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Amigos virtuais, amigos reais

Redes sociais IIPor Odemirton Filho

Vi que nas minhas redes sociais tenho quase cinco mil amigos/seguidores. Cinco mil, vejam só. Fiquei impressionado com a quantidade, pois sou um simples mortal, sem fama e grana. Mais impressionado fiquei com a facilidade de hoje em dia fazermos amigos de forma instantânea, vapt vupt.

Por ter sido professor por quinze anos, creio ser a razão de tantos amigos virtuais. Talvez, se fizer uma triagem desses amigos, não atinja 1% por cento com os quais já sentei à mesa para tomar um café e jogar conversa fora. A maioria destes cinco mil amigos mal me conhece; e eu mal os conheço. Digo, conhecer de vera.

Não é preciso, é certo, uma ruma de tempo para uma amizade se firmar, pois há amizades formadas de chofre. Entretanto, para mim, amigos são aqueles forjados no dia a dia, no compartilhar de sonhos e dificuldades. Amigos, não somente de mesa de bar, mas amigos sempre à disposição para nos ouvir e ajudar. Amigos reais choram e riem ao nosso lado. Ora, nem alguns membros de nossas famílias são garantia de uma verdadeira amizade.

Como sabemos até os amigos de infância se distanciam. Cada um vai para um lado. A vida, por vezes, encarrega-se de afastá-los. Poucas amizades conseguem vencer o tempo. Contudo, quando conseguem, são amizades sólidas. As relações humanas na modernidade líquida são marcadas pela brevidade e pela fragilidade, substituindo laços duradouros por conexões passageiras, como bem disse Zygmunt Bauman.

Nas postagens das redes sociais, somente observamos fotos de momentos felizes, viagens, festas, entre outras ocasiões agradáveis. Poucos expõem suas angústias, dores da alma, pois, naquele universo virtual, só alguns estão prontos a ajudar. Não tenho nada contra os meus cinco mil amigos virtuais, é claro, estou apenas a dizer da superficialidade dessas relações. São muitos os amigos virtuais, poucos, os reais.

Aliás, li uma postagem nas redes sociais que dizia mais ou menos assim: “um dia você saiu com seus amigos de infância para andar de bicicleta e nem percebeu que foi a última vez”. Dos amigos com os quais andava de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente ainda restaram alguns “gatos pingados”.

Pois é, contam-se nos dedos de uma mão os amigos reais.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

A solidão do homem pós-moderno

Por Odemirton Filho

Ilustração Web
Ilustração Web

A vida em sociedade, como se sabe, exige múltiplos relacionamentos. O Homem, ser gregário por natureza, precisa do outro para satisfazer suas mais variadas necessidades, sejam pessoais, sentimentais, comunitária etc. Complementa-se no outro, ou busca-se esse complemento.

A modernidade, fundada no Iluminismo e no progresso da humanidade, trouxe o Homem à razão, como forma de ver e encarar o mundo. Outrora envolto em mística, é na modernidade que encontra a razoabilidade de sua conduta. Temos que:

O desenvolvimento de formas racionais de organização social e de modos racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio na própria natureza humana (Harvey, 2002, p.23).

Por outro lado, a pós-modernidade trouxe uma nova perspectiva, humana, social. Como salienta  Barbosa (1998, p. VIII)  “após se ter vivido a revolução técnico-industrial, que marcou profundamente os tempos modernos, pode-se dizer que a Pós-Modernidade traz, como principal característica, o seu aspecto cibernético-informático e informacional. Uma prova disso é que, no cenário pós-moderno, reinam mais estudos e pesquisas sobre a linguagem e a inteligência artificial”.

Pois bem. É o Homem um ser solitário. Apesar de viver cercado da tecnologia, com o mundo aos seus pés, resta o individualismo, marca inconteste da sociedade contemporânea. Vive-se para o outro, em razão de conceitos e paradigmas sociais que o impede de ser liberto. Isola-se em uma cúpula, poucos conseguem ser o que verdadeiramente são.

Os relacionamentos, sejam amorosos ou de amizade, desfazem-se de forma instantânea, ante a imperiosa necessidade de afirmar o próprio eu.  Renúncia e  tolerância são palavras proibidas.

Nas palavras de Bauman:

(…) “Mas quer dizer que estamos passando de uma era de ‘grupos de referência’ predeterminados a uma outra de ‘comparação universal’, em que o destino dos trabalhos de autoconstrução individual (…) não está dado de antemão, e tende a sofrer numerosa e profundas mudanças antes que esses trabalhos alcancem seu único fim genuíno: o fim da vida do indivíduo”. (BAUMAN, 2001).

A vida hodierna, nesse passo, nos leva a caminhos solitários, na busca incessante do ter, em detrimento do ser. A conquista do parceiro ideal e a cobrança de familiares e amigos exigem resultados, que nos fazem perder a individualidade, tornando-nos seres competitivos. Somos frios e, consequentemente, relativos na forma de se relacionar com o outro.

Não raro vemos em mesas de bar e confraternizações as pessoas se isolando no seu mundo virtual, sem ao menos se preocupar em travar um diálogo que os faça aproximar.

Vivemos longe, esquecemos o perto.

No campo sócio-político o isolamento é manifesto. Se unem momentaneamente, para acordos pontuais, esquecendo do objetivo público que deve permear sua vida. Apenas se toleram para alçar aos seus cargos públicos e se fecharem nos seus interesses.

Tem-se, portanto, que apesar de sermos gregários estamos nos individualizando, sempre na busca de nossos objetivos.

Estamos a esquecer o calor humano, de um aperto de mão ou de um abraço. Antes de ser moderno ou pós-moderno ainda somos humanos.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

Antes de partir

Por Carlos Santos

Ilustração de Bastian Weltjen/Getty Images
Ilustração de Bastian Weltjen/Getty Images

Nesses tempos em que tudo é muito fugaz, líquido – como definiu o sociólogo polonês Zygmunt Bauman -, a morte como fim definitivo do indivíduo, da matéria, não tem a devida paz. Nem ela. Testemunhamos experimentos que buscam a eternidade in vitro. Ou a longevidade máxima através de complexos vitamínicos e exaustão física sob peso de marombas. Todos, todas, todes e toddynhos pensam que viver muito é viver.

Surgiu até a “compostagem humana” nos Estados Unidos, onde o capitalismo ganha sempre, tirando de vivos e mortos o máximo possível. Nesse método de ‘reciclar’ o finado, o cadáver passa por processo químico e de decomposição com produtos naturais, para se transformar em “solo utilizável.” Um adubo, digamos.

A parentada pode levar para casa e espalhá-lo no jardim, onde dividirá o solo gramíneo com o cocô do bichano e aquela frutinha que se esparramou no chão, lá se decompondo. Enfim, o fim nada edificante, coabitando o lugar com o que apodrece e pisoteado todos os dias por quem lhe amava (ou detestava em silêncio).

Vida louca vida, vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida, vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa

(Cazuza em Vida, louca vida)

Essa resistência em partir é muito humana. Contudo, não faz parte do mundo líquido de Bauman, sem dúvidas.

Nem todos pensam e agem assim. Diagnosticado com câncer, o genial jornalista, escritor e cronista Rubem resolveu que não se submeteria à qualquer tipo de tratamento.

