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Meus dias de domingo

Por Odemirton Filho

Dorian morreu aos 71 anos de idade (Foto: Arquivo do extinto Gazeta do Oeste)
Dorian Jorge Freire – jornalista e cronista (Foto: Arquivo do extinto Gazeta do Oeste)

Há tempos eu procurava entre os poucos livros da minha “biblioteca”, o livro Os Dias de Domingo, de autoria do Jornalista Dorian Jorge Freire. Em vão. Entretanto, um dos meus cunhados, Raphael Valério, fez-me a gentileza de adquirir um exemplar, num desses sebos virtuais. Para um apaixonado por crônicas, não ter no acervo o mestre Dorian é erro crasso, imperdoável.

Aliás, abro um parêntese em relação às crônicas. Alguns dizem que existem três ciclos históricos. O primeiro, de 1852 a 1897, tendo como fundadores: Francisco Otaviano, José de Alencar e Machado de Assis. O segundo, de 1897 a 1922, com: Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto e Orestes Barbosa. O terceiro, de 1922 a 1945: Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Antônio de Alcântara Machado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. E o último ciclo, de 1945 até a década de 1970, com Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Sérgio Porto, Antônio Maria e José Carlos Oliveira.

Pois bem, voltemos a Dorian, que, para mim, está entre os cronistas do último ciclo. Sim, eu li o livro há muitos anos, agora, reli. Conforme já disseram, “temos que abrir o livro, aí eles despertam. Ler e reler. Reler melhor do que ler”. E Dorian continua insuperável na arte de escrever torneando frases, resgatando lembranças de tempos idos.

Numa de suas crônicas sobre Mossoró, revolvendo fatos pretéritos, ele escreveu:

“Mas a cidade mudou. Que mudou. Mudou. Por mais que eu procure nos becos e vielas, nas ruas da merda, no beco do pau não cessa, extensão do beco de Jeremias cego, não encontro sinhá Maria o boi bebeu. E nas caladas da noite de minha praça da Redenção, nunca mais voltei a ouvir o cantochão de Zé Alinhado”.

E continua a navegar no mar de lembranças:

“E o Bar Brahma? E Casablanca? Cadê todo o meretrício que ganhou de Américo de Oliveira Costa o nome de Art Nouveau, embora os seus exercícios fossem velhos como o mundo? Art Nouveau, Alto Nu Vou, Alto Louvor, rasga, lá em cima. Tudo desaparecera. Sumira. Mergulhara terra adentro, na sepultura aberta pela modernidade”.

O Alto do Louvor não foi do meu tempo de rapaz. Na minha época de estripulias estava decaído. Todavia, alguns leitores mais experientes do que eu, devem lembrar.

Já os meus dias de domingo, à época da minha infância e juventude, foram vividos na rua Tiradentes, no centro de Mossoró. De lá, sobejam lembranças. Quais? A vitrola do meu vizinho, Cesário, de dona Odete, a tocar músicas de Nelson Gonçalves e Lupicínio Rodrigues; o almoço em família (carne de sol com arroz de leite ou galinha); os primos que se esbaldavam na pequena piscina; depois do banho, saboreávamos o bolo de leite preparado por minha estimada Socorro.

Ah, e o pé de seriguelas do quintal da minha casa. Talvez, ele tenha sido o mais querido, o mais alegre, o mais terno amigo de minha infância, diria Rubem Braga.

À tarde, eram os vesperais no Cine Pax. Boquinha da noite, juntamente com meus pais, íamos à sorveteria do Juarez; à pizzaria de Patrício, o português; sem esquecer das Missas na Catedral de Santa Luzia. Ao término da Celebração Eucarística, a turma jovem ficava na praça, flertando, para usar uma expressão de antigamente. Nas cidades interioranas, sobretudo nas menores, a praça da Igreja Matriz sempre foi um local de encontro. E todos eram conhecidos, sabíamos quem era filho de fulano ou beltrano.

Por derradeiro, permita-me transcrever um fragmento do prefácio do livro de Dorian, escrito por Nilo Pereira:

“Lendo (ou melhor relendo) as crônicas de Dorian Jorge Freire, sinto que estou diante de um fenômeno diversificado: há o cronista propriamente dito, o homem de luta e de convicção, o observador inteligente da vida, o filósofo, o cristão, o escritor, sempre voltado para as agonias do nosso tempo”.

