Elviro, em 15 de agosto de 1974, ladeado pelo prefeito Carlos Soares e pelo governador Cortez Pereira, em Areia Branca (Foto: acervo do autor)
Em meados dos anos sessenta, eu e meu irmão Chagas Nascimento ficamos admirados com um menino que vestido de paletó circulava, com certa desenvoltura, em meio às autoridades ali presentes…
O local era a rua Duque de Caxias, em frente à Maternidade Sara Kubitschek em Areia Branca. Naquele momento, o prefeito Dr. Chico Costa recebia o Governador Walfredo Gurgel e várias autoridades políticas do estado… e o menino era Elviro Rebouças, com pouco mais de 20 anos, já mostrando-se bem entrosado em tudo que era acontecimento em Mossoró e região.
Passados os anos, eu já trabalhando em F. Souto na época da mecanização das salinas, e início das operações do Porto Ilha, volto a encontrar Elviro Rebouças na salinésia, dessa feita como gerente geral do recém inaugurado Bandern, a primeira agência bancária de Areia Branca. Tinha sido inaugurada no dia 15 de agosto de 1974, pelo então governador Cortez Pereira.
Daí pra frente, passei a acompanhar seus passos mais de perto nos anos oitenta, como diretor do Banco de Mossoró, até o encerramento da instituição, e depois ele à frente do Instituto Municipal de Previdência Social dos Serviços de Mossoró (Previ Mossoró) e de seus negócios.
Elviro era um entusiasta por tudo que se fazia na Terra de Santa Luzia. A geografia humana de Mossoró ficou mais pobre com sua partida.
Escrevi um artigo com trechos do discurso que proferi, em 8 de dezembro de 1967, como orador oficial da chamada Turma da Liberdade, da Faculdade de Direito de Natal, de 1967, que completou 55 anos de conclusão do curso.
Os trechos do discurso refletiam posições contrárias aos atos institucionais e medidas autoritárias da Revolução de 1964 (veja AQUI).
Cortez Pereira enfrentou forças da própria Arena, seu partido, no governo e política (Foto: reprodução)
Um internauta enviou-me mensagem e entendendo que o fato de anos depois ter sido eleito deputado federal pela ARENA e PFL, caracterizou incoerência política, comparado com o discurso da Turma da Liberdade. Ou seja, teria me afastado dos valores democráticos que proclamei na formatura da Turma da Liberdade
Devo, portanto, uma explicação sobre a minha vida pública.
Deus me deu a vocação política e cultivei essa tendência, desde os bancos escolares nos movimentos estudantis.
Sem ter tradição política era quase impossível ser candidato sem legenda.
A estrutura dos partidos “pertencia” às oligarquias locais (ainda pertence).
Abriu-se uma janela, quando o deputado Ulysses Guimarães fundou o MDB, em oposição ao regime de 1964.
Fui um dos fundadores no RN.
Disputei a minha primeira eleição, em 1966.
Dizia-se que o MDB era tão pequeno que “cabia num fusca”.
Tive expressiva votação, mas não foi atingido o quociente eleitoral.
A linguagem que usei na campanha eleitoral de 66 é a mesma que me acompanhou em todos os mandatos e cargos que exerci: a defesa intransigente da democracia.
O RN foi um dos poucos estados no Brasil onde após 1966 não se estruturou partido de oposição.
Apenas, grupos dispersos.
A ARENA, do governo revolucionário, passou ao comando dos dois líderes estaduais: Dinarte Mariz e Aluízio Alves.
Ambos apoiaram os militares no poder.
Nesse período desfiliei-me do MDB e fiquei sem partido.
Com a cassação de Aluízio Alves, em 1969, o MDB passou ao comando do seu grupo político, porém sem perder as ligações revolucionárias, as quais se revelaram fortes e decisivas durante “aliança” no governo Tarcísio Maia, com o objetivo de afastar Cortez Pereira e seu grupo da vida pública.
Amigo do Professor Cortez Pereira, eleito governador do estado, aceitei convite para ser o seu chefe da Casa Civil, em 1971.
Nenhum governo em nossa história foi montado com tanto rigor ético e de renovação de quadros como o de Cortez.
Cabe destacar a figura humana e o espírito público de Cortez Pereira. Para chegar ao governo era inscrito naturalmente na ARENA.
Porém, ele jamais teve o comando político do partido, que continuou nas mãos dos seus oponentes, inclusive para cassá-lo.
A sua obsessão era o desenvolvimento do RN e deixou marcas do seu talento na administração que realizou
Entusiasmado com as ideias renovadoras de Cortez, que era da ARENA, candidatei-me a deputado federal e ganhei a eleição (1976).
O primeiro projeto que apresentei foi a criação do crédito educativo no Brasil.
Para evitar o crescimento político inevitável de Cortez e seu grupo, as lideranças oligárquicas locais, com amizades na cúpula revolucionária, superaram até divergências políticas e pessoais entre elas (famílias Alves, Maia e Rosado) e exigiram tacitamente a aplicação do AI 5 no Estado contra o próprio Cortez e seus aliados, mesmo não existindo inquéritos instaurados.
Era o temor do surgimento de um grupo novo na política estadual, cujo único compromisso seria com a democracia.
Em razão do “fechamento partidário”, que até hoje prevalece na política do RN, não teria como exercer a minha vocação política, senão através da tolerância, que significa “suportar”, ter condescendência, perante a realidade que não se quer ou que não se pode impedir.
Tive que optar pela ARENA, partido do meu amigo Cortez.
O outro partido era propriedade fechada da família Alves.
Por todas essas razões e circunstânciastransigi, sem jamais fazer concessões que ferissem a ética.
Sempre fui na política um liberal social e admirador da Doutrina Social da Igreja.
A tolerância é uma atitude fundamental, que não conduz a negar as próprias crenças e convicções. Ao contrário, é forma de preservá-los.
Já se disse que julgar o outro é não enxergar a verdade de cada um.
Todos sabemos que nenhum barco é suficiente para atravessar o rio da vida.
As situações mudam e com eles os barcos que nos conduzem, sem que isso signifique negativa dos valores e sentimentos que defendemos.
Agradeço ao leitor a indagação feita. Foi uma forma de esclarecimento.
Hoje, na maturidade, não me arrependo de nada.
Sigo o conselho de Sócrates: “O segredo da mudança é não focar toda sua energia em lutar com o passado, mas em construir o futuro”.
Tenho certeza que ajudei modestamente a construir uma pequena parte do RN e do Brasil.
É a sensação do cumprimento do dever.
Ney Lopes é advogado, jornalista e ex-deputado federal
Falar sobre Luiz Gonzaga é um prazer tão grande quanto é ouvi-lo. Orgulho-me de ter tido um momento com ele, foi no final do ano de 1974.
Na época eu era Diretor Técnico e Executivo da Cimparn e estávamos concluindo a implantação física do projeto das vilas rurais da Serra do Mel, quando o governador Cortez Pereira me chamou e disse:
Luiz Gonzaga na Revista O Cruzeiro, edição de 12 de setembro de 1952 (Reprodução de página de Rostand Medeiros)
– “Cabeludo” (como carinhosamente me chamava), meu mandato foi reduzido em um ano e quero encerrá-lo com uma grande festa de inauguração do Projeto lá na Serra do Mel. Prepare tudo, você tem 15 dias!
Aí lhe respondi: “Sem problema, doutor Cortez.”
Tratei de arrumar tudo e na véspera da dita, fui ao Palácio Potengi para fazer uma checagem das coisas com ele. Ao final, o governador olhou para mim e disse:
– Só está faltando uma coisa, mas um amigo vai mandá-lo para nós. É o Luiz Gonzaga que está fazendo um show no Recife hoje à noite e amanhã o Zé Lins ( José Lins de Albuquerque, superintendente da Sudene na época) traz ele para nós no Asa Branca (nome do avião da Sudene).
E completou: “Já está tudo acertado, volte para Serra e me espere amanhã cedo.”
No dia seguinte chega doutor Cortez e logo em seguida Luiz e Zé Lins.
Caro amigo Carlos Santos, foi um dia inteiro na companhia do rei. Tanto ele cantava, como tocava, como contava piadas e conversava. Era só alegria e terminei indo deixá-lo no Recife no avião do estado, pois o Zé Lins, em razão de compromissos, teve que ir antes.
Luiz atendeu a todos tocando, cantando e autografando. Para se ter uma ideia da dimensão do evento, só famílias já assentadas havia no projeto 518 com cerca de 6,2 pessoas em média para cada uma e todas estavam presentes.
Faltaram guardanapos e pratos de papelão. Todos viraram autógrafos. O autógrafo que pedi, único de minha vida por anos, se juntou anos mais tarde ao de Tânia Alves (cantora e atriz) que quando me deu o dela e soube que ia fazer companhia ao de Luiz Gonzaga, saiu com esta:
– É uma honra fazer companhia ao meu rei. Mas Nilson, bote o meu bem coladinho ao dele, quem sabe eu faça umas carícias nele!
E deu aquela risada gostosa que só ela sabe dar.
Meu neto que ainda não “inteirou” três anos, quando vou visitá-lo, ele olha para mim e diz: “Vovô, vovô Nilson”. E logo vai cantando (só as duas primeiras estrofes) “Estrada de Canindé”, que segue para quem quiser:
Ai, ai, que bom Que bom, que bom que é Uma estrada e uma cabocla Cum a gente andando a pé Ai, ai, que bom Que bom, que bom que é Uma estrada e a lua branca No sertão de Canindé Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié Quem é rico anda em burrico Quem é pobre anda a pé Mas o pobre vê nas estrada O orvaio beijando as flô Vê de perto o galo campina Que quando canta muda de cor Vai moiando os pés no riacho Que água fresca, nosso Senhor Vai oiando coisa a grané Coisas qui, pra mode vê O cristão tem que andá a pé.
Amigo, desculpe a extensão do comentário, mas estou falando do único rei brasileiro que reverencio.
E encerro meu texto com uma frase do discurso de Cortez a quem, sem ser rei, exalto também e tenho saudades do dia da inauguração, final de1974:
– Este projeto nasceu da coragem e imaginação de um governo que soube antecipar o futuro!
Nilson Gurgel é economista
*Crônica originalmente publicada em nossa página no dia 28 de outubro de 2012 (veja AQUI), há quase dez anos, por um amigo falecido no dia 7 de junho de 2016 (veja AQUI).
Reproduzir essa crônica é uma forma, modesta, de homenageá-lo. Que Nilson Gurgel descanse em paz.
A Fundação José Augusto (FJA) deverá trabalhar a publicação de quatro livros deixados pelo ex-governador Cortez Pereira, que foco variados temas.
A informação é do presidente da entidade responsável pelas políticas culturais do Governo do RN, Crispiniano Neto.
Ele comenta com nossa página que chegou a ter conversa preliminar com a ex-primeira-dama Aída Ramalho sobre as publicações, mas que seu falecimento (veja AQUI) na segunda-feira (23) deixou esse hiato conclusivo. Contudo, assegura que a FJA vai procurar a família do casal para efetivar a publicação dos livros.
José Cortez Pereira de Araújo nasceu em Currais Novos em 1924 e faleceu em Natal em 21 de fevereiro de 2004, aos 79 anos. Professor, advogado, pecuarista, ele foi deputado estadual três vezes, suplente do senador Dinarte Mariz em 1962 (ocupando cadeira de julho a setembro de 1963, de agosto a outubro do ano seguinte, de agosto a outubro de 1965 e de março a julho de 1968).
Governou o RN de forma indireta de 1971 a 1975 e morreu como prefeito de Serra do Mel, município que surgiu a partir de projeto de colonização implantado por ele em 1972.
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Mais uma personagem de uma época que começa a ficar deserta. A última vez que estive com ela foi na sua casa. Cortez me transmitiu o convite dela, e eu fui. Lá estavam o Juiz Antônio Lúcio de Góis e outros amigos do casal. Cachaça, tira-gosto de milho cozido e feijoada.
Aída: “Ele parecia recitar” (Foto: reprodução)
Num determinado momento, eles chamam uma adolescente e mandam que ela me dê um abraço. Dona Aída diz: “Essa é a criança que eu levava na barriga naquela tarde de Domingo, na Casa do estudante”.
Papo boníssimo. Cortez era um conversador cativante, erudito sem ser posudo. Fora meu professor, com quem mantinha discussões acaloradas, em sala de aula. Até o assunto do meu discurso na Casa do Estudante, quando dona Aída foi até lá fazer a entrega de uma Kombi, saiu.
Discurso que me rendeu uma prisão e condenação na Auditoria Militar, em Recife. Ela me visitou, na cadeia. No depoimento dela, na Polícia Federal, ela negou que tenha sido agredida. Disse: “Ele parecia recitar”.
Período Médici, governador não tinha força para prender nem prestígio para soltar. Dona Aída Ramalho Cortez era uma figura doce. Saudade de uma época de trevas e sonhos, loucura e esperança.
Ao escrever esse artigo, vejo o calendário eleitoral e constato que faltam exatamente cinco meses para o inicio do processo eleitoral que elegerá um novo governador para o estado do Rio Grande Norte, assim, como dois senadores, oito deputados federais e 24 deputados estaduais.
Outra constatação que tenho é em relação a falta de um debate sobre um projeto para recolocar o nosso tão sofrido Rio Grande do Norte no rumo do desenvolvimento. Não vejo nenhum dos pré-candidatos, principalmente, ao governo do estado, apresentando um plano de trabalho que possa ser assimilado pelo eleitorado.
Sei que muitos dirão que ainda estão elaborando o Plano de Governo, mas isso não é desculpa para que em suas falas não apresentem um plano mínimo de como pretendem guiar o estado nesse mar revoltoso que estamos jogados.
Não tenho pretensão de ser candidato ao executivo nessas eleições. Porém me obrigo, em meio a falta de vozes que tragam alguma luz a esse debate, a apresentar alguns caminhos que considero importantes e que merecem ser apresentados a sociedade.
Destaco essas ideias estão sendo formuladas no âmbito do partido que milito, ou seja, o PCdoB, e defendida por estudiosos do Rio Grande do Norte como o professor Wellington Duarte, economista e chefe do departamento de Economia da Universidade Federal do RN (UFRN).
É hora de pensarmos um Novo Projeto Estadual de Desenvolvimento para o Rio Grande do Norte. O ultimo grande projeto que foi feito para esse estado aconteceu no governo de Cortez Pereira (1971 – 1975) que planejou os rumos do estado pautado em ações encadeadas. Vale destacar que foi nesse governo que o estado teve o projeto da Fábrica de Barrilha aprovado e infelizmente nunca finalizado.
Então o que é esse Novo Projeto Estadual de Desenvolvimento? Na nossa concepção é um Plano de Ação robusto que trará o desdobramento de ações focadas em grandes eixos temáticos (economia, cultura, inovação tecnológica etc) que juntos levem a um objetivo comum que é a retomada do desenvolvimento econômico do estado e, consequentemente, a garantia de condições humanas melhores para o povo que aqui vive.
Cito algumas das ações, com foco no desenvolvimento, que defendemos no projeto:
1. Definir um Planejamento Estratégico de Desenvolvimento de curto, médio e longo prazo. Vale destacar que esse planejamento deve englobar decisões de uma política econômica recuperadora, de criação de um mínimo de mercado interno e fortalecimento das empresas locais;
2. Construir uma base industrial voltada para a produção de maior valor agregado;
3. Construir uma base de instituições e regras que criem um sistema avançado de inovação tecnológica permanente;
4. Avaliar a Dívida Pública estadual para que se possa estabelecer uma meta de financiamento da produção, dando ritmo ao crescimento;
5. Estabelecer uma relação mais próxima com o sistema financeiro estatal, para buscar fontes auxiliares para criar formas de financiamento para a implantação mais eficiente de uma política de desenvolvimento local;
6. Utilizar as riquezas minerais com inteligência e que criem receitas para o governo estadual, a serem revertidas em políticas industriais que promovam a formação de postos de trabalho;
7. Atrair o capital estrangeiro com intuito de contribuir para o desenvolvimento local, desde que direcionado para o investimento e o financiamento de projetos produtivos de interesses do RN.
Essas ações, certamente, precisam entrar na pauta de debate dos pré-candidatos ao governo do Rio Grande do Norte. Não trazer essa discussão nesse momento de pré-campanha à sociedade é incorrer em omissão político-eleitoral.
O povo desse estado não está procurando um salvador da pátria. Ele procura alguém que possa fazer um diálogo franco e aberto sobre os problemas que o estado vem passando e apontar caminhos que possam melhorar as condições gerais a curto, médio e longo prazo.
Por isso, cobro de todos os pré-candidatos e, também, dos demais partidos que apresentem ao conjunto da sociedade um programa mínimo de propostas que possa indicar os rumos da próxima gestão estadual para que a disputa eleitoral possa ser travada no campo das ideias.
Nós, dentro do nosso tamanho, estamos fazendo o dever de casa.
Gutemberg Dias é graduado em geografia, professor da UERN, ex-candidato a prefeito de Mossoró e empresário
Campanha para senador em 1978. Uma espécie de substituição democrática, posto que o “governador” era “eleito” pelo “colégio eleitoral”, sob o controle do regime militar. “Governador” era apenas o delegado da Ditadura, nos Estados.
O que todos esperavam era uma chapa do MDB imbatível, após a vitória, quatro anos antes, de Agenor Maria sobre o candidato da Arena, Djalma Marinho. Nessa eleição, de 1974, eu estava preso. A chapa dessa espera, em 1978, seria formada por Odilon Ribeiro Coutinho, Radir Pereira e Varela Barca.
Seria um banho de água gelada na fervura do regime de mentira, aqui no jerimunzal. Ficou na ilusão. O MDB, sob o comando da Família Alves, mesmo com três irmãos cassados, resolveu fazer um acordo com o regime que os punira.
Nesse acordo, o MDB aluizista lançou, para a convenção, três candidatos ao Senado, tudo de faz de conta. Olavo Montenegro, Paulo Barbalho e Chico Rocha. Os três renunciariam e o MDB apoiaria a candidatura de Jessé Freire, candidato da Ditadura. A motivação desse acordo será tratada noutro texto.
O grupo autêntico do MDB potiguar, sob a liderança de Roberto Furtado e Odilon Ribeiro Coutinho, não se resignou e lançou as candidaturas de Odilon e Radir Pereira. A luta teria desfecho na convenção.
