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O que vai ficar

janela, isolamento, quarto, apartamento, luz solarHá pouco mais de dois meses, em conversa com um filho à distância de milhares de quilômetros, no uso de um desses aplicativos virtuais, falamos sobre vida e despedida.

De mim, um testamento para resumir o que ofertarei para o futuro, quando não estarei mais por aqui:

– Espero não deixar sequer uma bicicleta; só boas memórias e exemplos. Herança, legado.

É isso.

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O bem volta!

Por Carlos Santos

(Imagem: Reprodução/Shutterstock)
(Imagem: Reprodução/Shutterstock)

Costumo dizer que “o bem volta.” Muitas vezes nem o percebemos, porque ele é simples, espontâneo e de coração. Não tem fatura, não precisa ser visto. Vem do fundo d’alma.

“E o mal?” – podem me perguntar. Fico com o ensinamento ancestral que a vida tem-me confirmado: “O mal por si só se destrói.”

O que nos confunde muito é a crença de que ele, o bem, deva voltar pelas mãos de quem de algum modo ganhou nossa generosidade ou compaixão. Teve o ombro. Por gratidão, digamos.

Seria uma espécie de reconhecimento ou materialização espiritual do toma lá, dá cá.

Ele pode bater à sua porta por outras mãos e formas, não necessariamente por quem você socorreu.

É comum que nem o identifiquemos de imediato ou jamais.

Mas, ele volta.

Mais ele volta.

E se a propaganda do que é feito não for a essência do gesto, para não se revelar um negócio, falso, eis o bem se preparando para retornar;

Principalmente, se nos sentimos mais felizes em ofertá-lo do que aquele que o recebe.

O bem está nas mãos de quem acolheu meu filho com carinho no seu primeiro dia de emprego, mesmo sem saber de minha existência;

Aparece no estresse do trânsito, quando o outro em vez de buzinar de ódio ao perceber uma manobra indevida, se aquieta – compreensível. Perdoa-nos;

Chega no sorriso sincero de quem me atende na lanchonete simples, não apenas por obrigação ou marketing, mas porque vê um rosto angustiado;

Está na oração reservada e sem voz de quem lembra de mim, de você, sem que saibamos, colocando-nos em seu pedido de proteção espiritual;

O bem tem a cara dos que me elegeram pai, não por orfandade, mas porque minha carência era bem maior;

Surge de supetão, assim mesmo de repente, de onde você menos espera, para dividir aquele restinho de refrigerante e o cachorro-quente contigo, na porta da escola;

Acolhe-nos através do amigo que nos faz irmão, pois nosso sangue é universal no sentimento;

Esse bem que conheço não estica o braço diante do semáforo, no vermelho, para deixar tilintar algumas moedas nas mãozinhas encardidas da criança faminta;

Nem pense em encontrá-lo no Instagram, Facebook, Twitter… Lá ele não aparece, por não ter necessidade de se exibir;

E fique certo: jamais existirá na primeira pessoa, visto que não aprendeu a conjugar a vida desse jeito;

O bem volta.

Às vezes a gente nem desconfia…

Mas, ele volta.

Mais ele volta.

O bem vai voltar, mas não porque doei o que me sobrava inútil: a camisa desbotada, o tênis esfolado ou o restante da quentinha que não consegui comer por completo;

Ele voltará porque resolvi dividir para lhe suprir, me desnudei para lhe vestir, renunciei para permitir que brilhes, estiquei o tapete em vez de puxá-lo à sua passagem, à sua vez, ao seu direito de vencer.

E se o bem não voltar?

O bem volta.

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos (BCS) e autor dos livros “Só Rindo – A política do bom humor do palanque aos bastidores (I e II)”

Sonho de infância

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa do Flickr
Foto ilustrativa do Flickr

Nestes tempos de internet e de redes sociais é comum ficar horas navegando pelo mundo virtual. Em casa, ou nos bares e restaurantes, observa-se pais e filhos teclando nos seus celulares e tablets. Aliás, não raro, vejo crianças que, ao fazerem suas refeições, não tiram os olhos das telas. Concorde-se ou não é a realidade atual; cada um educa os seus filhos como bem entende.

Pois bem. Dia desses, nas minhas diligências para proceder às intimações, vi algumas crianças jogando futebol no meio da rua. E confesso que fiquei surpreso; uma grata surpresa, diga-se. De uns tempos pra cá, vejo poucos garotos jogando pelas ruas das cidades.

Porém, recentemente, ao chegar à casa de uma senhora na cidade de Porto do Mangue, que vende café, sucos e lanches, conversei com o seu filho. O garoto, com uns dez ou doze anos, disse-me que seu sonho era ser jogador de futebol. Perguntei se jogava bem. Ele sorriu, encabulado, respondendo-me afirmativamente.

Incentivei-o a lutar pelo seu sonho, mas disse-lhe para não abandonar os estudos, ainda que buscasse o seu objetivo. Sonhar faz parte de nossas vidas, alimenta a nossa alma para que possamos correr atrás do que desejamos. Nem sempre conseguimos, é certo. Cair e, principalmente levantar, faz parte da jornada.

Entretanto, não podemos deixar de sonhar. Os sonhos nos fazem suportar o peso da vida. Talvez, o garoto da cidade de Porto do Mangue não consiga realizar o sonho de ser um jogador de futebol. Todavia, o desejo de dar uma vida melhor para sua família o motiva a perseguir seu objetivo. Oxalá consiga.

A infância e a adolescência, sobretudo, são recheadas de sonhos. Uns, conseguimos realizar, outros, não. Faz parte. Penso que o segredo é seguir em frente, sonhando com os pés no chão.

Depois do breve papo com o menino, tomei um café e fui cumprir os mandados judiciais. Ele, sem querer, despertou a minha memória afetiva, pois resgatei os doces sonhos da infância.

Lembrei-me, ainda, dos jogos de futebol lá na rua 06 de janeiro e na rua Francisco Ramalho. Veio à mente, com carinho, os jantares na casa dos meus avós e na casa dos meus primos.

Foi um tempo bom.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

De longe chegava a voz de Altemar Dutra cantando…

Janela, olhando da janela, janela de edifício, apartamento, iluminação externa, condomínio, cerca de proteção em janelaPor Honório de Medeiros

De longe chegava a voz de Altemar Dutra cantando “Tudo de Mim”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Quem estaria escutando essa música, no último dia do ano, quando já era noite fechada e faltava pouco para os fogos subirem aos céus?

Enquanto desfrutávamos da nossa solidão a dois, preparávamos, a quatro mãos, nossa ceia. Eu e ela. Os meninos, ainda os chamamos assim, já tinham partido, para muito longe. Ficamos nós, aqueles cujas raízes são fundas demais para serem arrancadas.

Eles se foram, são o futuro, e, nós, cada dia mais, o passado.

Ela nota minha melancolia. Disfarço. Brinco. Não resolve. Não consigo mais engana-la. São muito anos de cumplicidade. Falo-lhe de Altemar Dutra, de quando o conheci ainda praticamente adolescente, uma noite, no “Casarão”, e emendo com uma confissão, dizendo-lhe que minha tristeza não vem da batida do passado na porta do meu coração.

Não é isso, digo-lhe. É a tristeza de quem sente que algo precioso está se perdendo, e não voltará. Estou, agora, falando acerca da maravilhosa letra da música que Altemar Dutra canta e que ouvimos vinda de longe, de alguma das casas que cercam nosso prédio, elas mesmas, as casas, antigas, desaparecendo para cederem seus lugares a prédios modernos, repletos de vidros e ausentes de história.

Essas músicas sobrevivem como espasmos e me quedo surpreso quando as escuto em algum lugar, por insistirem em abrir espaço, vindas do passado, em um futuro tão diferente. Como quando escutei uma melodia de Chiquinha Gonzaga, em um celular portado por uma adolescente no shopping onde almoçávamos.

Altemar Dutra segue desaparecendo lentamente da nossa memória, e fatos como esse sempre me lembram amigos que se foram, ao longo do tempo, de nossas vidas. Amigos que se afastam, aqueles velhos amigos, com eles desaparecem “a testemunha e o comentarista de milhares de lembranças compartilhadas, fiapos de reminiscências comuns que se desvaneceriam“(*). “All those moments will be lost in time, like tears in rain“(Todos esses momentos serão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva**).

Assim, concluo, enquanto ela põe a mesa, morre aquilo que o homem constrói, apaga-se, desaparece na neblina do tempo, pois o futuro e seu filho dileto, o esquecimento, algoz de todas essas lembranças, não se compadece do quanto já foi construído em todos os lugares e tempos. É preciso que chegue o novo, que se vá o passado.

Eu me calo. Muito antes, já se calara Altemar Dutra. Decerto, quem o escutava, já se aproximando do inverno da vida, resolveu dormir. Mal sabe ele que lhe fiz um brinde, com um copo de água, quando vinha a madrugada.

Para ele, Altemar Dutra, Evaldo Gouveia e Jair Amorim.

* Hereges, Leonardo Padura.
** O replicante Roy Batty, em “Blade Runner“.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN.

Crônica para dizer que quero bem

pai e filho, mãos, adulto e criançaCrianças, a gente vibra com o engatinhar.

Qualquer macaquice e achamos o máximo.

As primeiras palavras ininteligíveis ecoam como sonata.

Na escola, na vida, nos passos que dão longe de nós, um misto de temor e alegria.

Crescem e continuamos bobos.

Filhos – agora – somos nós.

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A maioria é assim

Por Diassis Linhares

Quando perguntado se está tudo bem, geralmente as pessoas respondem? “Tudo bem”.E dizem: “Meu filho mais novo é quintanista de medicina, o mais velho concluirá agora doutorado em engenharia civil e a minha moça é arquiteta”.

O intrigante disso tudo, é que em nenhum momento essas mesmas pessoas falam se eles são bons filhos, se ajudam em casa ou se retribuem os esforços feitos, na maioria das vezes com um enorme grau de dificuldade.

Exaltam a profissão em detrimento da bondade, enfim, da qualificação do homem, que é, indiscutivelmente, o componente mais importante de todos.

Nota do Blog – Diassis Linhares (do Musibol) é um dos mais longevos sucessos do rádio do RN, sempre atuando no campo esportivo e com ampliação ao bom gosto musical. Nunca canso de repetir: é uma pessoa a quem devo muito pela trajetória que cumpro em minha vida-ofício-apostolado há mais de 34 anos ininterruptos. Escreve do fundo d’alma. Assino embaixo.

Renasci, refiz-me, por seu incentivo e de mais gente que me deu a mão e foi paciente comigo.

Que bom ter Diassis e outros tantos inspirando, dando força de apoio – como Givanildo Silva, Phabiano Santos etc.

Obrigado. Sempre. Muito obrigado.

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Filhos, melhor tê-los…

Por Honório de Medeiros

Conhecidos, tenho muitos. Muitos, mesmo. Não sei se em decorrência do tempo vivido, dos meus defeitos ou qualidades, se é que tenho algumas. Talvez uma mistura disso tudo.

Amigos, entretanto, tenho poucos. Conto nos dedos. Alguns, antigos. Outros, mais recentes. A todos dispenso o mesmo afeto que pretendo gentil e leal. Pretensão? Talvez.

Entretanto tenho isso como certo posto que recebo, de volta, além do que mereço.

Percebo que, com o passar dos anos fico mais ensimesmado, o que pode parecer, para alguns, distanciamento, sem o ser. Ao contrário. Nessa amiudada conversa comigo mesmo há sempre muito espaço para o afeto tão especial que é a amizade.

Mas agora já não há a necessidade juvenil do contato pessoal constante, tão comum nos anos em que precisávamos viver todos os dias como se não houvesse um depois-de-amanhã. Digo tudo isso tendo em vista que para eles, meus amigos, escrevo essa notícia singela, dando conta de uma semana, já passada, especialmente feliz em minha vida.

Vai dessa forma, fora do tempo exato: em mim a maturação das coisas do coração é lenta. Tão feliz que eu quis partilha-la, e, ao mesmo tempo, também quis que todos os outros pudessem saber desse partilhamento. Em assim sendo, tratei de publicá-la onde quem me conhece sabe que pode encontrar algum texto meu, caso queira se dar ao trabalho de me ler.

É que meu filho se formou.

A se crer em sua história pessoal, vai cuidar das pessoas, enquanto médico, com o mesmo carisma que o torna, aos meus olhos de pai, afetuosos, mas de forma alguma pouco críticos, tão querido pelos que o cercam.

Mais que sua formatura em Medicina louvo, nele, a ética, a fé, o foco, e a disciplina que o levaram a realizar um sonho de criança. Orgulhoso constato, nele, qualidades que eu não tenho, ao mesmo tempo que faço vista grossa para os defeitos meus que porventura tenha herdado. Tenho certeza que o tempo vai cuidar de esmerilhá-lo.

Creio nele, enquanto pessoa, e aprendi a respeitar sua angústia com a impossibilidade de fazer mais do que gostaria e pode fazer. Peço a Deus que o mantenha assim, sempre refém de um caráter sem mácula.

E minha filha ingressou, aos dezesseis anos, na mesma semana das festas do seu irmão, no curso de Direito, após uma batalha judicial e burocrática que tentou impedir sua inteligência viva, instigante, sua voraz capacidade de leitura, sua habilidade natural para os idiomas, de pousar no ambiente apropriado para quem anseia, como ela, por entender o mundo no qual vive para melhorá-lo, ou seja, na Academia. Não pude deixar de me emocionar quando a vi subindo lentamente os degraus que conduzem ao curso de Direito da mesma Universidade Federal onde estudei, fiz política estudantil nos estertores da Ditadura, e me formei.

Naquele momento se fez presente, além de qualquer outro, a consciência da velocidade com o qual o tempo nos aniquila e nos pereniza por intermédio dos filhos. E em assim sendo, após comunicar a vocês, meus queridos amigos, o que se passou nesses dias tão felizes para mim, eu lhes peço que compartilhem, comigo, esse sentimento singular, tão humano, que é a felicidade de se sentir, talvez em um dos aspectos mais importante de todos, de certa forma realizado.

Fosse eu poeta, não tendo feitos a contar, anônimo que sou, e cada dia mais feliz com essa condição, mas livre na justa medida em que um homem pode ser em tempos que tais; sem dever a ninguém, exceto ao meu próprio esforço, o pão, o teto, e o transporte que são meus, escreveria para eles um poema tão belo quanto possível para lhes dizer do meu orgulho e da minha alegria, nestes dias que correm rápidos, em tê-los como filhos, em partilhar com eles minha história, e em ser testemunha de tudo quanto estão a construir honradamente.

Como não sou, bastei-me nessas linhas que se mal-traçadas, são sinceras, e termino agradecendo a atenção dos amigos e desejando, aos meus filhos, que Deus lhes torne, sempre, seu caminho cada vez mais leve.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Estado do RN

Tudo outra vez

Duas coisas que tenho saudades: pegar filho em colégio e sair aos domingos a passear e almoçar com eles. Sabia que era bom, mas hoje tenho certeza.

Eu driblava o trabalho para pegar filho em colégio; não me lembro de ter reclamado. Vejo, hoje, pai resmungando por isso.

Aproveite, aproveite. Você não sabe como é bom. Talvez só descubra adiante o que eu logo percebi: bom demais!

Aproveite, aproveite!

Se eu não fosse pai…

Não parei ainda para pensar nessa hipótese. Não ser pai?

Nem pensar. Há reencarnação? Quero ser pai!

De um, de dois filhos, três, quatro… Sê, diria o poeta! Ser. Um ser-pai.

A vida tem outro sentido. A lanterna sai da popa e vai pra proa.

Amar? Ah, só se for muito! Devoção.

O bem não é pela espécie que continua, mas pelo brilho que passamos a ter à própria vida. Ela finalmente passa a ter sentido.

Nosso coração pulsa fora do corpo; bombeia a existência de outro ser, sem sair do lugar.

Se eu não fosse pai…?

Seria o não-ser.

* Singela homenagem de um pai aos seus filhos, aos filhos dos meus amigos, aos filhos que não conheço.

De volta

Passagem rápida por Natal, para compromissos profissionais: Debate e palestra para alunos de Comunicação Social na UnP.

No início da tarde, a estrada é novamente meu fio de ligação telúrico com Mossoró.

Gosto de Natal. Encanta-me. Amigos aos montes, filhos em menor número. Bem-querer por todos.

Mas meu canto, como capiau, é Mossoró. Tabaréu que se acostumou ao próprio provincianismo e à mesma paisagem humana; às árvores retorcidas, ao chão árido e ao mormaço.

À sua gente.

Meu sertão nunca sai de mim, não obstante a distância física.

Estou de volta pra casa.

Beijos.