Eu assino embaixo. E dou fé.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Enquanto o sono não vem (culto à noite)

Por Carlos Santos

Foto ilustrativa da página Perito Animal
Foto ilustrativa da página Perito Animal

Boêmio convicto, o jornalista-compositor pernambucano Antônio Maria cunhou uma frase que virou um culto à boa vida noturna carioca, que ele aproveitou intensamente, sobretudo nos anos 50: “A noite é uma criança”.

É verdade. Eu já a embalei muito e a conheço bem. Contei estrelas sob seu teto, tangi-a por aí, sem destino. Com seu consentimento eu bebi todas, bradando aos quatro cantos a minha felicidade.

Para Cazuza, “o banheiro é a igreja de todos os bêbados”. À noite, é também o vômito espalhado no chão, o batom na gola da camisa, recanto das mais sórdidas confissões e daquele inescapável último pingo na cueca.

“À noite todos os gatos são pardos.” Tenho minhas dúvidas. Muitos cintilam e reluzem, para morrer aos primeiros raios de sol da manhã. Outros têm cores próprias e se renovam ao amanhecer. Tem sete vidas.

Na verdade, a noite tem o poder de revelar pessoas, isso sim. Mas elas não são melhores ou piores por causa da noite. Nem adianta culpar a bebida por sua imagem lasciva declarada, longe da identidade diurna.

A “persona” (máscara) não cabe em qualquer um, é bom que fique claro. Ela se esconde na maquiagem borrada, na moral encardida.

Hemingway disparou: “Paris é uma festa”. Tem sido assim há décadas. E a noite?

Temos muito de Paris, do Sena que nos corta à Bastilha que nos prende. A Champs Élysées que parece infinita é como aquela noite que nunca devia acabar, de tão boa.

A “baladeira” (rede) me aguarda dadivosa. Tadinha, tão surrada, mas acolhedora. A noite engatinha e o sono não chega. É como meu novo bebê, vivo num imaginário dividido e partilhado, pronto para nascer. Estou à sua espera infinitamente.

O que seria da humanidade pós-moderna se não fosse Twitter, MSN, Facebook etc.? Sobreviveria, lógico, mas assim mesmo quero ir para Pasárgada. Sem querer ser esnobe, vou logo avisando: lá não faço questão de ser amigo do rei.

Sou velho mesmo. Do tempo que puxava o sono ouvindo a Rádio Mundial, folheava a Playboy às escondidas, com olhar rútilo, jogava conversa fora à calçada para engolir as horas e fazia do sarro o ápice do “amor”.

Bom tempo.

Sou do tempo que a madrugada insone, de boemia inocente, terminava no Mercado Central, na esquina de casa, na praça com o sol dando “bom-dia”. Feliz pela camisa amarrotada, por sentir outro perfume no corpo ou conformado com a solidão de muitas vozes ininteligíveis, sem que umazinha sequer me acalentasse.

Saudosista? Não. Vivo hoje o melhor dos meus dias terrenos, sem medo de olhar para trás e enxergar minhas próprias pegadas.

O meu tempo não é o da saudade. Fico a falar do que passou, porque passou sem ir embora. É como aquele livro bom, socado entre outros na estante, que a gente sempre consulta numa releitura que se renova.

É, muitas vezes, um volver para rir das próprias desgraças. Passeio por desventuras próximas as de “Geraldo Viramundo”, personagem de Fernando Sabino, sempre envolto em situações picarescas e estapafúrdias. Um Dom Quixote sertanejo.

Ah… e se eu fosse poeta? E se tivesse um violão? Não quero nem pensar. A sarjeta seria minha pátria. Bardo solto por aí, crente na imortalidade, não estaria aqui, balbuciando essas palavras. A noite teria minha vigília permanente à janela de Rapunzel.

Talvez fosse “um menino passarinho, com vontade de voar”, como escreveu Luiz  Vieira. Até pediria que copiassem o próprio Sabino com um etipáfio parecido àquele posto em seu túmulo, para fechar minha história:

“Aqui jaz Carlos Santos, que nasceu homem e morreu menino”.

Boa noite. O sono chegou.

São 3h15… zzzz!!!

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos (Canal BCS)

*Texto originalmente publicado nesta página no dia 13 de fevereiro de 2011 (veja AQUI).

Stanislaw Ponte Preta

Por Odemirton Filho 

Nos últimos tempos tenho me dedicado a escrever sobre alguns bons cronistas deste país. Já falei sobre Antônio Maria e Rubem Braga. Hoje, conheceremos um pouco sobre mais um deles.

Vamos lá.

Sérgio Porto com as três filhas e um cachorro da família (Foto: acervo de família)
Sérgio Porto com as três filhas e um cachorro da família (Foto: acervo de família)

Sérgio Marcus Rangel Porto nasceu em 1923, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Gostava de praticar esportes, jogando futebol na praia e remando pelo Clube Guanabara. Chegou a cursar até o terceiro ano de Arquitetura, mas abandonou, percebendo que não era “sua praia”.

Em 1947 começou a escrever no Jornal do Povo, de propriedade de Apparicio Torelly, o barão de Itararé. Com o tempo, tornou-se um cronista da noite, como o seu amigo, e depois desafeto, Antônio Maria.

Através do também cronista Paulo Mendes Campos, passou a escrever no Jornal Comício, onde faziam parte da equipe, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Millôr Fernandes, entre outros.

Foi, ainda, crítico de cinema, Jazz e música popular, bem como redator de programas de humor, tamanha era a sua verve cômica. Casou-se com Dirce Pimentel de Araújo, em 1952, e tiveram três filhas.

Em 1953 nasceu o heterônimo Stanislaw Ponte Preta, com o qual passa a escrever suas crônicas. Nesse tempo, Samuel Wainer o contrata para publicar matérias no diário Última Hora sobre pessoas pitorescas da cidade.

Numa de suas andanças, reconheceu Cartola, trabalhando como garçom e lavador de carros. Sabendo do talento do grande sambista, coloca-o, novamente, no meio da vida artística.

Quem já leu Ponte Preta sabe como são geniais os textos sobre tia Zulmira, o primo Altamirando e Rosamundo, criados por ele. A velha contrabandista, uma de suas inúmeras crônicas, é sensacional. Sem esquecer, é claro, o Febeapá (Festival de Besteira que assola o País).

Diziam que era um leão para trabalhar, em torno de quinze horas por dia. O exagero pelo trabalho e a vida desregrada o levaram à morte, aos quarenta e cinco anos de idade.

Não tem problema, diria Stanislaw, “melhor viver pouco, mas tudinho”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

O bom Maria

Por Odemirton Filho 

Escrever crônicas é um exercício diário. É como andar de bicicleta, se parar, cai, disse-me Inácio Augusto de Almeida, certa vez.  Observar o cotidiano das pessoas; os pormenores da vida, aquilo que poucos conseguem enxergar, é o que fazem os cronistas. Eles mergulham nos sentimentos, trazendo à tona as lembranças; as saudades.

Antônio Maria, Ary Barroso, Vinícius de Moraes, Isaac Zuchman, Paulo Mendes Campos em noite carioca, claro (Foto da Revista Manchete)
Antônio Maria, Ary Barroso, Vinícius de Moraes, Isaac Zuchman, Paulo Mendes Campos em noite carioca, claro (Foto da Revista Manchete)

Leio muitas crônicas, apreciando os grandes cronistas deste país. Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Stanislaw Ponte Preta, Clarice Lispector, entre outros, inspiram-me.

Leio, ainda, Antônio Maria, “o bom Maria”, como chamava Vinicius de Moraes. No livro Vento Vadio, uma antologia com suas crônicas, Maria nos mostra toda a sua genialidade e, ao mesmo tempo, simplicidade, pois escreve fácil, fazendo-se entender.

Antônio Maria Araújo de Moraes nasceu em 1921, em Pernambuco. Era de família de posses. Seu avô, Rodolpho Albuquerque de Araújo, era dono de usina de cana-de-açúcar. Em suas crônicas, Maria resgatava a sua infância nos engenhos da família, juntamente com seus quatro irmãos e mais de quinze primos.

Narrava as suas aventuras, nas quais entrava mata a dentro, espiando as mulheres tomando banho nos rios. Falava do medo de assombrações; da solidão que marcou a sua vida.

Com a decadência dos negócios da família, aos treze anos iniciou a sua carreira profissional como locutor de rádio, em Recife. Em 1948 foi morar no Rio de Janeiro, onde escreveu crônicas na Revista Manchete, O Cruzeiro, O Jornal, O Globo, Última Hora e Diário Carioca. 