Ele optou pela cremação, para que as cinzas do seu corpo fossem dispersas no rio de Cachoeira de Itapemirim-ES, sua terra natal. Tudo em data, local e horário que só um núcleo familiar soubesse e o filho Roberto sacramentasse. Já tinha feito as despedidas em vida.

No livro Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antônio de Carvalho, publicado em 2007, o autor narra esquisitices que muitos pensavam ser lenda, quanto aos preparativos à viagem sem volta do cronista, em 1990. Braga (olha só a minha intimidade) saiu do Rio de Janeiro para São Paulo, onde tratou dos detalhes da cremação em empresa do ramo, acostumada a torrar gente.

Uma funcionária muito educada quis apenas saber de quem seria o cadáver. “O cadáver sou eu!”

De adeus eu entendo. Por não saber me despedir, não acompanhei meus velhos à última morada. Só depois, dias depois, só eu e eles, pude chorar ao pé da cova e imerso no meu eu, enquanto balbuciava alguma oração que decorei – mal – na infância.

Por achar que doeria muito ver um amigo indo embora aos poucos, resisti em visitá-lo num leito hospitalar – mais consegui, só Deus sabe como. Foi nosso último encontro por aqui. À esposa, sobre minha ausência até então, quase acertou:

– “Carlos não vem. Ele não aguenta me ver assim.”

Previno-o nessas últimas linhas: essa não é uma crônica sobre a morte, embora pareça. Nem é epitáfio laudatório, mesmo que assim possa ser interpretado. Ao contrário de Brás Cubas, um defunto autor que só a cabeça criativa de Machado de Assis daria vida, cá estou para contar – do meu jeito – sobre o que é viver… antes de partir.

“Não tenho tempo a perder (…),” diria o poeta piauiense Torquato Neto, que resolveu ir mais cedo, sem nunca nos deixar.

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos

Diálogos com Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman (1925-2017), filósofo polonês, reflete sobre a individualização da sociedade contemporânea em entrevista exclusiva concedida a Fernando Schüler e Mário Mazzilli na Inglaterra.

Democracia, laços sociais, comunidade, rede, pós-modernidade, dentre outros tópicos analisados por uma das grandes mentes da contemporaneidade. Ele foi conferencista do Fronteiras do Pensamento 2011.

Escritor, palestrante, sociólogo e filósofo polonês, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia, Bauman temvmais de trinta obras publicadas no Brasil, dentre as quais “Amor líquido”.

Esse vídeo é uma produção do projeto Fronteiras do Pensamento (AQUI), iniciativa cultural emergente em Porto Alegre-RS em 2006. Traz ao Brasil conferencistas internacionais para abordagem de temática da contemporaneidade.

Através de cuidadosa curadoria, o projeto analisa o pluralismo das abordagens e do rigor acadêmico intelectual e escolhe os conferencistas que têm, em comum, premiações pela excelência teórica ou pela capacidade de transformar a sociedade.

Aproveite.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e Youtube AQUI.

No que acreditamos? Em quem pomos a nossa confiança?

Por Marcos Araújo

“Em Deus ponho a minha confiança, não terei medo: Que me pode fazer a carne?
Salmos 56:1-4

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), neste primeiro quartel do Século XXI a depressão é a doença  que tem o maior número de enfermos no mundo. O quantitativo de doentes excede até mesmo ao de infectados do coronavirus. Os estudiosos têm um diagnóstico auxiliar para justificar essa espécie de pandemia mental: a descrença absoluta em tudo, fruto desse “mundo líquido”, para citar o sociólogo Zygmunt Bauman.Este não é só o século das doenças mentais, é o Século das dúvidas e da perda de referencias. Estamos duvidando de tudo e de todos. E ninguém mais nos representa, e quase não temos mais a quem admirar. A construção da identidade social de um povo está sempre fundamentada na referência de um modelo humano, um comportamento, um líder que possa servir de exemplo.

No meio do caos, sempre esperamos uma voz altíssona, um grito ressoante para restaurar a ordem ou determinar um caminho a seguir.  Pelo visto, uma das desgraças aparentes da pandemia é a falta de um líder, no Brasil e no mundo.

Abraham Lincoln, por exemplo, mudou a mentalidade americana com a aprovação da 13ª Emenda à Constituição, pondo fim à escravidão, em dezembro de 1865. Nelson Mandela, Gandhi, e Martin Luther King, mesmo com um discurso amistoso, fizeram uma revolução. Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Charles de Gaulle, ainda que em ambiente de guerra, construíram a paz para o futuro. Poderia até citar nomes de um passado recente, como Margareth Thatcher, Jimmy Carter e Bill Clinton.

No momento dessa pandemia, falta um líder que promova uma ação coordenada mobilizando governantes de diversos países diante de um desafio que assume dimensão global. O Presidente do país mais rico do mundo, Donald Trump, na contramão histórica, fez foi querer comprar e “sequestrar” respiradores com destino às outras nações, num individualismo agressivo difusor de que respirators for Americans only (respiradores apenas para os americanos).

São escassos ou inexistentes os líderes até no campo religioso… Os exemplos estão vindo às avessas, como fizeram Padre Robson e Flor de Liz aqui no Brasil.  Muitos idosos incautos contribuíam financeiramente para o luxo e a luxúria do Padre.

Os que estão deixando de crer em Deus por causa desses dois desconhecem uma advertência que já havia sido feita pelo Papa Bento XVI: “Ao nos lembrar a finitude e fraqueza humanas, a religião nos conclama a não por nossa esperança final nesse mundo transitório”.

Não se pode culpar Deus pelo desvio dos homens. E nem mesmo por esse vírus. É justamente o inverso. Nesses tempos de insegurança vital e de convulsão econômica e social, devemos agradecer a Deus por cada dia vivido. Uma visão de fé não só é possível, mas é uma verdadeira necessidade para poder manter a calma. O desafio de nosso tempo é vencer o medo, a intolerância, a individualidade, o afastamento e a indiferença social, que tem levado a sociedade ao abismo espiritual e às doenças mentais.

O MEDO E A DÚVIDA são sentimentos inatos ao homem. Os próprios apóstolos de Cristo tiveram situações assim. A bíblia narra várias histórias nesse mote. Lembrando uma delas, Jesus de certa feita acalma a tempestade após a súplica dos apóstolos medrosos (cf. Mc 4, 35-41). Nesse episódio, Jesus pergunta para seus apóstolos: “por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. A fé implica numa atitude de confiança profunda, numa esperança desmedida.

Se teve Padre Robson e Flordelis para tisnar o mês de Agosto (como dizem, o mês do desgosto) e demonstrar a exploração da fé, é de ser lembrado que no mês de agosto a igreja católica comemora as vocações a partir do testemunho de dois grandes Santos da sua tradição: Santa Mônica e Santo Agostinho, respectivamente, mãe e filho.

A fé que transforma pode ser contada a partir de Santa Monica, que rezou por mais de 30 anos pela conversão de Agostinho, um homem de vida errônea. Durante essa peleja de três décadas, dizia ela continuamente ao filho:

“Uma única coisa me faz desejar viver ainda um pouco, é ver-te cristão antes de morrer!”. O desejo, como conhecido, foi concretizado, falecendo Santa Mônica dias depois.

Agostinho de Hipona, o filho convertido, foi um dos mais importantes teólogos e filósofos nos primeiros séculos do cristianismo. Suas obras-primas De Civitate Dei (“A Cidade de Deus”) e “Confissões”, são muito estudadas desde o século IV. Deixou cunhada uma das mais arrebatadoras orações de todos os tempos:

– “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro e eu fora te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava.” Confissões, X, 27, 30).

Confiar nos outros nem sempre é natural ou fácil. Porém, a desconfiança sem causa é uma doença. Confiar, trair e perdoar são ações próprias do ser vivente. A antítese a esses verbos é a insensibilidade, adjetivo inato ao morto-vivo, aquele que jaz sem espírito e sem vida.

Em tempos tão difíceis, onde morrem todas as utopias, onde todos os nossos sonhos estão interrompidos, é preciso ter esperança e fé. Como musicou Nelson Cavaquinho, “o sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente.” Tudo passa. Isso também passará! Aos que resistirem aos efeitos maléficos desse tempo com o “quengo” ainda no lugar, pode exclamar e bradar em voz alta repetindo São Paulo: “eu sei em quem depositei a minha fé” (2Tm 1,12).

Marcos Araújo é professor e advogado

A banalidade e decadência da cultura atual

Por Honório de Medeiros

Em 23 de novembro de 2015, causou celeuma uma “performance”, denominada “Macaquinhos”, na qual os atores exploravam os ânus uns dos outros, apresentada em uma unidade do Sesc em Juazeiro do Norte, no Ceará. Foi notícia nacional.

“A performance mostrava um grupo composto por homens e mulheres totalmente nus, em círculo, explorando com as mãos o ânus do companheiro a frente. De acordo com os artistas Caio, Mavi Veloso e Yang Dallas, idealizadores do projeto, a apresentação tem o intuito de ‘ensinar que existe ânus, ensinar a ir para o ânus e ensinar a partir do ânus e com o ânus’.”

Em agosto de 2017, o Santander Cultural abriu suas portas para a primeira exposição “queer” realizada no Brasil. De origem inglesa, o termo é utilizado para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou de gênero definido – notadamente gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.Choveram denúncias nas redes sociais de pedofilia e zoofilia, principalmente para duas obras em especial: “Cenas do Interior II” (1994), de Adriana Varejão, que teve uma cena em que um homem penetra uma cabra, e “Travesti da Lambada e Deusa das Águas” (2013), de Bia Leite, que faz referência ao meme da internet “criança viada”.

Também há menção a um vídeo que mostrava um homem recebendo um jato de sêmen no rosto. A obra é intitulada “Come/Cry” e é assinada pelo “artista” Maurício Ianes. O nome do artista consta na lista entregue ao Ministério da Cultura como um dos autores das obras expostas no Queermuseu.

Mais recentemente, em uma performance na abertura do 35º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, o artista fluminense Wagner Schwartz se apresentou nu, no centro de um tablado. Em vídeo que circula nas redes sociais, sob fortes críticas, uma menina que aparenta ter cerca de quatro anos aparece interagindo com o homem, que estava deitado de barriga para cima, com a genitália à mostra.

Agora, recordo Bárbara Tuchman, em A Prática da História:

– “O maior recurso, e a realização mais duradoura da humanidade, é a arte. O domínio da linguagem demonstrado por Shakespeare e seu conhecimento da alma humana; a complicada ordem de Bach, o encantamento de Mozart”.

Serão, esses, sintomas da decadência da cultura? O decadente, na arte, o banal, o medíocre, o aviltante, exerce sua tirania destruidora tanto quanto a proibição da liberdade de expressão estética.

Entretanto não é somente a possibilidade da presença permanente do fenômeno da decadência, a ser questionado. É sua banalização. A banalização da decadência.

O livro de Llosa, Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo, cujo título foi calcado no A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século, deixa confortável quem procura um texto, de melhor qualidade, que dê respaldo a essa sensação permanente de estranhamento e solidão, vivenciada por muitos, originada pelo descompasso entre a “cultura” na qual fomos criados e a realidade que encontramos nos dias de hoje. Não é, portanto, “saudosismo”, o que sentimos.

Há, de fato, um progressivo e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendidos como pressupostos da construção do processo civilizatório. Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa, em Notas para uma definição de cultura, de 1948, tão atual, posto que, por exemplo, lá para as tantas, expõe:

– “E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura.”

É bem verdade que em ensaios tais como A civilização do espetáculo, e Breve discurso sobre a cultura, Vargas Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse fenômeno, muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais e animada pelo espírito de lucro, motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força motriz que que conduz o processo de destruição da cultura tradicional.

Llosa não nos oferece uma teoria que explique tudo. Para Llosa, por exemplo, civilização do espetáculo é “a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal.”. Trata-se de uma constatação.

COMO NÃO LEMBRAR do personagem de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, em seu permanente solilóquio:

– “O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?”

Entendo, embora possa estar enganado, que Zygmunt Bauman em sua obra acerca da “vida líquida”, “modernidade líquida”, também não o conseguiu. Sua preocupação era descrever um fato, ou melhor, um fenômeno social, o processo civilizatório por nós vividos hoje.

Bauman disse:

– “A vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante”; nas quais “as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades.”

Eu me pergunto, então, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa “vida precária” em “condições de incerteza constante” uma fase do processo evolucionário acerca do qual teorizou Darwin?

Somos hoje, ainda, devedores, nesse aspecto de tentar entender o padrão oculto que rege os fenômenos, de Freud, Marx e Darwin, por assim dizer. Mas não é o caso de abordar esse tópico por aqui.

Aqui apenas registro o alívio em constatar que não estamos errados quando nos sentimos órfãos de uma cultura, uma “Paideia” que, desde os meados do século XX, vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás. Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea.

É a banalização da cultura…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Uma batalha para lembrarmos de Florence, Albert e Raoul

Por Marcos Araújo

Zygmunt Bauman, professor emérito das universidades de Leeds (Inglaterra) e Varsóvia (Polônia), um dos mais importantes sociólogos da atualidade, disse que vivemos uma modernidade líquida. Para ele, são características da modernidade líquida a substituição da ideia de coletividade e de solidariedade pelo individualismo. Para ele, as relações afetivas se dão por meio de laços momentâneos e volúveis (amor líquido). Por sua teoria, o sentimento pelo próximo é uma quimera.

A teoria da “modernidade líquida” de Bauman, de uma suposta individualidade e da perda do sentimento de coletividade não se sustenta nessa pandemia, diante do árduo trabalho e do devotado esforço em salvar vidas desempenhados por enfermeiras(os) e médicas(os) em seus ambientes ocupacionais.Em tempos de coronavírus, enfermeiros e médicos (sem indicação de sexo e ficando no gênero humano), têm sido a marca perene do que há de esperança para a humanidade. Correndo risco pessoal, diuturnamente eles têm se exposto arriscadamente em prol dos seus pacientes, já se contando às centenas o número de óbitos desses profissionais da saúde.

