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Concurso Literário da Editora da Ufersa premiará novos autores

Arte ilustrativa
Arte ilustrativa

A Editora Universitária da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (EdUFERSA) lançou o edital da segunda edição do Concurso Literário, voltado exclusivamente para autores potiguares — nascidos ou residentes no Rio Grande do Norte, ou que aqui estudem ou trabalhem. A proposta da iniciativa é estimular a bibliodiversidade e promover novas vozes da literatura norte-rio-grandense.

As inscrições são gratuitas e estarão abertas até o dia 8 de setembro de 2025, por e-mail, conforme as normas descritas no edital completo.

Nesta segunda edição, os participantes poderão inscrever textos nas categorias conto, crônica ou poema, desde que sejam obras inéditas, escritas em português e sem qualquer identificação de autoria no arquivo enviado. O regulamento define os critérios de formatação, limites de extensão por categoria e condições para envio. Cada autor ou autora poderá participar com apenas uma proposta, em uma única categoria.

Os textos inscritos serão analisados por duas comissões: a organizadora (que verifica se o material segue as regras do edital) e a julgadora (que avalia qualidade estética, originalidade, escrita e aspectos formais). Cada categoria terá uma quantidade máxima de propostas selecionadas: conto: até 5 textos; crônica: até 10 textos e, poema: até 20 textos

As obras selecionadas comporão um livro digital a ser publicado gratuitamente pela EdUFERSA, com previsão de divulgação do resultado no dia 28 de novembro de 2025. Existe ainda a possibilidade de edição impressa, a depender de disponibilidade orçamentária.

Segundo o diretor da EdUFERSA, o professor Ayala Gurgel, o concurso representa uma importante porta de entrada para escritores locais no ambiente editorial universitário.

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Feira do Livro tem mais de 40 autores independentes confirmados

Logomarca do evento
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A Feira do Livro de Mossoró (FLIM) 2025 já começa a ganhar forma com uma resposta entusiasmada da classe literária. Em menos de uma semana, a organização recebeu mais de 40 inscrições de autores independentes, número que superou as expectativas e levou ao encerramento antecipado das vagas para essa categoria.

A participação dos autores independentes é um dos destaques desta edição, reforçando o compromisso da Feira com a valorização da produção literária local e regional. Durante o evento, que acontecerá de 11 a 15 de agosto, os autores estarão presentes em um espaço especialmente dedicado a eles, na Faculdade de Educação da UERN (Campus Central).

Ali, o público poderá conhecer os escritores, conversar sobre suas obras, adquirir livros e receber autógrafos, em uma programação pensada para fortalecer o vínculo entre leitores e criadores.

“A Feira sempre foi um espaço de acolhimento da diversidade literária. Ter tantos autores independentes conosco nesta edição é um sinal claro de que há uma produção viva, pulsante e cada vez mais interessada em dialogar com o público”, destaca Rilder Medeiros, organizador do evento.

Entre os nomes de autores independentes já confirmados está o de Octávio Santiago: jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal), autor de “Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste” (Autêntica, 2025). Octávio também estará na programação para falar sobre seu processo de pesquisa e construção do livro, na programação oficial da Feira.

Além da presença dos autores, a Feira contará com estandes de editoras e livrarias, sessões de lançamentos, atividades infantis, palestras, contações de histórias e atrações culturais, consolidando-se como um dos maiores eventos do setor no estado.

A programação completa será divulgada em breve nos canais oficiais da Feira. Acompanhe o instagram: @flmossoro.

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A literatura salva

Por Marcelo Alves

Imagem com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Imagem com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Por estes dias, fui convidado pela ótima Escola Livre Direito, Filosofia e Arte – ELDFA para falar sobre o meu doutorado no Reino Unido, no King’s College London – KCL, quando, a partir da concomitante colaboração com crônicas/artigos para o jornal Tribuna do Norte, misturei, nos meus estudos e escritos, com quase igual intensidade, o direito e a literatura. Foi um depoimento, posso dizer, direcionado àqueles que visam misturar as coisas sérias (e enfadonhas) do direito com a poesia da arte. Sou, de fato, um amante dessa mistura.

Para defender a interdisciplinariedade do direito com a literatura, eu poderia apresentar um rol de justificativas, algumas até já conhecidas dos estudiosos da temática. Entretanto, no meu depoimento, eu preferi – e prefiro agora – ilustrar a tese da boa mistura com algumas constatações retiradas da minha própria experiência em Londres.

Primeiramente, eu sempre enxerguei o doutorado no exterior como uma oportunidade não apenas acadêmica, mas também linguística e, sobretudo, cultural. Quanto à língua – e aqui anoto a dificuldade com um idioma que não era o meu –, o contato com a literatura melhorou deveras o meu inglês, inclusive o jurídico. O português também. Textos mais elaborados. Mais concisos (à moda inglesa). Mais distantes do enfadonho “juridiquês”. Mais gostosos de ler, posso dizer. Já a oportunidade cultural explica a minha opção por estudar em Londres, em lugar das mais “provincianas” Oxford e Cambridge. À época eu acreditava na assertiva de Samuel Johnson (1709-1784): “Quem está cansado de Londres, está cansado da vida”. Hoje acredito mais em outra frase dele: “O patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Ademais, a imersão na literatura e cultura inglesas tornou meu aprendizado do direito mais suave e lúdico. Do direito inglês, em especial, que eu deveria compreender para os fins da minha pesquisa. Para além das “filosofias” que descobri na relação de Shakespeare (1564-1616) com o direito, ilustro essa minha percepção com outro gigante da literatura inglesa: Charles Dickens (1812-1870). Li ou vi “Oliver Twist” (1837), “A casa sombria” (1853), “Grandes Esperanças” (1861) e por aí vai. Escrevi sobre Dickens. Descobri, com o professor John Sutherland (1938-), que Dickens era juridicamente preciso. Mais do que isso. Ele foi uma espécie de historiador do direito, como anota William Searle Holdsworth (1871-1944), em “Charles Dickens, as Legal Historian” (1928).

Holdsworth é o autor de “A History of English Law”, em 17 volumes, publicada entre os anos 1903 e 1966. Cheguei a seguir Dickens por Londres. À época, eles comemoravam os 200 anos do seu nascimento. E até frequentei um curso do historiador Simon Schama (1945-) sobre o escritor vitoriano. Dickens me ajudou demais.

E, claro, essa mistura direito/literatura me rendeu três livros: “Ensaios ingleses” (2011), “Retratos ingleses” (2012) e “Códigos ingleses” (2013). Junto à tese e ao diploma de PhD, essa trilogia foi o resultado mais evidente daqueles tempos.

Entretanto, acredito que o grande ganho com a mistura direito e literatura deu-se em relação à minha saúde mental. Fui um estudante comprometido. Assistia a todas as aulas. Fui um rato de biblioteca. Não fiz as farras de estilo. Mas isso tem os seus “contras”. Fiz poucos amigos. Conto-os na mão. Inclusive, olhando para trás, considero aqueles anos muito mais difíceis do que felizes. E isso levando em conta o sucesso obtido ao final, que tende a justificar todo o esforço.

Acho que a literatura me salvou. As artes, em geral. Os livros, os filmes, seus autores e suas personagens foram os meus companheiros. Tornaram a vida menos difícil. Lembro-me com deleite da epifania que tive nos jardins de Russell Square, onde fica a Biblioteca do Instituto de Estudos Jurídicos Avançados da Universidade de Londres, numa tarde de verão. Descobri que a cena do livro que lia, de Agatha Christie (1890-1976), se passava ali, onde eu estava.

Daí em diante, eu passei a misturar tudo: Londres, literatura e direito. Sempre que podia, ia ler a Rainha do Crime ou as aventuras do detetive Sherlock Holmes nos locais onde as cenas se passavam. Recordo-me de haver visto o filme “Testemunha de Acusação” (1957), de Billy Wilder (1906-2002), e de ter lido a peça homônima de Christie, nos dias em que visitamos, como programação da universidade, a Old Bailey, sede das cortes criminais de Londres. Filme e peça se passam ali. Foi tudo de bom. E quando esse tipo de leitura “presencial” era impossível, como em “Morte na Mesopotâmia” (1936) ou “Morte no Nilo”, eu me enfurnava no Museu Britânico, para ler os livros ali, junto aos despojos daquelas civilizações. Era divertidíssimo.

Escrevo aqui com muita saudade da amiga Agatha e do amigo Holmes. A literatura salva!

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

*Texto republicado em face da morte de dona Diúda Alves (veja AQUI), mãe do autor, que se sentiu impossibilitado de manter a rotina da produção dominical colaborativa com nossa página.

Um passeio no tempo com Antônio Gastão

Antônio Gastão, uma amizade de muitos anos (Foto: BCS)
Antônio Gastão, uma amizade de muitos anos (Foto: BCS)

Nessa quarta-feira (26), eu tive o privilégio de tomar café e conversar por horas com um amigo de longas datas: médico Antônio Gastão, um pernambucano de Triunfo, que desde 1959 chegou a Mossoró e jamais deixou para trás esse amor por nossa terra. “Como eu sou feliz por ser mossoroense,” transpirou.

Aos 92 anos, Gastão tem uma memória impressionante, além de vasta cultura e inteligência. O tempo voa em sua companhia. Mas, nos permite viajar pelas obras de Flaubert e Tolstói (“eu queria ter conhecido esse cara”), passear pela política na época do senador Duarte Filho, pisar no solo árido do Sertão, discutir os primados dos Jesuítas e saber muito mais sobre o ser humano, a medicina, o mundo virtual, imprensa, arquitetura etc.

A gente vai voltar a se ver. Essa amizade começou no labirinto físico do jornal Gazeta do Oeste e, segue, nesses dias turvos do século XXI. Há muito ainda a tangermos.