Boêmio, gostava da noite. Muitas de suas crônicas foram inspiradas nas madrugadas insones. De acordo com Guilherme Tauil, “Antônio Maria foi, de longe, o maior cronista da noite. Afinal, todos os infortúnios se acumulam e se liquidam nos balcões de bar e nas pistas das boates. A noite pede o ombro amigo, o conselho. A noite pede a união das pessoas em torno da mesa, a cantoria. A noite abriga os solitários e proporciona remédio”.

Para entregar as crônicas no prazo exigido pelos jornais, levava a máquina de datilografia pra lá e pra cá.

Numa de suas aventuras, Maria teve um intenso e breve relacionamento amoroso com Danuza Leão, que largou o poderoso Samuel Wainer, do Última Hora, para ficar com ele, que também se separou de sua mulher.

Ele foi, também, compositor dos bons. Em parcerias, compôs Manhã de Carnaval, Ninguém me ama, Suas mãos, O amor e a rosa, Menino grande e outras belas canções. Além disso, apresentava televisão, escrevia roteiros de humor, conduzia programas na rádio, dirigia espetáculos de casas noturnas.

Ao escrever crônicas, derretia-se em sentimentos: “voltaram as chuvas e, com elas, o jardim ficou, de repente, antigo. Antigo e bom para mim, porque todas as coisas antigas foram boas para mim. Ou, se não foram, o tempo as passou a limpo”.

Na madrugada de 15 de outubro de 1964, o cronista-boêmio teve um infarto fulminante, numa calçada em Copacabana, aos 43 anos. Estava na farra, curtindo a noite, pra variar.

Mas, para o nosso deleite, a sua obra permanece.

O “Menino grande” é eterno.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Pingos da infância

Por Odemirton Filho 

“Uma noite de tempestade, o vento sacode as telhas, faz tremer portas e janelas. A chuva tamborila no telhado, fustiga as vidraças. Relâmpagos clareiam o quarto, trovões rasgam o silêncio”(…). (Fragmento do livro Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo).

brincando na chuva,Nos últimos dias a chuva tem caído com força nesta terra de Santa Luzia e em algumas cidades no nosso sofrido Rio Grande. O inverno será dos bons, com as benções de Deus, pois os açudes e reservatórios sangrando trazem esperança ao sertanejo.

A chuva cai como nas biqueiras dos meus tempos de menino, ali, nas ruas Tiradentes e José de Alencar, no centro de Mossoró, quando molhava a minha infância.  Hoje, eu vejo a chuva cair, e sobram lembranças. Às vezes, faz até um friozinho em Mossoró, já pensou?

Aliás, dia desses eu li uma crônica de Antônio Maria. “O bom Maria”, como chamavam seus amigos, dizia que, quando criança, brincava com os seus carrinhos na chuva. Ao contrário do cronista, eu “andava” de bicicleta e ficava com a roupa toda “ensopada”. E feliz. Muito feliz.

Naqueles tempos, para mim, inexistiam problemas. Tudo era motivo para brincadeira. Curtia a minha infância com minhas irmãs, primos e amigos. Não tínhamos medo dos raios e trovões. Meu pai, de vez em quando deixava o trabalho de lado e nos acompanhava nesses banhos de chuva, e eu achava “massa” vê-lo alegre como nós, crianças.

Lembro-me de uma bela crônica de Paulo Menezes, colaborador do “Nosso Blog”, que nos deixou no ano passado. Narrou o cronista que seu pai ficava sentado na calçada da casa, escutando um rádio de pilha, à espera dos raios cortarem o céu do sertão.

Pois é, uma chuvinha faz bem, mas falta-me a coragem dos meus tempos de criança. Aqui ou acolá me arrisco a tomar banho no meu quintal, e fico igual a pinto no lixo. Vez ou outra, saboreio um café ou uma dose de uísque para esquentar a alma, vendo a chuva cair, porque, com os pingos d´água, vem à memória os meus tempos da infância.

Diria o saudoso Paulo Menezes:

“Tempos bons. Saudades. Muita”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Esses moços, pobres moços…

(em homenagem ao meu educador musical, meu pai, Ary Araújo)

Por Marcos Araújo

Um dia depois de fazer 28 anos, em 1972, após voltar de uma festa, o escritor e compositor Torquato Neto trancou-se no banheiro e abriu o gás. Antes do suicídio, deixou uma carta em que dizia não conseguir acompanhar a marcha do progresso, e que seria melhor morrer porque tinha muita saudade do Rio de Janeiro do passado. Caetano Veloso, amigo de longas datas, compungido por essa perda, compôs em sua homenagem a música “Cajuina”.

Tirante o suicídio, faço minhas as palavras do poeta Torquato Neto: não consigo acompanhar a marcha do progresso e tenho sentido uma nostálgica saudade do passado. Especialmente, quando se trata de música…Mùsica, ouvindo música, lixo musical

Fui educado musicalmente pelo meu pai, que me apresentou, logo nos primeiros balanços de ninar, a Francisco Alves, Lupicínio Rodrigues, Adelino Moreira, Moacyr Franco, Antônio Maria, Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho, Herivelto Martins, dentre outros. As canções de sua preferência traduziam um conteúdo autêntico da alma humana: amor, alegria, ódio, traição, esperança, vingança…

De Lupicínio Rodrigues, numa composição feita para relatar uma infidelidade, meu pai interpretava com voz grave o desejo de “Vingança”: “mas, enquanto houver força no meu peito, eu não quero mais nada, e pra todos os santos vingança, vingança, clamar (…)”. Noutra interpretação pungente, de olhos rútilos para o infinito, evocava a descrição de uma linda musa, inalcançável à minha vista de criança, que tinha “seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar, seus lábios de rosa para mim sorrindo, e  a doce meiguice desse seu olhar.” (Índia, de Manuel Ortiz, interpretada por Cascatinhas e Inhana).

Através da musicalidade interpretativa do meu pai também fui iniciado no sentimento do amor adolescente, que perde sua primeira namorada na “estrada longa da vida”, e por ela  vai chorando a sua dor, “igual a uma borboleta, vagando triste por sobre a flor, seu nome sempre em meus lábios, irei chamando por onde for.” (Meu primeiro amor, canção de Herminio Gimenez, com versão brasileira de José Fortuna).

Pós-adolescente, fui influenciado por Chico Buarque e suas crônicas sociais musicadas (Meu guri, Geni e o Zepelim, Gente humilde), e, fundamentalmente, o seu protesto político (Cálice e Apesar de você).

Inoculei-me do vírus da resistência à ditadura militar e à censura contra as diversas formas de expressões artísticas, entoando civicamente “Pra não dizer que não falei das flores”, composta pelo paraibano Geraldo Vandré, alinhando-se entre os que não foram às armas, mas se puseram no front fictício à disposição do país, por saber que, “Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer”.

Sem querer ficar apenas no “apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”, fui investido da contestação e da rebeldia de Raul Seixas, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, dentre muitos outros. Até a sutileza e o pseudo romantismo de uma balada como “Doce, Doce Amor”, letra de Raul Seixas para Jerry Adriani, era um protesto, uma metáfora para o AI-5. O “doce amor” perdido na canção é uma referência às liberdades individuais e à democracia. (Está fazendo uma semana que, sem mais e nem menos, eu perdi você. / Mas não sei determinar ao certo qual foi a razão, meu bem. Vem me dizer)

Mais tarde veio a revolta de Renato Russo, Cazuza, Flávio Leandro com “Chuva de honestidade”, e o esbravejo contra a dominação sulista em “cidadão” e “triste partida”.

Agora, na maturidade, chego ao fim dos meus dias tendo que ouvir nas emissoras de rádios e entre os meus circunstantes que veraneiam, o som altíssimo de “Rita”, “Letícia” e “Jenifer”.  Rita, “aquela desgramada”, a quem se perdoou “a  facada”,  sua irmã Letícia, que foi “embora com um mototaxista”, juntaram-se a Jenifer, aquela que foi encontrada no Tinder,  e formaram o trio de mulheres mais conhecidas do país no momento. Ainda tem o “amor de rapariga” e a traição por apenas “cinquenta reais”.

Como se sabe, a música é apenas uma forma de manifestação cultural, sendo ela o retrato do comportamento, da cultura, da estética, gostos, tendências e das mudanças sociais do momento.

Se Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius, foi a canção que inaugurou um movimento na cultura e na música no mundo conhecido por Bossa Nova, fico a imaginar como será conhecido no futuro o movimento iniciado pelo trio RLJ (Rita, Letícia e Jenifer)?   Será a Bosta Nova? (com desculpas pelo palavrão).

Fito às vezes os meus filhos pequenos, que crescerão entre as canções de MC Kevinho, MC Catraca, Anitta, Ludmilla, Gustavo Lima e outros tantos, e ponho-me discretamente a cantarolar a música título desse texto (Esses moços, pobres moços, de Lupicinio Rodrigues): “Se eles julgam, que há um lindo futuro / Só o amor nesta vida conduz, Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz…”
 

P.S. Escrevo esse texto ouvindo ao longe um grupo de jovens cantando “Rita”, enquanto eu procuro dentro da casa alguma cicuta ou veneno de rato para tomar.

Marcos Araújo é professor e advogado

Mulher dos outros

Por Antônio Maria

Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havíamos bebido e procurávamos um café aberto, para uma média, com pão-canoa. Quase todos estavam fechados ou não tinham ainda leite ou pão. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um português e nos conhecia de nome de notícia.

Propôs-nos, em vez de café, um vinho maduro, que recebera de sua terra, “uma terrinha (como disse) ao pé de Braga”. Não se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstâncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a José Manuel Pereira, que nos deu seu vinho.

Nesse café, além de nós, havia um casal, aos beijos. As garrafas vazias (de cerveja) eram quatro sobre a mesa e seis sob. Beijavam-se, bebiam sua cervejinha e voltavam a beijar-se. Não olhavam para nós e pouco estavam ligando para o resto do mundo. Em dado momento, entraram dois rapazes e pediram aguardente no balcão. Ambos disseram palavrões, em voz alta.

O casal dos beijos e da cerveja parou com as duas coisas. Outros palavrões e o cabeça do casal protestou:

— Pára com isso, que tem senhora aqui!

Um dos rapazes dos palavrões:

— Não chateia!

— Não chateia o quê? Pára com isso agora!

Um dos rapazes do palavrão:

— E essa mulher é tua mulher?

— Não é, mas é mulher de um amigo meu!

A briga não foi adiante. Todos rimos. O dono da casa, os rapazes dos palavrões, o casal. Está provado que: quem sai aos beijos com mulher de amigo não tem direito a reclamar coisa alguma.

Antônio Maria (1921-1964) – Jornalista, cronista, compositor pernambucano

Preso para se libertar

Por Carlos Santos

Numa frase certamente escrita por seu ghost-writer (“escritor fantasma”, responsável por discursos), poeta Augusto Frederico Schmidt, o presidente Juscelino Kubistcheck traçava para si uma aura mitológica: “Deus me poupou do sentimento do medo!”

É uma peça de retórica com elouquência de arrepiar, sem dúvidas. Do mesmo tamanho que outra, de igual origem: “Eu não tenho compromisso com o erro”. Ou seja, excelente para justificar mudanças de rumo na política, tão comum ao meio.

Lógico que não sou Schmidt, menos ainda Kubistcheck. Tenho muitos medos; vários.

Posso listar? Não queira.

A maioria pode parecer simples bizarrice, tolice ou insegurança de um sujeito recalcado e incapaz. Mas nenhum ganhará o selo da covardia.

Aviso-lhe logo: de barata, não. O inseto apenas me provoca repugnância, tão somente. Sobre ele, vale citar uma frase bem humorada do grande Stanislaw Ponte Preta ou de Antônio Maria, não lembro: “Não acredito em mulher que não tenha medo de barata”. Ah, tá!

Medo de atravessar a rua, tenho. E preciso ter.  Se cruzar a Avenida São João (São Paulo) ou uma vereda qualquer nesse sertão de mãe-preta e pai-joão, sem olhar pros lados, posso ser atropelado por uma Pajero ou um cavalo em disparada, respectivamente.

Medo é como colesterol: colesterol zero faz mal. Demais, mata. Moderação, portanto, outra vez é receita.

Meu primeiro medo? Huuumm! Não lembro. Deve ter passado rapidinho. Não ficou registrado no inconsciente.

Muitos enraizaram-se e ficaram inoculados em mim durante décadas. Alguns foram extirpados pelo enfrentamento. Outros ainda estão cá, alojados, mas em boa parte do tempo, não incomodam. Temos um pacto silencioso de não-agressão.

Durmo e acordo com eles, sem duelarmos por espaço. Caso típico de tolerância mútua. Lembra Julia Roberts no filme “dormindo com o inimigo”. Ela escapou. Eu tenho sobrevivido.

