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João, o missivista

Por Marcelo Alves

O rei João da Inglaterra (1166-1216) restou conhecido na história pelo apelido – depreciativo, por sinal – de João Sem-Terra. Paciência. Dizem haver merecido.

João era natural da bela e erudita Oxford e o filho mais novo do rei Henrique II (1133-1189) e da rainha Leonor da Aquitânia (1122-1204). Assim, de logo, tinha poucas expectativas de herdar grandes possessões de terra. Entretanto, tornou-se o filho favorito do pai por ficar ao lado deste nas rebeliões encetadas pelos irmãos mais velhos.Carta Magna - manuscrito na Inglaterra

Destes, Guilherme, Henrique e Godofredo morreram jovens. Foi seu irmão Ricardo (1157-1199), o Ricardo Coração de Leão, que virou rei em 1189. João conspirou sem sucesso contra o rei do “coração de fera” quando este estava na Terceira Cruzada.

Com a morte do rei Ricardo, em 1199, João finalmente assume o trono. Mas João perdeu muitas terras, localizadas sobretudo na Normandia francesa e arredores, para o rei Filipe II de França (1165-1223), dito (elogiosamente) Filipe Augusto. Isso, claro, fortaleceu em demasia a dinastia dos Capetos de França e, por sua vez, enfraqueceu bastante o Império Angevino ou Plantageneta inglês. João mereceu o infame codinome.

De toda sorte, a fama de João Sem-Terra, uma moderada boa fama in casu, reside também em sua participação em um momento estelar do direito e da ciência política como um todo: a assinatura da Magna Carta (também chamada de Magna Carta Libertatum ou Grande Carta das Liberdades), em 1215.

Originalmente escrita em latim e conhecida, no Brasil e mesmo no mundo de língua inglesa, pelo seu nome latino, a Magna Carta é sem dúvida um dos textos/documentos mais importantes da história do direito e, por que não dizer, da Humanidade. Segundo conferi certa vez na British Library, não há evidências de que apenas um único original da Magna Carta tenha sido produzido e oficialmente firmado em 1215 e, dos muitos “originais” da Grande Carta produzidos à época (sendo guardados em lugares supostamente seguros, como catedrais, abadias etc.), apenas quatro sobreviveram, achando-se dois desses no museu da maravilhosa Biblioteca Britânica.

Os outros dois exemplares estão nas cidades inglesas de Salibury e Lincoln.

A Magna Carta, é verdade, teve como inspiração e modelo a anterior Charter of Liberties, de 1100, na qual o rei Henrique I (1068-1135) voluntariamente reconheceu que seus poderes estavam limitados pela lei. Mas, quando falamos da Magna Carta, nos referimos, precisamente, ao documento de 1215, que foi várias vezes emendado nos anos subsequentes (1216, 1217, 1225 e por aí vai), por diferentes monarcas, sendo a versão de 1297, eventualmente, a que restou assentada nos livros pertinentes à legislação da Inglaterra e do País de Gales.

Na época, a Magna Carta foi uma solução prática para um contexto em que o rei inglês estava em conflito com a Igreja e com boa parte dos barões do Reino e enfraquecido pelas desastrosas campanhas militares no que hoje é a França. Por pressão dos barões, a Carta exigiu do rei João Sem-Terra (que teve sempre sua legitimidade ao trono inglês contestada pela forma como a ele ascendeu após a morte do rei Ricardo Coração de Leão) e, por consequência, dos monarcas subsequentes que respeitassem certos direitos e procedimentos legais, deixando claro que a vontade do monarca não era absoluta, estando sujeita ao direito.

Diz-se, por exemplo, estar na Magna Carta a origem do instituto do habeas corpus. Ela, pelo menos implicitamente, garante a expedição dessa ordem para o caso de prisão ilegal. Entretanto, não resta dúvida de que a Grande Carta foi um dos primeiros passos dados no caminho que levou ao surgimento do constitucionalismo moderno, sobretudo nos países de língua inglesa, como a Inglaterra e os Estados Unidos, bastando lembrar sua repercussão no Bill of Rights americano e na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Alguns de seus artigos e parte da introdução, inclusive, ainda estão tecnicamente em vigor no contemporâneo direito inglês.

O tal João, embora “sem-terra”, foi um grande missivista.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Eles são resultado do que somos

Lista do procurador Geral da República, Rodrigo Janot (veja AQUI), revela o que para mim é óbvio há tempos: o sistema político do país está imerso na lama, com PT, PSDB, PMDB e cia.

Estamos ferrados. Literalmente. Particularmente, acredito que vivemos um período divisor de águas, mas não sairemos desse estágio químico-moral para o vinho da decência logo ali, daqui a pouco.

A elite política do Brasil trabalha, unida, para que tudo termine em pizza. É provável que consiga reduzir sobremodo seu prejuízo.

Anote.

Nos três poderes da República há conspiração para que essa máquina corrupta e corruptora não seja descarrilada. A Constituição não é a Carta Magna ou Lei Maior dessa súcia, que aqui e ali a enxovalha conforme seus interesses.

Continuará assim, num menor grau, talvez. Talvez.

Se houvesse realmente uma limpeza, a enorme maioria dessa gente seria expurgada da vida pública e empurrada pro xilindró, o que claramente não vai acontecer.

De minha parte, não tenho esperança alguma que tenhamos uma higienização na política. Haverá um faxina cosmética, insisto.

Contudo vejo que a Lava Jato ligou o desconfiômetro em muita gente e colocou a sociedade sob alerta. Nada será como antes, mas é tolo pensarmos que tudo será diferente daqui em diante.

Enquanto a sociedade não mudar, não evoluir pela educação/discernimento e pela independência econômica, sabendo o que quer, continuaremos reféns dos espertalhões.

Eles aprenderam a gostar e usar a política, manipulando àqueles que vomitam por aí que a detestam. Os sabidos vão seguir dominando os que pensam ser inteligentes.

O analfabetismo político nos condena à dominação. O lado negro daquilo que em seus primórdios era definido como “a arte do bem comum”, continuará dando as cartas.

Vendo um curto vídeo de gente “de bem” parando carros na BR-304 ontem à tarde, no trecho Mossoró-Assu, para recolher dinheiro alheio e socar em seus bolsos, bolsas e paletós, após um assalto (veja AQUI) a carro forte, reforça o que penso sobre o político e a sociedade.

Eles são resultado do que somos. Nada mais.

Sem trocadilho… bola para frente!

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O “puxadinho” bancado pelo STF para proteger um réu

Que país é esse?

O homem mais importante da República é um réu: senador Renan Calheiros (PMDB-AL).

O mesmo que trata magistrado por “juizeco”, desdenha ordem judicial e coloca o Supremo de joelhos a seus pés.

Nesse último caso, com razão.

O Supremo Tribunal Federal (STF) não se deu ao respeito.

A maior Corte brasileira conseguiu o feito acrobático de retirar uma das prerrogativas do presidente do Senado, que é fazer parte da linha de sucessão do presidente da República, sem ejetá-lo do cargo (veja AQUI).

Sem atestado de bons antecedentes, o cidadão comum não toma posse no serviço público. Mas com prontuário rico, um senador requisita o Supremo para ser endossante da impunidade, em vez de “guardião da Constituição”.

Depois do “puxadinho” bancado pelo próprio STF na chamada Carta Magna, visto por Renan como “patriótica decisão” e não uma decisão legal (que deveria ser o correto), vale tudo.

Desisto.

Vou para a Manchúria.

Pobre Brasil!

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Estado democrático de exceção

Por François Silvestre

Não se compara, nem de longe, com a exceção das ditaduras; vez que não há repressão política nem restrições à cidadania.

O tipo de violência que vivemos é de outra natureza, mesmo que a incompetência política seja causa também dessa outra deformação.

Trato aqui da exceção institucional. Quando a Ditadura de 64 exauriu-se, apodrecida na lama de sangue que promoveu, quis fugir do banco dos réus. E o fez negociando com ex-aliados que abandonavam o barco e com antigos inimigos que tinham pressa em abocanhar o poder.

Uma aliança dessa natureza não poderia produzir uma ordem institucional séria nem duradoura. E foi o que ocorreu. Uma constituinte, desfigurada pelo congresso constituído, para redigir a Carta Magna das Corporações. É isso que é a Constituição de 88. Tão confusa e malabarista que todos a descumprem e encontram nela mesma fundamentação para o descumprimento.

E provam “constitucionalmente” que agem na forma da “ordem constitucional”. Tudo embuste!

Aliados antigos e beneficiários do regime decaído assumiram o comando da transição. Hoje, são os seus descendentes e os descendentes dos seus liderados que mandam e desmandam.

Para assegurar sossego ao domínio dessa desordem foi escancarada uma porteira para o estouro das corporações. Castas elevadas à condição de inalcançáveis pelos poderes tradicionais. Se há uma coisa que necessita de tradição é a prática democrática. No Brasil, inovou-se para pior. Negou-se a tradição inaugurada em 1946 e recriou-se a cavilação. Da esperteza nobiliárquica do legalismo, do bacharelismo e do corporativismo “meritocrático”.

Sem falar na manutenção do Jaboticabal da vitaliciedade por força de indicação política. A vitaliciedade só se justifica e se legitima na Magistratura. Só. Fora disso, é contorcionismo cretino das corporações.

Repito o que já disse aqui: O constituinte de 88 salvou sua biografia ao prever, no Ato das Disposições Transitórias, uma reforma geral da Carta após cinco anos da sua promulgação. Seria a forma de corrigir equívocos e chamar à ordem o feito que produziu um monstrengo ao calor do afogadilho. Essa reforma recolocaria a redemocratização nos eixos.

Porém, os mesmos que aí estão, ou por seus descendentes, não quiseram fazer a reforma prevista. São os atores da mesma peça bufa, da mesma burlesca encenação. Em não sendo feita a reforma, chegou-se à senilidade institucional.

Tudo desaguado nessa democracia de cangalha. Estado Democrático de Exceção. Basta ver a excrescência jurídica de tudo ser resolvido pelo Supremo.

Confissão pública dos outros Poderes da incapacidade atributiva. O País entregue ao quem sabe e ao talvez. Só uma Constituinte Originária revogará a exceção e implantará o Estado Natural Democrático de Direito. O resto é salamaleque.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.