Até lá, meu caro.

Os livros franceses

Alliance Française em Paris (Foto: reprodução)
Alliance Française em Paris (Foto: reprodução)

Por Marcelo Alves

Todo livro tem uma história por detrás da sua concepção e parto. Acredito que as histórias de “Essais français: droit et philosophie en édition bilingue français/portugais” (“Ensaios franceses: direito e filosofia em edição bilíngue francês/português”) e “Littératures françaises: récits sur les livres et les écrivains en édition bilingue français/portugais” (“Literaturas francesas: crônicas sobre livros e escritores em edição bilíngue francês/português”), livros siameses, que agora jubilosamente entrego aos leitores, merecem ser contadas.

Alguns acontecimentos foram decisivos para as suas existências.

Espiritualmente, “Essais français” e “Littératures françaises” são o fruto tardio da minha estada, em 2006, na capital da França. Então, com “Paris é uma festa” na cabeça, eu para lá parti. No Brasil, havia deixado coisas inacabadas, que perturbavam a minha paz. A ideia era passar alguns meses longe delas. Tomei quarto num pequeno hotel na Rue Madame, em Saint-Germain-des-Prés. E matriculei-me na Alliance Française de Paris, nas abas do bairro de Montparnasse, pertinho de onde eu estava morando. Foi uma das mais acertadas decisões que já tomei.

A Aliança de Paris, mais do que uma escola, é um espaço cultural fantástico. Aqueles meses sabáticos e alegres foram uma catarse. Se aprendesse uma palavra, estava ótimo. Escrevi quase nada, é vero. Mas bebi muito. Café, vinho e outras coisas mais, embora não quisesse fazer parte de geração perdida alguma. Coisas inusitadas aconteceram. E há uma frase mais que famosa de Hemingway: “Se, na juventude, você teve a sorte de viver na cidade de Paris, ela o acompanhará sempre até ao fim da sua vida, vá você para onde for, porque Paris é uma festa móvel”.

Essais français” e “Littératures françaises” são ainda efeitos colaterais – positivos, bien sûr – da pandemia do Covid-19. Uma limonada que busquei fazer de um trágico limão. Naqueles meses de isolamento, estive refazendo o curso da Aliança Francesa, vinculado à sua sede de Natal/RN (cujo presidente do conselho de administração, Eduardo Gurgel Cunha, assina o prefácio de “Essais français”).

Comecei a escrever em francês para a Aliança, como era demandado no final do curso, e em português, sobre a mesma temática, para as minhas colaborações na Tribuna do Norte e no Diário de Pernambuco (vocês identificarão algumas nos livros). Constatando a existência de um bom material bilíngue, decidi traduzir todas as minhas crônicas, sobre as “coisas” da França, do português para o francês. Deu uma trabalheira dos diabos. Mas, aparentemente, deu certo. Assim me disseram. Eu acreditei. E decidi fazer a coisa avançar e crescer em forma de livros.

É por esse momento que surge o meu contato com a Aliança Francesa do Recife, por intermédio de amigos Procuradores da República, também amantes da língua de Molière, com quem trabalho na capital de Pernambuco. Fui muitíssimo bem atendido, tanto por Maria de Lourdes de Azevedo Barbosa (presidente do conselho de administração e autora do prefácio de “Littératures françaises) e Stéphane Garin (diretor executivo). Associei-me à Aliança do Recife. Eles me colocaram em contato com Heloísa Arcoverde de Morais, que “assina” a revisão da tradução. Com esse apoio, o material estava, digamos, quase “pronto”.

Os conteúdos de “Essais français” e “Littératures françaises” representam minha curiosidade transdisciplinar sobre o direito, a política, a filosofia, a arte e a literatura da França e da francofonia. Coisa de francófilo atrevido. E as traduções? Maior atrevimento ainda.

Mas sobre o conteúdo e, especialmente, sobre a forma/tradução dos livros, eu tratarei na semana que vem.

Deixem-me agora convidar todos vocês para os lançamentos: em Natal/RN, no dia 24 de junho de 2024, às 18 horas, na Aliança Francesa, sita na Rua Potengi, nº 459, bairro de Petrópolis; em Recife, no dia 25 de julho de 2024, às 19 horas, na respectiva Aliança Francesa, sita na Rua Amaro Bezerra, nº 466, bairro do Derby.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Um altíssimo detetive

Por Marcelo Alves

Cena do filme "O nome da Rosa" (Reprodução)
Cena do filme “O nome da Rosa” (Reprodução)

Volto hoje a um assunto polêmico: a distinção entre a “alta” e a “baixa” literatura. Houve um tempo em que essa distinção era até propagada pelos entendidos do assunto. Como registra Miklós Szabolcsi (em “Literatura universal do século XX: principais correntes”, Editora Universidade de Brasília, 1990), era comum traçar “uma linha divisória entre as duas espécies de literatura, com base em diversos pontos de vista, sejam os da sociologia da literatura ou da estética, sejam os referentes às diferenças de função”.

Dizia-se que “as narrativas reiterativas, de produção fácil e compostas por módulos já prontos, que têm o poder de emocionar e horrorizar com facilidade” são características da trivialidade do texto, assim como “a possibilidade de recepção rápida, a compreensão sem dificuldades e, finalmente, determinados procedimentos ligados à difusão e à produção”. Embora estes sejam critérios incertos e discutíveis, essa “divisão da literatura ‘alta’ e ‘baixa’ ou ‘trivial’ consolida-se no final do século XIX, simultaneamente com o fato que é sua causa: a ‘alta’ literatura vai se tornando excludente, em face das dificuldades que oferece para a compreensão”.

Alguns gêneros literários, como a autoajuda, o romance romântico ou “feminino”, o faroeste e a ficção policial ou detetivesca, para muitos eram/são considerados “baixa” literatura. O valor de “alta” literatura, anota Marina Pastore (no texto “Como um clássico se torna um clássico? A fronteira entre arte e entretenimento na literatura”, publicado na revista Anagrama, em 2012), seria “reservado ao domínio dos clássicos e da ‘literatura de proposta’, expressão sugerida por Umberto Eco para designar o tipo de literatura que não atende às expectativas do leitor, mas consegue formar um público próprio e cria novas expectativas para ele”.

É exatamente através de Umberto Eco (1932-2016), pelo seu exemplo, que manifesto e justifico minha indignação a esse preconceito para com a querida literatura policial/detetivesca, barrando-a de entrar no “baile” da “alta” literatura. E também discordo de Tzvetan Todorov (em “Poética da Prosa”, Martins Fontes, 2003), quando afirma, contornando a problemática, que, “quem quiser ‘embelezar’ o romance policial, faz ‘literatura’ e não romance policial”.

Eco faz os dois – “alta” literatura e romance policial –, sem dúvida. E logo em seu romance de estreia, “O nome da rosa” (“Il nome della rosa”), de 1980.

Em “O nome da rosa”, alegadamente, Eco reproduz um manuscrito de um frade chamado Adso de Melk, que, quando jovem, teria presenciado os terríveis acontecimentos narrados no livro. O manuscrito/enredo de “O nome da rosa”, ambientado numa antiquíssima abadia beneditina, está dividido em sete dias. Seguindo a veia dos romances policiais, o enredo gira em torno das mortes de sete monges nos sete dias seguidos, em circunstâncias extraordinárias. Mortes que, a pedido do Abade, o protagonista Guilherme de Baskerville, ajudado pelo seu pupilo Adso de Melk, nos moldes de Sherlock Holmes/Dr. Watson, busca desvendar.

Mas isso tudo coincide com um encontro para solução de intricadas questões teológicas, previamente acertado para se dar na abadia, entre frades franciscanos e uma legação papal, da qual faz parte um dos grandes inquisidores da Igreja, Bernardo Gui (1261-1331). De uma erudição ímpar, cheio de citações em latim, “O nome da rosa” não é simplesmente uma história de crimes. Ele é também um maravilhoso estudo do Medievo, sobretudo da vida religiosa no século XIV e das ideologias – heréticas ou não – no seio da Igreja de então.

Ademais, “O nome da rosa” é uma estória sobre livros e sobre o poder infinito das palavras. A “rosa” do livro, palco dos acontecimentos narrados, é a grande biblioteca da abadia, na qual estariam guardadas – ou escondidas – maravilhas da escrita e da arte das iluminuras, de origem grega e latina, heréticas ou não, numa época em que, antes da invenção da imprensa por Gutenberg (1400-1468), a Igreja detinha, no Ocidente, o monopólio do saber. A biblioteca é um labirinto, infinito e cheio de desvios, como se assim fosse – de fato o é – a sabedoria da humanidade simbolizada nos livros. Aliás, sendo Eco professor de semiótica, um simbolismo especial perpassa a obra, com referências e homenagens a inúmeras figuras da literatura.

Alguém vai me dizer que “O nome da rosa” (1980) não é altíssima literatura detetivesca?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

O domínio público de Graciliano nos lembra “Baleia”

Do Blog Tio Colorau

Ilustração (Web)
Ilustração (Web)

Desde o dia 1º de janeiro a obra do escritor Graciliano Ramos entrou em domínio público.

Assim, a tendência é que os livros do alagoano falecido em 1953 se multipliquem nas livrarias, mais ou menos o que aconteceu com George Orweel em 2021.

Nota do BCS – Remete-me ao livro “Vidas Secas.” Perdi a conta das vezes que li, reli, li novamente, outra vez, de novo, mais uma vez…

Sem spoiler, para não atrapalhar o interesse de quem não leu, mas o destino da cachorrinha “Baleia” é algo único na literatura brasileira. Fez-me chorar. O regionalismo consagra-se ali, sem que nos esqueçamos de “A bagaceira” de José Américo de Almeida e a personagem “Soledade.” Vale lembrar:

– Há uma miséria maior do que morrer de fome num deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã.