Uma coisa pode ser dita: num tempo em que escasseiam os lideres (políticos, religiosos, sociais e profissionais), as(os) médicas(os) e enfermeiras(os) têm sido os únicos elementos remanescentes de um mundo catársico que esperanceia salvação.

Como prova de amor ao próximo na área da saúde, numa recordação de antecedência histórica, trago à memória Florence Nightingale, Albert Schweitzer e Raoul Le Clezio, uma enfermeira e dois médicos, respectivamente.

No dia 12 de maio último, fez 200 anos do nascimento de FLORENCE NIGHTINGALE. Nascida em Florença (por isso o nome “Florence”), com o sobrenome Nightingale (rouxinol), à semelhança do pássaro, ela “cantaria” de dia e de noite em favor dos seus pacientes. Em 1859 ela criou a primeira escola de enfermagem do mundo, no Hospital St. Thomas, em Londres.

Também é dela a Teoria Miasmática, método utilizado na época em hospitais considerados avançados como o de Paris, onde a limpeza e a assepsia dos ambientes são indicados como meio de cura, provando que as doenças poderiam ter origem espontânea em locais escuros e do contato com o lixo. Foi ela a primeira mulher enfermeira a participar de uma academia de ciências.

ALBERT SCHWEITZER era um médico alemão de classe média alta, primo de Jean-Paul Sartre, que mesmo sendo um intelectual (um dos melhores intérpretes de Bach de sua época) e professor louvado na sua região, deixou todo o seu prestígio e conforto da sua terra natal e migra para o Gabão.

Ao chegar na África, se deparou com muita pobreza e sofrimento, fazendo de um galinheiro o seu consultório, enfrentando obstáculos como o clima hostil, a falta de higiene, o idioma que não entendia, a carência de remédios e instrumental insuficiente.

Banca a construção de um hospital com recursos próprios, tratando seus pacientes com tanta dedicação que lhe fez merecer o premio Nobel da Paz, em 1952. Nunca deixou a África, estando enterrado em Lambaréné, Gabão.

Por fim, RAOUL LE CLEZIO. Médico inglês, oficial militar que enviado em campanha para a Nigéria na época da guerra, por lá ficou até o fim da vida. Apenas lembrando, Nigéria era uma colônia inglesa.

Seu filho, o escritor Jean Marie Le Clezio, prêmio nobel de literatura em 2010, conta a vida do seu pai na premiada obra “O Africano”. Causa espécie e perplexidade ao filho, escritor famoso, o fato do seu pai, um homem de muita formação e relativamente de posses, ter optado por viver solitário na África, tratando “de vítimas de malária ou de encefalite” (p. 43).

Ao visitar o pai, em seu consultório improvisado (uma cabana no meio do nada), Jean Le Clézio narra a verdade da realidade africana, destoante da Europa onde vive, a partir da análise do corpo desnudo de uma senhora:

– “O corpo nu dessa mulher feito de dobras, de rugas, sua pele como um odre vazio, seus seios longos e flácidos, caindo sobre a barriga, sua pele rachada e desbotada, meio cinzenta, tudo isso me pareceu estranho e, ao mesmo tempo, verdadeiro” (CLÉZIO, 2012, p. 11).

A escolha de Raoul foi gratuita e altruística, permanecendo na Nigéria até a sua morte. Presumiu seu filho que a sua estada poderia ter sido para “escapar da mediocridade da vida inglesa” (p.43).

Uma coisa os três exemplos acima citados tinham em comum: assumiram suas missões ainda muito jovens.

Nesse tempo pandemônico (e não mais pandêmico), a salvação tem vindo dos herdeiros etiológicos e descendentes profissionais de Florence, Albert e Raoul.

Em que pese haver muitos profissionais experientes e maduros à frente do “teatro de operações de guerra”, que são esses nosocômios improvisados, onde tudo falta, marca muito a atuação dos mais jovens.

Recém-saídos das universidades de Enfermagem e Medicina, alguns até abreviados na formação educacional-curricular por força de ato governamental, têm sido eles arregimentados como “soldados” para se postarem no front contra o coronavírus.

Para esses jovens, a meninice foi suplantada, o riso foi suspenso, a alegria interrompida e os sulcos da preocupação passaram a marcar a silhueta dos seus rostos. Nem à tradicional festa de colação de grau tiveram direito.

Como bem os definiu recentemente o célebre pintor inglês Banksy, num quadro em que uma criança troca bonecos de super-heróis conhecidos por um boneco de uma enfermeira como super-heroína, são os profissionais da saúde verdadeiros heróis. Aliás, a palavra herói nem os define com precisão. Melhor dizer que são mártires. A palavra “mártir”, vem do grego “martys” e seus termos afins “martyria”, “martyrion”, significando testemunha.

De fato, no sentido cristão, mártir é aquele que dá a sua vida pelo próximo. João Batista foi o primeiro mártir do Novo Testamento, sendo tirada a sua vida por denunciar os opressores (Mc 6,17-29). Pedro e Paulo, as duas colunas da Igreja, também sofreram o martírio, por ordem do imperador Nero.

As Igrejas cristãs (católica e evangélica), que nasceram de um Jesus Cristo morto na cruz, inspiradas pelo derramamento do sangue de inocentes, presentemente são fortalecidas pelo testemunho de mulheres e homens que, independentemente de credo, por causa da profissão de enfermeiros e médicos, oferecem suas vidas em favor da salvação de outros.

Como “guerreiros” que não temem o “bom combate” (lembrando as palavras de Paulo, apóstolo), esses jovens médicos e enfermeiros são edificadores de uma história de heroísmo e compaixão no trato de milhares de “cristos” padecentes de uma crucificação viral que atomizou o mundo, orgulhando em muito sua antecedência genealógica.

Eles já são vitoriosos pela militância inauguradora de uma nova ordem de defesa da vida, edificadores de uma nova moral filosófica que derrota a “modernidade líquida” de Bauman, a ressignificar palavras que estavam em desuso, como fraternidade, alteridade, caridade e amor ao próximo.

Esses jovens fazem antítese a uma medicina negocial, exploradora e financista, que graças a Deus – e a eles – necrosou.

É por minha sobrinha Isadora Araújo, os irmãos Iago e Iuri Estrela, os também irmãos Matheus e Gabriel Silveira, por Emanuel Nobre, por Hélio Silva, Arthur Diógenes e milhares de outros jovens médicos que estão destemidamente no campo de batalha, que elevo a minha prece a Deus.

São eles arautos da nossa esperança de um mundo melhor, mais justo e humano.

E que seja sem doenças!

Marcos Araújo é professor e advogado

Concentração – Você consegue?

Por Honório de Medeiros

A ciência começa a comprovar algo que o senso comum já constatara: estamos ficando cada dia mais limitados na nossa capacidade de concentração, principalmente em tarefas de natureza abstrata, tal qual ler um livro.

Em “A Civilização do Espetáculo” Mário Vargas Llosa especula, a esse respeito, por vias transversas, enquanto descreve a banalização da cultura contemporânea na medida da nossa opção pelo entretenimento ligeiro, de conteúdo pobre e forma atraente, em detrimento da complexidade da anterior herança cultural comum.

Não aponta causa específica para o fenômeno, mas alude, obliquamente, à onipresença imperiosa, por trás dos panos, da incessante busca pelo lucro.

