinação deles – matou Lampião. Mas ele destaca que sua experiência como perito aponta um dado controverso das teorias até então: os disparos no peito e na barriga não matariam o cangaceiro instantaneamente.

“Ele poderia morrer alguns minutos depois pelo sangramento. Só o tiro na cabeça o mataria rápido, mas não temos como dizer a cronologia dos disparos”, explicou.

Um dos pontos novos apresentados no laudo veio da análise dos bornais feitos por Dadá (famosa cangaceira do grupo), que tinham duas marcas de tiros. João Marcos crê que Lampião não teve tempo de vesti-los no momento do tiroteio. “Quando o bando chegou à grota, o local não estava em um silêncio de catedral. Lampião estava vestindo a cartucheira, o punhal e tomou os tiros ali. Não deu tempo de ele vestir os bornais”, explicou.

Perícia também analisou bornais (bolsas usadas pelo cangaço) de Lampião (Foto: Ingryd Alves)

Portela concorda com o jornalista e historiador, revelando que a perícia mostrou que os tiros foram dados de cima pra baixo, e que os bornais não tinham marca de sangue. “Ficou uma incógnita com relação aos bornais, mas quando fiz a sobreposição das cartucheiras com os bornais, vi que não há compatibilidade com nenhum dos disparos”, afirmou.

Neta rechaça ideia de um tiro

Vera Ferreira, neta de Lampião, disse à BBC News Brasil acreditar que a perícia recente sustenta a teoria mais correta a respeito da morte do avô.

Ferreira não acredita na versão de tiro único, nem de envenenamento, muito menos de que seu avô sobreviveu e morreu em Minas Gerais. “Quando o corpo do meu avô foi periciado, apontou-se três tiros”, disse.

Questionada sobre a versão de que o cabo Sandes ter matado o avô, Vera afirmou que não é possível saber quem matou Lampião.

“Quem deu o tiro de misericórdia? Imagine várias pessoas atirando ao mesmo tempo, o mesmo alvo, ninguém sabe”, completou.

O ‘julgamento’ de Lampião

Além da polêmica da forma da morte, a história de Lampião também levanta o questionamento: herói ou bandido? Matar Lampião era um desejo das autoridades brasileiras desde a segunda metade da década de 1930. A ordem foi dada pelo então presidente Getúlio Vargas.

Atendendo a pedidos de políticos nordestinos, ele impôs uma longa caçada ao bando.

Neta de Lampião, Vera Ferreira rebate tese de que cangaceiro morreu com apenas um tiro (Foto: Ingryd Alves)

Um seminário marcado para 2020, em Piranhas, sertão de Alagoas, vai levar as teses da morte e “julgar” se Lampião era herói ou bandido. “Existem aqueles que defendem que Lampião era bandido, mas alguns dizem que o cangaceiro era uma vítima da sociedade. Vamos analisar isso”.

O júri será composto por promotores, juízes, advogados e os historiadores, aos quais serão apresentadas as versões, casos e opiniões.

O perito Victor Portela também contou que na ocasião será apresentado o laudo. “Vamos utilizar a perícia para excluir teorias que não são compatíveis com os fatos que foram levantados. Vamos filtrar e excluir teorias que realmente não batem”, disse. “Além do julgamento queremos posteriormente fazer uma análise no local com reprodução simulada para ver os pontos de impacto no local”, disse.

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Portal UOL repercute matéria sobre homicidios em Mossoró

O maior portal de notícias do Brasil e América Latina, o UOL, pertencente ao Grupo Folha, reproduz nesta terça-feira (30), reportagem especial do site BBC News Brasil sobre a violência em Mossoró. O trabalho é assinado pelo jornalista Leandro Machado e parte da cobertura fotográfica é de Cézar Alves, editor-criador do portal Mossoró Hoje.

Portal UOL alarga mais ainda repercussão de matéria que mostra faceta negativa e triste de Mossoró (Reprodução BCS)

A matéria no BBC News foi publicada dia passado (veja AQUI) e repercutida pelo Blog Carlos Santos.

As 3 facções e o ciclo de vinganças por trás de epidemia de homicídios em cidade no Nordeste” é o título da postagem.

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BBC Brasil mostra epidemia de homicídios que assola Mossoró

Reportagem especial do site BBC News Brasil traça perfil de uma das cidades mais violentas do Brasil: Mossoró. O material foi postado na manhã desta segunda-feira (29). É assinado pelo jornalista Leandro Machado, enviado especial ao município potiguar.

Homicídios cresceram 247% em Mossoró entre 2003 e 2018, diz dados do Observatório da Violência do RN (Foto: Cézar Alves)

As três facções e o ciclo de vinganças por trás da epidemia de homicídios em cidade do Nordeste” é o título da reportagem.

“A violência em Mossoró é uma espécie de símbolo do que aconteceu no Nordeste nos últimos anos. O crescimento econômico e populacional foi acompanhado pela chegada de redes criminosas do Sudeste, como o paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e o carioca Comando Vermelho (CV)”, descreve a reportagem densa e fartamente editada com fotos, números e depoimentos.

Falta de policiamento e impunidade

Uma das referências à consulta da BBC News Brasil sobre o assunto é o jornalista Cézar Alves do portal “Mossoró Hoje”, que “cobre a violência na cidade desde os anos 1990”, assinala. Ele também assina algumas fotos na matéria.

Quem também é ouvido é o coronel da Polícia Militar, Alvibá Gomes, que fala redução do efetivo policial no município, além do promotor público Ítalo Moreira: “Problemas de investigação e, por consequência, a impunidade, são outros fatores que estimulam as vinganças em Mossoró, garante o promotor criminal”.

Segundo o delegado Rafael Gomes Arraes, hoje, a Delegacia de Homicídios de Mossoró (DEHOM), criada em 2012, tem 700 inquéritos sem resolução. “A gente se sente incapaz”, comenta ele.

Veja matéria completa clicando AQUI.

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A modesta vida dos juízes do Supremo (da Suécia)

Por Claudia Wallin (BBC News Brasil)

“Não almoço à custa do dinheiro do contribuinte”, me disse certa vez o juiz sueco Göran Lambertz, em tom quase indignado, na Suprema Corte da Suécia.

A pergunta que inflamou a reação do magistrado era se, assim como ocorre no Brasil, os juízes da instância máxima do Poder Judiciário sueco têm direito a carro oficial com motorista e benefícios extra-salariais como auxílio-saúde, auxílio-moradia, gratificação natalina, verbas de representação, auxílio-funeral, auxílio pré-escolar para cada filho, abonos de permanência e auxílio-alimentação.

“Não consigo entender por que um ser humano gostaria de ter tais privilégios. Só vivemos uma vez e, portanto, penso que a vida deve ser vivida com bons padrões éticos. Não posso compreender um ser humano que tenta obter privilégios com o dinheiro público”, acrescentou Lambertz.

Retrato do juiz Carsten Helland de terno e gravata
Juiz Lambertz, da Suprema Corte da Suécia, defende rigidez ética (Foto: Divulgação)

“Luxo pago com o dinheiro do contribuinte é imoral e antiético”, completou o juiz sueco.

Nesta semana, o presidente Michel Temer sancionou o reajuste de 16,38% nos salários dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e da procuradora-geral da República, o que aumenta a remuneração dos magistrados de R$ 33 mil para R$ 39 mil.

O reajuste foi garantido após acordo que condicionou o aumento do salário à revogação do auxílio-moradia de R$ 4,3 mil a juízes de todo o país.

Na sexta-feira, entretanto, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, recorreu da decisão —o ministro do Supremo Luiz Fux suspendeu no último dia 26 o benefício para todas as carreiras do Judiciário— e pede que o auxílio-moradia seja mantido para os membros do Ministério Público.

Em um Brasil em crise, o aumento terá um efeito cascata sobre a remuneração de todo o funcionalismo, e, segundo técnicos da Câmara, deverá produzir um impacto de R$ 4,1 bilhões anuais nos cofres da União e dos Estados.

Na Suécia, o salário dos magistrados da Suprema Corte —que não têm status de ministro— é de 109,5 mil coroas suecas, o que equivale a aproximadamente R$ 46 mil.

Uma vez descontados os altos impostos vigentes no país, os vencimentos de cada juiz totalizam um valor líquido de 59 mil coroas suecas, segundo dados do Poder Judiciário sueco —o equivalente a cerca de R$ 25 mil.

