“A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; mas hoje, vendo que o que sou é nada, quero ir buscar quem fui onde ficou”. (Fernando Pessoa).
Vez ou outra, lembro-me da criança que fui; de poucas palavras, poucos amigos. Vivi os dias da minha infância na rua Tiradentes, no centro de Mossoró. Ali, o adulto de hoje foi forjado.
Os dias corriam devagar, quase parando, divididos entre a casa onde morava, a padaria dos meus pais e o colégio. À noitinha, gostava de jogar bola com os meninos da rua e ouvir histórias de “trancoso”. As férias, como já escrevi em inúmeras oportunidades, era na praia de Tibau, meu xodó.
Lembro que os dias na padaria começavam ainda de madrugada. Meu pai, por inúmeras vezes saiu de madrugada para ir buscar outro funcionário, porque o padeiro do turno, depois de tomar umas, faltava ao serviço. Então, era um aperreio para conseguir um substituto e conseguir começar o dia com uma nova fornada de pães.
Durante o período da manhã, depois de fazer o dever de casa, eu corria pra padaria a fim de ver os funcionários, literalmente, com a mão na massa, trabalhando incansavelmente com o cilindro. Recordo-me muito bem do padeiro João Camilo, um mestre em sua arte.
A massa depois de pronta era colocada em um enorme forno a lenha. Ao sair do forno, em alguns pães, passava-se um pincel com uma espécie de melaço, transformando-o no famoso “pão doce”. Maria Arimar Braga, funcionária antiga da padaria, fazia os bolos e doces.
O que mais apreciava, entretanto, era a bolacha sete capas, enquanto ajudava a encher os pacotes, saboreava algumas.
Cheguei, algumas vezes, a atender no balcão. O final da tarde era o horário de maior movimento, quase não dava conta atender a freguesia. Outra vezes, porém, quando tinha mais idade, ficava no caixa, recebendo dinheiro e passando troco. Nada de cartão de débito, crédito ou PIX. Era dinheiro “vivo”.
Duas ou três Kombis faziam a entrega dos pães em alguns pontos de revenda nos bairros mais afastados da cidade. Às vezes, vendia-se muito; a sobra, chamávamos de “boia”. Final de semana, normalmente no sábado à tarde, fazia-se o pagamento dos funcionários. Inúmeras vezes, restava-nos uma quantia mirrada de dinheiro.
Havia um senhor, não lembro o nome, que toda tarde passava para comprar pão. Ele chegava no seu carro potente, descia, comprava e ia embora. Criança, eu ficava sentado na calçada, vendo-o, e dizia a mim mesmo que, um dia, teria o meu carro pra ir comprar pão em uma padaria e levar para minha mulher e meus filhos. Um inocente sonho de criança. Mas, quem não teve um sonho quando era criança? Eu tive. Muitos. Não deixei de sonhar, é claro, no entanto, sonho com os pés no chão.
Por isso, aqui e acolá, ao buscar a criança que um dia fui, lembro um pouco do ontem. Dos meus medos e sonhos; das minhas alegrias e tristezas. E hoje, agradeço a Deus pelo pão nosso de cada dia.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
A queda de um avião em Vinhedo (SP), no último dia 9, ceifou a vida de sessenta e duas pessoas, interrompendo sonhos e cobrindo o Brasil de luto. Eram pessoas de todas as idades que não voltaram para as suas famílias, pois partiram para outro plano e deixaram saudades no coração dos seus. Um abraço apertado, um sorriso, um beijo carinhoso, uma lágrima, quantas lembranças devem estar no coração dos familiares e amigos.
Imaginemos os filhos a esperarem os seus pais; os pais a esperarem os seus filhos. Maridos e mulheres ansiosos pelo retorno do(a) companheiro(a). Quando ocorre uma tragédia dessa proporção há um enorme sentimento de pesar, diante do impacto por tantas vidas perdidas de uma só vez. Embora tenhamos a morte como certeza, pois a “única conclusão é morrer” – diria Álvaro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa.
Claro que os órgãos competentes irão apurar os fatos e, se ao final da investigação, houver culpados, que sejam responsabilizados na forma da lei. Entretanto, nada aplacará a dor de quem ficou. Nenhuma indenização, por maior que seja, pagará o inestimável valor que aquelas pessoas tinham para os seus familiares. A saudade será uma companheira diária, uma vez que o tempo pode acalmar o coração, todavia, nunca conseguirá arrancar do peito o amor por aqueles que nos fazem falta.
Fico a pensar no filho que não aprenderá a andar de bicicleta com o seu pai; na mãe que não mais abraçará o filho. Os encontros em família não serão como outrora, sempre faltará alguém. E, aqui ou acolá, lágrimas descerão pelo rosto, porque o coração estará transbordando de lembranças e saudades.
O jovem casal não formará a sua família, não terão os filhos que tanto esperavam; a casa, comprada com tanto esforço, ficará vazia. Os sonhos sonhados foram desfeitos, pois só tinham razão de ser se fossem concretizados ao lado daquela pessoa.
Quantos abraços, beijos e sorrisos não foram trocados antes daquele fatídico voo? talvez, juras de amor. Mensagens por meio do aparelho celular foram enviadas, “eu chego já, te amo”.
Se eles soubessem que aquele momento seria o derradeiro, teriam dado um abraço mais apertado, um beijo mais demorado, teriam dito palavras nunca ditas. Eu sei que é um clichê, mas nunca é demais repetir que nenhuma demonstração de afeto deve ser deixada para depois, pois não sabemos quando será o último abraço.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
Padre Sátiro Cavalcanti Dantas (Foto: Ricardo Lopes/Junho de 2011/Arquivo)
O lisboeta Fernando Pessoa, por meio de um dos seus heterônimos, Bernardo Soares, poetizou certa feita sobre o dever de sonhar: “Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.” E arrematou, adiante: o homem tem o tamanho do seu sonho.
O sonhador que se preza oferece a sua vida pela realização dos objetivos idealizados. Joe Darion e Mitche Leigh, compositores americanos, escreveram uma linda canção sobre essa doação, chamada “The Impossible dream”, que aqui no Brasil foi versionada por Chico Buarque e Ruy Guerra como “Sonho impossível”, gravada por Maria Bethânia. Uma passagem pungente: “E amanhã, se esse chão que eu beijei For meu leito e perdão /Vou saber que valeu delirar e morrer de paixão.”
Graças aos sonhadores a humanidade se aperfeiçoa. A história registra um discurso de um grande sonhador numa manhã de 28 de agosto de 1963, o pastor americano Martin Luther King, que durante uma marcha em direção a Washington, perante 250 mil pessoas, começou dividindo o seu sonho (“I Have a Dream” – eu tenho um sonho). Essa expressão serviu de inspiração para titular uma canção do grupo sueco ABBA.
O Brasil cresceu pela materialização do pensamento e da ação de muitos sonhadores. Pernambuco ofereceu Josué de Castro ao mundo, para idealizar o fim da pobreza e das desigualdades regionais. Quase recebeu o Nobel da Paz, mas, tido como comunista, foi rejeitado pelos conselheiros do Instituto Alfred Nobel. Minas Gerais pariu o sociólogo Betinho de Souza, criador da campanha nacional de combate à fome.
O Rio Grande do Norte também marcou história: do Alto Oeste veio Sátiro Cavalcanti Dantas, o mais prolífico e eficiente educador que pisou nosso solo. Se Henrique Castriciano foi relevante na educação privada, Padre Sátiro foi mais longe ao conjugar simultaneamente a transformação em três setores da educação: a educação privada, a pública e a formação profissional.
Com passagem inicial no Colégio Diocesano Santa Luzia, como Diretor introduziu o dever da solidariedade e da dimensão social da igreja, auxiliando centenas de alunos pobres. Foi tão pródigo em concessão de bolsas que houve época onde a quantidade de alunos bolsistas era quase igual aos que pagavam mensalidades.
Se eram esquálidos os dividendos financeiros para a Diocese, em compensação, os “lucros” sociais eram imensuráveis. Por sua intervenção, milhares de ex-alunos bolsistas se profissionalizaram e galgaram relevantes postos funcionais.
Depois, ao ser conduzido ao cargo de Reitor da extinta Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte, a FURRN, uma fundação privada concebida para ser um “curral” eleitoralista, teve a coragem e o denodo de assumir uma cruzada para expungir a instituição do jugo servil da política partidária. A “ferro e a fogo” obteve a sua estadualização. Por sua luta, as portas do saber foram abertas oportunizando aos filhos dos agricultores uma outra forma de transformação social. E o seu vetor incluiu igualmente a educação fundamental, com pequenas escolas, como a Erondina Cavalcanti Dantas, 13 de Junho, Colégio Dom Costa, Ginásio Centenário…
No campo social, se voltou para além daquilo que a missão sacerdotal exigia. Foi artífice da criação de uma lei para os mototaxistas, sendo Mossoró um dos primeiros municípios do país a ter uma lei reguladora da atividade. Outro feito lembrado é que, tendo o Corpo de Bombeiros interditado a Casa do Estudante de Mossoró por causa da queda de parte do seu telhado, comprometendo a moradia de 140 jovens, ele, de imediato, encabeçou um mutirão para a reconstrução daquele ambiente.
Cobrava intensamente dos gestores públicos melhorias nos equipamentos urbanos. Assisti por diversas vezes a sua interlocução como ventríloquo comunitário no desejo da construção de Postos de Saúde, quadra de esportes, escolas, creches, melhoria de vias públicas, iluminação etc. Não bastava ter criado o Mosteiro Fraternidade São Francisco de Assis, a primeira FM educativa do Estado, o santuário dedicado à Santa Clara, oito escolas que foram depois inseridas no sistema municipal de ensino, o centro social e comunitário Madre Cecília, a Funsern, a urbanização de um bairro inteiro (o Dom Jaime Câmara)…
Com 93 anos, se achava no dever de continuar sonhando. Por último, estava intervindo junto às Universidades públicas para dotar o Município de Pau dos Ferros de um Curso de Direito. Primeiro, bateu à porta da UERN, quando o Reitor ainda era Pedro Fernandes. Comunicado da falta de recursos do Estado, se voltou para a Reitora Ludmila, da UFERSA, à procura de recursos federais. Para sua instalação, necessitava de custeio do MEC. Andou falando insistentemente com Prefeitos e Deputados para tal concretização.
Benjamim Disraeli, um escritor inglês, gostava de dizer que “a vida é muito curta para ser pequena”. Padre Sátiro devia pensar assim, pois alongou o quanto pôde a sua existência para atuar cada vez mais em favor da sociedade, especialmente dos mais humildes.
Ele era um dos últimos bastiões da Igreja católica que em um passado soube dimensionar a importância da caridade, da fraternidade, da partilha, da assistência social e da oportunidade aos desvalidos. Sabiamente, ele escolheu a educação como viático da redenção social do pobre. Num momento em que escasseiam os exemplos de homens públicos vocacionados para o bem-estar comum, sua ausência fará muita falta. Para uma sociedade ressentida de alteridade, de amor ao próximo, sua lacuna dificilmente será preenchida.
Voltando ao tema sonhos, ele adorava a música “I Have a Dream”, ao ponto do grupo Incanto (ACJUS), tê-la incorporado ao seu repertório. Pensando nele, destaco que a canção tem uma frase que lhe é aplicável: “I believe in Angels” (eu acredito em anjos). Ele foi “anjo” sem asas para milhares de alunos-bolsistas e para os funcionários do Colégio Diocesano Santa Luzia, para os estudantes uernianos, para as freiras do Mosteiro, para os comunitários do bairro Dom Jaime Câmara, para os estudantes da Casa do Estudante de Mossoró, para os mototaxistas, para o Município de Mossoró, para o Estado do RN e ao alcance do Brasil.
Os seus sonhos se materializaram e se multiplicaram nas pessoas sem perspectivas de ascensão social, porque elas puderam ver luz nas oportunidades que apenas a educação pode proporcionar. É o sonho se transmudando em concreta esperança. Por ele, ou pelas ações dele, muitos descortinaram a escuridão que nublava a luz do horizonte.
Sem sonhos, a vida é “asséptica”, o disse recentemente o Papa Francisco. E conclamou: “Todos temos necessidade de sonhar. Conscientemente ou inconscientemente.” Sem sonhos, não há esperança. O Cardeal Suenens afirma sempre “A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade.”
Que os sonhos de Padre Sátiro sejam retroalimentadas pelas chamas da nossa esperança e vivificadas nas atitudes daqueles que o admiravam. A maior homenagem que podemos fazer a ele é garantindo que as suas criações, seus projetos e suas iniciativas, não conheçam o ocaso por falta de apoio. Padre Sátiro não será esquecido se Mossoró e o Rio Grande do Norte se empenharem na preservação e continuidade dos seus sonhos. Somente assim sua memória nunca perecerá, e seu espírito permanecerá em nosso meio.
Parece já existir certa bibliografia em torno dos tempos pandêmicos. O confinamento em suas respectivas casas levou alguns escritores a pensar, refletir e escrever, a partir das circunstâncias singulares dessa tragédia que se abateu sobre o mundo e sobre a humanidade.
Clauder Arcanjo (Foto: arquivo)
O isolamento, a solidão, o sentimento de exílio, associados ao medo e à ansiedade diante de tempos tão nublados, como que cria condições especiais para o ato de escrever, de escrever e de ler, numa voltagem mais intensa, sobretudo se pensarmos nos gêneros íntimos e testemunhais.
Ocorrem-me estas considerações porque tenho, diante de mim, o livro Confidências literárias (Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2021), do escritor Clauder Arcanjo, no qual exercita um diálogo com alguns autores e autoras de suas “afinidades eletivas”, primando sempre pelo cuidado poético com a palavra.
Clarice Lispector, Beatriz Alcântara, Emily Dickinson, Walt Whitman, Hilda Hilst, Miguel de Cervantes, Eugênio de Andrade, Nicanor Parra, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lília Souza, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Manoel de Barros, Helena Kolody, Marcos Ferreira, Manuel Bandeira, Adélia Maria Woellner e Vinícius de Morares constituem o seleto elenco dos seus interlocutores.
Vê-se logo que Clauder Arcanjo mescla, em suas escolhas, poetas e prosadores, clássicos e modernos, consagrados e desconhecidos, sinalizando, assim, para a riqueza e a diversidade de seu olhar de leitor sensível à variedade dos métodos de produção literária e à particularidade de cada visão de mundo.
Na “Nota ao Leitor”, o autor assinala: “Lembro quando os escrevia, uns três por semana, à época em que estava ´confinado` em um hotel em Vitória (ES), lendo e escrevendo para não enlouquecer, em pleno início da pandemia”, e, num recado mais direto para o leitor, faz este apelo: “Que Confidências literárias o faça (re)visitar as obras dos autores e autoras que me acompanham ao longo da minha vida de leitor-escritor; e que você, assim como eu, sinta-se motivado a se confidenciar com eles (as). A boa leitura nos é altamente inspiradora”.
Sem dúvida: a criação literária tem, na leitura, especialmente na leitura das obras literárias, uma de suas fontes mais ricas e um de seus processos mais decisivos. Quando um Harold Bloom assegura que um poema dialoga ou está em conflito com outro poema; quando um T. S. Eliot afirma que nenhum poeta pode ser conhecido sozinho, ou quando um Jorge Luís Borges fala de precursores desse ou daquele escritor, temos aí o selo de uma corrente unindo vozes e visões.
Clauder Arcanjo é um leitor-escritor e, por isto mesmo, poderia situá-lo muito bem dentro da tradição moderna de uma poética da leitura. Uma leitura que não se esgota na simples experiência emocional ou intelectiva, no indispensável prazer da subjetividade, no estímulo à meditação e ao pensamento, no gozo da sensibilidade e no voo da imaginação. Mas, principalmente, numa leitura que tende a encaminhar o leitor para o desafio da sua própria criação e, portanto, da realização de sua própria obra.
No diálogo com Clarice, há certa altura, escreve o autor: “No sereno da tarde, volto para dentro. Dentro de onde? De mim? De ti? Um silêncio anterior ao mundo dito civilizado. O oco de tudo a me revelar que é preciso abrir mão das platitudes para sentir as altitudes. {…} A literatura é um tributo à loucura de si mesmo”. Já no primeiro parágrafo do diálogo com Whitman, afirma que “O homem sofre de um silêncio absurdo”, e no prosear com Fernando Pessoa, revela: “Preso às obviedades da vida, caminho como se o infinito estivesse à minha frente. {…} E a Poesia teima em renascer, sem metafísica, na esquina menos festejada”.
Atento ao estilo e à técnica, assim como ao universo emotivo e intelectual, de cada escritor, Clauder Arcanjo traz à tona, na medida do possível, as inclinações psicológicas e as atitudes perceptuais de cada um deles, nas suas diferenças e aproximações, ao mesmo tempo em que se descortina a si mesmo, na sua geografia sentimental, nos seus predicados ideológicos e nas suas preferências estéticas.
Fazendo suas confidências literárias, este cearense de Santana do Acaraú, poeta, romancista, contista, editor, convida-nos a uma viagem de volta ou a uma viagem de descoberta pelas páginas artísticas dos escritores que leu e cuja leitura nos sugere, a seu modo também artístico e pessoal.
Hildeberto Barbosa Filho é poeta, escritor e professor da UFPB, além de membro da Academia Paraibana de Letras
Com muita raiva e indignação, o escritor francês Émile Zola escreveu um artigo no jornal L´Aurore, em 13 de janeiro de 1898, com o título “J´accuse” (Eu acuso). O artigo era uma carta ao presidente da República Félix Faure, em defesa de Dreyfus.
Sem a habilidade de Zola, escrevo este rabisco a Deus, o Senhor do Tempo, para acusar o Senhor do Mal, o espectro da morte, o Mr. Hell chamado Covid-19, pelo malefício insanável causado principalmente à educação e à cultura, reconhecidamente os melhores agentes do desenvolvimento social humanitário.
Ao Criador, que controla a ação dos elementos da natureza e tem a ampulheta das horas em suas mãos, quero denunciar este desalmado ladrão do saber comunitário e assassino inconfessável do sentimento criativo das pessoas, pelo empobrecimento educacional, cultural, político-social, humanístico, religioso e sentimental de todo o planeta.
Assim como Zola, “Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice” (Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice), eu acuso você, Covid-19, não só pelo morticínio dos seres humanos, mas pelo silêncio obsequioso e apagão intelectual que tem causado nos educadores, artistas, escritores, líderes sociais e religiosos.
Comecemos pelo prejuízo causado à educação…É incontestável o valor social e político da educação. Emile Durkhein dizia no início do século XX que somente a educação implanta valores nos homens, formando princípios exteriores à sua própria vontade. Por isso, Edgar Morin gostava de repetir aos seus alunos nas calçadas da Écoele des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris: “O saber não nos torna melhores, nem mais felizes. Mas, a educação pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais felizes, a nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas”.
Educadores dizem que 2020 foi um ano perdido. E 2021 já está em vias de perdição. A formação educacional por mediação tecnológica longe de despontar como solução, tem sido um retumbante fracasso. Seja pelas desigualdades sociais que impedem a transmissão do conhecimento, porque não são todos os domicílios e famílias brasileiras que têm suporte para aulas por mediação tecnológica em casa, seja pela má qualidade no processo ensino-aprendizagem.
Se a educação tem um valor político (como defende Henry Peter com essa citação: “A educação faz um povo fácil de ser liderado, mas difícil de ser dirigido; fácil de ser governado, mas impossível de ser escravizado“), recrudescemos no nosso nível de consciência cidadã, capacitad os para pensar que fomos neste último ano apenas pelos rumores das redes sociais.
No campo cultural, também vivemos um período de “apagão”. Pesquisas demonstram que livros, peças teatrais, roteiros cinematográficos e outras produções do gênero, sofreram redução de publicação, ensaio e execução em quase 70% (setenta por cento). Tomados pelo pavor, escasseia a criatividade das autoras/es e animadores culturais, daí a risível – ou quase inexistente – produtividade setorial.
A humanidade não está “morrendo” somente por causas respiratórias, mais, muito mais, por causas “inspiratórias”; falta inspiração para viver, escrever, ler, criar, pensar, falar… Estamos letargicamente paralisados pelo medo. Vivemos dois lockdowns muito danosos à evolução humana: o educacional e o cultural.
Albert Schweitzer, um médico alemão que largou a riqueza para fundar hospitais no Gabão, na África Central, no seio da pobreza, costumava dizer que “A tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo.”
NÃO DEVEMOS “MORRER” POR ANTECIPAÇÃO. É preciso resistir bravamente! Por isso, conclamo: vamos ao campo de batalha em favor da vida! Uma epígrafe machadiana motiva a lutar: “Que é a vida? Uma batalha, Tiro ao longe, espada à cinta; para os barbeiros, navalha; para os escritores, tinta.” É preciso que o povo da literatura “carregue nas tintas”, para demonstrarem que estão vivos.
