Arquivo da tag: jogatina

Apostas afetam consumo e mão de obra em bares e restaurantes

Arte ilustrativa do Midjourney
Arte ilustrativa do Midjourney

O avanço das apostas esportivas no Brasil tem gerado efeitos preocupantes em várias áreas, inclusive para o setor de alimentação fora do lar. Um deles é a diminuição no consumo presencial em bares e restaurantes: segundo levantamento da ABMES, o número de apostadores que já deixaram de consumir nesses estabelecimentos em algum momento passou de 24,8% para 28,5% entre 2024 e 2025.

Desde que a regulamentação das casas de apostas começou, em janeiro desse ano, o número de acessos diários aumentou 23% e passaram a ocupar a 2ª posição em acessos na internet em maio, atrás apenas do Google, segundo dados da SimilarWeb. Isso revela não só o alcance das apostas, mas também sua presença constante na rotina digital dos brasileiros.

Outro reflexo das apostas nos empreendimentos diz respeito a força de trabalho. Empreendedores relatam queda no rendimento de funcionários impactados emocional e financeiramente por perdas em apostas. Esse fenômeno ganha contornos ainda mais graves quando se observa que a faixa etária e de renda dos apostadores coincide com os dados da mão de obra do setor, formado majoritariamente por jovens de 21 a 35 anos, com renda média de R$ 2.227,00, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (PNAD) de maio.

O estudo da ABMES aponta ainda que 37% dos apostadores estão na classe C e 12% na classe DE, ou seja, quase metade dos jogadores vêm de grupos com menor renda. Apesar da imagem de investimento promovida por influenciadores e publicidade agressiva, os jogos de aposta online são, na prática, operações em que o ganho está concentrado nas plataformas.

O comportamento compulsivo associado às apostas online pode gerar uma sensação ilusória de controle e sucesso, agravando quadros de vulnerabilidade emocional e dificultando a manutenção de rotinas profissionais estáveis.

Acesse nosso Instagram AQUI.

Acesse nosso Threads AQUI.

Acesse nosso X (antigo Twitter) AQUI.

Depoimento – XI

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

B.O: N° 20-1402/2022

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 31 DE MAIO DE 2022

COMUNICANTE: MANOEL CARLOS BARRETO

O senhor Manoel Carlos Barreto, mais conhecido como seu Carlos, setenta e dois anos, casado, técnico em construção de estradas, aposentado, residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, fatos ocorridos nesta cidade dos quais é testemunha. O depoente disse que estava no dia 18 de maio, às dezenove horas, na Padaria do Oscar, como é de costume há mais de dez anos, para tomar café com seus amigos, e foi nessa ocasião que se deu o fato ocorrido. Estava na companhia de José Francisco Santos e Silva, mais conhecido como Birita, e Roberto Maria da Conceição Almeida, mais conhecido como Fidalgo, além de outros populares que frequentam o lugar regularmente. De duas a três vezes por semana, os três se encontram na padaria para tomar café, comer tapioca com queijo e jogar conversa fora. Disse que um desses encontros tem que ser na quarta-feira, quando tem sorteio da Mega sena, para que Fidalgo possa conferir seu bilhete. Indagado quanto a essa peculiaridade, o depoente disse que os três se conhecem da igreja, há muitos anos, e lá descobriu que todos eram viciados, cada um do seu jeito. Que velho é assim mesmo, cheio de mania. Tanto ele quanto seus amigos são assim, não tem jeito. Advertido que não era de bom tom falar dessa forma sobre apessoas idosas, disse que não queria ofender ninguém e se referia só a ele e seus amigos. Para esclarecer o que queria dizer, declarou que Birita é viciado em placas de trânsito e tem essa mania desde que trabalhou no DNIT. Teve uma época que ele tinha mais de cinco mil placas guardadas em casa, e só se desfez delas porque a mulher ameaçou largá-lo. Apesar de melhor, tem dia que fica sofrendo, com saudades das placas. Que seu problema é com cachaça e esse vício trouxe muitos aborrecimentos e o deixou com um problema no fígado e um par de chifres. Não fosse o AA, nem sabe onde estaria hoje. Fidalgo tem problemas com jogo, qualquer tipo de jogo. O que ganhou com jogo, e nunca foi muito, jogou de volta e perdeu. Explicou que não se deve fazer isso, jogar de volta o dinheiro ganho com jogo, pois dinheiro do jogo quer ficar no jogo. Solicitado a não fugir dos fatos, o depoente retomou a narrativa e disse que os três são velhos cheios de manias, e Fidalgo tava com o bilhete da Mega sena, conferindo o sorteio. Já tinha acertado três números e esperava o quarto. Que deu sorte e fez logo promessa a Nossa Senhora. Disse que Fidalgo é assim, se empolga rápido, e quem o conhece, não liga, mas tem gente que não sabe o que ele já passou. Ao sair o número sete, Fidalgo gritou de alegria, dizendo que a quina estava garantida. O pessoal da mesa já o conhece e entrou na brincadeira, foi a maior gritaria, era a primeira vez que ele acertava cinco números daquele bilhete. O depoente disse que a ansiedade do amigo era grande, só faltava o número treze, e todo mundo ficou torcendo para que saísse e número da sorte, e, de fato, saiu. Fidalgo estava com sorte. Que ele nem pensou direito e gritou “bingo!”. O depoente registra que achou engraçado, porque percebeu que Fidalgo estava tão fora de si que chegou a pensar que estava no bingo, mas nem deu tempo de brincar. Assim que Fidalgo gritou “bingo”, levou um sopapo e deu com a cara no chão. Alguém se atirou em cima dele e roubou o bilhete. Na teima, o ladrão deu uma pernada no velho que o deixou estatelado no chão. Indagado se a queixa é só pelo roubo ou agressão seguida de roubo, o depoente disse que não havia por parte de nenhum deles, até o momento em que foram conduzidos à delegacia, a intenção de prestar queixa. Disse que, como havia falado antes, Fidalgo teve problemas com jogo, mas largou. Largou o jogo e ficou com a mania. O bilhete que ele carregava no bolso tinha mais de dez anos, era só para ele sentir a emoção e se lembrar do tempo em que era viciado e não cair mais na tentação. Completou que não precisava dar queixa porque o bilhete não vale nada e o ladrão vai descobrir o erro, talvez depois de passar a semana pensando que está rico e fazendo planos. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

