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Diário de um Voluntário – CCXLIII

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior e Viviane (Foto: redes sociais)
Francisco Edilson Leite Pinto Júnior e Viviane (Foto: redes sociais)

Confesso que não consegui dormir. “E se ela desistisse de vir comigo comer carne de sol com manteiga da terra o resto de sua vida?”…

A apreensão tomava conta de mim e também pudera, ela estava deixando seus 2 empregos, como nutricionista, no Rio, e ainda toda sua família para vir morar na cidade do sol.

Olhava a cada segundo para o relógio… o voo sairia às 09h, e eu, desde às 5:30h, estava esperando por ela, no Galeão.

De repente, a vejo – linda como sempre: um verdadeiro anjo que apareceu na minha vida e com seus os olhos de cristal, me enfeitiçou e assim, eu jamais soube o que seria a solidão…

Toda sua família estava lá, como que querendo passar a mensagem: “cuide muito bem dela, porque você jamais encontrará outro tesouro na sua vida!!”.

As lágrimas rolavam no seu rosto ao se despedir deles. E ali fiz uma promessa para mim mesmo: “cuidarei dela com o maior carinho do mundo e NUNCA deixarei o nosso amor envelhecer”…

Há 30 anos, exatamente, desde o dia 21/01/1994, que eu cumpro fielmente essa promessa. Somos grudados um no outro e contamos as horas para nos ver: um acorda e espera pelo outro para tomar café; andamos de mãos dadas, como dois namorados, nos beijamos em público e rimos, rimos muito das maluquices que nos acontece, como duas crianças que sabem que esse amor não acabará jamais…

Nossa história é um “Caso do acaso / Bem marcado em cartas de tarô. Meu amor, esse amor/ De cartas claras sobre a mesa, é assim … Signo do destino / Que surpresa ele nos preparou / Meu amor, nosso amor / Estava escrito nas estrelas / Tava, sim”.

Escrito nas estrelas e o que é melhor: escrito mais ainda no coração das nossas almas… E por isso, viveremos infinitas vidas juntos!

Te amo, minha bonequinha!!!

*Para Viviane Silveira Pinto

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

Depois é nunca

Depois é nunca - tatuagemPor Francisco Edilson Leite Júnior

De repente escuto um áudio. Pergunto de quem é?

– Vou enviar para você – respondeu Viviane.

Abro o WhatsApp e começo a ouvi-lo: é o escritor Fabrício Carpinejar falando da importância dos momentos quebrados, afinal, “Nunca saberemos quando será a última vez. A despedida já pode ter acontecido”.

Corro para o site da Amazon: essa é uma das vantagem do mundo globalizado, um clique, e compro o livro “DEPOIS É NUNCA”.

Fantástico! Carpinejar nos adverte: “A verdade é que, por dentro, ninguém mais será igual. Não haverá a normalidade costumeira. Amores e amizades não serão mais iguais. Nossa família não será mais igual. Nosso emprego não será mais igual… Não tem como fingir que nada aconteceu… O pior não é perder o olfato, e sim o tato”.

Pois é… A profa. COVID-19 veio com tudo, aliás, ainda está vindo. Mais de 600.000 mortes e para alguns é como se nada tivesse acontecido: “Aqui ninguém vai usar máscaras… É melhor morrer do que perder a liberdade!”.

Enfim, para alguns não houve perda nem do olfato e nem do tato. Só se perde aquilo que um dia se teve…
E Carpinejar tem razão ao nos advertir: “A morte é como o demônio, mais cresce na descrença”.

É claro que não pode haver tempo para a leitura. Há algo mais importante a ser feito: “Vacina causa morte, invalidez, anomalia”. Viver não é preciso, disseminar Fakenews é mais do que preciso…

E o mais curioso é que mesmo as recentes pesquisas mostrando o derretimento dos apoiadores a esse canto das sereias – que quase levava Ulisses e sua tripulação à morte -, ainda há um percentual (infelizmente na área da saúde) que escuta tudo isso e Retweeta com uma naturalidade que nos choca pela frieza, pela falta de sensibilidade e humanismo que não podem jamais estar ausentes desses profissionais…

E aqui cabe mais uma vez as provocações de Carpinejar: “Onde você estava quando o seu afeto morreu? Certamente fora de si… A despedida de um amor e de um afeto dá início a nossa própria despedida. DEPOIS É NUNCA”.

Que o brasileiro, na sua própria dor, possa aprender que brincar de eleição pode ser fatal…

“Não tem como fingir que nada aconteceu. Todos cairão em si, inevitavelmente”…

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

O menino que venceu a morte…

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Era uma vez um menino que brincava de sonhar: ele sonhou ser médico para “matar” a morte (afinal seria uma maneira de se vingar: seu pai tinha morrido quando ele tinha apenas 03 meses); ele sonhou em ser professor, afinal seria uma forma de virar médico, pois o professor é na verdade um médico que luta desesperadamente para curar a pior doença, a ignorância da alma; ele sonhou também ser pesquisador, para tentar descobrir porque os professores, quando amam o que fazem, eles são verdadeiros BENJAMIN BUTTON, onde o tempo corre ao contrário, como diz Caetano: “O tempo não para, no entanto ele nunca envelhece”.

Crônica de Francisco Edilson Leite Pinto Júnior - O menino que venceu a mortePois bem, um a um esses sonhos foram conquistados, independente de pedras – verdadeiras dádivas de Deus no seu caminho -,  que na verdade eram uma forma de ele reprogramar o seu GPS de vida.

Ele, depois de 28 anos, 08 meses e 06 dias, realmente venceu a morte.

Como?!

De forma muito simples. Ele percebeu, que o mestre Rubem Alves tinha razão:

– “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor assim, não morre jamais.”

Ah, caro leitor, o mais estranho de toda essa história é que ele percebeu que tudo, absolutamente, tudo estava conectado, como no poema de Jonh Donne: “Ninguém é por si só uma ilha”…

Era como se ele estivesse vivendo o próprio seriado DARK, da NETFLIX, onde passado, presente e futuro viviam juntos , afinal “SIC MUNDUS CREATES EST” (E assim, o mundo foi criado)…

Hoje, ele chegou ao pico máximo da sua carreira, porém o que mais chamou atenção foi a sua disposição de iniciar tudo, novamente, como a lei do eterno retorno de Nietzsche: “Cada dor, cada alegria, cada coisa minúscula ou grandiosa retornaria para você mesmo. A mesma sucessão, a mesma sequência, várias e várias vezes como uma ampulheta do tempo.”.

Ah, ele venceu a morte e agora a sua verdadeira luta é para manter vivo dentro de si, aquela criança que um dia sonhou em ser médico, professor e pesquisador.

E ele está conseguindo isso, pois continua com os mesmos 05 anos, onde tudo começou…

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, escritor e médico

Diário de um voluntário – XLIII

George foi um dos vários médicos que morreram em meio à batalha contra a Covid-10 no RN (Foto: cedida)
George foi um dos vários médicos que morreram em meio à batalha contra a Covid-10 no RN (Foto: cedida)

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

O padre Fábio de Melo tem o dom da palavra, aquilo que ele nas suas missas tanto afirma: “Senhor, dizei uma só palavra e serei salvo”. No seu livro É sagrado viver, há momento de pura salvação:

– “A vida tem cores cinzas quando vista a partir das retinas do porto. Navios em espera cumprem o destino de sacramentar partidas e chegadas”.

Um sábado de junho de 2020. Chamada de vídeo, logo cedo. Era George Bezerra, um amigo que a pandemia da Covid-19 nos aproximou mais ainda: um tentava aliviar a angústia do outro, todas as noites. Ele tinha sido meu colega contemporâneo de medicina e quando entrei na UFRN, logo assumindo a coordenação da residência de cirurgia, tive o prazer de ser o seu tutor.