Em outra face da questão o filósofo americano Michael J. Sandel, autor do aplaudido “Justiça” menciona, em “O que o Dinheiro não Compra”, corroborando Llosa, o poder avassalador do mercado a dominar tudo e todos, corações e mentes, e suas consequências no universo moral.

Quem diz mercado, diz lucro.

Daniel Coleman, famoso psicólogo americano professor em Harvard, criador do conceito de “Inteligência Emocional”, pondera acerca do déficit de atenção cada vez mais profundo em nossa civilização, decorrente da escravidão às redes sociais, a originar uma demanda, no futuro, instaurada pelo próprio mercado, de em relação a todos quanto sejam capazes de se concentrar em tarefas de médio e longo prazo.

E se quando o mercado reagir a catatonia (alienação) já estiver plenamente estabelecida?

Acerca do fenômeno da volatilidade das percepções, causa e consequência desta atual fase do capitalismo, discorre Bauman com excepcional clareza em suas obras, de caráter mais filosófico que sociológico. Somos uma sociedade evanescente, diz ele, na qual a transitoriedade de tudo, cada vez mais acentuada e veloz, será o único fator permanente.

Ou seja, mercado, lucro, redes sociais potencializadoras, volatilidade, déficit de atenção, tudo está interconectado.

Ainda em outra face – são mesmo muitas, para a mesma realidade – Moisés Naím especula acerca da fragmentação do Poder, como o conhecemos, em consequência dessa realidade volátil, evanescente, permanentemente transitória, efeito, entre outras coisas, dos meios por intermédios dos quais ela é alimentada e cresce, ou seja, por exemplo, a rede social e a interconectividade.

O que estaria por trás de tudo isso? Como chegamos a esse patamar? Que teoria explicaria esse fenômeno em sua inteireza?

A menção, feita por Llosa, Sandel, tanto quanto Michel Henry e Debord, estes aqui ainda não citados, mas que também especulam acerca de faces dessa mesma questão social, e a onipresença do mercado poderia dar razão ao Marx sociólogo, embora não a aquele do materialismo dialético. Ou à teoria da seleção natural de Darwin, do qual o capitalismo seria uma consequência, digamos assim.

Nesses casos bem vale o dito atribuído a Proust: “o tempo é senhor da razão.”

Ressalve-se, apenas, que as tentativas para conter a alienação, quando e se acontecerem, promovidas seja pelo próprio mercado, seja pelo Estado, poderão encontrar um status quo irreversível. Isso acontecendo, tendo como causa um brutal nivelamento por baixo em termos de capacidade de apreensão, de cognição, de capacidade de pensar em termos complexos, perdemos todos. Concretamente viveremos a realidade das escolas no Brasil, hoje: cada dia mais alunos, cada dia menos conhecimento.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do RN

Carência de leitores

Por Odemirton Filho

Em recente entrevista o filósofo contemporâneo Jürgen Habermas afirmou: “não pode haver intelectuais se não há leitores”. Ressaltou, ainda, que a sociedade atual não aprendeu a lidar com as redes sociais de forma civilizada.

Com efeito, a carência de leitura é um dos problemas que estamos a vivenciar.

Lemos pouco.

Estamos “viciados” nas redes sociais e as leituras que realizamos são, no mais das vezes, superficiais, sem a profundidade que um sólido conhecimento exige.

Como é sabido, qualquer formação pessoal requer estudo e, sobretudo, leitura, para que se tenha um embasamento consistente e poder de argumentação.

Aliás, li, recentemente, que opinião não é argumento, mas apenas uma crença de quem opina, sem qualquer fundamento.

Atualmente, qualquer dúvida pode ser pesquisada, de pronto, consultando-se à internet.

Com essa consulta achamo-nos detentores do conhecimento e aptos a discutir, com propriedade, qualquer assunto.

Não se pode, é certo, deixar de creditar as redes sociais essa socialização do saber, mesmo que de forma superficial.

Contudo, é lugar-comum na formação educacional as leituras rasas.

O estudo, não raro, resume-se aos “slides” dos professores ou aos esquemas de determinadas matérias.

Os docentes que cobram leitura mais aprofundada são tachados de “carrasco” ou outros epítetos.

A construção do conhecimento exige dedicação e profundidade. A liquidez na leitura, usando a expressão de Zygmunt Bauman, torna-nos intelectualmente frágeis, sem a densidade que o mundo competitivo exige.

Qualquer texto que contenha mais de duas folhas ou que requeira cinco minutos de atenção já dispersa o leitor.

Como sabemos, vários fatores podem ser destacados para essa carência de leitores, evasão escolar, falta de incentivo por parte dos pais, escolas sucateadas, professores desestimulados, entre outros.

Desta forma, em razão desse quadro desalentador, há um longo caminho para transformar essa realidade e tornar o Brasil um país de leitores.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

A solidão do homem pós-moderno

Por Odemirton Filho

A vida em sociedade, como se sabe, exige múltiplos relacionamentos. O Homem, ser gregário por natureza, precisa do outro para satisfazer suas mais variadas necessidades, sejam pessoais, sentimentais, comunitária etc. Complementa-se no outro, ou busca-se esse complemento.

A modernidade, fundada no Iluminismo e no progresso da humanidade, trouxe o Homem à razão, como forma de ver e encarar o mundo. Outrora envolto em mística, é na modernidade que encontra a razoabilidade de sua conduta. Temos que:

O desenvolvimento de formas racionais de organização social e de modos racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio na própria natureza humana (Harvey, 2002, p.23).

Por outro lado, a pós-modernidade trouxe uma nova perspectiva, humana, social. Como salienta  Barbosa (1998, p. VIII)  “após se ter vivido a revolução técnico-industrial, que marcou profundamente os tempos modernos, pode-se dizer que a Pós-Modernidade traz, como principal característica, o seu aspecto cibernético-informático e informacional. Uma prova disso é que, no cenário pós-moderno, reinam mais estudos e pesquisas sobre a linguagem e a inteligência artificial”.

Pois bem. É o Homem um ser solitário. Apesar de viver cercado da tecnologia, com o mundo aos seus pés, resta o individualismo, marca inconteste da sociedade contemporânea. Vive-se para o outro, em razão de conceitos e paradigmas sociais que o impede de ser liberto. Isola-se em uma cúpula, poucos conseguem ser o que verdadeiramente são.

Os relacionamentos, sejam amorosos ou de amizade, desfazem-se de forma instantânea, ante a imperiosa necessidade de afirmar o próprio eu.  Renúncia e  tolerância são palavras proibidas.

Nas palavras de Bauman:

(…) “Mas quer dizer que estamos passando de uma era de ‘grupos de referência’ predeterminados a uma outra de ‘comparação universal’, em que o destino dos trabalhos de autoconstrução individual (…) não está dado de antemão, e tende a sofrer numerosa e profundas mudanças antes que esses trabalhos alcancem seu único fim genuíno: o fim da vida do indivíduo”. (BAUMAN, 2001).

A vida hodierna, nesse passo, nos leva a caminhos solitários, na busca incessante do ter, em detrimento do ser. A conquista do parceiro ideal e a cobrança de familiares e amigos exigem resultados, que nos fazem perder a individualidade, tornando-nos seres competitivos. Somos frios e, consequentemente, relativos na forma de se relacionar com o outro.