Leia tambémDepoimento (02/02/2025)

Leia tambémDepoimento II (09/02/2025)

Leia tambémDepoimento III (16/02/2025)

Leia tambémDepoimento IV (23/02/2025)

Leia tambémDepoimento V (02/03/2025)

Leia tambémDepoimento VI (09/03/2025)

Leia tambémDepoimento VII (16/03/2025)

Leia tambémDepoimento VIII (23/03/2025)

Leia tambémDepoimento IX (30/03/2025)

Leia também: Depoimento X (06/04/2025)

“Bets” devastam vidas de milhões de famílias, mas há esperança

Arte ilustrativa do Canal Meio
Arte ilustrativa do Canal Meio

Por Caio Barreto Briso (Do Canal Meio)

É sábado de sol no Rio de Janeiro e, às 10h, o Centro está às moscas. Na Rua Acre, onde casarões da cidade velha se espremem entre prédios comerciais com pichações na fachada, as lojas estão fechadas e os antigos sobrados, vazios. Mas no quarto andar do edifício Jequitibá, número 47, há uma sala tão cheia de gente que faltam cadeiras para todos. Muitos permanecem em pé durante as três horas de reunião dos Jogadores Anônimos (JA). Em silêncio, 64 pessoas ouvem Raíssa. A história dela e de outros membros do grupo (em itálico e com nomes fictícios em respeito ao anonimato) revelam o lado mais obscuro do mundo das apostas online.

“Estou há 12 dias sem jogar. É difícil. Ingressei há um mês, mas tive uma recaída. Pensei em desistir, achei que não teria forças para voltar. Tenho 30 anos de idade, trabalho desde os 15 e as bets levaram tudo o que construí. Perdi mais de R$ 400 mil em dois anos. Tenho uma filha de nove, ao contrário de muitos aqui ainda tenho família, mas perdi a confiança da minha mãe e dos meus amigos. Nesses 12 dias sem jogar, não menti para ninguém, consegui olhar as pessoas nos olhos. Posso não ter um real no bolso, mas sinto uma paz tremenda. Quando acordo, só peço a Deus que me ajude a ficar mais 24 horas sem apostar.” 

Não há quem não os veja. Nas redes sociais de atletas como Neymar e Gabriel Medina, nos perfis de influenciadores sobre quem você nunca ouviu falar, mas que têm milhões de seguidores. Em sites esportivos, em canais do YouTube, nos uniformes de 15 dos 20 times da elite do futebol brasileiro. Os anúncios de apostas esportivas e também de caça-níqueis online, apelidados de “tigrinho” ou “aviãozinho”, estão por todos os lados. Estima-se que existam mais de dois mil slots no Brasil, como esses jogos de azar são conhecidos. As bets são assunto nos bares, no trabalho, nos encontros de família, em grupos virtuais. É uma epidemia. Ou, como chamou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, uma “pandemia”.

