Nos últimos tempos tenho me dedicado a escrever sobre alguns bons cronistas deste país. Já falei sobre Antônio Maria e Rubem Braga. Hoje, conheceremos um pouco sobre mais um deles.
Vamos lá.
Sérgio Porto com as três filhas e um cachorro da família (Foto: acervo de família)
Sérgio Marcus Rangel Porto nasceu em 1923, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Gostava de praticar esportes, jogando futebol na praia e remando pelo Clube Guanabara. Chegou a cursar até o terceiro ano de Arquitetura, mas abandonou, percebendo que não era “sua praia”.
Em 1947 começou a escrever no Jornal do Povo, de propriedade de Apparicio Torelly, o barão de Itararé. Com o tempo, tornou-se um cronista da noite, como o seu amigo, e depois desafeto, Antônio Maria.
Através do também cronista Paulo Mendes Campos, passou a escrever no Jornal Comício, onde faziam parte da equipe, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Millôr Fernandes, entre outros.
Foi, ainda, crítico de cinema, Jazz e música popular, bem como redator de programas de humor, tamanha era a sua verve cômica. Casou-se com Dirce Pimentel de Araújo, em 1952, e tiveram três filhas.
Em 1953 nasceu o heterônimo Stanislaw Ponte Preta, com o qual passa a escrever suas crônicas. Nesse tempo, Samuel Wainer o contrata para publicar matérias no diário Última Hora sobre pessoas pitorescas da cidade.
Numa de suas andanças, reconheceu Cartola, trabalhando como garçom e lavador de carros. Sabendo do talento do grande sambista, coloca-o, novamente, no meio da vida artística.
Quem já leu Ponte Preta sabe como são geniais os textos sobre tia Zulmira, o primo Altamirando e Rosamundo, criados por ele. A velha contrabandista, uma de suas inúmeras crônicas, é sensacional. Sem esquecer, é claro, o Febeapá (Festival de Besteira que assola o País).
Diziam que era um leão para trabalhar, em torno de quinze horas por dia. O exagero pelo trabalho e a vida desregrada o levaram à morte, aos quarenta e cinco anos de idade.
Não tem problema, diria Stanislaw, “melhor viver pouco, mas tudinho”.
Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça
Se o jornalista Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) fosse vivo, logo lançaria 10 livros “O Festival de Besteira que Assola o País (FEBEAPÁ), satirizando a vida caricata desses tempos.
São muitas figuras ridículas, mesmo que queiram ser importantes, cada uma no seu papel ridículo.
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Teríamos vários volumes do livro “Festival de Besteira que Assola o País (FEBEAPÁ)”, se o jornalista Sérgio Porto, o “Stanislaw Ponte Preta”, fosse vivo.
Material para suas crônicas jocosas é produzido em escala industrial.
Todos os dias.
Sem parar.
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Vejo nas folhas que nem o mercado nem o Congresso levam a sério esse estrupício de moeda comum entre o néscio Bolsonaro e o desmoralizado Macri.
Bolsonaro e Macri: Peso Real (Foto: Agustin Marcarian)
Um é o outro em tempos diferentes. Bolsonaro é Macri amanhã.
A pergunta é: O que danado pode ser levado a sério nesse “guverno”. Canclomo, coclomo quem possa responder.
O prisidente acaba de nomear embaixadora do Brasil na Venezuela indicada por Guaidó. Cadê Guaidó? Bolsonaro, o conclomante, guardou?
Fez uma zoada de tambor e mostrou ação de cuíca. Mesmo com Maduro caindo de podre. Sumiu nas mentiras de Trump e Bolsonaro, que lhe garantiram apoio e mijaram na rabichola.
Sem fazer nada, absolutamente nada, até agora, o néscio quer resolver os problemas da Argentina à custa da grana escassa dos brasileiros. Misturar o real, moeda ainda respeitada, com o peso argentino, completamente desmoralizada.
Só um ministro de economia, discípulo filosófico de Olavo de Carvalho, poderia inventar tamanha estupidez. Tudo para mascarar e iludir a realidade da sua incompetência.
Cantado em verso e prosa como salvador da economia, agora diz que tudo depende do Congresso. Ora, se tudo dependo do Congresso qualquer um poderia ser ministro da economia. Até um dos filhos do prisidente.
Em resposta à Dilma, que queria ser chamada de presidenta, Bolsonaro se diz prisidente, pois presidente significa antes do dente. Ou dente presado.
Eita que chafurdo na falta de Stanislaw Ponte Preta.
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Os números são eloquentes. Em tempos de crise financeira com longos atrasos salariais de centenas de terceirizados, precarização acentuada na saúde, cidade esburacada e suja, escassez de obras e outras mazelas de sua gestão, a prefeita mossoroense Rosalba Ciarlini (PP) produz um fenômeno à parte em pleno ano eleitoral: assegura à empresa baiana Construtora Vale Norte meios para empalmar mais de R$ 110 milhões, que vão se somar a mais de R$ 52 milhões já abocanhados desde maio de 2016, por um contestado serviço de limpeza urbana.
E esses valores ainda poderão ser engordados adiante, com aditivos generosos garantidos “pela lei”.
Os bastidores do caso têm um enredo comum ao submundo no país da Operação Lava Jato, com alguns lances que só poderiam vir à tona com apuração de órgãos de investigação como Ministério Público do RN (MPRN), por exemplo.
Após o Blog Carlos Santos publicar nessa terça-feira (08) a postagem sob o título Rosalba faz novo contrato sem licitação para limpeza urbana, às 8h12, a municipalidade colocou no ar no final da manhã o Jornal Oficial do Município (JOM) online, edição extraordinária 458-A, de apenas uma página, para atestar que teria feito na segunda-feira (7) um contrato “emergencial com dispensa de licitação”, no valor de R$ 14.681,203,92 (Quatorze milhões, seiscentos e oitenta e hum mil, duzentos e três reais e noventa e dois centavos, válido por seis meses.
Na mesma publicação ainda constava a publicação de que a Vale Norte também teria vencido licitação para a limpeza urbana, em contrato de 48 meses (quatro anos). Mas estranhamente, a publicação não mostrou o valor da conquista, que é de R$ 95.672.777,22 (Noventa e cinco milhões, seiscentos e setenta e dois mil, setecentos e setenta e sete reais e vinte e dois centavos).
Nota Oficial é documento de desinformação intencional ou incompetência
À noite da segunda-feira (7), a Secretaria de Comunicação da Prefeitura Municipal de Mossoró respondera a questionamento do Blog do Saulo Vale, quanto à vacância no serviço de limpeza urbana da cidade em face do término no sábado (5) do quarto contrato consecutivo com dispensa de licitação, em favor da Vale Norte. Assegurou que nada tinha sido interrompido e que “a Prefeitura de Mossoró informa que o processo licitatório para contratação de empresa especializada em coleta domiciliar de lixo está na fase final. Enquanto isso, o Município realiza novo contrato emergencial com a Vale Norte. A prorrogação foi necessária para que a cidade não sofra com qualquer interrupção no serviço essencial à população“.
A nota escondeu por desconhecimento de causa ou má-fé, que a licitação já tinha acontecido horas antes (como o Blog Carlos Santos no domingo, 6, antecipou com exclusividade que ocorreria: Mossoró fica sem limpeza urbana, mas não se livra da sujeira). O pronunciamento da Comunicação da municipalidade também omitiu o valor do contrato da nova dispensa de licitação, além do seu tempo de vigência.
O jogo de despiste e esconde-esconde funciona na administração Rosalba Ciarlini como se ela e seus imediatos não precisassem prestar contas de seus atos à sociedade. Só respondem ao que lhes interessam e da forma que lhes interessam. E olhe lá.
A publicação do novo contrato de dispensa de licitação e o aviso do resultado da licitação surgem também no mesmo dia em que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) apreciou pedido do Ministério Público de Contas (MPC) junto a esse órgão, com cautelares para sanear a relação contratual da empresa com a prefeitura, carregada de indícios de fraude desde seu nascedouro. Decidiu agir (ufa!), após quase dois anos de silêncio cúmplice: TCE fará inspeção urgente em limpeza urbana de Mossoró.
Quinto contrato consecutivo contraria recomendação do MP de Contas e esconde falsa “vantagem”
O MPC chegou a sugerir, por exemplo, que a municipalidade não fizesse outro contrato emergencial tão longo (seis meses, mas de no máximo 30 dias).
Apontou em sua representação, uma série de irregularidades praticadas pelo ex-prefeito Francisco José Júnior e a atual prefeita, verdadeiros irmãos xifópagos na prática de procedimentos nocivos ao erário e aos munícipes: MP de Contas tenta frear possíveis fraudes em limpeza urbana.
O TCE, diante de argumentos tão robustos da procuradora do MPC, Luciana Ribeiro Campos, não tinha outro caminho a seguir a não ser decidir fazer um pente-fino de imediato em contratos e nessa relação entre os governos Francisco José-Rosalba e a Vale Norte.
"Rosa" e Francisco: xifópagos generosos (Foto:BCS)
Os números envolvidos são estelares. Desde o primeiro contrato em maio de 2016, até aqui, a empresa não para de empalmar grandes somas, paralelamente às críticas da sociedade pelo serviço sofrível que oferece.
Foram dois contratos sem licitação e um aditivo pelas mãos de Francisco José Júnior. Rosalba superou o antecessor na benevolência (ou má-fé) com o dinheiro alheio. São três contratos sem qualquer concorrência e reajustes bem acima da inflação dos períodos em questão. Ponha na conta de lambuja, essa licitação mandrake.
Do primeiro contrato em abril 8 de abril de 2016 até novembro de 2017, a Vale Norte obteve elevação de 48,03% em seus pagamentos. Francisco José Júnior ao apresentar a Vale Norte para substituir a empresa anterior, a Sanepav, com contrato de R$ 9.582.519,36, maciçamente a imprensa local e as redes sociais o soterraram de críticas e classificações depreciativas.
Foi o Jornal de Fato quem abriu série de reportagens à época, tratando o contrato como ilegal e abusivo. Rotulou o serviço como “Lixo de luxo”. Entretanto em maio de 2017, no início de sua gestão, Rosalba foi mais além com outro contrato sem licitação e esticando os valores para R$ 14.212,866,48. Os críticos de antes não abriram o ‘bico’.
Prefeitos causam excepcionalidade
É preciso ser destacado que antes disso, Francisco José Júnior assegurou aditivo ao contrato inicial da Vale Norte em setembro de 2016, com números que saíram de R$ 9.582.519,36 para R$ 11.978.149,20. E um mês antes de deixar o governo (outubro de 2016), engatou o segundo contrato sem licitação de R$ 12.252.217,20.
A procuradora Luciana Ribeiro Campos aponta que a sequência de dispensas de licitação tem sido gerada pelos próprios executivos e não em decorrência de qualquer excepcionalidade. Ela tem razão. A última licitação para o serviço ocorreu em 2005 (há quase 13 anos).
Depois disso, no final de seu governo Francisco José Júnior abriu processo com esse objetivo, mas foi barrado judicialmente. Contrato chegaria próximo de R$ 150 milhões.
A dispensa de número 16/2018 publicada ontem é provavelmente a 18ª consecutiva para essa prestação de serviço, desde 2009, em Mossoró.
Nesse espaço temporal, números atualizados monetariamente apontam para faturamento da Sanepav e Vale Norte acima dos R$ 250 milhões. Com mais essa dispensa e a licitação da segunda-feira, nos próximos anos o serviço de limpeza urbana de Mossoró poderá se aproximar cumulativamente de meio bilhão de reais em termos de custo para o contribuinte. Pasme: ninguém está preso ou parece incomodado com essa vaga hipótese.
Falsa economia é admissão de superfaturamento
No certame que a Prefeitura de Mossoró denominou de “licitação”, acontecida na segunda-feira, a Vale Norte levou a melhor sobre as concorrentes ao promover uma espécie de “dumping” (jogou preço para baixo fora da realidade, para inviabilizar outros disputantes). Ela apresentou proposta de R$ 95.672.777,22. A Marquise R$ 135.309.597,60; Esquadra R$ 115.420,685,76 e Sanepav R$ 109.452.521,56.
O que parece ser uma enorme economia para os cofres públicos, como já começou a divulgar a comunicação da Prefeitura Municipal de Mossoró, é praticamente um atestado de superfaturamento dos contratos anteriores e da nova dispensa de licitação.
É noticiado que a empresa vai ampliar o serviço, mas receberá bem menos por um contrato de 48 meses (quatro anos).
Licitação publicada em edição emergencial do JOM não mostra o valor da proposta vencedora
O faturamento em seis meses ficará em R$ 11.959,097,15. Como ela vai contratar mais pessoal e utilizar mais veículos, recebendo bem menos do que o atual contrato emergencial, que foi fechado no montante de R$ 14.681,203,92? São R$ 2.722,106,77 a menos por cada seis meses de trabalho, o que representa R$ 453.684,46 a menos todo mês. Como? Essa conta vai estourar logo, logo.
A propaganda governista mistura números e argumentos insustentáveis para arrimar uma tese inverídica, ou seja, a de que haverá economia financeira com a licitação “vencida” pela Vale Norte. A matemática que produz uma linha de passe entre contratante e contratada, parceiros desse negócio (ou negociata, como queira), insulta a inteligência alheia.
O contrato licitatório que está prestes a ser homologado, se não houver qualquer reviravolta (motivos não faltam), mostra que o valor cumulativo a ser pago semestralmente pela Prefeitura Municipal de Mossoró é praticamente igual ao que foi pago à mesma Vale Norte em setembro de 2016, com o aditivo ofertado pelo então prefeito Francisco José Júnior.
Àquele mês foram R$ 11.978.149,20. Agora, na licitação, a proposta da Vale Norte lhe dará receita bruta de R$ 11.959,097,15 por igual tempo (seis meses), totalizando R$ 95.672.777,22 ao final de quatro anos.
Muitos milhões no lixo – Vale Norte
Abril de 2016 – Primeiro contrato sem licitação – R$ 9.582.519,36
Setembro de 2016 – Aditivo contratual – R$ 11.978.149,20
Outubro de 2016 – Segundo contrato sem licitação – R$ 12.252.217,20
Maio de 2017 – Terceiro contrato sem licitação – R$ 13.900.123,44
Novembro de 2017 – Quarto contrato sem licitação – R$ 14.212.866,48
Maio de 2018 – Quinto contrato sem licitação – R$ 14.681,203,92
* De 2016 a 2018 (dois anos), os reajustes contratuais chegaram a 53,2%.
* A inflação oficial de 2017, por exemplo, fechou em 2,95%.
* Até o momento, a Vale Norte garantiu faturamento de R$ 52.343.358,32 (Abril de 2016 a maio de 2018).
Tudo parece falso sobre esse caso, toda vez que alguma autoridade municipal se pronuncia.
Em relação ao novo contrato com dispensa de licitação por seis meses (até novembro deste ano), a prefeitura o reajustou em relação ao contrato que venceu no sábado (5), quando o usual é negociar valores mais baixos em face da licitação em andamento. Era de R$ 14.212,866,48 até o dia 5 de maio último e agora passou para R$ 14.681,203,92, com validade por até 180 dias, seis meses.
Isso significará o total de R$ 81.562,24 (Oitenta e hum mil, quinhentos e sessenta e dois reais e 24 centavos) por dia de trabalho da empresa.
“Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”
O município desembolsava desde novembro do ano passado o valor mensal de R$ 2.368,811,08 e agora nessa “emergência” enquanto não conclui a licitação, pagará R$ 2.446,867,32. São R$ 78.056,24 de reajuste “emergencial”. Uma gorjeta, diante de tantos milhões que há muitos anos saltitam do cofre municipal para apenas duas empresas. De fato, um lixo de luxo.
Se tudo o que é narrado nesta matéria especial e muito mais que é prudentemente guardado (ainda) forem tratados como normal e legal, vale lembrar o célebre jornalista e humorista Sérgio Porto e seu alter-ego/personagem Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”
Em Mossoró, a letargia é tão profunda que nem mesmo o ‘tribunal de execuções’ das redes sociais chega a perturbar nossos caríssimos protagonistas, haja vista que a ferocidade contra supostos corruptos sempre é destilada e dirigida a personalidades nacionais, como Michel Temer (MDB), Jair Bolsonaro (PSL), Lula (PT) e outras figuras da República. Na cidade, é Tutti buona gente, óbvio.
Cá embaixo, o “País de Mossoró” é um mundo à parte, onde bandidos de sobrenomes ilustres são respeitados em tom de reverência, por compadrio gosmento ou por medo. A chamada “Terra da liberdade” mantém um modelo próprio de democracia, em que prevalece a opinião única dos donos do poder e seus próceres. Pensar ou opinar diferente? Olhe aqui o dedinho…
Tá tranquilo, tá favorável! Bola para frente!
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Estamos regredindo a passos largos na atividade política neste estado do Rio Grande do Norte.
Dois episódios registrados em Mossoró e Natal na campanha deste ano revelam a dimensão desse fosso.
Em Mossoró, o PMDB do deputado federal Henrique Alves – com a ajuda da campanha da candidata vitoriosa Cláudia Regina (DEM) – passou semanas discutindo o direito ao uso da cor verde, censurando a sua suposta apropriação pela adversária Larissa Rosado (PSB).
Em Natal, o PT vai às “barras da Justiça” tentar impedir o candidato Hermano Morais (PMDB) de utilizar uma estrela de cinco pontas, estilizada, como simbologia de sua campanha.
Enquanto isso… no Hospital Walfredo Gurgel.
Se o cronista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, estivesse vivinho da silva, escreveria uma versão potiguar para seu imortal Festival de Besteira que Assola o País (FEBEAPA).
Numa frase certamente escrita por seu ghost-writer (“escritor fantasma”, responsável por discursos), poeta Augusto Frederico Schmidt, o presidente Juscelino Kubistcheck traçava para si uma aura mitológica: “Deus me poupou do sentimento do medo!”
É uma peça de retórica com elouquência de arrepiar, sem dúvidas. Do mesmo tamanho que outra, de igual origem: “Eu não tenho compromisso com o erro”. Ou seja, excelente para justificar mudanças de rumo na política, tão comum ao meio.
Lógico que não sou Schmidt, menos ainda Kubistcheck. Tenho muitos medos; vários.
Posso listar? Não queira.
A maioria pode parecer simples bizarrice, tolice ou insegurança de um sujeito recalcado e incapaz. Mas nenhum ganhará o selo da covardia.
Aviso-lhe logo: de barata, não. O inseto apenas me provoca repugnância, tão somente. Sobre ele, vale citar uma frase bem humorada do grande Stanislaw Ponte Preta ou de Antônio Maria, não lembro: “Não acredito em mulher que não tenha medo de barata”. Ah, tá!
Medo de atravessar a rua, tenho. E preciso ter. Se cruzar a Avenida São João (São Paulo) ou uma vereda qualquer nesse sertão de mãe-preta e pai-joão, sem olhar pros lados, posso ser atropelado por uma Pajero ou um cavalo em disparada, respectivamente.
Medo é como colesterol: colesterol zero faz mal. Demais, mata. Moderação, portanto, outra vez é receita.
Meu primeiro medo? Huuumm! Não lembro. Deve ter passado rapidinho. Não ficou registrado no inconsciente.
Muitos enraizaram-se e ficaram inoculados em mim durante décadas. Alguns foram extirpados pelo enfrentamento. Outros ainda estão cá, alojados, mas em boa parte do tempo, não incomodam. Temos um pacto silencioso de não-agressão.
Durmo e acordo com eles, sem duelarmos por espaço. Caso típico de tolerância mútua. Lembra Julia Roberts no filme “dormindo com o inimigo”. Ela escapou. Eu tenho sobrevivido.
Novos medos chegam naturalmente com a idade, que cruza o “Cabo da Boa Esperança” e aproxima-me do fim. Medo de morrer, em si, não. Tinha-o há algum tempo, mas não por mim.
Temia não poder contribuir o suficiente para ver meus filhos caminhando com as próprias pernas. Hoje, se depender dessa matéria, já posso partir. Eles são caravelas em alto-mar. Zarparam com bússola, conhecem o timão. Mesmo assim, quero ficar mais um pouco, curtindo a parte que me cabe na superfície desse latifúndio terreno.
Outros filhos virão, para fertilizar minha vida. Em forma de livros ou como gente pichototinha – de carne e osso – pra botar nos braços e me abobalhar mais ainda.
Medo de ser apunhalado, traído por amigos? Não mais.
Sei essa dor. Rasga, dilacera, fere, faz sangrar. Mas tem cura. Cicatriza nas novas e velhas amizades, que não deixam o ressentimento fazer morada, nem a vingança ser voz ativa. “Olho por olho, dente por dente”, nem pensar.
Essa récua não merece tanto esforço meu, nem um segundo diário do meu tempo à tanta dedicação. Não possuem valor a tal empreitada. Além do mais, nem “ex” conseguem ser. Não existe “ex-amigo”.
A melhor forma de vingar, é vencer, é se superar; se refazer das cinzas quando a maioria o abandona e quase ninguém acredita mais em ti. Quem fica, fica por você; quem desaparece não some apenas de sua vida, apaga-se.
O medo de perder, no fundo inibe a possibilidade de vencer. E essa glória é um troféu sempre pessoal, tirada do nosso mais íntimo ser. Porém não acredite nos que vencem só. Ao assumirem para si, esse apogeu, promovem a primeira das traições ao sucesso: negá-lo a outros que o ajudaram a construi-lo.
“Faça aquilo que você receia e a morte do medo será certa”, afirmou o filósofo Raph Waldo Emerson.
Isso vale para o pavor de microfone também. Eu já tive, hoje nos respeitamos. Temos uma convivência saudável, mas muitos perdem a voz, não dizem coisa com coisa ou simplesmente correm dele como o diabo da cruz.
E o que ele, o microfone, tem demais? Nada, além de sonorizar nossa voz. Não morde. Mesmo assim intimida muita gente.
Na verdade, sob a ótica da psicanálise – corrente do suíço Carl Jung -, “a fobia é a projeção de um conflito interno.”
Temos medo do desconhecido, porque é cômodo deixar como estar, mesmo que muitas vezes isso signifique nossa ruína. O novo costuma assustar, porque exige a ousadia de sair do comum, impõe risco. Temos uma natureza conservadora.
Ter medo de “bicho-papão” em minha infância era real, mesmo que ele nunca tenha existido de verdade. Na vida adulta também criamos fantasmas; nos rendemos à força do inconsciente. Daí, a nos tornarmos ansiosos, depressivos e estressados, é questão de segundos.
Eu, confesso, já tive medo de fechar os olhos; me fechar. Fazer o grande e necessário mergulho no meu eu.
Quando comecei a fazer meditação foi assim. As primeiras sessões me asfixiaram. Foram apavorantes. Senti-me como o personagem Phillipe de “O homem da mascara de ferro”, romance de capa e espada de minha infância, de Alexandre Dumas.
Chorei para poder finalmente me abrir. Fechei-me para poder ser livre.
Agora, que faço com meus medos? O que sobrou deles?
Continuo a ser intenso, extremado em tudo que me meto a fazer. Dou-me por inteiro às amizades, aos amores, à minha profissão, filhos e à República da São Vicente (meu país imaginário).
Se com tudo isso não for capaz de ser feliz, não será com a covardia que converterei sonho em realizações.
É certo, pelo menos, que vencerei o pesadê-lo do não-ser.
Da “caverna” descrita por Platão eu já saí. Há sempre uma luz, com ou sem túnel, ao final.