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Escritor e sábio

Por Marcelo Alves

Victor Hugo, escritor francês (Reprodução)
Victor Hugo, escritor francês (Reprodução)

Victor-Marie Hugo (1802-1885) está no Panteão dos franceses. Literalmente, descansando no famoso edifício mausoléu, sito no Quartier Latin de Paris, cujo frontispício reconhece: “Aux grands hommes, la patrie reconnaissante” (“Aos grandes homens, a pátria é grata”). E literariamente, como um dos maiores escritores – de ensaios, de teatro, de poesia e, sobretudo, de romances – nascidos em França, no caso dele, na belíssima Besançon, capital do Franche-Comté.

Quem já leu ou ouviu falar de “O corcunda de Notre-Dame” ou “Nossa Senhora de Paris” (“Notre-Dame de Paris”, 1831), “Os Miseráveis” (“Les Misérables”, 1862) e “Os trabalhadores do mar” (“Les Travailleurs de la mer”, 1866) há de concordar comigo.

Todavia, para além de escritor, Victor Hugo foi sobretudo um “sage” (leia-se “sábio”). Mais do que muita sabedoria encontramos na fábula de Esmeralda, Quasímodo e Clode Frollo, que se antagonizam na “Notre-Dame de Paris”. Em “Les Misérables”, aprendemos, até demasiadamente, com a saga de Jean Valjean, a rigidez religiosa de Javert, a miséria de Fantine, o exemplo-exceção de bondade do Bispo de Digne, a malevolência de Gravoche e a infelicidade de Cosette, só no final redimida nos braços de Marius. Com “Les Travailleurs de la mer” eu aprendi algo que nunca esqueci: não podemos vencer a natureza.

Mas, hoje, para confirmar a minha tese sobre a “sagesse” (leia-se “sabedoria”) de Victor Hugo, eu gostaria de chamar a atenção para um título específico de sua vasta obra, aquele provavelmente mais relacionado ao direito, que é “O último dia de um condenado” (“Le dernier jour d’un condamné”, 1829).

Com “Le dernier jour d’un condamné”, o escritor e também homme politique Victor Hugo aparenta-se a Dostoiévski (“Recordações da Casa dos Mortos”, 1862), John Howard (“O estado das prisões”, 1777), Oscar Wilde (“A balada da prisão de Reading”, 1898) ou com os nossos Graciliano Ramos (“Memórias do Cárcere”, 1953), Plínio Marcos (“Barrela”, 1958) e Assis Brasil (“Os que bebem como os cães”, 1975), que tão bem relataram a vida carcerária e a dos seus condenados, cada um com as suas especificações, evidentemente.

Sob os pontos de vista filosófico, sociológico, psicológico e jurídico, o romance de Hugo cruamente nos apresenta o diário de um condenado à morte, anônimo, que não é herói nem vilão, nas últimas 24 horas anteriores a sua execução. Mas como se julga o ato do homem (ou do seu agrupamento em forma de Estado) que decide e impõe a morte a um outro homem? É o que procura fazer o autor.

Trata-se do que os franceses chamam de “roman à thèse”. Serve de libelo contra a pena de morte, tema tão importante para o direito (e aqui já deixo minha assertiva oposição à pena capital imposta pelo Estado). É verdade que a pena de morte, depois de muita luta, está hoje abolida na grande maioria dos países ditos “civilizados”. Mas, com Hugo e seu livro, na França e por onde a sua literatura se irradia, a luta por essa abolição atingiu consciências e sensibilidades.

Poucos fizeram tanto para abolir a “maldita” como o bom reformista/ativista Victor Hugo (e penhoradamente agradecemos!). Até porque, as maiores batalhas da humanidade foram ganhas não só com a razão/inteligência, mas, também, empregando-se a alma e o coração.

Aliás, na edição que possuo de “Le dernier jour d’un condamné” (Le Livre de Poche, 1989), na contracapa, consta:

“V. Hugo escreveu admiráveis poemas, ele escreveu admiráveis romances e admiráveis dramas; mas, para nós, sua obra capital – quando a guilhotina tiver sido definitivamente abolida – será ter ajudado a abolir essa guilhotina. Há algo maior que um grande poeta ou um grande romancista. É um sábio. E há algo mais belo, mais invejável, que a imaginação. É o coração”.

Bom, Victor Hugo redirecionou sua arte para servir a uma das mais nobres causas da humanidade. Quem é mesmo sábio, e não apenas inteligente, tende a ter um bom coração. Podem ter certeza.

Marcelo Alves é Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e escritor

O domínio público de Graciliano nos lembra “Baleia”

Do Blog Tio Colorau

Ilustração (Web)
Ilustração (Web)

Desde o dia 1º de janeiro a obra do escritor Graciliano Ramos entrou em domínio público.

Assim, a tendência é que os livros do alagoano falecido em 1953 se multipliquem nas livrarias, mais ou menos o que aconteceu com George Orweel em 2021.

Nota do BCS – Remete-me ao livro “Vidas Secas.” Perdi a conta das vezes que li, reli, li novamente, outra vez, de novo, mais uma vez…

Sem spoiler, para não atrapalhar o interesse de quem não leu, mas o destino da cachorrinha “Baleia” é algo único na literatura brasileira. Fez-me chorar. O regionalismo consagra-se ali, sem que nos esqueçamos de “A bagaceira” de José Américo de Almeida e a personagem “Soledade.” Vale lembrar:

– Há uma miséria maior do que morrer de fome num deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã.

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Começos arrebatadores

Por Marcos Ferreira

Como você decide qual a primeira palavra a ser escrita? Ouvi esta pergunta recentemente e não me lembro quem me fez tal indagação. Talvez eu a tenha lido em algum lugar. Ou foi por telefone, em conversa com algum amigo ou amiga cujo nome, infelizmente, não me recordo para lhe dar o merecido crédito. Minha memória, repito, é firme quanto um Sonrisal num copo d’água.Livro, escrita, crônica, literatura

O fato é que a primeira palavra, às vezes uma simples letra, um artigo masculino ou feminino, é responsável por todo o texto que está por vir. Sem essa largada, continuamos no zero, a página inteira em branco. Portanto, trata-se do gatilho, da espoleta, da fagulha que vai libertar todo o pensamento represado. No mesmo grau de importância considero o primeiro parágrafo de um texto. Poucos são os leitores que seguem adiante após um início de história ruim ou medíocre.

Como um anzol, digamos, você precisa fisgar o leitor já na largada, no comecinho da sua página. Esta que vemos em curso, por exemplo, também se submete aos ditames em questão: tem que atrair o interesse do leitor logo na saída. Dificilmente, numa livraria qualquer deste país e do planeta, o sujeito levará para casa uma obra que não conheça, a menos que se agrade do princípio.

Claro que isso de fisgar o leitor nas primeiras linhas é muito relativo. Em vários casos, ou na maioria deles, depende do gosto de cada pessoa por determinado estilo ou gênero literário. Mas vamos supor que você acabou de entrar numa livraria e, com grana para comprar apenas um livro, está a fim de adquirir algo novo, um autor e obra desconhecidos. É aí, pois, que o efeito azougue da escrita vai fazer a diferença, seja num romance, livro de contos, crônicas ou poemas.

Tem que ter aquela mensagem imantada, engenhosa, ou no estilo arrasa quarteirão. Seja por meio de uma frase poética, metafórica, ou através do velho recurso de tentar arrebatar o leitor à custa de um introito chocante, por vezes na forma de violência, como num disparo de arma de fogo, alguém que se lança do alto de um arranha-céu ou se enforca. Enfim, um cadáver já no abre-alas.

— Meu Deus! — podem se persignar.

A literatura nos oferece mil e uma possibilidades de narração de uma história utilizando o recurso de impactar o leitor. Sobretudo quando se trata de prosa fictícia, em particular nos romances e contos. Há autores, nacionais quanto estrangeiros, que praticamente escrevem com sangue as suas narrativas carniceiras, como Rubem Fonseca e Stephen King, para citarmos apenas dois. Outros nos atordoam pela surpresa e conteúdo insólito, feito o escritor tcheco Franz Kafka.

Para mim, que tenho verdadeiro horror a baratas, essa largada de A Metamorfose é um dos começos de novelas mais assustadores e inescapáveis da literatura: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Embora sem especificar o tipo de inseto, a descrição da barata é imagética e repugnante.

Um dos começos de livros mais aplaudidos, e merecidamente, é o do clássico Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez. Diz ele: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. E quem pode resistir e não seguir em frente na leitura após se deparar com as primeiras linhas de romances como Insônia e São Bernardo, do mestre Graciliano Ramos?

Não terem dado um Nobel a Graciliano foi uma grande injustiça, posto que tantos autores discutíveis levaram tal prêmio da academia sueca. Temos aqui, em solo tupiniquim, inclusive entre meus contemporâneos, literatura de alto nível. Outro gênio da prosa de ficção, o nosso insuperável Machado de Assis, abre o seu Memórias Póstumas de Brás Cubas com um parágrafo arrebatador:

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo”. Simplesmente genial!

Assim como o romancista, o contista e até o poeta, o cronista precisa fazer valer o seu reflexo de pescador. O peixe a ser fisgado, claro, é o leitor. A crônica deve ser atraente desde o título, que é o coadjuvante da isca, ou seja, as primeiras linhas. Ao contrário do que se dá com os livros nas livrarias, as crônicas expostas nos periódicos não contam com o chamariz de uma capa bonita.

— Mas ilustramos — dirá meu editor.

Sim. Porém o prezado leitor e a gentil leitora, que nem sempre concordam que uma imagem vale por mil palavras, esperam um texto que lhes salve o domingo (eis o nosso compromisso) da banalidade das páginas meramente jornalísticas, tão difundidas ao longo da semana. Deseja-se, então, que o cronista tenha algo de invulgar a oferecer, uma mensagem ou história (nem precisa ser real) que caia suave como os primeiros goles daquele café escoteiro tomado bem cedinho.

Daí a importância, num espaço tão eclético e ilustrado quanto o Canal BCS (Blog Carlos Santos) de nós cronistas botarmos a cara aqui todo domingo com uma narrativa capaz de atrair e manter o leitor interessado no que temos a contar. Tal conquista, volto a recordar, parte desde o título, mas, principalmente, ganha impulso a partir de um primeiro parágrafo de fato sedutor, cativante.

Isto significa que o final nem carece ser tão apoteótico ou estrondoso como um toque de gongo, contudo o leitor não costuma abrir mão de um começo arrebatador, envolvente. É aí, no mais das vezes, que está o sucesso ou fracasso do seu texto, seja ele um romance, um conto, uma crônica e até um poema mais longo. Você, por uma razão ou por outra, permaneceu comigo até este momento, e há de concordar com o meu raciocínio. Acredito, portanto, que iniciamos bem.

Marcos Ferreira é escritor

Arengas no blog

Por Marcos Ferreira

Como em toda expressão de arte, o literato trabalha para alcançar um público que, na sua quase totalidade, ele desconhece. Isso, todavia, parece instigar ainda mais o homem de letras. Pois sua grande gloria é saber, ao menos desconfiar, que está sendo lido por alguém em qualquer parte do seu macro ou microcosmo. Nem sempre, contudo, esse vínculo remoto é só aplauso. Algo natural. É que no meio dos leitores comuns estão os críticos literários, alguns bem rançosos.

Outros não são propriamente críticos, mas gostam de dar um palpite na produção de terceiros. Nomes de baixo e alto relevos já se envolveram nesse exercício de análise ou achismo. Um dia o jovem Bruxo do Cosme Velho fez um juízo desabonador acerca duns versos do então poeta Sílvio Romero e isso nunca foi perdoado. Como crítico, Romero devotaria a Machado um ódio incurável.briga, luta, confronto, confusão, disputa física,

Quem convive com o micróbio da literatura está sujeito a experienciar algo assim. Há casos extremos em que autores e obras se tornam malditos. Lembram o sufoco de Gustave Flaubert? Ele findou no banco dos réus francês ao divulgar sua obra-prima, Madame Bovary (1857), visto como o “romance dos romances” e considerado o pioneiro dos romances realistas. Dostoiévski foi parar diante de um pelotão de fuzilamento, tendo sua pena comutada no último instante.

Existe uma porção de grandes autores, inclusive cronistas, que já tornaram conhecidos alguns textos (até livros) um tanto inferiores a outros que publicaram. Mestres como Graciliano Ramos e Machado de Assis, por exemplo, têm os seus pontos altos e baixos, muito embora os altos possuam predominância. Porque os escritores, assim como as ostras, não produzem somente pérolas.

Minha crônica de domingo passado (19/12/2021) desagradou bastante ao exigente leitor Carlos Magno, o que provocou um bate-boca deste com o cronista Inácio Augusto de Almeida, pessoa esta que, a exemplo de Magno, eu conheço apenas pela sadia convivência que mantemos no ilustrado blogue do jornalista Carlos Santos. Pois é. Não tive a intenção, no entanto a minha crônica gerou discórdia, uma rusga entre os senhores Carlos Magno e Inácio Augusto de Almeida.

“Esse texto não parece produção do maior escritor de Mossoró. Marcos, com todo respeito, esse texto está sofrível”, afirmou Magno sobre minha crônica. Isso bastou para que Inácio interferisse dando uma voadora em Magno: “Escreva um texto e depois critique o texto dos outros. Todo crítico carrega consigo a cruz da mediocridade. E estão condenados ao esquecimento”, rebateu Inácio.

Daí por diante, no curto período do domingo para a segunda, já haviam trocado diversas “amabilidades” no espaço reservado à opinião dos leitores. Em minha defesa, portanto, o senhor Inácio soltou os buldogues em cima do senhor Magno, que não reagiu com menos ferocidade. Lamento profundamente que os dois tenham se engalfinhado por minha causa. Estimo tanto um quanto o outro. E trato com respeito todos que acompanham os meus escritos dominicais.

Quero frisar que “o maior escritor de Mossoró” não é uma distinção que reivindico. Deixo na conta do senhor Carlos Magno, que já elogiou textos meus tanto na época em que eu os publicava no jornal O Mossoroense quanto na Revista Papangu. Aqueles, excluindo alguns excessos e inexperiências, foram tempos bons. Aprendi muita coisa. Porque ninguém nasce pronto e acabado.

Quando o editor deste Canal BCS (Blog Carlos Santos) me convidou a integrar o seu elenco de colaboradores, confesso que supus que minhas crônicas não fossem contar com muita audiência. É verdade que vez por outra, especialmente se toco no assunto da política, acabo abespinhando certos indivíduos. Estou no saldo. Não ambiciono unanimidade. Isso fica para quem não tem opinião própria e vive em cima do muro balançando a cabeça, feito lagartixa, para tudo e todos.

Claro que o senhor Magno tem todo o direito de não gostar do meu texto. Sobretudo daquele em que execrei o governo Bolsonaro e indaguei sobre os cento e trinta mil reais que os vereadores de Mossoró supostamente empregaram na compra de alho, coentro, cebola, tomate e pimentão. Por outro lado, convenhamos, o senhor Inácio também tem o direito de discordar do senhor Magno.

Divergir, ter opinião diferente, é salutar para o engrandecimento de um debate democrático, sem ataques nem ofensas. O último domingo, entretanto, foi de ânimos acirrados neste blogue. Até o escritor François Silvestre, sertanejo aguerrido, trocou uns bofetes verbais com alguns leitores. Fique tranquilo, homem. O Lula vem com todo o gás, e o meu voto é dele. Pois eu votaria até no falecido Enéas Carneiro se ele tivesse reais chances de expelir o Energúmeno do poder.

— Cadê o coentro?! — indaga Inácio.

Ninguém responde. Silêncio sepulcral na Câmara. Toda a vereança se mantém de bico fechado. O edil Lawrence Amorim, presidente da Casa, também faz ouvidos de mercador. Mas Inácio, incansável vigilante do erário mossoroense e das verbas dos contribuintes, quer saber onde foi parar tanta verdura. Ele também critica, com razão, o novo Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).

Mudemos de assunto. Minha Natália puxa minhas orelhas sempre que toco em política. Quero pedir aos senhores Inácio e Magno que se deem um aperto de mão virtual para restabelecer a concórdia. Não vale a pena brigar. Ainda menos, como diria Carlos Santos (o ex-Homem dos Suspensórios), por um “escritor mundialmente desconhecido”. A vida é tão efêmera, tão curta para que a desperdicemos com nonadas, picuinhas. Quando achamos que estamos aqui, já partimos.

Aí tudo fica para trás: a família, os amigos, o gato, o cachorro, o emprego, a conta-corrente, o prestígio, o status, a vaidade. Não importa o quanto tenhamos. Ficamos sem coisa alguma. Exceto por um traje de madeira, algumas rosas e um pequeno pedaço de chão num condomínio sossegado onde vamos estudar a “frialdade inorgânica da terra”, como naquele soneto de Augusto dos Anjos.

Marcos Ferreira é escritor

Escritor e sábio

Por Marcelo Alves

Victor-Marie Hugo (1802-1885) está no Panteão dos franceses. Literalmente, descansando no famoso edifício mausoléu, sito no Quartier Latin de Paris, cujo frontispício reconhece: “Aux grands hommes, la patrie reconnaissante” (“Aos grandes homens, a pátria é grata”). E literariamente, como um dos maiores escritores – de ensaios, de teatro, de poesia e, sobretudo, de romances – nascidos em França, no caso dele, na belíssima Besançon, capital do Franche-Comté.victor-hugo-blog Quem já leu ou ouviu falar de “O corcunda de Notre-Dame” ou “Nossa Senhora de Paris” (“Notre-Dame de Paris”, 1831), “Os Miseráveis” (“Les Misérables”, 1862) e “Os trabalhadores do mar” (“Les Travailleurs de la mer”, 1866) há de concordar comigo.

Todavia, para além de escritor, Victor Hugo foi sobretudo um “sage” (leia-se “sábio”). Mais do que muita sabedoria encontramos na fábula de Esmeralda, Quasímodo e Clode Frollo, que se antagonizam na “Notre-Dame de Paris”. Em “Les Misérables”, aprendemos, até demasiadamente, com a saga de Jean Valjean, a rigidez religiosa de Javert, a miséria de Fantine, o exemplo-exceção de bondade do Bispo de Digne, a malevolência de Gravoche e a infelicidade de Cosette, só no final redimida nos braços de Marius. Com “Les Travailleurs de la mer” eu aprendi algo que nunca esqueci: não podemos vencer a natureza.

Mas, hoje, para confirmar a minha tese sobre a “sagesse” (leia-se “sabedoria”) de Victor Hugo, eu gostaria de chamar a atenção para um título específico de sua vasta obra, aquele provavelmente mais relacionado ao direito, que é “O último dia de um condenado” (“Le dernier jour d’un condamné”, 1829).

Com “Le dernier jour d’un condamné”, o escritor e também homme politique Victor Hugo aparenta-se a Dostoiévski (“Recordações da Casa dos Mortos”, 1862), John Howard (“O estado das prisões”, 1777), Oscar Wilde (“A balada da prisão de Reading”, 1898) ou com os nossos Graciliano Ramos (“Memórias do Cárcere”, 1953), Plínio Marcos (“Barrela”, 1958) e Assis Brasil (“Os que bebem como os cães”, 1975), que tão bem relataram a vida carcerária e a dos seus condenados, cada um com as suas especificações, evidentemente.