“Cheguei há 120 dias, acabado moralmente, com um emprego bom, mas sem conseguir trabalhar e me concentrar por causa das bets. Elas tomaram conta da minha vida de tal forma que eu acordava de madrugada para ver campeonatos russos, campeonatos chineses, com a ilusão de que ganharia alguma coisa. Até ganhei, mas perdi tudo em seguida e, quando vi, tinha perdido meu carro e, o pior, estava perdendo minha família. Procurei tratamento quando minha mulher arrumou uma mala para mim e me mandou embora. Eu não me achava doente, mas quando cheguei no JA, entendi que tenho um problema. A doença é tão forte que, apesar de todo o sofrimento, ainda sinto vontade de jogar. Essa semana pensei em apostar, mas respirei fundo e vim para a reunião. Estamos vivendo um problema de saúde pública, mas aqui no grupo estamos conseguindo. Só por hoje.” 

Em um país onde as pessoas passam em média 9 horas e 32 minutos por dia grudadas em telas, de acordo com um ranking mundial da empresa britânica Proxyrack no qual o Brasil ficou em segundo lugar, seis minutos atrás da África do Sul, as bets descobriram seu Eldorado. Mas as entrevistas indicam que não é apenas o vício em celular que torna os brasileiros tão vulneráveis ao jogo compulsivo: tem a ver com a promessa de dinheiro fácil e esperança de uma renda extra. Depois de jogar, porém, passa a ser visto como a única saída para pagar dívidas criadas pelo próprio vício. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que dos 52 milhões de brasileiros que já fizeram apostas de algum tipo, 83% começaram há menos de dois anos e 40% têm de 18 a 29 anos de idade. A frequência impressiona: 45% jogam ao menos uma vez por semana, sendo que 8% apostam todos os dias.

“Estou há dez dias sem jogar. Cheguei aqui aos pedaços no sábado passado. Minha esposa está grávida de cinco meses da nossa primeira filha depois de muitas tentativas. Ser pai era o meu sonho. Quando engravidamos, pensei: vou dar tudo para a minha filha. E comecei a subir a mão. Em uma noite, perdi R$ 8 mil em duas horas. Eu dizia para minha esposa que precisava de dinheiro para consertar o motor do carro, ela chegou a sacar R$ 10 mil do banco para o conserto, mas o carro não tinha problema nenhum. Eu saía de casa para jogar na rua, dentro do automóvel. Sou bombeiro civil e passava o dia todo apostando. Em janeiro, estávamos de férias na Praia dos Carneiros, em Pernambuco, e não consegui aproveitar porque, ao jogar escondido, perdi uma aposta. Minha esposa se sentia culpada, achava que tinha feito algo de errado. Ela me dizia sorrindo que a bebê estava chutando a barriga e nem isso me deixava feliz. Muitas noites sem dormir, devendo, agiotas me cobrando. Foram mais de R$ 500 mil em apostas. A única coisa que consegui pagar com o pouco que ganhei foi a pintura do quarto da minha filha: dei R$ 1 mil para o pintor. Mas o prejuízo emocional é o maior de todos. Minha esposa me expulsou de casa. Tudo que eu quero é minha família de volta.”

A propaganda funciona. Hugo, o pai da história acima, começou depois de ser alcançado pelo algoritmo das redes sociais e canais do YouTube. Patrícia, também frequentadora do JA e que parou há um mês, começou a apostar ao ver posts e stories no Instagram de uma influenciadora que ela seguia. Assim que começou a jogar, Patrícia transformou R$ 4 em R$ 2 mil. “Parecia que eu tinha ganhado na Mega Sena. Contei para o meu marido, que estava estudando no computador. Ele me disse para parar, que aquilo não daria certo. Eu disse que não jogaria mais. Naquela mesma noite, varei a madrugada”, conta. Mãe de dois filhos, ela conta que nunca foi adicta a nada, nunca teve vícios, sempre foi “certinha”. Professora infantil de crianças de 1 a 5 anos, em pouco tempo passou a ficar ansiosa pela hora do “soninho” na escola, pois jogava sempre que a turma dormia. Hoje, passa boa parte do dia com o celular desligado. É preciso. Para um jogador compulsivo, o celular no bolso equivale a um papelote de cocaína na mão de um viciado em pó.