Contando os votos dos delegados, chegamos à constatação de que, mantidas as duas postulações, os autênticos não indicariam ninguém. O desprendimento de Odilon, retirando a candidatura, garantiu a candidatura de Radir Pereira contra o acordão. (Autêntico foi o nome dado ao bloco emedebista, no Congresso, em oposição ao bloco Moderado).
Resultado da convenção: saíram candidatos Radir Pereira, Olavo Montenegro e Chico Rocha. Olavo Montenegro cumpriu o acerto do acordo e renunciou. Chico Rocha manteve a candidatura.
Radir perdeu as eleições para o Senado, mas venceu em Natal por quase quinze mil votos de maioria. Contra tudo e todos. Governo federal, governo estadual, prefeitura da Capital, federação de indústrias, de comércio, Alves e Maias no mesmo palanque.
Os Maias não tinham votos naquele momento, a invenção de Aluízio Alves os colocou no patamar de liderança. E o inventor pagou caro por isso.
Quatro anos depois foi derrotado para governador. O voto vinculado explica a derrota no interior; mas na Capital, em que ele fora o eleitor maior, desde os anos Sessenta, apenas empatou com o candidato dos Maias.
Radir teve melhor desempenho.
Na casa de Radir, após a conquista da candidatura insurgente, reunimo-nos, naquela noite, para comemorar e montar “estratégias”.
Casa lotada. Todos os ambientes cheios. Delegados do partido, assessores, jornalistas, lideranças municipais, puxa-sacos, espiões, o escambau.
Numa mesa larga, dona Alda, mulher de Radir, nos colocou. O Próprio Radir, o ex-governador Cortez Pereira, primo e concunhado de Radir, Odilon Ribeiro Coutinho, Júnior Targino, Rubens Lemos, Agenor Maria e eu.
Essa mesa ficava o tempo todo cercada de perus. Como se estivessem peruando um jogo de cartas.
Muito uísque Bells, vinho, caipirinhas. E tome papo. Não me lembro do começo da confusão que deu. Ocorre que Cortez Pereira, num certo momento, dirigiu-se a mim. Tínhamos referências anteriores de afetos e brigas.
Tarcísio Maia e Cortez Pereira em 1974 (Foto: arquivo)
Ele fora meu professor. Eu fizera aquele discurso na Casa do Estudante, em que Dona Aída Cortez fez uma visita de proselitismo político para o marido governador.
Estraguei a festa e fui preso no dia seguinte. Não fui preso pelo governo estadual, que não tinha força para prender nem prestígio para soltar. Tempos do torturador Médici. A Polícia Federal me prendeu, sob as ordens do DOPS.
Pois bem. Cortez dirigiu-se a mim e disse: “Nós fomos punidos pelo mesmo regime”. Hoje, eu ficaria caldo. Naquela noite, fui grosseiro e respondi: “Fui punido por um regime que sempre combati. Você foi punido pelo mesmo regime ao qual serviu da forma mais torpe”. Desse jeito.
Eu era muito cabeludo. Meus cabelos desciam sobre os ombros. Ele respondeu: “Só desculpo a infâmia da sua fala porque a inteligência contida nela não tem a mesma dimensão da sua cabeleira”.
Confusão ao redor da mesa. Eu maneirei: “Tudo bem. Eu retiro o torpe”. Cortez aceitou as desculpas. Mas Odilon interveio: “Retire não. Foi muito bem colocado”.
Cortez vira-se para Odilon: “Você declarou que a ditadura se redimira, no Rio Grande do Norte, quando me escolheu governador”.
Radir Pereira (Foto: arquivo)
Odilon rebate: “É verdade, mas depois eu fiz autocrítica e disse que você entrara no Palácio pela porta dos fundos”. Cortez retruca: “Eu li e respondi que entrara pela porta dos fundos para abrir a porta da frente do Palácio a empresários mal sucedidos como você”.
Aí a confusão tomou conta. Todos os ambientes da casa vieram para esse local. Dona Alda, coitada, pedia quase gritando: “Vocês estão de que lado? Do lado dos adversários”? Radir pedia calma. Rubens Lemos cofiava o bigode e ria. Targino sugeriu: “Vamos enchiqueirar eles”.
Serenados os ânimos, houve o enchiqueiramento. Puseram uma mesa ao lado oeste do quintal, longe da festa, onde ficamos Odilon, Cortez, Targino e eu. Varamos a madrugada, entre reflexões de direito, filosofia, história e muita birita.
Cortez e eu, por sugestão de Odilon, combinamos a abertura de um escritório, em Natal, de advocacia criminal. Targino faria parte. Tempos depois, Targino me disse que nunca acreditou naquele empreendimento.
Ele estava certo. O “escritório” nasceu e morreu naquela madrugada. O tempo passou, como é imposição do destino, não ampliou a inteligência da minha fala, mas engoliu a minha cabeleira. Té mais.
