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Pequeno burguês de esquerda

Foto: I Stock
Foto: I Stock

Por François Silvestre

Certa vez, um comentarista do Blog Carlos Santos, pensando me agredir, chamou-me de ex-comunista. Eu respondi confirmando, para desencanto dele. Disse, na época, que concordava com a afirmação. E que fora de fato comunista, ou pelo menos pensava que o fora.

Digo que pensava porque havia quem não me considerasse como tal. Isso mesmo. Os comunistas tradicionais, da cartilha stalinista, nunca me consideraram comunista. À exceção dos quadros do PCR. Nomes importantes da resistência democrática. Lembro agora Emmanoel Bezerra, Manoel Lisboa, Leonardo Cavalcanti, Dionary Sarmento. Os dois primeiros mortos sob tortura, os outros dois presos e torturados. Mas isso é outra história.

O certo mesmo é que o comunismo sino soviético foi uma tragédia fantasiada de alternativa. Tragédia não apenas pela prática da violência, mas pelo delito histórico de ter ofertado ao capitalismo a bandeira das liberdades fundamentais. Presente indevido a presenteado imerecido. O capitalismo foi e sempre será o regime da exploração humana.

Toda crítica do capitalismo à violência, à opressão, e à miséria é tão somente um estuário de hipocrisia e farisaísmo. Hipócritas e exploradores da condição humana. O sinosovietismo deu ao capitalismo sobrevida e argumentos. Mas não conseguiu lhe dar vergonha.

O comunismo morreu para o capitalismo continuar matando.

Então, isso dito, reafirmo como verídica a crítica dos stalinistas sobre mim. De fato eu sou o que eles disseram que eu era. Apenas um pequeno burguês de esquerda. Ou como disse Ângelo da Costa Neto, filho de seu Luis Lino, sou um esquerdista cervegista. Não consegui até hoje enxergar dignidade humana no capitalismo.

É isso aí.

François Silvestre é escritor

Para evitar populismo, capitalismo terá que evoluir

Por Ney LopesFome, mãos com pão, flagelo, pobreza

Uma questão em debate no mundo é o futuro do capitalismo, que é um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e sua exploração com fins lucrativos

Nos últimos anos, surgiram várias ideias e propostas para renovação do capitalismo, que vem sofrendo desgastes. A questão mais delicada é o aumento das desigualdades sociais.

Em alguns países, essa lacuna está cada vez mais ampla. O Brasil é um deles.

Vejamos alguns números, baseados no índice de Gini, criado pelo matemático italiano Conrado Gini como um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo.

O índice aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos.

No Brasil, a pobreza atinge 31,6% da população no Brasil, diz IBGE

O rendimento médio mensal per capita dos 10% mais ricos é também 14,4 vezes maior do que os 40% mais pobres. Por outro lado, mais de 7,5 milhões de pessoas vivem com renda domiciliar per capita inferior a R$ 150 por mês. Incrivelmente neste contexto, quem ganha menos paga mais impostos no Brasil

Entre os 5% mais pobres, a renda média mensal per capita foi de R$ 87 em 2022. A despeito do valor abaixo de R$ 100, esse resultado representa uma expansão de 102,3% em relação aos R$ 43, de 2021 (a preços de 2022).

Os dados estatísticos indicam que os 10% mais ricos no Brasil, que em 2019 concentravam 58,6% de toda a renda nacional, agora detém 59% dos ganhos. Já a metade da população mais pobre representa uma fatia de 10%.

O 1% mais rico do Brasil, formado por 1,5 milhão de pessoas, controla quase 25% da renda total do país.

Não se trata em absoluto de “demonizar” a riqueza. Apenas, conciliar as ações, de modo que o próprio crescimento da economia seja pensado como um crescimento também pró-pobre.

Ou seja, um crescimento, que puxe a renda da base ao invés de beneficiar essencialmente o topo, como vem ocorrendo.

É sem lógica a afirmação de que a riqueza vem do trabalho e a pobreza de quem não quer trabalhar. Essas situações existem, mas não são regra geral, nem podem servir de orientação única para os governos.

As pessoas e empresas precisam de medidas de sucesso, que não sejam simplesmente o lucro e crescimento.

O capitalismo injusto põe em risco a democracia. Abre espaço para o populismo inconsequente, que cresce diante das contradições da sociedade.

Não há milagre nas finanças públicas, como igualmente não há nas finanças privadas.

Aumentar a progressividade da tributação – ou seja, cobrar mais de quem ganha mais – é uma das medidas necessárias para promover a distribuição de renda.

Os países da OCDE, templo do capitalismo mundial, agem assim.

Para resolver o problema fiscal, o Brasil precisa ter redução de gastos, realocação de gastos, mas também aumento de arrecadação. Para evitar o aumento de carga tributária, realmente já elevada, que seja cobrado imposto de quem está pagando pouco.

Há bilionários no mundo, quer têm uma associação e pensam assim.