Sob os pontos de vista filosófico, sociológico, psicológico e jurídico, o romance de Hugo cruamente nos apresenta o diário de um condenado à morte, anônimo, que não é herói nem vilão, nas últimas 24 horas anteriores a sua execução. Mas como se julga o ato do homem (ou do seu agrupamento em forma de Estado) que decide e impõe a morte a um outro homem? É o que procura fazer o autor.

Trata-se do que os franceses chamam de “roman à thèse”. Serve de libelo contra a pena de morte, tema tão importante para o direito (e aqui já deixo minha assertiva oposição à pena capital imposta pelo Estado). É verdade que a pena de morte, depois de muita luta, está hoje abolida na grande maioria dos países ditos “civilizados”. Mas, com Hugo e seu livro, na França e por onde a sua literatura se irradia, a luta por essa abolição atingiu consciências e sensibilidades.

Poucos fizeram tanto para abolir a “maldita” como o bom reformista/ativista Victor Hugo (e penhoradamente agradecemos!). Até porque, as maiores batalhas da humanidade foram ganhas não só com a razão/inteligência, mas, também, empregando-se a alma e o coração.

Aliás, na edição que possuo de “Le dernier jour d’un condamné” (Le Livre de Poche, 1989), na contracapa, consta:

“V. Hugo escreveu admiráveis poemas, ele escreveu admiráveis romances e admiráveis dramas; mas, para nós, sua obra capital – quando a guilhotina tiver sido definitivamente abolida – será ter ajudado a abolir essa guilhotina. Há algo maior que um grande poeta ou um grande romancista. É um sábio. E há algo mais belo, mais invejável, que a imaginação. É o coração”.

Bom, Victor Hugo redirecionou sua arte para servir a uma das mais nobres causas da humanidade. Quem é mesmo sábio, e não apenas inteligente, tende a ter um bom coração. Podem ter certeza.

Marcelo Alves é Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e escritor

O feitiço das palavras

Por Marcos Ferreira

Há muitas vezes, ao menos comigo isto acontece, em que já estamos deitados, recolhidos às brumas do sono, quando elas nos sacodem, puxam os lençóis, o travesseiro, batem os pés, formigam em nossa cabeça e exigem expediente extra. Meio sonâmbulos, acendemos a luz (ou apenas recorremos ao bloquinho de notas do celular) e rabiscamos qualquer coisa, um mínimo registro para darmos andamento ao estalo inspirativo no dia seguinte, não raro sem a fecundidade e proveito do primeiro instante.

Porque escrever, minhas senhoras e meus senhores, salvo raras exceções, é, acreditem, um exercício de absoluta entrega e renúncia.letras, palavras, teclas, textos, nomes, datilografia, teclas, tecladoPalavras têm disso: encanto, magia, feitiço. A mim (um sapateiro da literatura) elas sempre enfeitiçaram, arrebataram, fascinaram. Porque palavras, entre outras importâncias e qualidades, têm cheiro, cores, sabor, compleição, rutilância, força, poder.

Careço amiúde conhecê-las, degustá-las nesse imensurável manjar que é a língua portuguesa do Brasil, de Portugal e demais países lusófonos. Digo mais, minhas senhoras e meus senhores: sou um tipo irrecuperável de viciado em palavras, refém espontâneo de suas ordens e caprichos, caminhos e perigos.

Deixamos a caverna há três milhões e quatrocentos mil anos e desde então o advento da linguagem, da escrita, tem sido a nossa conquista mais relevante e inigualável. Palavras são o maior patrimônio da humanidade. Humanidade esta que, infelizmente, nem sempre é tão humana como deveria. Entretanto, bem ou mal, o verbo nos distingue, seleciona, classifica, excluiu ou inclui. Porque palavras são, também, consenso e discórdia, união e diáspora, cárcere e liberdade.

Palavras são isso e aquilo; o ser e o não ser de William Shakespeare; a dialética incomparável de Machado; a pena flamejante de Dostoiévski; a precisão vocabular de Graciliano; os sonetos impecáveis de Florbela Espanca; a verve indômita de Clarice Lispector; o silêncio eloquente dos omissos.

Busco as palavras como meus pulmões exigem oxigênio. Careço senti-las a todo minuto, hauri-las, criar afinidade, apreendê-las nesta instância da vida em que me sei menos manipulador que manipulado, menos protagonista que figurante, simples porta-voz, menino de recados.

Sou-lhes obscuro garimpeiro, bateador. Busco-as noite e dia, sem temor nem rodeios. Mas não de maneira a averiguar nos dicionários o lato sentido de um determinado vocábulo ou sentença. Não assim. Ambiciono das palavras a condição de expressar-me, se possível, com arte.

Não é nada fácil, senhoras e senhores, porém a dificuldade não reduz o meu anseio de pavimentar a minha trajetória e história com um pouco de arte escrita. Empresa difícil e por vezes inglória, eu sei. O escritor português Latino Coelho, em A Oração da Coroa, pontuou sobre este aspecto: “De todas as artes a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil, é sem dúvida a arte da palavra”.

Imaginem um deus literário como Machado de Assis (1839-1908) sem a literatura, sem o feitiço das palavras, que ele manejava com mestria invulgar. Imaginem o bruxo do Cosme Velho (sua carinhosa antonomásia) sem o condão das letras. Imaginaram? Pois bem.

Calculo que estaria em sérios apuros, isto no tocante à época e sociedade a que pertenceu. Homem de origem humílima, filho de um descendente de escravos alforriados e de uma lavadeira portuguesa, que atropelou toda espécie de preconceitos daquele Brasil de antanho graças ao poder irresistível da sua inteligência e da sua escrita. Viva Joaquim Maria Machado de Assis!

“Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução”, escreveu Machado no conto “Primas de Sapucaia!”, do livro Histórias sem Data, de 1884. Vivesse nos tempos de hoje, detentor da extraordinária obra que produziu, decerto já teríamos um Nobel de literatura, cuja primeira edição foi conquistada pelo francês Sully Prudhomme em 1901. Prudhomme faleceu seis anos depois (1907), aos sessenta e oito anos.

Nem todos nós, os miúdos, podemos gozar da fortuna de ser um Graciliano Ramos, um Dostoiévski, uma Carolina Maria de Jesus, uma Conceição Evaristo ou um Machado de Assis. Mas, não fossem os pequenos, os escribas de inferior estatura artística, que tédio seria a literatura. Não há Nobel para todo mundo. Tudo tem sua finalidade, sua época e relevo. Até nossos menores dedos são essenciais. Aqui, a horas mortas, entre o caos da pandemia e o escárnio do Genocida, permito-me fazer uso por escrito do meu idioma enquanto homem de letras.

Fernando Pessoa falou certa vez (escreveu, na verdade) que ser poeta nunca foi a sua ambição, mas apenas a sua maneira de estar sozinho. Para mim, por maior que seja a solidão, ler e escrever é uma forma de não me sentir só. Quem lê e quem escreve (convém que seja nessa ordem) nunca está de fato sozinho. Escrevo, pois, com ou sem talento. E submeto ao leitor menos exigente as minhas páginas de baixo quilate e voltagem literária, dignas, quiçá, de alguma atenção ou piedade, como nesta primeira estrofe de um soneto de Bocage, outro português:

“Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores;

Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;

Que elas buscam piedade, e não louvores”.

Como percebem, cheguei até aqui (refiro-me a esta crônica frankensteiniana) à custa de retalhos, pedaços de uma e outra coisa. Ou seja, enrolando o tempo e espaço, fazendo uso de uma espécie de bromato de potássio verbal, recurso para inchar o texto e fazer parecer que o pão da véspera é quente e fresquinho. Porque alguns cronistas, diante da escassez de assunto, costumam enfeitar o pavão. Mero artifício, figura de linguagem, algo de que nosso idioma é riquíssimo.

Dito isto, minhas senhoras e meus senhores, dou a cara à tapa, o braço à seringa, a mão à palmatória. Porque até agora não fiz outra coisa exceto lhes roubar preciosos minutos. Da próxima vez, prometo que vou tentar, apresentarei páginas que lhes valham o tempo investido. Sobretudo o meu próprio tempo, posto que não desejo notabilizar-me como farsante literário, um vigarista menor.

Por último, meus caros, penso neste conselho do Benjamin Franklin: “Se não queres perder-te no esquecimento tão cedo como chega a morte, escreve coisas dignas de ler-se, ou faz coisas dignas de escrever-se”.

Antes que chegue a Moça da Foice.

Marcos Ferreira é escritor

Nas águas da literatura

Por Marcos Ferreira

Alguns livros a gente termina de ler, digamos assim, para não perder a viagem. Ou tornar menos inútil o tempo investido. Daí que só acabei a leitura de certos “clássicos” (locais quanto planetários) porque já havia, embora a duras penas, atravessado mais da metade do rio, ainda esperançoso de que a segunda margem reservasse algo de compensador para o final da travessia.

Embalde. Fica-se no prejuízo e pronto. Não é possível você tocar no ombro do dito-cujo e dizer: “Ei, Fulano, dê-me de volta o tempo que empreguei na leitura do seu ‘clássico’. Não me serviu. Sobrou pano em cima e faltou embaixo.” Não dá. O máximo que podemos fazer é acendermos uma vela em respeito às árvores que foram ceifadas para o fabrico daquele papel.Estou sendo indelicado? Possivelmente. Talvez delicadeza não seja o meu forte. Se, porventura, possuo algum. Ressalto, no entanto, que é necessário botarmos os pés na água para sabermos se esta é rasa ou profunda. Tal preceito se aplica à literatura. É leviandade, para dizer pouco, aplaudirmos ou reprovarmos um determinado livro e seu autor sem sequer molharmos a ponta dos dedos.

Após quebrar a cara dezenas de vezes, influenciado pela reputação de algumas “lagoas azuis”, hoje em dia não pulo mais de ponta-cabeça nas correntezas da literatura. Vou devagarinho, banhando-me aos poucos, aclimatando-me com uma cuia. Nada de choque térmico. Careço sentir a temperatura da água, observar o termômetro, averiguar a voltagem da escrita. Mesmo que seja o autor um marinheiro de primeira viagem na ficção, como é o caso do escritor mossoroense David de Medeiros Leite. Sim.

David Leite acabou de dar à luz o seu primeiro romance: “2020”. Título intrigante quanto lacônico. Estreia, no mínimo, respeitável. Cumpriu, com absoluta competência, sua travessia no oceano das letras romanescas, sem fazer água, sem se perder na costura do enredo nem da linguagem. Não arremedou escritor algum, não afetou erudição e, muito menos, surfou na perigosa onda do rebuscamento. Entretanto, com domínio da pena e do tinteiro, zela pelo nosso idioma, oferece um “2020” atemporal, com riqueza de detalhes e verossimilhança, sob a proposta fictícia.

Conciso, “2020” tem pouco mais de duzentas páginas. O bastante para que David Leite trouxesse a lume um romance de estreia bem-sucedido, sem pontas soltas, cosido com a precisão e propriedade de um autor familiarizado com temática escolhida para o aparelhamento do seu enredo.

Apresenta-nos, competentemente, repito, as memórias de José Silvestre de Araújo, religioso que larga sua vida na Ordem Carmelita, no Recife, e se abala para Mossoró obcecado por encontrar uma botija supostamente oculta nas ruínas da Casa do Carmo. É uma história que não cai no lugar-comum da fantastiquice, mas que adquire singularidade por meio de um personagem expressivo, plausível e não menos singular.

Faz o mergulho valer a pena.

Agora estou aqui, sentindo-me de todo embevecido, imerso no mais profundo êxtase, com uma obra superior. Trata-se de “Peregrina”, novo livro de versos da excepcional poetisa (mossoroense por adoção) Kalliane Amorim, que me orgulha de ser seu contemporâneo. Como escreve bem essa moça, cuja trajetória literária tive a satisfação de acompanhar desde o tempo em que fui editor do caderno de cultura do Jornal O Mossoroense, há exatos vinte anos.

Há época, já com uma verve diferenciada, Kalliane me forneceu alguns dos seus poemas para publicação. Daí por diante, com luz própria, com uma impressão digital inconfundível entre nossos autores, essa mocinha terna, franzina e muito corajosa agigantou-se, sobressaiu-se. Conquistou, inclusive, o concorrido Prêmio Luís Carlos Guimarães de Poesia (2005), da Fundação José Augusto, em Natal-RN.

Como o romance de David, “Peregrina” saiu em uma caprichada edição da Sarau das Letras Editora. Traz primorosas ilustrações de Nilton Xavier e projeto gráfico de Augusto Paiva. Até a dedicatória que a autora me fez em um exemplar do livro, que não reproduzo aqui por mero pudor, é quase um poema, tão especial é a sua intimidade com o manejo do alfabeto.

Kalliane Amorim é uma escritora que atingiu a maioridade no ofício da escrita. A seu favor, entre outros méritos que me furto a esmiuçar, possui uma acuidade artística como poucas vezes observei nesta seara das letras potiguares. Não se contenta apenas com o propósito de comunicar, de se fazer entender, mas também chama para a si a responsabilidade de oferecer ao leitor algo além da rima, da métrica ou daquilo que ouso definir como poesia do enter, quando o sujeito comete um fraseado à toa e sai quebrando as linhas. Não.

O VERBO DE KALLIANE é joia burilada, trabalho de ourives. Ao mesmo tempo em que sua sofisticação, esmero com a polidura não compromete a mensagem, transmitida sem prejudicar o entendimento. Isto me recorda o português padre Antônio Vieira, quando diz:

“Aprendemos no céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo (…); muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem”.

O tato, a sensibilidade artística e a poética de Kalliane estão nesse patamar. Nem indecifrável, como tantos que se queixam de ser poetas, nem ao rés do chão. Permite aos que se julgam muito por cima descer um pouco; e aos que estão embaixo, elevar-se.

Do poema “Deserto”, página 71, pinço este fragmento da mais elevada poeticidade: “Assovia tão de perto/ o silêncio do deserto,/ que até posso acarinhar/ o seu flanco aveludado/ como um pássaro de ar.”

Quando crescer eu quero escrever bem desse jeito. “Peregrina” (entre outros relevantes trabalhos da escritora) afiança o que acabei de declarar. Ou deixei de dizer. Então, se querem saber mais sobre o conteúdo de “Peregrina” ou sobre o que narra o romance de David Leite, recomendo que leiam. Pois há muito o que saber.

De minha parte, seguirei com a navegação das leituras, ancorando em um porto-livro aqui, noutro acolá. Atento aos escolhos. Se pressentir que estou em barca furada, salto fora. Isso resulta em menos queima de pestanas, menos desperdício de tempo. Pois, ao contrário do papel, não se pode reciclar o tempo.

Felizmente, portanto, sem querer chover no molhado, o que é quase inevitável, existem aqueles autores e obras que fazem valer cada minuto que destinamos às suas páginas. Quem já leu, por exemplo, um “Memórias do Subsolo”, um “Humilhados e Ofendidos”, sabe do que estou falando.

De um modo geral os russos dominam os mares da ficção. Dostoiévski é um monstro, um monumento, uma força da natureza. Assim como Tchekhov e Tolstói. Machado de Assis e Graciliano Ramos, não necessariamente nessa ordem, outros dois ícones supremos da literatura brasileira.

Li e reli Graciliano (vai a metonímia) até mais do que li Machado. O bruxo do Cosme Velho, meritoriamente, é o grande astro da cena literária tupiniquim. No entanto o velho Graça é o meu fraco.

Refestelei-me sobre “Angústia” e “São Bernardo” — quero citar apenas esses dois — não sei quantas vezes. Coisa que não se deu com a obra de Machado. Estou devendo ao autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Então, para ficarmos apenas entre a Rússia e o Brasil,Crime e Castigo” e “São Bernardo” representam para mim o que há de melhor na ficção.

Dostoiévski e Graciliano, feito Augusto dos Anjos na poesia, são ímpares, desconcertantes, singularíssimos. Extrapolam todos os experimentos, as convenções, receitinhas. Deixam na poeira, a meu ver, James Joyce, Miguel de Cervantes, José Saramago, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Gustave Flaubert, José de Alencar, etc. Não ponho na balança só o que é contado, mas, sobretudo, o modo como se conta.

Na minha modesta visão de peregrino das letras, são autores que pegam uma história ordinária, um tema banal, e revestem o paupérrimo assunto com uma espessa camada de ouro. Isto é, tiram leite de pedra, dão peso e rutilância a histórias que resvalariam para a mediocridade ou coisa pior na escrivaninha de outrem.

A literatura, a arte literária, possui essa alquimia. Transforma nonadas, montículos, em grandes montanhas verbais. Como “A Montanha Mágica”, do Thomas Mann, gigante na compleição quanto na qualidade.

Por hoje é só. Hora de recolher as velas e atracar o barco.

Marcos Ferreira é escritor

Dizer não

Por Honório de Medeiros

Seu Antônio de Luzia uma vez me disse que os homens são tangidos por aqueles que dizem não. Ele não me disse assim, essa é uma “transcriação” minha, nem mesmo sei se ele a aprovaria.

Homem de muito poucas palavras, diz apenas o suficiente, quando fala é quase como um corte seco e definitivo de navalha.

Graciliano Ramos aplaudiria entusiasmado sua sisudez verbal.

O certo é que fiquei a pensar: ao longo do tempo parece que as coisas acontecem mesmo como Seu Antônio de Luzia me disse.

Uma longa lista de homens e mulheres notáveis, em certo momento histórico, nadou contra a correnteza do rio. E, de uma forma ou outra, fez a diferença.

Sócrates, Platão, Jesus, Buda, Freud, Marx, Einstein, Darwin… Eu os chamo de “outsiders“.

Os outsiders são muito interessantes. De forma alegórica estão presentes em um romance famoso na segunda metade do século passado, “Demian”, de Hermann Hesse.

Em “Demian”, Hesse nos apresenta a um adolescente que fica fascinado por seu colega de escola principalmente graças a mãe dele, mulher bela e misteriosa, iniciada em uma seita religiosa denominada “Cainismo”.

O que seria esse “Cainismo”? Quando essa questão aparece na convivência entre “Demian”, e seu interlocutor, aquele lhe apresenta, como ponto-de-partida para o conhecimento do Cainismo, uma longa relação de personagens condenados pela história oficial: é o caso de Caim, o irmão de Abel, cujo nome batiza a seita; é o caso de Eva; é o caso de Judas Iscariotes.

Vale ressaltar que o “Cainismo” foi resgatado da total obscuridade, no século XIX, por Lord Byron, e é possível que somente exista, enquanto referência histórica, em obras emboloradas de historiadores praticamente desconhecidos, a grande maioria existente apenas no “Cemitério das Obras Esquecidas”, que fica em Barcelona, segundo Szafón.

A pergunta que “Demian” faz a seu interlocutor durante todo o transcorrer da trama é se haveria Abel sem Caim; o Homem, sem Eva; Jesus, sem Judas.

Evidentemente, a pergunta implícita e fundamental por trás de sua doutrinação, é se haveria Luz sem Trevas; se haveria o Ser, sem o Nada. O que nos remete, cada vez mais longe no tempo, até o Maniqueismo do qual foi seguidor, por um bom tempo, ninguém mais, ninguém menos, que Santo Agostinho.

E que não se livrou de sua doutrinação inicial: que é a “Civitas Dei” senão a contraposição à “Civitas Terrena”, Deus versus Demônio? Luz versus Trevas?

Não seria essa percepção dualística da realidade o cerne do Catarismo, professado pelos Perfeitos, que a Inquisição, no Século XIII, varreu da face da França mandando matá-los todos naquela que seria a Primeira Cruzada e que foi liderada por ninguém menos que São Luis?

Voltando ao ponto de partida, e a Seu Antônio de Luzia: ele está certo, penso eu.

Todos esses homens disseram “não”, em algum momento da história. E esse “não” fez a diferença.

E cá para nós, somente é livre quem pode dizer não.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e Governo do RN

Os 70 anos do “Geografia da fome”

Por José Gonçalves do Nascimento

O drama da fome está presente em obras importantes da literatura brasileira, em especial aquela produzida por intelectuais nordestinos. Em algumas obras, o tema chegou a inspirar cenas que, por sua força e dramaticidade, tornar-se-iam verdadeiramente antológicas:

Em “O quinze”, de Raquel de Queiroz, o personagem Chico Bento, após esfolar uma cabra que encontra pelo caminho, e estando cego de fome, leva à boca os dedos sujos de sangue, comprazendo-se no “gosto amargo da vida”. No romance “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, a cachorra Baleia, há dias esfomeada, sonha com um mundo povoado por muitos e gordos preás. Em “A bagaceira”, de José Américo de Almeida, João Troculho, em diálogo com Lúcio, revela seu maior desejo: “comer até matar a vontade”.

Muito antes, Rodolfo Teófilo, ilustre humanista nascido na Bahia, mas radicado no Ceará, já havia tratado da temática, produzindo obras que se tornariam importantes peças de denúncia contra o terrível flagelo, caso do romance “A fome”, publicado em 1890.

Todavia, foi com Josué de Castro que a fome adquiriu estatuto científico, político e moral, não sendo encarada apenas como consequência de fatores climáticos e naturais, mas também, e sobretudo, como algo “provocado pelo homem contra outros homens”, a partir de ações políticas sistematicamente deliberadas.

Médico, geógrafo, cientista social, escritor, Josué de Castro é umas das figuras mais proeminentes do pensamento brasileiro.

Pernambucano, nascido em 1908, dedicou a vida inteira ao estudo da fome e da nutrição, escrevendo sobre o tema obras de elevadíssimo valor científico e literário. Uma delas é “Geografia da fome”, publicada em 1946, ao fim da segunda guerra mundial, e tida por Alceu Amoroso Lima como “livro-chave da realidade brasileira”, comparável apenas ao “Os sertões”, de Euclides da Cunha.

O livro foi pioneiro no sentido de trazer à baila a problemática da fome e suas implicações políticas e sociais no momento em que o tema era considerado um tabu. O próprio autor classificará o assunto como algo “perigoso e delicado”, afirmando haver “uma verdadeira conspiração do silêncio em torno da fome”.

“Será por simples obra do acaso – indagará ele – que o tema não tem atraído devidamente o interesse de espíritos especulativos e criadores do nosso tempo? Não cremos. Trata-se – continua – de um silêncio premeditado pela própria alma da cultura: foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente.”

Ao lado disso, há que se acentuar também a existência de certo sentimento de grandeza e ufanismo que fez com que a elite política e intelectual do Brasil ignorasse por tanto tempo o problema da fome, optando por destacar apenas elementos que pudessem enaltecer o nome do país, ainda que de forma maquiada. “A ‘Geografia da fome’ – assevera Barbosa Lima Sobrinho – veio desmitificar a ideia de que não havia fome no Brasil.”

Fatores de ordem política, econômica, social e cultural, como a concentração da terra e da renda, o abandono do campo, a urbanização desenfreada, a centralização do poder, a chamada “política de fachada” – sem esquecer, obviamente, a indiferença com que o fato sempre foi tratado – são aqui apontados como as principais causas do problema da fome ou da deficiência alimentar.

O livro divide o território brasileiro em cinco diferentes áreas alimentares, possuindo cada uma delas características específicas e níveis diversos de nutrição e subnutrição, tudo isso condicionado por particularidades históricas, geográficas, econômicas, sociais e culturais. São elas: 1) Área Amazônica; 2) Nordeste Açucareiro ou Zona da Mata Nordestina; 3) Sertão Nordestino: 4) Centro Oeste e 5) Extremo Sul.

Das cinco regiões que formam o mapa alimentar brasileiro, três são consideradas “áreas de fome”: a Amazônica, a da Zona da Mata e a do Sertão Nordestino. Segundo o estudo, estas são áreas onde pelo menos metade da população apresenta “nítidas manifestações de carência nutricional”.

É ONDE, segundo o autor, revela-se a “chamada fome oculta, na qual, pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, em seus regimes habituais, grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias”. Conforme vem definido, fome oculta é aquela caracterizada pela deficiência de ferro, cálcio, sódio e de vitaminas do complexo B, dentre outros.

É a fome tipicamente de “fabricação humana”, nas palavras do próprio autor.

Josué de Castro morreu nos anos setenta em Paris, onde se encontrava exilado por força da ditadura militar, instalada em abril de 64. Morreu de infarto após tentar sem sucesso voltar ao Brasil e retomar a luta contra o terrível flagelo, que mais e mais se acentuava.

Mas sua obra, em especial “Geografia da fome”, ainda haveria de render muitos e bons frutos, inspirando ações de solidariedade, assim como políticas de governo. Alguns exemplos:

Nos anos oitenta, o então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara deflagra amplo movimento de combate à fome, objetivando erradicar o problema até o ano 2000. No início dos anos noventa, o sociólogo Herbert de Souza cria o movimento da “Ação da Cidadania”, que mobilizou parte expressiva da população e tirou da fome extrema muitos milhões de brasileiros.

O movimento acabou sendo assumido pela agenda oficial, tornando-se política pública. Anos depois, seria implantado o programa federal “Fome zero” que deu origem ao atual “Bolsa família”, o qual tem enormemente contribuído para a melhoria da qualidade de vida de parcelas consideráveis do povo brasileiro, concorrendo assim para a redução da miséria que ainda assola nosso país.

Não obstante os avanços até aqui obtidos, as mazelas apontadas há setenta anos ainda não foram superadas. O problema do latifúndio e da concentração de renda, apontado como principal responsável pela fome, continua a persistir e de modo cada vez mais acentuado. De modo que o livro “Geografia da fome” chega aos nossos dias mais atual do que nunca.

José Gonçalves do Nascimento é poeta e cronista

Decadência continental

Por François Silvestre

A América do Sul continua bela, espremida entre o pacífico e o Atlântico, parindo águas doces, agasalhando a Amazônia, aboletando caatingas, serrados, desertos, cordilheiras e pantanais.

Bichos e plantas de variação incontável, dentre catalogadas e desconhecidas. Vastidão que parece até maior do que o pequenino planeta, que nós habitamos e destruímos.

No hoje, essa exuberância fica por aí. No resto, da condição política, cultural e social, o continente é uma vastidão de decadência.

A única diferença favorável do hoje sobre o ontem é a inexistência de ditaduras militares. Hoje é melhor. Porém, essa vantagem não é mérito sul-americano. É que o continente perdeu força geopolítica no interesse internacional. O eixo dos conflitos mudou de azimute.

Sem saudosismo ou nostalgia histórica pode-se afirmar que a América do Sul é uma caricatura do que foi há tempos, nem tão distantes.

Vejamos alguns exemplos ou comparações, que não apequenam o argumento, porquanto reforçam a assertiva.

No campo das lideranças políticas, a distância do ontem para hoje é abissal. Mesmo sem entrar no mérito dos méritos pessoais, há de se reconhecer uma carência atual de lideranças marcantes.

Getúlio Vargas, Domingo e Evita Perón, Carlos Prestes, Belaúnde Terry, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Eduardo Frei, Salvador Allende, Jorge Eliécer Gaitán, Luis Echeverria e outros.

O Paraguai já foi uma potência militar. Hoje, é o quintal da pirataria.

A Argentina era a fisionomia esnobe da Europa aqui pousada. A melancolia do tango olhava com desprezo para a frivolidade brasileira; “os macaquitos” da vizinhança vasta de terra e escassa de nobreza.

Virou a feição caricata do orgulho enrustido, numa lápide onde repousam insepultos o peronismo e a imitação europeia.

O Uruguai era a nossa Suíça tropical. Orgulhosamente neutra nos conflitos internacionais.  Vive agora de ostentar as marcas do passado, num turismo de esmolar.

E na arte? O campo sublimador da existência humana. Octávio Paz, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Júlio Cortázar, Manuel Puig, Gabriel Garcia Marques, Graciliano Ramos, Jorge Luis Borges, Cândido Portinari, Alfaro Siqueiros, Frida Kahlo, Miguel Astúrias, Pablo Neruda, Érico Veríssimo, Oscar Niemeyer, Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Di Cavalcanti, Câmara Cascudo, Ariano Suassuna, Cardoza y Aragón, Raquel de Queiroz, Eduardo Galeano, Vargas Llosa.

É apenas um rol de feira, a ser preenchido pelo leitor atento. Difícil é fazer a lista de hoje.

Vasta América das bandas do Sul. O que é o Mercosul? Nada! Até a OEA, que já foi alguma coisa, hoje também nadou-se.

A mediocridade virou epidemia continental. O Brasil oferece o quê, ao Continente de hoje? Lula, Aécio Neves e Paulo Coelho.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Graciliano Ramos e o cangaço

Por Honório de Medeiros

Graciliano Ramos e o Cangaço.

Ricardo Ramos ao ouvir seu pai contar acerca de quando Palmeira dos Índios se armara para enfrentar Lampião, ficara fascinado:

“Passara a meninice acalentado pelas estropolias dos cangaceiros, da polícia volante, duas pestes que nos assolavam.”

“E (lhe) contei de uma noite, após a ceia, em que, atraído por foguetes, sai à calçada e vi os caminhões, as cabeças cortadas, espetadas em estacas, de Lampião, Maria Bonita e mais dez outros, os soldados empunhando archotes, gritando vitoriosos, um cortejo macabro pelas ruas de Maceió”.

Graciliano lhe diz:

“- Eu escrevi sobre isso”.

“Não havia lido, era pequeno e estava fora do Rio. Bem depois, ao se reunirem as crônicas de Viventes das Alagoas (título sugerido por Jorge Amado), afinal encontrei “Cabeças”. Ou reencontrei minha antiga visão, bárbara, mas transporta no sarcástico perfil do tenente Bezerra, que se reformou coronel, o falante matador de Lampião, versado em frases feitas, sua retórica elementar de glorificado primário.”

“Havia mais, bem mais. O Fator Econômico no cangaço, crônica da propriedade que se mantém e cresce pela força, com pequenos exércitos de senhores rurais, sedentários, enquanto os cangaceiros se distinguem dos outros facínoras apenas por serem nômades, no regime de produção agrícola da caatinga.”

Corisco, uma crônica do diabo louro, seu conterrâneo de Viçosa, filho de decadente família de donos de engenho, forçado a decair, enlouquecido, o pequeno monstro baleado e decapitado, morto quase inédito porque havia a guerra na Europa, tantos crimes. Dois Cangaços, a crônica dos matutos indefesos diante de dois poderes, a volante e o cangaceiro, a primeira muitas vezes obrigando-os à segunda opção, ou o seu reverso, em todo o caso forçando-os a escolher, pela imposição sócia, ou pior ainda, pela econômica.”

“E Lampião e Virgulino, que buscam o perfil. Necessariamente fincado no agreste.”

“Graciliano nunca idealizou Lampião. Desde 1926, ao escrever do assédio a Palmeira dos Índios, sem mencionar a sua participação pessoal. Chama-o ‘bicho montado’, ‘horrível’, ‘sanguinário’, diz dele o animal ‘cruel’, que ‘queima fazendas’, capaz ‘de violar mulheres na presença de maridos amarrados’, e ‘se conservara ruim, porque precisa conservar vivo o sentimento de terror que inspira’, enfim ‘vemos perfeitamente que o salteador cafuzo é um herói de arribação bastante chinfrim’”.

“Por outro lado, não desconhecem a sua projeção lendária. ‘Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do Nordeste’. E se refere à nossa tradição bandoleira, do remoto Jesuíno Brilhante ao envelhecido Antônio Silvino, para concluir: ‘Resta-nos Lampião, que viverá longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando, noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da miséria. Ingenuidade.’”

Obra citada: “Graciliano RETRATO FRAGMENTADO”; RAMOS, Ricardo; Globo; 2ª edição; 2011; São Paulo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Estado do RN.