“Isso é o que se ganha, e é um bom salário. Pode-se viver bem com vencimentos desse porte, e é suficiente”, diz Lambertz.

Ex-professor de direito da Universidade de Uppsala e ex-Provedor de Justiça (Ombudsman) do Governo, Göran Lambertz chefiou ainda uma das divisões do Ministério da Justiça antes de se tornar juiz da Suprema Corte, cargo vitalício que ocupou até recentemente.

Benefícios extra-salariais, oferecidos a juízes de todas as instâncias no Brasil, não existem para juízes suecos de nenhuma instância.

“Privilégios como esses simplesmente não são necessários. E custariam muito caro para os contribuintes”, diz à BBC News Brasil o jurista sueco Hans Corell, ex-Secretário-Geral Adjunto da ONU para Assuntos Jurídicos.

“Não quero emitir julgamentos sobre sistemas de outros países, pois eles têm seus próprios motivos e tradições. Mas não temos esse tipo de tradição na Suécia”, observa Corell.

Nas demais instâncias do Judiciário, o salário médio bruto de um juiz na Suécia é de 66 mil coroas suecas, o que equivale a aproximadamente R$ 28 mil.

Em valores líquidos, o salário médio dos juízes é de cerca de 41 mil coroas suecas —aproximadamente R$ 17,4 mil.

O salário médio no país é de 32,2 mil coroas suecas (cerca de R$ 13 mil), de acordo com as estatísticas da confederação sindical sueca LO (Landsorganisationen).

NEGOCIAÇÕES SINDICAIS NA SUÉCIA

Para reivindicar reajustes salariais, os juízes suecos seguem o mesmo procedimento aplicado aos trabalhadores de qualquer outra categoria: as negociações sindicais.

A negociação dos reajustes salariais da magistratura se dá entre o sindicato dos juízes suecos (Jusek) e o Domstolsverket, a autoridade estatal responsável pela organização e o funcionamento do sistema de justiça.

Retrato do juiz Carsten Helland de terno, gravate e usando óculos
Juiz Carsten Helland gargalhou sobre hipótese de receber privilégios (Foto: BBC News Brasil)

O aumento salarial dos magistrados trata normalmente da reposição da perda inflacionária acumulada no período de um ano, e que se situa em geral entre 2% e 2,5%.

“Nossos reajustes seguem geralmente os índices aplicados às demais categorias de trabalhadores, que têm como base de cálculo os indicadores gerais da economia e parâmetros como o nível de aumento salarial dos trabalhadores do IF Metall (o poderoso sindicato dos metalúrgicos suecos)”, explica o juiz Carsten Helland, um dos representantes da categoria no sindicato dos juízes.

A negociação depende essencialmente do orçamento do Domstolsverket, que é determinado pelo Ministério das Finanças.

“Os juízes têm influência limitada no processo de negociação salarial”, diz Carsten. “As autoridades estatais do Domstolsverket recebem a verba repassada pelo governo, através do recolhimento dos impostos dos contribuintes, e isso representa o orçamento total que o governo quer gastar com as Cortes. A partir desse orçamento, o Domstolsverket se faz a pergunta: quanto podemos gastar com o reajuste salarial dos juízes?”, explica.

“Não podemos, portanto, lutar por salários muito maiores. Podemos apenas querer que seja possível ganhar mais”, acrescenta ele.

Na Suprema Corte sueca, os reajustes salariais seguem a mesma regra aplicada ao restante da magistratura.

Perguntado se juízes suecos considerariam reivindicar benefícios extra-salariais como auxílio-alimentação e gratificação natalina, o juiz Carsten Helland dedica os segundos iniciais da sua resposta a uma sessão de risos de incredulidade.

“Juízes não podem agir em nome dos próprios interesses, particularmente em tamanho grau, com tal ganância e egoísmo, e esperar que os cidadãos obedeçam à lei”, diz o juiz.

“Um sistema de justiça deve ser justo”, ele acrescenta. “As Cortes de um país são o último posto avançado da garantia de justiça em uma sociedade, e, por essa razão, os magistrados devem ser fundamentalmente honestos e tratar os cidadãos com respeito. Se os juízes e tribunais não forem capazes de transmitir essa confiança e segurança básica aos cidadãos, os cidadãos não irão respeitar o Judiciário. E, consequentemente, não irão respeitar a lei”, enfatiza.

É simplesmente impossível, segundo Carsten, imaginar a aprovação de benefícios extra-salariais a juízes na Suécia.

“Porque não temos um sistema imoral”, ele diz. “Temos um sistema democrático, que regulamenta o nível salarial da categoria dos magistrados, assim como dos políticos. E temos uma opinião pública que não aceitaria atos imorais como a concessão de benefícios para alimentar os juízes às custas do dinheiro público”, assinala Carsten Helland.

JUÍZES SEM SECRETÁRIAS NEM CARROS OFICIAIS

No antigo palacete que abriga a Suprema Corte sueca, próximo ao Palácio Real de Estocolmo, imensas pinturas a óleo retratam nobres representantes da corte no passado, como marcas de um tempo em que havia lacaios e a aristocracia era predominante no Poder Judiciário.

Nos pequenos escritórios dos juízes, não há secretária na porta, nem assistentes particulares.

No sistema sueco, os magistrados contam com uma equipe de assistentes que trabalha, em conjunto, para todos os 16 magistrados da corte.

São mais de 30 profissionais da área de direito, que auxiliam os juízes em todos os aspectos de um caso jurídico.

O tribunal conta ainda com uma equipe de cerca de quinze assistentes administrativos, que auxiliam a todos os juízes.

Um livro de direito de capa azul em cima de uma mesa

O período máximo de férias dos juízes na Suécia é 35 dias (Foto: Patrik Svedberg/Divulgação)

Ou seja: nenhum juiz tem secretária ou assistente particular para prestar assistência exclusiva a ele, e sim profissionais que lidam com aspectos específicos dos casos julgados pela corte.

E nenhum juiz —nem mesmo o presidente da Suprema Corte— tem direito a carro oficial com motorista.

Para ir ao trabalho na Suprema Corte, o agora aposentado Göran Lambertz pedalava 15 minutos todos os dias desde a sua casa até a estação central da bucólica cidade de Uppsala, que fica a cerca de 70km de Estocolmo.

De lá, tomava um trem e viajava 40 minutos até o centro de Estocolmo, de onde caminhava a pé para a Corte.

A casa do juiz é surpreendentemente modesta. No pequeno jardim, ficam as bicicletas. A porta de entrada dá acesso a uma estreita sala de estar, decorada com mobiliário simples que remete aos anos 70.

Ao fundo, uma escada em madeira liga os dois andares da residência, cada um com 60 metros quadrados de área.

Junto à escada, um corredor conduz a uma minúscula cozinha, onde o juiz prepara seu café e sua comida: não há empregados.

FÉRIAS: MÁXIMO DE 35 DIAS

O período máximo de férias a que os juízes suecos têm direito é de 35 dias por ano. A variação depende da idade do magistrado: juízes de até 29 anos têm 28 dias de férias, e a partir de 30 anos de idade o período é de 31 dias anuais. Juízes acima de 40 anos passam a ter direito a 35 dias de férias.

No Brasil, a lei determina que os juízes, diferentemente dos demais trabalhadores, têm 60 dias de férias por ano.

Qualquer cidadão pode checar as contas dos tribunais e os ganhos dos juízes. Autos judiciais e processos em andamento também são abertos ao público.

“As despesas dos juízes também podem ser verificadas, embora neste aspecto não exista muita coisa para checar. Juízes usam muito pouco dinheiro público, e não possuem benefícios como verba de representação. Os juízes suecos recebem seus salários, e isso é o que eles custam ao Estado. As exceções são viagens raras para alguma conferência, quando seus gastos com viagem e hotel são custeados. Com relação às contas bancárias privadas de um juiz, elas só podem ser verificadas se o juiz for suspeito de um crime”, diz Lambertz.

Na Suprema Corte, funcionários atendem solicitações de cidadãos para verificar as contas ou examinar documentos de processos judiciais.

“Cópias dos arquivos também podem ser solicitadas. Não há nada a esconder. A idéia básica é que tudo o que é decidido nos tribunais do país é aberto ao público. O sistema judiciário sueco não é perfeito, mas não é impenetrável”, afirma o magistrado.

FISCALIZAÇÃO DOS JUÍZES

Não há um órgão específico para supervisionar os juízes. Mas entidades como o Ombudsman do Parlamento e o Provedor de Justiça têm poderes para fiscalizar de que maneira os tribunais lidam com diferentes casos, quanto dinheiro eles gastam e se atuam de forma eficiente.

Não há foro privilegiado para juízes e desembargadores. Também não há registro de casos de magistrados suecos envolvidos em corrupção.

“Entre juízes, nunca ouvi falar de um caso de corrupção em toda a minha vida. E os juízes jamais ousariam. Acho que nenhum juiz sueco jamais aceitaria um suborno. É algo tão proibido, que chega a ser impensável. É distante demais das nossas tradições. E, se algum ato irregular for cometido, ele será reportado à polícia. Por isso, mesmo se algum juiz pensar em cometer um ato impróprio, ele não o fará. Porque teria medo de ser reportado à polícia”, diz Göran Lambertz.

Presentes a juízes, segundo Lambertz, também são inaceitáveis.

“Ninguém ofereceria a um juiz coisas como dinheiro, viagens de cruzeiro ou mesmo garrafas de bebida. Isso simplesmente não acontece. Na época do Natal, um banco, por exemplo, pode querer oferecer um presente a autoridades e órgãos públicos. Mas isso nunca acontece nos tribunais.”

Um Judiciário que perde o respeito da população pode provocar “uma explosão de desordem na sociedade”, alerta o magistrado sueco: “Quando o sistema de justiça de um país não é capaz de obter o respeito dos cidadãos, toda a sociedade é rompida pela desordem. Haverá mais crimes, haverá cada vez maior ganância na sociedade, e cada vez menos confiança nas instituições do país. Juízes têm o dever, portanto, de preservar um alto padrão moral e agir como bons exemplos para a sociedade, e não agir em nome de seus próprios interesses”, diz Göran Lambertz.

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Violência contra políticos marca história do Brasil

Por Júlia Dias Carneiro (BBC News Brasil)

O ataque contra o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) não tem precedentes na história recente do país, mas a violência contra políticos marcou diversos períodos da História da República e influenciou os rumos de momentos marcantes da vida política.

Do crime passional que matou João Pessoa, candidato a vice-presidente de Getúlio Vargas, em 1930, e virou estopim para a Revolução de 1930, ao atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, em 1954, episódios de violência política têm e tiveram forte impacto sobre a opinião pública e em diferentes épocas ajudaram a fortalecer figuras e movimentos – ou a demolir reputações.

“Sobretudo em períodos eleitorais como o atual, a política mexe com a cabeça, mas também com a emoção”, diz o historiador e professor Américo Freire, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDPC-FGV).

“Esses episódios ajudam a criar climas, modificar a imagem de pessoas, construir vítimas ou mártires. Todos esses elementos entram no imaginário da população e podem influenciar nas eleições”, considera.

Relembre alguns momentos marcantes da história da violência política no Brasil.

Atentado contra o terceiro presidente o Brasil

Prudente: turbulência (Foto: arquivo)

Prudente de Moraes assumiu a presidência quando a jovem República brasileira completava cinco anos, em 15 de novembro de 1894. Governou o país durante um período turbulento, que incluiu a Guerra de Canudos – que contrapôs o Exército e os integrantes do movimento popular de fundo religioso liderado por Antônio Conselheiro.

Após o massacre do arraial no sertão baiano e a proclamação de vitória da União, Prudente de Moraes participava de uma recepção a dois batalhões que retornavam de Canudos no Arsenal de Guerra, na atual Praça Mauá, quando sofreu um atentado.

O soldado Marcelino Bispo de Melo falhou em acertar o presidente e acabou atingindo o então ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, que morreu esfaqueado em seu lugar.

O episódio levou o presidente a decretar estado de sítio, adquirindo amplos poderes para governar, e contribuiu para a ascensão da oligarquia cafeicultora na política nacional.

Assassinato de João Pessoa

Candidato à vice-presidência da República ao lado de Getúlio Vargas, o então presidente do Estado da Paraíba – cargo que equivalia ao de governador – foi morto a tiros pelo advogado João Duarte Dantas.

O crime tinha motivações pessoais com pano de fundo político. Opositor de João Pessoa, Dantas tivera seu escritório revirado pela polícia e seus documentos enviados para divulgação na imprensa local, com a anuência de João Pessoa. “O jornal A União, órgão oficial do governo estadual, publicou tudo na primeira página, inclusive cartas de amor, repletas de detalhes eróticos, trocadas entre Dantas e a jovem Anayde Beiriz, uma professora de 25 anos, bonita, solteira, poeta, fumante e feminista. O escândalo foi tremendo e Anayde, devastada, acabaria se suicidando”, relatam Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em “Brasil: Uma Biografia”.

'Getúlio e sua campanha foram competentes em converter assassinato em crime político', diz cientista política (Foto: arquivo)

Para defender sua honra, Dantas invadiu a elegante confeitaria Glória, no centro de Recife, e interrompeu o chá de Pessoa com três tiros à queima-roupa. Pessoa era uma figura de prestígio político, sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa, e o assassinato chocou o país.

“O assassinato tinha a ver com assuntos do coração. Mas o Getúlio e sua campanha foram muito competentes em converter o assassinato em um crime político”, diz Maria Celina D’Araújo, cientista política e professora da PUC-Rio, não descartando que algo parecido possa acontecer com o ataque a Jair Bolsonaro. “Temos um crime que muito provavelmente foi motivado por razões psiquiátricas, um fato isolado cometido por um lobo solitário, mas que pode ser reconvertido no imaginário popular como uma conspiração política”, considera.

O corpo de Pessoa foi levado de navio para o Rio, gerando ampla comoção nacional. A Aliança Liberal de Vargas – que se apresentava como oposição a Júlio Prestes, candidato que tinha forte apoio do então-presidente Washington Luís e dos poderosos cafeicultores de São Paulo – definiu o crime como político, atribuindo a culpa a aliados do presidente.

O crime foi combustível para a revolta civil e militar que depôs Washington Luís e colocou Getúlio Vargas no poder, na Revolução de 1930.

Tiros contra Carlos Lacerda

Conhecido como o “atentado da rua Tonelero”, referindo-se ao logradouro em Copacabana onde o jornalista Carlos Lacerda quase foi morto, no Rio, no dia 5 de agosto de 1954, a tentativa de assassinato desembocou em uma grave crise política e militar que culminou com a exigência da renúncia de Getúlio Vargas – e com o seu suicídio no dia 24 do mesmo mês.

Lacerda era inimigo frontal de Vargas. A tentativa de assassinato lhe custou um tiro no pé e tirou a vida do Major Rubens Vaz, seu segurança, agente da Aeronáutica. As investigações do episódio revelaram o envolvimento pessoal do chefe da guarda pessoal de Vargas, Gregório Fortunato, que acabou confessando ser mandante do crime.

“Se a morte do João Pessoa teve uma repercussão direta na Revolução de 1930, o atentado ao Lacerda foi fundamental para fortes mudanças na política brasileira, com Vargas se matando pouco depois”, diz Maria Celina D’Araujo.

Bomba no Aeroporto dos Guararapes

No dia 25 de julho de 1966, ainda no período inicial da ditadura militar, o marechal Arthur da Costa e Silva chegou ao aeroporto do Recife, em Pernambuco, como parte da campanha presidencial que realizava à época.

Costa e Silva toma posse: bomba (Foto: Senado)

Um atentado a bomba no saguão do aeroporto matou duas pessoas, feriu outras 14 e por pouco não machucou o candidato. A bomba foi colocada em uma mala abandonada no saguão, que explodiu ao ser removida por um guarda.

O jornalista Edson Régis e o vice-almirante Nelson Gomes Fernandes morreram com a explosão.

Por meio de eleições indiretas, Costa e Silva foi escolhido presidente pouco mais de dois meses após o atentado, presidindo o país de 1967 a 1969.

À época o episódio foi considerado um ataque de terroristas, mas historiadores contestam a versão oficial e consideram a possibilidade de o ataque ter sido orquestrado pelos militares para fomentar o medo entre população.

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