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A traição de Dante

Por Marcelo Alves

Escultura de Dante Alighieri em Florença, autor -
Escultura de Dante Alighieri em Florença, em frente à Piazza do Santa Croce, obra de Enrico Pazzi, século XIX

Dias atrás, conversamos aqui sobre a “Divina Comédia” (1321), de Dante Alighieri (1265-1321), como exemplo “avant-garde” – bem anterior ao “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796) de Goethe – de um “bildungsroman” (romance de formação). Nesse “épico do aprendizado”, Dante percorre, acompanhado pelo grande poeta pagão Virgílio (70aC-19aC), seu mentor e guia, em meio a sucessivas lições e master classes, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso em busca da verdade revelada. E temos, assim, entre outras maravilhas, o texto dito fundador da língua italiana e uma das obras fundamentais da literatura mundial. Maravilha! 

Entretanto, há algo de trágico na interpretação da “Divina Comédia” como “bildungsroman”: o final da relação entre Dante e Virgílio, entre o pupilo e seu mentor/guia, com a negação ao autor da “Eneida” (19aC), por parte de Dante, de qualquer possibilidade de salvação na vida em Cristo. Virgílio, que guia seu pupilo à luz, é, ao final da peregrinação conjunta, destinado ao Inferno, deixando perplexos e mesmo indignados muitos dos mais aficionados leitores da “Comédia”. 

Profundamente trágico. Injusto também? Por mais que lamentemos – e que o próprio Dante lamente – não havia mesmo jeito de o pupilo “salvar” o seu “dolicissime patre”? Ou estamos diante, como se referiu George Steiner (em “Lições dos mestres”, Record, 2005), da “sombra da traição projetada onde mais se concentrava a luz da felicidade [paternidade]”?

O destino de Virgílio parece estar sendo selado durante o decorrer da comédia. George Steiner lembra que o poeta russo Óssip Mandelstam, autor de “Conversa sobre Dante”, já havia observado que “os números revelam muito da sensibilidade de Dante. Noventa citações de Virgílio no Inferno, trinta e quatro no Purgatório, apenas treze no Paraíso. Esse diminuendo preciso corresponde à dependência decrescente do discípulo em relação ao seu Mestre, à redução da dívida que tem a Comédia para a Eneida.

As traduções diretas da obra de Virgílio ocorrem sete vezes no Inferno, cinco vezes no Purgatório, mas apenas uma vez na esfera celeste. Em contraponto, as Escrituras são traduzidas doze vezes no Paraíso, oito vezes no Purgatório, mas apenas uma vez nas profundezas do Inferno. De mais a mais, as alusões à Eneida nos oitavo e nono cantos do Paraíso são ásperas. A maestria pagã [a partir de certo ponto da peregrinação] não é mais bem-vinda”. Se a chamada “tragédia da comédia” é incipiente no Inferno, ela vai se tornando “inevitável” no decorrer da jornada via Purgatório ao Paraíso. 

É certo, outrossim, segundo Dante, que Virgílio resiste à lei do Salvador (é “ribellante a la sua legge”) e até “duvida da missão divina de Beatriz e de sua proteção”. Mesmo que o assustado discípulo muitas vezes retorne, tal qual criança, ao mestre (“voltei-me para o oceano de toda sabedoria”), “o discípulo peregrino intui que um misterioso fallimento, uma falha inexplicável, impede o mestre de fazer uso de toda a sua clarividência”. Virgílio não ouviu o “Verbo”. A “luz” não lhe foi possível pessoalmente atingir. E a fama é uma “glória secular que se estende para além da morte”. O “defeito do cristal” não poderia mesmo ser reparado. Nem seu mister de guia do pupilo na “Comédia” pode colocar o mestre pagão nos braços de Cristo. Dante manda seu “dolicissime patre” para junto de “le genti antiche ne l’antico errore” no primeiro círculo do Inferno.

Todavia, contraditoriamente, na “Comédia”, a graça da salvação é dada a quatro supostos pagãos (os dois primeiros no Purgatório; os dois últimos no Paraíso): a Estácio (45-95), poeta latino que, aparentemente, em vida, já era, curiosamente inspirado pela Eneida, cristão velado; Catão, o jovem (95aC-46aC), por sua vida e morte heroica e moral, sacrificando-se pelos outros; o imperador Trajano (53-117), que foi resgatado do limbo pelas preces do Papa Gregório por haver governado seu povo com Justiça; e Rifeu, soldado troiano da “Eneida”, que foi o mais equânime e justo entre aqueles que “fizeram Roma”. E mesmo “a mitologia medieval teria dado a Dante ampla licença para ‘salvar’ Virgílio”, como lembra George Steiner. Então, por que essa intransigência de Dante que nos deixa perplexos? “Que espécie de traição é essa? (‘Que vingança edipiana?’, seria a pergunta em linguagem psicanalítica)”. 

Leia também: A formação de Dante

Embora me cause tristeza – e mesmo ojeriza – essa tão comum traição à paternidade (“a mais terrível sombra projetada onde mais se concentra a luz da felicidade”), não condeno Dante – e quem sou eu para condenar o “divino” autor? Qualquer que tenha sido o personalíssimo motivo de Dante – explicar esse motivo demandaria ter acesso às “áreas vitais da sensibilidade labiríntica” dantesca –, acredito que Virgílio esteve sempre teologicamente condenado. E se não o foi por razões acuradamente teológicas, o foi pelo seu fatum literário. Ele deveria mesmo ir (injustamente?) para o Limbo, o primeiro círculo do Inferno, para que pudéssemos discutir mais esse mistério dantesco, inclusive aqui nesta singela crônica.

Marcelo Alves Dias de Souza é Procurador Regional da República, doutro em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL E membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL 

A formação de Dante

Por Marcelo Alves

A Barca" de Delacroix, espelhando "A divina comedia" (Reprodução do BCS)
A Barca” de Delacroix, espelhando “A divina comedia” (Reprodução do BCS)

Os romances de formação são um tipo de “gênero literário”, muito comum na literatura alemã, cujo enredo está centrado na evolução moral e psicológica de um protagonista, geralmente desde a sua juventude até a idade adulta. “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796), obra seminal de Goethe (1749-1832), é o seu marco referencial, ao mesmo tempo um ponto de chegada e de partida, que exerceu enorme influência sobre a subsequente literatura ficcional no estilo. No mais, eles são universalmente designados pela expressão alemã “bildungsroman”, que, “desconstruída” para o português, nos dá “romance de formação” ou “romance de educação”.

Embora típico da literatura alemã, os “bildungsromane” não são desconhecidos em outras literaturas. Em inglês, por exemplo, podemos apontar “Jane Eyre” (1847) de Charlotte Brontë (1816-1855), “David Copperfield” (1850) e “Grandes Esperanças” (1861) de Charles Dickens (1812-1870) e “As aventuras de Huckleberry Finn” (1884) de Mark Twain, entre tantos outros.

Outrossim, muito embora “estritamente falando o termo não possa ser aplicado a texto anterior ao Wilhelm Meister”, o “bildungsroman”, de fato, como bem registrado na “Benét’s Reader’s Encyclopedia” (HarperCollins Publishers, 1996), “representa a culminância de uma longa tradição”. E podemos citar, como grande exemplo de “romance de formação” anterior ao “Wilhelm Meister”, nada mais nada menos que a “Divina Comédia” (1321), de Dante Alighieri (1265-1321), texto fundador da língua italiana e, de resto, uma das obras fundamentais da literatura mundial. Nela, como consta da minha edição da “Comédia” (Martin Claret, 2015), “acompanhado por Virgílio [seu mentor e guia], o poeta percorre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso” em busca da verdade revelada. Dante, claro, também vai ao encontro da amada Beatriz.

Noves fora a Bíblia e Shakespeare, nenhum outro autor ou obra é tão badalado e dissecado quanto Dante e a sua “Comédia” (não só nas letras, mas também na arte pictórica, tendo ela assim formado a nossa visão – falo aqui de imagem mesmo – do mundo, dos céus ao inferno e vice-versa). Há inúmeras maneiras de se ler a “Comédia”, todas elas, como não poderia deixar de ser com esse tipo de monumento-esfinge do saber, incompletas. E numa dessas leituras, a Comédia é interpretada como “um épico do aprendizado”.

Como anota George Steiner (em “Lições dos mestres”, Record, 2005), “as fontes, o moto spirituale da Comédia, são as da pedagogia. O poema instrui no seu desenrolar e isso se dá através de sucessivas lições e master classes. As condições e ações de mestre e discípulo são essenciais à jornada”.

Lembremos sempre que, para Dante, o seu maestro supremo é uma “Divindade Suprema”, mas o seu mestre/guia, como peregrino do aprendizado, pelo Paraíso, Purgatório e Inferno, é o grande pagão Virgílio (70aC-19aC). De fato, “o grande achado de Dante, radical e determinante de sua obra, foi fazer do autor da Eneida o guia do peregrino, figura paterna, exemplar. A parceria eletiva entre Mestre e discípulo torna-se o eixo da jornada.

A densidade da interação, articulada e subconsciente, é tal que qualquer abordagem adequada requer, virtualmente, uma releitura verso por verso tanto do Inferno quanto do Purgatório. A condição de pupilo é declarada desde o início: ‘Tu sei lo mio maestro e ‘l mio autore’. (…) A Comédia é a anatomia dessa natureza de rapport. Mais do que qualquer outro texto a partir de então, ele é o nosso Bildungsroman”.

De toda sorte, há algo de curiosamente trágico na interpretação da “Divina Comédia” como “bildungsroman”, em especial no final da relação entre Dante e Virgílio, entre o pupilo e seu mentor/guia: a negação a Virgílio, por parte de Dante, de qualquer possibilidade de salvação na vida em Cristo. Como se cumprindo o seu fatum ao mesmo tempo teológico e literário, Virgílio, o mestre/pagão, que guia seu pupilo à luz, é, ao final da peregrinação de ambos, condenado ao limbo, o primeiro círculo do Inferno.

E nos resta a questão: não havia mesmo jeito de Dante “salvar” o seu “dolicissime patre” Virgílio? Ou estamos diante, como se referiu o já citado George Steiner, da “sombra da traição projetada onde mais se concentrava a luz da felicidade [paternidade]”?

Sobre essa “tragédia da comédia” nós conversaremos na semana que vem. Paciência.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

A comédia jurídica

A divina comédia - ilustração, Dante AliguieriPor Marcelo Alves

O que falar de diferente sobre Dante Alighieri (1265-1321) e a sua “Divina Comédia”?

Sabemos que essa obra monumental – intitulada originalmente apenas de “Comédia”, mas rebatizada como “Divina” por Giovanni Boccaccio – é composta de uma introdução e de três partes principais, Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada uma dessas três partes é constituída por trinta e três cantos, de pouco mais de uma centena de versos decassílabos cada um, apresentados (metrados) em terceto (estrofes de três versos).

Na minha edição da “Divina Comédia” (Martin Claret, 2015) consta: “A Divina Comédia é uma das obras poéticas fundamentais da literatura mundial. Seu impacto sobre os contemporâneos de Dante foi enorme e quase imediato.

Já no século XIV criavam-se em toda a Itália cátedras especiais para interpretar seu conteúdo alegórico. A posteridade só confirmou sua grandeza. Dante começou a escrevê-la em 1308 e trabalhou nela até pouco antes de sua morte.

Nela, o trágico não constitui elemento essencial, e a língua e o estilo empregados são simples e naturais. Acompanhado por Virgílio, o poeta percorre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso”. E Dante, claro, vai ao encontro da amada Beatriz.

Dante é considerado, em razão da “Comédia” e de seus outros textos, como o fundador da língua italiana. E acho que, noves fora a Bíblia e Shakespeare, nenhum outro autor ou obra é tão badalado e dissecado quanto Dante e a sua “Comédia”. Não só nas letras. Também na arte pictórica, desde os tempos de Sandro Botticelli, passando por Gustave Doré, William Blake e Salvador Dalí, e chegando ao americano Sandow Birk. E virou assim a nossa visão – falo aqui de imagem mesmo – do mundo, dos céus ao inferno e vice-versa.

A Comédia, divina, é tudo!

De toda sorte, misturando Dante e a sua “Comédia” com a ciência política e o direito (a minha praia, acho), acredito que posso fazer duas pequenas observações sobre os ditos-cujos.

De logo, posso registrar que Dante foi autor de obras políticas, além de político ele próprio, no poder ou exilado de sua Florença. No dossier “EntreClássicos 1 – Dante Alighieri”, da Revista EntreLivros, que estou agora lendo, consta:

“Dante é raramente associado ao desenvolvimento da filosofia política e, no entanto, a política fez parte de sua vida desde a juventude, o que se refletiu no tratamento original que deu a temas importantes para a sua época. Se muitos observam a presença de figuras da cena pública italiana em suas obras poéticas, a maioria dos leitores acaba por deixar de lado o significado filosófico do fato para investigar o aspecto biográfico da relação entre o poeta, seus amigos e seus desafetos citados na Divina Comédia e em outros escritos. O fato de que o poeta teve de se exilar de sua terra natal em 1302 parece ser o acontecimento decisivo e fornecer a explicação para seu interesse pelos acontecimentos históricos, que foram marcantes para sua existência. Um estudo de alguns de seus textos mostra que a relação de Dante com a política foi muito mais intensa e criativa”.

“Convívio”, texto redigido entre 1303 e 1305, mas inacabado, seria um enorme tratado sobre filosofia, especialmente ética e retórica, direcionado aos governantes e aos homens públicos. Já em “Monarquia” (1311-1313), Dante, a partir de Aristóteles, Tito Lívio, Tomás de Aquino e Siger de Brabante, defende essa (a Monarquia) como forma universal e até divina de governo.

Doutra banda, como o fazem André Karam Trindade e Roberta Magalhães Gubert, no texto “Direito e literatura: aproximações e perspectivas para se repensar o direito”, constante do livro “Direito & literatura: reflexões teóricas” (Livraria do Advogado Editora, 2008), podemos relacionar Dante ao direito penal, em especial quando ele trabalha, no Inferno, com os critérios de “classificação dos crimes e punições que lhes são correspondentes”.

Dante foi ali severo, é verdade. Afinal, na porta do Inferno, “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Mas as penas horrendas de Dante são a visão do mundo de então (e da região italiana, em especial), devendo ser assim interpretadas. E isso só começa a mudar seriamente com o iluminismo de Cesare Beccaria e seu “Dos delitos e das penas”, de 1764. Mas esta, claro, é outra obra.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

A importância da fé

Por Odemirton Filho

“E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?

(Mateus 14:31)

A crença em algo superior sempre fez parte da alma do homem. Mesmo com o Iluminismo, no qual a racionalidade ganhou autoridade e legitimidade, a fé jamais deixou de fazer parte do coração humano.

Não é tarefa simples conceituar a fé, pois é um ato de íntima ligação com Deus. Sente-se a fé e, através dela, encontra-se a força necessária para enfrentar as batalhas da vida e seguir em frente.

Contudo, a fé pode ser entendida como “um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele. Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte o coração para Deus, abre os olhos do entendimento, e dá a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade”.A palavra  é derivada do latim. Sua origem é o termo FIDELITAS, que significa adesão, por sua vez, este se originou de FIDELIS, fiel, que se derivou de FIDES, que tem o significado de fé, no sentindo de crença ou confiança.

Para quem acredita em um ser superior, sobretudo, nesse período de pandemia, é importante essa união com o divino, em busca do fortalecimento do espírito.

De toda forma, apesar de muitos não professarem uma religião ou não acreditarem no metafísico, não se observa como absoluta essa dicotomia entre razão e fé, pois essa pode ser vista além da perspectiva divina. Existe a fé na própria natureza humana, bem como em dias melhores, ou seja, existe uma força motriz que nos faz acreditar em algo que desejamos.

Aliás, o pensamento tomista, ou seja, de Santo Tomás de Aquino, procurou compatibilizar essas duas perspectivas humanas.

Dante, na Divina Comédia, descreve a fé como uma “centelha que se expande depois em viva chama e, como estrela no céu, em mim cintila”.

Em sua Carta Encíclica sobre a fé, Lumen Fidei (luz da fé), o Papa Francisco ensina-nos que: “A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho”.

Mesmo diante da fé, não há como fugir a algumas indagações: como será o mundo pós-pandemia? O mundo voltará à normalidade?

Ressalte-se que, segundo alguns, o mundo terá que adotar com um “novo normal”. Isto é, as relações pessoais, sociais e econômicas conceberão uma nova convivência social, a fim de garantir a nossa sobrevivência.

Ou, talvez, esse exercício de futurologia não seja a melhor opção. Como diz a colunista Lucília Diniz, “não acredito que seja hora de ficar imaginando o nosso futuro. É um exercício meio inútil, porque o futuro, tal como o passado, não existe de fato, a não ser em nossa cabeça: o passado na forma de memória, o futuro como projeção. Tudo o que temos, de verdade, é o presente”.

Assim, viver o hoje, sem dúvida, é o que vale a pena.

Desse modo, apesar de toda a incerteza do porvir, deixo como alento as palavras do Papa Francisco: “Urge recuperar o caráter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Toffoli talvez seja ateu

Por Honório de Medeiros

Antes de mim nada era existente
Além do eterno e eu eterno sou.
Deixe aqui toda a esperança e entre.”
Inferno, III, 1-9
Dante Alighieri

Quando Dante, conduzido por Virgílio, como se lê em “A Divina Comédia”, chegou à porta do Inferno, e leu a advertência acima nele escrita, se encheu de medo. Não era para menos.

No poema o inferno é descrito como tendo nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. O oitavo círculo, o “Malebolge” (fraude), é todo em pedra e da cor do ferro, assim como a muralha que o cerca. Aqui estão os fraudulentos.

Este círculo está dividido em dez fossos (ou Bolgias), semelhantes aos fossos que defendem certos castelos, e os fossos estão ligados entre si por pontes.

A “Sexta Bolgia” contém os hipócritas vestidos com roupas brilhantes, atraentes, porém pesadas como o chumbo. Este é o peso que não sentiram na consciência ao fazerem maldades. No inferno, sentem o peso de seu falso brilho. Nele esta Caiphás, o sacerdote que condenou Jesus, crucificado no chão e sendo pisoteado pelos outros condenados, sofrendo as mesmas dores que Cristo sofreu.

A esses hipócritas Jesus destinou uma das suas mais belas pregações (Mateus, 23, 1-39):

(…)

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!”

(…)

“Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.”

Pois bem, o jornalista Ruy Fabiano, nestes dias, escreveu um artigo cujo título é “STF: sem juízes e sem juízo”. Transcrevo alguns trechos:

“No dia 3, o ministro Dias Toffoli negou habeas corpus a Evanildo José Fernandes de Souza, morador de rua que furtou e depois devolveu à loja uma bermuda de R$ 10.

A Defensoria Pública da União recorreu à tese da irrelevância do furto e ao fato de o morador ter devolvido a mercadoria. Toffoli foi implacável: tratava-se de reincidência – e ponto.

Evanildo cumprirá pena de 1 ano e sete meses.

Já José Dirceu, reincidente dos reincidentes – condenado no Mensalão e duas vezes no Petrolão por desvios multimilionários –, foi posto em liberdade pelo mesmo Toffoli, sem que a defesa do condenado o pedisse.

Não há irrelevância, nem devolução do roubo. E não é só: um dia antes de condenar o morador de rua, Toffoli, usurpando as prerrogativas do juiz da causa, Sérgio Moro, mandou tirar a tornozeleira eletrônica de José Dirceu. Nada de medida cautelar.

Trata-se agora de um homem livre, embora condenado duas vezes, em segundo grau, e já cumprindo pena. Pode agora, se quiser, comparecer à 24ª reunião do Foro de São Paulo, em Havana, no próximo dia 19. Não se sabe se irá, mas não será o STF a barrá-lo.

Toffoli integra a 2ª Turma do STF, onde, ao lado de Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, tem sido sistemático na defesa e libertação dos réus políticos da Lava Jato. Em circunstâncias normais (algo que inexiste há muito tempo), nem poderia julgar José Dirceu, a quem deve não apenas o cargo, mas a própria carreira.

Foi seu chefe de gabinete, advogado e assessor. A ele, deve a nomeação ao cargo de Advogado Geral da União, de onde, ainda por meio dele, foi guindado à mais alta Corte de Justiça do país – ele que fora reprovado em dois concursos para juiz de carreira.

(…)

Não se trata apenas de juízes: está faltando juízo ao STF.”

Talvez Toffoli seja ateu.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

A linguagem de cada tempo

Por François Silvestre

“Cessem do sábio Grego e do Troiano/ as navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandre e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram;/ Que eu canto o peito ilustre Lusitano,/ A quem Netuno e Marte obedeceram:/ Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”.

Camões inicia duas aventuras épicas. A intencional: de responder a Homero que fincara nos versos a aventura dos gregos e a Virgílio, que cumprira papel semelhante na origem da aventura latina.

A segunda não foi intencional: estruturar o esqueleto de um idioma. A “última flor do Lácio, inculta e bela”; do dizer de Bilac. Que responderia à pergunta do tempo: “ora direis ouvir estrelas”.

Era o português uma algaravia, desde 1139, (Sec. XII) que se confundia com o galego, a linguagem da Galícia. Ganhou contorno morfológico com a obra teatral de Gil Vicente e o Cancioneiro de Garcia de Resende, (Sec. XV). Porém, foi a épica camoniana (Sec. XVI) que teve o mérito de criar o arcabouço sintático da língua que nos define.

Os Lusíadas, muito mais do que a louvação heróica das aventuras marítimas, é uma fábrica de metáforas. O forno que modelou uma forma de compor versos, na língua nascente.

A metáfora consegue remodelar o conteúdo opaco para fazê-lo brilhante, na forma recriada. Não fosse ela, a poesia seria apenas uma repetida composição de rimas. Sonoridade vocálica, pobreza poética.

A rima, nos Lusíadas, é pobre. Combinando mais das vezes desinências verbais. A metáfora, não. E é delas que ele tira a tintura dos versos para engrandecer pequenos atos. Ao dar-lhes feição maior do que o gesto.

A aventura grandiosa da circunavegação Lusitana vai se desenrolando ao apelo metonímico da mitologia. Com a cumplicidade de Vênus e Marte, sofrendo a oposição de Baco e Netuno.

A metáfora produz poesia. Ela é a rainha das figuras na composição do estilo. Dando nós onde há linha lisa e alinhando a linha onde há nós. Mesmo que seja poesia de pedra, rústica ou polida. Afagando o ouvido ou a leitura.

Dante, Shakespeare, Neruda degustaram metáforas. E deram vida à poesia nossa de cada dia. O resto não é resto, é metáfora do que resta da sobra. Onde se escondem os verbos nos porões da zeugma ou se omitem os nomes, nos escaninhos da elipse.

Aí não se pode esquecer a política nossa de cada noite. No Brasil de hoje, só a língua, mesmo maltratada, ampara a Pátria.

Só que a metáfora na política é a tentativa de esconder a verdade, muitas vezes feia, para vender a mentira falsamente bela. E o povo, metáfora da abstração, deixa-se enganar concretamente na mesma cumplicidade da metafórica democracia de faz de conta.

Na circunavegação da falsidade, institucionalmente estabelecida, senhora dos poderes e controles, o embuste ético humilha a língua de Camões. Té mais.

François Silvestre é escritor