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Réquiem para Chico Rodrigues

Por Marcos Ferreira

Quarta-feira, 29 de setembro de 2021; dez horas e vinte minutos desta manhã de céu azul. Enquanto escrevo esta página de adeus, que há de ser mais de uma, o meu velho e bom amigo Francisco Rodrigues da Costa (o Chico de Neco Carteiro) é sepultado no mesmo túmulo em que há vários anos jaz a sua amada esposa Zezinha. Esta era a vontade do insigne areia-branquense, ele que adotou Mossoró como o seu segundo berço desde a juventude, isto há quase sete décadas.

À noite, coração apertado, eu fui ao velório. Lá permaneci por cerca de hora e meia. Ofereci meus pêsames aos familiares, sobretudo aos netos e bisnetos, visto que as duas únicas filhas do escritor são falecidas. No velório, entre muitos rostos desconhecidos, encontrei apenas dois representantes do universo literário mossoroense: os escritores Raimundo Antônio e Marcelo Almeida.

Charge de autoria do chargista, caricaturista e cartunista Túlio Ratto
Charge de autoria do chargista, caricaturista e cartunista Túlio Ratto

Creio que os literatos ausentes no velório foram ao enterro. Coisa que não fiz. Não reúno condições emocionais para encarar um momento como esse. Despedi-me de Chico Rodrigues, portanto, à noite. Foi o nosso último encontro; ao menos neste plano. Espero reencontrá-lo qualquer dia, quando deste mundo eu também me despedir. Aí retomaremos as nossas longas, quase infindáveis conversas, especialmente sobre literatura, música e inúmeros fatos de Areia Branca.

Ali no caixão, sob o transparente véu que lhe cobria o rosto, Chico Rodrigues estava lívido, com o ar sereno de quem cumpriu a sua jornada com leveza e bonomia, além de muita coragem e resiliência para enfrentar os duros golpes que sofreu ao longo da vida. Agora, após oitenta e oito anos de pé, firme e forte, o apaixonante cronista de Saudades e outros livros do gênero enfim descansa.

Não mais lhe ouviremos os maravilhosos chistes; não mais usufruiremos do seu bom humor por vezes ácido e zombeteiro. Não mais, ao menos por enquanto, testemunharei as suas tiradas, a sua verve espirituosa, estremecendo a barriga protuberante com uma gargalhada muda.

Chico não teve vida fácil, todavia, como poucos, ele sempre soube sorrir com uma facilidade que nos contagiava. Possuía o dom da boa prosa; e não só na oralidade, mas também na sua escrita saborosa.

Além de seu leitor cativo, daí a pouco me tornei seu revisor. Muita coisa que produziu, antes de enviar para publicação, ele confiava ao meu crivo. Daí por diante nossa amizade se tornou mais estreita. Frequentava a minha casa amiúde, bebíamos um cafezinho, ele aboletado em uma rede que eu lhe armava aqui na área da frente. Falávamos de tudo e de todos, no bom sentido, claro.

QUANDO MUITOS ESTAVAM ENTREGANDO OS PONTOS, baixando as cortinas no show da vida, eis que Chico Rodrigues resolveu iniciar a sua admirável carreira de escritor com mais de setenta anos de idade. Eu o conheci por volta do ano de 2004. À época ele escrevia crônicas para o jornal Gazeta do Oeste. Publicou quatro livros de crônicas e dois romances, já viúvo e após ter perdido duas filhas. Tais dissabores nunca foram capazes de contaminá-lo com amargura nem pessimismo.

Chico Rodrigues era (difícil usar o verbo nesse tempo!) um dos melhores escritores memorialistas do Rio Grande do Norte, opinião esta que compartilho com o escritor e crítico literário Manoel Onofre Júnior. Conquistou leitores de diversas partes do estado com suas crônicas eivadas de saudosismo e precisão histórica, sobretudo ao discorrer sobre as memórias de sua poética Salinésia.

Embora fosse um mau leitor declarado, “sem qualquer influência dos clássicos”, como ele próprio costumava dizer, escreveu uma das mais belas obras autobiográficas da literatura norte-rio-grandense, o romance Perdão (o primeiro), lançado em 2014 pela editora Sarau das Letras com prefácio do professor e escritor Aécio Cândido. Julgo importante ressaltar que nesse momento Chico Rodrigues já contava oitenta e um anos de idade, mas demonstrando fôlego de jovem literato.

Ultimamente, entretanto, o mossoroense de Areia Branca vinha acusando o peso da sua longeva existência. A voz suave estava quase sumida, cortada pela asma e pelo cansaço. Emagrecera sobremodo e perdera muito da sua habitual alegria e bom humor. Os olhos globulosos pareciam cada vez mais distantes. Há poucos dias recebi uma ligação dele às três da madrugada. Tomei um susto.

— O que foi, amigo? — indaguei por telefone.

— Nada, poeta. Só achei que estava acordado.

— Não com os remédios que tomo toda noite.

— Escritor de verdade escreve até altas horas.

Não era apenas isso. Insone, acometido por ansiedade, tomando medicação para esse transtorno, Chico carecia apenas conversar com alguém. Não fui o único a quem ele telefonou a horas mortas. A doutora Luzia Praxedes, por exemplo, sua amiga e esposa do escritor Clauder Arcanjo, recebeu algumas dessas ligações.

Sim, o cronista precisava tão somente trocar umas palavras com os amigos. Pareceu-me até que estivesse se despedindo de alguns de nós, inconscientemente.

Assim como o meu pai, muito da cultura de Chico Rodrigues advinha da música, que ele recitava com precisão devido à sua poderosa memória. Ao contrário do meu pai, não era bom cantor. Nem foi de modo algum um literato que viveu debruçado sobre leituras. Escrevia bem e bonito graças ao seu talento inato para contar histórias, especialmente aquelas já bastante recuadas no tempo.

Tinha o hábito de vincular os assuntos que debatíamos a uma determinada música. No meio de uma conversa, de repente, evocava uma letra e compositor para ilustrar seu raciocínio e comentários. Sabia de cor Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves, Sílvio Caldas, Noel Rosa, Cartola, Lupicínio Rodrigues, Orestes Barbosa.

Bem-humorado, costumava cantarolar para mim a canção “Quando eu me chamar saudade”, grande sucesso do Nelson Cavaquinho:

“Por isso é que eu penso assim

Se alguém quiser fazer por mim

Que faça agora

Me dê as flores em vida

O carinho, a mão amiga

Para aliviar meus ais

Depois que eu me chamar saudade

Não preciso de vaidade

Quero preces e nada mais”.

Peço desculpas, caro amigo Chico, por não lhe ter oferecido tais flores em vida. Não ao menos assim, publicamente. Os dias e anos vão passando e a gente imagina ter mais tempo. Agora aguardemos o nosso reencontro.

Marcos Ferreira é escritor