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Compromisso com o bem-querer e a inteligência viva

Por Carlos Santos

Eis-me, agachado, para tentar ficar à altura de Sátiro (Fotos: Hildegard Mota)

As fotos que ilustram essa postagem tem um pouco de cabotinismo do editor do Blog. Ou muito.

Está implícita ou escancarada a vaidade de desfrutar da inteligência/cultura, serenidade e da amizade do “padreco” Sátiro Dantas.

À manhã de hoje, em sua sala no Colégio Diocesano Santa Luzia (CDSL), em Mossoró, cumpri compromisso que já tinha aprazado há algum tempo: atendi a convite seu para botarmos a conversa em dia.

Lá se foram quase duas horas ininterruptas de conversê. Entre nós, as intervenções ‘diocesanas’ de Hildegard Mota e do padre Charles Lamartine.

Sátiro Dantas – dono de uma memória privilegiadíssima – passou quase 20 dias sob cuidados hospitalares. Contudo está aí: firme e forte.

Falamos sobre os meninos arrabaldinos da Capela de São Vicente, nossa República imaginária. Entre eles, Jânio Rêgo, Marcos Porto (já falecido) e Honório de Medeiros.

Nenhum anticristo, penso. Entretanto há controvérsias sobre esse ponto.

Eu, Sátiro e Charles: o bom mestre

Escola 13 de Junho, Diocesano, filosofia, interventores, governadores. Café Filho, os Rosados, conjuntura atual, Estado Novo; Garibaldi Filho, Henrique Alves, Lula, Dilma.

Clérigos e demônios: padre Mota, Lampião.

De rádio, comunicação cibernética e imprensa no geral, também.

Sátiro, quando adentrei à sua sala, manuseava um CD com entrevista que fizera no início dos anos 70, ouvindo Terto Aires, que fora intendente (cargo equivalente à de prefeito) de Mossoró no início de século.

Com o flagrante, um acerto: quero cópia dessa preciosidade. Mas já sei que o jornalista Emery Costa, bem antes, cerca-o por igual trunfo.

Paramos por aqui. Depois a gente retoma a conversa.

Bom revê-lo!

Inté!

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos (Canal BCS)

*Texto originalmente publicado no dia 9 de março de 2015 (veja AQUI), às 14h18, há quase 11 anos. Nosso querido padre Sátiro Cavalcanti Dantas faleceu no dia 27 de novembro de 2023 (veja AQUI). Bateu saudades, meu querido.

Marcos era um anjo

Por Jânio Rêgo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Marcos Porto fez uma nesga de dois metros para a boca de sino da calça jeans. Isso mesmo. Marcos era um exagerado.

Quando ele montou na moto cinquentinha lá defronte à casa dele, na lateral esquerda dessa Capela de São Vicente, sob os olhares de grande parte dos cangaceiros do Patamar, o tecido cobriu os pneus, manivela, corrente, mas ele acionou o pedal, acelerou e tomou o rumo sabe Deus de onde.

Marcos depois virou Menino Jesus em procissão da Catedral. Sempre foi performático e criativo.

Ousado, sem limites convencionais.

Uma vez devoramos uma caixa inteira de chocolates Sonho de Valsa debitada na Cooperativa Popular, na conta dos nossos pais. Eu angustiado com culpas, ele se divertindo com leveza de um anjo.

Marcos era um anjo.

Memórias da São Vicente que você não admite. Mas são reais.

Jânio Rêgo é jornalista

A “Igrejinha do fundo redondo”

Por Jânio Rêgo

Igreja de São Vicente, no Centro de Mossoró (Foto: do autor)
Igreja de São Vicente, no Centro de Mossoró (Foto: do autor)

“Igrejinha do fundo redondo” de onde partiram os principais disparos da peleja do povo da cidade do Mossoró com o bando de Lampião.

Essa história é contada em prosa e verso e em espetáculo teatral exibido no patamar defronte à porta principal, todo mês de junho, exatamente dia 13, dia do Santo Antônio que por conta disso praticamente se tornou a entidade mais reverenciada no templo do que o próprio padroeiro, São Vicente de Paula, com direito a novenário e nicho especial no altar.

Foi ele o protetor, o que guiou a mira do fuzil do atirador que acertou Colchete e logo em seguida Jararaca que foi conferir o corpo do colega.

Colchete morreu na hora. Jararaca, preso, foi executado à beira da cova.

Seu túmulo, no Cemitério São Sebastião, é hoje motivo de curiosidade e adoração mística nos dias de finados.

Tínhamos orgulho dos nossos antepassados mossoroenses que se organizaram para defender a cidade. O atirador da torre ainda era vivo quando minha geração jogava “pelada” no patamar. Era um velho silencioso e sistemático que todas as noites sentava-se na calçada de sua casa para tomar a fresca do vento Nordeste, como faziam todos naquele tempo.

Mas, também admirávamos, confesso, o cangaço, os cangaceiros, como todo nordestino influenciado pela “cultura da valentia” que nada mais é que um brutal instinto telúrico de violência que infelizmente ainda paira sobre o Brasil.

Jânio Rêgo é jornalista

Memórias da República Livre do Patamar da São Vicente

Por Jânio Rego

Tela do artista Laércio Eugênio, colocando em evidência a Igreja de São Vicente em Mossoró
Tela do artista Laércio Eugênio, colocando em evidência a Igreja de São Vicente em Mossoró

Como era o nome dele? Trabalhava na loja de peças de Yoyô Almeida. A memória turvou o nome do personagem da infância mas fixou a cena que compartilhei com Marcilio C. Nascimento.

Depois do almoço ele passava no rumo do bairro da Paraíba, morava por trás da capela de São Vicente. Quando passava, os meninos já estavam sentados na sombra das castanholas da calçada de Dona Helena, conversando, chupando picolé de creme holandês, preparando alguma aventura pelos arredores.

A rua Francisco Ramalho vazia, o patamar da igreja torrando ao sol . Como era o nome dele? Falava com eles, até parava um pouco, e caminhava sem pressa de empregado do comércio, quando à altura da casa de Pedro Borges acendia um invariável cigarro, tão forte que sentíamos o cheiro até ele dobrar a esquina.

Como era o nome dele?

Além de lembrar de ‘Edson Panqueca’, Marcilio lembrou detalhes da família e do destino dele, e ainda me trouxe ao telefone, para falar comigo, ao vivo, mais três personagens da minha vida mossoroense: Francisco Moreira, Marcos Medeiros e Ricardo Benjamim.

Foi um presente de fim de ano.

Boas festas.

Jânio Rêgo é jornalista

Padre Sátyro e a pelada no Patamar da São Vicente

Por Jânio Rêgo

Tela do artista Laércio Eugênio
Tela do artista Laércio Eugênio

Todos os pais sabiam da implicância de Padre Satyro com a “pelada” no Patamar da Capela de São Vicente. Fazia preleção, exortava, queixava-se nas missas aos domingos.

A missa era a sua quase exclusiva obrigação litúrgica como capelão, não fosse uma novena a Santo Antônio que surgira após a famosa Resistência a Lampião. As novenas eram até divertidas, havia o incenso, o ora pro nobis e, às vezes, até quermesses além das procissões curtas e rápidas.

Padre Satyro não era de muito bolodoro católico. Mas no caso do jogo ele pegava no pé, que as bolas afrouxavam os ferrolhos das portas do templo, que atingia o reboco e a pintura das paredes, que pegava mal para a Capela. Era carão duplo em quem fosse também aluno do Diocesano, pois ele não deixava passar: “essa turma da São Vicente…”.

Os adultos, nas missas, ouviam e calavam-se. Quem ousaria privar dezenas de meninos e meninas, filhos, netos e bisnetos, de usar um patamar para o que conviesse nos dias ensolarados e chuvosos de Mossoró grande?

Nem a mais fiel beata encampou algum dia a campanha do padre que chegou a ser obsessiva e até policialesca: um dia ele pediu ao Delegado para dar um jeito naquilo. Clodoaldo usava um chapéu de massa, era careca, homenzarrão, dirigia um jeep em rondas pela cidade, e chegou a tomar algumas bolas na São Vicente, mas desistiu depois de alguns dribles que levou da meninada em pleno Patamar.

O jogo acabou-se por si, duas gerações depois dessa que lembro.

Jânio Rêgo é jornalista

Doar livros

Por Jânio Rêgo

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Muito tempo depois da morte de Marcos Porto, apareceu a história em Areias Alvas que o filho de seu Chico Porto e dona Maria do Carmo havia aparecido, daquele jeito como era ele, chupando quixaba, no meio dos bodes, ao pingo do meio dia, sob a frondosa quixabeira onde pôs fim à própria vida naquela sombria e marulhosa tarde de junho. Como vento nas dunas, essa história, contada sob glórias e aleluias por sete mulheres na Igreja Pentecostal Sal do Senhor, ecoou pelos povoados de Gado Bravo, Retiro, Pau de Légua, Barra e chegou até a vila do Tibau e Mossoró.

A Igreja Pentecostal Sal do Senhor, olhando direitinho, foi fundada por ele quando voltou de uma temporada de quase uma dúzia de anos no Amazonas. Quando voltou tinha os cabelos brancos e compridos mas cortados na fronde como os índios. Toinha Bateria foi encontrá-lo deitado na rede no primeiro andar da casa da mãe dele enviuvada. Fez aquela festa, bichim, levantou-se com aqueles braços compridos e disse assim: Toinha e Maria Bolsa Velha. E calou-se, só abrindo a boca para pregar naquela duna grande ao lado da casa de Gado Bravo onde instalou a sede da sua irmandade, que era assim que ele chamava.

Por que doar livros (4):

Quando ainda era mais criança que hoje ele leu toda a coleção de Alexandre Dumas, aquele dos 3 Mosqueteiros, uns trinta e tantos volumes, de capa grossa, esverdeada com naipes dourados nas bordas. Sabe tudo sobre França, mais ainda que agora ano passado revirou in loco os locais onde o Richelieu e tantos cardeais e reis pisaram, com a meticulosidade com que folheia os seus compêndios de filosofia do direito.

Tenho a impressão que o Blog da Feira o trará no momento em que os livros da Coleção Mossoroense estejam passando às mãos da Feira representadas em Tarcízio Pimenta e José Carlos Barreto. E esse ano é França Brasil/Feira França. E nada mais francês, mais jacobino que Massilon, o cangaceiro cuja história Honório de Medeiros escreve.

Por que doar livros (3):

Quando o conhecemos ele já nem ensinava mais nem francês. Mas era para nós o professor de latim com quem não estudaríamos mais. Era um padre que perambulava pelos corredores do colégio, talvez revendo velhos amigos do Diocesano Santa Luzia, indo pro refeitório quando morava no colégio. Depois mudou-se e não ouvi mais falar dele, a não ser as histórias que contavam sobre sua sabedoria latínica. “An argento patia”, era uma palavra que ele criara com radicais do latim para significar Doença da falta de dinheiro do que ele sempre reclamava.

Gostava de beber cerveja e não passara de monsenhor na cruel hierarquia católica. Era isolado. Quando morreu estava na Tribuna da Bahia e meu colega Eduardo Costa me chama do arquivo para um telefone com uma notícia que lhe dava um amigo meu antes mesmo d´eu atender o telefone: e Eduardo ecoaria pela Redação: Jânio herdou a biblioteca de um monsenhor, e já eram bem 10 mil livros. Era uma mentira mossoroense, claro, mas a Redação da Tribuna acreditou que era herdeiro do Monsenhor Sales.

Porque doar livros (2):

Professor Vingt-Un Rosado foi meu diretor na Escola de Agronomia de Mossoró, hoje tornada Universidade Federal do Semi-Árido (UFERSA) com cursos que não se conta mais nos dedos como no tempo de Esam. Naquele tempo deixei a Rural de Pernambuco com medo da perseguição da ditadura e fui continuar agronomia sob a proteção da família e da terra mater. A Esam era, como é, uma respeitável escola e somente os arroubos de adolescência permitidos pela minha família liberal haviam me deixado fazer vestibular e passar em Recife. Quando cheguei Vingt-Un estava na sua segunda fase de poder na instituição que já passava dos 10 anos. Conheci a Coleção Mossoroense naqueles anos e já era levada pela obstinação quixotesca do velho cientista agrônomo.

Por que doar livros (1):

Fazendo uma campanha em Ribeirão Preto, em 2004, encontrei um professor universitário de malas prontas para um congresso sobre apicultura em Natal e ele dizendo-se um discípulo de padre Huberto Brunning cujo trabalho havia conhecido através da Coleção Mossoroense. A imprensa de Natal tratou-o no dia do congresso como uma das maiores sumidades em abelha jandaira uma melífera em extinção no Nordeste.

A cultura nordestina é assim, atraente e brota nos locais menos prováveis. Somente o padre Huberto merece um livro, é um personagem, tão estranha a figura e tão importante foi ele para uma geração norte riograndense. É um pouco dessa cultura que o Blog da Feira pretende plantar com livros aqui na Terra de Lucas. A Transportadora Bonfim nos informou há pouco que os livros devem estar aqui amanhã. É uma honra e uma alegria.”

Jânio Rêgo é jornalista e editor do Blog da Feira

*Texto originalmente publicado no Blog da Feira.

Paulo Maia

Por Honório de Medeiros

Da esquerda para a direita de quem olha: Fred, Paulo Maia, Hélton, eu, Fernando Negreiros, Segundo Paula, Lenilson, Anchieta, Delevan, Jânio Rêgo. Turma da Quarta Série Ginasial, 1972, Colégio Diocesano Santa Luzia, reunidos em 2011 (Foto: arquivo do autor)
Da esquerda para a direita de quem olha: Fred, Paulo Maia, Hélton, eu, Fernando Negreiros, Segundo Paula, Lenilson, Anchieta, Delevan, Jânio Rêgo. Turma da Quarta Série Ginasial, 1972, Colégio Diocesano Santa Luzia, reunidos em 2011 (Foto: arquivo do autor)

Paulo Maia dizia que era baixinho por minha culpa: eu tinha roubado o leite dele, quando recém-nascido.

Tudo porque eu nasci três dias depois do 23 de abril de 1958, no qual ele veio ao mundo, ambos na Maternidade Almeida Castro, em Mossoró.

Como mamãe não conseguia matar minha fome com seu pouco leite, valeu-se da generosidade da mãe dele, Manolita Pereira, que nos alimentou.

Manolita diz que é minha mãe de leite. Eu respondo, sempre respondi, que eu e Paulo tínhamos que ser irmãos, estava escrito no livro da vida, e beijo a mão dela, reverente.

Entre idas e vindas, altos e baixos, seguimos próximos vida afora, sempre próximos. Amigos desde a maternidade.

Ontem (05/01/2023 – veja AQUI), eu lá pelas bandas de São João do Sabugi, muito longe, em busca das misteriosas raízes genealógicas do meu avô paterno, acordo cedo, abro o celular, e leio a notícia de sua morte.

Um baque. Boto o carro na estrada e venho mudo, de lá até Mossoró, rasgando o centro do Estado, percorrendo um mundão de terra.

Uma espécie de solidão amarga, ensimesmada, uma onda de tristeza que teima em vir, toma conta da gente. Sensação de impotência. Solidão, tristeza e impotência.

Falam que há conforto na partida de alguém que lutou bravamente por dois anos contra essa maldita doença cujo nome, amedronta tanto, que o abreviaram.

Pode ser. Sei que lutou ele, a esposa, filhos, a família toda, os amigos, os amigos dos amigos. Rezamos muito. Luta vã. Que seja feita a vontade de Deus.

Descansou, então, e por fim.

E a saudade?

Paulo, você se lembra daquele dia no qual Antônio de Bé nos levou em sua jangada, começo da madrugada, para além da última visão de terra, como companheiros de pescaria?

Lembra das tardes de cerveja e Belchior, lá no Asfarn, em Natal?

Lembra dos veraneios em Tibau? Do jipe, das meninas, dos amigos comuns, das pescarias no Arrombado?

Do Diocesano e da turma da quarta série ginasial de 1972?

Lembra como decidimos, junto com Delevam, quem seria o padrinho de Paulinha?

Lembra daquele dia no qual fomos barrados na ACDP?

Lembra daquele dia… melhor não contar, não é?

Ê Paulo, são tantas e tantas memórias. Um dia eu conto para meus sobrinhos! As que eu puder, claro.

Ei, Paulo, aguarde aí. Um dia, chego.

Descanse em paz, meu irmão.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Rosalbismo tenta um palanque para a campanha 2018

Por Carlos Santos

A estada em Mossoró no sábado (2) da senadora Fátima Bezerra (PT), para participar do “Pingo da Mei Dia”, evento da municipalidade, serviu para o grupo da prefeita Rosalba Ciarlini (PP) se mover mais à frente no tabuleiro político estadual. Porém sem apontar definições quanto a rumo e lado.

O rosalbismo procura outra vez escalar o ‘andar de cima’ das negociações políticas no estado, que andam muito concentradas em Natal e Grande Natal. Porém essa não é uma prioridade abstrata ou por mera vaidade.

Izabel Montenegro (presidente da Câmara de Mossoró, Fátima, Rosalba e Tetê (irmã de Fátima) no Pingo (Foto: Web)

A questão sine qua non (essencial) é não sobrar nas conversas e ter voz ativa para viabilizar a reeleição do deputado federal Beto Rosado (PP), por exemplo. Até aqui muito complicada, que se diga.

Fátima, pré-candidata ao governo, deseja marcar posição em Mossoró e tem uma opção a vice na manga: o ex-candidato a prefeito Gutemberg Dias (PCdoB) – veja AQUI. Outro ponto é a necessidade de tempo de TV e rádio.

O PP acrescentaria ao palanque eletrônico de Fátima Bezerra, mas pode comprometer a eleição do candidato prioritário petista à Câmara Federal, atual deputado estadual Fernando Mineiro. Os próprios nomes de Beto e Rosalba, satanizados pelas organizações sindicais e sociais que servem ao partido, seriam corrosivos ao seu próprio discurso.

A hipótese de apoio de Rosalba e seu grupo até bem pouco tempo estava praticamente descartado no PT, mas voltou a ser lembrado em face do movimento do rosalbismo, que não se encaixou no palanque do pré-candidato a governador Carlos Eduardo Alves (PDT).  A atração do PSB do vice-governador dissidente Fábio Dantas, pré-candidato ao governo, também é discutida com seus prós e senões.

O rosalbismo inquieta-se e joga. O governador Robinson Faria (PSD) foi recebido no mesmo sábado pela prefeita, que fez questão de posar ao seu lado (veja nota mais abaixo).

Não passaram de marolas em torno dele, apenas para efeito tático. Jogo de cena, claro. Ela não o apoiará, contudo precisa se valorizar mais para instigar pressão sobre o bloco de Fátima e sobretudo em relação à chapa de Carlos Eduardo Alves.

O pêndulo da escolha está polarizado nesse binômio: Fátima ou Carlos.

Qual será o palanque? O que for mais conveniente à sobrevivência política do grupo.

PRIMEIRA PÁGINA

“Chapa fechada” do PDT-MDB-DEM não aparece em Mossoró – Os pré-candidatos ao governo e ao Senado na ‘chapa fechada’ do PDT-MDB-DEM não apareceram na festa popular do “Pingo da Mei Dia” em Mossoró, no sábado (2). O ex-prefeito natalense Carlos Eduardo Alves (PDT) e os senadores Garibaldi Filho (MDB) e José Agripino (DEM) abraçaram outras programações na mesma data.

“Rosa de Hiroshima” é seridoense da gema – A boneca “Rosa de Hiroshima”, que roubou a cena no “Pingo da Mei Dia” em Mossoró, como símbolo de protesto dos servidores municipais contra a prefeita Rosalba Ciarlini (PP) e sua gestão (veja AQUIAQUI), é natural do Seridó e não do Japão. Foi encomendada ao artesão da cidade de Currais Novos “Naldinho dos Bonecos”, do “Grupo Caçuá de Bonecos”. Cá para nós e o povo da rua: Arrepiou! Pisou firme na avenida. A bichinha foi encomendada pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Mossoró (SINDISERPUM).

Robinson joga a toalha em relação ao rosalbismo – O governador e pré-candidato à reeleição Robinson Faria (PSD) desistiu de diligenciar empenho para ter o apoio do rosalbismo. Sua última tentativa foi no sábado (2), quando desembarcou na cidade para visitar obras no Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM) e Hospital da Mulher (veja AQUI). Chegou a ser recebido por Rosalba que o acompanhou em parte da programação. Mas depois, a “Rosa” tomou distância do governante no “Pingo da Mei Dia”. Apesar disso, a ex-governador ainda conserva “espaços” e prestígio no governo do seu ex-vice e sucessor. Até quando?

Lawrence Amorim lança pré-candidatura – O ex-prefeito de Almino Afonso Lawrence Amorim (Solidariedade) lança sua pré-candidatura a deputado federal na zona norte de Mossoró, às 19h desta segunda-feira (4), no Érica Buffet (Melo Franco, 1439, Bom Jardim).

Pesquisas precisam ser “quentes” – Pelo menos duas pesquisas foram divulgadas recentemente no Rio Grande do Norte,  por órgãos de imprensa do Natal, causando consideráveis questionamentos em face da divergência entre seus números. O principal pecado delas, entendemos, advém do hiato entre o período de coleta de dados e o anúncio público dessas informações. Pesquisa eleitoral precisa estar “quente”. Num ano de campanha, essa distância entre um ponto e outro não pode ter tanto vácuo como ocorreu nas duas sondagens publicadas. O Blog Carlos Santos até preferiu não explorar o assunto. Guardamos para compilação documental e estudo.

Ciro aposta em redes sociais – O pré-candidato presidencial Ciro Gomes está potencializando sua imagem nas redes sociais. Paralelamente, há intensificação de aparições em rádio e TV. Quer inflar ao máximo a postulação até período de convenções, acreditando poder atrair apoios, intenções de voto e partidos de centro esquerda.

EM PAUTA

Jânio Rêgo – O jornalista mossoroense Jânio Rêgo lançou o livro “Feira” (veja AQUI). Radicado há alguns milênios na Bahia, ele retrata a multifacetada Feira de Santana e sua gente, com lançamento e venda naquilo que é bem a identidade do lugar: Mercado de Arte Popular (MAP) do município. Pronto, agora fico no aguardo da publicação e da prometida galinha gorda no baixio de Doutor Severiano-RN, que ele prometeu a mim e ao amigo-irmão comum Honório de Medeiros, sob testemunho e partilha do cão “Meia-lua”. Então, tá.

Ítalo Ferreira em Bali reassumiu liderança do Circuito Mundial de Surfe com manobras radicais (Foto: Kelly Cestari/WSL)

Surfe – Nascido em Baía Formosa-RN, o surfista Ítalo Ferreira ganhou a etapa de Bali (Indonésia) do Circuito Mundial de Surfe e reassumiu o primeiro lugar da competição. Venceu o taitiano Michel Bourez na final nesse domingo (3). O RN tem futuro: no surfe. Saiba mais clicando AQUI.

AMICO – Na próxima sexta (8) às 9h, a Assembleia Legislativa homenageará a  Associação Amigos do Coração da Criança (AMICO), o médico Dr. Madson Vidal e colaboradores. A data escolhida pelo propositor, o presidente da Casa, Ezequiel Ferreira de Souza (PSDB), é alusiva ao 12 de junho, lembrado como o Dia da Cardiopatia Congênita, uma alteração na estrutura ou na função do coração, que atinge 1 a cada 100 crianças brasileiras.

Imprensa e Direito – O XI Congresso Científico e Mostra de Extensão do Campus Mossoró da Universidade Potiguar (UnP), que tem início nesta segunda-feira (4), vai ter a participação de dois amigos do jornalismo. Bruno Barreto conduzirá mini-curso sobre “Jornalismo Político” na quarta-feira (6), às 18h, na Sala 51. Já Sérgio Oliveira, que também é advogado, dissertará sobre “Direito Desportivo”, também às 18h, na Sala 52. Sucesso, meu caros.

Exposição – A Galeria Sesc abre em junho a primeira exposição fotográfica do ano. “Interferência Urbana”, do artista Flávio Aquino, reúne obras que dialogam acerca do desenvolvimento urbano no ambiente natural. A vernissage acontece na quarta-feira, 6 de junho, às 19h, e a exposição fica em cartaz para visitação gratuita até 11 de julho no Sesc Cidade Alta, em Natal. O projeto é uma iniciativa do Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Norte (Sesc RN), instituição do Sistema Fecomércio.

Arraiá – Natal também tem festa junina. No próximo dia 9, na Rua Chile no bairro da Ribeira, haverá o “Arraiá do Outro Par”, numa promoção da Prefeitura do Natal, FM Universitária e patrocinadores. Começará às 20h.

SÓ PRA CONTRARIAR

O RN fechou o final de semana com o 14º policial assassinado. A vítima foi o militar Kelves Brito, executado em Parnamirim. Até quando vai continuar essa “caçada”?

GERAIS… GERAIS… GERAIS…

Parabéns ao Grupo Arte Modas, que nessa última sexta-feira (1º) inaugurou à Rua Idalino Oliveira, 72, Centro de Mossoró, sua loja “Arte Decor e Fardamento”, com café da manhã para clientes e convidados. Obrigado pelo convite.

O restaurante Donna Salada vai ocupar novo endereço em breve. Estará no cruzamento da Rua Francisco Eudes Costa com Amaro Duarte, no Nova Betânia, em Mossoró.

Obrigado à leitura do Nosso BlogChico Costa (Caraúbas), Roncalli Cunha (Mossoró) e Robson Wagner (Natal).

Veja a Coluna do Herzog da segunda-feira (28/05) passada, clicando AQUI.

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A boca do inverno

Por Jânio Rêgo

O açude Vassourinhas que durante largo tempo abasteceu a cidade de Doutor Severiano foi construído em terras doadas ao governo por um padre, Ismar Fernandes de Queiroz.

O padre, ou melhor, o cônego Ismar é esse mesmo que fez nome e viveu quase todo o sacerdócio na cidade de Areia Branca, onde é homenageado com um busto plantado defronte à barra do rio Mossoró, no velho porto salineiro.

Eram terras da herança paterna. Seu pai, Cristóvão Colombo (isso mesmo!) foi também desbravador dessas outrora remotas serras do Rio Grande do Norte onde era conhecido como Totô Colombo, homem próspero cujas raízes e memória familiares permanecem marcantes no lugar.

Mesmo com as atribuições de pároco no litoral, padre Ismar nunca distanciou-se dos seus vínculos serranos. Na terra natal cultivava um largo círculo de amigos, influências, e um joguinho de baralho, hábito cultural e familiar que resgatava, sem pecados, em visitas esporádicas.

Ali também ganhou um busto como homenagem.

Esses últimos anos de seca devastaram as funções do Vassourinhas. Cidade serrana, com água mais acessível que nas terras planas do semi-árido, a cidade encontrou outras soluções para o abastecimento, sendo uma das poucas da região que não vive na penúria hídrica que conhecemos.

Com a esperança do inverno bom, o açude volta ao rol dos assuntos. Se ‘tomar’ água, a que uso se destinará? O que diria o padre se vivo estivesse?

Mas fevereiro está ‘meiando’ e as águas ainda são poucas. E a certeza de bom inverno parece se amofinar como denota a frase azeda de Zé Florêncio em dois dedos de prosa enquanto me mostra mudas de tamarindo:

“Esse inverno tá meio banguelo”.

Jânio Rêgo é jornalista

Deus e os três paquetes em Tibau

Por Jânio Rêgo

Deixei a florada do ‘angico da pedra’, a companhia de Meia-Lua, os tapetes de ramagem esverdeada escondendo lajedos e desci a serra da Catingueira para o litoral.

Não foi por deleite, foi por obrigação.

Mas não vou mentir, gosto de ver o mar salineiro, os paquetes indo e voltando, e daquela lassidão conferida pelo vento permanente que sopra na praia de Tibau.

Além do mais, Tibau, (e isso a faz uma praia diferente das outras ao longo da costa brasileira) é um verdadeiro Sertão, só mais salgado e piscoso.

Curimatãs ovadas são exuberantes ciobas e as cavalas estão na mesa para repasto de veranistas alegres e sem obrigação de roçados pra plantar no mês de janeiro molhado.

Os cactos nascem nas dunas, as várzeas de carnaúbas beijam o vento marítimo, os pássaros são quase todos os mesmos que cantam pelo Sertão.

Defronte à casa onde me hospedam estacionam três paquetes (antes eram jangadas mais rústicas…) – ‘Deus é bom’, ‘Glória a Deus’, ‘Deus é fiel’ são os nomes deles. Penso que são oratórios desses que encontramos nas ante-salas das casas e nos pátios das fazendas sertanejas.

Quando Marcos Porto andava pela terra eu visitava Gado Bravo, localidade cujo nome expressa melhor que tudo esse encontro e semelhanças desse litoral único e singular com o Sertão.

Dessa vez fiquei circunscrito ao alpendre da casa de onde se avista as luzes da cidade portuária de Areia Branca. Não comi nem ‘gelé’ nem ‘grude’ mas fui compensado por um inigualável ensopado de ‘taioba’, um marisco que meu ‘mossoroísmo’ faz crer que só existe ali.

E só saí para uma breve visita à Lagoa do Córrego, refrigério e pouso de aves migratórias, um pequeno santuário que quase nenhum veranista conhece ou dá valor.

Valeu.

Afinal, Tibau é Tibau, já dizia o lendário pescador Tidó.

E o mais é pura maresia.

Jânio Rêgo é jornalista

A pedra do Mirôto

Por Jânio Rêgo

Quando desço pra ‘rua’ dispenso a companhia de Meia-Lua. Por mais pacata, cidade é cidade, e se eu urbanóide exilado ainda me estresso, imagino ele e seu temperamento de cachorro-de-sítio acostumado ao trânsito de preás vasqueiros e galinhas melindrosas.

Até poderia levá-lo pois muitas vezes a minha incursão a Doutor Severiano não passa da calçada de Damião Caboco e dona Conceição na entrada do largo do antigo Barracão, onde me refestelo na cadeira de balanço numa prosa de amplitude atemporal até a hora de voltar pra Catingueira.

No lugar do Barracão hoje é uma praça de arquitetura com intenções futuristas e um gigantesco palco de concreto que ainda assim me lembra a calçada alta sobre a qual ficavam os ‘quartos’ (que ainda não se chamavam ‘boxes’…) ocupados por um comércio que ia de bar a mesa de jogo, sem falar nas miudezas e atacados.

Mas Meia-Lua, a não ser como meu silencioso interlocutor em noitadas insones no alpendre, é mais afeito às andanças do que a pacientes e longas conversas humanas mesmo que as histórias sejam de Damião, um ex-sacristão abençoado quando menino por um milagre do xará Frei Damião e o melhor cantor das redondezas acompanhando Geraldo Sanfoneiro, o ‘Rei’ do forró dessas serras.

Os melhores forrós, não posso deixar de registrar em homenagem a Zé Melquíades e Chico Pequeno, foram dançados no velho Barracão sacrificado pela ânsia de modernidade que atropela cidades de todos os portes. E com Doutor não é diferente.

Embora, talvez pela geografia serrana, talvez pelos olhos dos meus afetos, aqui essa modernidade, apesar da praça de mau-gosto, esbarra em detalhes, aparentemente desprezíveis, que a mantém para mim mais bucólica e singular do que outras.

Como essa rocha que aflora no meio da calçada da residência do finado Mirôto, feito um ‘marco zero’ resumindo na pedra dura a história de sonhos e trabalho desse lugar que continua sendo para muitos e muitas um eterno ‘Mundo Novo’.

Mas mesmo assim, eu prefiro deixar Meia-Lua na Catingueira.

Jânio Rêgo é  jornalista

Trovões na Catingueira

Por Jânio Rêgo

De ontem (segunda-feira, 8 de janeiro de 2018) para hoje caiu por aqui a primeira chuva deste ano que, a-deus-querer, vai ser de bom inverno.

E eu me lembrei do que me disse Socorro de Zé Rocha lembrando a juventude e a convivência com uma das figuras mais marcantes dessa região do Rio Grande do Norte, Josefa Fernandes Nogueira, Zefinha da Catingueira:

“Madrinha Zefinha morria de medo de trovão…”.

Pois veja…certamente herdara esse medo, as terras da Catingueira e também uma vigorosa intrepidez feminina, da mãe dela, Maria Evangelina, pioneira nessas paragens de terras férteis que lhe confiara o marido, Petronilo Jorge, antes de desaparecer em misteriosas aventuras pelas matas do Amazonas nos finais do século 19.

Maria Evangelina, como depois Zefinha, tornou-se uma viúva dona do seu destino, regendo os filhos e a propriedade rural.

Nessas noites invernosas, quando as serras se iluminam de relâmpagos e o aguaceiro desce pelas ribanceiras, sua casa enchia-se de moçoilas, afilhadas, netas, sobrinhas, parentas e aderentes, para fazer companhia e amenizar os sustos da matriarca com os estrondos que ribombam sobre as pedras, socavões e moradias.

Pois essa pequena ‘fraqueza’ da velha Zefinha, parteira desabusada responsável por ‘apanhar’ centenas de crianças nas redondezas, dona-de-casa diligente de mesa farta e generosa, fazia ‘a festa’ daquelas meninas adolescentes que enchiam o quarto gigantesco com suas redes, risos e sussuros típicos dessa época da vida.

– Severiiina, que diabo você tá fazendo na cozinha?

– Nada, madrinha, eu tou aqui na rede, respondia, furtiva e ágil, uma delas que acabara de fazer um chazinho para o regalo das companheiras.

Muitas dessas meninas e moças ainda estão por aí, como Socorro, guardando no coração essas noites de divertimento juvenil que esse relato não consegue abranger nem um punho de rede da alegria que elas viveram.

Mas é pelo menos um pequeno registro, de um tempo, de um lugar e de uma pessoa muito querida, minha tia-avó Zefinha da Catingueira.

Jânio Rêgo é jornalista

*As fotos são do acervo de Liduína Fernandes, neta dela e criadora da página ‘Família Fernandes, no Facebook.

O burro Melão no Ereré

Por Jânio Rêgo

Zé Rocha iá à pé ao Ereré que ele ainda chamava de Ypiranga e que antes era chamado de Saco de Orelha (ou ‘Urêia’).

Botava uma muda de roupa nova, trocava o chapéu de palha por um de massa e descia para o Amparo, onde começa a estrada que atravessa a serra das Varandas.

Amparo é o nome do riacho e de uma grande propriedade que pertenceu a Araponga marido de Sinhá que viúva e quase centenária casou-se com um jovem chamado Zé Lira, mas essa é outra história…

Refiz agora esse esse percurso de Zé Rocha, subindo e descendo ladeiras pedregosas montado no burro Melão e em companhia de meu primo Ivanildo Melquíades que conhece cada palmo desse lugar e sobre cada um deles tem uma história geralmente irônica e bem humorada.

(Foi ele quem me deu notícias dos ‘Teodósios’, uma família de caboclos e caboclas criados por aquelas serras e reconhecidos pela criatividade e pendores nas artes da sobrevivência rude, da pesca, caça mas também da música! Um desses ‘Teodósios’ faz sucesso na região – e já fora dela – com um grupo, de forró moderno, conhecido como ‘O Véi Chegou’.)

Ainda é uma estrada de difícil acesso. No tempo de Zé Rocha era quase uma vereda sombreada por mata densa e úmida nas baixadas por onde serpenteia o riacho do Amparo.

No cume da estrada avista-se as outras serras de pedras, algumas parecendo pêndulos à beira do precipício.

Essas serras que circundam o lugarejo lá embaixo que hoje é a cidade cearense, era reduto da indiada tapuia de cuja língua teria se originado o nome Ereré.Os Icós, os Janduís, essa gente esquecida pela historiografia nacional…

Recentemente o nome Ereré, desconfio que por influência do sotaque das televisões, mudou a grafia e a fonética passando a ser chamada de Ererê, com o três ‘Es’ fechados (êrêrê)como falam os cariocas… mas isso também é outra história…

…assim como a queda que o burro Melão me deu na cavalgada de volta à Catingueira.

Jânio Rêgo é jornalista

A primeira chuva

Por Jânio Rêgo

Durou apenas meio pacote de biscoitos sete-capas ‘Jucurutu’ e duas xícaras de leite pingado com café.

Eram duas da madrugada e um calor afobado me arrancou da rede interrompendo um sonho daqueles.

Minutos depois, o barulho nas telhas, a música das águas. É minha primeira chuva nessa temporada rural aqui na Catingueira de Chico Petronilo.

Em Mossoró, nas primeiras chuvas ninguém ia para o patamar da São Vicente. Era a lavagem das telhas e das bicas entupidas com folhas, merda de lagartixas e de morcegos.

Mas quando o inverno pegava firme, o banho-de-chuva enchia o patamar de adultos e crianças.

Tanta gente…Marcílio, Kiko, Marcos Porto, Pérsio, Carlinhos, Medeirinhos, tanta gente…até ‘os Gaiolas’ desciam do sobradinho para a festa das águas…

E as portas da igreja, junto com o humor de Padre Sátiro, se abalavam com as boladas dos peladeiros vezeiros e contumazes.

Aqui não penso mais em banho-de-chuva. Mas em Meia-Lua preso num canil improvisado sob uma latada vizinha aos porcos, para não ceder à tentação de chafurdar no cadáver de um garrote enterrado no cercado.

‘Quem cria está sujeito a isso’, me consolou um vizinho percebendo minha decepção com a perda da rês.

A morte no campo parece mais banal, penso, me achando um filósofo devorador de bolachas molhadas no leite quente.

Lá fora os sapos invadem o alpendre e amanhã ou depois, a deus-querer, o verde já se insinua entre o cinza da serra e as cajaraneiras começarão a abrolhar.

E eu preciso ir dormir de novo para amanhecer em paz.

Jânio Rêgo é jornalista

O profeta da seca

Por Jânio Rêgo

As cabaças são guardadas como relíquias no sótão da casa construída por Francisco Torquato do Rêgo, às margens do rio Mossoró, para abrigar as filhas do seu primeiro matrimônio, no século retrasado.

Amarradas à cintura, serviam como bóias de segurança para a travessia a nado na correnteza das águas de invernos graúdos que desciam ligeiras sem os impedimentos de açudes ou barragens.

Cheguei a usá-las através dos cuidados do meu tio José Paulo do Rêgo, Zé Papagaio, um beiradeiro que morreu sonhando com a utopia das águas do São Francisco lavando, perenemente, as terras desse sertão.

O rio daquelas travessias na minha infância é hoje um leito seco com ossaturas de lajedos onde brotam cactos e completamente esquecido do turbilhão que rasgava barrancas fixadas por oiticicas jovens, algumas agora exibindo troncos ressequidos sob vastas cabeleiras de galhos brancos e sem folhas.

Lembro das cabaças enquanto ouço o ‘profeta’ Zé Maria, numa esquina sombreada da feira em Pau dos Ferros, vaticinar contrário às previsões otimistas dos técnicos da capital que apostam no fim do ciclo maldito.

A seca vai continuar, diz ele, trágico e onisciente.

A platéia de Zé Maria resumia-se à minha curiosidade e à sonolenta audição do comerciante dono da loja da esquina.

Ao contrário dos ‘caçadores de água’ (radiestesia) que ganharam notoriedade por aqui nesses anos secos, os ‘profetas de chuva’, baseados em observações sobre a fauna e flora, perderam o crédito diante da presumida exatidão da ciência meteorológica.

Mesmo assim saí sugestionado. O que será de nós se o ‘profeta da seca’ estiver certo?

No Sertão, nunca se sabe…

Então para dar sorte, pedi a Manassés pra colocar as cabaças dependuradas num torno de madeira na sala da frente e fui rezar, contrito, um pai-nosso defronte à imagem de Frei Damião no oitão da igreja matriz.

Jânio Rêgo é jornalista

O Açude Grande

Por Jânio Rêgo

Meia-Lua e eu estamos cada vez mais amigos. Naquele ponto de amizade que transforma o trivial em raridade e deslumbramento.

Ontem, bem cedinho, refizemos o percurso do Açude Grande com o entusiasmo da primeira vez, ele correndo na frente, ziguezagueando entre moitas como um perdigueiro matuto, e eu lento como um peregrino urbano a caminho do santuário.

O Açude Grande é um monumento, o mais importante da ancestralidade da Catingueira, marco da luta primordial pela água.

De lá contam-se histórias de trabalho na construção da parede rústica e de desforras familiares em defesa do patrimônio territorial:

“Antônio Petronilo botou o rifle na lua-da-sela e foi tomar satisfação com ele…” – ouço pela voz memorial de Albertina Melquíades, nora da matriarca Zefinha Fernandes, irmã desse Antônio destemido.

Já foi mais sombria e úmida a vereda que nos leva até lá, entrançada por juremas, angicos, aroeiras frondosas e arbustos urticantes.

Hoje os roçados abeiram-se do antigo ‘corredor’ e o sol entra facilmente entre a folhagem mais rala clareando o chão de areia e pedras vulcânicas.

Mas a chegada, pelo sangradouro, mantém a friagem que sobe do chão e o descortínio da paisagem, com um pedaço de serra ao longe, me induz reverência silenciosa à grandeza dos homens e da Natureza.

Sentado numa pedra remota admiro o porão seco como quem vê Chico Rocha dando cambalhotas n’água e um magote de meninos saltando da ingazeira que cresceu na revensa.

Mas o Inquieto amigo late e late, e é hora de continuar a caminhada,voltando pelo baixio de tio Epifânio, saindo lá no local do engenho onde se comia alfinim com caldo de cana moída pela junta de bois sonolenta…

Já vou, Meia-Lua, já vou!

Jânio Rêgo é jornalista

‘Casa da saudade’

Por Jânio Rêgo

Sobre a parede do açude seco de Zé Melquíades diminuo as passadas contemplando a casa lá no alto.

Ideias velhas e novas que me trazem de volta praqui misturam-se às antigas memórias de infância de minha mãe e meus avós maternos.

Estamos em pleno estio de novembro, as serras estão cinzas, o verde deu lugar ao amarelo nos roçados e há muito menos gente morando nas redondezas.

Não há mais o barulho do engenho de rapadura lá em tia Zefinha e o bicudo há muito tempo expulsou a alvura do algodão pelos arredores das casas e os capuchos nos galhos secos dos caminhos.

Não há barulho de cascos mas de forrageiras e motocicletas.

Vou andando e me lembrando que não é uma casa tão velha como devia ser aquela do forró de Flávio José e mesmo se fosse, penso, eu jamais a trocarei por causa de um ‘amor novo’.

Tudo nela me é profundamente familiar, uterino… Odores, poeira, o piso de cimento frio, o vento que sopra no meu rosto quando abro a folha superior da porta virada para o nascente.

É também uma ‘Casa da Saudade’ essa que vovô morou, mamãe herdou e passou pra mim.

Por isso que nunca entendi a letra desse forró… parece expressar mais um sentimento de paulista… penso, e vou logo cuidar de cozinhar o arroz vermelho que a fome acaba de me tirar do devaneio.

Jânio Rêgo é jornalista

As irmãs Mocó

Por Jânio Rêgo

Do alpendre víamos a luz tremulante da lamparina de pavio aceso com óleo de carrapateira, que elas mesmas fabricavam, dizia meu avô Chico Petronilo, deitado na rede.

Pela manhã, na casa, nas fruteiras do baixio, por onde estivéssemos, dava pra avistar o ponto vermelho amarronzado da casinha de taipa encravada em meio ao verde do pé da serra onde elas brocavam pequenos roçados para a precária subsistência.

A casa “das Mocós’ era tão longe aos meus olhos de menino da cidade grande do Mossoró…! e eu construía mistérios inenarráveis sobre as três mulheres que moravam sozinhas naquele mundéu inacessível.

Eram negras, solteiras e sem filhos. Rita a mais nova, Cosma a mais velha e Maria José ‘a dos peitos grandes’.

Não eram simpáticas, nem ‘politicamente corretas’, diríamos hoje, as histórias que ouvíamos e falávamos sobre elas…

Excluídas das excluídas, vivendo numa comunidade rural em meados do século passado, eram espécies de ‘bruxas’ naquela rude contemporaneidade com remanescências semifeudais e patriarcais.

Mas havia uma muda admiração da comunidade por trás de todo o estigma que carregavam e que despejavam sobre elas. Aquela autossuficiência miserável, produzindo o próprio sustento, mulheres livres, fora dos padrões, impunham o mínimo do respeito que precisavam para a convivência social sem sobressaltos.

Em outras vezes que voltei lá, elas já haviam saído do pé da serra e moravam em uma casinha igualmente pobre, mais próxima da cidade de Doutor Severiano.

Quando passávamos na estrada dava pra sentir o cheiro do fabrico do óleo que além de combustível caseiro (que a tecnologia atual transformou em ‘biodiesel’) era também usado como remédio natural para diversas enfermidades naquela época em que a poderosa (e perigosa) indústria farmacêutica ainda estava distante do sertanejo.

Naquela casa o cotidiano das três irmãs ficou mais exposto, elas se tornaram mais reais, mas nem assim desapareceu a sensação de mistério e magia que ainda hoje permanecem quando retomo a infância que nunca sai de mim.

Jânio Rêgo é jornalista

Baixio de Costinha Fernandes, relíquia ecológica do RN

Por Jânio Rêgo

Meia-Lua é o nome do cachorro que me acompanha. Um viralata de pelo multicor com predominância de um ocre que lembra o da casaca-de-couro, a cabeça larga, orelhas curtas e inquietas.

Quando saí de casa ele havia acompanhado Petronilo para a apanha de castanha de caju nas bordas do riacho Mundo Novo mas meus gritos e assovios o trouxeram de volta. Ele gosta de mim e da comida que lhe dou, sem regras ou parcimônia, justo troco pela companhia que me faz.

O Baixio para onde vou fica ao norte da Catingueira. É certamente a propriedade maior e mais famosa da região, um dos poucos latifúndios (produtivo) de Doutor Severiano (RN), município traçado por sítios e pequenas fazendas de gado grande e miúdo.

O Baixio de Costinha são novecentos hectares distribuídos por serras cujas águas confluem para o vale fértil desse riacho que deságua no rio do Encanto,um afluente do Apodi/Mossoró.

Vou visitar meu amigo Chico, gerente da centenária propriedade rural que pertenceu a um dos homens mais ricos e operosos do Rio Grande do Norte, Costinha Fernandes, agricultor, exportador, um dos pioneiros da indústria moderna deste Estado.

Em 1964 Costinha Fernandes era um velho senil deitado numa cama na sua casa em Natal. Albertina Melquíades (viúva de Zé Melquíades, da Catingueira) o viu assim, metido em um camisolão hospitalar, as pernas encolhidas, abobalhado, olhando o teto. Calou-se a voz de mando, desmilinguiu-se a elegância, atrofiou-se o poder daquele que possuiu riqueza sem par na sua época.

No Baixio há resquícios do fausto e operosidade de Costinha, entre eles as velhas engrenagens de ferro fabricadas e trazidas da Inglaterra para o engenho de cana-de-açúcar daquele vale ainda fertilísimo, uma verdadeira relíquia ecológica e ambiental do RN.

Jânio Rêgo é jornalista

Adeus, Júnior Barreto

Por Honório de Medeiros (Blog Honório de Medeiros)

Quantos já foram, Jânio Rêgo? Você sabe dizer, Carlos Santos? Não sei se vocês sabem, mas não suporto mais a hora do crepúsculo na calçada de minha casa em Mossoró.

O sol se punha, vocês se lembram, e nós pegávamos a bola e corríamos para o meio-da-rua enquanto nossos pais colocavam as cadeiras nas calçadas e ficavam tomando o fresco, como se dizia antigamente, ou seja, pegando o vento Nordeste que espantava o calor e as muriçocas, e apartando as brigas que surgiam, inevitáveis.

Depois o tempo nos levou cada um para seu destino, mas ser amigo de infância significa não haver qualquer cerimônia quando dos reencontros. Estamos sempre à vontade entre nós.

E a conversa surge e segue fácil, adoçada pelas lembranças comuns. Assim foi quando eu encontrei Júnior pela última vez, na caminhada noturna da Alexandrino de Alencar, em Natal, onde tantos mossoroenses dão as caras, de quando em vez.

Conversamos um bom pedaço.

Ele não sabia que eu sabia de sua doença. Eu não podia, portanto, dizer a ele o quanto desejava que ele se curasse, o quanto lhe tinha afeto.

Quando acontece algo assim, se estou em Mossoró, olho para a frente da casa dos meus pais e não suporto a saudade da infância; olho para os lados e não suporto as ausências. Foram-se muitos da nossa República Independente da São Vicente; foram-se meus pais, os seus pais, Jânio, os seus pais, Carlos Santos, os pais de Roberto Fausto, os de Valério, os de Júnior Barreto…

E agora se vai Júnior Barreto, uma flor de pessoa, cordial, gentil, educado, um cidadão irreprochável, uma unanimidade, como bem definiu Delevam. Um de nós, da nossa República amada, da turma do patamar da Igreja de São Vicente. Não era para ir. De forma alguma era para ir.

Júnior era uma criança, tinha muito ainda para viver. Mas foi.

Dê lembranças aos nossos velhos, amigo. Beije todos eles.

E abrace e beije cada um dos nossos amigos que lhe antecederam: Cipriano, Pérsio, Marcos, Luis Artur, Toninho…

Morre Jaci Rêgo, ex-contador da S/A Tertuliano Fernandes

Mossoró perdeu hoje ao final da manhã o senhor Jaci Rêgo, 87. Estava internado há vários dias no Centro de Oncologia e Hematologia de Mossoró (COHM).

Seu velório acontece no Centro de Velório Sempre, no centro da cidade, perto do Tiro de Guerra.

O sepultamento ocorrerá amanhã às 10h, no Cemitério Novo de Mossoró.é Jaci Rêgo, 87.

Ele foi contador geral da poderosíssima S/A Tertuliano Fernandes e sócio-proprietário da firma R. Benjamim e Cia.

Para seus filhos e demais parentes, minha solidariedade, em especial para Jânio Rêgo.

Reencontro de ex-alunos do Diocesano será em julho-2012

O reencontro da turma da “4ª série de 1972, do Colégio Diocesano Santa Luzia (CDSL), de Mossoró, será no dia 21 de julho de 2012. Essa foi a principal decisão preliminar tomada em reunião acontecida na sexta-feira (30), em Mossoró, no restaurante Cândidus (Abolição I), por integrantes dessa classe.

“Nosso encontro prévio no ultimo dia 30 de setembro foi excelente, uma sensação inigualável”, assinala Lenilson Fernandes, empresário do setor de seguros.

Estiveram presentes nomes como “eu, Anchieta Medeiros, Elton, Paulo Maia e Segundo Paula”, continua ele, acrescentando ainda na citação o jornalista Jânio Rêgo (residente em Feira de Santana-BA), além de Delevam Gurgel, Honório de Medeiros, Fred e Fernando Negreiros que residem em Natal.

Ficou decidido que uma comissão dessa turma organizará um grande reencontro, possivelmente na sede do Sindicato dos Bancários de Mossoró, presidido por Anchieta Medeiros. A programação a ser desenvolvida prevê uma missa na capela do próprio CDSL, conduzida pelo padre Sátiro Dantas, um churrasco-baile e “muitas surpresas”.

Nota do Blog – Não sou dessa turma, visto que tenho idade quase  juvenil, mas possuo diversos amigos que fazem parte dela. Além disso, vi nascer a ideia à realização do reencontro.

Este espaço está à disposição para ajudar na empreitada, conectando todos os membros dessa confraria.

Sucesso, pois.