Não raro vemos em mesas de bar e confraternizações as pessoas se isolando no seu mundo virtual, sem ao menos se preocupar em travar um diálogo que os faça aproximar.

Vivemos longe, esquecemos o perto.

No campo sócio-político o isolamento é manifesto. Se unem momentaneamente, para acordos pontuais, esquecendo do objetivo público que deve permear sua vida. Apenas se toleram para alçar aos seus cargos públicos e se fecharem nos seus interesses.

Tem-se, portanto, que apesar de sermos gregários estamos nos individualizando, sempre na busca de nossos objetivos.

Estamos a esquecer o calor humano, de um aperto de mão ou de um abraço. Antes de ser moderno ou pós-moderno ainda somos humanos.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

As incógnitas de cada dia

Por Paulo Linhares

É bem certo que a palavra “incógnita” não deveria compor o título de um texto destinado ao grande público, sobretudo, aquele diariamente ‘arranchado’ no chão instável das redes sociais. Todavia, vai ela mesma à míngua de qualquer outra capaz da expressar a enorme expectativa que causam as eleições de 2018, nestes dez meses de sua realização.

A expectativa, neste caso, é traduzida em diversos impactos causados por mudanças legislativas, em especial a proibição de financiamento de campanhas ou candidatos por empresas privadas, além do comprometimento dos maiores partidos políticos e suas principais lideranças em processos judiciais em que são apurados graves casos de corrupção, como na Operação Lava Jato, Operação Zelotes etc., cujas condenações poderão impedir a participação no processo eleitoral, como candidatos, de expressivas figuras da política brasileira.

Essas incógnitas impõem dificuldades em se traçar previsões acerca das próximas eleições (quase) gerais deste 2018. Os diversos ‘pontos cegos’ levam a incertezas e, por conseguinte, a insegurança jurídica e, ainda, alimenta uma forte desconfiança do mercado, o que não deixa de aprofundar a aguda crise econômica e fiscal que se abate duramente sobre o Brasil.

O mais grave é que não se pode vislumbrar, desde agora, como caminhará o novo governo central a partir de 2018, que forças estarão hegemonizando o poder federal, a presidência da República, a partir de 1º de janeiro de 2019. No movediço cenário politico brasileiro atual, nem os mais hábeis videntes arriscam um palpite: tudo pode ocorrer, a eleição de uma figurinha carimbada da política ou alguém que nunca militou na política, mas, noutras atividades, os chamados outsiders.

De um ou de outro modo, como no belo filme de Fellini, e la Nave va, a sociedade brasileira há de transpor todos os obstáculos que ora atravancam a sua caminhada, sem se afastar dos marcos da democracia que balizam a Constituição de 1988. No processo de evolução das instituições jurídico-políticas são inevitáveis os solavancos na política, na economia, no direito e até no campo da ética, tudo como ‘fermeto’ imprescindível ao processo evolutivo dos povos.

A superação desses óbices criam algo que, à falta de melhor definição, pôde-se chamar de “anticorpos sociais”, resultando num feixe de ricas interações dialéticas que se projetam e se incorporam no cotidiano das pessoas. Basta ver, exempli gratia, o perfil do sistema eleitoral que o Brasil tinha há cinco décadas e aquele que será posto a prova, mais uma vez, nas eleições de 2018.

Outro exemplo de notável mudança social refere-se à  incapacidade relativa que traduzia os status civil e político da mulher brasileira, no começo dos anos 1960 e a posição que ela tem hoje na sociedade, fenômeno tão bem captado pelas lentes do pensador potiguar João Batista Cascudo Rodrigues, na sua monumental obra A mulher brasileira: direitos políticos e civis, edição de 2003, publicada pela Editora Projecto. Embora ainda deva superar graves problemas, como os corriqueiros casos de violência doméstica ou o tratamento desigual do trabalho feminino no mercado, além de outros, inegáveis os progressos das mulheres deste país.

É claro que numa conjuntura de crises múltiplas – ética, política e econômica -, como as que vive a sociedade brasileira, neste momento, as pessoas se abatem na medida em que perdem seus referenciais valorativos, mormente quando visivelmente percebem que “tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas,” tomando por empréstimo conhecida assertiva do filósofo Karl Marx.

Entretanto, esse preocupante esfumaçar de bem assentadas certezas não é o fim das coisas, mas, enquanto superação é apenas uma inevitável  passagem  ao estado de modernidade imediata, uma nova circunstância ‘leve’, ‘líquida’, ‘fluída’, ademais de veicular uma dinâmica bem superior àquela  que se esvaiu, como ensina  Zygmunt Bauman, na sua Modernidade líquida, de 1999.

Apesar disto, é claro que pessoas sofrem, se desesperam e até se autodestroem, quando não compreendem que o sofrimento, o vexame, os desencontros, as dores, são igualmente despidas de definitividade, passam, também se esfumaçar.

Por isto é que as incógnitas que rondam os processos históricos devem ser resolvidas à razão direta de suas aparições. Daí ser pouco importante, por exemplo, não ter claro quem será o presidente do Brasil a partir de janeiro de 2019.

Fundamental é a certeza líquida, leve e fluída de que os agentes políticos eleitos para os diversos cargos executivos ou parlamentares, em 2018, terão haurido legitimidade na Soberania Popular prefigurada no artigo 14 da Constituição, sem atalhos profanos ou renitentes vícios que ecoam de um passado mal resolvido. Então, toca para frente. E para o alto.

Paulo Linhares é professor e advogado

Dever de defesa – ridículas bravatas

Por Paulo Linhares

Uma das maiores conquistas jurídicas do gênero humano, de todos os tempos e latitudes tantas, foi a garantia da ampla defesa e do contraditório inserida nas principais constituições do mundo. Aos acusados em processos administrativos ou criminais deve ser assegurada a utilização de todos os meios e oportunidades de defesa, podendo valer-se de todas as provas lícitas e moralmente aceitáveis, além dos recursos (possibilidade de submeter a causa julgada a novos julgamentos por outros juízes) previstos legalmente.

Por seu turno, o contraditório traduz o direito instrumental que tem o cidadão de ser informado sobre todas as movimentações do processo de que é parte, para que nele possa intervir exercitado o seu direito de defesa, que no direito norte-americano é conhecido pela curiosa expressão  my day  in the court (meu dia no tribunal) ou  droit au juge (direito ao juiz) como reconhecido indiretamente pelo Conselho Constitucional, segundo sua reiterada jurisprudência que consagra ao cidadão o droit dagir en justice (direito de agir na justiça).


É útil demarcar, desde logo, que a garantia constitucional da ampla defesa e contraditório  (artigo 5º, inciso LV, Constituição Federal) foi estabelecida apenas em favor daqueles que – autor, réu ou o terceiro interessado como tal admitido – litigam em processos administrativos ou judiciais, não constituindo uma prerrogativa do juízo, ou seja, o juiz não pode compelir as partes de exercitar essa garantia processual, pois, assim, ao invés de faculdade seria mero dever.

Essa noção singela é lembrada a propósito da determinação do juiz Sérgio Moro, da circunscrição da Justiça Federal do Paraná, de que o ex-presidente Lula compareça atidas as audiências de inquirição das testemunhas que arrolou nas ações penais em que foi denunciado. Ao todo, a defesa arrolou 84 testemunhas, o que fez no exercício legítimo da garantia da ampla defesa e contraditório. Nada alarmante ou despropositado. Qualquer ato que impeça a oitiva dessas pessoas, por parte do juiz, configurará cerceamento ao direito de defesa de acusado e poderá ser motivo de nulidade do processo.

Assim, se à primeira vista possa parecer exagerado esse número de pessoas a ser ouvido, devem ser garantidas ao denunciado as mais amplas possibilidades de provar sua inocência, independentemente de ser ele um ex-presidente da República. No entanto, embora os acusados em processos penais devam comparecer obrigatoriamente a certos atos – na audiência em que será interrogado, por motivos óbvios, que até já admite a exceção da videoconferência ou quando sua presença, na fase probatória, for imprescindível, no caso de  acareação sua com testemunha -, isto não se faz necessário nas audiências em que testemunhas sejam ouvidas em juízo.

Ao acusado, por força do contraditório e sob pena de nulidade, deve ser dada a oportunidade de se fazer presente à chamada “instrução processual”, quando as testemunhas são ouvidas, porém, poderá não se fazer presente. Claro, poderá ser representado por seu advogado, embora ausente. Em suma, não há um dever de defesa que possa ser imposto ao acusado, em processo judicial ou administrativo. Contrariamente do que pensa o dr. Moro.

Enfim, embora a bravata do juiz Moro tenha feito sucesso nas redes sociais, fato é que a lei não lhe dá o direito de obrigar o ex-presidente Lula a todas as audiências em que forem ouvidas testemunhas, mesmo porque nem sempre isso o ocorrerá em Curitiba. Bravata ridícula que, aliás, deixa no ar um forte odor de suspeição daquele magistrado para processo e julgamento desse acusado. Isto sem falar no ridículo que é a busca de Moro e dos membros do Ministério Público Federal, da tal força-tarefa da Lava Jato, por holofotes e espaços midiáticos, sem qual ganho efetivo para uma boa administração da Justiça.

Ao contrário, atitudes desse jaez terminam por fragilizar a tarefa inafastável e urgente de combate à corrupção, sobretudo, pelo cunho político que deixa transparecer essa preocupação de impor  situação humilhante ao ex-presidente Lula, inclusive sua prisão, para atingir a sua pretensa candidatura à presidência da República às eleições de 2018.

O exercício da judicatura, entre outros requisitos técnicos e morais, requer serenidade e discrição. Isto não impede que o agir dos juízes possa ser transparente, bem naquela visão de Eduardo Couture que, referindo-se ao princípio da publicidade, em certa feita defendeu fossem translúcidas e cristalinas as paredes dos tribunais, de modo que tons os cidadãos pudessem ver o que ali se passava. Por certo, isto está longe de ocorrer no Califado de Curitiba, onde pontifica o juiz Moro, que já ultrapassou todos os limites do razoável numa atuação que mescla o abuso de prisões temporárias para forçar delações, vazamentos ilegais de informações para certo veículos da imprensa, estrelismo e algumas decisões temerárias que vêm destroçando importantes segmentos da economia brasileira, seja na área petrolífera quanto na da indústria pesada da construção civil.

Grave é que “num mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”,  para usar as palavras de  Zygmunt Bauman (“Amor Líquido, iBook)”, arroubos como esse do juiz Moro podem ganhar foros de verdade absoluta e impor prejuízos às instituições jurídico-políticas nacionais, inclusive quando faz tábula rasa daquelas garantias constitucionais referidas à liberdade do cidadão.

Enfim, escudar-se na lei para negá-la em sua essência, transformar-se em estrela midiática e travestir-se de paladino da moralidade pública são predicados indesejáveis àqueles que abraçarem a relevante tarefa de julgar seu semelhante, com independência e imparcialidade, porquanto segundo consta da Declaração Universal dos Direitos do Homem, artigo X:

Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele”.

É perverso e indigno negar esse direito a qualquer cidadão, inclusive, se seu nome for Lula, retirante nordestino, torneiro mecânico, sem  o dedo mínimo da mão esquerda e que, persistentemente, aparece, em todas as pesquisa de opinião até aqui realizadas, como favorito às eleições presidenciais de 2018…

Paulo Linhares é professor e advogado

A liquidez da violência na sociedade mossoroense

Por Ibraim Vilar Moisinho

A atualidade é conceituada por Zygmunt Bauman como “modernidade líquida”, pela incapacidade de manter a forma, as relações, instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar. Partindo desse conceito e observando essa liquidez no submundo das conseqüências advindas do tráfico e uso de entorpecentes, se observa que vem surgindo uma geração acostumada com a matança indiscriminada, com o acerto de contas, com a violência gratuita, que banalizam a vida à medida que mudam as circunstancias, à medida que mudam os interesses, à medida que as referencias em uma sociedade não encontram forma.

Trazendo ao leitor algumas vivências do cotidiano como operador de segurança pública e pesquisador das conseqüências do uso de drogas entre jovens, um fato me chamou atenção, levando-me à reflexão posterior, naquele dia. Eram 02h40min da manhã, minha equipe (Eu e outro Policial) tínhamos entrado no plantão às 19h.

Já havíamos atendido inúmeros chamados da população mossoroense com os mais diversificados problemas possíveis, desde brigas entre vizinhos, roubos de celular, vizinhos com som alto, pessoas com medo a ponto de ligar para o 190 e pedir que a polícia passe em frente a sua casa e toque a sirene, violência doméstica, entre tantos outros conflitos que tivemos que intervir e mediar.

Mas o que nos chamou atenção naquela madrugada foi o chamado das 02h40min, fomos acionados para verificar possíveis disparos de arma de fogo em um bairro periférico de Mossoró; uns três a quatro minutos depois chegamos ao local, o relógio do painel da viatura que eu dirigia marcava 02h43min da manhã.

Algumas pessoas se aglomeravam em frente a casa onde ocorrera os disparos, adentramos ao local e logo constatamos uma jovem que aparentava ter seus 19 a 20 anos, em estado de choque. Dizia apenas que três homens tinham invadido sua casa, arrombado a porta do quarto onde ela dormia com seu marido e duas crianças  e disparado contra seu marido, apontando para onde estava seu marido.

Ao nos dirigirmos para o local apontado,  encontramos na porta do quarto onde o casal dormia muitas cápsulas de munição e manchas de sangue dentro do quarto, em que estava o marido dela caído por trás de um armário com vários tiros na cabeça e tórax. Havia muito sangue no chão, a massa encefálica estava exposta.

Até aí para mim, tudo parecia normal comparando-se a  tantos outras ocorrências do tipo já atendidas, porém ao concluir a varredura visual no quarto  percebi que tinha uma criança, aparentando ter entre 2 e 3 anos de idade trajando apenas uma cueca naquela madrugada fria. Olhou para mim e disse: “meu pai tá dormindo no chão, tem sangue nele”.

Olhei para o mesmo e travei, pois já se observava ali que o pai dele estava sem vida. Como dizer a ele que seu pai estava morto?  A criança assistindo toda aquela cena, sem entender bem o que acontecia. Mal sabia que aquele momento era o ultimo com seu pai.

Rapidamente com cuidado para não alterar a cena do crime, e utilizando recursos lúdicos e a experiência de pai, retirei a criança daquele local, conversei um pouco com ele o acalmando, isolamos a cena do crime e a criança foi entregue a parentes que estavam fora da casa.

Analiso essa situação baseado no filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, quando defende que o ser humano atual é um produto do que acontece na modernidade líquida. Nos seus escritos, ele aborda o indivíduo como alguém que integra uma sociedade e responde à ela, modelando-se aos seus ditames.

Essa criança e tantas outras que vivenciam inúmeras cenas de violência no seu dia-a-dia não têm como responder diferente, pois integram essa sociedade líquida, sem forma descrita por Baunan.

Quando foi identificado, se verificou que a vítima do homicídio era envolvida com drogas. Ex-presidiário, tinha 20 anos.

Ibraim Vilar Moisinho é Policial Militar, bacharel em Administração e Especialista em Segurança Pública e Cidadania – SENASP/UERN

“As redes sociais são uma armadilha”, avisa sociólogo

Do El Pais

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense.

Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Zygmunt Bauman faz reflexões sobre um tempo de incertezas no mundo dito moderno (Foto: Web)

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida.

Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar.

O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes.

A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro… pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou.

A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence… O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas.

A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

Veja material mais completo AQUI.

Estamos ficando cada dia mais limitados

Por Honório de Medeiros

A ciência começa a comprovar algo que o senso comum já constatara: estamos ficando cada dia mais limitados na nossa capacidade de nos concentrar, principalmente em tarefas de natureza abstrata como ler um livro. Em “A Civilização do Espetáculo” Mário Vargas Llosa especula, a esse respeito, por vias transversas, enquanto descreve a banalização da cultura contemporânea na medida da opção pelo entretenimento ligeiro, de conteúdo pobre e forma atraente, em detrimento da complexidade de nossa anterior herança cultural comum.

Não aponta causa específica para o fenômeno, mas alude, obliquamente, à onipresença imperiosa, por trás dos panos, da incessante necessidade do lucro. Em outra face da questão o filósofo americano Michael J. Sandel, autor de “Justiça” menciona, em “O que o Dinheiro não Compra”, como a corroborar Llosa, o poder avassalador do mercado a dominar tudo e todos, corações e mentes, e suas consequências no universo moral.

Quem diz mercado, diz lucro.

Daniel Coleman, o famoso psicólogo americano professor em Harvard, criador do conceito de “Inteligência Emocional”, pondera acerca de outra face desse poliedro social, ao apontar o déficit de atenção cada vez mais profundo, decorrente da escravidão às redes sociais , em nossa civilização, a originar uma demanda, no futuro, pelo próprio mercado, de todos quanto sejam capazes de se concentrar em tarefas de médio e longo prazo.

Perguntamo-nos se quando o mercado reagir a catatonia (alienação) já não estará estabelecida de vez.

Acerca do fenômeno da volatilidade das coisas, causa e consequência desta atual fase do capitalismo, discorre Baumant com excepcional clareza em sua obra de caráter mais filosófico que sociológico. Somos uma sociedade evanescente, crê ele, na qual a transitoriedade de tudo, cada vez mais acentuada e veloz, seria o único fator permanente. Ou seja, mercado, lucro, redes sociais potencializadoras, volatilidade, déficit de atenção, tudo interconectado.

Em outra face – são mesmo muitas, para a mesma realidade – Moisés Naím especula acerca da fragmentação do poder, tal qual o conhecemos, como consequência dessa realidade volátil, evanescente, permanentemente transitória, em decorrência, entre outras coisas, dos instrumentos que a alimentam e ampliam, ou seja, a rede social e a interconectividade, por exemplo.

O que estaria por trás de tudo isso?

Como chegamos a esse patamar?

Que teoria explicaria esse fenômeno em sua inteireza?

A menção, feita por Llosa, Sandel, Michel Henry e Debord, estes aqui ainda não citados, mas que também especulam acerca de faces do mesmo poliedro, qual seja o dinheiro, o lucro, o mercado, poderia, obliquamente, dar razão ao Marx sociólogo, não aquele do materialismo dialético. Ou à teoria da seleção natural, do qual o capitalismo seria um epifenômeno.

Nesses casos bem vale o dito atribuído a Proust: “o tempo é senhor da razão.”

Ressalve-se, apenas, que as tentativas para conter a alienação, quando e se acontecerem, promovidas seja pelo próprio mercado, seja pelo Estado, poderão encontrar um status quo irreversível. Isso acontecendo, tendo como causa um brutal nivelamento por baixo em termos de capacidade de apreensão, cognição, pensar em termos complexos, perdemos todos.

Concretamente viveremos a realidade da Academia no Brasil, hoje: cada dia mais alunos, cada dia menos conhecimento…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

A banalidade da cultura atual

Por Honório de Medeiros

Fecho o livro de Llosa, Mário Vargas Llosa, “A Civilização do Espetáculo”, cujo título foi calcado no “A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século, e me percebo confortável por ter encontrado um texto, da melhor qualidade, que desse corpo a essa sensação permanente de estranhamento e solidão vivenciada por mim e alguns poucos, originada pelo descompasso entre a “cultura” na qual fomos criados e a realidade que encontramos nos dias de hoje.

Não é, portanto, “saudosismo”, o que sentimos. Há, de fato, um progressivo, solerte e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendida esta como o pressuposto da construção do processo civilizatório.

Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa, em “Notas para uma definição de cultura”, de 1948, tão atual, posto que, por exemplo, lá para as tantas, expõe:

“E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura.”

É bem verdade que em ensaios tais como “A civilização do espetáculo”, e “Breve discurso sobre a cultura”, Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse epifenômeno muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais e animada pelo espírito de lucro, motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força que está por trás das rédeas que conduzem o processo de destruição da cultura tradicional.

Não nos é oferecido, de sua lavra, uma macroteoria, que nos explique tudo. Para Llosa, por exemplo, civilização do espetáculo é “a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal.”

Entendo, embora possa estar enganado, que mesmo Zygmunt Bauman e sua obra acerca da “vida líquida”, “modernidade líquida”, na qual mergulhei durante algum tempo, também não o conseguiu. Sua preocupação é, também, descrever um fato, ou melhor, um epifenômeno social, o processo civilizatório por nós vividos hoje, um degrau acima, em termos de tempo, com alguns instrumentos intelectuais diferenciados, como tentado pelo excepcional Norbert Elias.

Para Bauman, “a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante”; nas quais “as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades.”

Eu me pergunto, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa “vida precária” em “condições de incerteza constante” uma face avançada do processo evolucionário de Darwin?

Aliás, ainda hoje somos devedores, nesse aspecto, dos titãs do século XX, quais sejam Freud, Marx e Darwin, por assim dizer. Mas não é o caso de abordar esse tópico por aqui.

O caso aqui é apenas registrar o alívio ao constatar que não estamos errados nós que sentimos que somos, cada vez mais, órfãos de uma cultura que desde os meados do século XX, vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás. Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea.

É a banalização da cultura…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN