Arquivo da tag: café

EUA retiram tarifa de 40% de café, frutas e outros produtos do Brasil

Arte ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Do g1

Os EUA anunciaram nesta quinta-feira (20) a retirada da tarifa de 40% de alguns produtos brasileiros. A decisão foi publicada pela Casa Branca (veja a íntegra do documento).

A medida beneficia carne bovina, café, açaí, cacau diversos outros produtos. São mais de 200 itens que foram acrescentados à lista anterior de exceções do tarifaço imposto ao Brasil.

A retirada da tarifa vale para produtos que chegaram aos Estados Unidos a partir de 13 de novembro.

A data coincide com a reunião entre o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, quando o tema foi discutido.

Na semana passada, o governo Trump já havia reduzido as tarifas de importação de cerca de 200 produtos alimentícios, para vários países. No caso do Brasil, a alíquota havia caído de 50% para 40%.

Diferentemente da ordem executiva da semana passada, que era global, a decisão de hoje se aplica somente ao Brasil.

Na ordem desta quinta, Trump cita a conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no início de outubro, e afirma que a retirada das tarifas é resultado das negociações entre os dois governos.

“Em 6 de outubro de 2025, participei de uma conversa telefônica com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, durante a qual concordamos em iniciar negociações para abordar as preocupações identificadas no Decreto Executivo 14323. Essas negociações estão em andamento”, diz Trump no documento.

“Também recebi informações e recomendações adicionais de diversos funcionários […] em sua opinião, certas importações agrícolas do Brasil não deveriam mais estar sujeitas à alíquota adicional […] porque, entre outras considerações relevantes, houve progresso inicial nas negociações com o Governo do Brasil“, acrescenta o presidente.

O governo do Brasil comemorou a retirada da tarifa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que está “muito feliz porque o presidente Trump começou a reduzir a taxação de alguns produtos brasileiros”. “Essas coisas vão acontecer à medida que a gente conversa”, afirmou.

Acesse nosso Instagram AQUI.

Acesse nosso Threads AQUI.

Acesse nosso X (antigo Twitter) AQUI.

Não se preocupem, amigos

Por Bruno Ernesto

Torta de café Foto do autor)
Torta de café (Foto do autor)

Dia desses, entre um compromisso e outro, desviei do caminho por quarenta minutos e parei para tomar um copo de água com gás, uma rodela de limão – apenas uma –, gelo – bastante –, e três cafés expressos com torra média. Sim, três. Um atrás do outro. Como um dependente químico que precisa manter-se entorpecido.

Por hábito, sempre que possível, prefiro sentar no mesmo local. Isso é péssimo pois, não raro, flagro alguém desavisado nele. Enfim, tenho que procurar outro o mais próximo possível do ar condicionado.

Nesse dia, por sorte, a minha mesa preferida estava desocupada e pude aproveitar para debelar um pouco o calor descomunal que fazia, e ali fiquei bebericando minha água bem gelada e tomar meus cafés enquanto lia algumas notícias e dava uma olhada nas redes sociais.

Como é comum – infelizmente -, por vezes, você se depara com alguém conversando com o volume muito acima do adequado para o ambiente, de modo que acaba por escutar todo tipo de conversa. Engraçadas, tristes, fofocas, assuntos profissionais, aleatórios e desabafos.

Nesse contexto, duas mulheres conversaram efusivamente na mesa em frente, quando uma delas pegou o telefone e efetuou uma ligação e passou a conversar no viva-voz.

Muito embora tentasse não ouvir a conversa, a propagação do som teimou em ser obediente às leis da física e todos os presentes tiveram o desprazer de ter que escutar toda aquela conversa.

Aparentemente, o esposo da dita interlocutora estava tendo um sério problema na obra que tocava, pois tentava convencê-la de várias escolhas de materiais que ela insistia em dizer que, mesmo após instalados, não tinha gostado.

Entre muitos vocativos carinhosos, fofos e melosos, para – aparentemente – convencer o marido de que não estava satisfeita, contabilizei o desacordo em relação à cor do piso, o tamanho de uma pia e a cor de uma porta.

Pude escutar o desespero do pobre homem naquela estridente ligação no viva-voz, que tentava justificar a escolha, dizendo que já estava tudo finalizado e que foi feito da forma que havia sido por ela escolhida, e que ela própria havia jurado ter adorado o projeto arquitetônico, apresentado cinco meses antes na tela com resolução 4K, pela renomada arquiteta.

Tudo em vão. A mulher levantou a mão, pediu mais uma fatia de torta, e, com a voz trêmula, disse:

– Amor, não gostei. Estou cansada dessa obra, amor. Tem como refazer?

Como precisei ir embora, não pude escutar o fim daquela boa conversa. Muito embora, pelo pouco que pude involuntariamente escutar, me lembrei do que o filósofo moralista francês Jean Rostand disse:

– “Não se preocupem, amigos. Não se preocupem. Não se preocupem. Não acontecerá nada do que vocês têm medo. Acontecerá coisa muito pior.”

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Boi Café

Por Bruno Ernesto

Talhão de café, Fazenda Rio Grande (Foto do autor da crônica)
Talhão de café, Fazenda Rio Grande (Foto do autor da crônica)

Nos últimos meses o café tem sido o centro de muitas notícias, desde questões relacionadas aos benefícios de sua ingestão, estilo de vida, tradição e, em especial, as questões relacionadas ao declínio de sua produção, aumento da demanda e a consequente disparada nos preços desse elixir que o mundo inteiro aprecia.

Tudo, absolutamente tudo, gira em torno dele. Se não concorda, é melhor sentarmos e discutirmos a questão enquanto tomamos um cafezinho.

Abstraindo todas essas questões, aproveitando o feriado do Dia do Trabalhador, juntei minha família e fomos conhecer a Fazenda Rio Grande, onde fica o cafezal mais antigo e ainda ativo do estado do Rio Grande do Norte, e que está encravado a 670 metros de altitude no município de Jaçanã, bem no topo da serra do Cuité, na divisa com o estado da Paraíba.

Durante o trajeto, percorremos o estado de uma ponta a outra, subindo serras e rasgando o sertão, que está verdinho e exuberante.

Após a calorosa recepção, e já deliciando um saboroso café mais que especial, recém-torrado, moído e preparado ali mesmo na entrada, rumamos para o cafezal e fomos conhecer aquele paraíso.

Conhecendo um pouco da história da fazenda, o seu responsável, Diogo Jeremias, nos contou que o plantio do cafezal teve início em 1981, e que após mais de duas décadas, houve um período de letargia em sua produção, só tendo sido efetivamente retomada com a eclosão da pandemia da Covid-19, época que retraçou os planos de muitas pessoas no mundo inteiro e o local, além de refúgio para a família, serviu como recomeço da atividade cafeeira.

Enquanto caminhávamos no cafezal, Diogo falava todos os detalhes da produção do café, bem como as técnicas de manejo, detalhes com microclima, em especial a necessidade de sombreamento do cafezal para proporcionar uma produção de excelência e consistente do café arábica lá produzido.

Ele me mostrou a enorme diferença no desenvolvimento dos pés de café que crescem sombreados por enormes cajueiros e os que não são, ainda que a temperatura local se mantenha em agradáveis 25 ou 26 graus Célsius em pleno meio dia.

Também notei que alguns bois e vacas bem nutridos e vistosos, ao longe, descansavam calmamente debaixo das copas dos enormes cajueiros em meio ao cafezal.

Por um instante – talvez pelo adiantado da hora e a fome já dando notícias – fiquei curioso para saber se eles comiam os frutos doces de café ali fartamente disponíveis, o que seria interessante, pois – imaginei -, quem sabe, o café desse um sabor especial à carne deles, tal qual os famosos porcos ibéricos têm a carne com sabor das bolotas (frutos do carvalho) que eles comem em abundância e que produzem o famosíssimo Jamón Pata Negra.

Seguindo, ao nos mostrar um outro talhão de café, percebi que esse aparentava ser bem mais jovem que os demais, e, por curiosidade, perguntei a respeito da irrigação, manejo e adubação do solo do cafezal.

Ele nos falou da necessidade de investimentos frequentes para a manutenção, melhoria e ampliação do cafezal, o que representa um enorme um desafio para quem produz cafés especiais.

Enquanto olhávamos para esse talhão jovem, ele contou que, para viabilizá-lo, precisou rifar um boi de estimação da fazenda.

Como sou apaixonado e apegado aos animais – não considere tanto o episódio do Jamón Pata Negra -, e sei que quando alguém fala que é de estimação, ainda que se trate de um boi, imaginei o quão doloroso deve ter sido desfazer dele para poder dar seguimento ao cafezal.

– E o destino do boi, Diogo?

Ele sorriu um tanto sem graça e disse que o arrematante não tinha estima pelo boi e selou o seu destino como se fosse um qualquer.

Seguimos o passo e, por breves três ou quatro segundos, perguntei a ele qual era o nome do boi de estimação.

E ele olhou sério para mim e falou seco:

– Boi Café.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Antes que o café esfrie

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

O romance do escritor japonês Toshikazu Kawaguchi, que tem o título desta crônica, narra a história de um estabelecimento que serve um café especial. No local, os frequentadores têm a oportunidade de fazer uma viagem no tempo, reencontrando pessoas que também já estiveram no lugar. Porém, o encontro é breve, somente o tempo de o café esfriar.

Imagine o leitor se realmente tivéssemos essa oportunidade singular. Como seria abrasador para o coração reencontrar pessoas que se foram, deixando um vazio enorme no nosso peito. Sentar à mesa com aquela pessoal especial para reviver bons momentos ou, quem sabe, viver um pouquinho o que deixamos de aproveitar. Quantos momentos em nossas vidas não deixamos passar e, depois, nos arrependemos. Na correria do dia a dia, perdemos doces momentos.

Creio que cada um de nós gostaria de reencontrar alguém, um instante que fosse. Conversar, abraçar, sorrir, amar. Seria a oportunidade de dizer palavras não ditas, carregadas de sentimentos, compartilhando carinhos. O café, assim como o amor, deve ser servido quente, dizem por aí.

Decerto, há pessoas que passam por nossas vidas tão rapidamente que deixamos escapar instantes mágicos. Falta-nos priorizar pessoas que nos são queridas. Tudo deixamos para mais adiante. Mas, é de se perguntar: você tem certeza do porvir? Tá esperando o quê?

Quem não gostaria de rever a mãe, o pai, os avós? Certamente muitos de nós. Quem não gostaria de rever alguém que foi especial em nossas vidas? As saudades são muitas, não podemos mensurar.

Eu, particularmente, gostaria de sentar à mesa com o meu amado sobrinho, que tão cedo partiu, deixando-nos com o gosto amargo da saudade. Gostaria de rever meu vô materno, e conversar novamente com ele, aprendendo um pouco mais sobre a vida. Gostaria de prosear com um querido amigo da infância e juventude, não pra tomar um café, mas pra tomar aquela cerveja que ficou gelando, lá na casa dos meus pais, em Tibau.

Se tivesse essa oportunidade, antes mesmo que o café esfriasse, eu aproveitaria para dizer-lhes que fazem uma falta danada; são uma saudade constante.

Um dia, creio piamente, hei de reencontrá-los.

E você, se fosse possível viajar no tempo, quem gostaria de encontrar?

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Não se preocupem, amigos

Por Bruno Ernesto

Torta de café Foto do autor)
Torta de café (Foto do autor)

Dia desses, entre um compromisso e outro, desviei do caminho por quarenta minutos e parei para tomar um copo de água com gás, uma rodela de limão – apenas uma –, gelo – bastante –, e três cafés expressos com torra média. Sim, três. Um atrás do outro. Como um dependente químico que precisa manter-se entorpecido.

Por hábito, sempre que possível, prefiro sentar no mesmo local. Isso é péssimo pois, não raro, flagro alguém desavisado nele. Enfim, tenho que procurar outro o mais próximo possível do ar condicionado.

Nesse dia, por sorte, a minha mesa preferida estava desocupada e pude aproveitar para debelar um pouco o calor descomunal que fazia, e ali fiquei bebericando minha água bem gelada e tomar meus cafés enquanto lia algumas notícias e dava uma olhada nas redes sociais.

Como é comum – infelizmente -, por vezes, você se depara com alguém conversando com o volume muito acima do adequado para o ambiente, de modo que acaba por escutar todo tipo de conversa. Engraçadas, tristes, fofocas, assuntos profissionais, aleatórios e desabafos.

Nesse contexto, duas mulheres conversaram efusivamente na mesa em frente, quando uma delas pegou o telefone e efetuou uma ligação e passou a conversar no viva-voz.

Muito embora tentasse não ouvir a conversa, a propagação do som teimou em ser obediente às leis da física e todos os presentes tiveram o desprazer de ter que escutar toda aquela conversa.

Aparentemente, o esposo da dita interlocutora estava tendo um sério problema na obra que tocava, pois tentava convencê-la de várias escolhas de materiais que ela insistia em dizer que, mesmo após instalados, não tinha gostado.

Entre muitos vocativos carinhosos, fofos e melosos, para – aparentemente – convencer o marido de que não estava satisfeita, contabilizei o desacordo em relação à cor do piso, o tamanho de uma pia e a cor de uma porta.

Pude escutar o desespero do pobre homem naquela estridente ligação no viva-voz, que tentava justificar a escolha, dizendo que já estava tudo finalizado e que foi feito da forma que havia sido por ela escolhida, e que ela própria havia jurado ter adorado o projeto arquitetônico, apresentado cinco meses antes na tela com resolução 4K, pela renomada arquiteta.

Tudo em vão. A mulher levantou a mão, pediu mais uma fatia de torta, e, com a voz trêmula, disse:

– Amor, não gostei. Estou cansada dessa obra, amor. Tem como refazer?

Como precisei ir embora, não pude escutar o fim daquela boa conversa. Muito embora, pelo pouco que pude involuntariamente escutar, me lembrei do que o filósofo moralista francês Jean Rostand disse:

– “Não se preocupem, amigos. Não se preocupem. Não se preocupem. Não acontecerá nada do que vocês têm medo. Acontecerá coisa muito pior.”

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Neblina miúda, garoa

Por Honório de Medeiros

Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica
Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica

Cedo da manhã, umas cinco e pouco, afastei a cortina e sondei o céu. Neblina miúda. Lá para cima do mapa, chamam garoa.

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Fiz um café forte, tomei uma talagada boa, troquei de roupa e tomei rumo, sorvendo aquela névoa que molhava tudo.

A passarinhada voava rasante, cantando forte, lambendo o espelho d’água da Lagoa dos Flamboyants, chamando a atenção dos biguás que implicavam com as garças. Bicho do canto sinistro!

Caminhei até a embocadura onde fica a pedra da mesa e, mais longe, uma soberba aroeira. Olhei para um lado, olhei para o outro, rezei um Padre Nosso, e resolvi subir mais um pouco.

Podia ter lama, escorregão, cobra, aranha… Queria subir umas pedras majestosas no fundo do terreno, na aba da trilha para a Serra. Cheguei.

Barulho de asas sustentando voo.

Uma coruja, linda, pousou mais além e ficou olhando desconfiada. Descobri sua toca, entre as pedras.

Cumprimentei-a, respeitoso, e peguei a volta.

“Ninguém se perde no caminho da volta”, disse Zé Américo.

Será?

Cerro Corá, 4 de abril de 2024.

Honório de Medeiros é ex-secretário da Prefeitura de Natal, do Governo do RN, professor e escritor

Que maravilha!

Marcos Araújo, Marcos Ferreira, o editor desta página e Elias Epaminondas: sexta super (Foto: Miriam Ferreira)
Marcos Araújo, Marcos Ferreira, o editor desta página e Elias Epaminondas: sexta super (Foto: Miriam Ferreira)

Confraria agradável à noite de sexta-feira (10), na casa do escritor Marcos Ferreira. Celebração da amizade com prosa leve, muitas histórias de micos e gargalhada livre.

Na mesa, além do anfitrião, o pequeno Enzo Ferreira e seus pais – petroleiro Elias Epaminondas e arquiteta/urbanista Miriam Ferreira. Coube também esse blogueiro nacionalmente ignorado e mundialmente desconhecido: eu.

E ainda tivemos o privilégio da estreia do professor, escritor e advogado Marcos Araújo, que pilotou com destreza um fogão quatro bocas, no preparo de legítimo capuccino italiano.

Quem levou falta foi o advogado André Luis, mas justificada em duas folhas de papel almaço, com carbono, sob o testemunho do médico Diego Dantas.

Foi tão bom que a gente tinha que registrar também aqui.

Clube do Cafezinho

Por Marcos Ferreira

Esta semana precisei ir ao banco. Parei diante da porta giratória e dentro de uma caixa em acrílico (creio que fosse em acrílico) larguei alguns pertences que trazia comigo. Eram nada mais que um celular, as chaves de minha casa e algumas moedas embaladas numa fita adesiva transparente. Apenas depois disso foi que a desconfiada porta autorizou o meu ingresso naquele típico reduto do capital.

