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A historiografia do cangaço

Por Marcos Pinto

Massilon, coronel Isaías Arruda do Ceará e Lampião fazem parte de um enredo ainda incompleto (Fotomontagem BCS)
Massilon, coronel Isaías Arruda do Ceará e Lampião fazem parte de um enredo ainda incompleto (Fotomontagem BCS)

Nunca é demais repetir: é densa e vastíssima a bibliografia historiográfica da temática cangaço, no que consiste ao ataque lampionesco a Mossoró. Mas, nunca houve aprofundamento sobre os autores intelectuais do malogrado ataque.

Os dois principais jornais de Mossoró abordaram o episódio com manchetes instigantes, porém sem referenciar que o assalto à cidade fora objeto de complô formado por Tilon Gurgel, seu genro Décio Holanda, desembargador Felipe Guerra casado com uma irmã de Tilon Gurgel, que se acumpliciou com Jerônimo Rosado, seu amigo íntimo e compadre (vide Livro “Jerônimo Rosado” de autoria do consagrado historiador Câmara Cascudo – páginas 24/25 – coleção mossoroense – série C -vol XVIII. Editora Pongetti – RJ – ano 1967).

À página 35, o renomado mestre Cascudo tira carta de seguro: “Todas as frases ‘históricas’ têm uma documentação negativa, desmentidos formais de pesquisadores. Mas o real é que não foram ditas, mas foram programas subsequentes de veracidade indiscutível”.

Após o ataque, os jornais “O nordeste” – edição de 26.06.1927 estampa manchete ridícula e inverídica: “Jararaca falecera em viagem para Natal”, quando toda a cidade já sabia, à boca miúda, que cangaceiro fora assassinado à meia noite, no cemitério, por componentes da Polícia Militar, como queima de arquivo.

Na manhã do mesmo dia em que foi eliminado, ele  recebera a visita de uma senhora, à qual pediu para dizer ao prefeito Rodolfo Fernandes que tinha assunto confidencial para tratar com o mesmo. A imprensa nunca citou o nome desta senhora e qual a razão da mesma não ter dado o recado ao prefeito.

O mesmo jornal “O nordeste” estampa em edição de 09.07.1927, a Manchete “Massilon no Brejo,” referência ao Brejo de Pedra das Abelhas (atual cidade e município de Felipe Guerra-RN), onde residia Tilon Gurgel, também amigo íntimo do farmacêutico Jerônimo Rosado.

Este prestigioso jornal estampou somente dois anos e dez meses depois do ataque (edição de 12.04.1930) a elucidativa Manchete: “Isaías Arruda perto de Mossoró no dia 13 de junho de 1927,” referência a influente coronel cearense, de estreita relação com o cangaço. Indaga-se: por que o dono do “Nordeste” omitiu o fato de que Isaías era hóspede de Jerônimo Rosado em seu sítio “Canto”?.

Ouvi esta assertiva reiteradas vezes feita pelo tabelião Romeu Rebouças, que não pedia ressalvas.

Não resta dúvidas de que os historiadores Câmara Cascudo, Raimundo Nonato da Silva e Raimundo Soares de Brito (Raibrito), eram visceralmente vinculados à elite política dominante no Estado.

Câmara Cascudo privou da amizade de todos os governadores do ano de 1920 à 1955. Raimundo Nonato cerrou fileiras com Dinarte Mariz, desde o golpe getulista de 03 de outubro de 1930, tendo sido nomeado juiz de direito da comarca do Apodi no ano de 1957 pelo amigo/governador Dinarte Mariz. Observe-se que o prestígio e amizade de R. Nonato com o Dinarte era imensurável, que o R. Nonato assumiu a comarca do Apodi e no mesmo dia uma plêiade de amigos de Mossoró foram para a solenidade de posse. Foi organizada grande festa, sendo certo que o R. Nonato já havia sido professor em Apodi na década de 40 (1940).

Uma semana após a sua posse, o celebrado historiador R. Nonato solicitou aposentadoria como juiz de Direito, valendo-se dos seus 36 anos de exercício como professor da rede estadual de ensino. Ao saber, da aposentadoria, o governador Dinarte esboçou um sorriso, dando a entender que o astuto e novel juiz de Direito lhe passara a perna.

Alguns historiadores/pesquisadores apropriam-se da história para torná-la oficial, elidindo ou ocultando o papel dos demais protagonistas que, no caso, são condenados ao esquecimento mediante a fragmentação de “fatos” e “verdades.” É um modelo que serve aos objetivos dos “protagonistas” oficiais.

Certas forças autênticas e criativas dos processos históricos são dissimulados por uma narrativa que acentua a ação da vontade de alguns sujeitos privilegiados.

Costumo enfatizar que o historiador escreve fundamentado em documentos oficiais irrefutáveis. Já o memorialista escreve o que quer, na maioria das vezes para agradar as elites dominantes, ocultando, deturpando, e dissimulando, atendendo assim às hostes políticas e partidárias as quais está visceralmente vinculado.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

“Chuva de bala”, um espetáculo para o mundo

Espetáculo deste ano entra em seus últimos dias (Fotos: PMM)
Espetáculo deste ano entra em seus últimos dias (Fotos: PMM)

O Espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró,” que encena o ataque do bando do cangaceiro Lampião a Mossoró, no dia 13 de junho de 19927, entra em sua última semana. As apresentações finais dessa temporada serão quinta-feira (22) e sexta-feira (23), sempre às 21 horas, no adro da Capela de São Vicente. Evento faz parte do Mossoró Cidade Junina (MCJ) 2023.

Além das sessões sempre lotadas, com boa parte formada por turistas, o espetáculo prepara-se para entrar numa outra fase, prometida ainda ano passado pelo prefeito Allyson Bezerra (Solidariedade) – veja AQUI. O Chuva de Bala será apresentado em outras cidades e estados do Brasil, como forma de divulgar a cultura local, o Mossoró Cidade Junina (MCJ) e o próprio município.

Todo feito por artistas mossoroenses e região, a peça – com texto do escritor local Tarcísio Gurgel – foca numa situação histórica local, mas é assentada num tema de interesse e estudo no país e mundo: o cangaço. Historiadores, antropólogos e sociólogos tornam o assunto inesgotável.

Desembargadora reforça projeto do prefeito Allyson (Foto: Wilson Moreno)
Desembargadora reforça projeto do prefeito Allyson (Foto: Wilson Moreno)

“Esse espetáculo deveria ser levado para o mundo. Eu já vi várias vezes, mas esse de hoje teve tudo, de harmonia, beleza, encantamento. Eu nunca vi em canto nenhum do mundo um espetáculo a céu aberto desse jeito. Acho que este ano foi muito melhor do que os outros anos”, afirmou a desembargadora Zeneide Bezerra, do Tribunal de Justiça do RN (TJRN), após assistir o Chuva de Bala nessa última quinta-feira (15).

Magistrados do RN e juízes federais, além do desembargador Leonardo Carvalho, do Tribunal Regional Federal da 5ª região (TRF5), com sede em Recife, exaltaram o conjunto da obra na mesma noite.

“Teremos apoio cultural para garantirmos aos nossos artistas e equipes de apoio, a atividade cênica e profissional por todo o ano, vivendo da arte, do ofício que fazem tão bem e que nos encanta. Mossoró universal”, diz o prefeito ao Blog Carlos Santos. “Depois detalharemos como esse projeto vai se desenvolver”.

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“O cangaceiro do futuro” se prepara para atacar Mossoró

O cangaceiro do futuro - NetflixSe você tem o serviço online de streaming, Netflix, não perca a oportunidade de obter boa diversão, tão necessária nesses tempos de toxidade e pulverização do mal em busca de visualizações/seguidores em redes sociais.

A série “O Cangaceiro do Futuro” é um excelente achado, com produção nacional.

A comédia gira em torno de um personagem – Virguley – que se passa pelo cangaceiro Lampião. E Mossoró é frequentemente citada, pois o enredo está relacionado satiricamente aos dias que antecedem o ataque à cidade, em 13 de junho de 1927.

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“Jararaca”, o Huno da nova espécie

Em 1927, um bando de cangaceiros liderados por Lampião acampava nas cercanias de Mossoró na iminência de uma invasão à capital do oeste potiguar. No calor dos acontecimentos, o jornal O Mossoroense estampava a seguinte manchete: “Os Hunos da nova espécie”, atribuindo ao Rei do Sertão e seu bando a mesma sede de conquista do povo nômade que ficou famoso por conquistar a Europa sob a liderança do Rei Átila.

Cartaz do filme de Augusto Lula, que tem estreia definida para 1º de novembro (Reprodução do Canal BCS)
Cartaz do filme de Augusto Lula, que tem estreia definida para 1º de novembro (Reprodução do Canal BCS)

A invasão de Lampião fracassou, mas deixou para trás uma lenda em torno do mais controverso ‘cabra’ do bando’: o cangaceiro Jararaca. É ele quem personifica o “O Huno da Nova Espécie”, título do novo curta-metragem do diretor natalense Augusto Lula.

O filme será lançado no dia 1º de novembro às 19h30 e 20h, no cemitério de São Sebastião, em Mossoró, e foi finalizado depois de 20 anos do início das filmagens.

José Leite Santana

Quinto projeto autoral do diretor, “Huno da Nova Espécie” traça a transformação do bandoleiro José Leite Santana, o Jararaca, no imaginário popular. Do fim trágico, quando estava sob custódia da polícia e foi praticamente enterrado vivo em uma cova no cemitério, depois de ter levado um tiro no peito e passar a noite na cadeia. Até os dias de hoje, uma figura cultuada pelo povo, a quem lhe atribui milagres.

Jararaca foi soldado raso do Exército, mas largou a instituição em busca de melhoria financeira no banditismo. Com seu conhecimento de artilharia, foi aceito no grupo. Apesar da curta trajetória no bando de Lampião, as circunstâncias de sua morte o tornaram uma figura mística décadas depois.

O túmulo no cemitério de Mossoró é um local de romaria e acredita-se que ele obra milagres, pois se arrependeu de seus pecados no momento antes de sua morte. “Jararaca passou de cangaceiro tido como sanguinário a santo popular. Seus milagres e má fama se confrontam até hoje no imaginário popular”, comenta o diretor Augusto Lula.

Para Augusto Lula, que não aguentava mais “carregar uma corcunda na cabeça “, mostrar a construção dessa devoção popular, da vida e morte, do deus e do diabo, purgatório, inferno e céu e da santificação pelo povo, muitas vezes não se consegue explicar.

Jararaca (centro), capturado e ferido, mas que depois foi executado (Reprodução/arquivo)
Jararaca (centro), capturado e ferido, mas que depois foi executado (Reprodução/arquivo)

“O Huno de uma Nova Espécie” conta com participações especiais da voz de Pedro Mendes e também de Cyro Papinha, ex-apresentador do programa policial Patrulha da Cidade. As imagens e entrevistas foram captadas no Dia de Finados de 2004 2005, 2007 e 2019 no cemitério de São Sebastião.

A produção é de Danielle Brito, e dos assistentes de produção Raquel Lucena, Paulinha Maux e Gustavo Luz. Imagens de Juliano (Steadicam), Augusto Lula e Danielle Brito. A arte em xilogravura é de Erick Lima.

Mixagem e masterização de Jota Marciano. Os textos narrados por Papinha são de Fenelon Almeida e Luís da Câmara Cascudo. A música cantada por Pedro Mendes é a introdução de ‘Sentinela’, de Milton Nascimento e Fernando Brant.

“Foram muitos anos tentando organizar as ideias e o filme não ficou como eu sonhava, mas a vida é muito curta e precisava colocar um ponto final no curta, pois o meu possível encontro com Jararaca no juízo final fica cada vez mais próximo no Dia de lágrimas (Lacrimosa), aquele que ressurgirá das cinzas um homem para ser julgado”, reflete o diretor.

“Portanto, poupe-o, ó Deus misericordioso Senhor Jesus e conceda-lhe a paz eterna, Amém,” finaliza.

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Irresignação perdoada – O Júri de Jararaca

Por Honório de Medeiros

No dia 9 de junho de 2017, a partir das nove horas da manhã, no Fórum Municipal de Mossoró, atuei como advogado de defesa no júri simulado sob a presidência do juiz Breno Valério Fausto de Medeiros, que julgaria José Leite Santana (1901-1927), o notório cangaceiro Jararaca.

Era a comemoração do aniversário da resistência de Mossoró ante o ataque do bando de Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião. A acusação ficou a cargo do advogado Diógenes da Cunha Lima.

Terminados os trabalhos, o Conselho de Sentença houve por bem inocentá-lo por seis votos a um. Segue, abaixo, o texto que norteou minha participação.

Júri de Jararaca aconteceu em 2017 em sala de julgamentos da justiça local (Arquivo)
Júri de Jararaca aconteceu em 2017 em sala de julgamentos da justiça local (Arquivo)

Esta é uma história de perdão, não de julgamento. “Quem tudo compreende, tudo perdoa”, disse-nos Tolstoi, citando Spinoza. Antes, entretanto, peço permissão às senhoras e aos senhores para mergulhar nas águas do meu próprio passado, pois foi aqui mesmo, nesta Mossoró libertária, que eu nasci e cresci, ao lado da Igreja de São Vicente.

Ali ficava a casa de Rodolpho Fernandes, depois a de Alfredo Fernandes e, em frente, a dos Hollanda. Do lado, a de Joaquim Perdigão. Atrás, a de Pacífico Almeida. No final, a de Ezequiel Fernandes. Era o chamado Bairro Novo, escassamente povoado. A todas essas casas dominava a Igreja, à sombra da qual jogávamos bola e brincávamos de bandeirinha, no mesmo chão que foi pisado pelos cangaceiros, dentre eles José Leite de Santana.

Por que estiveram ali? Por que atacaram Mossoró? Compilei quatro teorias.

José Leite de Santana é fundamental para que se entenda a quarta teoria. José Leite de Santana, Ferrugem e Mormaço disseram que Lampião nunca pensou em invadir Mossoró. José Leite de Santana abriu o jogo para Lauro da Escócia. José Leite de Santana quis falar com Rodolpho Fernandes e não deixaram. José Leite de Santana por isso mesmo foi morto.

Mas, como falar em José Leite de Santana sem falar no cangaço? Como falar no cangaço sem falar da época na qual o cangaço aconteceu? Como falar daquela época sem recordar as condições de vida do sertanejo nordestino, fonte de onde o cangaço emanou? Como falar dessa fonte sem entender a crucial diferença entre os resignados e os que não se submeteram? Como abordar essa questão sem perceber que dentre os que não se submeteram estão aqueles que tomaram o caminho do mal, enquanto outros, o do bem? Como não compreender que nem sempre a opção pelo caminho do mal foi algo ao qual se pudesse resistir, tamanha a incapacidade de se ter, nas próprias mãos, o próprio destino?

Esses são os outsiders, os irridentes, os insubmissos, os irresignados, os diferentes, os revolucionários. Esses são o sal da terra, para o bem ou para o mal. Trágico quando é para o mal, como no caso de José Leite de Santana; sublime, quando o é para o bem, como no caso de tantos aos quais devemos nosso avanço enquanto espécie.

O cangaço é a história de rebeldes. Podemos subjugar rebeldes. Podemos condenar rebeldes. Podemos matar rebeldes. Mas não podemos impedir que a memória de suas existências acicate o nosso repouso envergonhado. O cangaço é a história de homens que resolveram se vingar; de homens que não aceitaram serem escravos; de homens que optaram por sobreviver sem lei e sem rei, nos mesmos moldes dos desbravadores dos nossos sertões, numa liberdade absoluta, uma liberdade de fera, a liberdade da qual nos falou Hobbes em “O Leviatã”.

O cangaço foi o último suspiro dos desbravadores do Sertão, aqueles mesmos que disputaram a terra com os índios ferozes, palmo a palmo, sangue a sangue, numa guerra contínua e esquecida do resto do mundo. A guerra dos bárbaros.

José Leite de Santana foi assim. Percebemos isso em seu olhar na célebre fotografia tirada na prisão em Mossoró. Passei muito tempo olhando para a fotografia. Ali não estava apenas o olhar de quem está ferido. Ali estava, muito mais que isso, o olhar de quem foi subjugado à força, mais uma vez. É o olhar de uma fera de quem tiraram sua liberdade. É o olhar de quem vai morrer.

Jararaca teve "pena de morte" decretada e terminou sendo executado (Foto: reprodução)
Jararaca teve “pena de morte” decretada e terminou sendo executado (Foto: reprodução)

José Leite de Santana já nasceu subjugado, e contra essa subjugação lutou até o último instante: nasceu bastardo, pobre, preto e desvalido. Um infame. Infame antes mesmo de ser um homem mal. Não se trata de dizer que o meio fez a escolha dele. Não podemos cair nessa armadilha. Ele escolheu seu caminho. Outros fizeram opções diferentes. O comum dos mortais escolheu vergar sob o peso da escravidão diária. Pagou por isso. Mas antes mesmo da escolha, o destino já o tinha jogado na lata de lixo dos dejetos humanos.

Como julgar José Leite de Santana com os nossos olhos? Um homem que não tinha o que comer, se não chovesse, e não chovia; não tinha médico; não tinha dentista; não tinha transporte; não tinha estudo; não tinha dinheiro; não tinha passado, não tinha presente, não tinha futuro, não tinha nada.

Pois foi este homem, refugo da vida, que nos permitiu levantar um pouco a cortina, o véu que esconde a verdade dos fatos, morreu violentamente e o povo o transformou em herói e o santificou. Herói porque ousou a coragem da loucura ou a loucura da coragem de viver sem lei e sem rei, os últimos deles. Santo porque intercede, lá entre os acolhidos pela infinita bondade de Deus, pelos que sofrem, para assim purgar as dores que causou neste mundo de miséria e sofrimento.

Não é possível ver-se nas intercessões dessa alma torturada a quem o julga lá no Alto, em defesa dos que ficaram para lhes minorar a dor, um pedido de perdão por todo o sofrimento que causou quando vivo.

Não é ele um dos cainitas, dos quais nos falou Herman Hesse, um dos escolhidos por Deus para ser as trevas que valorizarão a luz? Por que não podemos perdoá-lo, se perdoamos São Paulo, padre Cícero, Santo Agostinho, Maria Madalena, São Longino, o chefe dos soldados romanos que, no caminho para a crucificação de Jesus, perfurou o peito dele com uma lança?

Somente a Santa Igreja pode, pelo Princípio Petríneo das Chaves, dizê-lo oficialmente santo. Mas assim como padre Cícero, para o povo, ele já o é. Se o condenamos hoje, condenamo-lo novamente; se o absolvemos estamos a ele ofertando o nosso perdão.

Jararaca: morte em Mossoró (Foto: reprodução)
Jararaca: morte em Mossoró (Foto: reprodução)

RECONSTITUAMOS OS ÚLTIMOS DIAS DE JOSÉ LEITE SANTANA: 13 de junho, final da tarde: é ferido; 14 de junho, pela manhã: é traído por Pedro Tomé; à tarde: concede a célebre entrevista a Lauro da Escócia para o jornal “O Mossoroense”; o ordenança do sargento Kelé tenta lhe arrancar o dedo, para ficar com um anel; 15 de junho: identifica os cangaceiros na foto de José Octávio; 16 de junho: o tenente Laurentino de Moraes viaja para Natal; 17 de junho: o tenente Laurentino volta de Natal; 18 de junho: o laudo cadavérico é assinado pelo Juiz Eufrásio Mário, pelo tenente Laurentino de Moraes e por Dr. João Marcelino; 19 de junho: manda pedir para falar em particular com Rodolpho Fernandes; 20 de junho, naquela noite tenebrosa, às 23 horas, mais ou menos, é assassinado sob a vista dos tenentes Laurentino de Moraes, Abdon Nunes e João Antunes; sargentos Pedro Sylvio, João Laurentino Soares, Eugênio Rodrigues; cabos José Trajano e Manoel; soldados Militão Paulo e João Arcanjo; e pelo motorista Homero Couto.

Coube aos soldados o trabalho sujo, como coube quando mataram Lampião, na degolação de Maria Bonita ainda viva. As volantes eram semelhantes ou piores que os cangaceiros.

Dirá depois Luiz da Câmara Cascudo: “Ferido de morte, acuado como uma fera entre caçadores, impassível no sofrimento, imperturbável na humilhação como fora em sua existência aventurosa e abjeta, herói-bandido, toda a valentia física e a resistência nervosa da raça de índios e dominadores dos sertões, reviviam nele, empoçado no sangue, vencido e semimorto. Aquela força maravilhosa, orientada para o crime, dispersava-se lentamente…”.

Absolvamos o cangaço e perdoemos José Leite de Santana. Ou, melhor, perdoando José Leite de Santana, absolvamos o cangaço.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Câmara Cascudo – o homem, o sertão, o coronelismo e o cangaço

Câmara Cascudo - Grandes Encontros Cariri Cangaço - Honório de Medeiros, Daliana Cascudo, Manoel Severo - 17 de Novembro de 2021O Cariri Cangaço, movimento de cunho turístico, cultura, histórico e científico que reúne os mais destacados historiadores e pesquisadores das temáticas cangaço, messianismo, coronelismo, misticismo e correlatos do sertão do Nordeste brasileiro, tem promovido série de debates no ambiente virtual. Um novo está agendado.

A pauta para essa quarta-feira (17), em seu endereço no Youtube (veja AQUI), é com o tema “Câmara Cascudo – o homem, o sertão, o coronelismo e o cangaço”, a partir das 19h30.

Faz parte do projeto “Grandes Encontros Cariri Cangaço” terá o professor, pesquisador e escritor Honório de Medeiros e a psicóloga e neta do escritor e folclorista Câmara Cascudo, Daliana Cascudo, discutindo sobre a temática proposta.

Idealizador e curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo é o moderador do debate.

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“Jesuíno Brilhante” – o primeiro dos grandes cangaceiros

Novo livro (Foto: BCS)

O escritor Honório de Medeiros oferta-nos um novo trabalho que mexe com as entranhas do sertão, poder, cangaço e coronelismo.

Dessa feita, a sua viagem mergulha no século XIX, para investigar a vida de Jesuíno Brilhante, personagem controvertido da caatinga paraibano-potiguar.

Sem rodeios, escapando de estereótipos e duelando contra o lugar-comum da deificação do personagem-título, Honório de Medeiros nos leva a conhecê-lo, seu tempo e lugar: nosso sertão.

É minha leitura especial da semana.

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A verdadeira face de “Jesuíno Brilhante”

Livro completa trilogia do cangaço (Foto: divulgação)

O escritor Honório de Medeiros lança novo livro. Em tempos de pandemia, ele evita frissons e aglomerações próprios dos lançamentos formais, a chamada ‘noite de autógrafos.

Com o título “Jesuíno Brilhante – O primeiro dos grandes cangaceiros“, Honório apresenta o resultado de um mergulho na vida de Jesuíno Alves de Melo Calado (Patu-RN, 1844; Belém do Brejo do Cruz-PB, 1879), visto como um dos precursores do cangaço – fenômeno do banditismo no Nordeste do Brasil.

O autor foge à reprodução continuada de enredo romanceado sobre a vida de Jesuíno Brilhante, o que tem sido muito comum nas narrativas sobre esse personagem, ao longo de quase um século e meio. Também evita o maniqueísmo narrativo de bem x mal, ou mesmo o julgamento sentencial do biografado.

Trilogia

A publicação tem 309 páginas, arte de capa de Etelânio Figueiredo, prefácio de Vicente Serejo, revisão de Bárbara Lima de Medeiros, ilustração de Gustavo Sobral, projeto gráfico e diagramação de Waldelino Duarte, capa de Heverton R., além de possuir selo da 8 Gráfica e impressão na Offset Gráfica de Natal.

Honório de Medeiros já lançou dois livros anteriormente, com foco na mesma temática, que mistura coronéis e cangaceiros, poder político e das armas no sertão nordestino: “Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins” e “Histórias de cangaceiros e coronéis”. O mais novo livro fecha uma trilogia.

Contato para aquisição do livro: e-mail – mariasenna1958@gmail.com

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Do rústico ao luxo, como era a cozinha do cangaço

Maria Bonita e Lampião tinham vida rústica, com alimentação própria do sertão (Foto colorizada por Rubens Antônio)

Por Adriana Negreiros (para o Nossa – UOL)

Dois dias antes de morrer, na tarde de 26 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, fez uma lista de compras para a temporada que pretendia passar no acampamento na grota de Angico, a cerca de mil metros da margem sergipana do Rio São Francisco. No lado oposto, já no estado de Alagoas, funcionava uma das mais sortidas feiras da região, na linda cidade de Piranhas — localidade que, em 1859, recebeu a visita do então imperador Dom Pedro II.

Entre os itens que constavam da lista havia arroz, feijão, carne seca, farinha, sal, rapadura, frutas e muita, muita bebida. Coube a um jovem de sua confiança, o coiteiro Pedro de Cândido — que, mais tarde, mediante tortura, denunciaria a localização do grupo para a polícia — providenciar o abastecimento.

Como a lista era comprida, serviu-se de um jegue tão logo chegou a Piranhas.

Equipou-o com dois cestos presos à cangalha e lotou-os de mantimentos. Horas depois, Lampião recebia, no conforto de sua barraca, os produtos que compunham a dieta básica dos cangaceiros.

Comida de viagem

Em épocas de deslocamentos, cangaceiros alimentavam-se, basicamente, de carne de sol e farinha. Conservada no sal, a carne resistia às altas temperaturas. Os produtos eram adquiridos nas feiras das pequenas cidades, ocasiões em que Lampião, segundo consta, pagava os preços cobrados pelos comerciantes, sem pechinchar — o choro por um desconto, prática habitual nestes comércios ao ar livre, era evitado por Virgulino.

As compras ficavam guardadas nos bornais, as bolsas típicas dos bandoleiros que até hoje inspiram estilistas. A água, mais difícil de transportar em grandes quantidades, era extraída das raízes do umbuzeiro, típica da caatinga, tida por alguns sertanejos como uma espécie de árvore sagrada. Nos acampamentos, quando havia a oportunidade, abatia-se animais para o consumo de carne fresca.

Bodes estavam entre os preferidos dos integrantes do grupo. Na véspera da chacina de Angico, na qual seriam mortos Lampião, sua companheira Maria Bonita e outros nove cangaceiros, o almoço consistiu de dois bodes assados — e enormes quantidades de cachaça.

Cabra macho na cozinha

Entre os cangaceiros, a culinária não era uma tarefa tida como essencialmente feminina — aqueles eram os anos 30, uma época em que poucos homens frequentavam a cozinha. Mas Lampião e seus súditos estavam habituados a preparar suas próprias refeições desde quando tocavam o terror pelo sertão sozinhos, sem a companhia das mulheres.

De forma geral, após a entrada das cangaceiras no bando, cabia a eles caçar os bichos e, a elas, lavar e temperar. Os cabras reassumiam o serviço no momento de levar as carnes ao fogo.

Bandos evitavam fazer fogueiras à noite e restos de alimentos eram enterrado para despistas volantes (Foto colorizada)

Para não chamar a atenção das forças volantes — os comandos de caça aos cangaceiros — o preferível era cozinhar à luz do dia. Uma fogueira em meio à escuridão poderia denunciar a localização do grupo.

Os bandoleiros também agiam assim porque, após a refeição, ainda haviam de lidar com um trabalho ingrato — abrir profundos buracos no chão para enterrar vísceras, ossos e pele dos animais abatidos. O objetivo era não atrair urubus — o voo das aves agourentas também poderia entregar o ponto exato do esconderijo.

Passarinho ao vinho

Havia ocasiões em que alguns cangaceiros cuidavam de todo o processo. Quando o pouso era confortável — por exemplo, nas fazendas dos coronéis aliados dos cabras — Lampião fazia as vezes de um chef de cuisine.

Quem experimentou assegura que o passarinho ao vinho, uma de suas especialidades, era iguaria de não deixar nada a dever aos melhores chefs da Europa — de onde vinham, inclusive, alguns dos itens mais apreciados pelo cangaceiro, como uísques e perfumes a ele ofertados por políticos e coronéis do nordeste.

Sob nenhum ponto de vista, portanto, o cangaço — fenômeno social complexo e cheio de ambiguidades — comporta uma leitura maniqueísta, da luta entre o bem e o mal. Nem mesmo na gastronomia.

* As fotografias que ilustram esta matéria são, originalmente, todas em preto e branco. Elas ganharam cores pelas mãos do artista e geólogo Rubens Antônio, de Salvador, por meio da colorização digital.

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Honório de Medeiros anuncia 3º livro da trilogia do cangaço

Durante o Carlos Santos – AOS VIVOS! dessa segunda-feira (22), às 21h, em nosso endereço na plataforma do Instagram – //www.instagram.com/blogcarlossantos -, o escritor Honório de Medeiros anunciou seu terceiro livro com a temática do cangaço.

Em breve estará à venda.

Focalizará Jesuíno Brilhante (Jesuíno Alves de Melo Calado, Patu-RN, 1844; Belém do Brejo do Cruz-PB, 1879), cangaceiro romantizado, mas que ele promete revelar por inteiro, em todas as facetas.

“Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins” e “Histórias de cangaceiros e coronéis” foram os outros títulos anteriormente publicados.

Acompanhe a integra do nosso bate-papo no vídeo dessa postagem, em que ele também fala sobre família, política, gestão pública, experiência na docência, adolescência, filosofia, sonhos, direito e jornalismo.

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Os estreitos laços entre o cangaço e o coronelismo

Um dos articulistas perpétuos do Blog Carlos Santos, o professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN Honório de Medeiros prestou significativo depoimento ao pesquisador do fenômeno do cangaço, como ele, Aderbal Simões Nogueira.

O vídeo constante dessa postagem, na íntegra, é o resultado dessa entrevista concedida por Honório a Aderbal, que trabalha como documentarista, tendo o cangaço como conteúdo predominante.

Conexões entre política, coronéis e cangaceiros, personagens que estão interligados no ataque do bando de Lampião a Mossoró, a produção literária sobre o tema, o aprofundamento científico à temática, memórias do grande estudioso (in memoriam) Paulo Gastão, a Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), novo livro que desnudará o cangaceiro Jesuíno Brilhante e outros aspectos subjacentes estão no depoimento.

Não teria havido a invasão de Mossoró se não fosse Massilon (cangaceiro) – dispara.

Honório de Medeiros chegou a escrever um livro tendo esse personagem como foco principal. Porém seu trabalho vai além da historicidade de um bandido, pois avança em outras direções que se interligam.

Formam um quebra-cabeça complexo sobre o poder no sertão nordestino na primeira metade do século passado, bem como os laços entre coronéis e bandos de facínoras.

Aproveite essa ótima entrevista.

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“Jesuíno Brilhante” – O primeiro dos grandes cangaceiros

Honório: cangaço (Foto: arquivo)

Prepare-se.

Em abril próximo, com data, local e horário a serem definidos, receberemos novo livro produzido pelo escritor Honório de Medeiros.

Ele promete desnudar um personagem intrigante e romantizado desde o século XIX: o cangaceiro Jesuíno Brilhante.

A publicação “Jesuíno Brilhante – O primeiro dos grandes cangaceiros” está quase pronta.

Jesuíno Alves de Melo Calado (Patu-RN, 1844; Belém do Brejo do Cruz-PB, 1879) é visto como um dos precursores do cangaço – fenômeno do banditismo no Nordeste do Brasil.

Honório de Medeiros já lançou dois livros anteriormente, com foco na mesma temática, que mistura coronéis e cangaceiros: “Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins” e “Histórias de cangaceiros e coronéis”.

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Cangaço e coronelismo no Rio Grande do Norte

Por Honório de Medeiros

O coronelismo e o cangaço, tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, mais precisamente de meados do século XIX a meados do século XX, são manifestações do Poder, de como ele é obtido, mantido e até mesmo combatido, em intrincada trama, ao longo do processo histórico.

A forma como o Poder é instaurado diz respeito a fatores circunstanciais, tais quais o avanço tecnológico ou cataclismos ambientais, mas a essência, qual seja a presença da imposição da vontade de alguns sobre outros, permanece a mesma desde que o Homem surgiu na face da terra.As narrativas acerca do coronelismo e cangaço devem ser analisadas levando-se em consideração o fator de “ocultamento” próprio da atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, dizer, omitir, acrescer, manipular, enfim, tudo isso e mais, cumprem o papel de narrar como os fatos ocorreram a partir da perspectiva de quem pode impor sua percepção das coisas e dos fenômenos, em detrimento da verdade.

Sempre tratamos o coronelismo e o cangaço pelo “como” os fatos aconteceram, até mesmo de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar acerca de suas causas e intenções e suas relações com o Poder. Quem critica o estudo do Cangaço, mesmo de forma oblíqua, tratando-o como algo menor dentre os epifenômenos da cultura sertaneja, hostiliza a História e não entende o que é o Poder.

Não houve manifestações violentas do Coronelismo no Sertão nordestino sem um entrelaçamento com o banditismo rural; não houve Cangaço sem Coronelismo. Acrescentemos a esses ingredientes o fanatismo messiânico e teremos um ponto-de-partida concreto e verossímil para a real história da época dos coronéis e cangaceiros.

O ponto-de-partida é o cangaceiro, começando com Jesuíno Brilhante, o primeiro dos grandes, a história dos coronéis do Cariri cearense, e a vida do mítico Padre Cícero do Juazeiro.

No Rio Grande do Norte é difusa, porém persistente, a concepção de que seus coronéis eram homens afastados da violência, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Apodi, por Massilon, e Mossoró por Lampião, tratados como “pontos fora da curva”, pouca relevância teve em nosso Estado.

São “esquecidas” as relações dos coronéis com José Brilhante, o Cabé; a do Coronel João Dantas com Jesuíno Brilhante; a invasão de Martins; a invasão de Apodi e sua relação com coronéis apodienses; a invasão de Mossoró e sua relação com coronéis paraibanos e cearenses; a morte de Chico Pereira e sua relação com o coronelismo paraibano e potiguar.

O mesmo ocorre quanto a “hecatombe de 1918” em Pau dos Ferros, verdadeira briga entre coronéis potiguares, semelhante àquelas travadas entre seus congêneres do Cariri cearense.

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, e se constituem em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos, terminando tragicamente na famosa eleição de 1934-1935, na qual houve o assassinato do Coronel Chico Pinto e o de Otávio Lamartine, filho do ex-governador Juvenal Lamartine, e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar.

Todas essas atividades violentas protagonizadas por cangaceiros estão conectadas com o coronelismo. Todas elas são faces da disputa pelo Poder Político.

O cangaço, por si somente, é a história do último suspiro dos desbravadores do Sertão nordestino, nossos ancestrais, aqueles mesmos que disputaram a terra contra índios ferozes, palmo a palmo, sangue a sangue, a ferro e fogo, numa guerra longa, cruel e esquecida por todos. A guerra dos bárbaros.

O cangaço é a história de homens que resolveram se vingar de uma injustiça; de homens que não aceitaram ser escravos e optaram por fazer das armas meio-de-vida; de homens que optaram por sobreviver SEM LEI E SEM REI, em uma liberdade absoluta, uma liberdade de fera, aquela liberdade anterior ao surgimento do Estado, da qual nos falou Hobbes em O Leviatã.

O cangaço é a história de rebeldes, certos ou errados. Podemos subjugar rebeldes. Podemos condenar rebeldes. Podemos matar rebeldes. Mas não podemos impedir que a memória de suas existências nos provoque. Podemos não aceitar os rebeldes, mas podemos tentar compreendê-los, tenham sido cangaceiros, coronéis, ou fanáticos, e em os compreendendo, aprendermos as lições da história.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Encontramos Billy Jaynes Chandler

Por Honório de Medeiros

Em uma quinta-feira do mês de setembro de 2015, publiquei um artigo em meu blog, cujo título é o seguinte: “WHERE IS BILLY JAYNES CHANDLER?” (Onde está Billy Jaynes Chandler’ ?) – //honoriodemedeiros.blogspot.com/2015/09/where-are-billy-jaynes-chandler.html) ainda está lá. Leia.

Nele, eu e minha filha, Bárbara de Medeiros, contávamos o resultado de uma procura intensa por notícias acerca do grande escritor americano que viveu no Brasil e nele escreveu alguns dos clássicos da literatura sertaneja nordestina.

Billy Chandler aos 86 anos (Foto: Família)

Billy Jaynes Chandler é um dos mais importantes escritores acerca do cangaço e coronelismo, fenômenos ligados entre si e característicos de uma certa época da história recente do Brasil. Suas obras Lampião, o Rei dos Cangaceiros, e Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns, são canônicas, seminais, inigualáveis. Recentemente meu filho, que mora no Canadá, por lá adquiriu o Lampião traduzido para o inglês.

Passaram-se os anos, e nada. Nenhuma notícia…

No início deste agosto, quase três anos depois, mais precisamente dia 8, postaram o seguinte texto no espaço reservado aos comentários ao blog (as traduções a seguir são de Bárbara de Medeiros):

“Ginny disse…I was googling my uncle and found this blog from back in 2015. I am Billy Jaynes Chandler’s niece”.(“Estava pesquisando o meu tio no Google e encontrei esse blog de 2015. Eu sou a sobrinha de Billy Jaynes Chandler”).

Eu não li essa postagem. Ocupado com outros interesses, havia deixado o blog um pouco de lado. Por sorte nossa, Ginny também escrevera para meu email:

– “I read uncle bill your blog, translated in English, and it put a smile on his face. He is now 87 and has lost his Portuguese language and has some memory issues. He told me it was ok to reach out to you. Ginny Petersen”. (“Eu li o seu blog para o tio Bill, traduzido para o inglês, e isso colocou um sorriso em sua face. Ele tem agora 87 anos e perdeu seu conhecimento da língua portuguesa e tem alguns problemas de memória. Ele me disse que era ok eu entrar em contato com você.”).

Eu e Bárbara não conseguíamos acreditar. Ficamos muito felizes. Bárbara ficara contagiada com minha admiração por Chandler.

No domingo, dia 11, mesmo mês, tratamos de responder:

– “I am very happy to know that he’s alive! I hope he is well, despite the memory problems. He is a true icon for us Brazilians, who study cangaço and the local culture. Do you know if he has written anything else? I’m sending you a picture of myself with my copy of his book, now a rarety over here. If possible (and I completely understand if any of you don’t feel comfortable) could you send me a picture of him? My daughter helped me a lot in my researches and would love to see it. Thank you for reaching out!” (“Eu estou muito feliz em saber que ele está vivo! Eu espero que ele esteja bem, apesar dos problemas de memória. Ele é um verdadeiro ícone para nós brasileiros que estudamos cangaço e a cultura local. Você sabe se ele escreveu mais alguma coisa? Estou enviando uma foto minha com a minha cópia de um de seus livros, que se tornou uma raridade por aqui. Se possível (e eu entendo completamente se vocês não se sentirem confortáveis) você poderia enviar uma foto dele? Minha filha me ajudou muito nas pesquisas e adoraria vê-lo. Obrigada por nos contactar!”).

Ginny voltou a fazer contato:

– “He did not write any more books, 4 books altogether. I recall while I was growing up, his visits to Brazil. Here is a picture of him last year just after his 86 birthday”. (“Ele não escreveu mais livros, foram quatro ao todo. Eu lembro quando estava crescendo, das suas visitas ao Brasil. Aqui está uma foto dele do ano passado, logo após seu 86º aniversário.”).

Billy Jaynes Chandler ainda jovem nos Estados Unidos, onde teve formação acadêmica e foi professor (Foto: reprodução)

Nós:

– “Thank you so much! He looks great! Do you think I could write a follow-up to my article, now that you have given me the great news that he’s alive? I’d simply mention you have reached out! Maybe I could use the picture? Only if you allow me, of course. Once again, thank you so much for this exchange of messages, you have no idea how much it meant to me and my daughter”. (“Muito obrigada! Ele parece ótimo! Você acha que eu poderia escrever uma continuação do meu artigo, agora que você me deu a ótima notícia que ele está vivo? Apenas se você me permitir, claro. Mais uma vez, muito obrigada por essas mensagens, você não tem ideia do quanto significa para mim e para minha filha!”).

Ginny:

– “You are more than welcome to do a follow-up. Your question to “where is Billy Jaynes Chandler” has been answered. He lives in Miami, Florida with his sister. :) I wish you could talk with him, he just doesn’t remember much, but has strong memories, although unclear, of his time in Brazil. Take care to you and your daughter”. (“Sinta-se à vontade para fazer uma continuação! Sua pergunta ‘Onde está Billy Jaynes Chandler’ foi respondida. Ele mora em Miami, Flórida, com sua irmã. :) Eu gostaria que você pudesse falar com ele, ele apenas não se lembra de muita coisa, mas tem fortes memórias, apesar de incertas, do seu tempo no Brasil. Lembranças a você e sua filha!”. Muito obrigada Ginny.

Estamos enviando esse artigo para você e fazendo a postagem no blog, para que quem puder tenha conhecimento dessa notícia. Ficamos maravilhados em saber que Chandler está vivo.

Torcemos por ele, desejamos que fique muito bem, e lhe enviamos um grande abraço aqui do Nordeste do Brasil, do Sertão que ele conheceu.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do RN

Falece em Mossoró o médico e pesquisador Paulo Gastão

Paulo: grande perda (Foto: Web)

O farmacêutico-bioquímico, escritor e pesquisador Paulo de Medeiros Gastão, 80, pernambucano de origem que se tornou mossoroense por inteiro, faleceu nesta segunda-feira (4). O óbito ocorreu em Mossoró, pela madrugada.

Tinha câncer e estava internado na antiga Casa de Saúde Santa Luzia, unidade da Liga Mossoroense de Estudos e Combate ao Câncer (LMECC).

O velório acontece na capela do Seminário Santa Terezinha. Seu sepultamento ocorrerá às 16h no Cemitério São Sebastião, em Mossoró.

Criador e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), ele escreveu importantes livros sobre o banditismo rural fermentado no Nordeste entre o século XIX e século XX, como “Quem é quem no cangaço”, “Lampião de A a Z”, “O cangaço e a imprensa”, “Jararaca – o cabra valente do Moxotó” e “Geografia do cangaço – nomenclatura”.

Compôs também outras entidades e movimentos culturais, como Fundação Vingt-un Rosado e o Cariri Cangaço.

Nota do Blog – Paulo era uma figura adorável. Inesquecível uma viagem que fizemos juntos há alguns anos, para participação no Cariri Cangaço, entre Crato, Juazeiro, Barbalha e outros municípios cearenses.

Que descanse em paz, meu caro.

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O terceiro turno no mesmo endereço

Por Carlos Santos

Duas polêmicas judiciais no mesmo endereço: O PT. É assim o pós-eleições no Rio Grande do Norte, em torno dos nomes dos deputados federais eleitos Fernando Mineiro e Natália Bonavides.

O primeiro, com questionamento de sua vitória, devido validação ou não de votos de um candidato na Coligação 100% RN, que pode tirá-lo da Câmara dos Deputados (veja AQUI e AQUI).

Natália, por sua vez, às voltas com pareceres técnicos no âmbito do Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RN), que recomendam a desaprovação da sua prestação de contas, em face de supostas irregularidades (veja AQUIAQUI).

Ninguém espere um desfecho para “já”, principalmente do caso de Natália Bonavides. Situação processual deverá levar a demanda para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até chegar em transitado em julgado (quando não cabe mais qualquer recurso), será um longo caminho.

Bom destacar, ainda, que a diplomação gera expectativa de direito; a posse é que consuma o direito propriamente dito para o exercício do cargo.

A guerra jurídica em andamento é, na prática, um terceiro turno que não estava programado, mas que não deve ser interpretado como incomum, pois virou rotina a cada pós-eleição no RN e país.

PRIMEIRA PÁGINA

Ezequiel Ferreira é o presidente que agrada Fátima Bezerra – Por possuir em seu entorno numeroso grupo de deputados, tê-la apoiado no segundo turno e fazer importante trabalho de bastidores, o deputado Ezequiel Ferreira (PSDB) agrada a governadora eleita Fátima Bezerra (PT) para permanecer na presidência da Assembleia Legislativa. Sua vasta experiência também conta muito nessa contabilidade, pois ela precisará de maciço apoio para aprovar importantes matérias na Casa. Mas é bom assinalarmos: o deputado reeleito George Soares (PR) corre com igual sonho de “consumo”.

Detran é cobiçado por pelo menos dois deputados – O comando do Departamento de Trânsito do RN (DETRAN/RN), uma das autarquias com mais papel moeda da estrutura do estado potiguar, é visado por dois deputados: o presidente estadual do PSB e deputado federal Rafael Motta e o deputado estadual George Soares (PR). Esse Detran é uma benção há tempos.

Prefeito Álvaro Dias não tem margem de manobra no erário – O prefeito de Natal, Álvaro Dias (MDB), sabe que margem de manobra para fazer sua gestão avançar está cada dia mais encolhida. Não terá mais a influência de nomes fortes no Planalto, como senador Garibaldi Filho (MDB) e o ex-presidente da Câmara Federal Henrique Alves (MDB). Precisará redimensionar a máquina pública ou em muito breve terá problemas que hoje são comuns ao estado: folha em atraso.

Governadora não abre mão de nomes de sua absoluta confiança – Apesar de estar tentando agradar a setores importantes e segmentos com força de pressão, como a área da Segurança Pública, fazendo escolhas de fora para dentro, a governadora eleita Fátima Bezerra (PT) vai preservar determinados cargos. São postos que não abre mão de escolher diretamente, como o Planejamento. Para a pasta, quer o economista Aldemir Freire, ex-dirigente no estado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Folhas em atraso devem cair no colo de futura governadora – Pelo menos duas folhas de pessoal em atraso podem terminar caindo no colo da futura governadora Fátima Bezerra (PT). Pagar restante de outubro; novembro e dezembro integralmente, além do restante do 13º de 2017 e o 13º de 2018 é algo próximo do milagre nesse finalzinho de Governo Robinson Faria (PSD).

Escola sem partido esconde a verdadeira prioridade do ensino – A arenga doentia que se consolida nas redes sociais, em torno da questão da “Escola sem Partido”, paulatinamente esconde as verdadeiras mazelas do ensino no país. Seguimos na rabeira em termos de qualidade, não para de crescer a evasão escolar e boa parte do alunado que chega à universidade não domina o elementar da própria língua. Precisamos ampliar escola de tempo integrar, qualificar melhor o docente e lutar pela fortalecimento da escola pública na base. Sonho  com  uma estola pública onde o filho do sindicalista da educação estude, em vez de ser levado à escola privada. Onde o filho do doutor um dia vá estudar, tamanho seu padrão de excelência.

EM PAUTA

Cinema – A 5a Mostra de Cinema de Gostoso começou na sexta-feira (23) e será concluída nessa terça-feira (27), à noite. A iniciativa ocorre na Praia do Maceió. Ao todo, o evento terá a exibição de 43 filmes de 14 estados brasileiros, que serão escolhidos pelo público e premiados ao final do evento. O Governo do Estado, por meio do projeto Governo Cidadão e Banco Mundial, é um dos patrocinadores da Mostra.

Nira Lira: escalada (Foto: divulgação)

Nida – A cantora mossoroense Nida Lira está escalada para participar de um dos mais importantes eventos musicais do país, o Fest Bossa & Jazz da praia de Pipa, no município de Tibau do Sul no RN. O evento acontecerá entre os dias 13 e 16 de dezembro. Ela estará acompanhada pelos músicos Pedro Bianchie (guitarrista), Abel Ítalo (contrabaixo) e Lucas Fellype (bateria).

Cangaço – No dia 1º de dezembro, às 15h, no Auditório do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHGRN), em Natal, o professor, escritor e articulista-colaborador desta página, Honório de Medeiros, vai proferir palestra sob o título “Como surgiu o cangaço”, no I Encontro de Cultura e Turismo do RN. Saiba mais informações sobre o evento clicando AQUI.

Band – A Sesi Big Band vai se apresentar em Mãe Luiza em Natal no próximo dia 30, durante as festividades da padroeira do bairro, no Largo da capela Nossa Senhora da Conceição, as 20h30. E no dia 03 de dezembro, o grupo com seus 25 músicos estará no adro da Catedral de Santa Luzia na abertura dos festejos da padroeira Santa Luzia, a partir das 20h. A regência é do maestro Eugènio Graça.

Odaci – Graduado em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura de Mossoró – ESAM, atualmente Universidade Federal Rural do Semi-Árido – UFERSA (1971) e mestre em Botânica pela University of Maine at Orono (EUA), o professor Odaci Fernandes de Oliveira deixou a ciência e a geografia humana mais pobre neste país. Faleceu no final de semana. Que descanse em paz.

Banda H – A Banda H com seu pop-rock selecionadíssimo vai se apresentar no próximo sábado (1º) no Boulevard Central em Mossoró, a partir das 15 horas. Acesso franco para todas as idades.

Brasil 247 – O jornalista mossoense William Robson (ex-Gazeta do Oeste e De Fato) assina nessa segunda-feira (26) artigo no site de abrangência nacional e de esquerda Brasil 247. Ele focaliza aspectos do programa Mais Médicos (veja AQUI).

Biblioteca – A Reitoria da Universidade do Estado do RN (UERN) e a Direção do Campus de Pau dos Ferros dessa instituição vão promover a inauguração da nova sede da Biblioteca Setorial Padre Sátiro Cavalcanti Dantas, no próximo dia 30, às 9h. Justa homenagem, que se diga.

SÓ PRA CONTRARIAR

Quem acredita que governador Robinson Faria vai atualizar a folha de pessoal levante o braço!

GERAIS… GERAIS… GERAIS…

Na Praia de Gado Bravo na cidade do Tibau, onde antes funcionou o New Beach, temos agora a Pousada e Restaurante Casa de Praia. Alta estação promete ser concorrida por lá.

Obrigado à leitura do Nosso Blog Alexandre Cristiano (Brasília),  Anna Ruth (Natal) e  Tomaz Neto (Mossoró).

Veja a edição anterior da Coluna do Herzog (19/11) clicando AQUI.

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Frederico Pernambucano de Mello e ‘Guerreiros do Sol’

Por Honório de Medeiros

“O brio de cristal”

Em 19 de novembro de 2010 debati, com Frederico Pernambucano de Mello, acerca de sua obra-prima “Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço”, sob mediação da escritora Clotilde Tavares, na IIª Feira Literária da PIPA (FLIPIPA).

Debate não é o melhor termo para definir esse encontro. Trocamos ideias, eu como aprendiz, e Frederico Pernambucano de Mello como mestre de todos nós, estudiosos da Cultura e História Sertaneja, ambos pontuados pela inteligência brilhante de Clotilde Tavares, ante uma plateia atenta e participativa.

Todos os livros do mestre são importantes, mas dois são canônicos: “Guerreiros do Sol” e “Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço”.

O primeiro é fundamental, e não há como estudar a cultura sertaneja nordestina sem o ler. Trata-se de obra tão importante quanto, por exemplo, “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, na opinião de muitos.

Discorrendo acerca do banditismo rural no sertão nordestino, lá para as tantas Pernambucano de Mello, em uma Nota Introdutória que compõe a introdução à 5ª edição revista e atualizada, na qual tive a honra de ser citado, observa:

“Num e noutro dos universos rurais nordestinos o banditismo teve lugar. Na mata litorânea como no sertão profundo. É claro que com diferenças. São dois mundos, afinal. Duas culturas. Dois homens. Duas sociedades. O coletivismo da tarefa agrícola domesticou o litorâneo. Afeiçoou à hierarquia e à disciplina, muito fortes nos engenhos de açúcar. O sertanejo permaneceu puro em sua liberdade ostensiva, quase selvagem. A pecuária não veio se cristalizar ali em trabalho massificado. Não embotou o individualismo do sertanejo. O seu livre-arbítrio. Ou a sobranceria. Veio daí o orgulho pessoal exagerado que apresentava. O brio de cristal. As próprias cercas não  chegam ao sertão antes do século passado. A visão do sertanejo era a caatinga indivisa. Com o homem se sentindo absoluto numa paisagem absoluta”.

Talvez alguns não concordem, mas como não se render a essa tessitura finamente composta de “insights” tão precisos quanto envolventes acerca da alma do nosso sertanejo nordestino ancestral?

E prossegue a obra tão densa quanto formalmente atraente, a discorrer acerca da nossa história e cultura comuns, elencando hipóteses, apontando caminhos, propondo soluções, tudo em ritmo forte, que nos exige atenção redobrada e esforço investigativo incomuns para não perdermos o fio-da-meada.

Nela, por exemplo, já se menciona o impressionante tema da estética do cangaço, que viria a ser tema central da obra que pautou o debate.

Mas não somente, claro. Há a teoria do escudo ético, a tipologia dos cangaceiros, a psicologia do homem sertanejo nordestino arcaico, o arcabouço da violência que construiu o habitat próprio do cangaço, a relação seca/economia/cangaço, os fatores que influenciaram o fim desse ciclo tão próprio do nosso Sertão.

“Guerreiros do Sol” recebeu elogios entusiásticos de Gilberto Freyre, em prefácio à primeira edição. De Ariano Suassuna. De Bernardo Pericás. De tantos outros, ao longo do tempo. Todos lhe aplaudindo sua importância singular.

Assim como eu, anônimo, mas que também sei aplaudir.

Violência – Há algo esquecido em sua análise

Por Honório de Medeiros

Em 13 de outubro de 2012 escrevi, e postei, em meu blog, um artigo cujo título era “O que leva o jovem ao crime”.

Nele eu dizia o seguinte:

Uma das conseqüências possíveis relacionadas com a teoria da antropóloga Alba Zaluar, Coordenadora do Núcleo de Pesquisa das Violências (NUPEVI), ligado ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de que apenas a pobreza e a desigualdade social não explicam a ida de jovens para a criminalidade, é dar razão ao senso comum do povo quando clama pelo endurecimento da legislação penal.

A teoria, exposta em matéria assinada pelo jornalista Antônio Góis, da sucursal da Folha de São Paulo no Rio de Janeiro, apresenta como uma das causas do envolvimento de jovens com a violência, a estrutura cultural que induz o surgimento do que ela chamou de “ethos da hipermasculinidade”, ou seja, trocando em miúdos, “a busca do reconhecimento por meio da imposição do medo”.É algo decorrente da chamada “cultura machista”: os filhos homens são criados em ambientes que reproduzem condutas herdadas de desrespeito sistemático às mulheres, aos homossexuais, aos negros, às minorias, enfim, e valorização direta ou subliminar dos ícones da masculinidade distorcida; a música, a tradição oral, o lazer, a literatura, a própria postura passiva das minorias contribuem para a construção desse perfil medíocre e ameaçador.

A antropóloga lembra que “se a desigualdade explicasse a violência, todos os jovens pobres entrariam para o tráfico. Fizemos um levantamento na Cidade de Deus (conjunto habitacional favelizado na zona Oeste do Rio de Janeiro) e concluímos que apenas 2% da população de lá está envolvida com o crime.”

É outra comprovação científica que respalda o senso comum: se apenas a pobreza fosse passaporte para o crime, não haveria Sociedade da forma como conhecemos. Melhor, não haveria tantos ricos criminosos.

De posse do trabalho apresentado por Alba Zaluar talvez pudéssemos pelo menos iniciar a discussão em torno da ampliação das penas no Brasil. Quem sabe instaurarmos a prisão perpétua: não outra punição merece uma quadrilha de assaltantes recentemente presa em São Paulo, todos na faixa dos vinte anos, especializados em condomínios, que se tornaram conhecidos por torturarem suas vítimas, fossem elas novas ou idosas. Prisão perpétua com alimentação, saúde, lazer, tudo pago com trabalho – há tantas estradas para ajeitarmos, Brasil afora, tanta terra para ser arada…

E o maior empecilho, para aumentarmos a dosagem das penas no nosso país, para criarmos a prisão perpétua, é exatamente esse remorso social – quando não é a defesa em causa própria, como por exemplo, o caso dos nossos congressistas, grande parte respondendo algum tipo de processo – hipócrita que nos corrói a capacidade de enxergar o óbvio agora corroborado cientificamente.

Sempre achamos, segmentos da elite, que a criminalidade tinha ligação direta com a pobreza.

Recusávamo-nos a perceber, com o povão, que sofre nas mãos da delinquência e nas mãos da polícia, que não era assim, afinal não se justifica que haja tortura e morte desnecessária em cada assalto realizado: a crueldade é um ritual de passagem na hierarquia do crime, dependente da admiração dos companheiros: quanto mais cruel, mais admirado, quantos mais homicídios, mais enaltecido.

Agora é tempo de ir atrás do prejuízo antes que seja tarde demais: contamos nos dedos as casas e condomínios onde não há cerca elétrica e cães, isolamento e medo.

Fazemos de conta que não há guerra civil em São Paulo e Rio de Janeiro.

Iludimo-nos pensando que o Estado é soberano em algumas áreas das grandes cidades do Brasil.

Em 13 de junho de 2014, voltei ao tema, novamente em meu blog:

“Diferente da corrente majoritária hoje nas análises sociológicas acerca das causas da criminalidade e suas consequências, defendo uma abordagem, acerca do tema, de caráter darwinista. Ou seja, penso que está mais que no tempo de superar a falida postura de atribuir às condições sociais, à pobreza, por assim dizer, o surgimento da criminalidade.

A pobreza não é causa, é um dos ambientes do surgimento da criminalidade.

Para o senso comum, principalmente o brasileiro, é fácil entender essa hipótese: basta acompanhar, diariamente, o noticiário acerca da corrupção. Existe uma lógica perversa, típica, por trás da difusão e aprofundamento dessa manobra diversionista que é atribuir à pobreza o surgimento da criminalidade.

É uma lógica de gueto, secessionista, da qual se apropriam os interessados em usufruir da confusão que ela origina.

Em relação ao reconhecimento desse “ethos da hipermasculinidade”, ou seja, trocando em miúdos, “a busca do reconhecimento por meio da imposição do medo”, a literatura também se manifesta, mesmo que obliquamente, no sentido de reconhecê-la como uma das causas da criminalidade.

Leiam atentamente o trecho a seguir, pinçado de “Maigret hesita”, do genial Georges Simenon, escrito em 1968: ‘É provável que lá também encontrasse um pobre sujeito que havia realmente matado porque não podia agir de outro modo, ou então um jovem delinquente de Pigalle, recém-chegado de Marselha ou da Córsega, que eliminara um rival para se fazer crer que era um homem.’”

Inesperado e surpreendente é encontrar o relato feito por Frederico Pernambucano de Mello em sua obra canônica Guerreiros do Sol, o mais completo estudo sobre o cangaço, um tipo de banditismo rural que medrou no Sertão do nordeste brasileiro desde a metade do século XIX até meados do século XX, quanto ao entusiasmo que as façanhas dos bandoleiros exerciam “entre a flor em botão da mocidade”.

Na obra, Pernambucano de Mello cita Marilourdes Ferraz, festejada escritora de O Canto do Acauã, e sua constatação sobre “o notável poder de sedução que o cangaço exercia sobre os jovens, inclusive os das chamadas “boas famílias”. E complementa apresentando trecho do discurso do deputado estadual pernambucano Maviael do Prado, transcrito no Relatório sobre o ano de 1928, da Repartição Central da Polícia Estadual do Estado de Pernambuco, no qual aquela autoridade discorria sobre o assunto, enfatizando exatamente essa perspectiva.

Ai estão o senso comum e a literatura mais uma vez mostrando de forma inequívoca por qual razão podem e devem ser pontos-de-partida para o conhecimento da realidade social.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do RN

Cangaço, coronelismo e fanatismo são manifestações do poder

Por Honório de Medeiros

O coronelismo e o cangaço, assim como o fanatismo (misticismo) tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, são manifestações do fenômeno do Poder, de como ele é obtido, se instaura  e é mantido em qualquer circunstância.

A forma como o Poder se instaura diz respeito a fatores circunstanciais, mas o conteúdo permanece o mesmo desde que o Homem surgiu na face da terra.

Exemplos que comprovam essa afirmação são quaisquer processos políticos que aconteceram ao longo da história, tais quais os descritos em farta literatura acerca de Atenas, Roma, a Inglaterra vitoriana, ou qualquer outro que seja. A forma se modifica ao longo do tempo em decorrência do avanço tecnológico, por exemplo.

Se antes o Homem combatia com arcos e flechas, hoje usa mísseis teleguiados.

Assim, o coronelismo, o cangaço e o fanatismo são “cases” do fenômeno do Poder próprios de uma determinada circunstância histórica. São semelhantes, em sua estrutura, ao feudalismo europeu e japonês.

As narrativas acerca do coronelismo, cangaço, e fanatismo devem ser estudadas levando-se em consideração o fator de “ocultamento” que é próprio da lógica de atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, omitir, manipular, direcionar os textos, tudo isso e mais, cumprem o papel de impor a lógica dos que podem impor sua percepção das coisas e dos fenômenos.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, é difusa, porém persistente, a concepção de que os coronéis da política eram homens afastados da lide com o cangaço, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Mossoró por Lampião, pouca relevância teve no Rio Grande do Norte.

São “esquecidos” José Brilhante, o Cabé; Jesuíno Brilhante; a invasão de Apodi por Massilon; a invasão de Mossoró por Lampião e Massilon; e a morte de Chico Pereira.

Não se estuda, como deveria ser estudado, a invasão de Apodi por Massilon e sua relação com a invasão de Mossoró por Lampião pouco mais de um mês depois. Bem como não se estuda a participação do coronelato da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte no evento.

E perdemos todos pois, na verdade, em essência, o que se deve estudar quando analisamos fatos históricos como esses, é o fenômeno do Poder, tão onipresente quanto a existência do Homem na face da terra.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Livro conta história de Maria Bonita e mulheres no cangaço

Por Luíza Franco (BBC News Brasil)

Dona de uma “personalidade espevitada”, Maria Bonita – que, em vida, era conhecida como Maria de Déa – era uma mulher empoderada , transgressora, bem-humorada e “um tipo meio canalha”. Mas apesar de estar “à frente do seu tempo”, não se incomodava com a opressão em que viviam suas colegas de cangaço e apoiava que mulheres adúlteras fossem assassinadas.

Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço é o livro lançado por Adriana Negreiros (Foto: Marcos Vilas Boas)

É assim que a jornalista Adriana Negreiros retrata a cangaceira, que acaba de biografar em Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço (Objetiva). O livro conta a história do cangaço dando destaque às mulheres e aos relatos que fizeram sobre como era a vida no bando de Lampião. “Fui percebendo em conversas com pesquisadores do tema como as histórias delas eram desqualificadas”, diz Negreiros.

Maria Gomes de Oliveira (1910 – 1938) era uma dona de casa casada quando começou a namorar Lampião, em 1929, e decidiu juntar-se ao bando no ano seguinte, tornando-se a primeira mulher do grupo. Seria uma das poucas a tornar-se cangaceira por vontade própria – muitas foram raptadas.

Ela acabou morta junto com Lampião e outros membros do bando num ataque das forças de segurança a um acampamento onde pernoitavam. Foi decapitada e, assim como os demais, sua cabeça foi exposta diante da Prefeitura de Piranhas (AL).

O livro também se esforça para desfazer a imagem de Lampião como o “Robin Hood do sertão”, disseminada na mídia e por movimentos de esquerda da época.

Maria Bonita e o bando de Lampião em pose para Benjamin Abrahão; ela era considerada a "rainha" do cangaço

“Ele era aliado dos grandes latifundiários do Nordeste e era amigo de um interventor. O fato de ter passado impune tantos anos se deve à relação que tinha com o poder. Os grandes prejudicados eram os mais pobres”.

Adriana é jornalista e trabalhou nas revistas Veja, Cláudia e Playboy . A seguir, veja trechos da entrevista com a autora:

BBC News Brasil – Como surgiu a ideia de escrever uma biografia de Maria Bonita?

Adriana Negreiros – Sempre tive muito interesse no cangaço. Sou nordestina, do Ceará. Minha família é de Mossoró, a única cidade que conseguiu expulsar Lampião. Isso foi um marco na história do cangaço e é lembrado até hoje.

Assim como muitas mulheres, eu estava vivendo a onda feminista. Minha geração está muito acostumada a ver homens no poder. Muita coisa foi naturalizada e agora estamos questionando. Quis contar a história do cangaço da perspectiva das mulheres. Lampião é uma figura exuberante, mas tinha um monte de mulheres que participaram do cangaço e que foram totalmente ignoradas.

BBC News Brasil – A imagem que tinha dela antes de escrever o livro mudou?

Negreiros – Sim. Tinha uma visão muito mitificada. Quando pensamos nela, imaginamos uma mulher guerreira, que pega em armas. Não sabia que as cangaceiras não pegavam em armas. Havia uma diferença entre o espaço das mulheres e dos homens. Elas tinham uma função doméstica, ainda que não tivessem casa. Quem brilhava no espaço público eram os cangaceiros. Elas eram coadjuvantes. A maioria nem sabia atirar.

Maria Gomes de Oliveira, Maria Bonita (Foto: Benjamin Abrahão)

BBC News Brasil – Em que sentido diria que ela foi uma mulher transgressora?

Negreiros – Diferentemente da maioria das cangaceiras, ela entrou para o bando porque quis. Era empoderada para seu tempo e para aquele lugar. Vivia no sertão, nos anos 1920. Era uma mulher casada, de quem se esperava obediência ao marido. O Código Civil da época previa isso – a mulher precisava de autorização do marido para trabalhar. No entanto, ela era muito infeliz no casamento. O marido era um fanfarrão, não era presente, nem muito viril. Ela se sentia sexualmente insatisfeita com ele. Há indícios de que ela tinha um amante.

Quando ficava de saco cheio do marido, não ia chorar pelos cantos, ia para o forró, dançar. Tinha uma personalidade mais espevitada mesmo. Ela era transgressora do ponto de vista do comportamento, era corajosa nesse aspecto. Era muito bem-humorada, não estava nem aí para o pensassem dela. Não se levava a sério. Se quisessem caçoar dela, ela estava pouco se lixando. (…) Ela falava alto, ria muito, era um tipo meio canalha, gosto disso nela.

Dadá (a cangaceira Sérgia Ribeiro da Silva) também é muito interessante. Foi raptada (pelo cangaceiro Corisco), mas mais tarde disse que o amava. Acho que era uma estratégia de sobrevivência. Se adaptou à situação. Isso deu a ela um papel de protagonismo. Os homens a obedeciam, mas não achavam aquilo muito certo. Mas ela foi uma sobrevivente.

BBC News Brasil – Por um lado, Maria Bonita agiu a favor da própria liberdade. Por outro lado reproduzia o machismo violento dos homens. Dá para dizer que ela era feminista?

Negreiros – Não. Era transgressora, à frente do seu tempo, mas não tinha consciência política, de gênero. Não se mostrava incomodada com a situação de opressão contra as mulheres. O conceito de sororidade passava longe ali. As mulheres não protegiam umas às outras.

O código de conduta era totalmente machista. Uma mulher que cometesse um adultério era morta; o homem, não. As mulheres até incentivavam que as outras fossem punidas. Havia suspeita de que (a cangaceira) Cristina, por exemplo, tivesse um caso com outro cangaceiro. Maria foi uma das que mais apoiou que ela fosse morta, como ela de fato foi.

Corisco e Dadá: A cangaceira foi raptada e estuprada por ele. No bando ela ganhou maior espaço (Foto Benjamin Abrahão)

BBC News Brasil – A imagem que se tem dela é que entrou para o cangaço por amor a Lampião. Acha que foi isso mesmo que a motivou?

Negreiros – Amor é demais. Nem conhecia bem ele. Mas ele era a grande celebridade naquela época. Era um astro, um machão, tinha dinheiro, era um valentão. Do lado dele ela se sentiria segura. Isso tudo a atraiu.

(O escritor) Ariano Suassuna fala que eram figuras extraordinárias, almas grandes. Ele tem admiração especialmente pela Maria. Ele fala que acha que ela se apaixonou por um cara que era um rei, um homem que iria salvar ela daquela vidinha pequena, de um marido que não dava conta do recado, que não dava atenção a ela. Uma vida à mercê de uma série de violências. Viu a possibilidade de segurança e notoriedade ao lado dele. Isso foi virando um sentimento que podemos chamar de amor. Era uma relação afetuosa.

BBC News Brasil – Você diz no livro que, durante a pesquisa, viu que os relatos das mulheres sobre o cangaço eram constantemente questionados. Como era isso?

Negreiros – Isso me chocou muito. Fui percebendo em conversas com pesquisadores do tema que as histórias delas eram desqualificadas. Muitas delas entraram no cangaço não porque quiseram, mas porque foram obrigadas. Foram raptadas. Não foi uma opção. Eu comentava com as pessoas essas questões que muito me chocavam – de abandono dos filhos, por exemplo (após darem à luz, mulheres do cangaço eram obrigadas a entregar os filhos para outras famílias) – e ouvia as pessoas relativizando, dizendo “será que foi isso mesmo”?

Maria Bonita penteando cabelos de Lampião, durante documentário sobre o cangaço (Foto Benjamin Abrahão)

Dadá, por exemplo, foi raptada pelo Corisco, mas as pessoas diziam que não era bem assim. Eu pensava “como uma menina de 12 anos vai escolher ser raptada, estuprada e ir morar no mato, passando fome e sede, sem nunca mais ver os pais?”.

Quer dizer, mesmo quando elas têm voz (Dadá deu muitas entrevistas depois de deixar a prisão), a voz delas é silenciada, sobretudo quando diz respeito a violências que sofreram. Essa é uma lógica que persiste até hoje.

BBC News Brasil – E muitas delas eram ignoradas nas narrativas da época…

Negreiros – Sim. Li praticamente tudo que foi publicado sobre o cangaço. Tem muita coisa escrita por pessoas que viveram o cangaço. Nos relatos, as mulheres sempre são tratadas de uma forma meio escrota. Fui juntando tudo, um trabalho de garimpo, mesmo.

BBC News Brasil – Deve ter sido difícil juntar tudo e fazer um retrato da Maria. Fez uma interpretação própria?

Cristina foi morta por suspeita de traição; Maria Bonita defendia execução sumária dela (Foto: Benjamin Abrahão)

Negreiros – Sim. As questões que me incomodaram acabaram conduzindo o trabalho, especialmente essa questão do descrédito. Resolvi assumir a versão delas.

BBC News Brasil – É isso que quer dizer quando fala que o livro é feminista?

Negreiros – Sim, quis olhar pelos olhos das mulheres, acreditar na versão delas. Também tentei deixar muito claro as estruturas de opressão que atuavam no cangaço.

BBC News Brasil – No imaginário coletivo, cangaceiros são vistos como Robin Hoods do sertão. O livro faz questão de desmontar isso.

Negreiros – Movimentos sociais tentaram vê-los como revolucionários, como se tivessem consciência da distribuição equivocada da propriedade privada, mas não tinham. Lampião queria ser coronel. Ele falava nas entrevistas “quero ser fazendeiro, governador”. Não queria organizar um movimento de camponeses oprimidos. Essa é uma ideia equivocada.

OS POBRES FICAVAM NO MEIO DO FOGO CRUZADO. Eram vítimas dos cangaceiros e das forças volantes (polícia). Não tinham para onde correr. Uma pessoa que tivesse sua casa visitada por cangaceiros tinha que obedecer e depois passaria a sofrer represália da polícia porque era “amiga de cangaceiro”. Não tinha isso de que distribuíam dinheiro. Eventualmente, Lampião fazia agrados porque era um gênio das relações públicas, mas era para ter simpatia de determinada região e ser protegido.

Nos filmes há imagens deles entrando nas cidades e jogando coisas para o alto. Eles podiam até fazer isso, entrar tirando coisas do corpo, mas era pra se livrar de peso. Lampião não tinha a menor consciência de classe. Não tenho dúvida de que, se tivesse um aliado que fosse um grande latifundiário e que tivesse um problema com um pequeno produtor, ficaria do lado do latifundiário. Não diria (vou ficar do lado dos) “meus colegas pobres, oprimidos”. Além disso, era um cara racista. Odiava negros.

As cangaceiras Nenê, Maria Jovina e Durvinha em foto de Benjamin Abrahão

BBC News Brasil – Por que a esquerda não via isso?

Negreiros – Não é tão preto no branco. Apesar de Lampião ser aliado dos latifundiários, de o cangaço ser um banditismo rural, é um movimento de insurreição.

Hoje, o sertão é região esquecida. Imagine naquela época. Ninguém tinha olhos para o sertão. A vida do sertanejo não era fácil. A perspectiva era ter uma plantação, torcer para que chovesse. Uma vida condenada àquilo. Ou (a pessoa) se conformava de que aquela era sua sina ou se rebelava contra isso. De alguma maneira, o cangaço tem na sua gênese certo componente de insurreição.

Frederico Pernambucano de Mello (pesquisador do cangaço) chama de “irredentismo”. A coisa do “vou ser meu próprio rei, farei meu próprio destino”. Isso não torna as coisas muito claras. Não é fácil perceber onde começa a questão social e termina a necessidade de ficar rico ou o desejo de ser maioral do sertão.

BBC News Brasil – No livro, você narra estupros, mulheres que eram marcadas como vacas só por usarem cabelos curtos, assassinatos por motivos fúteis, capação. O grau de violência que eles cometiam te surpreendeu?

Negreiros – Sim, surpreendeu. Era uma coisa patológica. A região é muito violenta e era uma coisa muito naturalizada. Em relação às mulheres, eram tratadas como propriedade, como se fossem vacas. Teve uma cangaceira que depois de morta teve a vagina arrancada. O cangaceiro ficou carregando aquilo na bolsa.

"Apesar de Lampião ser aliado dos latifundiários, é um movimento de insurreição", diz autora (Foto: Benjamin Abrahão)

BBC News Brasil – Viu paralelos com o Brasil de hoje?

Negreiros – Me parece ter certa semelhança com tráfico de drogas no Rio. A política do terror inspira confiança por meio do medo. Ao mesmo tempo, espalha o terror. E na ostentação também. Não faziam questão de se esconder. Traficantes também estão sempre muito armados, com ouro. É um poder paralelo. E as pessoas recorriam aos cangaceiros para resolver conflitos, às vezes até antes de procurar a polícia. A corrupção policial – os policiais vendiam armas para cangaceiros.

P.S do Blog Carlos Santos – Adriana Negreiros é de origem mossoroense e casada com o também jornalista e escritor cearense Lira Neto, autor de livros como a trilogia “Getúlio” (sobre Getúlio Vargas).

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Intelectual – a síndrome de Rolando Lero

Por Honório de Medeiros

Parte dos nossos intelectuais sofre da Síndrome de Rolando Lero.

Consiste isso em explicar o passado a partir de suas crenças pessoais, alterando a explicação conforme surjam obstáculos fáticos ou racionais de natureza relevante, que os levam a adaptá-la para assegurar sua sobrevivência (da explicação).

É como quando o marxismo pretendeu explicar o cangaço enquanto luta de classes.

Ou como quando a antropologia política explicou as sociedades indígenas sem estado enquanto sociedades primitivas.

Ou, ainda, como quando a psicanálise fundamentou sua teoria exclusivamente no complexo de édipo e electra.

O verdadeiro conhecimento é aquele que propõe hipóteses acerca do futuro, fazendo predições ousadas que, uma vez concretizadas, assegurarão a validade e a relevância do pensamento do intelectual que as elaborou.

Dizer por qual razão se ganhou ou perdeu essa ou aquela eleição é tarefa inglória, dada a impossibilidade de se dispor de todas as variáveis envolvidas no processo analisado.

Digam-me quem vai ganhá-las, daqui para a frente.

Isso é ciência. O resto é lero.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Cangaço na região Oeste do RN

Por Marcos Pinto

Em  15 de  Abril de  1925, com  o  seu  eleitorado  sofrendo  contínuas  ameaças  veladas,  chibateamentos  e  tropelias  praticadas  pelos  jagunços  de  Décio  Holanda  e seu  sogro  Tilon  Gurgel,  deliberou  o  Coronel  João Jázimo Pinto  ir  até Natal  para, em  audiência  com  o  governador  Dr.  José  Augusto  Bezerra  de  Medeiros, narrar-lhe  a  triste  situação de  apreensão   pela  qual  estava  padecendo a  grei  Apodiense, com  as  frequentes  incursões  da  jagunçada  comandada   pela  satânica  dupla,  na  cidade,  e  nos  sítios  pertencentes  aos  eleitores  da  sua  facção  política  pacifista.

Após  minuciosa  exposição  feita  pelo  Cel. Jázimo,  o governador  prontamente  enviou   para  a  cidade  de  Apodi  um  contingente  policial  formado  por  40  praças, comandada  pelo  respeitado  e  temido  Capitão  Jacinto Tavares  Ferreira, onde  ficou  aquartelada.

Casa de Quincas Saldanha (Foto: reprodução)

No dia  imediato  à  sua   chegada, o  Capitão  Jacinto  fez  uma  varredura  no prédio/sobrado  pertencente  ao Sr.  Martiniano  de  Queiroz  Porto (Natural do Ceará), truculento  capitalista  que  compunha  a  virulenta  facção política   oposicionista  comandada  por  Tilon  Gurgel, Sebastião  Paulo  Ferreira  Pinto, João  de  Deus  F. Pinto, Juvêncio  Barrêto,  e  os  irmãos  Benedito  Saldanha  e  Quincas  Saldanha.

Na  incursão  feita  à  residência  do  Martiniano, foram  encontradas  farta  munição e  30  fuzis, razão  pela  qual  despertara a  atenção  do  Capitão  Jacinto  para  a  possibilidade  de que  o  mesmo  estava  intentando  formar  milícia particular.  Martiniano  tinha  um jagunço  que  residiu  muitos  anos  com  ele  e  que atendia  pelo  nome  de  Júlio  Porto, que  em 1927  já  integrava o  bando  de  Lampião, quando  este  acoitou-se  na  fazenda  Bálsamo, no  Pereiro-CE, preparando-se  para  os   ataques  à  Apodi  e  Mossoró.

Há  quem  afirme  que  a  fazenda  “Bálsamo”  tinha  uma  parte  que  pertencia  a José  Cardoso.

Com  a  atuação  de  eficaz  comando  e  vigilância  do  Capitão  Jacinto, que  os  celerados  Benedito  e  Quinca  Saldanha  referiam-no   como sendo  “O Jacintão”,(Pela  estatura elevada) os  sicários  Juvêncio  Barrêto  e  Martiniano  Porto  mudaram-se  do  Apodi,(Final de Maio  de 1925). O  primeiro  voltou  para  Martins, de onde  era  natural,  e  o segundo fixou  residência  em  Pau  dos  Ferros-RN, onde  o  seu  genro  Dr. José  Vieira  era  o  Juiz  de  Direito  da  comarca.

Sentindo-se  coibidos  na  prática  contumaz  da  intimação, a  horda  virulenta  comissionou  a  Tilon  Gurgel  e  a Benedito  Saldanha  para  parlamentarem  com  o  governador, sob  a  falsa  alegativa  de  que  a  força  policial  estava  a  causar transtornos  na  região  do  Apodi, cuja  arguição  visava  retirar  a  força  policial  sediada  em  Apodi.

Quando  encontravam-se  em  audiência  com  o  governador, recebem  telegramas  informando-os  da  ocorrência  do  “Fogo de Pedra de Abelhas”. Na  manhã  do  dia  12  de  Maio  de  1925  a  tropa  policial  dirigiu-se  até  a  povoação  de “Pedra  de  Abelhas”, objetivando  efetuar  as  prisões  de  Décio, Tilon  Gurgel  e  toda  a  jagunçada.

Antes  da  força  policial  chegar  ao  seu  destino, já  Décio  e  Tilon  eram  sabedores  de  que  o  contingente  estava  vindo  aos  seus  encontros,  por  mensageiro  enviado  por  Martiniano  Porto  e  Sebastião  Paulo.

Massilon: com Lampião (Foto: reprodução)

Quando  Décio  Holanda preparava-se  para  debandar  com  seus ” cabras”, empreendendo  fuga rumo  ao Ceará, eis  que  surge  a  tropa  policial, travando-se  cerrado  tiroteio, no  lugar  “Barrocas  do  Boqueirão”, culminando  com  a   desesperada  fuga  da  jagunçada no  rumo  do  rio  Apodi,  situado  nas  imediações.

Na  ocasião  do  embate, morreu,  afogado, um  “cabra”  de  Tilon  Gurgel, de  nome  Mamédio  Belarmino  dos  Santos, da família  dos  “Caboclos”,  do  sítio  “Brejo  do  Apodi”. Após  este  entrevero bélico,  a  tropa  policial  retornou  ao  Apodi,  com  a  missão  de  retornar  no dia  seguinte, o que  não  se  efetivou  pela  informação  concreta  de  que  o  grupo  armado  do  Décio  se  homiziara  no Ceará.

Depois  desta  ocorrência coibitiva, a  paz  voltou  a  reinar  naqueles  rincões, mas, por  pouco  tempo, pois  em  10  de  Maio  de  1927  o  Tilon  Gurgel  arquitetou, via  Décio  Holanda,  o  ataque  de parte  do  grupo  de  Lampião ao  Apodi, comandado  por  Massilon, cujas  minudências  serão objeto  de  outro  artigo.

Marcos Pinto é advogado e escritor