Ilustração da Editoria de Arte da Época Negócios
Ilustração da Editoria de Arte da Época Negócios

“Sou Ana Paula e estou há dois anos sem jogar. A gota d’água foi o aniversário de 20 anos da minha filha. Eu estava presente, mas era como se não estivesse. No dia seguinte, peguei o cartão dela emprestado dizendo que compraria um remédio, mas era mentira. Passei muito mal nesse dia, pois junto com a sanidade perdi também minha saúde, fiquei hipertensa e diabética. Estava andando na rua e tentei suicídio me atirando embaixo de um carro, mas o motorista desviou. Fui parar em um hospital, minha filha chegou me chamando de ladra, dizendo que nunca mais queria saber de mim. Já tinha perdido meu marido, pois arrasei com a vida financeira dele, e estava perdendo meu tesouro. Três dias depois, minha filha voltou para casa dizendo que viu na internet o JA. Liguei para a Linha de Ajuda e me deram o endereço. Fui na reunião com ela, ouvi pela primeira vez que eu era doente, que essa é uma doença incurável e que leva à morte. Fiquei confusa, mas continuei voltando. Eu devia dinheiro a nove agiotas. Ainda devo a três. Trabalho como auxiliar administrativa de uma gráfica, não sei quando vou conseguir pagar tudo, mas o importante é continuar em recuperação. Falar sobre isso me faz bem: faz eu lembrar que não posso ir na primeira aposta.”

Os Jogadores Anônimos surgiram na Califórnia em 1957 tendo como modelo a recuperação de 12 Passos dos Alcoólicos Anônimos, irmandade fundada por Bill W. e Bob S. em 1935 e que revolucionou o tratamento não apenas da dependência do álcool, mas de todas as formas de compulsão e obsessão. As irmandades de autoajuda são independentes, não se envolvem em questões alheias à recuperação, não aceitam apoio ou ajuda financeira externa e são mantidas pelos próprios membros com contribuições voluntárias. Ninguém precisa dizer nem mesmo o nome completo. Para fazer parte do JA, basta o desejo de parar de jogar e encontrar uma nova maneira de viver. No Brasil, tudo começou na Rua Acre em 1993. No início, a reunião era frequentada por “jogadores analógicos”, como define Ubirajara, membro mais antigo que iniciou sua recuperação do vício em jogo do bicho nos Neuróticos Anônimos. Hoje, ele garante que 90% dos novos companheiros são os “jogadores digitais” das bets.

“Meu nome é Ademir, estou há 38 dias sem apostar. Estou mais tranquilo, estou bem com a minha família. Voltei a dormir. Estou melhorando. Só isso, obrigado.”

Leia tambémAtendidos pelo Bolsa Família jogam R$ 3 bilhões em ‘bets’ via Pix

O número de ingressantes não para de aumentar – são mais de 50 por mês nos 11 grupos presenciais do Rio e também no grupo virtual. Em todo o Brasil, o JA tem hoje 39 grupos espalhados por 25 cidades das cinco regiões, mais o Distrito Federal. “São muitos grupos, muitas reuniões. Só neste ano, chegamos a mais nove cidades do país”, afirma Ubirajara. Na manhã daquele sábado, 21 de setembro, havia um companheiro completando 28 anos sem jogar. Mas havia também dois homens assistindo a uma reunião pela primeira vez. “Vocês são as pessoas mais importantes aqui hoje. Estávamos esperando vocês”, eles ouviram. Escutaram também 20 perguntas, do servidor voluntário responsável por aquele dia, como “você já sentiu remorso após jogar” e “já pediu dinheiro emprestado para financiar seu jogo?”. A literatura da irmandade diz que jogadores compulsivos respondem “sim” a pelo menos sete perguntas – um deles respondeu a 13, o outro a 14. Os dois ingressaram, foram aplaudidos, receberam abraços. Mesmo para os mais antigos, não há emoção maior. A porta está aberta e as cadeiras arrumadas para esse momento.

“Não sei direito o que é bet, só sei pelos anúncios, sou das antigas. Sei que tem esse tigrinho, mas os bichos que conheço são do jogo do bicho. Virei as costas pra isso há muito tempo. Eu me aposentei, adquiri minha casa própria, criei meus filhos em recuperação. Jogador compulsivo que não para de jogar não consegue isso, ele se mata – se não embaixo de um carro, ele se mata para a vida. Há jogadores compulsivos que viraram mendigos, que não tiveram a oportunidade de conhecer essa sala. Eu poderia ser um deles, mas estou aqui.”

Muitos companheiros do JA conhecem histórias de pessoas que se mataram ou foram mortas por dívidas não pagas. Um caso recente é o do mecânico Marcos Roberto Machado, de 52 anos. Seu corpo foi encontrado em julho após dois meses de desaparecimento. Estava em seu carro capotado fora de uma rodovia perto de Nova Mutum, no Mato Grosso. Sua filha contou às autoridades que o pai tinha dívidas com um agiota no valor de R$ 200 mil, perdidos para o “jogo do tigrinho”. Segundo a polícia, o caso segue em investigação. Há também relatos de pessoas que tiveram que fugir para sobreviver. Embora trabalhe no setor de compliance, um funcionário de uma das maiores bets do país ouvido pelo Meio diz que uma de suas atribuições é levantar o histórico de clientes que processam a casa de apostas após terem perdas. Ele conta que uma mulher de Vitória, no Espírito Santo, precisou se esconder de um agiota na periferia de São Paulo por uma dívida impagável. Ele não se arrisca no jogo e torce para que as plataformas sejam regulamentadas. “Só isso poderia impor às plataformas um limite de apostas por cada pessoa”, analisa.

“Sou Miguel, tenho 34 anos, estou vindo pela primeira vez. Cheguei a um ponto em que, em três anos, perdi R$ 200 mil. Perdi amigos e me afastei da minha família. Mudei meu comportamento, passei a ficar distante de todos. Meu filho é o maior presente da minha vida, ele é diabético e depende muito de mim, toma insulina em todas as refeições. Minha mulher continua do meu lado, foi ela quem achou o JA na internet e conversou comigo ontem. Decidi vir hoje para ter a minha vida de volta. Por mim, por ela, pelo meu filho.”

Via Pix

Nesta semana, foram divulgados os primeiros dados oficiais do Banco Central sobre o mundo das bets no Brasil. Segundo o BC – que entregou os números após solicitação do senador Omar Aziz (PSD), do Amazonas –, os brasileiros apostaram este ano entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês. Mas esse valor está subestimado, pois considera apenas as transações via Pix, ignorando aquelas que são feitas por TED ou cartão de crédito. Em junho, um relatório da XP Investimentos informou que as apostas brasileiras movimentam 1% do PIB do país e comprometem até 20% do orçamento livre dos mais pobres.

É um mercado em ascensão não apenas aqui. Segundo o departamento de pesquisa da Statista, plataforma de dados baseada na Alemanha, a indústria global de bets movimentou US$ 85,62 bilhões em 2023 (aproximadamente R$ 462 bilhões). E a previsão é que esse valor aumente para US$ 133,59 bilhões em 2029 (R$ 726 bilhões). A diferença é que nos Estados Unidos, por exemplo, as apostas online correspondem a 0,4% do PIB, e as empresas faturam 7% dos valores jogados; aqui, segundo o BC, as casas ficam com 15%.

Leia tambémLula quer proibir uso de Bolsa Família em apostas on-line

“A gente pensa: futebol é mole, eu entendo disso. Daqui a pouco começa a perder. Aí acha que tem habilidade para ganhar do jogo que foi criado para você perder. Poucos pedem ajuda, acabam no fundo do poço. Isso não é brincadeira. Lá fora as pessoas não falam das suas derrotas, mesmo que estejam arrebentadas por dentro. Aqui temos um programa de honestidade. Aprontei coisas que até Deus duvida. Hoje tenho uma vida útil, íntegra e feliz. É uma vida simples: trabalho, pago as contas, respeito as pessoas. Temos professores, advogados, engenheiros, pessoas que estudaram e que não estudaram. Aqui dentro somos todos iguais.”

Em entrevista ao Meio, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, disse que “esses relatos são casos dramáticos” e que, “embora o vício em jogo não seja uma coisa nova, a velocidade e o aumento da compulsão com a entrada das bets é algo assustador” e se multiplica sem regulação. Na semana que passou, enquanto o presidente Lula estava na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, houve uma reunião coordenada pelo presidente em exercício, o vice-presidente Geraldo Alckmin, com participação das equipes da Fazenda, da Justiça e da Saúde. “Haverá um grupo de trabalho que também terá o Ministério dos Esportes. Mas o que posso dizer desde já é que, sim, as bets são uma epidemia de saúde pública no Brasil, com muita exposição das crianças e jovens, o que requer ainda maior atenção”, disse a ministra. “A comparação que eu faço é com o tabaco. Os avanços no Brasil foram muito grandes a partir do momento em que a regulação da publicidade e a coibição do fumo foram feitas. Temos que caminhar para algo que se aproxime dessa visão.”

“Eu não conseguia ficar um dia sem jogar. No começo, apostava só em futebol, mas logo não tinha mais paciência para esperar o fim de semana inteiro para saber os resultados, então fui aos esportes mais dinâmicos e, depois, entrei na loucura do tigrinho e do aviãozinho. Essa foi a minha desgraça. Tentei controlar, tentei parar, jurei que não jogaria mais e nada adiantou. Trabalho de madrugada no setor de logística dos Correios e tive muitos problemas no emprego por faltas. Ficava em casa em depressão ou passava a madrugada jogando. Não conseguia mais sair de casa. Fui despejado três vezes com minha família por não pagar aluguel. No começo do ano, sofri meu último despejo e fui morar com parentes, em um quartinho improvisado. Até que decidi me afastar do trabalho e me internar em uma clínica psiquiátrica por um mês. Estou há cinco meses sem jogar.”

Vício nos jogos está desviando finalidade do Bolsa Família (Foto: Joédsom Alves)
Vício nos jogos está desviando finalidade do Bolsa Família (Foto: Joédsom Alves)

A professora Vanessa Lucia Arienti, de 42 anos, trocou escolas da elite paulistana para lecionar em Francisco Beltrão, no Paraná. Bets e “jogo do tigrinho” eram novidade para ela quando assumiu 15 turmas de 50 adolescentes da rede pública paranaese. Ao ouvir de colegas que havia alunos viciados em apostas – estudantes dizendo que não precisavam mais estudar, pois estavam ganhando dinheiro jogando –, a professora de sociologia e filosofia quis entender o fenômeno. Até se cadastrou em uma plataforma e jogou quantias módicas, além de conversar com as turmas. A cada intervalo ou momento de distração na aula, via os alunos se juntando para apostar. A falta de concentração era quase absoluta.

“Percebi que, em turmas de 50, quatro ou cinco alunos estão comprometidos com apostas. E a impressão que eu tenho é que as crianças em vulnerabilidade social são muito mais atingidas. Isso me desencantou. Sonhava dar a mesma aula para o filho do operário e para o filho do banqueiro, mas o filho do operário, de um modo geral, quer ganhar dinheiro rápido no tigrinho, e os vulneráveis ficam cada vez mais vulneráveis”, reflete Vanessa. “Amo o que faço, tinha esperança de transformar a sociedade pela educação, mas decidi pedir exoneração três meses após passar no concurso público, e 70% disso tem a ver com essa realidade que observei.”

“Como contei, fui para uma clínica psiquiátrica após ser despejado pela terceira vez. Eu estava no fundo do poço, cogitando suicídio, pensava que a vida da minha família seria melhor se eu simplesmente não existisse. Deixei meu filho passar necessidade para jogar e, mesmo assim, ele me via como um herói. Minha geladeira não funcionava, com exceção do freezer, e eu não consertava: todo o dinheiro ia para as apostas. Foi na clínica que eu soube do JA. Nesses cinco meses de recuperação, já paguei R$ 7 mil dos R$ 60 mil de dívidas. Minha alegria hoje são coisas simples: tomar um picolé com minha família, comprar uma pipoca para o meu filho. Finalmente consegui comprar uma geladeira nova. A primeira coisa que meu filho falou foi ‘pai, agora a gente pode fazer gelatina’. Eu chorei. Tem uma vida esperando a gente, mas é um dia de cada vez. Só por hoje.”

Acompanhe o novo Instagram do Blog Carlos Santos clicando @blogcarlossantos1

Acompanhe o Blog Carlos Santos no Threads clicando @blogcarlossantos1

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 15

arma e baralho, jogatinia, submundo, jogos de azarEmboscada na jogatina

Por Marcos Ferreira

Ficaram de campana por mais de duas horas, entre a meia-noite e as três da madrugada. Daí a pouco, enfim, meio trôpego, o indivíduo deixou o galpão da jogatina. Dentro do carro, um sedã preto com vidros fumê, Jaime portava seu tresoitão com capacidade para efetuar oito disparos. Por sua vez, no banco do motorista, o traficante João Claudione retinha na cintura uma pistola calibre 45. O alvo dos dois àquela noite de persistente garoa não era outro senão o capanga do Rato Branco, o pau-mandado e lambe-botas conhecido nos meios policiais por Paulo César dos Anjos. Este fora o valentão que enfiara o cano da pistola na boca de Jaime.

— É ele! Se prepare! — proferiu Claudione.

— Deixe ele vir mais. Eu já estou pronto.

Sendo um dos últimos a deixar o estabelecimento clandestino de jogos de azar, razoavelmente embriagado e com algum dinheiro das apostas na carteira, Paulo foi rápida e facilmente dominado por Jaime Peçanha e por João Claudione, que lhe puseram as armas nas fuças. É um fato importante a ser relatado que Paulo César tinha apenas dezessete anos quando, num ímpeto, esfaqueou o próprio pai para defender a mãe habitualmente agredida pelo marido alcoolizado e drogado. Paulo ficou conhecido nos fichários da polícia como Paulo César dos Anjos. Jaime e João Claudione colocaram a vítima no porta-malas, taparam a boca dele com uma fita adesiva e se evadiram do local sem a testemunha sequer de um vira-lata. Naquele momento o que era uma simples garoa se transformou em chuva.

— Não me matem, pelo amor de Deus! Eu tenho família. Sou pai de duas meninas ainda pequeninas! — naquela hora, todavia, o Altíssimo preferiu não se intrometer naquele acerto de contas e, assim como Pilatos, também lavou as mãos. Então, apesar das rogativas e das promessas de que nunca mais se envolveria com Rato Branco, Paulo César dos Anjos findou alvejado com mais de quinze tiros à queima-roupa.

A execução aconteceu à beira de uma estrada carroçável, a cerca de quinze quilômetros da área urbana de Mondrongo. Durante aquela madrugada, sob forte chuva, o porta-malas estava forrado com um plástico grosso, de cor preta, para a finalidade de evitar que o carro ficasse sujo de sangue. O último tiro foi deflagrado por Jaime Peçanha contra a testa de Paulo César. Em seguida, embora ensanguentado, puseram o defunto no porta-malas e o levaram até o rio Mondrongo. Em lá chegando, o lançaram numa das laterais da barragem, fazendo com que o corpo boiasse nas águas. O falecido não afundou por estar preso com cordas no saco plástico. O propósito dos executores era dar logo notícias a Rato Branco sobre o triste fim do seu testa de ferro, e as imediações da Ponte Jerônimo Rosado, de intenso tráfego, eram mais que apropriadas para desovar o cadáver do ex-valentão.

Vale ressaltar que, apesar de certa choradeira, João Claudione fatura alto com os seus negócios de venda e compra de armas e drogas. Conta com amigos influentes na Polícia Civil, Rodoviária e até no Judiciário. Não se tornou o humorista de sucesso que almejava, entretanto não lhe falta o vil metal. Ele possui pelo menos dez propriedades em nomes de laranjas, todas mascaradas como pequenos negócios agrícolas.

A participação de João Claudione na execução do inimigo de Jaime ficou por um preço irrisório, apenas um trocado para o contraventor frequentar o bordel Suzano: mil reais. Isto, claro, levando-se em conta a longa amizade dos dois ex-colegas de primário. Por exemplo, Jaime Peçanha é padrinho do filho mais velho de Claudione, morto pela Polícia Militar durante um suposto tiroteio numa boca de fumo. Quanto à execução do cupincha de Mauro Mosca, seja dito que a maior parte dos tiros foi feita por Jaime, que parecia estar tomado de grande fúria e descarregou as oito cápsulas e mais algumas. João Claudione tem a mesma idade que Jaime e seu principal hobby é matar policiais militares traiçoeiramente.

— A partir de agora não vou lhe cobrar mais nada. Seus inimigos se tornaram meus inimigos. Vamos acabar com todos eles, um por um.

— Eu agradeço demais por contar com a sua ajuda.

— Pois é. Rato Branco está com os dias contados.

Ao longo de mais de seis anos, sempre de maneira impune, é possível que Claudione já tenha matado, a sangue frio, algo em torno de oito militares. Até mesmo um tenente à paisana. O homem é um estrategista, típico exemplo de perito. Serviu no Exército com louvor, juntamente com Jaime, e possui grande expertise em armamentos de diversas modalidades, calibres e munições. Notável atirador de elite, é capaz de atingir facilmente um alvo a meio quilômetro de distância. Em seu arsenal, oculto em um municiado bunker debaixo da garagem de uma de suas fazendolas, ele dispõe de armas de grosso calibre de uso do Exército, como refles, bazucas, metralhadoras, fuzis com miras telescópicas de longo alcance, coletes à prova de balas e até granadas de mão.

— De hoje em diante, Jaime, você vai andar com colete à prova de balas. Arrume uma jaqueta jeans bem folgada e use o colete por baixo. Esse pessoal vai lhe caçar a pau e pedra, e eu não posso lhe proteger em tempo integral. O seu revolver, dependendo da investida deles, não vai lhe ser de muita serventia, a depender, repito, do fogo contrário. Portanto, meu chapa, eu lhe digo que se cuide. Como reza o ditado, “seguro morreu de velho”.

— Eu estou pronto para o que der e vier, Claudione.

— Não está não, Jaime. Às vezes a gente pensa que está, mas não está pronto para porra nenhuma. Ninguém, ao menos que eu saiba, se acha pronto para morrer. Exceto, talvez, de causas naturais. O melhor a fazer é você tomar todas as precauções que puder.

— Claro! Eu vou me cuidar o máximo possível.

— Suponho, Jaime, que a esta hora Rato Branco, o Mauro Mosca, esteja botando fogo pelas ventas. Mas ele sequer vai prestar queixa contra você na polícia, pois tenho plena certeza de que o plano dele é fazer com que você pague na mesma moeda.

— Certamente. Vou aceitar a sugestão do colete.

— Tenho coletes de primeira qualidade, artigos usados até pelas Forças Especiais. É claro, como nós sabemos, que esses produtos não protegem ninguém cem por cento, mas dá tempo de o sujeito esboçar uma reação, lhe dá um tempinho para reagir e, quem sabe, sacar a sua arma. O problema é somente se o disparo atingir a sua cabeça. Aí, compadre, não tem choro nem vela. É tiro e queda, caixão e vela preta. Apesar de você possuir um bom revólver, acho que eu deveria ter facilitado para você adquirir uma parabélum, pistola automática de grande calibre e fabricada na Alemanha. Tenho três joias dessas no meu arsenal. São belíssimas e possuem grande impacto.

— Essa tal parabélum é muito grande, Claudione?

— Um pouco. Mas de grosso calibre e automática.

— Nossa! Isso deve custar uma grana alta, hein?

— Olha, só para você eu fecharia pelos oito mil.

— Sei. Mas está fora das minhas possibilidades.

— Seu trinta e oito também é bom. Não vai falhar.

— Pois é, eu vou ficar com ele. Gostei demais.

— Se ligue, então. Rato Branco vai para cima de você.

— Não ele propriamente, mas os seus capangas.

— Vou pegar o seu colete. É artigo dos melhores.

— Obrigado, Claudione! Nem sei como lhe agradecer.

— Besteira! É um presente meu para você. Fique tranquilo. Cuide logo de providenciar uma jaqueta. Também lhe previno que vai esquentar um pouco. Falo do contato do colete juntamente com o da jaqueta.

— Tudo bem. Estou acostumado com esse calor de Mondrongo. Depois de tudo que fizemos hoje, meu amigo, e debaixo dessa chuva abençoada, acho que eu vou dormir muito bem e com uma grande paz de espírito.

— Então, amigo, boa noite. Durma com os anjos.

— Você também. Que Deus sempre lhe proteja.

ACOMPANHE

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 9;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 10;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 11;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 12;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 13;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 14.

Marcos Ferreira é escritor

Histórias de jogatina, amizades e “uma boa morte”

Por Paulo Menezes

Há um tempo já bem distante, eu fazia parte de uma turma alegre e divertida com a qual me reunia sempre em finais de semana, na residência de Tereza Leite, para jogarmos um carteado que varava a noite. Na verdade, quase sempre entrava pela madrugada.

Tereza, a anfitriã, sempre dizia que teria “uma boa morte” se ela acontecesse numa mesa de pif-paf. Que seja feita sua vontade. Amém! Foi num final de tarde desses que seu desejo foi atendido plenamente, como se obedecesse a um enredo teatral.cartas, carteado

O jogo se desenvolvia normalmente, quando Tereza com as nove cartas na mão, se inclinou levemente sobre o pano verde e sem nenhum grito de dor deu o último suspiro, após o infarto fulminante.

Como em algumas tragédias, às vezes ocorre o lado cômico.

Auri Leite, que fazia parte da jogatina e era perdedora contumaz, logo perguntou aos participantes:

– E agora? Quem vai prestar contas? Quem vai me pagar as fichas?

– Mas amiga, num momento desse você vai pensar nisso? – questionou um dos presentes.

Sem pestanejar, Auri retrucou:

– Eu sou muito mole mesmo! No dia que eu estou ganhando uns trocados aí acontece isso.

Nessa ocasião, eu não estava presente e quando tomei conhecimento da perda de uma amiga tão querida, logo me dirigi ao velório. Ao chegar,  a primeira pessoa que encontrei foi Lenilton Moreira  Maia, companheiro sempre presente no jogo das pintadas e perguntei sobre o fatídico acontecimento:

– Como foi isso, Lenilton?

Encobrindo a boca com a mão em concha, ele encostou a cabeça em meu ombro com ar pesaroso e desfiou a narrativa para o campo da jogatina, o que verdadeiramente não era o foco de meu interesse:

Tava armada num par de nove com um dez encostado, toda enramada…

Bem, não me contive o suficiente. Com enorme esforço administrei um riso travado titanicamente por lábios dobrados e presos entre os dentes.

Enfim, a mesma tragédia gerava outro quadro cômico.

Nossa amiga Tereza Leite há de entender e deve estar também dando boas gargalhadas.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista