Arquivo da tag: ditadura militar

O risco de uma canetada – de Pedro Aleixo a Alexandre de Moraes

Por Marcos Araújo

Imagem em estilo aquarela gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Imagem ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Nesta semana que passou, o malfadado golpe militar que depôs o presidente João Goulart fez 61 anos. Simbolicamente, na mesma semana, o STF aceitou a denúncia criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Os dois eventos marcaram a história do Brasil, destacando-se dois personagens relevantes: Pedro Aleixo e Alexandre de Moraes. De comum a ambos, o uso da “caneta” como um instrumento de poder.

Pedro Aleixo era o vice-presidente da República na época da edição do Ato Institucional nº 5. Este ato fechou o Congresso, acabou com liberdades individuais e culminou no endurecimento do regime militar.  Pedro Aleixo, na qualidade de jurista experiente, se posicionou contra a sua edição e recusou colocar a sua assinatura. Perguntado se duvidava das mãos honradas do presidente, que seria o único juiz da aplicação do ato, o vice-presidente civil respondeu: “Das mãos honradas do presidente Costa e Silva, jamais. Desconfio é do guarda da esquina”. Pedro Aleixo queria dizer que o perigo da ditadura estava no poder que se assentava nas mãos de uma escala de autoridades que descendia do presidente da República até o guarda que vigia a rua.

As “canetadas” recentes do STF trazem à lembrança a necessária menção ao “guarda da esquina”. São evidentes os abusos de poder, como o interminável Inquérito das “Fake News”, iniciado sem a provocação do órgão acusador natural (a Procuradoria da República) e apenas com uma “canetada” do Ministro Alexandre Moraes. Outro exemplo é a ADPF 635 (a chamada “ADPF das Favelas”), em que o STF interveio nas políticas de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, suspendendo a instalação de bases fixas nas favelas e o uso de helicópteros nas operações policiais.

O autor inglês Edward Bulwer-Lytton dizia: “A Caneta é mais poderosa que a espada”. A frase foi usada pela primeira vez pelo Cardeal Richelieu em sua peça “Richelieu: Or the Conspiracy”. Em um mundo onde a gratificação instantânea e as tendências passageiras dominam nossa atenção, este ditado da caneta encapsula a ideia de que as habilidades intelectuais e comunicativas podem ter um impacto mais significativo do que a força física.

Embora o meio de transmissão do poder da caneta possa ter mudado — de tinta e papel para pixels e telas — a essência permanece a mesma. As ordens, sejam digitadas ou escritas, têm o poder de inspirar mudanças, provocar pensamentos e influenciar ações.

Pois bem! Assim, como as “canetadas” do pseudo-juiz lá de Curitiba, que fazia arremedos processuais com sua caneta tirânica, idênticos riscos sofremos agora com os atos abusivos do STF. Os que não aceitam limites, comungam intimamente com a hipertrofia do Poder Judiciário, e militam, sem saber, em favor da Juristocracia. O termo “juristocracia” foi criado pelo cientista político canadense Ran Hirschl para descrever o tipo de regime político que nasce do deslocamento de poder da esfera representativa para a esfera judicial – implodindo a clássica separação entre os Poderes, um dos pilares da democracia moderna.

A Juristocracia se alimenta das “canetadas”, e apropria-se da ficção que seu uso se dá em favor da Democracia. A retórica, materializada numa assinatura, ganha contornos de uma encenação teatral, já que as decisões importantes são tomadas em favor próprio. O poder de verdade é exercido pelo estamento burocrático, expressão usada por Raymundo Faoro em sua interpretação da sociedade brasileira.

Alguns hão de dizer que não temem Alexandre de Moraes e os ministros do STF. Acham-se imunes a eles. Mas, lembrando Pedro Aleixo, o nosso problema pode não ser o STF, mas o Juiz da “esquina”, geograficamente situado na nossa Comarca. É dele o poder da caneta.

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Ainda estou aqui

Por Odemirton Filho

À esquerda da foto, os filhos Adiel, Albenice e Ana Maria. À direita, Alba (mãe do cronista), Adna e Adnélia. O mais alto da foto é o filho mais velho, Alcides. No colo da mãe Placinda, Alcivan; no colo do pai Vivaldo, Arnon (Álbum de família)
À esquerda da foto, os filhos Adiel, Albenice e Ana Maria. À direita, Alba (mãe do cronista), Adna e Adnélia. O mais alto da foto é o filho mais velho, Alcides. No colo da mãe Placinda, Alcivan; no colo do pai Vivaldo, Arnon (Álbum de família)

“Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Beyrodt Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, viu-se obrigada a criá-los sozinha quando, em janeiro de 1971, Rubens Paiva foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor e às incertezas, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras”.

“Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou”, escreve Marcelo Rubens Paiva neste relato emocionante sobre o passado, as perdas e a volta por cima. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, ele fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento sombrio da história recente brasileira para contar – e tentar entender- o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971”.

Eis a sinopse do livro, “Ainda estou aqui.” A história baseou o filme, protagonizado pelas atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, e pelo ator Selton Mello.

Ao folhear as páginas do livro, lembranças vieram à tona. Lembrei da história que minha mãe conta, com os olhos marejados, sobre a prisão do meu avô materno, Vivaldo Dantas de Farias. Como ele lutava nas trincheiras em defesa da democracia, foi preso em sua residência, na rua 06 de Janeiro. Os treze filhos ficaram assustados com aqueles homens de coturnos. O suposto crime? Lutar por um estado democrático de Direito.

Daí em diante começava um calvário para a minha avó, Placinda Dutra. Ela teve que ter discernimento para acalmar os filhos, pois eles ficaram com medo de nunca mais terem o pai de volta; teve que tocar, sozinha, a sua fábrica de redes.

Entretanto, ela soube conduzir a situação com fé inabalável. Conta-nos minha mãe que a minha avó escondeu os livros de meu avô em uma carroça, mandando-os para serem enterrados em um terreno distante de sua residência. Livros com ideias comunistas, à época, eram um libelo-crime.

Da mesma forma que a família de Rubens Paiva, a minha também não sabia o local no qual o meu avô estava preso. Foram quarenta e cinco dias de tortura psicológica, uma agonia para familiares e amigos.

Por outro lado, o livro aborda a doença de Alzheimer, a qual acometeu Eunice Paiva no final de sua vida. A minha avó também padeceu da doença nos últimos anos de sua existência. Quem convive com pessoas assim, sabe como é delicado o dia a dia, é preciso muito amor, cuidado e paciência.

Leia tambémÀ memória de Vivaldo Dantas de Farias (2014)

Leia tambémVô Vivaldo (2022)

Triste é ver quem amamos já não reconhecer quem está ao seu ao lado, precisando de ajuda para fazer as simples atividades do cotidiano. As memórias recentes são apagadas, já as antigas são recontadas, recontadas …

Eunice e Placinda sofreram dos mesmos males: a ditadura militar e a doença de Alzheimer.

Entretanto, o meu avô, apesar de machucado no corpo e na alma, voltou para casa. Rubens Paiva, infelizmente, não.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Morre Juca Chaves, o “Menestrel Maldito”

Morreu na madrugada deste domingo (26), o músico, compositor e comediante Juca Chaves, aos 84 anos. Ele estava internado no Hospital São Rafael, em Salvador, capital da Bahia. Seu sepultamento ocorreu no próprio domingo.

Juca morava há décadas na Bahia (Foto: Denise Andrade)
Juca morava há décadas na Bahia (Foto: Denise Andrade)

“O Hospital São Rafael lamenta a morte do paciente Juca Chaves na noite deste sábado (25) devido a complicações de problemas respiratórios e se solidariza com a família e amigos por essa irreparável perda. O hospital também informa que não tem autorização da família para divulgar mais detalhes”, disse em nota.

Juca Chaves nasceu Jurandyr Czaczkes Chaves, em 22 de outubro de 1938, no Rio de Janeiro. Formado em música clássica, ele já vivia há algumas décadas na capital baiana. Começou a carreira profissional em 1955, na TV Tupi, e chamava a atenção por um humor ácido e inteligente.

Era músico, compositor, humorista e crítico. Desde meados dos anos 60, seus trabalhos eram cercados por críticas sociais — o que o fez perseguido pela ditadura militar, forçando-o a viver seis anos fora do país, entre Portugal e Itália. Juca Chaves foi apelidado pelo poeta Vinícius de Moraes de “O Menestrel Maldito”.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e YouTube AQUI.

Polêmico general com atuação no regime militar morre aos 97 anos

Do G1

General Newton Cruz estava internado (Foto: reprodução de vídeo)
General Newton Cruz estava internado (Foto: reprodução de vídeo)

O general Newton Cruz, ex-chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante a ditadura militar, de 1964 a 1985, morreu na sexta-feira (15). Cruz tinha 97 anos.

A informação foi confirmada ao g1 por familiares neste sábado (16). Newton Cruz morreu de causas naturais e estava internado no Hospital Central do Exército, em Benfica, na Zona Norte.

À tarde, o Comando Militar do Leste divulgou nota confirmando a morte.

Em 2014, foi apontado pela Comissão da Verdade como um dos 377 militares que cometeram crimes durante a ditadura.

Em 1982, o jornalista Alexandre von Baumgarten foi assassinado. O caso veio a público no ano seguinte, após a publicação de um dossiê em que ele acusava integrantes do SNI de planejar sua morte.

Em 1994, Newton Cruz foi candidato ao governo do Rio pelo PSD. Terminou em terceiro colocado no primeiro turno, atrás de Marcello Alencar (PSDB) e Anthony Garotinho (PDT).

Saiba mais detalhes clicando AQUI.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e Youtube AQUI.

Brasil e Cuba livres!

Protestos começaram no fim de semana em Cuba (Foto da agência Reuters)
Protestos começaram no fim de semana em Cuba (Foto da agência Reuters)

Muita gente nas redes sociais defendendo “Cuba livre”, um regime democrático para a ilha da família Castro.

Concordo!

Só acho estranho que muitos desses advoguem, paralelamente, intervenção militar (eufemismo de ditadura) para o Brasil.

Vá entender!

Eu, hein!

Leia também: Protestos em Cuba – entenda o movimento social.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI e Youtube AQUI.

O que eu defendo, o que acredito e o que tenho nojo!

cérebro, falar, pensar, dialogar, diálogo, pensamento, inteligênciaO deputado federal General Girão (PSL) disparou uma ação extrajudicial contra o jornalista e blogueiro Bruno Barreto. Cobra reparos de comentários do profissional, que estariam o associando à defesa de golpismo militar.

Avisa, nesse instrumento ‘amigável’, que se não houver recuo o jornalista-blogueiro “vai arcar com as providências cabíveis”. Ou seja, presume-se, uma ação judicial (e não extrajudicial) por danos morais. É o normal numa democracia ou simulacro disso, que é o que experimentamos.

Numa ditadura seria diferente. Provavelmente, Bruno estaria dando explicações num bate-papo reto com a turma dos porões. Seria “convencido” a não pecar novamente ou “jamais”, caso voltasse de lá. Entende?

Minha solidariedade a Bruno Barreto é irrestrita, absolutamente completa, integral; em terra, ar e mar, no ambiente virtual e qualquer galáxia. Por princípios, não por compadrio ou corporativismo. Até porque, considero que o direito subjetivo de quem se apresenta como ofendido, maculado, tem no ambiente judicial a seara natural e civilizada a seu arrimo.

Vi o material que ele produziu e não sei onde possa ter ocorrido leviandade ou excessos.

Preferiria testemunhar o deputado Girão ser mais atuante em defesa dos interesses do povo do RN em vez de se notabilizar como centurião perpétuo e anteparo permanente do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o que é legítimo, que se diga. Se é sua vontade, vá lá! Seus eleitores parecem satisfeitos.

Um estado pobre como o nosso, com bancada tão minúscula (apenas oito deputados e os três senadores comuns aos demais entes federados), precisa e merece mais. Dele e dos demais parlamentares.

Não fosse a prerrogativa das emendas orçamentárias impositivas, boa parte dos nossos representantes em Brasília não teria absolutamente nada a mostrar como acervo de iniciativas pró-povo e pró-RN.

Confesso-lhe: eu tenho nojo, absoluto nojo de qualquer ditadura, da esquerda à direita e vice-versa. Do híbrido Getúlio Vargas a Fidel Castro; do generalato que comandou o país por décadas a Nicolae Ceauşescu (Romênia); de Francisco Franco (Espanha) a Josef Stalin (URSS).

A liberdade não é um meio, deve ser um fim.

“O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus”, classificou o professor e filósofo Lord Acton. Como o dogma da “infabilidade papal” (um dos grandes absurdos da Igreja Católica), querem nos fazer acreditar que os mandarins não erram jamais. Estão sempre certos e não devem ser questionados.

Para os que defendem esse modelo de autoridade restritiva, acreditando na liberdade, é preciso entender que eles são excludentes. Há um conflito inconciliável. Um pouco de estudo, mesmo raso, vai lhe mostrar que milhares de apoiadores e defensores da ditadura de 1964, acabaram perseguidos por ela – por discordâncias internas. De militares a civis influentes.

Houve, entre os fardados, quem sempre foi contra a quebra da legalidade e acabou tratado pelo regime como “inimigo do povo”, caso do marechal Henrique Teixeira Lott. Foi preso, desterrado da vida pública e em seu sepultamento no Rio de Janeiro, em 1984, lhe negaram até honras militares. Coube ao governador carioca e ex-expatriado politico, Leonel Brizola, ofertar-lhe o mínimo de dignidade com luto oficial de três dias.

Daqui a décadas e séculos, quando forem estudar essa época, com profundidade e distanciamento (inclusive do tempo), pode ter certeza: as referências confiáveis não serão o Twitter oficial de nenhum político e qualquer blog partisan.

Vão farejar dados de quem teimou em seguir a regra básica da “pirâmide invertida” (técnica do jornalismo à matéria factual), buscando resposta às perguntas de sempre: O quê? Quem? Quando? Onde? Por quê?

O jornalista tem um ofício vitalício. Alguns políticos o são hoje, amanhã terão o ostracismo.

Queiram ou não queiram!

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI e Youtube AQUI.

A ‘novidade’ sobre o poeta

Por François Silvestre

Vejo nas folhas que há uma novidade sobre o poeta João Cabral de Melo Neto, retirada das memórias de Tereza Goulart, viúva de Jango. Só não é novidade para mim.Ainda nos tempos do Substantivo Plural, de Tácito Costa, causei alguns arrepios quando contei esse fato. Até o cineasta e romancista pernambucano Fernando Monteiro precisou publicar um texto confirmando o que eu afirmara, para acalmar os ânimos duvidosos de um famoso poeta potiguar. Era tudo verdade.

João Cabral, poeta substantivo, ímpar, era funcionário de carreira da Diplomacia. Sofreu muita pressão da Ditadura, inclusive com transferências continuadas. Seu reduto preferido foi Sevilha, onde teve um pouco de sossego.

A pressão foi tanta que ele renegava o “Vida e morte Severina”. Dizendo publicamente que era poesia pequena, melosa. Uma forma de atenuar o ferrão.

Lotado no serviço diplomático em Buenos Aires, ele recebeu a “incumbência” de relatar os movimentos do Presidente João Goulart, exilado no Uruguai, quando de suas visitas à capital da Argentina. A “incumbência” era ordem funcional.

Ou fazia ou fazia. E ele cumpriu. Relatava em que hotel Jango se hospedava, quantas visitas recebia, a duração das visitas, e se possívelidentificação dos visitantes.

O coitado, vítima de uma cefaleia crônica, não criou qualquer problema para Jango. Criou para si mesmo. Mortificou-se, com uma velhice sofrida e dolorida.

O mal está na Ditadura, não nos perseguidos. E Cabral foi um dos perseguidos.

“Um galo sozinho não tece uma manhã/ precisará sempre de outros galos/. De um que apanhe esse grito/ e lance a outro”… João Cabral de Melo Neto.

* INSCREVA-SE em nosso canal no Youtube (AQUI) para avançarmos projeto jornalístico.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Lição de Golbery para quem governa

Por Walter Gomes

Golbery e Geisel: transição (Foto: reprodução)

“Há três tipos de poder: o que você acha que tem, o que os outros acham que você tem e o que realmente você tem”.

Afirmação atribuída ao general e pensador Golbery do Couto e Silva, ministro da Casa Civil nas duas últimas governanças do regime de exceção – Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo.

companhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Liberdade de expressão

Por Odemirton Filho

Há exatamente cinquenta e cinco anos – em 31 de março de 1964 – o Estado brasileiro sofreu um golpe, ou, como querem alguns, uma revolução civil-militar, uma contrarrevolução.

Entrementes, é de somenos interesse como se interpretam os fatos ocorridos à época. Com o Estado de exceção que se iniciou, um dos direitos mais caros a um Estado Democrático de Direito, entre outros, foi solapado: a liberdade de expressão.

A liberdade de expressar o que pensamos sobre os mais variados assuntos é um exercício consagrado nas hostes democráticas. Não há democracia quando nossa voz é calada.

No Brasil, a Constituição Federal contempla esse direito quando diz: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato (Art. 5º, IV).

A liberdade de expressão, entretanto, não pode ser usada para denegrir a imagem de quem quer que seja, desbordando da razoabilidade.

Em consequência, toda vez que excedo a minha liberdade de expressão, estou passível de responder, civilmente, uma indenização por dano moral e, penalmente, uma ação por crime contra a honra, como a calúnia, a injúria ou a difamação.

Nesse sentido, é o que diz o Art. 5º, V: “é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem”

Contudo, não posso ter o meu direito de manifestação tolhido, por medo de responder judicialmente a uma demanda. Não se pode calar a minha ou a sua voz.

Em uma democracia, devemos expor nossas opiniões, respeitando e exigindo respeito, em relação a qualquer fato do cotidiano.

Nesse contexto, recentemente, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, determinou a instauração de um inquérito para apurar fatos que, na sua ótica, foram ofensivos à Corte e de tom ameaçador aos seus membros.

Conquanto tenham vozes dissonantes à decisão do ministro-presidente, uma vez que o órgão julgador não pode ser o órgão investigador, diante do nosso sistema acusatório, há um procedimento em curso que poderá ensejar uma condenação àqueles que agiram de forma ofensiva e ameaçadora.

Desse modo, sem adentrar na legitimidade ou não do STF para conduzir o inquérito, não consigo vislumbrar, nos dias de hoje, um censor nas redações dos jornais, revistas, redes sociais ou, ainda, qualquer espécie de repressão às manifestações, seja individual ou coletiva.

Tal atitude seria um retrocesso e uma ofensa à Carta Maior, uma vez que a sociedade brasileira teve sua voz calada por longos vinte anos, em um tempo que merece ser esquecido, jamais celebrado.

Que a democracia nos livre desse mal.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Deputados batem-boca e revelam diferenças em plenário

Pimentel e Azevedo: distância e diferenças (Fotomontagem: Grande Ponto)

A turma do “deixa disso” está em ação nos intramuros da Assembleia Legislativa para aplacar os as diferenças entre os deputados estaduais Coronel André Azevedo (PSL) e Sandro Pimentel (PSOL), além do decano deputado Getúlio Rêgo (DEM).

Na sessão dessa quinta-feira (28), eles tiveram acirrada discussão em plenário, com eco que chegou nos corredores e gabinetes desse poder.

O estopim foi discurso e leitura de um texto por Azevedo, de exaltação ao regime militar. Sandro Pimentel interveio. As galerias estavam lotadas de servidores em greve da Saúde, que passaram a fazer ruidosa reprovação ao deputado apologista do período de exceção.

Getúlio Rêgo cobrou contenção dos manifestantes e atribuiu a Sandro a responsabilidade pela mobilização e hostilidades aos parlamentares. Em discurso, Sandro deixou claro que estava ao lado dos grevistas.

Não baixou a guarda. Destacou até, que tinha consciência de estar de passagem pela Casa, mas sem abrir mão de suas convicções nem mudar de lado.

– Isso é muito feio para a Casa – exprimiu um deputado.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

MPF recomenda que militares não façam manifestação política

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou aos comandos da Base Aérea de Natal, 3º Distrito Naval, 16º Batalhão de Infantaria Motorizada e 7º Batalhão de Engenharia de Combate – todos situados no Rio Grande do Norte – que se abstenham de promover ou tomar parte de qualquer manifestação pública, em ambiente militar ou fardado, em comemoração ou homenagem ao período de exceção instalado a partir do golpe militar de 31 de março de 1964.

A iniciativa integra uma ação coordenada, que reúne Procuradorias da República em pelo menos 19 estados, o Ministério Público Federal também solicita às unidades militares a adoção de providências para que seus subordinados sigam essa orientação, e que sejam adotadas medidas para identificação de eventuais atos e de seus participantes – com fins de aplicação de punições disciplinares, bem como, comunicação ao MPF para a adoção das providências cabíveis.

Recomendação – subscrita no Rio Grande do Norte pelos procuradores da República Caroline Maciel, Victor Mariz, Fernando Rocha e Renan Felix – e aciona comandos militares de todas as regiões do país e estabelece prazo de 48 horas para que sejam informadas ao Ministério Público Federal as medidas adotadas para o cumprimento das orientações ou as razões para o seu não acatamento.

Saiba mais detalhes clicando AQUI.

Nota do Blog – A que ponto chegamos. Precisar o MPF emitir recomendação sobre uma data que representa a ruptura do estado democrático de direito. Francamente! Pare o mundo que eu quero descer.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Carniça atrai urubus

Por François Silvestre

Paulo Maluf dominou boa parte da vida pública brasileira por meio da corrupção e trampolinagem. Foi governador do maior Estado do Brasil, prefeito da maior cidade, deputado federal com votações acachapantes.

Maluf: prisão (Foto: Web)

Acólito da Ditadura, mandou agredir operários e estudantes. Financiou torturas e protegeu torturadores.

Quase chega à Presidência da República. Tudo isso sob acusações às escâncaras de aparelhamento do erário para fins de enriquecimento ilícito, seu e dos seus. Enquanto exerceu esses cargos e teve poder de agir, ninguém mexeu com ele.

Navegou em mar sereno, nas barbas da Justiça e dos órgãos de controle. Impunemente.

Agora, quase moribundo é alvo da fúria ética. Enquanto carne, ninguém o molestou. Após carniça, alvoroçam-s e os urubus.

É o Brasil…

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

Farsa ou café requentado?

Por François Silvestre

O MDB nasceu sob o signo da suspeita. Quando a Ditadura aboliu os partidos políticos da ordem constitucional de 1946, criou dois “partidos” para dar feição de normalidade política. Arena e MDB.

Os adversários mais consequentes do regime imposto torceram o nariz para os dois. Um declaradamente a ser “partido do governo” e o outro “partido de oposição”.

Oposição consentida, era o rótulo do MDB.

Passado o tempo, o partido da oposição consentida criou estatura de oposição respeitável. E muitos dos que não se filiavam a correntes ideológicas extremadas abrigaram-se no seu ninho.

E prestou um grande serviço na luta pelo retorno da Democracia.

Com o fim do bipartidarismo, a ditadura imaginou desfigurar o MDB. E legislou exigindo a palavra “partido” em todas as siglas partidárias.

Ao ganhar o “P”, o MDB prostituiu-se. E só piorou ao longo do tempo.

Agora, sem jeito de remendo querem retirar o “P”, como se o fim de uma letra fosse o fim da patifaria.

Não.

É apenas a farsa da tragédia originária.

Café requentado muito tardiamente.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

PMDB veste grife do “MDB” mas segue com corpo sujo

Em convenção nacional ocorrida dia passado em Brasília, os convencionais do PMDB aprovaram mudança de nome da legenda. Deixará de ser PMDB para ser apenas MDB – Movimento Democrático Brasileiro.

“Não é volta para o passado. É um passo gigantesco para o futuro”, afirmou o senado Romero Jucá, seu presidente.

O MDB foi criado em 1966, para fazer oposição à Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido que dava sustentação à ditadura militar. O fim do bipartidarismo em 1979, levou à reorganização do quadro partidário e fez o MDB virar PMDB.

Imerso em denso lamaçal de corrupção, estando entre os partidos mais envolvidos em falcatruas e desvios diversos de recursos públicos, o partido pretende repaginar sua imagem.

Vai procurar focar também em segmentos evangélico e socioambientais.

Nota do Blog – Enfim, os “emedebistas” vestirão uma roupa velha, que era de grife, para aparecerem melhor na “fotografia”, apesar do corpo continuar sujo e insalubre.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

Estupidez, ignorância e incultura saúdam agressão à jornalista

Triste de ver e ler estudantes de Comunicação Social e jornalistas atuantes, Brasil afora, vibrando com agressões físicas e ameças sofridas ontem no Rio de Janeiro, pelo repórter Caco Barcellos da Rede Globo de Televisão.

É muita ignorância, incultura e estupidez reunidas.

Patético como essa gente consegue chegar a tal nível de miopia.

Caco foi agredido por manifestantes próximo à Assembleia Legislativa do RJ (Foto: Jornal Extra)

Ajudo-os, mesmo sabendo que não tem valor algum pensar diferente, com depoimento do escritor Marcelo Rubens Paiva, que teve pai deputado morto durante o Regime Militar:

– Chamar o Caco Barcellos de golpista… Não sabem que foi dos repórteres que mais incomodou a ditadura militar e a PM assassina. Erram o alvo!

Nota do Blog – Pai, perdoa…!!!

Essa gente não sabe o que faz nem o que diz. São os democratas da opinião única, que têm pavor do contraditório e detestam tudo aquilo que não seja exatamente o que repetem por orientação alheia.

Apoiar e defender agressão a um colega de profissão é realmente demais!

Meu sentimento é de compaixão de quem pensa e age assim, mesmas pessoas que aplaudem fechamento de rádios, jornais, TV´s etc.! Analfabetos políticos.

Saiba mais sobre o episódio clicando AQUI.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

Amado Batista e a tortura

Por Urariano Mota (Blog Viamundo)

As declarações do cantor Amado Batista no programa “De frente com Gabi”, do SBT, merecem um pouco mais de reflexão. As notícias registram que assim falou o astro da canção brega:

“Eu acho que mereci a tortura. Fiz coisas erradas, os torturadores me corrigiram, assim como uma mãe que corrige um filho. Acho que eu estava errado por estar contra o governo e ter acobertado pessoas que queriam tomar o país à força. Fui torturado, mas mereci”.

A reflexão sobre uma frase assim não deve ir pelo caminho do deboche, no gênero da última comédia stand-up, que tudo avacalha como se a vida fosse uma só avacalhação. Portanto, não diremos que há pessoas que gostam de espancar, e outras que adoram ser espancadas.

Nem tampouco diremos que no cantor de triste nome Amado sobrevive a síndrome de Estocolmo, aquela em que a vítima passa a se identificar emocionalmente com a tortura que sofreu do criminoso, pois tem medo de maior violência. Esse mal cairia melhor em Geraldo Vandré. Não, o caso Amado Batista é outro. Tentarei refletir por um segundo caminho, em duas ou três coisas.

A primeira coisa que destaco na frase do cantor Amado é a mentira, sob duas faces. Na que mais aparece, a mentira objetiva, da realidade a que se refere, pois a ninguém deve ser dada a punição da tortura, e no caso de Amado com o agravo do adjetivo “merecida”. Na outra face, mentira subjetiva mesmo, porque o não muito Amado desloca a dor sofrida para a felicidade da ética, aquela em que fazemos o justo, ainda que seja desconfortável.

Por que esse deslocamento? A sua queda na consciência amoral deve ter ocorrido por motivos que ele não declara. Que bom acordo seguiu Amado Batista ao sair da tortura para o sucesso? É claro, todo conformista fala que as pessoas têm que sobreviver. Mas seria reveladora a apresentação da amada conta. Qual foi o seu valor?

A segunda coisa é a vitória parcial do conservadorismo, da repressão, que se encontra na raiz do espírito de escravo e da história da escravidão no Brasil. Amado Batista fala como um escravo que saiu da senzala e se vestiu de senhor. Ele fala como um escravo agraciado que acha justo o pelourinho porque alguma coisa de ruim o homem – ou parecido com homem – que sofre a tortura fez. Castigo merecido, ele declara. E nesse particular, Amado Batista é o retrato de um Brasil oprimido que sobrevive.

Os pobres cujo espírito não se liberta da pobreza carregam por toda a vida o respeito à ordem e à autoridade. Se um miserável ou marginalizado recebe a morte ou o espancamento, ele fez por merecer, dizem. Em um Brasil que atravessa a recuperação dolorosa da memória, a frase de Amado Batista é um escárnio.

Nesta semana, as ex-presas Dulce Pandolfi e Lúcia Murat expuseram com a verdade o que é a tortura: estupros, abjeção além do limite, exemplos nos próprios corpos de aulas para torturadores.

A terceira e última coisa a destacar no escárnio stand-up, do saudoso da humilhação Amado Batista, é a ignorância, o nível de apreensão da vida, da sociedade, que não se confunde com a ignorância de muitos homens e artistas iletrados. João do Vale, ou Vitalino dos bonecos de barro, marginalizados que foram do ensino nas escolas formais, jamais sorririam assim dos choques sofridos no pau de arara. Esse nível do cantor de injusta alcunha Amado se reflete melhor, creio, nas letras que a sua arte comete. Não precisam escutar, leiam um dos seus poemas cantados:

“Princesa, a deusa da minha poesia, ternura da minha alegria, nos meu sonhos quero te ver. Princesa, a musa dos meus pensamentos, enfrento a chuva e o mau tempo pra poder um pouco te ver”.

E agora comparem, enfim, a justeza e boa ética da tortura, que pune os criminosos na frase de Amado Batista, com as palavras de Dulce Pandolfi: “Dois meses depois da minha prisão e já dividindo a cela com outras presas, servi de cobaia para uma aula de tortura. O professor, diante de seus alunos, fazia demonstrações com o meu corpo. Era uma espécie de aula prática com algumas dicas teóricas”.

E nas de Lúcia Murat: “A tortura era prática da ditadura, e nós sabíamos disso pelo relato dos companheiros que tinham sido presos antes. Mas nenhuma descrição seria comparável ao que eu vim a enfrentar. Não porque tenha sido mais torturada do que os outros, mas porque o horror é indescritível”. Tamanha era a dor e destruição que Lúcia tentou se matar duas vezes.

Tortura, a deusa da sua poesia, Amado Batista enfrentou a chuva e o mau tempo pra poder um pouco te ver.

Urariano Mota escreve para o Blog Viamundo