Carol Winograd e seu marido, Terry, são exemplos na Califórnia. Ela declarou:

“Acho que milionários e principalmente bilionários têm mais para dividir, enquanto há muita gente que tem menos do que precisa. Os recursos precisam ser divididos melhor. E isso (desigualdade) está se tornando um problema mais grave nos últimos anos”.

A declaração será coisa de comunista, como sempre alegam os superconservadores?

O capitalismo é realmente um sistema econômico que preserva as liberdades individuais, já evoluiu em várias etapas da história, por isto sobrevive.

No futuro, terá que evoluir ainda mais.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

Bolsonaristas lutam contra “comunismo” e pedem intervenção militar

Um grupo de manifestantes que segue o presidente Jair Bolsonaro (PL) fechou a Avenida Hermes da Fonseca, em Natal, em protesto pelo resultado das eleições de domingo (31).

O fato foi registrado à noite desta segunda-feira (31), levando horas para que ocorresse a desobstrução negociada.

Com palavras de ordem contra o adversário eleito, Lula (PT), com buzinaço, vestidos de verde-amarelo e entoando o hino nacional, eles defendiam a intervenção militar como remédio contra o “comunismo”.

Os apoiadores posicionaram-se em frente ao Batalhão do Exército (16 RI).

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Uma ilusão morta…

Talibã assumiu poder absoluto no Afeganistão (Foto: Foto: Zabi Karimi/AP)
Talibã assumiu poder absoluto no Afeganistão (Foto: Foto: Zabi Karimi/AP)

Por François Silvestre

…Uma realidade viva.

Taí o Afeganistão comprovando essa essa realidade triste e inenarrável. O Comunismo, nunca praticado, nunca sequer tentado, foi uma ilusão de várias noites de pesadelos.

Capitalismo, nunca derrotado, nunca substituído, nunca demonizado é o pesadelo permanente, continuado, cujo hábito permite a cada manhã que a humanidade acorde pensando que foi apenas um pesadelo. E não é. É a realidade maléfica do regime econômico que põe a ganância, a competição e a exploração como objetivo final da condição humana.

O mal no Afeganistão não foi a saída das tropas americanas. Não. Foi a entrada. Essa megalomania capitalista de que o regime “exemplo” do Tio Sam é a palmatória do mundo.

Não consegue pôr em prática a igualdade racial, liberdade individual, paz social, nem na sua terra, mas se acha no direito de não apenas dizer, mas impor, sua práxis de mentira nas terras distantes dos outros. Desrespeitando culturas, costumes e afinidades. Dá nisso.

O Capitalismo, repito, sem concorrente, é o patrono da miséria, do terrorismo e da degradação humana. Deixa no chinelo o feudalismo e o servilismo. Até porque esses aí nem tiveram direito à informação.

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Deputado está a um passo de ser o mais novo “comunista” da praça

Beto pediu opinião, viu o que seu eleitor queria e votou ao contrário Reprodução Canal BCS)
Beto pediu opinião, viu o que seu eleitor queria e votou ao contrário (Reprodução Canal BCS)

Bolsonarismo paroquial elegeu o deputado Beto Rosado (PP) como seu mais novo inimigo.

O inesperado “não” dele contra voto impresso (veja AQUI) faz a matilha rosnar.

Nome mais simplório que vi foi o de “cachorro”.

Ainda não o rotularam de “comunista”.

É questão de tempo.

Aguarde.

Nota do Blog – Interessante é que o parlamentar abriu enquete em suas redes sociais para saber a posição de seus eleitores quanto ao voto que deveria dar. As  manifestações majoritárias eram pelo “sim”. Virou e deixou muita gente sem entender o porquê e outras tantas pessoas espumando de ódio.

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A mocidade não me envelhece

Por François Silvestre

Convivo bem com o envelhecimento por conta dos erros adoráveis da mocidade. Não me arrependo de nada. Faço autocrítica de muita coisa, mas não é arrependimento. Essa coisa de arrepender-se é de natureza religiosa. E fui religioso, na infância. Não me arrependo de tê-lo sido. Autocritico-me.

Autocrítica difere de arrependimento. No arrependimento, você se mortifica. Autoflagela-se. Presta contas aos outros. Na autocrítica, você presta contas a você mesmo. Só. E se ampara moralmente para enfrentar a hipocrisia.

Quem se nega à autocrítica navega entre dois extremos. Ou é santo ou idiota. Não sou nenhum dos dois, graças a Tupã.

Ainda adolescente, vi meu país mergulhar desprotegido numa Ditadura. Poucos anos antes, criança, vi a morte natural do meu pai adotivo. E dois anos depois, aos dez anos, assisti à morte, por assassinato, do meu pai biológico.

A morte não me é companhia da velhiceFoi minha companheira de infância.

Na Casa do Estudante, pardieiro da Praça Lins Caldas, aprendi a lutar contra a Ditadura. Luta pequena, minimalista, de front paupérrimo.

Acreditei na solução comunista. Crença desfeita pelo tempo. Mas, a negação à exploração humana não se desfez. Não envelheceu em mim a negação ao fascismo, ao reacionarismo, à estupidez da Direita.

Não permito à velhice, que adoto sem traumas, o dedo apontado ao jovem que fui. Da mocidade incorporo tudo. Tudo. Principalmente os erros. E tenho pena de quem se mortifica da juventude que teve para vender-se à velhice da mortificação.

Meu corpo envelhece sendo o altar onde reverencio minhas crenças da mocidade. Todas elas. Até, como já disse, as que merecem autocrítica. Arrependimento, nunca.

O fascismo vive por conta e custo da deseducação. O fascismo não é uma ideologia, é um atributo comportamental. E navega em toados os lados. O pai repressor é fascista, mesmo se for socialista. A professora intolerante é fascista, mesmo se for cristã.

O governo brasileiro atual é fascista. Se é que seja governo. Não é ditadura porque não pode, mas gostaria de ser. É militarizado na forma mais avacalhada da vida militar, onde militares da ativa abocanham “as boquinhas” comissionadas, num vergonhoso cabide de empregos. Principalmente nas áreas de saúde e educação públicas.

Por ser velho, vou calar? Nunca. Vivam enquanto for vivo, em mim, as revoltas da juventude.

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O mágico soturno vive

Por François Silvestre

O comunismo foi um fracasso incontestável. Com todas as suas mumunhas e justificativas. A ditadura do proletariado não tinha proletários no seu comando. Uma casta burocrata, violenta, rançosa e genocida matou um sonho teórico. Ponto.

O comunismo morreu. Seu antípoda, o fascismo, tão ou mais genocida, escapou da morte e vive.

Filho torto do capitalismo, foi adotado como bastardo de conveniência. E bajula o pai, quando precisa, ou o substitui quando rejeitado.

O fascismo é um mágico soturno.

Com sua vara de condão luciferante consegue ofuscar e chamuscar de estupidez até o talento de pessoas muito inteligentes. Algumas arrependidas dos sonhos da mocidade. E fazem desses sonhos um pesadelo que obnubila até a generosidade modeladora da juventude.

Qual o sentimento que isso produz?

Tristeza.

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Partidos políticos

Por François Silvestre

Não se pode imaginar uma sociedade democrática sem os partidos políticos. E o seu nome, partido, é autoexplicativo; isto é, parte de alguma coisa. Ou parte do inteiro.

O inteiro é a sociedade politicamente considerada; não apenas os segmentos do exercício político, mas todos. E nesse todo se incluem os incapazes de todas as naturezas e aqueles com cidadania suspensa por julgamento legal.

Diferentemente da empresa, a sociedade não é um agrupamento produtivo ou comercial. É o conjunto humano que ocupa um território, forma uma nação, possui idioma ou idiomas próprios, produz cultura ou culturas típicas, contém uma ordem legal e uma moeda consolidada.

Na empresa, o servidor que não produz é excluído. Na sociedade, não. O improdutivo, na sociedade, é tão dono do espólio social quanto o produtivo.

O Estado não se confunde com a sociedade. Ele é a representatividade política da sociedade. Mas não é a sociedade, que está acima dele; pelo menos teoricamente.

Nas ditaduras, o Estado se sobrepõe à sociedade. E o indivíduo perde a fronteira da individualidade. Nas ditaduras, sem partidos, o Estado aposenta a cidadania.

Lênin definia o Estado como resultado da luta entre classes antagônicas. E dessa luta nasce o Estado como instrumento da classe dominante. Essa visão leninista, hoje, repousa no limbo do universo teórico.

Muito desse descaso dá-se pelo fracasso da União Soviética, que teoricamente negava o Estado, porém formava um Estado violentamente totalitário. O resultado foi o stalinismo, símbolo da negação do Comunismo.

Na conceituação de Maurice Duverger o Partido Político tem como fim precípuo o Poder. Sem esse objetivo, o partido perde o objeto.

E é nesse aspecto que o partido se distingue dos grupos de pressão. Os grupos de pressão pressionam o poder, mas não o buscam. As igrejas, os sindicatos, as Ongs, a Maçonaria, as associações de classe são exemplos de grupos de pressão.

Desse conceito de Duverger, podemos afirmar que o Brasil possui muitos “partidos” que não se configuram na definição partidária. São agremiações, impropriamente chamadas de partidos, organizadas cartorialmente para buscar amparo nas sombras do Poder.

Negociam apoios, horários de propaganda na mídia, cargos, votos no parlamento. São hóspedes do poder, parasitas da hospedaria.

Da mesma forma que não há democracia sem partidos, pode-se afirmar também que não pode haver consistência democrática com excesso de “partidos”. Nem partidos são. São clubes políticos a serviço de negociatas nas fronteiras quase invisíveis entre o público e o privado.

Partidos políticos e Ministérios do Executivo empanzinam o Brasil. Qualquer “reforma” que não mexa nesse vespeiro será apenas mais uma farsa. Até porque não temos tantas configurações ideológicas ou doutrinárias que os justifiquem.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado pelo Novo Jornal.