Novos medos chegam naturalmente com a idade, que cruza o “Cabo da Boa Esperança” e aproxima-me do fim. Medo de morrer, em si, não. Tinha-o há algum tempo, mas não por mim.

Temia não poder contribuir o suficiente para ver meus filhos caminhando com as próprias pernas. Hoje, se depender dessa matéria, já posso partir. Eles são caravelas em alto-mar. Zarparam com bússola, conhecem o timão. Mesmo assim, quero ficar mais um pouco, curtindo a parte que me cabe na superfície desse latifúndio terreno.

Outros filhos virão, para fertilizar minha vida. Em forma de livros ou como gente pichototinha – de carne e osso – pra botar nos braços e me abobalhar mais ainda.

Medo de ser apunhalado, traído por amigos? Não mais.

Sei essa dor. Rasga, dilacera, fere, faz sangrar. Mas tem cura. Cicatriza nas novas e velhas amizades, que não deixam o ressentimento fazer morada, nem a vingança ser voz ativa. “Olho por olho, dente por dente”, nem pensar.

Essa récua não merece tanto esforço meu, nem um segundo diário do meu tempo à tanta dedicação. Não possuem valor a tal empreitada. Além do mais, nem “ex” conseguem ser. Não existe “ex-amigo”.

A melhor forma de vingar, é vencer, é se superar; se refazer das cinzas quando a maioria o abandona e quase ninguém acredita mais em ti. Quem fica, fica por você; quem desaparece não some apenas de sua vida, apaga-se.

O medo de perder, no fundo inibe a possibilidade de vencer. E essa glória é um troféu sempre pessoal, tirada do nosso mais íntimo ser. Porém não acredite nos que vencem só. Ao assumirem para si, esse apogeu, promovem a primeira das traições ao sucesso: negá-lo a outros que o ajudaram a construi-lo.

“Faça aquilo que você receia e a morte do medo será certa”, afirmou o filósofo Raph Waldo Emerson.

Isso vale para o pavor de microfone também. Eu já tive, hoje nos respeitamos. Temos uma convivência saudável, mas muitos perdem a voz, não dizem coisa com coisa ou simplesmente correm dele como o diabo da cruz.

E o que ele, o microfone, tem demais? Nada, além de sonorizar nossa voz. Não morde. Mesmo assim intimida muita gente.

Na verdade, sob a ótica da psicanálise – corrente do suíço Carl Jung -, “a fobia é a projeção de um conflito interno.”

Temos medo do desconhecido, porque é cômodo deixar como estar, mesmo que muitas vezes isso signifique nossa ruína. O novo costuma assustar, porque exige a ousadia de sair do comum, impõe risco. Temos uma natureza conservadora.

Ter medo de “bicho-papão” em minha infância era real, mesmo que ele nunca tenha existido de verdade. Na vida adulta também criamos fantasmas; nos rendemos à força do inconsciente. Daí, a nos tornarmos ansiosos, depressivos e estressados, é questão de segundos.

Eu, confesso, já tive medo de fechar os olhos; me fechar. Fazer o grande e necessário mergulho no meu eu.

Quando comecei a fazer meditação foi assim. As primeiras sessões me asfixiaram. Foram apavorantes. Senti-me como o personagem Phillipe de “O homem da mascara de ferro”, romance de capa e espada de minha infância, de Alexandre Dumas.

Chorei para poder finalmente me abrir. Fechei-me para poder ser livre.

Agora, que faço com meus medos? O que sobrou deles?

Continuo a ser intenso, extremado em tudo que me meto a fazer. Dou-me por inteiro às amizades, aos amores, à minha profissão, filhos e à República da São Vicente (meu país imaginário).

Se com tudo isso não for capaz de ser feliz, não será com a covardia que converterei sonho em realizações.

É certo, pelo menos, que vencerei o pesadê-lo do não-ser.

Da “caverna” descrita por Platão eu já saí. Há sempre uma luz, com ou sem túnel, ao final.

Carlos Santos é criador e editor deste Blog

Canção de homens e mulheres lamentáveis

Por Antônio Maria

Esta noite… esta chuva… estas reticências. Sei lá.

Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?

Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:

— Estou me sentindo assim, assim, assim…

A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde etão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.

Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.

E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: “Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country”.

Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.

Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.

Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:

— Que é que houve? O senhor está mais velho? Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:

— O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.

Tinha pensado que, sem os óculos…

Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

Antônio Maria (1921-1964) era jornalista, escritor e compositor.