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A ética do preso

Por Marcelo Alves

Reprodução do livro de Dostoiévski
Reprodução do livro de Dostoiévski

Nunca esqueci a observação de Nilo Batista, em prefácio ao livro “Literatura e direito: uma outra leitura do mundo das leis” (de Eliane Botelho Junqueira, Letra Capital, 1998): “o relato literário, muitas vezes integrado pela experiência do autor, quando não explicitamente autobiográfico, não é menos elucidativo do que a objetiva descrição técnica do mesmo fato, processo ou instituição; através de Dostoiévski (Recordações da Casa dos Mortos) aprende-se sobre a penitenciária não menos que através de John Howard (O Estado das Prisões) e sua descendência. Um diretor de presídio brasileiro que tenha lido, por exemplo, representantes da nossa literatura como Graciliano Ramos (Memórias do Cárcere), Plínio Marcos (Barrela) e Assis Brasil (Os que Bebem como os Cães) compreenderá melhor o que está fazendo”.

Peguemos o exemplo de Dostoiévski (1821-1881), que, acusado de conspirar contra o Czar Nicolau I, foi, em 1849, condenado à morte. Apenas momentos antes da ordem de fuzilamento, a pena foi anunciada como comutada para prisão com trabalhos forçados (o próprio Czar exigira a encenação da falsa execução). Dostoiévski, então, foi levado à Sibéria. Quatro anos de prisão e dez anos de exílio nesse fim de mundo. Esse padecimento – a partir da sua experiência numa prisão decadente, suja e intransponível – foi narrado pelo autor em “Recordações (ou Memórias) da Casa dos Mortos”, talvez como ninguém mais na literatura universal.

De 1862, “Recordações da Casa dos Mortos”, construído a partir de uma coleção de fatos e eventos relacionados à vida nas prisões da Sibéria, é um romance, é vero. Mas só um gênio que passou por esse “sofrimento inenarrável”, que ali esteve “sepultado vivo”, para usar de expressões do próprio Dostoiévski, seria capaz de descrever as condições de vida e a personalidade daqueles que são condenados, culpados ou não, a viver ou morrer nessas condições. O momento da prisão em si, a solidão do cárcere ou a promiscuidade com delinquentes perigosos, tudo isso é terrível, sobretudo para homens de caráter e de sentimento, como Dostoiévski.

Esse tipo de experiência e de posterior narrativa não é uma exclusividade do grande romancista russo. Oscar Wilde (1854-1900) também pôs a angústia e o sofrimento no papel, retratando a realidade nas masmorras. A partir das idas e vindas de uma acusação pelo “crime” de homossexualismo, Wilde foi bater na prisão de Reading, cidade no sudeste da Inglaterra, que se torna o cenário de sua “Balada do Cárcere de Reading” (1898). A “Ballad” tem como ponto de partida a execução de um tal Charles Wooldridge, acontecida em 1896, quando Wilde estava ali encarcerado. Wooldridge, um militar, foi condenado à morte por haver assassinado a própria mulher. O enforcado tinha 30 anos quando cumprida a sentença.

Para além do testemunho, Wilde amplia o sentido da sua narrativa, para simbolizar a situação de todos os prisioneiros, mas não para criticar a justiça das decisões que os condenaram, e sim para mostrar, como “advogado” de uma reforma penal, a brutalização da punição do condenado à morte e de todos aqueles ali aprisionados e esquecidos. O verso autoaplicável “cada homem mata as coisas que ama” restou célebre.

Aliás, ainda em Reading Gaol, Wilde escreveu uma longuíssima carta ao seu amante, o Bosie. Nela, ele relembra o caso de amor e suas experiências de condenado. O tom é de lamento e ataque. Em 1905, foi publicada uma versão reduzida dessa carta. Em 1949, uma versão com partes inéditas. E, em 1962, a versão original revisada. A missiva restou conhecida com o título “De Profundis”.

Mas talvez tenha sido Victor Hugo (1802-1885) quem mais tenha feito em prol daqueles que eram – ainda o são – tratados como bestas humanas. Em “O último dia de um condenado” (1829), Hugo, sob os pontos de vista filosófico, sociológico, psicológico e jurídico, nos apresenta o diário de um condenado à morte, anônimo, que não é herói nem vilão, nas 24 horas anteriores a sua execução.

Mas como se julga o ato do homem (ou do seu agrupamento em forma de Estado) que decide e impõe a morte a um outro homem? É o que procura fazer o autor. É o que os franceses chamam de “roman à thèse”. Libelo contra a pena de morte, tema tão importante para o direito (e aqui já deixo minha assertiva oposição à pena capital imposta pelo Estado). É verdade que a pena de morte, depois de muita luta, está hoje abolida na grande maioria dos países ditos “civilizados”.

Mas, com Hugo e seu livro, na França e por onde a sua literatura se irradia, a luta pela abolição atingiu consciências e sensibilidades. Poucos fizeram tanto para abolir a “maldita” como o reformista/ativista Victor Hugo.

Agradecemos!

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

A companhia dos livros

Foto ilustrativa de RebeccaVC1 / flickr/ creative commons
Foto ilustrativa de RebeccaVC1 / flickr/ creative commons

Por Marcelo Alves

Há uma frase que adoro e sempre repito: “Um homem de espírito nunca se sente só consigo mesmo”. Não sei por que cargas d’água, sempre atribuí essa danada a Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Talvez se deva ao fato de achá-la a cara de “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1796), que é, de par com “A montanha mágica” (1924) de Thomas Mann (1875-1955), um dos mais célebres “romances de formação” (“Bildungsroman”, em alemão) da história da literatura universal.

Talvez seja apenas porque, assim, lhe empreste o argumento da autoridade. Se a frase fosse ou for minha, disso, de autoridade, teria muito pouco ou quase nada.

Na realidade, não sei nem se o seu conteúdo é verdadeiro. Já passei por maus bocados, solitário, quando estudei/morei fora do Brasil. Bom, muito provavelmente, eu não seja um “homem de espírito” tal qual Goethe se definia. Certamente é isso.

De toda sorte, nestes tempos tão difíceis, eu vou utilizar a sentença do autor de “Afinidades eletivas” (1796) para falar de um excelente tipo de companhia para a solidão: os livros. Os homens de espírito são, de modo geral, muito afeiçoados a eles.

Muito se fala dos benefícios trazidos pelos livros e pela leitura. Castro Alves (1847-1871), em seu poema “O livro e a América”, disse: “Oh! Bendito o que semeia/Livros…livros à mão cheia…/E manda o povo pensar!/O livro caindo n’alma/ É germe — que faz a palma/É chuva — que faz o mar”. Cultura, educação, conhecimento. Coisas tão caras à civilização, mas que hoje, muito frequentemente, são desprezadas por alguns obscurantistas, aqui e alhures. E, para além do conhecimento, os livros, os bons livros, escritos por mentes iluminadas, durante os mais de dois mil anos da nossa história, também nos dão inspiração, sanidade e felicidade. Por fim, eles nos curam de muito males. Inclusive os males de que hoje estamos padecendo.

Por sinal, conheço um livro interessantíssimo, que trata precisamente disso: “Farmácia Literária” (Versus Editora, 2016), de Ella Berthoud e Susan Elderkin. Organizado em forma de dicionário, nele “os leitores podem simplesmente procurar por sua ‘doença’, seja ela agorafobia, tédio ou crise da meia-idade, e encontrarão um romance como antídoto”. E a chamada “biblioterapia” do livro “não discrimina entre as dores do corpo e as da mente (ou do coração). Está convencido de que tem sido covarde? Leia O sol é para todos e receba uma injeção de coragem. Vem experimentando um súbito medo da morte? Mergulhe em Cem anos de solidão para ter uma nova perspectiva da vida como um ciclo maior. Ansioso porque vai dar um jantar em sua casa? [Coisa quase impossível hoje, não?] Suíte em quatro movimentos, de Ali Smith, vai convencê-lo de que a sua noite nunca poderá dar tão errado”.

Nestes tempos bicudos, tão escassos de contatos pessoais, em que, tal qual o “Elefante” de Carlos Drummond de Andrade (1902-1907), estamos ávidos “para sair à procura de amigos”, num “mundo enfastiado, que já não crê nos bichos e duvida das coisas”, quando “não há na cidade alma que se disponha a recolher em si”, do nosso “corpo sensível, a fugitiva imagem, o passo desastrado, mas faminto e tocante”, sobretudo “faminto de seres e situações patéticas, de encontros ao luar, no mais profundo oceano, sob a raiz das árvores ou no seio das conchas”, a melhor companhia/remédio que podemos ter são os livros. Com efeitos colaterais mínimos, juro.

Na verdade, isso vale não só para agora. Na vida, nem sempre podemos ter nossas amadas conosco. Nem nossa família. Ou mesmo os nossos amigos. No frigir dos ovos, para termos qualquer dessas companhias, dependemos da vontade de outrem. E até já foi dito, por um tal Jean Paul Sartre (1905-1980), embora em outro contexto, que “o inferno são os outros”. Já na companhia de um grande livro, com suas narrativas e suas personagens, não dependemos de ninguém. Estaremos sempre bem acompanhados, mesmo estando sozinhos.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

O caso da madame

Por Marcelo Alves

Ilustração de Fernando Vicente/Doméstika)
Ilustração de Fernando Vicente/Doméstika)

Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert (1821-1880), é uma obra-prima. Está entre os melhores romances já escritos. Para alguns, é mesmo o melhor. E eu ainda me lembro das sensações que tive quando o li, lá pelo final da minha adolescência, começo da vida adulta. Foram de um realismo de fazer corar os mais pudicos.

Parcialmente inspirado em um caso real, o enredo conta as aventuras e desventuras de Emma Bovary, nascida Roualt, uma jovem francesa que se casa com o médico provinciano, extremamente trabalhador, Charles Bovary. Apesar da paixão do marido por ela, Emma sente muito pouco por ele.

À própria falta de amor, ela compensa imaginando os amores que lê em livros/estórias românticas. Ela lê Walter Scott (1771-1832) e outros menos votados. Quando um dia Emma frequenta um baile promovido pela nobreza de então, ela ali se mistura, entre nobres e ricos, e imagina que nasceu para viver aqueles sonhos. E esses ideais românticos acabam por destruir seu casamento e sua vida (já paro por aqui, para não fazer mais spoiler).

Madame Bovary” não teve uma vida fácil. Não falo aqui da personagem, mas, sim, da obra/romance de Flaubert. Ela tratava abertamente de adultério, de suicídio, era anticlerical, era feminista. Como era praxe à época, ela foi antecipadamente publicada em folhetins, já em 1856, na Revue de Paris, de Maxime Du Camp (1822-1894). Fez escândalo. “Obscena, imoral”, gritaram. Tentaram proibi-la. Era o reacionarismo, o puritanismo, o machismo e um monte de outros “ismos” que vemos ainda hoje, infelizmente, pipocar em algumas cabecinhas coroadas.

Em fevereiro de 1857, a revista, o seu editor e Gustave Flaubert, este até então desconhecido do grande público, foram processados e julgados na França, por um tal “ultraje à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. Apesar da insistência da procuradoria, embora criticados pelo “realismo vulgar e frequentemente chocante” da personagem principal, eles foram absolvidos. Aliás, anos depois, como informam Nicholas J. Karolides, Margaret Bald e Dawn B. Sova, em “120 Banned Books: Censorship Histories of World Literature” (Checkmark Books, 2011), o editor inglês de Flaubert também veio a ser processado no Reino Unido.

De nada adiantou essa zoada toda. Talvez tenha até surtido um efeito contrário ao pretendido. Publicado integralmente em 1857, alguns meses após o processo francês, o romance fez um sucesso retumbante. A madame ganhou o mundo.

Como obra literária, “Madame Bovary” inaugura o realismo. E talvez isso já bastasse para garantir seu lugar na história. Mas a sua qualidade artística é também inconteste. Como anota Jean-Claude Berton, no pequenino mas interessantíssimo “50 romans clés de la littérature française” (Hatier, 1993), ao polir cada frase, Flaubert desejou – e conseguiu – “fazer da linguagem a matéria do romance”.

Quanto ao conteúdo, é uma obra libertária. Fez um bem enorme ao feminismo. Trouxe para debate o divórcio, que, antes previsto no Código de Napoleão (1804), a Restauração na França havia abolido. Uma nova consciência do drama, em especial para as mulheres, de uniões viciadas, levou em 1884, após lutas parlamentares e de opinião, à reintrodução do instituto no país, independentemente do consentimento mútuo dos cônjuges, embora limitado a causas específicas. Gradualmente, foi-se impondo, em outros aspectos, a proteção da autonomia da mulher e do seu patrimônio. Botem isso também na conta, em boa parte, da Madame Bovary.

Por fim, a estória de Emma é interessantíssima sob o ponto de vista filosófico, notadamente quanto ao denominado livre arbítrio. Ela nos mostra que, quando se busca a felicidade, podemos pegar o caminho que nos leva à tragédia.

Bom, repito: de nada adiantou censurar o caso de Emma. A história ensina que é proibido proibir uma obra-prima. O escândalo fez-se sucesso. E o legado da madame é enorme.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Ética jurídica e literatura – uma boa mistura

Por Marcelo Alves

Ilustração da página Direito ao cinema
Ilustração da página Direito ao cinema

Havendo proposto, na semana passada, o estudo interdisciplinar da ética jurídica com a literatura/cinema (veja AQUI), venho hoje fazer uma defesa dessa curiosa mistura. Especificamente, pretendo responder à dúvida básica que deve estar na cabeça de vocês: por que os profissionais do direito devem estudar ética jurídica através da literatura/cinema? Há alguma utilidade nisso?

Sem titubear, minha resposta é sim. E por vários motivos.

Antes de mais nada, o contato com a boa literatura é fundamental para o aprimoramento do discurso jurídico, sobretudo a capacidade de escrever dos profissionais do direito, incluindo aqui bacharelandos, advogados, promotores, juízes, legisladores e por aí vai. Para escrever bem, é preciso, ou pelo menos muito recomendável, ler bem. Isso sem falar que ler boa literatura é algo muito – muitíssimo mesmo – gostoso (certamente bem mais que os enfadonhos tratados jurídicos). Aqui já ganhamos duplamente.

Ademais, já sendo mais específico, a literatura/cinema testemunha a visão sobre o mundo jurídico existente em determinada sociedade em certa época (embora marcada, em boa medida, pela ótica particular do autor da obra estudada). Esse testemunho é bem mais acessível/compreensível aos leitores (com ou sem formação jurídica), para fins de reconstrução da imagem que a sociedade tem de seus atores/profissionais do direito, do que os áridos estudos jurídico-sociológicos de caráter estritamente científico.

Mesmo em se tratando de obras estrangeiras, podemos nos valer da análise comparativa para conhecer melhor a imagem que a literatura e a sociedade brasileiras fazem da nossa atividade jurídica e dos seus profissionais. E vale a pena estudar ética jurídica através da literatura/cinema porque a (re)construção ficcional dos operadores jurídicos pode ser um incentivo para que os estudantes e os profissionais do direito reais (juízes, promotores, advogados, policiais etc.) repensem – e, por consequência, reconstruam com aprimoramento – os seus papéis e as suas imagens na sociedade.

Doutra banda, na literatura/cinema, há inúmeras estórias que enfrentam e resolvem eticamente problemas jurídicos. Os grandes autores/diretores relatando a casuística da vida forense, dos escritórios de advocacia ou das prisões, em linguagem mais elegante e acessível do que a linguagem técnico-jurídica, são frequentemente excelentes professores de direito. Aliás, vale a pena estudar o direito/ética jurídica através da literatura/cinema porque, na medida em que haja uma correspondência entre a obra estudada e a realidade do mundo jurídico (o que nem sempre se dá, já que estamos falando de obras de ficção), o estudo do direito, partindo da casuística narrada, torna-se menos abstrato.

Outrossim, a ficção, ao mesmo tempo em que reproduz (além da concepção particular de seu autor) o direito posto e o imaginário popular acerca das diversas temáticas ético-jurídicas, também influencia, em graus variados, a construção desse direito e, sobretudo, desse imaginário. Nesse ponto, como se dá com outras interfaces da literatura (com a religião, com os costumes, com a moda etc.), a literatura e o cinema são subversivos, tanto para a filosofia do direito como para o direito positivo. Não é de causar espanto que esses “críticos” tenham antecipado muito das modernas teorias e tendências do direito (tais como a ética jurídica, o ambientalismo, o biodireito, o feminismo, a transexualidade etc.).

De fato, muitas das ideias inovadoras no direito, assim como boa parte das críticas à mentalidade jurídica consolidada, historicamente encontraram sua mais vívida expressão nesse popular e imaginativo meio de expressão, denominado por nós de romance, mas que, poeticamente, o mesmo William P. MacNeil chamou certa vez de “lex populi” (na obra “Lex Populi: The Jurisprudence of Popular Culture”, Stanford University Press, 2007).

Por fim, concluo afirmando que, com os grandes autores, com suas belas estórias, aprendemos que o direito não é um fim em si mesmo, isolado do mundo; ao contrário, ele faz parte da vida cotidiana, que é carregada de dramas bem reais. Alguns até acreditam ser essa a principal razão pela qual a literatura – e a arte em geral – interessa ao direito.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Meu reencontro com Márquez

Doze contos peregrinosPor muitos anos, não 100, bem menos do que isso, fiquei distante de Gabriel Garcia Márquez. Ele que foi minha companhia em solidão e na memória de um moço triste, na depressão, bate à minha porta de novo.

Na prosa à mesa, regada a café, com o amigo Aílson Teodoro, rebobinamos a vida e experiências pessoais entrelaçadas com a obra do autor.

Daí me aparece Doze contos peregrinos. “Como é insaciável e abrasivo o vicio de escrever”, diz o escritor, jornalista, político e editor colombiano, Prêmio Nobel de Literatura (1982).

Peregrino.

Altíssima ficção

Por Marcelo Alves

Vou seguir tratando da controversa divisão entre “alta” e “baixa” literatura. E, desta feita, vou focar na ficção científica, um dos mais importantes e populares gêneros de literatura. Seus fãs, seus clubes, seus prêmios (sendo o Nebula e o Hugo os mais prestigiados) são muitíssimos. Suas estórias vendem aos tubos. Invariavelmente, essas estórias vão bater nas telas grande e pequena. Sucesso para além das fronteiras da nossa imaginação. E eu a acho uma literatura estelar.

Júlio Verne (Ilustração)
Júlio Verne (Ilustração)

Embora já existisse alguma produção do tipo desde o Iluminismo – afinal, com as “luzes” focamos na ciência –, convencionalmente, tem-se nas aventuras e na “littérature d’anticipation” de Jules Verne e na “science fiction” de H. G. Wells os precursores do gênero ficção científica. Como anota Miklós Szabolcsi (em “Literatura universal do século XX: principais correntes”, Editora Universidade de Brasília, 1990), “essa nova corrente inicia-se com Jules Verne, cuja obra ainda mantém em equilíbrio harmônico os elementos históricos, a descrição humana e futurologia técnica, caraterísticas que, com certeza, encerram o segredo de sua influência e de seu sucesso junto aos leitores; Herbert George Wells, por sua vez, apresenta utopias técnicas mais amargas e agourentas, que mostram um futuro distante forrado de pessimismo com relação ao ser humano”.

Sem demérito algum ao autor de “A máquina do tempo” (“The Time Machine”, 1895) e “A Guerra dos Mundos” (“The War of the Worlds”, 1898), devo aqui anotar que sou um fã de Verne, de suas “Viagem ao centro da terra” (“Voyage au centre de la terre”, 1864), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (“Vingt mille lieues sous les mers”, 1870), “A volta ao mundo em 80 dias” (“Le tour du monde en quatre-vingts jours”, 1873) e, ao final, do seu conjunto “Viagens Extraordinárias” (“Voyages Extraordinaries”).

Como aduz Bruno Blasselle, em “Histoire du livre: le triomphe de l’édition” (Gallimard, 2006, vol. 2), “se existe um autor no qual o progresso científico há inflamado a imaginação das pessoas, este é Jules Verne”, alegadamente o escritor mais traduzido da história.

É necessário registrar que o gênero ficção científica tem fronteiras muito mais amplas do que costumamos imaginar (afinal, onde estão as fronteiras da imaginação?). Aqui quero dizer que nesse gênero estão muito mais do que um “2001: Uma odisseia no espaço” (“2001: A Space Odyssey”, 1968), de Arthur C. Clark, para didaticamente darmos um exemplo marcadamente específico dessa literatura (e do cinema dela decorrente). Por exemplo, no gênero ficção científica entram distopias como “Admirável mundo novo” (“Brave New World”, 1932), de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451” (1953), de Ray Bradbury, “1984” (“Nineteen Eighty-Four”, 1949), de George Orwell e “O Homem do Castelo Alto” (“The Man in the High Castle”, 1962), de Philip K. Dick.

Temores do presente projetados num futuro até “próximo”. E, claro, distopias interplanetárias mais que ousadas, baseadas nas descobertas científicas de hoje e suas possibilidades de realização futuras quase infinitas. Este é o caso de Isaac Asimov e sua série, obra-prima da literatura, “Fundação” (“Foundation”, iniciada em 1942). Alguém pode querer literaturas de nível mais elevado do que as proporcionadas pelos autores e livros acima citados?

Doutra banda, é crucial aqui afastar o preconceito, vinculado à confusão entre o gênero ficção científica e um certo tipo de cinema/TV baseado nele, que alguns enxergam como superficial ou mesmo “mentiroso demais”. Pode até existir. Mas é fato já constatado a realização de muitas das “ficções” previstas por aqueles grandes autores “mentirosos”, digo “visionários”.

Para encerrar, ouso vaticinar que a ficção científica é o mais filosófico/profundo dos gêneros literários (e cinematográficos), na esteira do que defende Daniel Shaw, em seu “Film and Philosofy: taking movies seriously” (Wallflower Press, 2008), cujo título parece uma derivação do clássico “Taking Rights Seriously”, de Ronald Dworkin. De fato, cuidadosamente observando, a ficção científica trata de questões eminentemente filosóficas, como as diferenças entre o ser humano e as máquinas, a própria identificação do indivíduo em si, as implicações do presente no futuro da humanidade, o conceito de tempo, os perigos da sacralização da tecnologia e de certos mecanismos de controle social, a possibilidade e os impactos de um contato com seres alienígenas, entre muitos outros. Isso – que reafirmo aqui – não é mentirinha. É fato.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Um escritor e seu folhetim que faz história no mundo virtual

Por Carlos Santos

Escritor polígrafo, Marcos Ferreira de Sousa nasceu aos 10 de abril de 1970 em Mossoró (RN), onde reside desde sempre. Tem figurado entre as primeiras colocações de alguns importantes concursos literários no país.

Com a obra “A Hora Azul do Silêncio” venceu os “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, na categoria Melhor Livro de Poesia. Além do folhetim “A Cidade que Nunca leu um Livro” (romance publicado aos domingos no Canal BCS), possui obras inéditas nos gêneros conto, romance, poesia e crônicas.

Marcos Ferreira é escritor de origem mossoroense com vários prêmios literários (Foto: arquivo)
Marcos Ferreira é escritor de origem mossoroense com vários prêmios literários (Foto: arquivo)

Autodidata, Marcos atuou na imprensa mossoroense, onde desempenhou as funções de revisor, copidesque, repórter e editor de cultura. Entre outras distinções, foi laureado com os prêmios “José Cândido de Carvalho” (Categoria Contos); “Prêmio Petrobras de Literatura Prata da Casa”, edições do Rio de Janeiro e Salvador (Categoria Poesia); e o “Prêmio Vinicius de Moraes” (Categoria Sonetos), promovido pela editora Companhia das Letras.

Abaixo, um bate-papo com ele em relação a uma experiência inusitada: a produção de romance em série, como nos antigos folhetins, albergado em nossa página ao longo de 22 semanas:

Pelo visto, “A cidade que nunca leu um livro”, concluído no domingo passado (veja AQUI), é o primeiro romance publicado em suporte digital e em série na imprensa potiguar, talvez do País. Como você avalia essa experiência?

Não tenho conhecimento quanto ao ineditismo ou não. Mas acho que isso é uma consequência dos novos tempos, especificamente da blogosfera e das redes sociais. Trata-se de uma linha tão peculiar quanto plural. São os tempos irreversíveis das plataformas eletrônicas e esse é um caminho sem volta. Os veículos impressos tiveram a sua longa e apaixonante época, contudo agora os poucos que restaram vivem a debacle, a asfixia econômica, o crepúsculo de suas edições em papel-jornal. Outros romances digitais, a exemplo de “A Cidade que Nunca eu um Livro”, logo surgirão e esse é um processo que vem desde longa data quando do apogeu dos folhetins publicados nos jornais impressos, momento em que se destacaram, entre outros, grandes vultos da literatura brasileira como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Machado de Assis.

Marcos, um romance virtual, ou seja, em plataforma diferente do livro físico, é uma experiência incomum para nós do Canal BCS e acredito que para você também. Como nasceu a ideia?

Marcos tem planos para novos lançamentos (Foto: arquivo)
Marcos tem planos para novos lançamentos (Foto: arquivo)

Eu comecei literalmente do zero, não tinha nada pronto ou em andamento. Num determinado dia, então, eu sentei para escrever a minha habitual crônica que eu veiculava aos domingos no Canal BCS e aí, como o texto é um bicho cheio de vontades próprias, eis que eu senti que aquela suposta crônica havia descambado para algo diferente, uma coisa que me pareceu muito mais um conto ou capítulo de um romance do que propriamente uma simples crônica. Foi aí que tudo começou. Mesmo vivenciando a gangorra da minha saúde instável, eu fiz a minha estreia como folhetinista no Canal BCS e arquei com a responsabilidade de todo domingo ter um novo capítulo de romance para apresentar ao público leitor e, se possível, mantê-lo interessado na trama.

A construção de personagens, a narrativa, o esforço para prender o webleitor e o fio de ligação entre uma publicação e outra, entre um domingo e outro, são dificuldades enormes à produção, não temos dúvidas. O escritor na plataforma virtual é um novo caminho?

Sem dúvida. A plataforma digital, espaço em que o ficcionista recebe a pressão de fazer o dever de casa chova ou faça sol, é um desafio muito maior do que aquele vivido por um literato que está isento dessa cobrança e escreve, digamos assim, quando se sente inspirado. O escritor que surfa na crista da onda da plataforma digital tem que lidar com uma cobrança muito maior, tanto de si próprio quanto dos webleitores cuja atenção ele despertou.

O romance é um gênero muito disseminado há séculos no mundo. No Brasil, ele ganhou forma no século 19, com popularização em jornais impressos, em capítulos, o chamado “folhetim”. O Canal BCS e você dão ao leitor cibernético, plugado, on-line, uma experiência que resgata esse período. Como é viver essa realidade virtual?

Digo sem nenhuma economia ou excesso de vaidade que “A Cidade que Nunca leu um Livro”, pelas características já expostas e que envolvem o compromisso de um capítulo semanal para continuar alimentando o fogo da criatividade, foi, até aqui, o projeto mais ousado e desafiador a que me lancei e me propus a realizar. E agora, encerrando essa trama da personagem Jaime Peçanha após vinte e dois capítulos seriais, não posso negar, particularmente, o gostinho de vitória, o sentimento da missão cumprida.

Tivemos webleitores acompanhando o romance “A Cidade que Nunca leu um Livro” de vários estados do país e diversos municípios do RN, conforme dados de nossa estatística. Como você lida com essa interação ‘estranha’, digamos assim, diferente do que o livro físico proporciona?

Primeiramente, antes que digam que eu não falei das flores, essa é uma notícia que me surpreende de maneira muito positiva. Eu não tinha ideia de que minha história contasse com toda essa audiência. Acho que isso é o coroamento (e aí entram as flores) de um texto e de uma trama produzidos com muita seriedade e respeito aos webleitores de um modo geral. Pois é sempre vital, imprescindível, respeitar o leitor (no caso, webleitor) e coroá-lo com o que podemos oferecer de melhor em matéria de literatura.

Você considera possível a maior difusão do romance e outros gêneros literários por meio dessa infovia e suas diversas plataformas, como o blog, Instagram, Facebook etc?

Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Tanto que passei muitos anos sem publicar uma só vírgulas nos jornais impressos, quando ainda existiam jornais impressos em Mossoró, exceção para o De Fato, mas aí eu voltei a escrever com periodicidade semanal graças ao BCS — Blog Carlos Santos. A infovia está aberta para todos os gêneros e expressões de arte literária, inclusive o romance. Quanto ao meu retorno a escrever, existe algo que o Canal BCS me ofereceu que outros não ofertaram: motivação.

No universo criativo, no campo das artes, da literatura à pintura, passando por escultura e outras manifestações artísticas, muitos feneceram sem experimentar o gosto do sucesso de público e o mínimo de bem-estar à vida pessoal. Costumo dizer, usando adágio popular, que “quem incha com bafo (elogios) é cuscuz.” Isso o incomoda e o angustia?

A hora azul do silêncio à venda na Amazon, para leitura virtual (Reprodução)
A hora azul do silêncio à venda na Amazon, para leitura virtual (Reprodução)

A mim tal patologia (a da vaidade do cuscuz) não acomete. Possuo certa vaidade, sim, mas esta é no tocante a produzir alguma coisa em matéria de literatura e tomar conhecimento de que algumas pessoas estão gostando. Então, levando-se em conta o meu tipo de vaidade, não tenho nenhuma bigorna pesando na consciência. Não sou, muito menos, aquele tipo de literato que tem que dormir de beliche: ele embaixo e o ego em cima.

Quais os próximos planos literários de Marcos Ferreira?

Antes de responder a esta pergunta, quero agradecer aos webleitores que têm me acompanhado no Canal BCS. Agora, sem querer contar vantagem, no entanto me permitam um tiquinho de imodéstia, possuo um certo número de livros inéditos e que não estão expostos nas prateleiras das livrarias e quejandos simplesmente porque não tenho grana para a autopublicação. “A Cidade que Nunca leu um Livro”, por exemplo, é um romance que gostei de escrever e que eu gostaria de vê-lo publicado em livro físico. Quanto aos meus próximos planos literários, o que pretendo fazer é continuar escrevendo. Isto porque, bem ou mal, não há outra coisa que eu saiba fazer melhor do que escrever. Por falta de habilidade em ofícios diversos, portanto, escrevo.

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Festival Literário da Ufersa vai ocorrer entre os dias 16 e 18

A Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) promove entre os dias 16 e 18 de novembro a primeira edição do Macambira – Festival Literário da Ufersa, com extensa programação cultural envolvendo o mundo da literatura, dança, artes cênicas, exposições fotográficas, jogos educativos, oficinas, palestras e lançamentos de livros.

O premiado cearense Mailson Furtado é um dos nomes do evento cultural (Foto: divulgação)
O premiado cearense Mailson Furtado é um dos nomes do evento cultural (Foto: divulgação)
José Almeida Júnior é mossoroense com sucesso de público e crítica em seus trabalhos (Foto: divulgação)
José Almeida Júnior é mossoroense com sucesso de público e crítica em seus trabalhos (Foto: divulgação)

Para abrir a programação, dia 16, a partir das 18h, o Festival recebe o poeta cearense Mailson Furtado Viana, vencedor do Prêmio Jabuti 2018 nas categorias Poesia e Livro do Ano. Na noite do dia 17 será a vez do escritor mossoroense José Almeida Júnior compartilhar a sua produção literária. Proeminente no estilo romance histórico, Almeida é vencedor do Prêmio Sesc e finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

Na noite de encerramento, sexta, dia 18, serão anunciados os vencedores do primeiro Concurso Literário da universidade. Lançado em julho, a chamada pública recebeu mais de 50 textos inéditos nos gêneros crônica, conto e poesia. Os selecionados serão publicados em um livro pela Editora Universitária da Ufersa (EdUfersa).

Teatro

A programação é integralmente gratuita e acontece na lateral da Biblioteca Orlando Teixeira, Lado Leste, Campus Sede, em Mossoró. Além de literatura, o evento será abrilhantado com a apresentação dos grupos de teatro Cia Escarcéu, Grupo Baobá da Ufersa, Pessoal do Tarará e GRUTUM, Maracatu Reis de Paus, o rapper Cumpadi Caboclo e os artistas Airton Cilon e Álex Martins.

Durante os três dias, estarão à disposição dos visitantes mostras fotográficas e exposições de HQ’s, competição de grupos de K-Pop e, para o público infantil, será montada a Casa de Leitura, uma iniciativa destinada à contação de história e recreação.

O Macambira – Festival Literário da Ufersa nasce com o objetivo de promover um ambiente pluricultural na instituição a partir da valoração das diversas linguagens artísticas e literárias.

Confira a íntegra da programação e mais conteúdo AQUI no Portal Ufersa.

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Villaça, o estilista

Antônio Carlos Villaça, escritor, autor do Nariz de Cera, falecido em 2005 (Foto: arquivo)
Antônio Carlos Villaça, autor do livro “O nariz do morto”, falecido em 2005 (Foto: arquivo)

Por Honório de Medeiros

No cinza das horas, releio O Livro dos Fragmentos, de Antônio Carlos Villaça, soberbo estilista. Quem não lembraria de Novalis e Nietzche, ao lê-lo?

Foi muito amigo de Franklin Jorge, outro estilista, autor de O Spleen de Natal, um livro requintado, prêmio Câmara Cascudo por unanimidade, e de Gerardo Dantas Barreto, o filósofo, dono de uma “passionalidade desgrenhada”, ambos norte-rio-grandenses, e de Gilberto Amado, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Lacerda, não o político, o homem, e tantos outros, naqueles anos que começaram com Getúlio Vargas e se encerraram com a agonia do Movimento de 64.

Villaça ficou famoso com O Nariz do Morto, de 1970, obra de um niilismo trágico, tão elogiado. Lembra, lá para as tantas, que Gilberto Amado caracterizava Vargas muito bem: “Getúlio ou a arte de enganar. Enganava não apenas os bobos, o que é fácil e todos fazem. Enganava os sabidos.”

E também lembra, nesse livro, Raul Fernandes, não o potiguar, mas, sim, o político e diplomata carioca, que lhe dizia sempre: “a ênfase é uma improbidade intelectual”.

Em O Livro dos Fragmentos aponta o estranho fenômeno da desaparição de alguns escritores. Cita Osvaldo Alves, Carlos David, Lia Corrêa Dutra, a quem Drummond e Gilberto Amado admiravam e que sumiu da literatura.

Villaça especula: “Era uma forma de ceticismo ou de cansaço”. Recorda Maria Teresa Abreu Coutinho, “brilhantíssima. Casou-se com um operário italiano e foi morar no subúrbio. Nunca a reencontrei.”

Nada mais Enrique Vila-Matas e seu Bartleby e Companhia, no qual rastreia “a pulsão negativa ou a pulsão pelo nada que faz com que certos criadores, mesmo tendo consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso), nunca cheguem a escrever, ou então escrevem um ou dois livros, e depois renunciam à escrita”.

As obras desses escritores que ele cita ocupam, penso eu, algum escaninho empoeirado do Cemitério dos Livros Esquecidos que Carlos Ruiz Zafón localiza na misteriosa Barcelona, em um beco ao qual me conduziu uma bela guia mineira que, ante o meu espanto com o que me deparei, pôs-se a rir, divertida.

O Cemitério não se deixava perceber assim tão fácil…

Antônio Carlos Villaça, bem como Gerardo Mello Mourão, reconheceu que o Brasil é barroco, uma eterna tensão entre o corpo e a alma.

Vivesse hoje, que diria ele? Termina O livro dos Fragmentos citando Machado, Iaiá Garcia: “Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”.

Estaria se referindo ao que escrevera?

Tomara.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Escritor de Mossoró terá livro lançado no mercado europeu

O escritor de origem mossoroense, José Almeida Júnior, recebeu mais uma boa notícia do universo literário. Um de seus livros será lançado no mercado europeu, em Portugal, precisamente.

José Almeida Júnior estreou com "Última Hora", já deixando claro que não era um nome episódico (Foto: arquivo/Metrópoles)
José Almeida Júnior estreou com “Última Hora”, já deixando claro que não era um nome episódico (Foto: arquivo/Metrópoles)

José Almeida Júnior é escritor e defensor público no Distrito Federal, com pós-graduação em Direito Processual e em Direito Civil. Mas, a literatura parece cada dia mais densa em sua vida.

A Villas-Boas & Moss Agência Literária (VB&M) traz a notícia de que a edição portuguesa de “O Homem que Odiava Machado de Assis” está no prelo e será lançada pelo Grupo Narrativa.

“Esta coluna é muito especial para a gente porque, pela primeira vez, trazemos notícias não sobre clientes estrangeiros, mas sobre o que os autores brasileiros da VB&M estão agitando lá fora. Não é pouco. De Portugal ao Japão, passando por Itália, França, Grã Bretanha e Polônia, nossos autores têm marcado presença no mercado editorial internacional, apesar dos conhecidos obstáculos enfrentados pela literatura brasileira no exterior.(…)”, noticia a editora.

Bruxo do Cosme Velho

Acrescenta que em Portugal “está no prelo da coleção de literatura do Grupo Narrativa, do editor André Andraus, o romance O HOMEM QUE ODIAVA MACHADO DE ASSIS, de José Almeida Jr., publicado no Brasil pela Faro. A história de uma possível vida do Bruxo do Cosme Velho, construída ficcionalmente a partir de pontos obscuros e jamais esclarecidos da biografia de Machado de Assis, é baseada em vasta pesquisa e um dos mais originais romances escritos sobre o autor.”

O autor estreou em grande estilo, com “Última Hora”, sucesso de público e crítica. O romance foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2017, finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura.

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O acesso, literariamente

Por Marcelo Alves

O mais badalado dos romances de Franz Kafka (1883-1924), pelo menos para nós do direito, é “O processo”, que restou sendo publicado, já postumamente, em 1925. A obra narra a estória do bancário Jofeph K., que, por um “crime” ou por razões nunca reveladas, nem a ele nem ao leitor, é preso, processado e condenado por um misterioso e inacessível tribunal. Algo “kafkiano”, digo, sendo hiperbolicamente tautológico.O processo de Franz Kafka - ilustração

E é desse romance que destaco uma passagem para tentar ilustrar, literária e literalmente, a temática do “acesso à justiça”: a parábola “Diante da Lei”, que consta do capítulo 9 de “O processo” (embora tenha sido também publicada, separadamente, no livro de contos “Um médico rural”, de 1919). Trata-se de um texto central em toda a obra de Kafka, e não só em “O processo”, sendo um dos escritos preferidos do próprio autor.

Em “O processo”, a narrativa/parábola é contada a Josef K. pelo capelão da prisão, tendo como cenário a igreja gótica que faz as vezes da sede do tribunal que processa, julga e condena o protagonista (lembrando ainda que este, o nosso Josef K., será executado no capítulo seguinte). E, aqui, rogo a ajuda de Modesto Carone, com o seu “Lição de Kafka” (Companhia das Letras, 2009), para explicar o conteúdo de “Diante da Lei”:

UM HOMEM DO CAMPO chega ao porteiro que vigia a entrada para a lei e pede admissão. O porteiro recusa o pedido e responde evasivamente sobre se o homem do campo poderá entrar mais tarde. Quando o homem do campo olha para o interior da lei pelo portão, o porteiro adverte-o de que é inútil tentar entrar sem permissão. Ele diz que, apesar de ser o último dos porteiros, é poderoso. A partir daí o homem do campo passa a observar atentamente o porteiro. O porteiro dá-lhe um banquinho, no qual ele pode ficar sentado enquanto espera. Os anos passam, durante os quais o homem do campo envelhec e. Primeiro ele tenta subornar o porteiro, depois pede até às pulgas da gola do seu casaco que o ajudem. Esquece cada vez mais que existem outros porteiros porque, no seu esforço para entrar na lei, ele se concentra totalmente no primeiro. Quando está morrendo, pergunta por que, em todos aqueles anos, nenhuma outra pessoa solicitou entrada na lei. O porteiro responde-lhe que aquela porta havia estado aberta só para ele e que, agora que ele está morrendo, vai fechá-la”.

Bom, em sendo a narrativa de “Diante da Lei” uma parábola (mesmo que Kafka também a denomine “legende” ou lenda), ela tem de ter um objetivo. Um fim moral, melhor dizendo. Afinal, como ensina o citado Modesto Carone, a parábola “é uma narrativa que contém algum tipo de argumentação que termina numa moral da história. (Em Kafka, essa moral é suprimida ou encapsulada.) Em outros termos, a parábola é uma história consistente em si mesma, mas aponta para uma outra coisa – geralmente um ensinamento de vida – que só pode ser desentranhada daquilo que é efetivamente narrado”.

Mas qual seria essa “moral da história” na parábola “Diante da Lei”? Aí é que está o problema. Ou a beleza da coisa – se você é daqueles, como o grande Robert Frost (1874-1963), para quem fazer poesia é “dizer uma coisa significando outra”. Como registra Modesto Carone, em “O processo, depois que a ‘lenda’ é contada a Josef K. pelo capelão, ambos discutem o sentido da parábola e suas implicações.

Por meio dessa discussão, Kafka deixa a critério do leitor a interpretação da narrativa e, em vez de oferecer a K. alguma clareza sobre sua situação (K., o réu, não sabe por quem, nem de que é acusado), o relato o deixa mais perplexo a respeito do processo de que é vítima”.

Na verdade, como muito ou quase tudo em Kafka, a coisa aqui está sujeita a mil interpretações. O absurdo existencial é a tônica da narrativa kafkiana, sendo “O processo” até um livro inacabado, talvez propositalmente. Mas podemos dar nossos pitacos, é claro.

Todavia, aproveitando essa deixa – um tanto kafkiana, confesso – de deixar as coisas em suspenso, apenas vamos tratar dessas interpretações/pitacos em uma próxima conversa. Na semana que vem, asseguro. Ou não?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 3

Entre quatro paredesTriângulo amoroso

Por Marcos Ferreira

Algumas pessoas são frias como o próprio gelo. Ou, como também se costuma dizer, têm sangue de barata. Ou sangue nenhum.

Após cerca de quinze minutos, quando Laura e Reginaldo Marinho deixaram o quarto e foram à sala, depararam com Jaime numa cadeira da área frontal, de perna cruzada, semblante imperturbável e fumando. Os amantes, sem demonstrar o menor embaraço, somente se entreolharam e ocuparam outras cadeiras da área.

Reginaldo, que é primo legítimo de Laura, também acendeu um cigarro, comentou qualquer coisa acerca do tempo chuvoso, e Laura foi quem indagou ao marido há quanto tempo ele havia chegado. Porque estivesse fatigado, Jaime descruzou a perna e cruzou a outra, lançou a nuvem de fumo para cima e respondeu calmamente:

­— O bastante para ver vocês na minha cama.

— Que história é essa de minha cama?! — reagiu a mulher num tom menos amistoso, como se houvesse recebido um insulto. — Você não tem nada aqui, Jaime, exceto aquele notebook caduco e uma estante de livros velhos que só servem para juntar poeira, pois você nunca limpa nenhum. Estão aí de enfeite, ocupando espaço. Acho que você fica esperando que eu cuide daquela tralha, mas não faço. E tem mais: quando você me conheceu, já sabia da minha relação com o Reginaldo.

— Sim, eu sabia. Porém me casei com você.

— Casou coisa nenhuma! Apenas botar uma aliança no meu dedo não configura um matrimônio. Você me conheceu viúva, sem filhos, independente, dona do meu próprio nariz e desta casa. Apenas trouxe as suas roupas amarfanhadas para cá e mais alguns objetos. E deixamos bem claro, quando você falou em casamento, que eu e Reginaldo continuaríamos com nossa relação, com ou sem você.

— Foi isso aí, Jaime, você concordou com o nosso triângulo amoroso. Perdoem se a piada é ruim — interveio Reginaldo lançando a fumacinha pelo nariz e pela boca, atingindo o pequeno bigode ruivo, um tanto amarelecido pela ação prolongada da nicotina. — Até fizemos um ménage à trois algumas vezes, e você não reclamou de nada. Lembra? Naqueles começos, pelo contrário, mostrou-se bem à vontade.

Depois gamou na minha prima e inventou essa história de casamento. Deveríamos ter ficado como estávamos, sem compromisso, sem esse formalismo de marido e mulher. Bom, não discutam isso agora, na minha presença. Estou de saída. Preciso ir ao jornal, pois tenho um bocado de trabalho em atraso e o editor está no meu pé.

Jaime se curvou para a frente, bateu a cinza do cigarro no pequeno cinzeiro sobre a mesa de centro, e exibiu a sombra de um sorriso:

— Não sei se você ainda tem emprego na Tribuna — falou com a mesma serenidade com que avistou a esposa com o primo dela na cama. — Fui demitido esta manhã por Alberto Cardoso. Alegou que a empresa está no vermelho e que terá que realizar alguns cortes, reduzir pessoal em todos os setores. Claro que a redação entra na valsa. Quando eu estava saindo, portanto, ele me pediu que mandasse você entrar. Das duas, uma: ou vai lhe botar no olho da rua ou pretende lhe encarregar de fazer o meu trabalho. Seja por troca de editoria ou por acúmulo de função.

O outro deu um pinote, cofiando o bigodinho:

— Troca de editoria, Jaime?! Duvido muito! Você, assim como ele, sabe que eu não entendo bulhufas a respeito desse seu mundinho vaidoso da cultura. Se for isso, meu chapa, estou ferrado. Meu negócio é falar dos políticos, contra ou a favor, conforme me ordenam fazer. Especialmente contra. Se é para desancar o presidente da Câmara, então eu baixo o cacete no infeliz, faço a caveira do bacana sem dó nem piedade.

Por outro lado, se me mandam elogiar certo deputado situacionista, aí eu babo os ovos do cara. Modéstia à parte, sou bom nesse métier. Estou há quase dez anos ininterruptos no campo minado da política e não me sinto apto para outra atividade. O mais provável, portanto, é que Alberto Cardoso também queira me demitir.

— Não sofra por antecipação, Reginaldo — falou Laura. — Você é casado com a irmã dele e tem duas crianças pequenas com ela. Além disso, é um dos funcionários mais antigos do jornal, embora seu salário não seja tão compatível. Você tinha menos de vinte anos quando começou a trabalhar na Tribuna.

Foi por essa época que nós começamos a transar. Pouco depois me casei com o falecido Evandro Guimarães, rapaz bom, motorista de carreta. Ele só tinha vinte e nove anos quando bateu noutro caminhão em uma estrada do Pernambuco. Pelo menos me deixou esta casa.

Após dois pigarros, Jaime se manifestou:

— Quanto a mim, porém, está sem jeito. Já assinei os papéis e agora espero receber os meus direitos rescisórios. É isto. Não sou cunhado do mandachuva, não procriei com nenhuma irmã dele. É possível, Reginaldo, que a sua cabeça não role. Já eu tenho que me virar, arrumar outra coisa para fazer ou outro jornal. Posso tentar uma vaga de revisor no Diário do Oeste. Ouvi dizer que o velho Fernando Nonato está prestes a se aposentar.

Além disso, enquanto não consigo assinatura na carteira, restam os livros dos autores locais. O que não falta neste município de Mondrongo, como costumo dizer, é gente querendo se tornar escritor. Até a promoter Lourdes Ramos, nova imortal da Academia Mondronguense de Letras, lançou uma biografia criminosa acerca da vida sacerdotal e política do bispo Dom Adriano Santana.

Reginaldo Marinho se levantou de repente, tirou o telefone do bolso e consultou as horas. Em seguida atochou o restinho da guimba no cinzeiro e avisou aos demais que estava indo embora para enfrentar Alberto Cardoso na Tribuna Mondronguense. Faltava uma meia hora para as onze. Ele teria tempo suficiente de se encontrar com o diretor administrativo e saber quais eram as suas intenções.

De calça jeans e tênis, abotoou mais dois botões da camisa azul-claro de mangas longas. Tais mangas estavam dobradas na metade dos antebraços. Realinhou também o colarinho e penteou o liso e farto cabelo com as pontas dos dedos. Estava ali um sujeito caucasiano, bem-apessoado, cerca de um metro e setenta, orçando pelos trinta anos, idade próxima à de Jaime, que está com trinta e dois.

Reginaldo deu um leve beijinho no rosto de Laura. Antes de realmente sair, por enxergar no Peçanha não meramente um colega de redação, mas também um amigo e integrante do tal “triângulo amoroso”, estirou o braço para Jaime e trocaram um aperto de mão. Mão esta, ressalte-se, vinda direto de mais um coito com a esposa terceirizada de Jaime. Este, por ter sido Reginaldo quem lhe apresentara Laura e contribuíra para que ela e Jaime ficassem juntos, não nutria raiva alguma contra o primo incestuoso da mulher. Não conseguia sentir nem mesmo ciúmes do homem que fornicava com aquela a quem ele, apesar da relação promíscua, tinha por esposa.

— Boa sorte com o Alberto — falou Jaime.

— Obrigado, meu caro. Vou lá enfrentar a fera.

Jaime acrescentou com o vestígio de sorriso:

— Acho realmente que ele vai livrar o seu pescoço.

Reginaldo respondeu com uma pitada de ironia:

— Afinal de contas durmo com a irmã caçula dele.

— Dê notícias — disse Laura, de braços cruzados.

— Claro! Assim que eu puder — prometeu.

Quando Reginaldo saiu, Laura avisou a Jaime:

— Agora eu vou tomar um banho. Depois, tim-tim por tim-tim, me explique essa história da sua demissão e o que espera conseguir daqui por diante. Mas a conversa vai ser no quarto, na cama. Quero você daquele jeitinho.

Decorrido algum tempo Laura e Jaime pegavam fogo sobre os lençóis limpos que ela substituíra. Ele, ao contrário de Reginaldo, custava a atingir o clímax. Enquanto isso, em meio a gemidos e contorcionismos, ela extravasava, dizia expressões chulas e tinha múltiplos orgasmos. Algo que não conseguia com o primo.

Entre quatro paredes, então, eles se entendiam.

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2.

Marcos Ferreira é escritor

O sonhador

Por Inácio Augusto de Almeida 

Anoitece em Mossoró e caminhando para casa, após um dia de trabalho no balcão de uma loja, minha atenção é despertada por um menino vivo, esperto.

Vi o menino na praça do PAX e logo imagino que não fita morrote, mas se entrega a devaneios olhando fotos do Himalaia.Book.

Irrequieto, denota ser possuidor de uma inteligência incomum. Seu desassossego chamou a minha atenção.

Caminhando, carregando na cabeça a figura daquele garoto, apresso o passo pois ainda tenho o colégio onde alterno história com geografia.

Depois de muito falar de oceanos, continentes, Tiradentes e Celina, retorno para o merecido descanso.

Noite carrancuda, sem lua e sem estrelas, apenas nuvens que trazem o agradável cheiro de chuva.

Vejo populares em volta de um corpo coberto com folhas de jornal. Aproximo-me por força do impulso que sentimos para testemunhar tragédias.

Olho e fico estarrecido.

Era o garoto irrequieto.

Ouço comentários de que tentara furtar a bolsa de uma mulher e um passante sacou do revólver e fez vários disparos. Um senhor gordo olhou e rindo disse que bandido bom é bandido morto.

O filete de sangue não trazia a lua para o chão, porque lua não havia na noite escura que, para mim, se tornou mais escura.

Outro dia, mais uma vez o balcão da loja.

Lembro dos meus alunos e busco uma maneira de fazer mais do que falar de continentes e fantasiar histórias criando heróis de mentirinha.

O menino estirado na calçada era como se fosse todos os meus alunos.

No noticiário um imbecil a dizer que tinham dado baixa no CPF de um drogado…

Droga, sempre a maldita droga a desgraçar nossos jovens.

O que fazer para afastar os jovens desta peste?

O esporte se mostrou incapaz de sozinho distanciar a garotada do vício maldito. A especulação imobiliária varreu os campinhos de futebol. Nos colégios quadras esportivas ociosas porque administradores não investem um centavo para estimular o esporte.

Como afastar os jovens das drogas sem contar com apoio do poder público?

Teresa de Calcutá me surge com aquele sorriso e os olhinhos cheios de amor.

Leitura, leitura, desperte nos jovens o gosto pela leitura.

Assustei-me. Tinha certeza de ter visto a Santa e ter escutado a sua voz mansa e amorosa. E antes de perguntar como despertar nos jovens o gosto pela leitura ouvi que criação de concurso literário bastaria. Que os prêmios eu buscasse consegui-los pedindo ou até esmolando.

Ela viera para me mostrar o caminho.

Naquela noite, ao invés de aula, pedi aos alunos que escrevessem uma história qualquer.

Surpreendi-me com a criatividade dos estudantes.

Resolvi fazer um concurso literário entre meus alunos e prometi prêmios em livros que compraria para os melhores colocados.

Não sabia onde arranjar dinheiro para os livros. Sabia que tinha despertado naqueles jovens o gosto pela leitura. E isto me dava uma enorme tranquilidade. Senti ser verdade que nenhum bem faz mais bem ao coração do que o bem do amor.

A notícia se espalhou e de todos os lugares livros chegavam.

E foi a partir da ideia do sonhador, inspirado por Santa Madre Teresa de Calcutá, que nas escolas de Mossoró as crianças foram despertadas para a leitura.

No ano seguinte a Secretaria de Cultura assumiu a realização do concurso literário em todos os colégios de Mossoró. Logo a seguir as faculdades passaram a ter concurso literário.

E assim surgiu a semana da literatura em Mossoró. Mossoró que passou a ser reconhecida como a Capital da Cultura.

O sol forte batendo no meu rosto despertou-me.

Inácio Augusto de Almeida é escritor e Jornalista

Autores locais ganham espaço para lançamento de seus trabalhos

Aberta na terça-feira (3), a 16ª edição da Feira do Livro de Mossoró (FLM) tem prosseguimento nessa quinta-feira (5) com uma sequência de atrações, valorizando também autores nativos. O evento funciona no Campus Central da Universidade do Estado do RN (UERN) de 9 às 21h, até à próxima sexta-feira (6).

16ª Feira do Livro de Mossoró acontecerá até à próxima sexta-feira (Foto: Jean Lopes)
16ª Feira do Livro de Mossoró acontecerá até à próxima sexta-feira (Foto: Jean Lopes)

Diversos autores potiguares têm espaço na programação para divulgação e lançamento dos seus livros. Alguns estão estreando e outros já são conhecidos do público.

Os lançamentos e as sessões de autógrafo acontecem no Espaço do Autor – nos turnos da tarde e noite. Estão agendados mais de 20 momentos para esses encontros ao longo dos quatro dias de feira.

Alguns dos nomes que estão no Espaço do Autor:

– Walter Silva (dia 05/05 – 16h) – Livro: “A gorda; beleza visível e invisível”

 César Guimarães e Symara Tâmara (dia 05/05) – Livros: “Réu do amor confesso e Infinita tarde finda”

 Marcos Vinicius (dia 06/05 – 16h) – Livros “A menina e o balanço e Contos da Boca da Noite”.

Autores da Uern

Com a Feira do Livro acontecendo dentro da Uern, as obras acadêmicas também ganharam uma programação especial no evento. Todos os dias, às 19 horas, professores e alunos da da instituição autografam e divulgam suas publicações no Espaço do Autor.

Fluxo de estudantes é um alento à literatura, conhecimento e lazer de bom nível (Foto: Jean Lopes)
Fluxo de estudantes é um alento à literatura, conhecimento e lazer de bom nível (Foto: Jean Lopes)

Mais de 700 mil pessoas já visitaram a feira ao longo das suas 15 edições. A Feira do Livro de Mossoró surgiu em agosto de 2005 com o objetivo de incentivar o hábito da leitura de uma maneira divertida e espontânea. Este ano, participam do evento 15 livrarias e editoras do Rio Grande do Norte e de outros estados do Brasil.

A 16ª edição da Feira do Livro de Mossoró conta com o patrocínio do Governo do RN e da Progresso Atacado, através da Lei Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura.

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“Não sei quantas almas tenho”, um livro para você possuir

Lançamento de livro de Cefas Carvalho - Bardallos Natal - 24 de Março de 2022Marcada a data do data do lançamento presencial do novo livro do jornalista e escritor Cefas Carvalho. Será na quinta-feira (24), em Natal.

Ele apresentará o título “Não sei quantas almas tenho” entre 17 e 22 horas, no  Bardallos Comida & Arte (R. Gonçalves Lêdo, 678 – Cidade Alta). O trabalho é recheado de contos e sairá pela Editora Penalux.

Segundo mostra Carvalho, “o livro contém 18 contos entre totalmente inéditos, alguns premiados e outros já publicados em impressos e nas redes sociais, e tem orelha do amigo e grande escritor Mário Sérgio Baggio, revisão de Andreia Braz e capa/projeto gráfico de Talita Almeida”.

Quem não puder ir, morando ou não em Natal e desejar adquirir o livro, pode procurar pré-venda pelo bate-papo do Facebook do autor (veja AQUI) ou seu WhatsApp (84) 99485-0236.

Nota do Canal BCS – Bom demais, cara. Se eu não puder comparecer, de algum modo vou abraçá-lo. Sucesso.

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