Ele informava que estava indo para UTI e logo seria realizada a tão temida IOT (Intubação orotraqueal). Ele lutou bravamente, conseguiu até sair da UTI, o que nos deixou extremamente alegres, mas a Covid-19 mostrou a sua verdadeira face traiçoeira e George não resistiu.

Acordei hoje lembrando dele. E como a sua morte foi decisiva para minha decisão de ser um voluntário da pesquisa da vacina de Oxford/AstraZeneca.

Imaginem, há um ano, com tantos absurdos colocados por uma seita de fanáticos negacionistas, divulgando vídeos de chips e jacarés: não era fácil ser um voluntário da pesquisa…

Mas, o que dá significado a vida, tem que dá significado a morte. E isso só se consegue através do amor. E a amizade é o amor philia dos gregos.

O escritor Hermann Hesse, no seu livro Demian, tem uma bela passagem que reflete isso:

– “Os mortos permanecem vivos entre nós, com essencial de suas influências, enquanto nós seguimos vivendo. Às vezes podemos falar com eles, conversar e pedir conselhos, melhor do que com os vivos”.

Lembrar de George, hoje, após um ano de sua partida é a certeza de que só há morte, quando há esquecimento.
George, portanto, vive.

Vive em cada um dos seus amigos. Vive em cada vacina aplicada nos braços dos brasileiros que acreditam que só o amor vencerá o ódio e a ignorância.

Francisco Ediilson Leite Pinto Júnior é professor, escritor e médico

Diário de um Voluntário – XL

Neymar e MessiPor Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Fim de jogo: Argentina 1×0 (veja AQUI). Nada acontece dentro de mim. Sofro de uma grande indiferença: “e daí?”. Em outra época talvez eu chorasse.

– “Meu Deus! Será que estou perdendo a minha humanidade?”. Logo pensei.
Não! Os meus olhos marejam vendo Neymar e Messi abraçados e chorando. Dois guerreiros.

Inimigos? Não, seres humanos.

Vou para o meu quarto, como um Prost: em busca não do tempo perdido, mas da minha humanidade perdida.

Lembro-me de Padre Fábio: “Quem me robou de mim?”. Lembro de Sarte: “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim”.

Até porque O grande Riobaldo, do nosso Sertão Veredas já ensinava: “O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão… O que induz a gente para más ações estranhas: o medo vai virar ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para um amor… E qualquer AMOR já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”…

Pois bem! Vejo o relógio marcar 23h30. Hora do IMPONDERÁVEL e as lições do prof. Gil Giardelli. Curiosamente o décimo programa da série é “NÓS, ROBÔS”.

Um turbilhão de perguntas martelam minha mente. Um VALE DA ESTRANHEZA surge nos meus olhos, ao olhar nos olhos da humanoide PEPPER. Esse espelho mostra um Edilson Pinto que parece a cada dia perder a sua esperança de que dias melhores virão…

Não!

Mais uma vez aparece Riobaldo para me ensinar: “Minha alma tem de ser de Deus: se não, como é que ela podia ser minha?”.

Respiro fundo. Olho para TV. Vejo o prof. Gil e seu olhar a nos ensinar:

“Por que a maioria dos jovens do nosso país se pudessem iriam embora? / Será que não precisamos do IMPONDERÁVEL para pensar o diferente? / O Brasil que, apesar de todos os seus defeitos, eu amo muito. E tenho certeza que a gente vai colocar os dois pés no século XXI”.

O que seria do mundo sem os professores? Nada!

Cortella tem razão: “é preciso ter esperança para chegar ao inédito viável e ao sonho… Esperançar é ser capaz de buscar o que é viável para fazer o inédito. Esperançar significa não se conformar”.

Eu ainda acredito!

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

Morre a primeira secretária (mulher) de Educação do Estado do RN

Professora Zilda e o sobrinho-filho Francisco Edilson juntos Foto de família)
Professora Zilda e o sobrinho-filho Francisco Edilson juntos (Foto de família)

A primeira mulher a ocupar a Secretaria de Educação do RN, professora Zilda Lopes do Rêgo, 88, natural de Pau dos Ferros, faleceu à madrugada dessa quinta-feira (8), em Natal. Seu corpo foi cremado no Morada da Paz (Emaús, Parnamirim).

Ela foi titular dessa pasta na gestão de Monsenhor Walfredo Gurgel (1965-1971), dirigindo também o Arquivo Público do RN. Mesmo aposentada, ainda trabalhava como colaboradora no Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte, sem qualquer ganho pecuniário ou de outra ordem.

Em 2018, recebeu a Medalha do Mérito Alberto Maranhão, a mais alta condecoração do RN, criada em 1959 no Governo Dinarte Mariz (1956-1961).

Seu sobrinho-filho, professor, médico e escritor Francisco Edilson Leite Pinto Júnior, escreveu em endereço próprio em redes sociais uma crônica que resume bem o perfil altruísta e humanista da professora Zilda – veja AQUI.

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Diário de um Voluntário – XVIII

Professora Gizelda faleceu nessa sexta-feira em Brasília, acometida pela Covid-19 (Foto: família)
Professora Gizelda faleceu nessa sexta-feira em Brasília, acometida pela Covid-19 (Foto: família)

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

“E, na minha infância, morria de medo de perder a minha mãe também. Por isso, eu pedia a Deus que curasse ela. Afinal, minha mãe era ‘louca’. ‘Louca’ varrida! Assim, chorava e rezava: ‘Deus, meu Pai: cure a minha mãe Giselda Pinto! Faça com que ela seja uma pessoa normal’…

Vocês devem estar curiosos para saberem como eu cheguei a este diagnóstico, sem ter cursado semiologia…

Bem simples! É a velha história clínica, sempre soberana: todo dia, minha mãe saia de casa às cinco e meia da manhã; trabalhava três expedientes até a noite, como professora do ensino médio, e depois como professora da UFRN/UnB.

Não preciso dizer quais eram os seus honorários: professor sempre teve que ganhar pouco… No dia em que a educação for prioridade neste país, os homens deixarão de ficar deitados em berço esplêndido, se lamentando ter perdido uma copa, e veríamos que a copa estar sendo perdida diariamente nos corredores assassinos dos nossos hospitais públicos; nas licitações fraudulentas que subtraem a nação dia após dia; a copa estar sendo perdida no dia-a-dia de quem trabalha para sustentar uma massa de parasitas, que disseminam a “gripizinha” por aí…

E viva o analfabetismo político, como dizia Bertolt Brecht, pois ‘ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos….

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nascem à prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto’, desumano, insensível…

Pois bem! Voltemos ao diagnóstico de loucura da minha mãe… Mesmo com todas essas dificuldades, minha mãe era feliz! Extremamente feliz! E eu chorava, por não acreditar que alguém em sã consciência pudesse ser feliz sendo professora, ganhando tão pouco e passando tantas dificuldades”…

Hoje minha mãe partiu para um outro plano. Mas ela continuará sempre viva em cada professor, em cada sala de aula desse país.

“Não importa a partir e nem a chega, mas a travessia (Guimarães Rosa)

Gizelda Pinto

♡ 08/06/1942
♡ 28/05/2021

#COVID-19 #obrasilmerecerespeito

Nota do Blog – Meu amigo tão querido Francisco Edilson Leite Pinto Júnior (assim mesmo, no comprido), minha completa solidariedade a você e demais familiares. Essa dor não é apenas dos filhos subtraídos da presença materna, mas dos amigos que também querem preencher tantinho assim, da parte que fica faltando. Meu carinho, meu abraço, minha compaixão.

Que dona Gizelda (falecida em Brasília, com Covid-19) descanse em paz.

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Diário de um Voluntário – XV

likes, curtidas, redes sociaisPor Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Schopenhauer certa vez escreveu: “O mundo é minha representação”. E segue o filósofo alemão: “A vida e os sonhos são folhas de um livro único: a leitura seguida dessas páginas é aquilo a que se chama a vida real; mas quando o dia passou e chegou a hora do repouso, continuamos a folhear negligentemente o livro, abrindo-o ao acaso em tal ou tal local”…

A Covid-19 chegou e cada um de nós passou a escrever no seu livro de vida uma nova história. E como somos Personas, que do latim quer dizer “Máscara de teatro”, alguns indivíduos, no grande palco do teatro digital, passaram a representar verdadeiramente o personagem que estava escondido a sete chaves nos porões escuros e cheios de teias de aranhas das suas almas.

Máscaras sobre máscaras N95, e a revelação surgiu como um feixe de luz. O que passamos a ver e ouvir é algo que nem os melhores escritores do realismo fantástico seriam capazes de escrever tamanho roteiro do absurdo…

O Maya – o véu da ilusão que cobria os meus olhos mortais  – se descortinou, revelando um mundo que se assemelha ao mesmo tempo ao sonho e pesadelo…

E, de repente, me vejo no Nosedive, o primeiro episódio da terceira temporada da série antológica de ficção científica britânica Black Mirror: onde a personagem Lacie Pound vive em um mundo cujas pessoas, obcecadas por LIKES, fazem de tudo para aumentar a sua popularidade.

Vendem até a sua alma ao diabo, como fez o Dr. Fausto, o personagem charlatão que se tornou rico e famoso, do escritor Goethe. Afinal, tudo vale a pena se a publicidade não é pequena.

E pequena não é a vontade de aparecer nesse teatro digital, em tempos de pandemia. Click, clic, click… E haja vontade. Sim, a mesma vontade que Schopenhauer dizia que “é um cego robusto que carrega um aleijado que enxerga”…

Cegos, aleijados…

Vejo que a banda Skank terá que mudar sua letra para “Um LIKE pelo amor de Deus / Um LIKE, meu, por caridade / Um LIKE pro ceguinho, pro menino”…

“Sai da tua infância, amigo, desperta” (Rousseau).

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

Diário de um Voluntário – XIII

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Heráclito chorava: “Todas as coisas são misérias”; Demócrito ria: “Todas as coisas são ignorâncias”. Miséria e ignorância mataram mais de 419.000 pessoas nesse país. E parece-me que esse triste enredo não terá fim, afinal, a “estupidez humana é eterna”, nos alertou o grego Aristófanes.

Paciência, se lhes faltar a justiça dos homens, não lhes faltará a justiça divina: terceira Lei de Newton, Ação – Reação…Médico em UTI faz sinal de positivo, em crônica de Francisco Edilson Leite Pinto Júnior no Blog - -9-05-21O imortal Vander Lee, na sua bela canção, CONTRA O TEMPO, nos ensina: “Onde vou? Onde estou? Tempo de silêncio e solidão”… Silêncio e solidão. Fatores essenciais para conhecermos a nós mesmos. Afinal, mais cedo ou mais tarde, esse encontro terá que acontecer, e tenho muita pena daqueles que se surpreenderão consigo mesmo…

Ah, o mundo gira sempre em seu sentido. No entanto, o tempo pode, nas nossas mentes, correr ao contrário.
Há um ano, mais um susto. Sanderson Surg – meu eterno aluno, amigo, e uma das mais belas pessoas que já conheci, pegou Covid-19.

Bateu um desespero. Internado às pressas, começamos a batalha entre os amigos de orações diárias pela sua recuperação.

Em uma das nossas conversas, (sim, Sanderson ficou com o celular, pois a tecnologia, quando bem utilizada, é pura humanização).

Ele revelou-me:

– “Professor, é tão incrível. Se respiro muito, piora a saturação; se respiro pouco, piora mais ainda. Percebi que o remédio era respirar direito. O ar, assim como a salvação, é de graça”.  Lembrei-me da lenda grega de “Faetonte e o carro do sol” – o caminho do meio…

Sanderson venceu a Covid-19, graças a Deus!

Passado quase um ano, encontro inesperadamente o Dr. Paulo D’Aurel, juiz do TJ/RN, praticante do “Kriya Yoga”, e um dos seres mais espiritualizado que conheço.

– “Edilson, na Abadia de Westminster tem um escrito dizendo que o ar vai para o norte, depois para o sul e volta para o norte. Assim deve ser a nossa respiração consciente: o equilíbrio da meditação”.

Meditar, ter paciência de ver as pessoas se mostrarem tão desumanas, vazias de sentido, vazias de amor, vazias de bondade, eis o exercício que deveremos praticar nessa pandemia.

Segue o jogo e o VAR de Deus está vendo tudo…

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, escritor e médico

Resposta a um “Funcionário”

Carlos Santos - Caricatura - reduzidaPor Carlos Santos

“Servir só para si é não servir para nada.” (Voltaire)

Meu querido “funcionário” Francisco Edilson Leite Pinto Júnior:

Recebi e publiquei mais abaixo – sua extremada missiva, em que trata de seu vínculo laboral com este Blog, página há muito adotada por centenas e milhares de pessoas sob compromisso diário de leitura. Outras tantas, de forma mais visível, como comentaristas e articulistas. Esse último caso o seu, atesto.

Sua tarefa, bom que fique consignado, tem sido contribuir à formação de uma bolha crítica e quebra do oligopólio da opinião, na chamada “imprensa convencional” – via este Blog. Seu trabalho merece remuneração diferenciada e regular, sempre ensejando cevados reajustes.

– O trabalho dignifica o homem – alardeou o filósofo Hesíodo e eu poderia me valer desse aforismo para – quem sabe – aplacar sua suposta indolência. Não o farei.

Reconheço. Nem tergiverso quanto ao que lhe é meritório.

É um “soldo” que o Blog admite dificuldades em saldar, mas nem assim se sente inibido em cobrar sua maior contribuição a missões tão significativas à nossa civilização.

Claro, muitos podem afirmar que tudo não passa de esforço inglório – seu, meu, nosso. Seria apenas uma gota no oceano de lágrimas de um planeta selvagem e predatório.

Contudo recorro à Madre Teresa de Calcutá para incensá-lo e a outros tantos que pensam da mesma forma:

– Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.

Compreendo o sobrepeso de seus outros afazeres como professor, escritor e médico, uma tríade nobre e que certamente lhe dará o reino dos céus. Para muitos, talvez seja mais uma condenação terrena do que benção celestial.

Tenho ouvido seus murmúrios, testemunho seu alarido, identifico seus desapontamentos e reconheço seu esforço para ser pelo menos razoável nas tarefas principais que adotou, além de ser – também ouço – um esposo nota 10 e um pai zeloso e extremado.

PENSAR É CANSATIVO. Muitos se especializam em tudo, como um Conselheiro Acácio do grande Eça de Queiroz. Em síntese: não se aprofundam em nada. É um fardo conflitar com o status quo, o pensamento dominante e as atitudes tacanhas de uma maioria incapaz de refletir sob a ótica do bem comum. É remar contra a maré.

– Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele – diria Henry Ford.

Seu exercício laboral em nossa “organização” é imprescindível. Cobro-lhe em particular e de público, para dar eco ao que ouço no cotidiano neste mundo virtual e real. Suas  palavras, mesmo que muitas vezes pareçam o apocalipse narrado por Jim Morrison (The Doors) em “The End”, emergem como uma luz.

Se nos faltar energia, talvez sobre sua centelha para nos estimular à incessante luta. Desistir, jamais!

Por favor, não me interprete como um patrão rançoso e afeito ao contorcionismo das palavras, para seduzir seus operários ao trabalho escravo, com a vã promessa de melhorias a posteriori. Sou sincero, tão somente. Falo do fundo d´alma.

Não temas. Não utilizarei de artifícios lúdicos para atrai-lo à labuta e passar ao mundo a imagem de que lhe oferto um ofício sem maiores dificuldades. A máscara nazifascista não me cabe.

No frontispício de Auschwitz I, os judeus que chegavam a esse campo de concentração liam o que parecia uma esperança: “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta“). Era a senha para maus-tratos e morte bárbara.

NESTA PÁGINA, MORRER É NÃO EXERCITAR A PALAVRA, suprimir ideias e tolher o pensamento conflitante. A gente não é obrigado a concordar um com o outro, mas aprendemos desde cedo a respeitar o livre arbítrio e o direito de qualquer um discordar de nós.

Isso é dialética. Sem ela, ainda estaríamos amontoados em cavernas, matando bichos com pedra e paus; apenas subsistindo.

Sem a presunção de Michelangelo diante de seu Moisés, eu pondero que não pares.

É-me significativo lhe adiantar, que não lhe dou ordens. Delego-lhe uma missão. Reproduzo a vontade de milhares de webleitores: “Parla! Parla! Parla!

Se “no princípio era o verbo“, como descreveu o evangelista João, como posso suprimir a criação, a reinvenção e a clarividência do seu pensamento?

Tens direito ao “ócio criativo” orquestrado por Domenico Di Masi, movido apenas pelo diletantismo, cultura e sua inteligência privilegiada. O básico bastaria à sua felicidade, sei.

Contudo, assinalo, nós queremos mais de ti – exemplo de funcionário diferenciado e imprescindível em qualquer corporação.

Recorro a um de nossos ídolos comuns para atestar o reconhecimento de seu esforço e a constatação de suas fragilidades. Posso dimensionar o que é a exaustão, a quase desistência: “Não sois máquinas; homens é que sois!” (Charles Chaplin).

TAMBÉM JÁ QUIS PARAR, CARO FUNCIONÁRIO. A tentação da desistência é recorrente, como uma mazela recidiva. Se tem cura, não sei. Trato de conviver com ela; domá-la pela paixão.

– Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida – proclamou o mestre Confúcio há milhares de anos. Fiz minha escolha. Por isso trabalho tão pouco.

Quase me convenceram a deixar tudo para trás e me ocupar em tarefas menos insalubres, mais rentáveis e que me distanciassem dessa luz, ou daquela centelha que vejo em ti.

Há um brilho incomum em seus textos – por mais amargos que às vezes se revelem. É o brilho dos loucos, de um “maluco beleza” como Raul. Dos que sonham acordados e partilham a utopia de voar, muito superior ao delírio de Ìcaro em seu voo solo fracassado.

Se desabarmos, desabaremos juntos. Por quê?

Porque voamos sincronizados, acreditando que talvez consigamos mais aliados nesse trajeto migratório que pode nos levar da ignorância à sapiência redentora.

Você não está só!

Seu emprego está mantido, caro funcionário. Deixe de moganga; pode voltar ao trabalho.

Carlos Santos – Editor do Blog Carlos Santos

* Crônica publicada no dia 17 de fevereiro de 2013, às 9h44, em resposta à crônica sob o título Carta ao “Patrão”, assinada por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior, postada no mesmo dia, há pouco mais de oito anos, às 6h45. Hoje (domingo, 25 de abril de 2021), resolvi republicar ambas (veja AQUI), após uma conversa que tivemos à semana passada, quando esses textos foram lembrados por ele.

* Caricatura de Túlio Ratto.

Carta ao “Patrão”

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior - FotoPor Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

“Há tempo para tudo debaixo do sol. Há tempo de escrever; há tempo de calar!”.

Caro “Patrão” Jornalista Carlos Santos,

Por favor, não me “demita” do seu Blog. Eu sei que faz tempo que não produzo um texto. Mas, saiba que estou acobertado pela Lei nº 11.770, de 9 de setembro de 2008, que instituiu o programa de empresa cidadã, prorrogando o período de licença maternidade de 120 para 180 dias, ou seja, de quatro para seis meses.

Assim, se levarmos em conta que a minha última “gestação e trabalho de parto” foi exatamente em setembro de 2012, veja que estou dentro do prazo, perfeitamente dentro da Lei. Portanto, só em março de 2013 é que eu teria que produzir mais um filho…

Sim! Meu caro, não tenha dúvida: um texto é como um filho. Muitas vezes, passa nove meses em nossa cabeça – esse útero terrível, como nos ensina Rubem Alves-, pois “Dela tanto pode sair flores e borboletas quanto charcos e escorpiões. De vez em quando ela é invadida pelos demônios das catástrofes e dos horrores”… Outras vezes, a gestação é interrompida e o parto precoce – repleto de contrações e dores-, faz nascer a criança que estava dentro de nós.

Confesso. Admiro sim, quem consegue ter filhos, e escreve como Dipirona: de seis em seis horas. Haja coragem de pagar pensão alimentícia!… Mas não é o meu caso. Talvez por ser cirurgião e também por ser admirador de Nietzsche, só consigo valorizar aquilo que é escrito com sangue, pois sangue é espírito. Imagine, então, caro patrão, se todo dia eu escrevesse, estaria tão anêmico, que nem todas as bolsas de sangue do HEMONORTE restauraria o meu hematócrito… E sem hemoglobina não há oxigênio; sem oxigênio, o filho é um natimorto…

Portanto, desculpe-me o meu egoísmo. Mas, só escrevo quando tenho vontade. Quando a dor é tão intensa que nenhuma morfina é capaz de aliviá-la. Pois ter filhos, caro “patrão”, é doloroso. Escrever é estar doente dos olhos… O prazer da criação e a dor andam juntos, são irmãos gêmeos.

E, por favor, caro “patrão” não me condene pelo meu egoísmo. Até porque se só escrevo para mim é porque escrevo para todos. Como? Aprendi isso com o magnífico Orhan Pamuk, prêmio Nobel de literatura, no seu belo livro “A maleta de meu pai”:

PARA MIM, SER ESCRITOR, É RECONHECER AS FERIDAS SECRETAS QUE CARREGAMOS; tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura. O escritor fala de coisas que todos sabem, mas não sabem que sabem… Se ele usa suas feridas secretas como ponto de partida, consciente disso ou não, está depositando uma grande fé na humanidade. Minha confiança vem da convicção de que todos os seres humanos são parecidos, que os outros carregam feridas como as minhas.”.

Por isso que Guimarães Rosa tem razão quando diz que cada um de nós tem um grande SERTÃO dentro de si… E é por causa desse sertão, que muitas vezes somos incompreendidos, criticados e ridicularizados, já que ninguém sabe o que se passa dentro de cada escritor, durante a sua gestação.

Então, muitas vezes, querem nos corrigir: “Retire essas reticências todas! Acabe com tantas citações, elas nos cansam!” Ora, caro patrão! Veja que todo filho tem que ser mesmo imperfeito. Se Deus quisesse a perfeição não teria feito tantos ingratos, desonestos, mentirosos, oportunistas, invejosos, sanguessugas, etc. etc. E uma raça pura, sem defeitos, não era o que Hitler preconizava?! Por isso, tenho medo da eugenia!

Além disso, caro “patrão”, é bom lembrar que todo escritor tem as suas manias. Enquanto, Faulkner só escrevia pela manhã; Hemingway escrevia de pé. Já Balzac só escrevia bebendo café; e o que dizer de Schiller que guardava na sua escrivaninha maças podres cujo cheiro o embriagava e o estimulava… Eu, arremedo de escritor, mais para “ladrão de citações”, não poderia ficar para trás.

Veja caro “patrão” – e que fique como um segredo só entre nós-, mas a minha inspiração ocorre nos momentos mais inoportunos: ou quando estou debaixo do chuveiro ou dentro do elevador, rumo a uma reunião importante.

E quantas não foram às vezes que tive de interromper o banho e sair todo ensaboado do box, pegar uma caneta, papel e escrever o que a cabeça começava a parir; ou ainda ter que voltar do estacionamento do meu prédio e sentar em frente ao computador, para escrever… Acho que dentro de mim – já que somos muitos como diz o poeta Manoel de Barros: “Eu sou muitas pessoas destroçadas!”-, tem alguém que não gosta de banhos ou de cumprir horários…

Pois bem! Depois de todas essas explicações, espero que o meu processo de “demissão” seja interrompido e que o meu espaço no seu blog (//blogcarlossantos.com.br/) continue o mesmo. Afinal, qualquer tribunal de trabalho dará ganho de causa ao meu pleito.

E eu sei que embora processos não lhe intimida, já que estás respondendo aos 9.865.489 (nove milhões oitocentos e sessenta e cinco mil quatrocentos e oitenta e nove) processos movidos contra a sua pessoa pela antiga gestão municipal de Mossoró, não seria melhor não aborrecermos a justiça com mais essa pendenga?

Até porque outro dia, logo após assistir ao filme “O terminal”, com Tom Hanks, que conta a história de um viajante que impedido de entrar no EUA, passa a viver dentro de um aeroporto, fui dormir e sonhei com uma versão jerimum caboclo: os oficiais de justiça do país de Mossoró, cansados de levarem intimação para o jornalista Carlos Santos, resolvem fazer um abaixo assinado, pedindo que você passe a morar nas dependências do fórum de justiça, pois assim economizaria o tempo deles e também as árvores da mata amazônica… A cabeça é ou não um útero?!

Ah! E não se esqueça do meu pagamento, afinal não acertamos que a sua amizade era o meu salário?!

Então, venha a Natal tomar um café e colocaremos as noticias em dia, ok?

Abs, do seu empregado Edilson Pinto.

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor

* Crônica originalmente postada no dia 17 de fevereiro de 2013, às 6h45. A resposta do “patrão” saiu em seguida, no mesmo dia. Aguarde. Vamos reproduzi-la ainda hoje (Domingo, 25 de abril de 2021).

Diário de um voluntário (III)

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

A Covid-19 chegou e eu tive que sair pela porta da frente.

Obeso, hipertenso e com passado de arritmia eram tudo que o vírus, pelo menos naquela época, queria para se propagar. Os 22 anos no Hospital Luiz Antônio (HLA), a maior Escola da Vida que eu frequentei, deixaram muitas marcas.Médco e paciente - Francisco Edilson Leite Pinto Júnior - Crônica em 14-03-2021Ali aprendi que o trabalho em equipe é possível de ser realizado na saúde. Ali aprendi que a morte é uma grande professora para a vida: carpe diem!!!

Ali convivi com pessoas incríveis, que esqueciam suas dores, para aliviar as dores dos pacientes.Ali aprendi que a relação profissionais da saúde-paciente é sempre o maior ingrediente na arte de curar.

Quantas histórias incríveis:

Acabara de receber o plantão, às 07h. Logo fui chamado na urgência. Dona S., portadora de neoplasia de mama, gritava de dor. O marido muito estressado com a situação (e não era para menos), andava de um lado para o outro. Aproximei-me dela, disse meu nome, perguntei o dela, peguei na sua mão e, olhando nos seus olhos, disse:

– “Confie em mim. Vou aliviar a sua dor”. Aí, vendo que ela estava mais calma e o marido também, senti a oportunidade de pedir algo: “Não olhe para camisa do seu marido que a senhora já vai aliviar a dor”… Percebi que o marido olhou-me espantado e disse: “O senhor é Flamenguista?! Pois Doutor, eu vou dizer algo…  se o senhor acha que essa camisa causa dor, imagine a dela?”

Aí foi a minha vez de arregalar os olhos: “Não vá dizer que ela é vascaina?!”

Nós três caímos na gargalhada, ela ria tanto que não conseguia parar. Sim, um casal carioca, ele botafoguense, ela vascaína… Contei que também tinha casado com uma carioca e flamenguista, minha Viviane, e, depois de quase 10 minutos, ela, ainda segurando minha mão, disse uma das mais belas palavras que eu poderia ouvir:

– “Doutor, minha dor passou. Era só medo”…

Sim! Há terapia curativa nas palavras: “Dizei apenas uma e serei salvo”.

E a palavra agora é saudade.

Mas a vida é mesmo assim: dia e noite; não e sim… Heráclito e Demócrito…

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

Abel Braga, a vacina que o Brasil precisa urgentemente?

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Era final da noite, do dia 20/01/2021, dia de São Sebastião – o santo católico escolhido para ser o protetor das vítimas da fome, da guerra e das pestes. O árbitro Marcelo de Lima Henrique aponta para o centro do gramado, dando fim a massacrante derrota do time tricolor paulista.

Assistindo atônito a tudo isso, fui logo alertado: “Pai, olha lá!”. O sempre iluminado Lucas estava me mostrando uma das mais belas cenas que já vi em um campo de futebol.

Abel Braga, o "Abelão", gesto nobre na atenção aos vencidos; exemplo que faz bem e o bem (Foto: UOL)
Abel Braga, o “Abelão”, gesto nobre na atenção aos vencidos; exemplo que faz bem e o bem (Foto: UOL)

O tão criticado, “ultrapassado e obsoleto” técnico Abel Braga comemorava abraçado com todo o time do Internacional, quando, de repente, vê o time de jovens atletas do São Paulo saindo, destruídos e humilhados. Ele olha para aqueles garotos, põe a palma da sua mão no queixo e faz o gesto de “levantem a cabeça”!

Não satisfeito, desvencilha-se do seu grupo e vai falar com um dos derrotados até a entrada do túnel. Para Abel, mais importante do que a sua vitória pessoal era restaurar o brilho no olhar daqueles jovens cujo destino foi impiedoso por colocá-los para serem treinados por alguém (Fernando Diniz) que prefere a humilhação (seu mascaradinho de …! Seu ingrato de …! Seu perninha!) à compaixão.

De imediato, lembrei-me do filme Tróia e outra cena inesquecível. O rei Príamo entra na cabana e beija as mãos do maior guerreiro de todos os tempos, e diz: “acabei de fazer o que nenhum homem desse mundo fez. Beijei as mãos do homem que matou o meu filho… Eu lhe imploro, Aquiles, devolva o corpo do meu filho Heitor. Ele merece a honra de um funeral apropriado, dei-me essa misericórdia. Ainda sou seu inimigo hoje, mas até os inimigos podem se respeitar”…

Respeito, compaixão, humanidade, empatia, amor… Todos os componentes da IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) necessários para produzirem a mais potente vacina contra essa pandemia que nos assusta desde 26/02/2020, no nosso país, foram vistas em um piscar de olhos naquele gesto de Abelão.

Mas não! A professora COVID-19 “falhou” redondamente no mundo e, principalmente, no nosso país. Mais de 215.000 mortes até agora e o que presenciamos diuturnamente são atitudes assustadoras.

É um verdadeiro circo do horror, onde a desumanidade, o desleixo com a vida humana, o descaso com a dor do outro, o escárnio pela morte de um voluntário de uma pesquisa vacina, a apologia à xenofobia, o incentivo ao divisionismo, são servidos no Coliseu digital moderno a uma plateia cujo hálito da morte não para de pedir: “Mais sangue, mais sangue! Fechem o STF! Fechem o Congresso Nacional!”.

Juro que, nos meus mais altos devaneios literários, jamais imaginei que um dia fosse presenciar todo esse espetáculo dantesco. Pessoas morrendo e outras se aglomerando em festas, indiferentes, como se nada estivesse acontecendo.

Vejo pessoas da área da saúde incentivando o não uso da máscara e que essa “gripezinha” não passa do invencionismo de uma mídia sestra cujo destino deveria ser o mesmo dos livros queimados por Hitler… Vejo pessoas fazendo apologia a santos e no canto direito da boca escorrer o fel e o ódio, com tamanha hipocrisia que não conseguem nem saber: “Onde está a mentira?!!”…

“Sem falar da dor mais revoltante promovida pelo silêncio dos covardes. Aqueles que foram escolhidos para defenderem a sociedade, ficam calados, e, quando falam, sussurram disfarçadamente com uma contração no lábio direito, comum a quem ri, dando a mais clara manifestação de apoio a tudo isso…”

Nietzsche dizia: “É preciso o caos dentro de si para dar luz a uma estrela cintilante”. E se podemos tirar algum proveito desse quadro, é saber que agora as entranhas de cada um de nós estão expostas, como as vísceras de um Prometeu acorrentado, e que em alguns são tão pútridas, que desencorajam até as águias de chegarem perto, não só pelo seu odor, mas também por receio de serem devoradas pelo monstro do pântano, o monstro da Lagoa…

Mas nem tudo está perdido. Dia 21/01/2021, recebo pelo WhastApp, a mensagem do meu ex-aluno e fiel amigo Jailson Martins Vale, médico do Samu Natal/RN:

“Ontem fiquei 01:15h na fila da vacinação – sim, sou jacaré5Gchipado chinês! – E durante a espera em que via a luz no final do túnel, um mundo de pensamentos e emoções vividos nos últimos 10 meses tomou conta de mim. Quanto sofrimento, de tantos e em tão pouco tempo! E nem de longe tenho propriedade para tal afirmação. A aproximação do posto de vacinação se assemelhava ao ponto mínimo de luz do outro lado do túnel que cresce à medida da aproximação e logo invade todo o ambiente ao fim da travessia (era a agulha que injetava o tão precioso líquido e que logo estaria nos braços do povo brasileiro). A esperança se renovara. O bem sempre vence o mal! Chegando em casa, meu delírio foi sanado pela realidade brasileira de uma enxurrada de denúncias nas redes sociais de fura-fila na vacinação e atos “equivocados” em Natal e Brasil afora. Um misto de vergonha e revolta tomou conta de mim. Ao ver este vídeo no início da noite, a boca secou, a desesperança me invadiu, os pensamentos se confundiram. Como um retirante faminto dos anos 80, fui dormir para esquecer a fome. Derrotado, perdi o sono. Hoje, com um rosário numa mão e o título de eleitor na outra, rogarei pela redenção deste país e pelos homens de boa vontade. Afinal, a fé move montanhas (e governos) e o bem sempre vence o mal!  Bom dia!”.

Bom dia! Sim, ainda há uma esperança nesse país. E ela está dentro de cada brasileiro que se identifica com essa mensagem do meu amigo Jailson.

Cada brasileiro que toma sua dose diária da vacina Abelão – que mesmo diante de todo seu sofrimento, enfrentando a maior tragédia de vida (perdeu um filho adulto há poucos anos), à semelhança de Príamo – ainda consegue ter anticorpos para difundir a compaixão, a empatia, o respeito ao próximo e principalmente, o AMOR.

Foi lindo, Abel!

Tim, tim!!!

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor da UFRN, médico, escritor, pai de Lucas e marido de Viviane.

A pobreza de muitos de nós

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Bem, o poeta Renato Russo nos advertiu: “Todos os dias quando acordo / Não tenho mais / O tempo que passou.  Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo”…

Tenho mesmo muito tempo e por isso tornou-me um hábito, toda manhã, assistir a um video do TED Talks, enquando faço exercício, afinal como dizia Nietzsche: “Sentar o menos possível, não acreditar em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação”…

Assim, hoje o TED Talks @ted foi de Preetha Ji, @preethaji.kyiv.event, professora indiana de espiritualidade:

– “Como acabar com o estresse, a infelicidade e a ansiedade para viver bem?”

Após a saudação típica do sul da Ásia – “Namastê” (Eu saúdo a você) -, ela contou a parábola dos monges Yesmi e Nomi. Este ultimo bastante irritado, após meia hora de caminhada, critica o primeiro pelo fato de ele ter olhado, falado e ajudado uma mulher a atravessar o rio. E isso era proibido pelos mestres.

Yesmi olhando calmamente para Nomi respondeu: “Sim, é verdade. Mas eu a deixei ali há meia hora. É você quem ainda a carrega”…

Interessante, mas essa história me fez lembrar de Sêneca e uma de suas cartas a Lucílio, Sobre Filosofia e Riquezas:

– “A aquisição de riquezas tem sido para muitos homens, não um fim, mas uma mudança, de problemas. Não me admiro. Pois a culpa não está na riqueza, mas na própria mente. Aquilo que fez da pobreza um fardo para nós, tornou as riquezas também um fardo. Assim como pouco importa se você coloca um homem doente em uma cama de madeira ou sobre uma cama de ouro, pois onde quer que ele seja movido ele vai levar sua doença com ele, por isso não é preciso se importar se a mente doente é outorgada às riquezas ou à pobreza. O padecimento vai com o homem”…

Pois bem… Quando eu vejo tanta gente, ocupando cargos com enorme poder e altos salários, sendo diuturnamente bajulados, mas são tão irritados, que até a sua respiração é um fardo… Coitados!

São tão pobres que só têm dinheiro e muita infelicidade…

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

Mais um médico do RN morre vítima da Covid-19

O RN perdeu mais um médico para a Covid-19. Dessa feita, na manhã de hoje (quarta-feira, 12), o cirurgião-plástico George Gonzaga Bezerra, 55. Ele foi o 15º médico alcançado de forma fatal por essa doença em poucos meses.

Estava internado no Hospital Rio Grande desde o dia 27 de junho último. Chegou a receber alta da UTI e havia uma alegria incontida de amigos e familiares com sua recuperação. Mas acabou retornando, foi intubado outra vez e não resistiu.

O professor, escritor e médico Francisco Edilson Leite Pinto Júnior escreveu crônica sobre esse triste acontecimento. Leia abaixo:

George: outra perda muito sentida (Foto: cedida)

Desde o início da pandemia, falava com George diariamente. Compartilhávamos nossas dúvidas, angústias, medos e esperanças.

Até que veio o fatídico sábado, dia 27/06/2020, e aquela chamada de vídeo foi nosso último contato: “Estou muito cansado, amigo. Vou para UTI agora”.  Bem… George lutou como um guerreiro, mas o destino estabeleceu, mais uma vez, sua terrível sentença e ele partiu hoje.

Estou muito triste. O mundo está menor agora.

George com seu coração e fala mansa era um verdadeiro sal da terra. “Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão Deus”.

Quanto a mim, resta-me o conforto de saber que “ninguém morre no país das saudades. Como nos sonhos”, como alertou Eduardo Lourenço.

Vá em paz, amigo!