Para quem tem ideal, a morte não chega cedo. Fernando Pessoa poetisa sobre a morte que se antecipa aos sonhos: “O amor foi começado, O ideal não acabou, e quem tenha alcançado, Não sabe o que alcançou.”
É mais do que preciso ressuscitar uma ética de vida e rejeitar veemente a replicação da cultura da morte, senão, restará somente o caos a enterrar as nossas últimas quimeras. Devemos sonhar e esperançar que tudo logo passará! O resgate dos valores humanos, o estimulo à educação e o retorno urgente às atividades criativas e culturais é o nosso grande desafio, pois estes promovem a verdadeira prosperidade e a felicidade no ser humano.
A Deus, clamo para que, caso venha a nos faltar a beleza da saúde, que sejamos confortados com a graça da fé. Dê-nos a esperança de dias melhores, para a educação e para a cultura, ânimo aos professores e aos agentes culturais, para que continuem manifestando em seus eflúvios espirituais, a criação e a formação que nos alimenta a alma e que traz causa para as nossas alegrias.
A sociedade nos precedeu e sobreviverá a nós. Nossas vidas não são mais que episódios em sua marcha majestosa pelo tempo. Você não nos vencerá, Senhora Covid-19!
“Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um”.
Sem me atrever a discutir definições ou conceitos poéticos, debate que já produziu tratados, polêmicas, esperneios e intrigas famosas, vou ao trivial.
E como tal, longe de qualquer cientificidade literária, trato tudo no pequenino e atrevido mundo do empirismo.
Até porque de Otávio Paz a Cardoza y Aragón, de Neruda a Tolstoi, de Garcia Lorca a Machado de Assis, de Baudelaire a Fernando Pessoa, para citar poucos, todo mundo já deu seu pitaco sobre conceituação dos modos, formas e alcances da poesia.
Exemplo marcante é a formação estrutural de um idioma a partir da obra poética de um autor. Do inglês, com Chaucer e do português, com Camões.
Se a organização morfológica, no português, deve-se ao teatro de Gil Vicente; foi Camões, na poética, quem edificou a sintaxe portuguesa. Criador de um idioma; a partir de uma algaravia como a última “Flor do Lácio”, da verve de Olavo Bilac. “Ora direis ouvir estrelas”.
De lá pra cá, de tudo e sobre tudo já se escreveu quase tudo. Ainda bem que apenas quase. Pois seria uma monotonia cultural a vida com tudo já resolvido. A incompletude conceitual alimenta criações e permite, na colheita do inquieto, manter acesa a chama do refazer-se. Eternamente.
E a rima? Para o gosto popular a poesia sem rima é prosa curta. Neruda ensinou que poesia é metáfora. E a prosa poética? O Pe. Vieira foi o craque desse estilo. Ao responder o suplício do silêncio imposto, alfinetou a cúria: “Deus, na sua infinita misericórdia, fez surdos os que eram mudos e mudos os que eram surdos. Posto que até a Natureza ao ser agredida com o grito, responde com o eco”.
Há palavras de rima difícil ou até inexistente; exemplo de cinza, painço, nenem. Um violeiro aceitou o desafio e rimou: “Na Bahia de Rui Barbosa/ numa tarde muito cinza/ vi uma velha fanhosa/ que chamava camisa caminza”. Só rima; poesia nada.
“Venho para uma estação de águas nos seus olhos”. Joaquim Cardoso; só poesia, sem rima.
De Neruda, o das metáforas: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Escrever, por exemplo: a noite está estrelada e tiritam azuis os astros ao longe./… Embora seja esta a última dor que ela me cause/ e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo”.
Luiz Cardóza y Aragón, o diplomata guatemalteco que acolheu, na embaixada de Bogotá, os fugidos da revolta colombiana, na noite em que foi assassinado Jorge Gaitán, disse: “A poesia é a única prova concreta da existência do homem”.
A rima não é vilã. No bom poema ela se agasalha em lençóis de seda.
D. Pedro II rima e faz poesia no soneto/recado ao ex-amigo Deodoro. Veja a última estrofe : “…Mas a dor que crucia e que maltrata/ que fere o coração e pronto o mata,/ é ver na mão cuspir, à extrema hora,/ a mesma boca aduladora e ingrata/ que tantos beijos nela pôs outrora”.