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Peguei uma ficha no porteiro eletrônico e, a seguir, tomei uma maçada de quase hora e meia até meu número ser chamado no monitor de televisão afixado no alto de uma parede. Nem sei dizer se toda aquela espera valeu a pena, pois o motivo de eu estar ali era um só: receber um novo cartão do Banco do Brasil. O outro estava vencido e com uma rachadura. Então, para obter esse objeto de importância nenhuma no tocante a dinheiro em caixa, lá estava eu, um cidadão ordinário e igualmente desimportante com uma merreca de setenta e quatro reais na conta-corrente.

Deixei a agência da Alberto Maranhão convicto do quanto o meu viver é uma espécie de zero à esquerda. Hoje me permitam estar assim, melodramático. É uma espécie de trejeito, um cacoete. Imagino que não se trate de vitimismo ou autocomiseração. Como se alguém houvesse perguntado, digo também que no próximo dia 10 de abril (peço que isto fique somente entre nós) completarei cinquenta e três anos de idade. Até o momento, para lhes ser franco, não me tornei outra coisa à exceção de um homem de letras sem relevo nesta terra e menos ainda por aí afora.

O que possuo de valor, outra vez sendo honesto comigo e com um bocado de gente bacana, não é muita coisa material, mas amigos que me têm honrado com sua amizade e consideração gratuitas. Alguns são de longa data, desde 1912, como Antonio Alvino, outros se achegaram não faz muito tempo. Talvez devido à minha súbita mudança de açougueiro do verbo para cronista dominical. Então, feito um sonâmbulo, eu caminhava devagar pela Avenida Alberto Maranhão, escolhendo os passos nas calçadas irregulares desta cidade, pensando à toa numa coisa e noutra.

Meti a mão no bolso, peguei o telefone e consultei as horas: 16:05. Com a mixaria no banco e aquelas moedinhas, cogitei entrar num café e pedir uma xícara da rubiácea. Mas, num reflexo de bom senso, larguei tal ideia e rumei para outro endereço: o do meu próprio casulo, onde uma porção do velho e saboroso moca não desfalcaria o meu orçamento como certamente ocorreria no comércio.

Quem sabe num dia qualquer, acompanhado de cafezistas como Elias Epaminondas, Marcos Rebouças, Odemirton Filho, Rocha Neto, Antonio Railton, Clauder Arcanjo, Carlos Santos, todos esses notórios apreciadores do líquido citado, sentemos para tomar essa bebidinha quente e odorífica. Por onde andarão Mário Gaudêncio, Ayala Gurgel, José Arimatéia, Francisco Amaral Campina, Túlio Ratto?… Estarei feliz ao redor dessas pessoas. Ontem mesmo, antes que eu me esqueça, recebi a visita do Dr. Marconi Amorim. E, evidentemente, tomamos mais um cafezinho.

Marconi veio conferir como ficou esta nova morada da Euclides Deocleciano, 32, fruto, em grande parte, do apoio de amigos. Claro que esta crônica não deveria ser tristonha, como se vê de modo predominante, todavia alguns ímpetos depressivos ainda me acometem, morbidez que combato seguindo as prescrições do Dr. Dirceu Lopes. Então, geralmente devido ao meu estado psíquico, às vezes esqueço do quanto a vida é maravilhosa e este mundo não é tão ruim quanto parece.

Portanto, às quatro e pouco da tarde, lá ia eu um tanto sem rumo, decerto em busca de algum amigo com o qual não havia agendado me encontrar. Realmente não encontrei ninguém, nenhum dos meus colegas batendo pernas.

Entrei no meu lar, tomei um banho, fiz café e bebi uma xícara sozinho. Após uns minutos o telefone tocou. Era o poeta Rogério Dias. Trocamos umas ideias através da invenção de Graham Bell e combinamos em ele vir aqui na próxima semana. Trará os seus apetrechos culinários para produzir algumas de suas boas e famosas tapiocas recheadas. De minha parte ficarei encarregado do café.

No fim das contas, dando o braço a torcer, reconheço que esta tarde não foi nada infecunda. Vez por outra, cheio de caraminholas, é o meu quengo que inventa as penas em que vivo, como no belo soneto de Olavo Bilac.

Marcos Ferreira é escritor

Meu ópio negro

Café na xícaraPor Marcos Ferreira

Ela poderia, em se tratando de outro indivíduo, ter ofertado um litro de uísque escocês, por exemplo. Quem sabe uma garrafa de vinho espanhol. Ou, no caso de um tabagista esnobe, ostentoso, uma caixa de charutos cubanos. Chique, não é?! Pois há pessoas, inclusive entre aquelas que compõem a fauna dos literatos, que apreciam artigos ou mimos dessa natureza e origem.

Eu, porém, sem finesse, fidalguia nem pedigree, não tolero nenhuma das opções referidas. Daí que me senti deveras feliz na manhã de ontem ao ser presenteado com um simples pacote de café. Sim. Um pacote desses de duzentos e cinquenta gramas, de cuja linha e fabricante não farei propaganda.

Estamos passando aí. Tenho um presentinho para você — disse-me, por telefone, a leitora e amiga Natália Amorim, esposa do também leitor e amigo José Arimatéia. Pouco após, em companhia dos pequenos Daniel e Joaquim, o casal parou o carro diante da minha casa, todos usando máscara. Natália desceu e me entregou a sacola por cima do meu muro, que tem frente baixa.

— Obrigado — falei sem examinar a sacola. — É muita gentileza de vocês, contudo eu não imagino qual seja o motivo desse presente. Hoje não é meu aniversário, dia da poesia, do escritor nem nada parecido.

— Não carece data especial para presentearmos alguém — contestou ela. — Depois me diga se gostou. Tomara que sim.

— Claro! Eu farei isso em breve.

Então, de bom grado e acertando na mosca, foi um pacote de café que minha leitora Natália Amorim (sentiram o orgulho quando digo “minha leitora”?) me trouxe na manhã de ontem. Tratei de levar a preciosa rubiácea à cafeteira. O inconfundível aroma ocupou a casa toda, decerto alcançando as narinas dos vizinhos mais próximos, como acontece comigo quando eles fazem café.

Permitam-me agora uma rápida digressão. Pois bem. Quem me conhece sabe do meu horror, da minha absoluta repulsa a álcool e a fumo. Tenho as minhas razões, acreditem. Um tanto análogo ao álcool, brinco ao dizer que a bebida mais forte que eu já ingeri foi Biotônico Fontoura. Aquilo descia queimando. Ao menos para o meu paladar de “menino mole”, dizia a minha mãe.

Tomei outras panaceias dessa classe e época, como o Leite de Magnésia Phillips e a intragável Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau), todos nas suas apresentações e sabores tradicionais. No caso específico do Biotônico, para fazer uma piadinha com o álcool, eu chegava a ficar puxando fogo.

Naqueles tempos bicudos de minha infância, enquanto o general João Batista Figueiredo só sabia mandar o povo apertar o cinto, volta e meia os meus pais recorriam a esses polivitamínicos, no mais das vezes sem receita médica. Esta, entre outras manobras, era uma estratégia intuitiva para mitigar a desnutrição, que campeava feroz em meio ao crepúsculo dos anos de chumbo.

Gostávamos mesmo era do Poliplex, com sabor e consistência semelhantes ao mel. Mas este não era nada indicado para mim e meus dez irmãos, posto que se tratava, também, de um estimulante do apetite. E apetite, senhoras e senhores, tínhamos de sobra. Ou, como se diz, para dar e vender.

Encerremos esta digressão medicamentosa. Voltemos ao assunto do café: meu ópio negro. Quero registrar que esta não foi a primeira vez que uma leitora me brindou com esse tipo de presentinho saboroso. Não faz muito a fisioterapeuta Luzia Praxedes, pelas mãos do esposo e escritor Clauder Arcanjo, também me enviou essa bebida apreciada por onze entre cada dez brasileiros.

Desculpem mais esta gracinha. Estou bem-humorado, como devem ter percebido. Nos últimos dias, entretanto, tenho me visto às voltas com uma saudade recorrente dos amigos, das boas conversas em torno de uma mesa, regadas a café e a taças de água mineral com gás. Exato, prefiro com gás.

Vem-me à lembrança, a propósito, a saudosa Livraria Café & Cultura, que funcionou ao lado do Teatro Municipal. Era o nosso ponto de encontro. Ali brotaram e cresceram amizades que nutro até hoje.

Penso nesses amigos enquanto escrevo e saboreio uma caneca de café escoteiro, forte e amargo. Por onde andarão meus colegas de ópio negro, como Leandro Tomé, Cid Augusto, Elias Epaminondas, Jessé de Andrade Alexandria, Gustavo Luz, Francisco Nolasco, Túlio Ratto, Antônio Alvino, André Luís? A pandemia, entre outros desfalques, prejudicou esse grêmio da cafeína.

Quando daquelas visitas, antes do coronavírus, eu disponibilizava um potinho de demerara. Só não tenho aqui, para quem possua glicemia elevada, adoçantes dietéticos, cujo travo final me lembra a dipirona e acaba interferindo no sabor do café. Melhor (na minha opinião) tomar totalmente amargo.

— Assim não dá! — dizem alguns.

Isto é uma questão menos de gosto que de hábito. Mas tudo bem. Com açúcar, adoçante dietético ou de todo amargo, o café nos une de alguma forma. Talvez quem se depare com esta crônica cafeinada, embora se tratando de leitores que não conheço pessoalmente, sinta o desejo de qualquer dia sentarmos para uma conversa descontraída, à volta de uma mesa com xícaras e taças.

O que acha, Carlos Santos? Refiro-me àqueles leitores que conheço apenas por nome: Rocha Neto, Fransueldo Vieira de Araújo, Naide Rosado, João Bezerra de Castro, Raniele Alves Costa. Outros ignoro o segundo ou o primeiro nome, a exemplo desses três: Magno, Fernando e Amorim.

Toda vez que me ponho a escrever, conforme participei a Odemirton Filho domingo passado, penso nos meus leitores. Penso no dever e desafio de fazer valer a pena o tempo que me dedicam. Eis um privilégio: contar com leitores, por menor que seja o número. Os meus, se não são tantos, ao menos são preciosos. Porque a qualidade me interessa ainda mais que a quantidade.

Observo o quanto estamos em sintonia nos depoimentos que me endereçam. Ao escrever, portanto, assumo um compromisso especial com leitores e leitoras não menos especiais. Tenho a agradável sensação de que os recompenso. Assim como me sinto recompensado e honrando por suas leituras.

Pecando pelo excesso, cito mais estes nomes: Aluísio Barros, Cristiane dos Reis, Leontino Filho, Rozilene Costa, Rogério Dias, Vanda Jacinto, Francisco Amaral Campina, Simone Martins, Valdemar Siqueira, Rizeuda da Silva, Marcos Aurélio de Aquino, Natália Maia, Airton Cilon, Luíza Maria, Gualter Alencar, Zilene Marques, David Leite, Fábio Augusto e Misherlany Gouthier.

Chega de citações! Não descambemos para o colunismo literário, ou algo pior. São oito e cinco da manhã e o aroma do meu ópio negro trescala pela casa. Então ergo a caneca e lhes saúdo com o gesto característico.

Um brinde a todos com café. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

Feliz

Saudades da manguaça eu não tenho.

É-me diária a vontade da prosa no café, com casos e causos que desfiamos, donos da verdade e sempre sem solução para nada.

No racha da conta ou na moganga para sacar a carteira, há um pouco da graça da confraria.

De ser feliz bobamente.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Grupo do RN é exemplo de crescimento com o café

Por Josivan Barbosa

À frente do grupo fundado pelo pai há 35 anos, Pedro Lima conduziu uma história incomum para uma indústria cafeeira. Fundada em 1959, no interior do Rio Grande do Norte, longe das principais regiões produtoras de grão, a empresa iniciou a trajetória vendendo café verde.

Hoje, Pedro Lima é presidente do Grupo 3 Corações, que é dono de marcas como 3corações, Santa Clara, Iguaçu e Fino Grão.

Pedro Lima puxa comando de grupo que nasceu no Rio Grande do Norte (Foto: Pequenas Empresas, Grandes Negócios)

Batizada de Nossa Senhora de Fátima no início, a empresa passou a se chamar Santa Clara em 1985, após a segunda geração – Pedro Lima e os dois irmãos – assumir o negócio.

Desde então, fez várias aquisições e, em 2005, fechou uma sociedade com a israelense Strauss, incorporando a marca 3 Corações e mudando a denominação. Hoje, a São Miguel Holding, da família Lima, tem 50% do capital do grupo, e os israelenses, a outra metade.

Servidores públicos

Considerando-se as duas reformas realizadas até agora, a situação de aposentação dos servidores civis ficou assim:

1) A maioria dos servidores admitidos entre 2003 e 2013, que corresponde ao período entre o início da vigência da Emenda Constitucional nº 41 de 2003, proposta pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para mudar o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), e a instituição do Regime de Previdência Complementar, previsto pela Lei 12.618/2012, está enquadrada na regra definitiva incorporada pelo artigo 40 da Constituição, regra esta que exige idades mínimas de 55 anos para mulheres e 60 anos para homens, sendo seus benefícios calculados como base na média dos 80% maiores salários. Os reajustes são baseados na inflação;

2) Os servidores admitidos após 2013 estão sujeitos aos mesmos critérios da regra definitiva mencionada acima, mas com uma restrição adicional – o benefício é limitado ao teto do RGPS, hoje fixado em R$ 5.839,45. Se desejar, o servido pode se filiar ao RPC, aderindo ao Funpresp, o fundo de pensão criado em 2013 para gerir a previdência complementar dos servidores. Até o limite de 8,5% do salário, a União contribui de 1 para 1 como patrocinadora do fundo;

3) Os servidores que ingressaram até 2003 podem usufruir de regras de transição e de excepcionalidade que lhes asseguram aposentadoria antecipada em relação às idades de referência (55/60) da regra definitiva do art. 40 da Constituição Federal, com preservação dos direitos de se aposentar com a integralidade (pelo último salário) e a paridade de reajustes em relação aos salários dos servidores em atividade.

A reforma da Previdência em curso também fixa idade mínima e aumenta de forma significativa a contribuição para o RPPS (de 11% até 17%, mas em escala progressiva, sobre o salário bruto) pelos funcionários.

Empregos – Mossoró em baixa

Os municípios mais dependentes de setores econômicos ligados ao consumo, como o comércio, ou que tiveram investimentos públicos e privados interrompidos foram os que mais sofreram com a perda de empregos formais neste ano. Este é o caso típico de Mossoró.

As cidades que tinham margem fiscal para retomar obras públicas e incentivar projetos inovadores como startups e qualificação profissional conseguiram contornar a situação em um momento de fraco crescimento econômico, mas infelizmente, Mossoró não está nesse time de cidades.

A maior parte das cidades que fecharam postos de trabalho está localizada na região Nordeste e aqui em Mossoró, contribuiu muito a questão dos investimentos da Petrobrás e a baixa captação de recursos para financiamento da construção civil.

Recursos para os Estados

O governo Bolsonaro preparou o Plano de Equilíbrio Fiscal, o Plano Mansueto (em referência ao secretário do Tesouro, Mansueto Almeida), com oito alternativas para que os Estados escolham três e reduzam déficits dentro do mandato dos atuais governadores. Os Estados dificilmente se sentirão atraídos a promover programa de austeridade se tiverem uma alternativa para não fazê-lo. O ministro da Economia, Paulo Guedes, acenou com a “cenoura” de dinheiro que será obtido do leilão da cessão onerosa, e mencionou repasse de R$ 30 bilhões. Citou também um novo pacto federativo, em benefício da federação, mas nada falou de condicionalidades. Cinco Estados já estouraram o limite de gasto com pessoal e outros 9 estão perto do limite.

Juros nas alturas

A Caixa Econômica Federal anunciou durante a semana uma redução de até 40% nas taxas de juros de diversas modalidades de crédito. Analise os números e veja se você tem a coragem de passar na calçada da CEF. O cheque especial para pessoa física e jurídica terá taxa máxima de 9,99% ao mês e crédito pessoal a 2,29% ao mês e um novo cartão de crédito internacional sem anuidade, com rotativo a 8,99% ao mês.

Para os clientes pessoa jurídica com cesta de serviço contratada serão oferecidos cheque especial com taxa também a 8,99% ao mês, além de capital de giro a partir de 0,95% ao mês, antecipação de recebíveis a 1,85% ao mês.

Mais médicos

A nova versão do Mais Médicos será denominada de Médicos pelo Brasil. Com a iniciativa, o Ministério da Saúde promete pagar salários de até R$ 21 mil, já no primeiro ano, e aumentos proporcionais a cada três anos, que culminariam em vencimentos de R$ 31 mil após uma década. Mesmo com cifras tão elevadas, o governo diz que vai pagar o programa, nos primeiros anos, com parte do orçamento que não era executado pelas gestões anteriores e com remanejamento de verbas.

Outra novidade é que os contratados passam a ser remunerados de acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e não mais por meio de contratos temporários de três anos. A contratação efetiva dependerá, no entanto, de um estágio probatório. Isso porque, nos primeiros dois anos, todos os médicos selecionados terão de realizar um curso de especialização em medicina de família, sendo contratados definitivamente apenas após este período no programa.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA)