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O que se sente

Por Bruno Ernesto

Gravuras de Assis Marinho (Foto: Bruno Ernesto/28-02-2026)
Gravuras de Assis Marinho (Foto: Bruno Ernesto/28-02-2026)

Arte é tudo aquilo que, intencionalmente emociona, convida a refletir por uma outra perspectiva ou, simplesmente mostra que o extraordinário para um não passa de ordinário para outro, e vice-versa.

Se você puser os olhos em algo que se encaixe minimamente nessa perspectiva, ela alcançou o seu objetivo. Não importa se o que despertou em você seja um bom ou mau sentimento. A arte é assim mesmo.

Muitas vezes, a intenção da obra é mesmo prospectar um sentimento antinômico entre o objeto e o espectador.

Não por onde, o papel do curador de uma exposição anda pari passu ao do próprio artista, e convida o espectador a percorrer um percurso que, se não lhe passa uma impressão direta sobre a mensagem do autor ou temática daquelas obras, ao menos mostra que é possível enxerga-la sob outra ótica.

Não é incomum – por vezes até compreensível – que alguém pense que cabe exclusivamente ao curador direcionar a impressão do público de uma exposição. Nem sempre.

Assim como qualquer arte, um pintor, um escultor, um fotógrafo, um músico ou um escritor, percorrem verdadeiros ciclos criativos ou desimaginativos. E é aí que um curador atento pode pinçar o que aquele ciclo pode despertar no expectador.

Evidente que, desde a concepção, com a escolha do tema ou obras de determinado artista, passando pela expografia, com a organização da galeria, iluminação, cores, público e circulação dele, até a exposição em si, antes de tudo, a curadoria é uma operação intelectual que envolve teoria crítica de matizes cultural, política, estética e de visão de mundo.

E essa condição do curador, além de envolver escolhas do curador, envolve escolhas e consequências do próprio autor – e do curador também -, e propõe uma interpretação que estrutura, em última análise, nossa relação com a própria arte, quer seja ela visual, olfativa, tátil ou sonora.

Claro que a mesma obra pode ter inúmeras leituras com o passar dos tempos ou com o tipo de público que a observa, pois é uma relação sinalagmática.

O que faz da obra ou de uma exposição realmente interessante e instigadora é, em última análise, o que ela desperta em você; ainda que inconscientemente.

Bruno Ernesto é professor, advogado, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Carne e osso

Por Bruno Ernesto

Teatro Municipal Casa da Ópera, Ouro Preto/MG Foto de Bruno Ernesto/ Dez de 2025)
Teatro Municipal Casa da Ópera, Ouro Preto/MG Foto de Bruno Ernesto/ Dez de 2025)

Desde setembro de 2023, quando passei a contribuir com o Blog Carlos Santos, procuro desconectar os textos de minha atividade profissional como advogado militante, e convirjo para o conteúdo cultural, sem pretensão de inculcar ideias, dogmas, correntes filosóficas, convencer alguém ou pregar o escárnio. Este, se necessário, talvez.

Proponho apenas contribuir com o domingo dos leitores com que se dispõem a lê-los, pois acredito que após uma semana intensa, esticada e estresso-irritante, ninguém queira ler conteúdo técnico ou enfadonho num espaço dominical.

Não por onde, embora exclua o viés técnico, não esqueça que entre a cadeira do escritório e as salas dos fóruns, há o cotidiano.

Embora há mais de vinte anos o processo judicial virtual seja uma realidade, a pandemia do Covid-19 acelerou o fim da papelada e sedimentou a virtualização do Judiciário.

Até mesmo o que mais resistia a ser implementado, que eram as audiências virtuais para todas as esferas foi, enfim, sedimentado, de modo que hoje, quando apenas imprescindível, as audiências são realizadas presencialmente.

Consequência disso, foi o esvaziamento dos corredores dos fóruns.

Esse esvaziamento também interrompeu uma cadeia intrincada de atividades e serviços correlacionados ao fluxo de pessoas, especialmente a socialização.

Aquele simples ato de chegar ao fórum e se deparar com vários amigos, colegas e conhecidos, por si só, muitas vezes já representava um ponto de ruptura da tensão do dia.

Uma breve, porém descontraída e cordial conserva entre advogados, servidores, magistrados, promotores, e todas as pessoas que frequentam, azeitam essa complexa engrenagem social – lembre-se, o Judiciário serve de controle social –, pois todos ainda são de carne e osso.

A presença, de alma e corpo é tão importante nesse ambiente, que essa semana, ao me dirigir para uma diligência presencial no Fórum de Mossoró, o vigilante que sempre nos recepciona com muita gentileza e cordialidade, disse que estava contente em ver o grande movimento do dia, pois ver os corredores vazios é uma tristeza só:

– Ninguém quer vir mais ao Fórum.

– Ninguém encontra mais nenhum conhecido.

– Não se tem notícia das pessoas, da vida. Nada.

Embora estivesse apressado, aquele breve momento me fez desacelerar e parei para conversar com ele. Claro, tive que concordar com ele.

Muitas vezes sequer olhamos para as pessoas, pois o nosso hiperfoco é o tempo. Sempre, e a todo tempo, o tempo.

Após uma breve conversa, entre risos e nostalgia, disse a ele que o que mais sentimos saudade da vida nos corredores dos fóruns – além dessas excelentes conversas – são as confusões. Nada como uma confusão, um arranca-rabo presencial!

Ele deu uma gaitada tão generosa, que ganhei o dia.

No fundo – não sei – tenha plantado uma semente desnecessária, pois, pensando melhor, de agora em diante, talvez ele até torça para que um arranca-rabo se suceda, sem maiores consequências, decerto. Ainda somos de carne e osso.

Lembre-se, caro leitor: todo mundo pode proporcionar uma grande alegria no dia alguém. Uns com a sua chegada, outros com a sua saída.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Nem tudo é saudade

Por Bruno Ernesto

Bancos na Praça da saudade, Cemitério São Sebastião/Mossoró (Foto: Bruno Ernesto, 04-02-2026)
Bancos na Praça da saudade, Cemitério São Sebastião/Mossoró (Foto: Bruno Ernesto, 04-02-2026)

Já reparou que tem dia que pensamos estar numa época distante de nossa vida?

Num dia lembra a nossa adolescência – a volta do colégio, da casa dos avós, da missa, da volta do supermercado, ou até do ambulatório quando sequer existia o SUS -, no outro, só dá saudade.

Mesmo que estejamos equidistantes entre o início e o fim, é mais que uma nostalgia.

Enquanto o sinal do trânsito está fechado num de chuva copiosa, você percebe a sua total desnecessidade, pois o trânsito, por si só trava. Nem vem, nem vai.

Você olha a chuva, o trânsito, o relógio, a correria, o cansaço de uma noite mal dormida, o compromisso daqui a quinze minutos – no trajeto de vinte e cinco ou trinta minutos.

Mais tarde, alguém surge com uma gentileza imponderável de deixar o carrinho de compras bem no meio da única vaga do estacionamento do supermercado ou escolhe indecisamente o que quer pedir para o almoço, quando o restaurante só tem um garçom e quinze mesas.

Quem sabe, bem na hora de você abastecer o seu carro, a motocicleta avança na sua vez, embora você tenha esperado impacientemente por quase cinco minutos, e o frentista vai atender primeiro o motociclista, claro.

Decerto, uma hora ou outra, alguém vai demonstrar o verdadeiro charme que o filósofo francês Gilles Deleuze dizia sempre residir nas pessoas, que é justamente quando elas perdem as estribeiras, quando essas pessoas não sabem muito bem em que ponto estão.

Ao contrário do que se pense – dizia -, não são pessoas que desmoronam. Pelo contrário, nunca desmoronam.

E neste ponto, que se você não captar a pequena marca de loucura de alguém, não pode gostar deste alguém.

Simplesmente você jamais gostará dele, pois é justamente este lado que de fato interessa. É esse lado que todos nós temos.

Os inimigos e invejosos se revelam no nosso velório. Os amigos verdadeiros nos prestigiam em vida e sem obrigação.‎

Não entenda mal. Eu quis dizer isso mesmo.

Nem tudo é saudade.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de -Mossoró – IHGM

Nem nós

Por Bruno Ernesto

Telefones fixos antigos (Foto do autor da crônica)
Telefones fixos antigos (Foto do autor da crônica)

A despeito da praticidade, os esmartefones serão a nossa desgraça.

A verdade é que gostamos do que nos tira o sono, a paciência, a atenção e atrasa a vida.

Não tente me convencer: você está lendo este texto de um.

Disseram isso também quando Samuel Morse criou o telégrafo em 1837; e o mesmo em 1875 quando Alexander Graham Bell criou o telefone; e o mesmo quando Philo Farnsworth, em 1927, concebeu o que hoje conhecemos como televisor.

Até mesmo a Acta Diurna, criada pelo imperador romano Júlio César, por volta do ano 59 antes de Cristo, e é considerada a precursora do que temos hoje como jornal impresso, já foi ameaçada no início dos anos de 1990 com a criação da internet.

Se bem que ainda lemos jornal impresso.

Aliás, nada mais gratificante como sentir o cheiro de um livro recém-aberto e um jornal recém-impresso.

A desgraça a que me refiro, é que somos diuturnamente atraídos para o que o submundo do crime chama de “O cheiro do queijo”, embora virtualmente.

Vamos checar um e-mail e, do nada, já estamos comentando uma postagem numa rede social.

Vamos verificar se a atendente do consultório médico confirmou a consulta e, do nada, caímos numa notícia espetaculosa sobre uma prévia de carnaval.

Se for um meme viral, até a consulta que acabamos de confirmar, corre o risco de ser perdida.

É bom, é útil, é prático. Porém, ao fim e ao cabo, não vai acabar bem.

Não por onde, quando ponho os olhos naqueles telefones analógicos, que cobrava a ligação por pulso – lembra ? -, lembro como o hábito era outro.

Todos nós daquele tempo, de uma certa maneira, ainda têm a mesma sensação de que não abandonamos totalmente aquele tempo.

Vadim Nikitin, o tradutor e dramaturgo russo-brasileiro, falecido no último dia sete de fevereiro, soube, como ninguém, dizer o que é pertencer a outro lugar.

Numa de suas últimas entrevistas, disse que ao traduzir cada frase, cada expressão ou situação, da língua russa para o português, percebia que, embora tivesse vindo para o Brasil aos quatro anos de idade, sente que, de fato, nunca chegou de Moscou por inteiro.

Nem nós.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Trafilata al bronzo

Por Bruno Ernesto

Sinos de bronze (Foto: Bruno Ernesto)
Sinos de bronze (Foto: Bruno Ernesto)

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, é um permanente lampejo dos paradoxos com os quais corriqueiramente nos deparamos.

Se em atos, palavras, gestos e omissões, tudo parece controlável e tentamos amiúde seguir todos os rituais, crenças e valores o pensamento é incontornável. Incontrolável, diria melhor.

Se o personagem não lhe é familiar, é só lembrar que ele tem todos os problemas mundanos que temos. Entretanto, além dos próprios coitado -, precisa cuidar dos pecados dos outros.

Às vezes fico a imaginar, pelos recantos mais obscuros da mente, quantas ideias surgem após uma confissão.

Certa vez o Papa Francisco, ao ser indagado da real necessidade de sempre se confessar e pedir perdão, respondeu de forma reflexiva, que nossa alma é como uma casa, e como tal, sempre há cômodos e cantinhos a serem limpos.

Não é fácil manter-se afastado do mau caminho, das tentações, dos refugos morais e dos porões da consciência.

Sejamos francos: nem você tem certeza de sua inocência. E não estou falando consciência. O que não está escrito também faz parte do livro.

Sob a lógica hedonista, fomos comer uma pizza num restaurante recém inaugurado em Natal, com um nome italianíssimo, mas sem aquele gosto e jeito de uma tradicional comida italiana.

Embora não venha ao caso, quando surge alguma novidade na gastronomia local, sempre gosto de enviar as novidades para o meu amigo Armando Paolo, italianíssimo em tudoespecialmente na sinceridade -, que logo dispara:

– Misturaram frutos do mar com queijo? Não entende nem de culinária quer entender de comida italiana!

Pelo adiantado da hora, cheguei disposto a cometer o pecado da gula e conhecer melhor aquele neófito restaurante na capital Potiguar.

Como sou abstêmio, – não, nunca fui adicto. Exceto pela cafeína não pedi nem uma taça de vinho, e fui direto à comida.

Pela fama de outra capital, resolvemos pedir uma pizza. Embora há vinte cinco anos tenha a Pasta da Walter como minha preferida, especialmente a pizza de aliche, a ginga dos italianos.

Embora com fome, naquela noite, confesso que me senti um pecador, indigno de me sentar àquela mesa.

Quando pus os olhos naquela pizza, posta ali na mesa de forma tão delica pelo atendente, era tão fina, que tive a sensação de que iria comungar.

Disse logo: Não posso comer!

Ela me olhou séria e disparou, surpresa:

– E por que não?

Não me confessei!

No outro dia, fomos à Pasta da Walter.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Quando o mar chamar

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica em março de 2025
Foto do autor da crônica em março de 2025

Você não acreditou, mas bem que eu avisei na semana passada (//blogcarlossantos.com.br/dona-mafisa/), e se ainda não se mexeu, corra! Dá tempo!

Prepare o balaio com flores, alfazema e decore a prece. Roupa branca e pés descalços na beira da praia, no quebrar das ondas ou no barco, amanhã é o dia de agradecer à Rainha do Mar. Nossa Senhora dos Navegantes também estará lá.

Se amanhã não conseguir ir ao mar, sete rosas brancas com os cabos cortados numa vasilha com água e perfume de alfazema resolve. Ofereça e agradeça mais do que pede ao seu orixá favorito, que jamais baixa a guarda.

Se você ainda não percebeu, registro que até um conhecido meu – que jura ser ateu – casou-se vestido com um puro linho branco e rosas brancas na decoração. A celebração no dia de Yemanjá foi mera coincidência.

Vá, vista-se de branco. Leve o balaio com flores e seu cachorrinho de estimação com você. Lance as flores ao mar como quem lança para ele correr e lhe trazer de volta. Ninguém desconfiará.

Se alguém questionar e insistir em dizer que não sabia que você também a reverencia, diga que foi mera coincidência. Que embora seja a primeira vez na vida que você faz isso e que não sabia que se agradece jogando flores ao mar, justifique que todos os anos você faz a mesma coisa. Ninguém perceberá.

Se lhe virem na procissão marítima com roupas brancas, diga que esqueceu onde estacionou o carro.

Acaso lhe flagrem jogando champanhe branca no mar, diga que está quente e que é melhor não estragar.

Lembre-se, quando o mar chamar, não tem quem não diga Odoyá.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Dona Mafisa

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa do autor da crônica
Foto ilustrativa do autor da crônica em janeiro de 2026

No último dia 21 de janeiro, despercebidamente, comemorou-se mais Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa no Brasil. Me arrisco a dizer – literalmente – que, certamente, a conquista permanece em luta diuturna.

Para quem torce o nariz e olha atravessado para certos ritos e rituais religiosos que não os de sua preferência, não por onde, desconfio que talvez já esteja com sua roupa branca e azul claro bem limpa já cheirando a lavanda, já tenha escolhido um belo adereço prateado, assim como também continuo a desconfiar que já estejam encomendadas flores e mais flores; um bom perfume de alfazema, frutos e, quem sabe, até um Veuve Clicquot. O patuá, lembre-se do patuá.

Se você não se deu conta, já se aproxima o dia 2 de fevereiro, e ninguém quer perder a oportunidade de reverenciar a Rainha do Mar, para que o ano seja de bons e duradouros fluídos, muita paz, prosperidade e amor, muito amor. Há quem só pense nisso, mas pouco faz para merecê-lo.

Os poucos que se lembram, agradecem os pedidos do ano passado, afinal, para muitos, o que importa é a conexão com seu orixá predileto, ainda que não haja uma obrigação do pedido ser contemplado. Lembre-se, Iemanjá, vez ou outra, devolve a oferenda.

A despeito dessas questões paralelas, outro costume que inconscientemente se tem, todavia para alguns mantido às escondidas, é que ainda recorremos às rezadeiras ou benzedeiras.

Não, não. Não entenda errado! Sim, é o puro e mais alto grau do sincretismo religioso, unindo orações cristãs arcaico-populares com a sabedoria ancestral indo-africana.

Por acaso, você achava que prece com roupa branca, gestos sincronizados, defumação, alecrim, lavanda, arruda, guiné, azeite, terços e água eram o quê?

Quem tem criança por se criar ou já criada, ou já levou ou ainda levará a uma rezadeira, em caso de reforço espiritual. No meu caso, me lembrarei eternamente de Dona Mafisa, a benzedeira que minha mãe me levava lá em Natal quando havia necessidade.

Nunca esqueci daquele pequeno chão sagrado, uma pequena sala – minúscula -, que ao mesmo tempo servia de quarto e cozinha e ali ficava sendo rezado, naquele benzimento e aquela ladainha incompreensível para mim, e os repetidos e ritmados toques com galhos de ervas no meu corpo e cabeça.

Só Dona Mafisa quem falava e se mexia. À meia-luz eu só a observa e a escutava. Imóvel e atento, muitíssimo atento. Mamãe nunca imaginou, mas foi ali que descobri a espiritualidade que me habita.

Com o passar dos anos e outra cosmovisão, embora tenha um batalhão sincrético para luta corpo a corpo, essa semana precisei tanto da ciência, com doses generosas de cloridrato de ondansetrona, benzetacil, cloridrato de naratriptana e dipirona, quando de uma boa reza.

Aos trancos e barrancos sigo firme e forte, para a decepção de muitos e alegria de poucos, claro. Tudo genuíno, penso e percebo.

Se Dona Mafisa ainda estivesse viva, certamente esta semana teria ido por lá, não só para a me benzer, mas para agradecê-la, afinal, até hoje me sinto benzido.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)

História e historiografia

Por Bruno Ernesto

Fortaleza dos Reis Magos, Natal/RN Foto: Bruno Ernesto, 12/2025)
Fortaleza dos Reis Magos, Natal/RN (Foto: Bruno Ernesto, 12/2025)

Nem percebemos, – e passa despercebido por muitos- mas uma simples diferenciação conceitual faz toda a diferença quando falamos sobre um fato histórico.

Não basta contar um fato (História), é preciso compreender como ele é contado (Historiografia). E essa compreensão, claro, vai se conformando com o passar do tempo.

É por isso que há uma certa resistência tácita em se considerar um fato histórico sob a ótica da própria geração, pois o momento histórico influencia sobremaneira, não apenas a forma contar essa história, mas, sobretudo, de compreendê-la.

Disso resulta que, eventualmente, surgem novas análises, revisões históricas e questionamentos sobre certas narrativas históricas, daí a importância de diferenciarmos a história da historiografia; sobre os fatos em si e sobre como se escreve sobre ele, as teorias, os pontos de vista e forma de abordagem.

Isso é tão importante que não é incomum surgir uma discussão acalourada sobre determinado fato histórico praticamente adormecido, como foi o caso recente de uma revisão histórica conduzida pelos físicos Carlos Chesman (UFRN) e Cláudio Furtado (UFPB) e publicada no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, a qual analisou o real local de descobrimento do Brasil pelos portugueses, dessa vez a partir de observações de expedições anteriores, dados numéricos da carta de Pero Vaz Caminha, ventos – lembre-se que eram barcos à vela – e correntes marinhas, e, ao correlacionar com as rotas prováveis, converge para a tese de que os Cabral só poderia ter desembarcado no litoral Potiguar, em 22 de abril de 1500.

A discussão tomou tamanha proporção, que foi destaque em diversos jornais aqui e no exterior, além de ter causado alvoroço e discussões acirradas nos meio acadêmico e pesquisadores independentes.

Afinal, a esquadra de Cabral boiou primeiro até o Rio Grande do Norte ou desceu até a Bahia?

A despeito disso, sempre gosto de destacar que, sem computadores ou modelos de simulação matemática, Luiz da Câmara Cascudo, há quase cem anos, quando do seu ingresso como professor efetivo do Colégio Atheneu norte-rio-grandense, escreveu a tese acadêmica “Dois Ensaios de História: A intencionalidade do descobrimento do Brasil. O mais antigo marco de posse”, já defendia a tese de que a chegada da esquadra portuguesa se deu de forma deliberada, com rota traçada intencionalmente para se chegar ao litoral do Rio Grande do Norte, não sendo mero acaso.

Não por onde, a discussão ainda renderá muitos e calorosos debates, pois o que diferencia uma tese da outra é apenas a intenção dos portugueses, ainda que a conclusão seja a mesma.

Uma é história, outra é historiografia.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)

Nem Nelson

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa de Larissa Amorim (01/2026)
Foto ilustrativa do Teatro Nelson Rodrigues no RJ, de Larissa Amorim (01/2026)

Seria difícil imaginar alguém deixar Nelson Rodrigues encabulado. Logo ele, cuja mão firme, pensamento aguçado, imaginação singular e língua afiada, tanto marcou uma geração.

Aliás, só encabulou quem a carapuça lhe serviu; que se diga.

Dias atrás, num vaivém, acabei por esquecer de fotografar a fachada do teatro homônimo do anjo pornográfico, localizado – estratégica e ironicamente – bem ao lado da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Acredito que fizeram de propósito.

Ainda mais irônico, é o fato do teatro estar localizado na Avenida República do Paraguai, cujo país no meu tempo era sinônimo de mercadoria falsificada e que toda feira da sulanca que se valorizasse, a vendia com exclusividade. 

Embora Nelson Rodrigues se considerasse um conservador, no que sabia fazer de melhor, era um transgressor dos costumes; um indisciplinado. Um reacionário.

Por sinal, registre-se que a naturalidade da hipocrisia – infelizmente – vem se deteriorando nos últimos tempos. Dificilmente você encontra um hipócrita convicto, embora o comportamento se mantenha inalterado como outrora.

Não por onde, aquele pensamento indizível, que outrora era incorruptível, e somente revelado num descuido, agora se confunde com o a própria naturalidade da pessoa, e já não se mantém aquele segredo imaculado de outrora. 

A surpresa do mau-caratismo até perdeu a graça, diria ele.

Talvez tenha sido essa a razão dele ter dito que não há admiração mais deliciosa do que a do inimigo. Ou, talvez, que o dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.

Acredito que até quando dizia que não se deve apressar em perdoar, pois a misericórdia também corrompe, queria novamente dizer que, além de todos os defeitos do adulto, o jovem tem mais um, que é a imaturidade.

Se naquele tempo escarnecia com propriedade o que de pior existia no comportamento humano – o pensamento indizível e a hipocrisia -, talvez hoje, nem Nelson Rodrigues saberia descrever o que seria o pior.

De todas as suas – digamos – observações, ainda fico com a que melhor retrata o há de pior na natureza humana, pois ainda pode-se dizer que atrás de todo paladino da moral, vive um canalha.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Cerca

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica (Outubro de 2025)
Foto do autor da crônica (Outubro de 2025)

Não é só impressão sua, o final do ano também muda no sertão. A caatinga tem essa beleza peculiar.

Aliás, de tudo que já vi, não há bioma mais bonito que ela. Até o seu cheiro é melhor.

O que olhos de quem não está acostumado mostram, nunca foi, não é, e nunca será morta.

Sua aparência, especialmente de setembro em diante, é um contraste entre cinzas, marrons, amarelos, vermelhos e surpreendentes verdes pontuais.

Quando passar por ela em dezembro, estenda o seu olhar e verá belos pereiros, juazeiros e cactáceas  verdes, como o Cereus Jamacaru que tanto encantou Frans Post.

Se Claude Monet, Van Gogh e Rembrandt tivessem seguido os passos de Frans Post, a história da arte teria sido outra. Muito mais impressionante, que se diga.

Embora os incautos ainda julguem que a seca nos cerca como uma ferida que nunca cicatriza, como bem disse Neruda, há feridas que abrem a nossa pele; já outras, os nossos olhos.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)

Velho ditado

Por Bruno Ernesto

"Rouquinho", com um monte de coisas para não fazer, segue espichado (Foto: Bruno Ernesto)
“Rouquinho”, com um monte de coisas para não fazer, segue espichado (Foto: Bruno Ernesto)

Por acaso você notou que o rosto do outro desmonta qualquer discurso natalino e que não celebrar o Natal é uma escolha e fingir é uma atitude de má-fé?

Liev Tolstói sintetizou uma palavra numa única frase, quando disse que é mais fácil escrever dez volumes de princípios filosóficos do que pôr um deles em prática.

Se bem que Nelson Rodrigues, sem protocolos, diria a vida como ela é.

Foi-se o primeiro quartel do século XXI. Se não deu tempo para tudo, não se preocupe, pois ainda há tempo para muita coisa. Finado é apenas o ano.

A última semana do ano parece que anda aos solavancos. Ora lenta demais, ora acelerada demais, e tudo converge para o caos de final de ano.

Meu relógio é sempre adiantando mentalmente em dez minutos; para tudo. Especialmente se preciso sair apressado, pois é o tempo necessário para sair catando um a um os meus gatos, entorpecidos pela luz do dia.

Ao contrário do que você possa imaginar, o cochilo deles espalhados pela casa em verdade me dá um recado velado nessa correria diária. E se mesmo chamando para sair, não saem, aquele bocejo e aquela espreguiçada matinal deles apenas reforçam o recado.

Eles têm razão. Talvez seja esse o motivo pelo qual sempre preferi criar felinos.

Se você não pode contra o tempo, alie-se a ele.

Como diz o velho ditado: quem não tem cão, caça como um gato.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)

Talvegue, vau

Por Bruno Ernesto

Rio Ponta da Serra, BR-304 (Foto: autor da crônica)
Rio Ponta da Serra, BR-304 (Foto: autor da crônica)

O ano de 2025 vai expirando e vamos fechando as janelas, desligando as luzes, selando as portas, empilhando papeis, separando livros, escapando de confraternizações de amigos de uma data só, e o que ficou por fazer vamos cobrindo com um lençol para a poeira não assentar, e fica classificado contabilmente como “Para o ano”. Lembre-se da rinite.

A boca da noite do reveilão se aproxima como um felino pronto para dar o bote, e muitos – talvez até você – já dedilham suas mensagens de congratulações, tal qual uma salva de Katiucha.

Sim, claro! Esses últimos dias é a janela crucial para avaliarmos o que o ano findouro nos proporcionou, tanto de bom, quanto de ruim. Lembre-se que o costume de deixar tudo para última hora também é válido para essa reflexão.

Outra coisa muito importante: promessas são feitas para serem descumpridas. Descumpri muitas.

Algumas tinham esse objetivo mesmo; outras foi o jeito. Não me arrependo de nada. Aliás, poderia ter dito coisa muito pior. Fica “Para o ano”.

Se o que você prometeu no ano passado para si foi custoso demais, é sinal de que é preciso mudar de ritmo, adequar os limites, os alcances imediato e mediato; jamais os objetivos.

Esse rio caudaloso que é nossa a vida continua a correr para, um dia, enfim, alcançar a foz. Mas atravessar um rio seco nem sempre é uma vantagem.

Convenhamos. O velho ditado popular de que a água que desce o rio não retorna, nunca fez tanto sentido.

A diferença é que, ora atravessamos o rio pelo talvegue, ora pelo vau.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Por Bruno Ernesto

Logomarca do IHGM
Logomarca do IHGM

A cidade de Mossoró, terra onde a cultura pulsa incessantemente, e cuja face progressista jamais arrefece, tem um novo marco histórico com a criação do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM, a casa da memória de Mossoró e região.

Dia 10 de setembro de 2025 marca a fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM, tendo como sócios fundadores os professores, escritores e pesquisadores Bruno Ernesto Clemente, Geraldo Maia do Nascimento e Lemuel Rodrigues da Silva, que formam o seu corpo diretivo, sendo presidido por Bruno Ernesto Clemente.

O IHGM é uma entidade sem fins econômicos, que tem por finalidade promover atividades culturais, literárias, técnico-científicas, além de promover intercâmbio com organizações e universidades do País e do exterior, com vistas a promover a defesa da memória cultural e do patrimônio histórico, cultural e natural do município de Mossoró/RN e do Rio Grande do Norte.

Como casa da memória, o IHGM já se encontra em pleno processo de filiação à Câmara Brasileira do Livro (CBL), que é a associação que representa editores, livreiros, distribuidores e demais profissionais do setor e é responsável pelos Prêmios Jabuti e Jabuti Acadêmico, Bienal Internacional do Livro de São Paulo, Prêmio Jabuti Acadêmico, Brazilian Publishers, Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos, Defenda o Livro, Retomada das Livrarias, Conexão Livraria e Clube de Leitura ODS.

Com o seu o papel de coligir, metodizar, difundir e preservar o conteúdo e divulgar pesquisas, todas as publicações dos selos editoriais vinculados ao IHGM contarão com ISBN, inclusive por meio da edição de revista periódica temática com ISSN, como materiais e as tradições pertencentes à história, geografia, etnografia, genealogia, heráldica, arqueologia, arte e cultura, principalmente de Mossoró e região, sempre calcado na democracia editorial, no incentivo aos novos escritores e na cultura como instrumento de promoção da justiça social e difusão de conhecimento.

O IHGM também já nasce sólido ao ser detentor do selo editorial Coleção Mossoroense, de 76 anos de existência, contando com mais de cinco mil títulos em seu catálogo, além de todo o acervo da Fundação Vingt-Un Rosado que foi incorporado, e também contar com vasto material de pesquisa dos seus sócios e franco acesso aos demais institutos históricos e geográficos no Brasil e exterior, além de base de dados e pesquisas acadêmicas.

Para o desenvolvimento de suas atividades, que é de inegável importância e de extrema necessidade para a preservação da memória histórica e da geografia humana de Mossoró e região, o IHGM agrega inúmeras atividades de pesquisas, preservação, biblioteca com mais de 120.000 (cento e mil) exemplares e 5.000 (cinco mil) títulos em seu catálogo editorial, com atendimento à população, promoção de cursos, palestras, atendimento de escolas, alunos, pesquisadores independentes, universidades, produção literária, preservação de documentos e informações históricas.

Em colaboração com outros institutos históricos e entidades congêneres, vários convênios já vêm se formalizando, o que permitirá a materialização de produção científica em parceria com essas instituições, especialmente a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, e outras entidades de reconhecido alto nível acadêmico.

Em breve o processo para admissão de novos sócios efetivos do IHGM será deflagrado com a publicação do edital de ampla concorrência, nos termos de seu estatuto, e que será oportunamente divulgado em seus canais oficiais, como sítio eletrônico www.ihgmossoro.org.br e perfil do Instagram @ihgmossoro .

Acompanhe e contribua com o Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM, a casa da memória.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró

Não o convenceu

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica
Foto do autor da crônica

Observar. Só observar, tem muitas vantagens.

Apesar de gostar muito de fotografias, em especial em preto e branco, nunca fui um exímio fotógrafo.

Muito pelo contrário, estou equidistante entre o regular e o semiamadorismo. Entretanto, não me falta disposição e teimosia.

Aliás, sempre gosto de dizer que a teimosia é inegociável. Pois bem.

Além de um bom equipamento fotográfico – acredito eu -, me falta uma característica fundamental a um fotógrafo: paciência.

Não é que não tenha. Até tenho; só não muita. Se tiver calor, menos ainda.

Aliás, assim como na falta de um bom café sem açúcar, no calor, me falta é o juízo inteiro e nunca será um bom momento para resolver certos assuntos ou quizila.

Fotografar como passatempo – com é o meu caso – precisa da mesma calma, tempo, disposição, serenidade, criatividade e, sobretudo, sensibilidade exigida para se escrever um texto literário.

Muito embora tenha esse déficit fotográfico, nos últimos tempos, com o auxílio e o incentivo da minha esposa – que é exímia fotógrafa -, tenho procurado praticar e aperfeiçoar essa arte; embora, geralmente, meus registros sejam feitos despretensiosamente.

Acredito que a cada cem fotos, uma ou duas fiquem realmente apresentáveis.

Como num pleonasmo, gosto de capturar cenas do cotidiano diário; ver gente e a vida pulsante da cidade, seus personagens, lugares e, sobretudo observar o movimento frenético dessa central que se inicia ainda pela madrugada, e vai se amainando já pelo meio da manhã, como toda e qualquer central de abastecimento de alimentos em qualquer lugar do mundo.

Dia desses, passando bem cedo pelo centro da cidade – antes das seis e meia – bem em frente à central de abastecimento (Mercado da Cobal), um dos lugares – talvez – mais bem frequentados da cidade, uma cena me chamou bastante atenção.

Enquanto aguardava o sinal de trânsito abrir, escutava as notícias do rádio – sim, sou ouvinte assíduo de rádios – e tentava organizar mentalmente o meu dia quando, de dentro do carro, percebi que dois homens conversavam na esquina ali, bem ao meu lado.

Um deles – o ouvinte – tinha a barba grande e descuida; cabelos retorcidos e convulsionados; calçava havaianas e vestia camiseta e calção amarrotados, como quem tivesse há dias com a mesma roupa e sem tomar um banho;

Sentado bem ali na calçada da esquina – olhos inchados -, tinha as mãos soltas e descansadas entre as pernas.

Estava totalmente inerte e num estado indescritível de afastamento e melancólica visão perdida no infinito.

De tão profundamente perdida, não indicava qualquer conexão com o mundo, no meio daquele vai e vem de carros e, certamente, muito barulho.

Ao seu lado direito, porém não tão próximo, jaziam duas sacolas pretas, uma garrafa pequena de uma marca de água mineral conhecida. No asfalto, encostado no meio-fio, uma sacola plástica branca.

Já encostada à sua perna direita, havia uma sacola plástica branca, o que parecia ser uma garrafa plástica de refrigerante de um litro sem o rótulo e, ao alcance imediato de sua mão, duas garrafas pequenas, rechonchudas, com tampas brancas enroscadas, como se dois pequenos barris fossem.

No rótulo dessas duas pequenas garrafas em formato de barril – depois pude ver – havia uma silhueta feminina em pose sensual.

Paradoxalmente à postura daquele homem ali sentado e intrigantemente inerte, outro – bem aparentado, de tênis e boné -, se postava de pé bem diante dele e, gesticulando os braços, com veemência e vigorosamente, aparentemente vociferava aos brados e colericamente, como se o tentasse convencer de algo. Talvez um conselho.

Dez segundos se passaram entre eu parar o carro e o sinal abrir. Consegui uma sequência de quatro fotos e precisei seguir.

Trinta minutos após meu compromisso, na volta, passei pela mesma esquina – agora no outro sentido da via – e lá ficaram apenas a garrafa pequena de uma marca de água mineral conhecida e a garrafa plástica de refrigerante de um litro sem o rótulo.

Aparentemente, o homem de boné não o convenceu.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Digo

Por Bruno Ernesto

Máquina datilografia Smith-corona (Foto: Bruno Ernesto, 11/2025)
Máquina datilografia Smith-corona (Foto: Bruno Ernesto, 11/2025)

Quem tem mais de quarenta anos de idade – me arrisco a dizer -, pelo menos uma vez na vida passou as ponta dos dedos num teclado de uma máquina de datilografar. Se não passou, dificilmente não pôs os olhos numa delas.

Claro, antes dos computadores eletrônicos e, agora, os esmartefones – sim, desse jeito -, as máquinas de datilografia reinaram por mais de um século.

Qualquer local onde a burocracia reinava plenamente, ela estava lá posta. Às vezes às dezenas. Um batalhão de sincopado de dedos rijos, praticamente em riste, que avançava e recuava tecla por tecla, pinçando letra por letra, num frenesi e no limiar do erro.

Uma vez chancelada a letra no papel, não se podia retroceder. Não se podia perder a concentração, nem o raciocínio.

Quem tinha o pensamento ordenado e os dedos firmes tinha vantagem e, evidentemente, até os mais habilidosos datilógrafos também estavam fadados ao erro.

Quando acontecia, lançava-se mão da simples colocação “digo”, e se retificava o erro.

E assim, incontáveis textos nasceram de cabeças extraordinárias, mãos e dedos firmes e disposição para enfrentar essa batalha com o erro que espreitava o datilógrafo do início ao final.

Há vantagens e desvantagens no uso dessas máquinas, pois não precisam de energia elétrica nem sinal de telecomunicação para funcionar.

Aliás, acredito que essa antiga tecnologia foi fundamental para o firme raciocínio dos escritores daquele tempo, pois forçava-os a manter o foco, ainda que estivessem apenas transcrevendo um texto manuscrito.

Sempre fui um entusiasta de máquinas de datilografar, mas, confesso, são impraticáveis para o que nos propomos a fazer diariamente.

Nem que lançasse mão de centenas de digo, ainda assim, essas máquinas me são reservadas para outro tipo de produção textual. Se bem que há erros que são necessários, pois o processo de criação textual é assim mesmo.

Ao contrário do que se pena, simplesmente não nos vem à cabeça e, por vezes, é muito trabalhoso e angustiante organizar as ideias e manter a coesão e coerência.

Na verdade, é mais um modo de me desafiar mentalmente. Qualquer dia vou contar quantos digo precisarei utilizar numa crônica.

Todavia, uma coisa tenho certeza: o que tá dito, tá dito. Com erro ou sem erro.

Aliás, se você lê o mesmo que todo mundo lê, fatalmente você vai escrever e pensar como todo mundo pensa.

É uma questão de destino, digo, escolha.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

868, o jogo da imitação

Por Bruno Ernesto

Máquina alemã (Foto de origem não identificada)
Máquina alemã (Foto de origem não identificada)

Durante a Segunda Guerra Mundial, havia uma máquina alemã que, em grande parte, foi a responsável pelo sucesso das operações das forças armadas de Adolf Hitler, a Whermacht.

Sua função era enviar mensagens criptografadas com as ordens do líder alemão, o Führer, para que as forças armadas alemãs atacassem os aliados.

Ela parecia uma máquina de datilografia. Possuía três rotores no tampo superior, com números gravados nos discos que, uma vez posicionados na sequência correta daquele dia específico, tal como um cadeado com segredo, embaralharam a sequência de cada letra que ia sendo digitada e, como camada extra de segurança, o operador escolhia uma letra do alfabeto, posicionando uma outra chave no painel inferior frontal da máquina, o que potencializava a criptografia, e enviava a mensagem eletrônica com mais de um sextilhão de combinações possíveis.

Dessa forma, ainda que a mensagem fosse interceptada por seu inimigo, seria impossível de decifrá-la antes do próximo ataque alemão, caso quem a interceptasse não possuísse uma máquina enigma e não soubesse a sequência exata dos três números dos rotores que deveriam estar posicionados naquele dia específico da leitura daquela mensagem.

Sem isso, a mensagem até poderia ser interceptada, entretanto, não poderia ser compreendida.

Essa máquina foi um pesadelo para os países aliados que lutavam contra Adolf Hitler e sua poderosa Whermacht.

Ninguém conseguia decifrar as mensagens alemãs e, assim, Adolf Hitler avançava na conquista do mundo com a famosa Blitzkrieg, ou guerra-relâmpago. Um ataque feroz, rápido e de surpresa.

O sucesso de um combate, e, portanto, da guerra, depende, basicamente, de três fatores: poderio bélico, bom treinamento dos combatentes e o segredo de suas mensagens.

Importante pontuar que a justificativa inicial de Hitler para a guerra era, segundo a história conta, que ele afirmava que Alemanha tinha direito de preservar a cultura e o espaço alemão por serem superiores. O que ele chamava de espaço vital ou, em alemão, lebensraum.

O conceito de espaço vital deriva de uma doutrina norte-americana, denominada Doutrina Monroe, estabelecida no ano de 1823 pelo então presidente James Monroe, e que tinha como preceito a não possibilidade de qualquer tipo de interferência externa em relação às políticas norte-americanas. Daí surgiu a expressão “América para americanos”.

No caso da Alemanha, essa doutrina foi introduzida por Friedrich Ratzel no final do século XIX, que, deturpando-a, defendia que raças ou povos tidos como superiores na escala civilizatória, intelectual e cultural, tinham direito a um maior espaço físico para o seu pleno desenvolvimento, sem que pudesse haver qualquer contestação por parte de outros países. E Hitler se achava superior.

Para quem tem curiosidade de saber um pouco de como funcionava a mente dele, a obra “A mente de Adolf Hitler”, de autoria de Walter Langer, é bem interessante e acessível.

Trazendo para o contexto literário, na escrita, a transmissão de mensagens, ideias, pensamentos e opiniões, tal qual uma mensagem criptografada, segue uma sequência lógica de encadeamento que, ao final é decodificada pelo receptor dela. Entretanto, ao invés de algoritmos matemáticos, na literatura, observam o gênero literário, que está relacionado à composição do texto.

Um exemplo fácil de criptografia é a alteração da sequência de números e letras, com substituição de uns e outros, a chamada cifra de troca, ou, cifra de César.

O gênero literário leva em consideração os critérios semânticos (significado da palavra isoladamente e a combinação delas), sintático (estrutura e regras da língua que tornam possíveis a compreensão do texto), contextuais, etc. Todos seguem uma regra bem definida.

Entretanto, diferentemente, há o estilo literário, que é a particularidade da escrita. Que nada mais é senão, a forma que o autor escreve e transmite a sua mensagem. Necessariamente, não é preciso observar as regras definidas do gênero literário.

No estilo, o autor tem, ou se dá, uma liberdade para compor o seu texto e transmitir a sua mensagem de uma forma particular, porém compreensível e identificável. É tão marcante, que o leitor correlaciona o texto com a autoria, apenas pela forma como é escrito; o estilo empregado.

José Saramago é um exemplo claro acerca do que vem a ser um estilo literário.

Nos seus textos, ele escreve parágrafos gigantescos. Sequer utiliza vírgulas ou outro sinal de pontuação. Muitas vezes o leitor precisa de um fôlego tremendo para lê-lo e, por si próprio, pontuá-lo, para que ele tenha sentido e transmita a intensidade que Saramago quis empregar.

Ele transfere para o leitor uma função que era dele, autor do texto. Esse é o estilo de Saramago. Se o leitor não se familiarizar ou não admirar o seu estilo, não o lerá da forma correta. Quem tentar imitá-lo, fatalmente será taxado de inautêntico. Não que não seja permitido.

Para um desavisado, ou não familiarizado com o seu estilo, certamente, o considerará um péssimo escritor.

Mesmo assim, o texto é plenamente compreensível e original, e, não à toa, José Saramago foi laureado com os prêmios Nobel de Literatura e Camões. Ele, sim, é original.

Na literatura, como forma de transmitir uma mensagem cifrada, muitos autores lançam mão de artifícios literários, tais como, alterar o nome dos personagens, contextualizar uma estória com base nas características de uma pessoa ou baseado na sua vida, lugar que mora ou frequenta, sua rotina e profissão.

Alguns, por modéstia ou conveniência ocasional, utilizam pseudônimo. Outros, no entanto, carentes de reconhecimento, se autodenominam.

Quem não tem familiaridade com aquele personagem, não consegue identificá-lo. Quem tem, ou é o próprio, facilmente o identifica.

Conta-se, como na criptografia, até mesmo as letras do nome do personagem para confirmar todo o contexto de uma estória. Por isso aquele famoso aviso de que qualquer semelhança na estória, é mera coincidência.

Entretanto, na literatura, há autores que sequer nominam seus personagens. E, ainda assim, estória continua fazendo sentido. Como José Saramago o fez na sua obra “Ensaio sobre a cegueira”. Nela, nenhum personagem é nominado. Apenas suas características, intenções e atitudes.

Há quem tente imitar os grandes escritores, empregando todas as técnicas de escritas possíveis, manipulando as palavras e a linguagem. E tem quem acredite que seja um bom escritor, como o narcisista Adolf Hitler se achava um excelente desenhista nos seus tempos de juventude (Ele foi rejeitado por duas vezes pela Academia de Belas Artes de Viena, posto que foi tido como desenhista medíocre).

Entretanto, para esses outros escritores que imitam os grandes mestres, tal como na criptografia da enigma, lhes faltam a sequência secreta dos três números, para que, tal como na máquina alemã enigma, o leitor possa decodificar e compreender a verdadeira mensagem que lhe foi transmitida.

Voltando à enigma, caro leitor, apesar de toda a tecnologia da máquina de criptografia alemã, e a visão impossível de se decifrar as mensagens antes do próximo ataque alemão, contra todas as probabilidades, o matemático inglês Alan Turing, considerado o pai da computação, conseguiu.

E o fez, explorando uma falha na criptografia da máquina enigma, que consistia no fato de que toda mensagem continha uma sequência que nunca era alterada.

Com base nisso, a máquina de Turing, uma espécie de calculadora eletromecânica, foi capaz de reconstruir a sequência exata das letras embaralhadas pela enigma antes de uma nova Blitzkrieg, e, assim, conseguiu quebrar o código de criptografia alemão, encurtando a guerra e contribuindo, decisivamente, para a derrota e queda de Adolf Hitler, o anticristo.

A sequência inalterada de todas as mensagens alemãs, era uma famosa saudação. Hitler caiu por puro narcisismo.

Assim, em tempos de guerra, as mensagens devem ser lidas a todo custo, não há escolha. Em tempos de paz, os textos são escolhidos, como os de Saramago. Por mais difícil que seja.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

Bichos de sete cabeças

Por Bruno Ernesto

Gatos da Rua Chile em Natal, em 10 de novembro de 2025 (Foto: Bruno Ernesto)
Gatos da Rua Chile em Natal, em 10 de novembro de 2025 (Foto: Bruno Ernesto)

Que os gatos são místicos, os egípcios já sabiam disso há mais de cinco mil anos. E se você reparar bem, talvez o segredo deles seja levar uma vida sem muitos protocolos.

Essa aura, e o estilo de vida deles, bem que poderiam ter sido aplicadas indistintamente aos humanos. Talvez nos poupasse de muita coisa a longo da vida. Do dia já seria excelente, convenhamos.

A outra fama de que eles são boçais e que desprezam as pessoas, é muito injusta. Quer dizer: nem tanto. Às vezes é bom nos comportarmos como os gatos e, em certas situações, não seria má ideia ver, fingir que não é com você e ignorar solenemente. É plenamente compreensível.

Quem convive com gato, sabe que nada fica no mesmo lugar se ele achar interessante derrubar, e nem um estofado se livrará das suas unhas se ele achar que ali é um bom lugar para relaxar.

Todavia, se ele quiser passar despercebido, ele singrará por entre plantas, copos, garrafas, livros, móveis e cristais e você jamais saberá que ele esteve ali.

Na hipnagogia, enquanto você tenta dormir às dezesseis horas do domingo, após ler três ou quatro folhas de um livro que você teima em não terminar, talvez ele mie escandalosamente ao pé da porta até você levantar e ir lá abri-la para, depois, solenemente, ele desistir de sair e, ao invés, caminhar vagarosamente para a cozinha, para ali cochilar numa cadeira; não sem antes lhe encarar de soslaio e bocejar, como quem diz:

 – Apague a luz e saia daqui.

– De meia em meia hora venha me ver.

– Talvez me esconda e você pensará que fugi. Ficarei lhe observando lá de cima do armário enquanto você corre pela casa e me procura por todos os cantos. Menos neste.

– Talvez eu mude de ideia, se não cochilar.

Quem é meticuloso demais, irredutível demais, insistente demais, certo de tudo demais, compreensível demais, clemente demais, sorridente demais, triste demais, aberto demais, fechado demais e tudo demasiadamente demais – até mais que o próprio pleonasmo -, precisa de um gato para se aprumar.

Não faça um bicho de sete cabeças por tudo, pois a vida requer outro ritmo e nada há de errado em mudar de ideia sem dar explicação.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Descanso

Por Bruno Ernesto

Cemitério São Sebastião no Centro de Mossoró (Foto: Bruno Ernesto/02-11-2025)
Cemitério São Sebastião no Centro de Mossoró (Foto: Bruno Ernesto/02-11-2025)

Visitar cemitérios vai muito além de prestar homenagem aos entes queridos, seja ele um familiar, um amigo, um ídolo ou um anônimo.

Nos últimos anos, uma pesquisa que venho gestando com muito cuidado, me leva constantemente aos cemitérios por onde ando, e procuro registrar o máximo possível em cada oportunidade.

Inegavelmente já vi cenas muito tristes, lamentáveis, serenas, curiosas, mas também engraçadas. Assim dando continuidade à pesquisa, no último Dia de Finados, fui ao cemitério São Sebastião, o cemitério velho de Mossoró, para fazer mais alguns registros.

Percorri diversos corredores e ruas, cada vez mais difíceis de andar diante do amontoado de túmulos, e ali pude observar atentamente os visitantes e os túmulos. Alguns deles continuam sem qualquer visita. Muitos já abandonados, sequer caiados.

Encontrei várias pessoas conhecidas que agora lá repousam. Vi alguns de meus ex-professores do Colégio Diocesano. Vários amigos, personalidades e conhecidos de vista. Cada um deles evocou uma lembrança.

Quando já me preparava para ir embora, enquanto me posicionava para fotografar uma belíssima estátua, ao longe, avistei uma pessoa gesticulando incisivamente para duas senhoras que estavam sentadas aproveitando a sombra de uma árvore ao pé de um túmulo.

Como já beirava o meio-dia, tive dificuldade de achar um bom ângulo para fotografá-la, de modo que tive que me aproximar cada vez mais daquelas senhoras. Foi então que percebi que a pessoa que gesticulava elevava o tom da voz cada vez mais, num ataque de fúria e disparou:

– Era cabra ruim! Pior que fel!

– Não é porque tá morto e enterrado aí, que vou passar a mão na cabeça!

– Deu um trabalho da peste para a família! Foi é um alívio!

– Quem descansou fomos nós!

Não sei quem eram – Nem os vivos nem o morto -, nem interrompi aquela conversa. Apenas escutei, tirei a foto da escultura e fui embora.

“Está morto, podemos elogiá-lo à vontade”, a ironia do Bruxo do Cosme Velho, não veio a calhar.

Que descansem em paz.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Sinalagma

Por Bruno Ernesto

Bodega no Mercado Central, Governador Dix-Sept Rosado (Foto: Bruno Ernesto, 10/2025)
Bodega no Mercado Central, Governador Dix-Sept Rosado (Foto: Bruno Ernesto, 10/2025)

Quem algum dia imaginaria que comprar um simples sabonete Senador ou Alma de Flores viraria sinônimo de burocracia?

Desde que me entendo por gente, ouço a famigerada palavra burocracia reinar no nosso dia a dia. Aquele poder que, originalmente, emanava de um tampo de madeira, uma cara sisuda, uma caneta com tinta perpetua e um carimbo chancelador.

Quando falamos em produção, interpretação e aplicação da lei, o Brasil é uma aberração sem precedentes. A iniciar pela incalculável quantidade de leis. Talvez não seja exagero dizer que Franz Kafka seria um escritor amador e passaria vergonha se fosse brasileiro, levando em conta a teratologia jurídica tipicamente nacional.

Há quem diga que essa nossa burocracia se dá exclusivamente em virtude de termos uma infinidade de leis. Assim, no final dos anos 1970 e meados dos 1980, como ninguém aguentava mais tanta burocracia por aqui, criaram o Programa Nacional de Desburocratização.

Para não fugir à tradição, criou-se um Ministério da Desburocratização. Pura ingenuidade; brasileiro adora burocracia. A burocracia é patrimônio imaterial nacional, que já impregnou nosso ácido desoxirribonucleico.

Só quem tem a infelicidade de dominar a interpretação das leis brasileiras, sabe que é pouco provável que essa burocracia finde. Muito pelo contrário. Ela é indispensável à manutenção de uma elite, se não intelectual, funcional.

O livro “Burocracia e sociedade no Brasil colonial”, de autoria do professor e pesquisador da Universidade de Yale, o americano STUART B. SCHWARTZ, é um livro que reputo indispensável para entendermos o quão intrincado tornou-se tudo no Brasil quando o assunto é processo e procedimento formal, pois é o poder e controle de um sistema de falsa qualidade e mérito.

Se houve uma evolução? Sim, claro! Saímos do papel e migramos para o meio eletrônico. Só.

Até o comércio, uma atividade estritamente sinalagmática, cujo negócio é um dos poucos que pode se concretizar sem que o comprador e o vendedor falem alguma coisa um para o outro, ou até mesmo nem olhem para si estando frente a frente, não é mais o mesmo.

Se você for comprar qualquer coisa hoje, lhe pedem, no mínimo, número do CPF, inscrição no programa PIS/PASEP, número de identidade, número do cartão fidelidade, e-mail, número do telefone.

Se quiser aproveitar a oferta do dia do setor de frios, material de limpeza ou da padaria, precisa ativar a promoção no aplicativo do estabelecimento comercial – por código, item e setor – não sem antes ter que fazer um cadastro bioeletromecânico, enquanto o operador do caixa aguarda o sinal da internet voltar, e lhe manda digitar o número do CPF, código de fidelidade, dia, mês e ano de nascimento.

Se quiser participar do sorteio do prêmio no final do mês, precisa fazer tudo novamente e, assim, receber diminutas cartelas para preencher manualmente e depositar numa urna que é inlocalizável.

Além disso, há um fato novo: você só consegue efetuar a próxima compra se avaliar a compra anterior.

Hoje não se pode mais entrar mudo e sair calado de um estabelecimento comercial, pois exige-se tanta informação e passos para comprar ou ter desconto, que é mais fácil sair sem pagar e ter que se explicar à autoridade policial na delegacia mais próxima. Qualquer dia vou testar.

Toda vez que me deparo com essas burocracias no comércio local, lembro de Jalles Costa, meu saudoso professor de Sociologia do Direito, que já era um senhor com idade avançada naquela época, e que, certa vez, nos contou um episódio um tanto curioso.

Após passar as compras no caixa de um determinado supermercado em Natal, lhe falaram que para concluir aquela compra era necessário fazer um cadastro.

Lá para as tantas, a operadora do caixa perguntou o atual endereço dos pais dele. Muito espirituoso, disse que se ela reparasse bem nele – um idoso -, não haveria necessidade dessa informação. Todavia, a operadora insistiu que a informação era indispensável para concluir o cadastro.

Não insistiu e concordou em fornecer o atual endereço dos seus pais, e quando a operadora do caixa pediu novamente tal informação, disparou: Rua 13 com 14, do cemitério do Alecrim.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Quinta Cultural memorável tem apresentação da “Comitiva do IHGRN”

Quinta Cultural teve homenagem a Paulo de Tarso, lançamento de revista e palestra sobre a "Comitiva do IHGRN" (Foto: Bruno Ernesto)
Quinta Cultural teve a “Comitiva do IHGRN” em grande momento da histórica e cultura do RN (Foto: Bruno Ernesto)

Por Bruno Ernesto (Especial para o BCS)

No último dia 23 de outubro de 2025, às 17h, no auditório do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), em Natal, realizou-se mais uma edição da prestigiada e concorrida Quinta Cultural. É um evento consolidado no calendário cultural e científico da capital do estado.

Teve início com uma homenagem ao poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, falecido no dia 21 de outubro (Veja AQUI). O jornalista e escritor Gustavo Sobral leu um poema do autor, seguido de um minuto de silêncio em sua memória.

Em seguida, o escritor Honório de Medeiros, sócio do Instituto, apresentou o palestrante e escritor André Felipe Pignataro, destacando o caráter inovador e a importância histórica do projeto denominado “A Comitiva do IHGRN: Nos passos de Leão Veloso.

Pignataro apresentou o resultado de cinco anos dessa expedição pelo RN (@comitiva1861, na plataforma Instagram). O objetivo deles foi refazer o mesmo trajeto da famosa Comitiva de Leão Veloso, o então Presidente da Província do Rio Grande do Norte, no ano de 1861.

Esclareceu, que o projeto foi gestado desde 2019, a partir de nove crônicas de Othílio Alvares da Silva, publicadas no jornal “O Recreio” entre 08 de setembro de 1862 a 17 de novembro de 1862 e a Acta Diurna “A Jornada presidencial de 1861”, de autoria do historiador Câmara Cascudo. Foram esses textos as fontes primárias primárias da pesquisa, a qual foi postergada em razão da pandemia do Covid-19 (2020-2021). A viagem inaugural somente ocorreu em 27 de julho de 2023, e a final em 19 de abril de 2025.

A comitiva do IHGRN condensou em três viagens, os mais de quarenta e quatro dias gastos pelo grupo original de Leão Veloso, e refez todo o trajeto percorrido por ele a cavalo no ano de 1861, também partindo de Natal, passando pelo Sertão Central e Seridó, Alto Oeste, Oeste e o Litoral Norte, tendo percorrido todo o estado, passando por diversas cidades e localidades, dentre as quais Macau, Acari, Jardim do Seridó, Florânia, Caicó, Jardim de Piranhas, Belém do Brejo do Cruz/PB, Patu, Martins, Pau dos Ferros, Portalegre, Apodi, Governador Dix-Sept Rosado, Mossoró, Areia Branca (Ponta do Mel), Porto do Mangue e Rio do Fogo.

Durante a exposição do relatório final, apresentado aos demais sócios, pesquisadores, escritores e convidados, os pesquisadores apresentaram inúmeros registros fotográficos, documentos e mapas comprovando um trabalho minucioso e fiel aos registros e relatos históricos.

Revista

Concomitantemente, também houve o lançamento da edição nº 103 da Revista do Instituto Histórico do Rio Grande do Norte, cujo texto final dos diários do projeto-expedição foi apresentado como um denso registro histórico, cuja leitura é altamente recomendada para quem se interessa pelo assunto.

A revista também apresentou material inédito de autoria do pesquisador e escritor, o sertanólogo, Oswaldo Lamartine de Faria (1919-2007), “A Geografia de Maria Moura”, além de um ensaio de Gustavo Sobral, um profundo conhecedor sobre sua vida e obra, além de contar com outros textos trazidos nesta última edição da revista.

Nota do BCS – Muito obrigado ao nosso “repórter ad hoc” Bruno Ernesto pela cobertura completa. Infelizmente, não pude comparecer, mas fui muito bem representado.

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O Santo ofício

Por Bruno Ernesto

Santa Verônica, Altar-Mor Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas/MG (Foto: Bruno Ernesto, 10/2025)
Santa Verônica, Altar-Mor Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas/MG (Foto: Bruno Ernesto, 10/2025)

Muito embora a história de Aleijadinho como artista seja encantadora e de superação, como como um bom cristão, também foi uma vida de provação.

Como registrei anteriormente (//blogcarlossantos.com.br/nem-tanto-nem-santo/) , um bom artista visual, seja ele pintor ou escultor, precisa, além domínio da técnica, de um inegável, apurado e profundo conhecimento histórico.

E quem põe os olhos das obras dele pode constatar que elas são inigualáveis, tanto do ponto de vista técnico, quanto da expressividade histórica.

Embora haja uma tendência a se concentrar todos méritos do barroco brasileiro para Aleijadinho – o que não seria exagero, convenhamos -, claro que ele não foi o único artista barroco consagrado no século XVIII, existindo outros tantos artistas com altíssimo nível, como, por exemplo, Mestre Ataíde, autor do Retábulo-mor do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas/MG.

Todavia, a condição de mestre alçada por Aleijadinho foi muito além do seu dom artístico, também tendo demonstrado que foi um personagem muito à frente do seu tempo no que se refere ao pensamento.

Quando suas limitações físicas foram avançando, seu  ajudante, um escravo de nome Maurício, passou a elaborar e adaptar as ferramentas utilizadas por Aleijadinho, de modo que ele pudesse continuar a produzir sua arte.

E o que podemos ver até hoje de sua arte, foi produzida justamente após o agravamento de sua condição de saúde. Daí seu cognome. Contudo, pouco se registra que ele dividia tudo que ganhava com Maurício.

Se hoje seria impensável que um ajudante pudesse ser meeiro de um grande artista, o que se falar da meação de ganhos com um escravo em pleno século XVIII? Era um escândalo.

Se aquele corpo definhado fisicamente não foi suficiente para suplantar a sua arte e, sobretudo, força de vontade, sua atitude de reconhecimento e isonomia, lhe garante ainda mais o reconhecimento como um ser humano generoso e transformador.

Talvez – quem sabe – tenha posto em prática o que tão bem conhecia, mas a seu modo, já que não se deve conformar com este mundo, mas transformá-lo pela renovação da mente.

E nada mais confrontador com o padrão, que pôr em prática o que se prega. Afinal, não adianta esculpir santos e não praticar o que se defende.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Bruno Ernesto vai ocupar vaga na Academia Mossoroense de Letras

Bruno Ernesto assume cadeira que foi do padre Guimarães Neto Foto: Arquivo)
Bruno Ernesto assume cadeira que foi do padre Guimarães Neto Foto: Arquivo)

O professor, advogado e escritor Bruno Ernesto Clemente foi oficialmente comunicado no fim de semana de sua eleição para compor a Academia Mossoroense de Letras (AMOL). O presidente da entidade, Antônio Filemon Rodrigues Pimenta, cientificou-o no sábado (18).

Ernesto ocupará a Cadeira nº 29, cujo Patrono é Dom João Batista Portocarrero Costa. Substituirá padre Guimarães Neto.

Ele também é integrante do Blog Carlos Santos (Canal BCS), com colaboração dominical em artigos e crônicas.

“Neste momento, reitero meus sinceros agradecimentos ao corpo acadêmico pelo seu inestimável e decisivo apoio neste pleito, desde o primeiro momento de minha candidatura”, assinalou.

“Tenho muito orgulho de agora, oficialmente, integrar esta importante e respeitável academia, cuja história é forjada por nomes de grande prestígio acadêmico e cultural, como Vingt-Un Rosado, Raimundo Nonato de Brito, Paulo de Medeiros Gastão, João Batista Cascudo Rodrigues, Elder Heronildes e tantos outros, pelo que fico penhoradamente agradecido, e honrarei a escolha.”

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