“Não sabeis o quanto eles significam para mim, meus amigos / E como é raro, estranho e raro, encontrar/Um amigo que tais qualidades possui e oferece / Tais qualidades sobre as quais arde a amizade” (T. S. Eliot)

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O Mito da Bolha

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Se Platão fosse vivo, com certeza ele criaria, não o “Mito da Caverna”, mas o “Mito da Bolha”.

No livro “O filtro invisível”, Eli Pariser nos alerta:

– “Poucas pessoas notaram a mensagem postada no blog corporativo do Google em 4 de dezembro de 2009: “Buscas personalizada pra todos”…

A partir daquela manhã, o Google passaria a utilizar 57 “sinalizadores” para tentar adivinhar quem era aquela pessoa e de que tipos de sites gostaria…

Em outras palavras, já não existe Google único… Assim, começou a era da personalização (…). A democracia exige que os cidadãos enxerguem as coisas pelo ponto de vista dos outros; em vez disso, estamos cada vez mais fechados em nossas próprias bolhas.

E continua Eli Periser:

– “Cada indicador de clique que enviamos é uma mercadoria, e cada movimento que fazemos com o mouse pode ser leiloado em microssegundos a quem fizer a melhor oferta (…) Numa época em que as informações partilhadas são a base para a experiência partilhada, a bolha dos filtros é uma força centrífuga que nos afasta uns dos outros (…)”.

Segue:

– “Um mundo construído a partir do que é familiar é um mundo no qual não temos nada a aprender… Sem saber, estamos nos submetendo a uma espécie de lobotomia global”.

Pois bem, a cada dia que acordo, e, ao passear pelas redes sociais, encontro tantas pessoas tão cheias de “verdades”, que só me resta lamentar:

– “Pai, perdoa-os! Eles não conseguem enxergar a bolha a que estão presos”…

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, escritor e médico

Médico Samir João é outro caso de óbito por Covid-19

Outro médico vítima da  Covid-19 no RN. É o quinto (veja outros casos AQUI) nessa cruzada contra a pandemia. Dessa feita, Samir Assi João, 62, como se reporta o médico, professor e escritor Francisco Edilson Leite Pinto Júnior, que posta crônica sobre o óbito e sua relação de amizade com ele. Veja abaixo:

Samir: outra baixa (Foto: cedida)

“O destino pronunciou sua sentença e contra essa sentença não há apelação”… Acabo (domingo, 28) de perder um amigo, o professor Samir Assi João.

Em 1993, entramos na Universidade Federal do RN (UFRN) no mesmo concurso para professor do Departamento de Cirurgia. Demos muitos plantões juntos no Hospital Walfredo Gurgel, operamos muitos pacientes juntos…

Mas, o último encontro foi dentro de uma sala de aula, o nosso templo sagrado. Para mim, foi um dia inesquecível: eu como professor e ele como aluno… Na verdade, nesse dia, aprendi mais do que ensinei. Pois era sempre assim a nossa amizade.

Samir era um daqueles amigos, que mesmo à distância estava sempre por perto. Sua gratidão e lealdade eram inigualáveis. Samir era 100% coração. Não sei o que dizer, mas um coisa é certa: estou menor hoje. E muito triste.

No entanto, aprendi com Guimarães Rosa:”Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria…Depois, retoma coisas e pessoas para ver se somos capazes da alegria sozinhos…Essa… a alegria que ele quer”…

Vá em paz, meu amigo. A saudade, que é o amor que fica, vai ser grande demais…

Leia também: Pessoal da Saúde e Segurança é muito atingido pela Covid-19 no RN.

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O piano

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

A arte existe para que a verdade não nos destrua” (Nietzsche)

Em uma reunião de amigos resolvi contar a minha paixão pelo piano. A ponto de ter comprado um, sem Viviane saber, e com a cumplicidade de Lucas, montamos na sala da nossa casa… Mas até agora só sei arranhar alguns acordes da música “The Scientist” da banda Coldplay…

Pois bem, assim que contei essa história, soube pelo meu ex-aluno Francisco Irochima, que o Shopping Midway Mall teve sua inauguração postergada até que fosse colocado um grande piano no seu hall principal e que após tocada a primeira música, o seu fundador Nevaldo Rocha disse:

– “Pronto! Está inaugurado o Shopping, eu não disse que isso ia dar certo, ter um piano aqui?!”.

O piano do Midway Mall tem proporcionado a mim raros momentos de felicidade. Fico horas vendo o pianista tocando e viajo em meus devaneios da imaginação.

Outro dia, estávamos, eu e Viviane, e ao ouvirmos a música – “Por una cabeza” de Carlos Gardel -, corremos de mãos dadas para ver de perto o pianista e qual não foi a nossa surpresa: quem tocava era uma senhora muito simpática, com vários anéis nos seus dedos ágeis.

Fiquei mais uma vez emocionado.

E comentando esse momento com uma ex-aluna minha Sheila Henrique, ela me disse:

– “Professor, essa senhora é minha tia Nalva. Ela adora tocar piano”…

Pois bem, ontem à noite (veja AQUI), soube da morte do Sr. Nevaldo Rocha – idealizador da ideia do piano no Midway Mall e responsável por tantos momentos de felicidade em minha vida.

Fiquei triste.

Mas ao mesmo tempo lembrei-me da advertência de Cora Coralina:

– “Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos”…

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

Sobre o óbvio e a lucidez

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Quando Nelson Rodrigues proferiu a célebre frase: “Só os profetas enxergam o óbvio”, com certeza não estava se referindo ao escritor português José Saramago. Mas este foi profético ao escrever o livro Ensaio sobre a lucidez:

– “Às vezes, estar demasiado próximo dos centros de decisão provoca miopia, encurta o alcance da vista, respondeu sabiamente o primeiro auxiliar (…) É regra invariável do poder que, às cabeças, o melhor será cortá-las antes que comecem a pensar, depois pode ser tarde demais (…)– “A possibilidade da existência de uma organização clandestina decidida contra a legitimidade do sistema democrático, essas coisas não se fazem sem contatos, sem reuniões, sem células, sem aliciamentos, sem papéis, sim sem papéis (…)

– “O que vos põe nervosos é a culpa (…)

– “Os humanos são universalmente conhecidos como os únicos animais capazes de mentir, sendo certo que às vezes o fazem por medo, e às vezes por interesse, também às vezes o fazem porque perceberam que a tempo que essa era a única maneira ao seu alcance de defenderem a verdade (…)

– “As astúcias não serviram de nada, que nós todos continuemos a mentir quando dissermos a verdade, que continuemos a dizer a verdade quando estivermos a mentir (…)

– “Mas nesse mundo tudo é possível, imagino que os nossos melhores especialistas em tortura também beijam seus filhos quando chegam à casa, e alguns, se calhar, chegam mesmo a chorar no cinema (…)

– O que o senhor tem aí é um remorso de consciência. Remorso pelo que não fiz. Há quem afirme que esse é o pior de todos, o remorso de termos permitido que se fizesse (…) pôs-se uma pedra sobre o assunto, até as pedras mais pesadas podem ser removidas (…)

– “O desconcerto, a estupefação, mas também a troça e o sarcasmo, varreram o país de lés a lés (… )

– “Em toda verdade humana há sempre algo angustiosos, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo…”

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

Vá em paz, meu caro Adelmaro Júnior

Adelmaro Júnior foi secretário da Saúde em gestão da ex-governadora Wilma de Faria (Foto: reprodução BCS)

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Há pessoas que entram em nossas vidas como verdadeiros anjos.

Dia 10/03/1994, estava bastante ansioso, ia fazer minha primeira cirurgia já como professor do Departamento de Cirurgia, no HUOL/UFRN. Marinheiro de primeira viagem, era natural as mãos trêmulas antes de pegar no bisturi…

Estava me escovando, quando aquele sorriso calmo e sereno se aproximou de mim, colocou a mão em meu ombro e disse: “Estamos juntos”.

Dia 02/12/1997, o dia mais importante de minha vida e de Viviane: o nascimento de Lucas. Estava mais do que ansioso. Preocupado. Tentava manter a calma, mas nunca fui um bom ator. Mais uma vez aquele sorriso doce, suave e amigo se aproximou e disse: “Estamos juntos”…

Ontem (18/06/20), Adelmaro partiu… E uma grande tristeza me abateu ao saber que estaremos agora privados daquele sorriso doce e suave…
E quando estou triste tenho que recorrer a Saint-exupéry e o seu livro Terra dos Homens:

“Ligados aos nossos irmãos por um fim comum que se situa fora de nós, só então respiramos. A experiência mostra que amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção. Só há companheiros quando homens se unem na mesma escalada para o mesmo pico, onde se encontram (…) Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá sentido à vida, dá um sentido à morte”…

Vá em paz, meu caro Adelmaro Junior.

Missão cumprida.

* Adelmaro Cavalcanti Cunha Júnior, 62, ex-secretário de Estado da Saúde Pública do RN na gestão Wilma de Faria (já falecida), foi mais um médico com atuação no RN, vítima da  Covid-19. Estava internado há vários dias, tinha comorbidades.

Leia também: Mais um médico morre vítima da Covid-19 no RN.

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AOS VIVOS – Com Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

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Vamos conversar com o escritor, médico e professor Francisco Edilson Leite Pinto Júnior.

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Comunicado de Falecimento

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Comunico que estou morrendo! E agradeço a Deus que o meu fim se aproxima… Aliás, isso já deveria ter acontecido há tempos. Uma vez que eu já causei mais sofrimento na história da humanidade do que as duas grandes guerras juntas, mais do que todas as catástrofes naturais – tsunamis, desabamentos, incêndios, peste bubônica, etc. etc-, acontecidas até hoje…

Assim, a minha morte será um alívio! A minha morte será uma benção! Por isso que eu sempre acreditei (e como é difícil ter consciência da sua própria miséria) que eu já deveria ter sido condenado a morte… Aliás, eu deveria ter sido um natimorto!

Não! Por favor, não me entendam como um defensor da cadeira elétrica, do paredão das ditaduras, do aborto, etc. etc. Longe de mim isso! Mas vocês hão de convir de que a minha morte só causará benefício. Por isso, vejo até que, mesmo antes do meu caixão descer ao túmulo, haverá um delírio coletivo! (e nem sei se vou ter direito a ser enterrado, pois vai que alguém resolva me recriar, pegar os meus restos mortais, meus genes e fazer vários clones meus… Ave Maria, só de pensar nisso me causa até um calafrio!).

A felicidade será tão grande que todas as pessoas sairão às ruas, se abraçarão umas as outras – ora chorando, ora sorrindo-, e tudo isso apenas por causa da minha morte. Soube até que no Brasil, onde “o brasileiro é um feriado”, será decretado 180 (ou 360? Agora fiquei em duvida!) dias de folia.

A festa do carnaval, nem de longe, se comparará com as comemorações pela minha morte… Ah! Mas nem isso causará inveja aos carnavalescos, pois tenho certeza que todas as escolas de samba farão seus desfiles com um único enredo: “A morte da prova escrita!”.

Pois é, tenho ou não razão de me achar abominável?! Sou a PROVA ESCRITA, com direito as múltiplas escolhas, menos para os alunos: “Ou acerta ou não passa!”; Sou, muitas vezes, uma forma de ameaça: “Vai cair na prova!”; Sou o mecanismo utilizado agora para avaliar se uma universidade presta ou não, pode?!…

Sou apenas páginas em branco, onde muitos professores, já cansados, acomodados e sem criatividade, colocam um monte de perguntas e, na maioria das vezes, com um único objetivo: avaliar a memória do pobre do aluno. Por isso eu suplico: procurem outra forma de avaliação… Procurem!

Ah! Quantas árvores não foram gastas por ano, por país, por escola, para testarem algo que Pavlov e Skinner já descobriram em seus laboratórios de experimentação, o reflexo condicionado. Pois não venham me dizer que – colocando quatro alternativas para o aluno decidir qual delas está correta-, vocês estão avaliando algo além da memória. E aí eu lhes pergunto (sem colocar nenhuma das alternativas estão corretas, como possibilidade de resposta, para vocês assinalarem): onde fica a avaliação da sensibilidade, do amor, das paixões, dos afetos, dos sonhos, do que há de verdadeiramente humano e tão necessário para formação de um profissional?!

Por isso, concordo e assino embaixo, do que escreveu Saint-Exupéry, no seu livro “Terra dos homens”: “O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio… o que me atormenta é MOZART assassinado, um pouco, em cada um desses homens”… Pois é!

Através de mim – A prova escrita, vocês, caros professores, estão dificultando, ou até mesmo evitando, a formação de várias gerações de Mozart, e o que é pior: nem se dão conta disso! E depois não adianta ficarem cobrando humanização dos pobres e sofridos alunos, que passam noites e noites decorando leis, fórmul as, cálculos, efeitos colaterais das drogas… Ah! E eu nem posso me lamentar, como fez o poeta Álvaro de Campos, uma das entidades de Fernando Pessoa: “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”, pois nem desejo eu tenho, a não ser a minha própria morte…

Certa vez, entrei no Google, para saber quem me inventou e não consegui nenhuma resposta. Sou tão miserável que ninguém quer assumir a minha paternidade. Quem me gerou; quem fez meu parto; quem me criou; quem me alimentou; quem se serviu de mim para esconder as suas fragilidades e suas deficiências, seus medos e sua sede de poder, deveriam também ter um julgamento tão cruel como eu estou fazendo agora de mim mesmo, pois vocês são os verdadeiros culpados pela imagem abominável que carrego em minhas costas. E se Atlas foi obrigado pelos deuses a sustentar os céus para sempre, eu sou um Atlas obrigado a sustentar um mundo de sofrimentos para esses jovens.

Mas, como disse, no inicio desse comunicado, esse sofrimento tem dia e hora marcada para acabar. Vou morrer em breve! Ta lá no livro “A física do futuro”, de Michio Kaku: “Hoje, podemos nos comunicar com a internet por intermédio de nossos computadores e telefones celulares. Mas, no futuro, a internet estará por toda parte – em telas na parede, em móveis, em cartazes e até em nossos óculos e lentes de contato.

Quando piscarmos, estaremos on-line… Isso vai alterar o sistema educacional. No futuro, alunos prestando um exame final vão poder pesquisar silenciosamente as respostas na internet, via lentes de contato, o que será um óbvio problema para professores que costumam confiar na decoreba. Isto significa que, em vez disso, os educadores terão de enfati zar a capacidade de pensamento e raciocínio”…

Ah!!!!! Einstein tinha mesmo razão: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento!”. Por isso: Viva a minha morte! Viva a minha morte!

P.S. Dedico este artigo a todos os meus alunos, como forma de pedir perdão pelo sofrimento que ainda causo a eles…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior– Professor, médico e escritor.

* Texto originalmente publicado no Blog Carlos Santos em 27 de Outubro de 2013, há quase 7 anos. O autor estará nessa segunda-feira (15), às 21h, participando do nosso projeto no Instagram “Carlos Santos – AOS VIVOS!” Acesse e participe do nosso bate-papo: www.instagram.com/blogcarlossantos