Para um homem tão culto, amante da música, sobretudo a clássica, leitor voraz, que sempre esteve à frente do seu tempo, com tantas contribuições colecionadas ao longo de sua vida profissional em projetos que culminaram, por exemplo, com a instalação da TVU, a passagem pela Secretaria Estadual de Educação no governo de Cortez Pereira, não é de se espantar que a aposentadoria tenha significado a inauguração de um capítulo tão produtivo quanto aqueles que vivera até os 70 anos.
Dalton Mello: produção literária no ócio (Foto: divulgação)
Advogado e professor aposentado da UFRN, Dalton Mello de Andrade, tornou-se então escritor do cotidiano para driblar o ócio. Por insistência do amigo, o médico Armando Negreiros, começou a publicar suas crônicas no extinto Jornal de Hoje. E também por persistência de amigos como o falecido empresário Pery Lamartine, o advogado Diógenes da Cunha Lima e do sobrinho e publicitário Jener Tinôco, resolveu reunir seus textos num livro.
Produção no ócio
O resultado é o Meu Olhar Sobre a Vida, livro da editora Jovens Escribas, que reúne as primeiras 104 crônicas escritas pelo professor Dalton Mello. “Para preencher ainda mais o meu tempo, e combater a ociosidade, resolvi começar a escrever. Sempre tive vontade de fazê-lo, mas a dedicação, em tempo integral, às minhas atividades profissionais, me impediam de fazer outra coisa. Não encontrava o tempo, ficava cansado, e o entusiasmo desaparecia. Quando veio o ócio, a coisa mudou”, lembra.
Entre os temas abordados estão amigos, costumes, histórias, lembranças, nossos problemas e tempo. Análises do que viveu e do que leu no passado e no presente.
O lançamento do livro Meu Olhar Sobre a Vida acontece na próxima quinta-feira (28), a partir das 18h, no Clube de Radioamadores, na Avenida Rodrigues Alves, vizinho à Cidade da Criança.
Serviço:
Lançamento Meu Olhar Sobre a Vida
Data: 28 de julho
Hora: 18h
Local: Clube de Radioamadores.
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Numa aula de Teoria Geral do Estado, na antiga Faculdade de Direito da Praça Augusto Severo, o professor Múcio Ribeiro Dantas, constitucionalista reconhecido, fez uma provocação.
Múcio falava com desenvoltura sobre qualquer matéria do Direito. Andava o tempo todo, ora gesticulando, ora com as mãos nos bolsos. Citava dezenas de autores, com naturalidade.
Nessa aula, lembro bem, ele provocou os marxistas da turma. Éramos tão poucos. Pelo menos, os declarados. Leonardo Cavalcanti, Dionary Sarmento e eu.
Dionary era filha de seu Moraes, comunista histórico, dono do Hotel Avenida, próximo à Faculdade. Ali baixava quase todas as tardes, para uma cerveja gelada, o doutor Vulpiano Cavalcanti. E eu, intrometido, fui lá me enfronhando. Liso, da Casa do Estudante, aproveitava a generosidade de Vulpiano.
Dois gostos: o comunismo e a cerveja. Nessa ordem, naquele tempo. Hoje, a ordem se inverteria.
Pois bem. Disse Múcio Ribeiro: “Os marxistas da América do Sul são frustrados, pois o marxismo nunca conseguiu estabelecer-se por aqui”.
Perguntei baixinho a Leonardo: “Você responde ou eu”? Ele disse: “Pode responder”.
Aí pedi a palavra: “Professor, posso fazer uma observação”? Não disse “colocação”, que era a palavra usual da esquerda, nas assembleias.
O Professor era um democrata. Gostava do debate e estimulou minha réplica. Não só permitiu a contradita, como deu sinais de que responderia com facilidade. Ele imaginou que eu iria negar a veracidade da sua observação.
“É verdade, professor. Os marxistas têm a mesma frustração dos constitucionalistas do Brasil, no tempo de hoje”.
Leonardo me olhou rindo, como fazia, com os olhos apertados. E o mestre Múcio, com as mãos nos bolsos, perguntou meio vencido: “Por quê”?
E a resposta com pergunta: “Como ensinar Direito Constitucional ou Teoria do Estado onde não há Constituição”? Foi um reboliço. A turma formada por grandes figuras humanas, de cuja memória me agrada ter convivido, era bem reacionária. E pra eles a Constituição existia e era sagrada.
O monstrengo de Castelo Branco, que desaguou no AI-5. E serviu de amparo ao torturador Médici.
Foi um constrangimento para o professor Múcio, porque ele tinha consciência dessa verdade. O mesmo constrangimento que tinham Edgar Barbosa, Otto Guerra, Américo de Oliveira Costa, Cortez Pereira, Ivan Maciel. Para citar apenas os jusfilósofos.
Vivemos um quadro constitucional assemelhado. Não de violência política, mas de bagunça institucional. O Brasil, sem governo, é um Estado ganancioso para arrecadar, burocrático para administrar e inexistente na prestação de serviços. Sem segurança, saúde e educação.
Sem falar nos últimos acontecimentos da Quarta-Feira. Constituinte Originária já.
Viúvo, o Anarquismo espera um governo para combatê-lo.
Cortez e Osmundo: vendo o futuro (Foto: reprodução)
O governador eleito/diplomado Robinson Faria (PSD) lembrou o ex-governador Cortez Pereira em pronunciamento à imprensa. Sublinhou valores do ex-governante do início dos anos 70.
Cortez fora o último gestor estadual com visão estratégica, enxergando o futuro, as próximas gerações, em vez do mandato em si.
De fato.
E vale ser lembrado um detalhe que muita gente não sabe.
Muito jovem, garoto ainda, Robinson testemunhou seu pai e empresário Osmundo Faria dirigir o Bandern e BDRN, entidades financeiras do Estado no Governo Cortez.
O governador tinha em Osmundo e outros nomes, a essência de uma administração técnica, como Robinson propõe-se a fazer em seu governo.
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Há dez anos, o Rio Grande do Norte perdeu Cortez Pereira. Porém, bem antes disso ele perdera o sossego e se viu mergulhado num cipoal de traições e desilusões.
Era um grande homem.
Professor inesquecível.
Tive com ele uma relação de amizade, que nem o episódio da minha prisão, durante seu governo, foi capaz de macular.
Muita gente tentou vincular minha prisão ao seu governo, pois eu fora preso no dia seguinte de uma vista que fez D. Aída Cortez à Casa do Estudante. Durante a solenidade, eu pedi a palavra e fiz um discurso violento contra o governo Médici e denunciei o governo Cortez de ser biônico, sem votos e aliado servil da Ditadura. E que Médici era resultado atávico do nazi-fascismo.
D. Aída estava grávida. Desligaram o som, mas eu continuei falando.
No dia seguinte, fui preso. Primeiro no 16/RI, depois na Colônia Penal.
Por esse motivo fui condenado a dois anos de reclusão, pela Auditoria Militar do Exército, em Recife. Mas eu nunca responsabilizei Cortez pela minha prisão.
Declarei publicamente que Cortez não tinha força para prender nem prestígio para soltar ninguém. Quem mandava era uma força de cima, fora do controle dele.
Ele mesmo usou essa minha citação para defender-se quando foi questionado sobre esse episódio numa entrevista na televisão.
Cortez foi traído por seus correligionários, daqui mesmo, a serviço da Ditadura, quando ele não era mais útil ao poder ditatorial.
No próximo post vou contar, citando nomes, uma dessas traições.
François Silvestre é escritor
* Texto originalmente publicado no Portalnoar (21-02-14).
A força do poder nasce e morre no estuário da vulnerabilidade. No que se refere à condição humana. No que tange ao “sistema” essa força é permanente e fora do controle pessoal.
O poder engravida de vaidade, presunção, luminosidade e sensação de potência. Tudo isso convive na gestação. Ao fim, dá à luz a solidão. O Ex é um cultivador do capim que prospera no batente do seu retiro.
Algumas cenas brutais desse contraste ficaram tatuadas na memória como símbolos da repetição quase monótona do ritual desse teatro.
Uma delas com a esposa de Mao Tsé-Tung, após ser despojada da mais fantástica soma de poderes que já teve uma mulher. Senhora da vida e da morte numa nação. No tribunal, onde se punha para ser julgada, ela tentou impor sua autoridade. Foi subjugada por um simples soldado; esbofeteada e algemada, em público.
Na Libéria, todo o Ministério do governo deposto foi amarrado em estacas, para a humilhação pública, antes da execução. Alguns, como o Ministro da Defesa, defecaram nas calças. O único que manteve a dignidade foi o Ministro da Agricultura, o menos poderoso do grupo.
Na sua dacha, Nikita Kruschev, ex-senhor da União Soviética, cultivava tomates e ostracismo. Certa vez, ao passar por uma plantação reclamou do proprietário sobre o método empregado naquele cultivo de tomates. O agricultor, ao reconhecê-lo, respondeu: “Passe calado, pois você não manda mais em nada”.
Vi, numa ocasião, Cortez Pereira ser destratado por um ex-bajulador. O fim do poder produz o ex-chefe e o ex-babão.
Luiz Maria Alves, tempos do Diário de Natal, tinha assento de honra aonde chegasse. Testemunhei um episódio que configura o presente texto. Na promulgação da Lei Orgânica de Natal, de cuja sistematização participei, o ilustre jornalista já havia deixado a direção do Diário e tentava fundar um outro jornal.
No início da solenidade, ele entra e ninguém toma conhecimento. Ficou em pé, com o braço escorado na soleira de uma janela. Incomodado com o descaso, fui até ele, peguei-o pelo braço e o fiz sentar-se na minha cadeira. O Presidente Sid Fonseca determinou que se providenciasse outra cadeira para mim.
Não foi só pela dívida de gratidão que tinha com ele, quando de uma discussão com o então Secretário de Segurança, Coronel Delgado. Precisei responder ao Secretário sobre uma declaração ameaçadora que ele me fizera.
Preparei um texto duro e fui bater à porta da imprensa. Ao passar pela Rio Branco, avistei Luiz Maria Alves. Aproximei-me e perguntei se podia entregar-lhe aquele texto. Ele pegou o cachimbo com a mão esquerda e com a direita recebeu o envelope.
No dia seguinte, a carta estava publicada no Diário de Natal, com chamada em destaque na primeira página.
Meu pequeno gesto foi imitação do seu gesto maior. Té mais.
Falar sobre Luiz Gonzaga é um prazer tão grande quanto é ouvi-lo. Orgulho-me de ter tido um momento com ele, foi no final do ano de 1974.
Na época eu era Diretor Técnico e Executivo da Cimparn e estávamos concluindo a implantação física do projeto das vilas rurais da Serra do Mel, quando o governador Cortez Pereira me chamou e disse:
– “Cabeludo” (como carinhosamente me chamava), meu mandato foi reduzido em um ano e quero encerrá-lo com uma grande festa de inauguração do Projeto lá na Serra do Mel. Prepare tudo, você tem 15 dias!
Aí lhe respondi: “Sem problema, doutor Cortez.”
Tratei de arrumar tudo e na véspera da dita, fui ao Palácio Potengí para fazer uma checagem das coisas com ele. Ao final, o governador olhou para mim e disse:
– Só está faltando uma coisa, mas um amigo vai mandá-lo para nós. É o Luiz Gonzaga que está fazendo um show no Recife hoje à noite e amanhã o Zé Lins ( José Lins de Albuquerque, superintendente da Sudene na época) traz ele para nós no Asa Branca (nome do avião da Sudene).
E completou: “Já está tudo acertado, volte para Serra e me espere amanhã cedo.”
No dia seguinte chega doutor Cortez e logo em seguida Luiz e Zé Lins.
Caro amigo Carlos Santos, foi um dia inteiro na companhia do rei. Tanto ele cantava, como tocava, como contava piadas e conversava. Era só alegria e terminei indo deixá-lo no Recife no avião do estado, pois o Zé Lins, em razão de compromissos, teve que ir antes.
Luiz atendeu a todos tocando, cantando e autografando. Para se ter uma idéia da dimensão do evento, só famílias já assentadas havia no projeto 518 com cerca de 6,2 pessoas em média para cada uma e todas estavam presentes.
Faltaram guardanapos e pratos de papelão. Todos viraram autógrafos. O autógrafo que pedi, único de minha vida por anos, se juntou anos mais tarde ao de Tânia Alves (cantora e atriz) que quando me deu o dela e soube que ia fazer companhia ao de Luiz Gonzaga, saiu com esta:
– É uma honra fazer companhia ao meu rei. Mas Nilson, bote o meu bem coladinho ao dele, quem sabe eu faça umas carícias nele!
E deu aquela risada gostosa que só ela sabe dar.
Meu neto que ainda não “interou” três anos, quando vou visitá-lo, ele olha para mim e diz: “Vovô, vovô Nilson”. Ee logo vai cantando (só as duas primeiras estrofes) “Estrada de Canindé”, que segue para quem quiser:
Ai, ai, que bom Que bom, que bom que é Uma estrada e uma cabocla Cum a gente andando a pé Ai, ai, que bom Que bom, que bom que é Uma estrada e a lua branca No sertão de Canindé Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié Quem é rico anda em burrico Quem é pobre anda a pé Mas o pobre vê nas estrada O orvaio beijando as flô Vê de perto o galo campina Que quando canta muda de cor Vai moiando os pés no riacho Que água fresca, nosso Senhor Vai oiando coisa a grané Coisas qui, pra mode vê O cristão tem que andá a pé.
Amigo, desculpe a extensão do comentário, mas estou falando do único rei brasileiro que reverencio.
E encerro meu texto com uma frase do discurso de Cortez a quem, sem ser rei, exalto também e tenho saudades do dia da inauguração, final de1974:
– Este projeto nasceu da coragem e imaginação de um governo que soube antecipar o futuro!