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A melancolia do ocaso

Por François Silvestre

A estarem certas as pesquisas, ou refletirem o resultado das urnas, veremos, no Rio Grande do Norte, o ocaso de lideranças calcificadas. Saindo do êxito do sem-árido para a hospedagem no cristalino.

Vejamos.

Garibaldi Filho (MDB), imbatível em quase todos os pleitos. Só perdeu uma vez. Para Wilma de Faria, que de imbatível noutras eras foi eleitoralmente humilhada nas urnas ao aliar-se com os tradicionais adversários.

Pelo que dizem as pesquisas, Garibaldi vai perder o emprego no Senado.

José Agripino (DEM), prefeito nomeado de Natal, conseguiu o feito de vencer Aluízio Alves, imbatível até então, e transformar-se numa liderança dona de metade do Estado. Agora, para não ser derrotado desceu a ladeira do Congresso, saindo da disputa ao Senado e, humilhantemente, tomando o lugar do filho na disputa para deputado federal.

Geraldo Melo (PSDB) é um caso atípico. Após eleger-se governador, depois senador, foi aposentado ao perder a disputa para o senado.

Ficou de fora por “longo tempo”.

Ao ser preterido na chapa do “amigo” Garibaldi, resolveu tomar rumo próprio buscando ressurreição política. Parecia ter dado certo.

Só que havia no meio do caminho um capitão prendedor de motoristas e uma deputada inteligentemente escolada para ser a “nova” esquerda.

O Rio Grande do Norte escreve certo e errado por linhas retas.

Torto aqui só o casarão do Ferreiro Torto. Macaíba é nosso porto!

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Não lhes pergunto acerca da melancolia

Por Honório de Medeiros

Há músicos em todos os lugares pelos quais passam muitas pessoas, em Barcelona. Músicos, cantores, instrumentistas, crooners…

Estão ali, sempre, nas Ramblas, nos metrôs, nos Carré, nos pátios das igrejas, cantando e tocando instrumentos, desde “hits”, até suítes sofisticadas de Vivaldi, em número muito maior que em Paris ou Lisboa.

Estaria eu fantasiando? Até pensei que sim, refém de tanta literatura estranha, desde Hawthorne até Baudelaire.

Entretanto minha filha me fez cair na real, como se diz hoje.

Ao passarmos por um virtuose do violino que interpretava “Traumerei”, de Schumann, ela observou: “papai, por que ele não sorri com os aplausos?”

Imediatamente olhei para os olhos do músico. De fato.

Pois os olhos de quem canta ou toca, na noite, por lá, são melancólicos, penso eu.

Não tristes, mas melancólicos, mesmo quando sorriem. Há uma grande diferença entre um e outro. Tristes são aqueles mergulhados no presente.

Melancólicos aqueles que mergulham no passado. Como o filho de um amigo meu quando pega seu violino, se afasta, e inicia um diálogo com o instrumento ao qual não temos acesso, de olhos fechados e abertos ao mesmo tempo, insondáveis.

Para mim, todos eles estão mergulhados no passado, reféns de um futuro que não se realizou ou de uma ilusão que reluta em se tornar realidade.

São inteligentes, percebem a realidade das coisas com muita rapidez. Se, por um espasmo da sorte, chegam lá, não se adaptam, viveram demais, e o olhar, cansado, de quem tudo conhece, reflete isso.

Cato sempre minhas moedas e lhes pago o tributo do voo da minha imaginação ou da verdade dos fatos. Peço-lhes intimamente desculpa, se erro na minha avaliação.

Não lhes pergunto acerca dessa melancolia enquanto resultado do cinza do dia-a-dia. Temo a falência da fantasia. Sigam, digo para mim mesmo. A intimidade geraria o desprezo.

Bom, é outro mundo. Nem mesmo noto, entre os de seu próprio povo, essa constatação. Passam todos eles, jogam moedas, como se cumprissem um ritual, mas nenhum olha os olhos de cada músico, mesmo quando resolvem parar e ouvi-los.

E aqui estou eu, me importando, devaneando, e eu sou a melancolia, somos um nicho no tempo, apenas uma ilusão, nada mais, senão palavras ao vento…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN