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Educação Ambiental e Utopia – caminhos para um futuro sustentável

Por Zildenice Guedes

Foto ilustrativa Gov.Br
Foto ilustrativa Gov.Br

O termo Educação Ambiental tem sua origem na evolução da questão ambiental, que despontou em meados da década de 1960. De lá para cá, muita coisa mudou, e muitas questões passaram a se colocar como urgentes. O sentimento identificado nas primeiras conferências internacionais voltadas à discussão sobre a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento para a humanidade era de que era preciso considerar a escassez dos recursos naturais e, diante disso, o comprometimento desses recursos para as futuras gerações.

Foi nesse contexto que se definiu o conceito de Desenvolvimento Sustentável, proposto pela Comissão Brundtland, conhecido como “Nosso Futuro Comum” ou “Relatório Brundtland”, instituído pela referida comissão no ano de 1987. Duas questões precisam ser consideradas: a primeira é que estava evidente, já no início das discussões, que o modelo de desenvolvimento consolidado pelos países desenvolvidos não poderia ser adotado pelos países em desenvolvimento. A ideia de “crescimento a todo custo” mostrava-se, de fato, insustentável — sem contar as grandes tragédias ambientais que marcaram esse processo histórico.

Diante disso, tornou-se urgente repensar e buscar um novo modelo de desenvolvimento, que fosse viável para as futuras gerações, que não comprometesse o acesso aos recursos naturais, bem como a possibilidade de usufruir de um planeta que passava a ser percebido sob outra perspectiva. Essa nova visão foi proposta pelo cientista inglês James Lovelock, em 1979, com o conceito de Gaia — a Terra como um organismo vivo, mãe de todas as espécies, inclusive da humana.

A Educação Ambiental emerge nesse contexto com um propósito fundamental: reconhecer que não haverá Desenvolvimento Sustentável se não educarmos as pessoas para estabelecerem uma nova relação com a natureza. Nesse sentido, é necessário compreender que a natureza não pode ser reduzida apenas à sua função de fornecedora de recursos para a espécie humana. Este planeta é a casa de inúmeras outras espécies e formas de vida, das quais nós, seres humanos, dependemos — e isso é importante ressaltar.

O autor Eli da Veiga (2015) afirmou que o conceito de Desenvolvimento Sustentável está profundamente relacionado à utopia, à nossa capacidade imaginativa de criar outros futuros possíveis. Tenho refletido sobre isso e concordo com seu pensamento. Afinal, qual o sentido de discutir Desenvolvimento Sustentável ou Sustentabilidade, se não for para questionar as múltiplas crises que enfrentamos e, a partir disso, nos movermos em direção a um futuro viável para as pessoas e para as demais espécies neste planeta — que é nossa casa comum? Apesar disso, somos reiteradamente tomados por um pensamento reducionista, que insiste em ignorar a nossa interdependência com os outros seres vivos.

A Educação Ambiental sempre foi urgente e necessária e no momento presente ela se coloca como imperativa. Ao pensarmos nas cidades e nos territórios que temos — e naqueles que queremos —, certamente a Educação Ambiental atravessa essas reflexões. Está diante de nós o fato de que as mudanças climáticas e seus efeitos já chegaram, e as consequências são cada vez mais intensas e desafiadoras. As cidades e as áreas rurais precisam ser espaços de promoção da qualidade de vida, o que passa necessariamente pela Educação Ambiental — por refletirmos sobre como cuidamos do que está ao nosso redor e do qual fazemos parte.

Não é mais possível negligenciar o fato de que nós, seres humanos, somos natureza. Por isso, é necessário um esforço coletivo para que tenhamos cidades e zonas rurais mais arborizadas, corpos hídricos livres de contaminação por dejetos e resíduos das ações humanas, além de áreas de lazer que favoreçam o contato humano com a natureza, numa perspectiva de interação e valorização do capital natural, simbólico e cultural presente nesses espaços.

Concordo com Yuval Harari quando afirma que a maior habilidade que precisamos desenvolver neste século tão desafiador é a cooperação. Acredito profundamente nisso. E acredito, ainda, que a efetividade da Educação Ambiental nos impõe esse sentimento de responsabilidade compartilhada. Sim, deve ser responsabilidade de todas as pessoas.

Se podemos ser otimistas ou utópicos — bem, comecei este texto falando em utopia e não poderia encerrá-lo sem voltar a ela. Afinal, não considero que estou concluindo, mas sim convidando outras pessoas a se inquietarem e refletirem sobre como, numa perspectiva colaborativa, podemos contribuir para a efetividade e o fortalecimento da Educação Ambiental. Mesmo sendo utopia, ela é extremamente necessária para tempos tão desafiadores.

Ressalto que o convite à utopia, aqui proposto, é um chamado para sairmos da inércia e do lugar em que estamos, para fazer ecoar nossa voz de forma que outras se juntem a ela — e, assim, possamos ser parte do futuro possível que desejamos para este planeta, que é a nossa casa. Nossa única casa.

REFERÊNCIA:  VEIGA, José Eli da. Para entender o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: editora 34, 2015.

Zildenice Guedes é pós-doutora em Ciências Ambientais – Ufersa, doutora em Ciências Sociais – UFRN, mestre em Ambiente, Tecnologia e Sociedade – Ufersa e professora da Uern

Refletir e sensibilizar para as questões socioambientais

Por Zildenice Guedes

Arte ilustrativa da Enel Green Power
Arte ilustrativa da Enel Green Power

Quando se trata de falar das questões ambientais, há sempre grandes desafios. Embora, nesse momento da história possamos constatar que mesmo de diferentes formas, há um consenso comum (ou não), de que o século XXI está sendo uma época de tragédias ambientais e humanas em vários sentidos. E mesmo que em outros momentos a humanidade tenha se deparado com grandes desafios, os do momento presente são potencializados no que diz respeito ao alcance e possibilidade de resposta. Nesta discussão estarei fazendo um recorte sobre algumas questões socioambientais em que o objetivo é informar e portanto, sensibilizar.

Comecemos pelas mudanças climáticas. O Brasil está entre os cinco maiores emissores mundiais de gases do efeito estufa. E o setor energético é responsável por dois terços do total, além do mal uso que fazemos do nosso solo, desmatamento, queimadas em todos os biomas correspondem a quase metade das emissões (46%). Não se pode deixar de mencionar que enquanto em termos mundiais houve aumento das emissões de 1,3% em comparação ao ano de 2023, no Brasil houve redução de 12% no mesmo período (FAPESP, 2024).

É importante ressaltar que no que diz respeito às mudanças climáticas, de acordo com o professor Luiz Marques (2015; 2023), estamos em uma década decisiva para implementar mudanças e tomada de decisão em diferentes aspectos para que seja possível à humanidade a permanência de vida na Terra. Logo, as mudanças necessárias passam pelos aspectos políticos, econômicos, culturais e sociais. Tudo nos leva a entender que estamos na contramão e comprometendo a vida humana e de outras espécies no que Lovelock considera Gaia, esse grande sistema vivo do qual nós seres humanos somos uma parte, e é fato que não somos a mais importante.

O que constata-se nesse momento é que a saúde do planeta tem piorado e um estudo do ecólogo norte-americano William Ripple da Universidade Estadual de Oregon, publicou um artigo no periódico BioScience e apresenta dados em que aponta que 25 dos 35 sinais vitais do planeta estão em níveis recordes de deterioração, com potencial de piorar nos próximos anos (FAPESP, 2024). E isso está em nosso cotidiano, as tragédias climáticas têm acontecido em um espaço muito curto de tempo e aumentado em intensidade.

CONSTATAMOS que as cidades não foram pensadas para esses cenários, mas, considero que o problema está para além da compreensão muito necessária sobre o planejamento ambiental em que diferentes variáveis e cenários devem ser considerados. Penso que o problema é muito mais complexo e vai exigir muito da humanidade, e reflito se nós seres humanos estamos dispostos a refazer a rota e reconhecermos que somos natureza, somos também o planeta Terra, se ele adoece, nós também adoecemos e estaremos em risco.

A intenção do artigo é provocar e ao mesmo tempo convidar à reflexão sobre o quanto precisamos nos aproximar, revisitar e mesmo desconstruir o que por ventura aprendemos sobre natureza, no sentido de que é um convite a problematizar  a compreensão deturpada de que não somos natureza e/ou não dependemos dela, de que evoluímos e conseguiremos com todo avanço tecnológico reverter até os piores cenários. Sobre esse ponto, inclusive cientificamente está evidenciado que trata-se de uma falácia e não é suficiente para resolver e nos colocar em tranquilidade frente aos desafios que temos.

Encerro convidando-os à reflexão e à associações dessa discussão com os nossos problemas cotidianos como aumento da produção per capita de resíduos sólidos no Brasil, estamos gerando mais resíduos do que o planeta é capaz de suportar, falta de áreas verdes nas cidades e infraestrutura verde, comprometimento da qualidade das águas e regimes de chuvas, escasseamento do solo e sua capacidade produtiva, perda de biomas e importantes serviços ecossistêmicos (trata-se de tudo que fauna e flora nos proporcionam gratuitamente e por causa dos cenários de destruição e degradação ambiental, compromete-se diretamente a qualidade do meio) e muito além disso. O quanto tudo isso já está interferindo na qualidade humana e de outras espécies?

As gerações atuais já estão sofrendo e comprometemos diretamente as gerações futuras. Dialogar sobre os desafios socioambientais é sempre um desafio, mas a intenção não é nos deixar inertes com a sensação de que “o fracasso ou colapso é iminente”. Ao contrário, enquanto humanidade somos capazes de grandes feitos, a história está aí para atestar isso e termos consciência e sensibilização é um passo muito importante e que não podemos abrir mão.

Que estejamos provocados a isso!!

Zildenice Guedes é pós doutoranda em Ciências Ambientais – UFERSA, doutora em Ciências Sociais – UFRN e mestre em Ambiente, Tecnologia e Sociedade – UFERSA

Cidades verdes, um mundo possível e necessário

“Primeiro moldamos as cidades, então, elas nos moldam”,  (GEHL, 2013) 

Por Zildenice Guedes

Segundo a ONU (2017), a expectativa é que até 2050 mais de 75% da população mundial estará nas cidades ocupando o espaço urbano. Essa projeção tem por base os dados das últimas décadas em que o processo de urbanização tem se intensificado, e em consequência disso, há um aumento direto por mais utilização de recursos naturais.  áreas verdes

Aqui no Brasil, os dados (Embrapa, 2017), apontam que mais de 80% da população tem migrado para as cidades nas últimas décadas. E como em outras cidades do mundo, o fenômeno da urbanização está associado ao aumento da densidade demográfica em que se percebe um inchaço nas cidades, maior demanda por energia, utilização de recursos de uma forma geral (água, empregos, espaços públicos, transporte, educação, saúde, etc.).

E percebemos ainda que, a migração para a cidade, está na maioria das vezes, associada a busca por melhores oportunidades, realização dos sonhos, acesso a melhores serviços públicos e privados, e para além dessas questões.

No Brasil, são 5.572 munícipios, ou seja, cidades em que percebe-se uma complexa diferenciação nos processos e dinâmicas da conformação desses espaços urbanos. E nesse sentido, estudos, reflexões e proposições vem sendo delineadas para pensar em formas mais sustentáveis de pensar as cidades. De modo que esses espaços pensem e definam seus processos considerando as demandas humanas em sintonia com o meio ambiente no qual estão inseridas.

E é olhando para a cidade que temos e pensando na cidade que queremos, que se propõe reconhecer o papel de áreas verdes como elementos fundamentais e que prestam serviços ecossistêmicos essenciais para a pessoa humana e outras espécies, em uma perspectiva sistêmica.  Segundo Mauricio Lamano Ferreira, Alessandro Zabotto e Fernando Periotto (2021, p. 16), as áreas verdes precisam ser consideradas nas cidades, pois:

Além de promoverem a manutenção da biodiversidade, estes espaços auxiliam na regulação do ciclo hidrológico e da temperatura do ar, além de atenuar a poluição atmosférica e sonora, trazendo benefícios para a saúde física e mental dos habitantes da região. Circundando as cidades, as áreas periurbanas formam, muitas vezes, cinturões verdes que ajudam a garantir a segurança hídrica e alimentar da população.

E pensar as cidades nessa perspectiva é importante? E sendo, com base em que fundamentamos essa argumentação? A questão embora complexa,  pode ser colocada de forma clara também. Se pensarmos nos problemas que temos hoje nas cidades (poluição atmosférica, contaminação dos recursos hídricos e sua escassez, crise sanitária, desigualdade social, etc.), identificamos nas cidades brasileiras, assim como em outros países, que esses desafios são agravados exatamente por não termos enquanto sociedade, considerado a sustentabilidade do meio como um elemento norteador para as políticas públicas e para o processo de urbanização como um todo.

Não é a por acaso que esse artigo tem como título essa afirmativa de Gehl (2013). Se queremos a garantia de permanência humana no espaço urbano, esse precisa ser pensado de forma conectada com a natureza e o meio que o circunda. A arborização é fundamental, pois, garantirá para as presentes e futuras gerações um equilíbrio ambiental de interação com o meio. Quando se promove políticas públicas repensando os modelos de ocupação urbana, os espaços urbanos se tornam inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.

Implica assim em reconhecer que a nossa qualidade de vida está totalmente relacionada a saúde dos ecossistemas urbanos. E Gehl (2013) tem razão. No Brasil, assim como em outros países em desenvolvimento, é para ontem repensar os modelos de ocupação urbana, bem como entender que um futuro sustentável está relacionado diretamente com o desenvolvimento verde das cidades.

Já parou para pensar o quanto vale respirar ar puro, usufruir gratuitamente da sombra de uma árvore, caminhar em áreas verdes? Esse artigo tem essa finalidade, nos inquietar para a reflexão de o quanto as nossas demandas humanas podem e precisam estar conectadas com o meio ao qual estamos inseridos.

Trata-se de não colocar a pessoa humana no centro das tomadas de decisões, mas colocá-la ao lado de questões que são muito relevantes para que todos possamos usufruir de uma cidade sustentável em que os recursos naturais são tão importantes quanto os recursos econômicos. Impossível? De modo algum! Muitas cidades estão considerando que o futuro é sustentável e chegou. Embora seja um desafio, ai também reside grandes oportunidades ambientais, sociais e econômicas.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais e gerente executiva de Educação Ambiental na Prefeitura de Mossoró

Zildenice Guedes é selecionada para curso de formação política

Zildenice: formação política (Foto: redes sociais)
Zildenice: formação política (Foto: redes sociais)

Gerente Executiva de Educação Ambiental de Mossoró, a professora-doutora Zildenice Guedes foi aprovada para participar do Curso Lidera+. Ele foca na formação política exclusiva para mulheres, idealizado pela Secretaria Nacional da Mulher do Solidariedade com o apoio da Fundação 1º de Maio. O curso é dividido em quatro módulos, e será realizado entre os meses de fevereiro e abril de 2022, havendo aulas presenciais em São Paulo e Brasília.

Programas como o Lidera+, são muito importantes no combate à desigualdade de gênero na política brasileira. O curso contará com palestras, oficinas, debates que fortalecerão o engajamento da mulher na política.

Ressalte-se, que a professora Zildenice Guedes também é integrante da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), uma “Líder Raps”. Trata-se de uma organização apartidária criada em 2012, com a missão de contribuir para a melhoria da democracia e do processo político brasileiro e de disseminar o compromisso com a sustentabilidade e o desenvolvimento sustentável na política institucional.

Zildenice integra o elenco de colaboradores dominicais do Canal BCS (Blog Carlos Santos).

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A paixão de Zildenice e Nina pelos livros em Carnaúba dos Dantas

Zildenice deverá lançar livro em outras cidades (Foto: divulgação)
Zildenice deverá lançar livro em outras cidades (Foto: divulgação)

É nesse sábado (4), às 18h, que a professora-doutora Zildenice Guedes lança seu livro infantil “Os livros falam? Nina diz que sim!” em Carnaúba dos Dantas, no Seridó. O evento acontecerá na Biblioteca Donatilla Dantas.

A publicação traz a história de Nina, uma menina muito curiosa que na infância encontra nos livros seus verdadeiros amigos e sua grande paixão. Esse amor pela leitura lhe possibilita grandes aventuras. É o primeiro livro infantil da autora.

Zildenice Guedes é escritora, professora e doutora em Ciências Sociais. Também colabora com produção de artigos e outros textos para nossa página. Nina é um pouco Zildenice; Zildenice é um pouco Nina.

Paixão

A autora na infância foi tomada pela afeição aos livros. Sua mãe trazia para ela os livros que as patroas jogariam fora. Então, a leitura sempre foi uma grande paixão em sua vida e despertou nela o sonho e a certeza de que só mudaria de vida através da leitura e do conhecimento.

E foi essa a chave que a levou a galgar formação superior, sendo por muito tempo na sua família a única a chegar a esse patamar.

Até o final do ano a autora estará percorrendo outras cidades realizando a apresentação da sua obra.

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Ney Lopes estreará no Blog Carlos Santos

Ney: Revolução do Liberalismo Social (Foto: arquivo)
Ney vai abordar a “A revolução do Liberalismo Social” na sua chegada ao Nosso Blog (Foto: arquivo)

Quem vai estrear em Nosso Blog no domingo (2) é o advogado, jornalista e ex-deputado federal Ney Lopes.

Abordará o tema “A revolução do liberalismo social”. Está supimpa. Meninos, eu vi!

Reforçará nosso time que já tem uma turma ótima. E chegando mais.

No domingo passado, a estreia foi do escritor e procurador federal Marcelo Alves.

Com eles, gente há mais tempo conosco dominicalmente, como Paulo Menezes, Odemirton Filho, Honório de Medeiros, Josivan Barbosa, Marcos Pinto, François Silvestre, Eduardo Cavalcanti, Phabiano Santos, Paulo Linhares, Gutemberg Dias, Marcos Araújo e Zildenice Guedes.

Mais recentemente, a chegada de Marcos Ferreira e Lúcia Rocha.

Além dos bissextos David Leite e Francisco Edilson Leite Pinto Júnior.

Esses estão devendo, que se diga, ora!

Domingão promete.

Até lá!

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Para educar uma criança é preciso toda uma aldeia (cidade educadora)

Por Zildenice Guedes

A frase que intitula o artigo e é inspiradora, é de um provérbio africano, que considera que uma criança para ser formada e educada, precisará contar com todos os espaços e tempos da aldeia. Inspirador, no mínimo. Dito isso, este artigo está baseado na Agenda 2030 (já discutida em outros momentos), especificamente no Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 1: Cidades e Comunidades Sustentáveis.Crianças Xhosa mostram o que é ubuntu - eu sou porque nós somos -Como também discutido em outros momentos aqui, discorremos sobre os impactos da pandemia da COVID-19 em todos os aspectos da sociedade contemporânea. E no que diz respeito à educação, os desafios tem se intensificado, sobretudo, para as crianças que precisam aprender e se desenvolver em um contexto social, ambiental, econômico e cultural dos quais elas não estavam prontas, assim como os adultos e adultas que as formam.

Logo, o que trago nesse artigo tem um caráter de utopia e proposição, que tem a intenção de nos dar horizontes, sobretudo, em meio a esse momento a que a humanidade tem sido arremessada. Proponho assim, pensarmos como a cidade em sua totalidade e consideravelmente pós-pandemia precisará ser um ambiente acolhedor para o processo de ensino-aprendizagem da primeira infância a qual discorro nesse artigo.

No Brasil, a Constituição Federal em seu artigo 227 estabelece que é prioridade o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, e esse direito é dever de vários setores da sociedade, da família e do Estado. E as crianças precisam de acesso a locais livres e áreas verdes para que possam além de conhecer, se sentirem parte dos seus territórios. Trata-se de valorizar o processo de ensino-aprendizagem com e na natureza.

De acordo com a Base Nacional Curricular, as crianças têm direito a seis tipos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. É pensar na importância do desenvolvimento integral do indivíduo, que precisa do entorno, da cidade inteira. E a partir do momento que a criança se sente pertencer ao ambiente, essa relação incorrerá em um sentimento de responsabilidade para com a natureza que o cerca, ele é natureza, faz parte dela.

Pensando na cidade em uma perspectiva de sustentabilidade, entendemos que as responsabilidades são compartilhadas, ou seja, gestores das cidades, profissionais da saúde, da educação, cultura e esportes, além das famílias, são muito importantes para a mudança de cenário onde crianças passam grande parte de seu tempo em espaços fechados (INSTITUTO ALANA).

Logo, entendemos que o contato que as crianças têm com a natureza é fundamental para a vida no planeta Terra. É a partir desse contato que fortalece-se o sentimento de pertencimento à casa “mãe terra”. Estar ao ar livre é fundamental para o bem estar físico, emocional e psicológico, além de promover a saúde em sua dimensão mais complexa e abrangente. Trata-se ainda de educar uma geração para o autocuidado e o cuidado com as outras formas de vida.  É pensar no universo como pano de fundo. É promover a interação das crianças com o mundo ao seu entorno, com a comunidade à  qual a escola está ligada, com o mundo vivo e dinâmico que pulsa lá fora. É formar uma geração com uma perspectiva política da sua atuação no mundo e como isso impacta o universo a qual estamos ligados e nos envolve também (TIRIBA, 2018).

Todas essas práticas estão relacionadas com o “transtorno do déficit de natureza”, um termo cunhado por Richard Lov em sua obra “A última criança na natureza”. Como explica Barros (2018), não se trata de um termo médico, mas uma forma de chamar a atenção para a ausência de convívio com a natureza que acomete hoje a maioria das crianças, fato mais intensificado ainda após a pandemia da COVID-19. Assim, trata-se de problematizar a ausência de interação ao ar livre que:

Ajuda a fomentar a criatividade, a iniciativa, a autoconfiança, a capacidade de escolha, de tomar decisões e de resolver problemas, o que por sua vez contribui para o desenvolvimento integral da criança. Isso sem falar nos benefícios mais ligados aos campos da ética e da sensibilidade, como encantamento, empatia, humildade e senso de pertencimento (BARROS, 2018, p. 9).

De acordo com a ONU, estima-se que em 2050 mais de 80% das pessoas morarão no espaço urbano. Dito isso, é urgente pensar em cidades que contem com um modo de vida e desenvolvimento pautados pela sustentabilidade ambiental, social e econômica.

Os efeitos da urbanização comumente estão mais relacionados ao distanciamento da natureza, redução de áreas naturais, bem como falta de segurança e qualidade dos espaços públicos que acabam por muitas vezes, obrigando as crianças a ficar em um espaço escolar entre muros. Segundo Barros:

Atentos a isso, um número significativo de especialistas, educadores e pais no mundo todo, assim como no Brasil, vêm se dedicando a entender o que está adoecendo e tornando as crianças nervosas, agitadas, infelizes e com dificuldades de aprendizagem e convivência na escola.Um conjunto consistente de evidências científicas, em sua maior parte geradas fora do Brasil, sugere que um dos fatores seja o distanciamento entre as crianças e a natureza. Isso porque ambientes ricos em natureza, incluindo as escolas com pátios e áreas verdes, as praças e parques e os espaços livres e abertos para o brincar, ajudam na promoção da saúde física e mental e no desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais, motoras e emocionais (BARROS, 2018, p. 10).

Dito isso, precisamos avançar na compreensão de que a educação escolar está ligada ao espaço formal e não formal de ensino, pois a criança que é aluna é também filha, irmã, vizinha, ou seja, é também uma criança cidadã. É pensar que as escolas sejam espaços de vida, biodiversidade e interação ecossistêmica.

O futuro que construímos está relacionado à nossa capacidade imaginativa, de ação e transformação da realidade. E se começarmos a imaginar cidades vivas, pulsantes e seguras em que as crianças se sintam pertencer aos seus territórios e se sintam também responsáveis por cuidar “dessa casa”? Que não seja difícil imaginarmos, nem tão pouco arregaçar as mangas e começar no agora construir uma sociedade sustentável.

Há muitas experiências boas para nos inspirarmos, e no próximo artigo eu apresentarei essas experiências de desemparedamento das crianças que tem causado efeitos muito positivos em seus processos de desenvolvimento e aprendizagem.

Referências

BARROS, M.I.A. (org.). Desemparedamento da Infância: A escola como lugar de encontro com a natureza. Rio de Janeiro, 2018.   

TIRIBA, L. Prefácio.  In: Desemparedamento da Infância: A escola como lugar de encontro com a natureza. Rio de Janeiro, 2018.  

Zildenice Guedes é doutora em Ciências Sociais e gerente executiva de Educação Ambiental na PMM

A cidade quando é pensada para as pessoas

Por Zildenice Guedes

A proposta deste artigo, caros leitores, parte sempre do lugar em que estamos. O meu lugar de fala é enquanto professora e pesquisadora que sonha e trabalha para uma implementação efetiva de uma agenda de sustentabilidade para a cidade em que habitamos. A saber, falo da Agenda 2030, já apresentada por mim em outros artigos.

Para a construção desse artigo, parto de uma fundamental para essa discussão. Cidade para pessoas de Jan Gehl de 2013. A partir dessa obra este artigo discorrerá sobre a necessidade de se defender um aspecto humano para a cidade. Categoria essa que não foi contemplada na grande maioria dos planejamentos urbanos.  Capas_urbanismo-social-1564x518Sabemos que em cidades com baixos indicadores (humanos, sociais, econômicos e ambientais), essas problemáticas são mais duramente percebidas. “Tanto as cidades existentes como as novas terão que fazer mudanças cruciais em relação aos pressupostos para o planejamento e suas prioridades. Deve-se destacar como objetivo-chave para o futuro, um maior foco sobre as necessidades das pessoas que utilizam as cidades (GEHL, 2013, p. 18)”.

Some-se a isso os grandes desafios que temos para as cidades no século XXI, tragédias climáticas, pandemias, desastres ambientais, todas essas problemáticas incorre-nos a uma maior urgência para cidades vivas, sustentáveis, seguras e saudáveis. E nesse aspecto, por mais que pareça uma utopia, isso é fruto de políticas públicas, de um lado a atuação de uma gestão pública pautada e fundamentada no Desenvolvimento Sustentável, uma atuação de entidades privadas e uma população que demande isso das autoridades competentes para a plena execução e eficiência do planejamento urbano.

O que defendemos para as cidades, e aqui nos referimos ao território, ou seja, as áreas que competem ao município, a saber, campo e cidade, é a cidade se configurar como um espaço de vida e reprodução social. Ou seja, cidades seguras, limpas e saudáveis, em que as pessoas se sintam pertencer ao seu local de moradia, acesso às oportunidades sociais e culturais.

Quando falamos em dimensão humana para as cidades, estamos falando de mais usos dos espaços públicos, calçadas mais espaçadas e com maior fluxo de pessoas, em outro artigo já discuti que sob a visão de Jane Jacobs (Morte e vida nas grandes cidades), na medida em que as ruas estão mais ocupadas pelas pessoas, mais seguras essas cidades serão.

O que proponho aqui é baseado em Gehl que afirma que “primeiro moldamos as cidades, então, elas nos moldam”. O que isso quer dizer? Que a forma como a cidade foi planejada e é conduzida, influencia os comportamentos humanos. Experiências exitosas como a de Copenhague (conhecida como uma das cidades mais sustentáveis do mundo), mostram que melhorias no espaço urbano se refletem diretamente como mais vida na cidade. As melhorias que foram implementadas na referida cidade datam nada menos que de 1960.

Desde o século XX na cidade se desenvolveu a preocupação em diminuir o tráfego de carros e estimular maior circulação de pessoas (calçadas mais largas, melhor qualidade no transporte público). Isso coloca em evidência que alguns fatores que implicam para que uma cidade se torne sustentável, políticas públicas, educação e sensibilização ambiental junto à população. Sobre essa experiência, afirma Gehl:

O perfil da cidade confortável às pessoas foi seguido por uma extensa estratégia “verde” que incluía o plantio anual de quinhentas novas árvores para proteger o caráter local e para dar sombra às calçadas. Um programa amplo de arte na cidade e um elaborado sistema de iluminação noturna completam o quadro de uma cidade que tem perseguido uma política dedicada a criar convites para movimentação e permanência de pedestres (GEHL, 2013, p. 15).

E se pensarmos ainda que cidadania diz respeito aos acessos democráticos do espaço urbano, bem como as oportunidades que as pessoas têm acesso. E sobre isso, discorremos que em várias pesquisas e estudos há sempre a evidência dessa busca pela cidade como “um lugar de melhores oportunidades, onde os sonhos se realizam”. O lugar dos sonhos e de melhores oportunidades, como resultado direto de um coletivo de atores, gestão pública, iniciativa privada e sociedade civil. Dada a enormidade de problemas que temos, a solução não virá de apenas um lugar.

Encerro esse artigo com uma frase de Sérgio Farjado, ex-prefeito de Medellín, na Colômbia, foi ele quem implantou o urbanismo social e afirmava “Cidade para as pessoas, mas governar para a maioria”.

Nessa cidade, a maioria da população vivia em condições de vulnerabilidade social e extrema violência. E foi através da união entre sociedade civil, iniciativa privada e governo que promoveram uma verdadeira transformação na cidade. Em vinte anos, a cidade passou de a mais violenta para a mais inovadora do mundo (ALVIM, 2021).

Temos boas experiências que podem nos inspirar, inclusive em nível nacional. Sobre isso, proponho-me discorrer nos próximos artigos. Que não nos falte inspiração e coragem para superarmos todos os desafios que estão postos e outros que virão. Como em outros momentos da história, precisaremos contar uns com os outros para nos reerguermos das ruínas.

Referências

ALVIM, T. Melhoria da vida nas cidades depende de articulação entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil. Artigo disponível em: <//gife.org.br/melhoria-da-vida-nas-cidades-depende-de-articulacao-entre-poder-publico-iniciativa-privada-e-sociedade-civil/>.Acesso em 21 mar. 2021.

GEHL, J. Cidade para pessoas. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013.

Zildenice Guedes é doutora em Ciências Sociais e gerente executiva de Educação Ambiental na PMM

Professora Zildenice Guedes lança livro nesse domingo (20)

É nesse domingo (20), às 19h, lançamento de livro muito especial da professora-doutora Zildenice Guedes. É um trabalho dirigido especialmente ao público infantil.

“Os livros falam? Nina diz que sim!”, mostra o título da publicação que será apresentada ao público numa noite de autógrafos no Varandas Café, Rua Antônio Vieira de Sá, 235, bairro Nova Betânia, em Mossoró.

“Faremos um evento pequeno, para poucas pessoas, seguindo todas as prevenções necessárias contra o novo vírus”, antecipa a autora.

Zildenice Guedes é colaboradora do Blog Carlos Santos, já com vários textos publicados.

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‘Os livros falam’, garante a professora Zildenice Guedes

Dia 20 de dezembro (um domingo), às 19h, a professora-doutora Zildenice Guedes vai lançar seu primeiro livro dirigido ao público infantil. “Os livros falam? Nina diz que sim!”, é o título.

A noite de autógrafos acontecerá no Varandas Café, Rua Antônio Vieira de Sá, 235, bairro Nova Betânia.

“Foi um projeto feito com muito carinho e zelo e quero contar com você para dividir essa alegria. Faremos um evento pequeno, para poucas pessoas, seguindo todas as precauções necessárias”, esclarece a autora.

Zildenice Guedes é colaboradora do Blog Carlos Santos, já com vários textos publicados – veja AQUI.

Nota do Blog – Se estivermos em Mossoró, pode contar com nossa presença.

Sucesso.

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Política e sociedade – o poder da participação

Por Zildenice Guedes

Comumente somos levados a pensar que a nossa vida está dissociada da política. Frases como “eu votei na última eleição, mas não acompanho o trabalho do meu candidato porque não entendo e não gosto de me envolver com política” fazem parte do nosso cotidiano. Então, lhes pergunto, a partir de qual momento, a nossa vida foi dissociada da política? Se você refletir comigo, desde o momento em que acordamos ao momento em que retornamos para casa no fim do dia, nossa vida cotidiana no campo ou na cidade apresenta uma demanda surpreendente de serviços públicos. Serviços esses que estão totalmente relacionados a gestão pública nas três esferas, o município, o estado ou mesmo a União.

Essas instâncias são em sua maioria, públicas, ocupadas muitas vezes por cargos políticos e têm o papel de regular, normatizar e possibilitar a dinâmica da vida cotidiana. Pois bem, mesmo com toda essa demanda, existe essa certeza praticamente absoluta em boa parte da população, de que não precisa da política, não precisa se envolver, e por aí vai.Vamos aprofundar um pouco mais a discussão. Somos de uma democracia representativa. O que quer dizer que escolhemos nossos representantes. Escolhemos aqueles e aquelas que tomarão decisões nos representando, e o voto é o instrumento que possibilita o funcionamento dessa democracia. E como regime democrático, somos relativamente jovem.

É importante considerar que a democracia existe há mais de 2.500 anos. Discorrer sobre um conceito tão enraizado na história das sociedades não é algo fácil, sobretudo, se considerarmos que tal qual conhecemos hoje, ela existe há dois séculos. Se considerarmos ainda, que por democracia entendemos o direito de todas as pessoas ao voto, nos defrontamos com a falta de acesso das mulheres a esse direito. Logo, nos defrontamos com o fato, de que a democracia além de ser encontrada de formas distintas em diversos países, ele apresenta-se como um elemento novo. Sim, muitos países migraram para a democracia há menos de três décadas.

No Brasil, a primeira eleição aconteceu em 1532, permitida apenas aos “homens bons”, que deveriam ser de família nobre, ter dinheiro e propriedades, e participar também da vida civil e militar da época. Fica evidente que apenas poucos tinham o direito ao voto.

E porque defender e acreditar na democracia? Para Dahl (2000, p. 48), é importante considerar cinco critérios que segundo ele, são fundamentais para a democracia:

– Participação efetiva. Antes de ser adotada uma política pela associação, todos os membros devem ter oportunidades iguais e efetivas para fazer os outros membros conhecerem suas opiniões sobre qual deveria ser esta política.

– Igualdade de voto. Quando chegar o momento em que a decisão sobre a política for tomada, todos os membros devem ter oportunidades iguais e efetivas de voto e todos os votos devem ser contados como iguais.

– Entendimento esclarecido. Dentro de limites razoáveis de tempo, cada membro deve ter oportunidades iguais e efetivas de aprender sobre as políticas alternativas importantes e suas prováveis conseqüências.

– Controle do programa de planejamento. Os membros devem ter a oportunidade exclusiva para decidir como e, se preferirem, quais as questões que devem ser colocadas no planejamento. Assim, o processo democrático exigido pelos três critérios anteriores jamais é encerrado.

Dito isso, Dahl (2000, p. 54)  nos coloca algumas questões que são pertinentes. Ora, se temos esses critérios, é possível que haja um modelo perfeito de associação em que eles vem sendo aplicados, e que portanto, podem ser considerados modelos uns para os outros? Para o autor, é possível que não encontremos um modelo perfeito em que se configure como baluarte para os outros países e nações. No entanto, esses critérios, nos servem como “orientação para a moldagem e a remoldagem de instituições políticas”. Para o autor não alcançamos ainda enquanto sociedade, um modelo perfeito de democracia.

Em relação à democracia representativa, temos evidenciado nos últimos anos um aumento de descrédito das pessoas em relação a política. Isso se deve, sobretudo, a crise de legitimidade da política que evidenciamos quando as pessoas não se identificam, acreditam ou respeitam os seus representantes, percebemos ainda, um grande vazio de liderança, o que enfraquece a democracia representativa, e assim “O valor das eleições é diminuído quando cidadãos não têm fé nos líderes que elegem (p. 189)”.

É importante ressaltar que esse sentimento é movido muitas vezes pelas representações ou associações que se faz da política a atores específicos, sem considerar que a política está para além de quadros específicos. E vemos ainda que no Brasil em decorrência da forte polarização, esse sentimento se intensificou.

Vale a pena lembrar que Tocqueville considera que há uma conexão entre os costumes de uma sociedade e suas práticas políticas. Nesse sentido, é Putnam (2008) que vem nos lembrar que se a democracia de um país está em declínio, isso claramente é um reflexo do engajamento ou falta, por parte da sociedade.

Segundo a obra de Putnam, após analisar de uma forma complexa a experiência da democracia nos estados italianos, o autor ressalta que os estados com maior engajamento cívico, maior participação, menor corrupção, mais acesso aos serviços públicos, menor prática de relações clientelistas e patriacarlistas para com os políticos, eram não coincidentemente, mais democráticos. Além de serem economicamente mais desenvolvidos.

Invariavelmente, dessa mudança decorreu também renovações nas formações dos quadros políticos. Houve maior adesão aos partidos políticos, maior qualificação dos que passaram a compor os quadros políticos, houve melhora na representatividade. Além de um efeito muito positivo que foi a despolarização ideológica identificada tanto entre partidos de direita, quanto partidos de esquerda.

O que ficou em bastante evidência, foi que as mudanças que são mais efetivas, sobretudo, em âmbito local, são aquelas em a sociedade participa e se engaja mais como responsáveis do que como simples beneficiários dos serviços:

Na comunidade cívica[1], a cidadania implica direitos e deveres iguais para todos. Tal comunidade se mantém unida por relações horizontais de reciprocidade e cooperação, e não por relações verticais de autoridade e dependência. Os cidadãos interagem como iguais, e não como patronos e clientes ou como governantes e requerentes. […] Tal comunidade será tanto mais cívica quanto mais a política se aproximar do ideal de igualdade política entre cidadãos que seguem as regras de reciprocidade e participam do governo (PUTNAM, 2006, p.102).

Nas cidades brasileiras há muitos desafios a serem superados, sem dúvida. Um deles é de envolvimento da população na política para além da polarização, com a promoção de diálogo e a defesa da política enquanto um caminho efetivo para promoção do desenvolvimento. É o entendimento de que com a democracia, participação efetiva, controle social por parte da população, as velhas práticas sofrerão constrangimento, e assim, pode-se difundir uma outra cultura política em que a pessoa humana se sinta pertencer ao seu território, a sua cidade, a seu bairro, e assim, se reconheça enquanto promotor da mudança e da transformação que todos nós precisamos, pois como afirma Putnam (2006, p. 176) “Num mundo onde existem dilemas do prisioneiro, as comunidades cooperativas permitirão aos indivíduos racionais superarem os dilemas coletivos” .

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN


[1] Esse conceito será explicado no próximo artigo

As cidades têm capacidade de oferecer algo a todos

Por Zildenice Guedes

Qual a importância de espaços públicos para as cidades? O que podemos entender como espaços públicos? Os espaços públicos podem se configurar como representativos do tipo de vida que há na cidade? São essas e muitas outras perguntas que norteiam e embasam a discussão que proponho através desse artigo.

A leitura que trago da cidade é o lugar do encontro, como já falei nos artigos anteriores. A expressão de vida nas cidades é identificada através das suas ruas e dos seus bairros. Esses são a maior expressão do tecido social que compõem o espaço urbano. Este artigo tem como referência a obra Morte e vida nas grandes cidades, da autora Jane Jacobs (2011).

A compreensão que temos dos espaços públicos são as ruas, as praças, os parques, as igrejas, as bibliotecas, mercados, feiras, museus, e muitos outros. Os espaços públicos urbanos numa visão de interesse público constituem elementos de desenho urbano decisivos para a produção da cidade na medida em que é nestes espaços que se manifesta a vida e animação urbana e onde se processa grande parte da socialização dos seus utilizadores.

Uma vez que reconhecemos o potencial dos espaços públicos para a dinamização da vida urbana, é importante ressaltar que falamos de espaços verdes, bibliotecas, museus, teatros, espaços desportivos, áreas para lazer e estímulo a atividades recreativas como pintura e diversas expressões de arte.

E por que precisamos de uma cidade com espaços públicos vivos e eficientes para a população? Quando a cidade dispõe de equipamentos urbanos as crianças são favorecidas com locais para brincar, aprender e interagir. Os idosos que são fundamentais para a formação dos jovens e crianças se sentem também acolhidos e importantes para esses espaços e esses momentos. E esses locais precisam ser perto das suas casas, não faz sentido disponibilizar opções de lazer e sociabilidade para as pessoas em regiões ou bairros distantes de seus locais de moradia e pertencimento. Em todo momento, o que a autora quer nos dizer é que há uma vida pulsante na cidade que é composta pelas pessoas, são os laços humanos que vitalizam as estruturas físicas.

E esses espaços públicos precisam ser propostos em uma lógica inversa. Não são eles que conferem vida e representação aos bairros e a cidade, é o contrário, são as pessoas que dotam essas áreas de vida pulsante. Trata-se assim de pensar na cidade em sua combinação de usos e não usos separados, como afirma Jacobs:

A principal responsabilidade do urbanismo e do planejamento urbano é desenvolver – na medida em que a política e a ação pública o permitam – cidades que sejam um lugar conveniente para que essa grande variedade de planos, ideias e oportunidades extra-oficiais floresça, juntamente com o florescimento dos empreendimentos públicos. (JACOBS, 2011, p.166).

O planejamento e acesso a espaços públicos pode ainda ser considerado um indicador dos valores democráticos que há nessa sociedade. Ou seja, quanto mais diversificados, vivos, expressivos forem os esses locais, mais representativos da sua população eles serão. Ou seja, as pessoas estarão nas ruas quando essas forem mais seguras, e essas serão mais seguras com as pessoas presentes, é uma via de mão dupla.

MUITOS DOS PROBLEMAS que são identificados nas cidades, e que percebemos que é uma tendência em outros países do mundo, inclusive no Brasil, está relacionado a um processo de urbanização e planejamento que desconsidera as diversidades na cidade, tais como: vocações e identidades dos bairros, processos de zoneamento (parcelamento do solo urbano) que desapropriam moradores para áreas mais remotas que dentre muitos problemas, ocasiona aumento no processo de periferização e marginalização do espaço urbano, e um elemento importantíssimo, que é quando as ruas passam a ser desocupadas, muitas vezes indicando o quadro de insegurança pública.

E os projetos de moradia em conjuntos habitacionais? Na maioria dos casos o seu insucesso também está relacionado a uma lógica do planejamento urbano que apenas transfere as pessoas para outras áreas que na maioria das vezes não dispõem minimamente de equipamentos públicos essenciais, tais como, creches, escolas, hospitais, transporte público e etc. Ora, estamos falando de pessoas reais e normais que são desalojadas dos seus locais de moradia e pertencimento, e alocadas em áreas muito distantes de seus laços afetivos e a que se sentem pertencer. E os trabalhos e ocupações? Ficam a quilômetros de distância dos seus locais de moradia. Sob esse aspecto, a autora apresenta a fala de uma moradora sobre como se sente em seu novo local de moradia:

Quem foi que pediu o gramado? ” Por fim, certo dia uma moradora mais bem articulada que os outros disse o seguinte: “Ninguém se interessou em saber o que queríamos quando construíram este lugar. Eles demoliram nossas casas e nos puseram aqui e puseram nossos amigos em outro lugar. Perto daqui não há um único lugar para tomar um café, ou comprar um jornal, ou pedir emprestado alguns trocados. Ninguém se importou com o que precisávamos. Mas os poderosos vêm aqui, olham para esse gramado e dizem: ‘Que maravilha! Agora os pobres têm de tudo!'” (JACOBS, 2011, p. 21).

E em nossa cidade? Como estão nossos espaços públicos? O que eles estão dizendo a respeito da nossa vida urbana? No próximo artigo traremos algumas análises, pois entendemos que é a sociabilidade, o prazer de estar com o outro, que estabelece em definitivo a diferença urbana (Jacques Le Goff).

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN


[1] JACOBS, J. Morte e vida nas grandes cidades. São Paulo, 2011, p.164.

A cidade que precisamos passa pela Agenda 2030

Por Zildenice Guedes

No artigo anterior (veja AQUI) comprometi-me a trazer experiências de implementação da Agenda 2030. Para tanto, é necessário fazermos referência a uma importante Conferência que desde 1976 busca nortear o desenvolvimento urbano. Trata-se da Habitat (está na III), que é parte de um Ciclo de Conferências Mundiais das Organizações das Nações Unidas (ONU).

O fio condutor das conferências que se realizam a cada 20 anos é a explosão demográfica e urbanização intensificadas no século XX, e todos os problemas daí advindos.

É fato que essas conferências se constituíram um avanço do ponto de vista da compreensão da cidade enquanto espaço onde efetivamente as pessoas vivem. É o lugar do esforço e do trabalho, realização dos direitos e busca pelo acesso a melhores oportunidades.

Como resultados diretos no Brasil dessas conferencias, após a Habitat II realizada em Istambul em 1996, houve a aprovação do Estatuto das Cidades (2001), criação do Ministério das Cidades (2003) e, em seguida, dos Conselhos das Cidades (2004).

Em Mossoró, desprezo, fome, falta do básico como saúde e moradia, marcam milhares de pessoas (Foto: Diário Político)

No Brasil, são 160,9 milhões de pessoas morando nas cidades. Por sua vez, as cidades e o seu entorno, são os territórios para se pensar o desenvolvimento nacional e exigem a urbanidade básica, como infraestrutura de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, sistema viário completo com calçadas, sinalização, acesso à moradia adequada e muitos outros serviços básicos (IPEA, 2016).

A Nova Agenda Urbana proposta pela Conferência Habitat III tem como premissa norteadora o direito à cidade. Esse direito passa pela universalização de serviços, bens e equipamentos básicos.

No que diz respeito a implementação da Agenda 2030, ao analisarmos os indicadores dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, evidenciamos que há uma discrepância entre as cidades no Brasil. Por exemplo, analisemos o Objetivo I Erradicação da Pobreza.

MOSSORÓ NA MISÉRIA
Em Mossoró, segundo os dados de 2010, 13,95% da população vive com renda inferior a R$ 140,00, o que representa 35.816 pessoas nessa condição de pobreza. Abaixo da linha de indigência, temos um percentual de 4,86% de pessoas que vivem com renda inferior a R$ 70,00 por mês. E os dados de proteção social? No município de Mossoró, em 2004 haviam 9.433 famílias beneficiadas com o Programa Bolsa Família, em 2018 esse número saltou para 18.646.

Número que cresceu também em outros estados, como por exemplo, em Petrolina-PE que contava em 2004 com 11.513 famílias e passou para 29.524 famílias. E se olharmos para os indicadores de cidades referência em Índice de Humano no Brasil, como por exemplo, a cidade de Curitiba que ocupa o 10º lugar. Para o ODS 1, segundo os dados de 2010, a cidade conta com 97,74% da população vivendo acima da linha de pobreza, 1,27% da população vivendo entre a linha de pobreza e indigência e 0,99% vivendo abaixo da linha de indigência  (PORTAL ODS).

Os dados nos mostram que temos sérios desafios para efetividade de uma Nova Agenda Urbana pautada pela sustentabilidade. Mas, nos mostra também que é possível e necessária uma gestão pública que atenda aos reais anseios da população, sobretudo, em nível local.

Temos bons exemplos a ser seguidos. Petrolina-PE, por exemplo, foi considerada em 2020 a melhor cidade do Nordeste em rancking de gestão pública. Para ser reconhecida, são analisados os indicadores de educação, saúde, segurança, saneamento e sustentabilidade, atenção em saúde básica, matrículas nas creches e escolas, coleta de lixo, taxa de homicídio, mortalidade no trânsito.

Já a cidade de Curitiba é mundialmente reconhecida como “cidade verde” e uma das cidades mais sustentáveis, sendo referência ao lado de modelos como Oslo, Amsterdã, Copenhagen, Vancouver, Portlander, Madri. Está entre as 10 mais sustentáveis do mundo, possui a melhor qualidade do ar do país, segundo dados da OMS e conta ainda com transporte público reconhecido internacionalmente.

TEMOS TAMBÉM boas experiências que foram reconhecidas no ano de 2019 no Festival de ODS que destacou casos de sucesso na implementação da Agenda 2030. Duas cidades localizadas no Estado de São Paulo. A cidade de Piracicaba é uma referência e conta com 100% de coleta e tratamento de esgoto, sendo reconhecida como o melhor saneamento do Brasil, e a cidade de Francisco Morato que é reconhecida por atenção básica à saúde, ambos no município de São Paulo (FOLHA DE SÃO PAULO, 2019).

Na cidade de Piracicaba, todos os 400 mil habitantes contam com saneamento básico, fruto do compromisso dos gestores públicos com o saneamento além de considerar como importante o investimento que é fundamental. É importante ressaltar que essa prática está ligada diretamente ao Objetivo 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis e o 6 Água Potável e Saneamento.

O município de Francisco Morato adotou como prioridade sete dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, entre eles, erradicação da pobreza, boa saúde e bem-estar e emprego digno e crescimento econômico. O município conta com o SUAS (Sistema Único de Assistência Social) na cidade que atende a famílias em situação de vulnerabilidade social. Além de terem destinado 6% do orçamento (transformado em lei) destinado para garantir a proteção dessas famílias.

E como tornar a implementação da Agenda 2030 possível a nível local? Segundo o IPEA (2016, p. 24):

Para transformar essa realidade, são necessários investimentos financeiros; uma sociedade civil organizada e mobilizada em prol de cidades mais justas e inclusivas; compromissos políticos dos governos nacional, estaduais e municipais; maior democratização e acesso ao Judiciário; e maior capacidade e qualidade dos gestores públicos e dos organismos governamentais.

É sempre o poder do coletivo que vai nos impelir para uma real e significativa mudança. Muitas práticas podem ser implementadas a nível local por parte do setor público e privado para cimentar a mudança que precisamos. O direito à cidade não é utopia, parte do concreto da nossa vida, é o nosso lugar de reprodução social, de onde tecemos nossa vida, nossa existência e também nossas essências.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN

Agenda 2030 – Um caminho para melhorar a vida nas cidades

Por Zildenice Guedes

Anteriormente, discutimos sobre Cidades inteligentes como espaços de esperança no domingo, 14 (veja AQUI). A finalidade do artigo era nos inquietar, provocar em nós o questionamento sobre a possibilidade de um espaço urbano pautado pelo princípio do desenvolvimento sustentável. Nesse artigo, proponho apresentar uma agenda que se constitui como um caminho norteador e efetivo para impactar positivamente a vida das pessoas, tanto na cidade quanto no campo.

A Agenda 2030 implementada pela ONU no ano de 2015 tem como finalidade desenvolver de forma efetiva a implementação do conceito de Desenvolvimento Sustentável. Mas, o que vem a ser esse conceito? O que ele tem a ver conosco diretamente?O conceito de Desenvolvimento Sustentável foi desenvolvido pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1987, resultado direto da Conferência de Estocolmo que em 1972 reuniu pesquisadores, cientistas, autoridades e sociedade civil para discutir sobre o modelo de desenvolvimento ao qual a humanidade estava se baseando. Tratou-se de compreender que aquele modelo de desenvolvimento predatório era nocivo a natureza e a pessoa humana.

Desse modo, a partir dessa Conferência estabeleceu-se que era necessário para a humanidade a partir daquele momento, nortear-se por um outro modelo de desenvolvimento que uma vez implementado, seria capaz de beneficiar as presentes e futuras gerações. Assim, por desenvolvimento sustentável entendemos como sendo “desenvolvimento capaz de atender às necessidades da geração atual sem prejudicar a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas necessidades” (CNM, 2017, p. 17).

Uma vez que compreendemos esse conceito, fica claro que a sua finalidade é promover uma sociedade capaz de se desenvolver de forma justa e solidária com a natureza, com os recursos que nos são dispostos de forma gratuita pelos ecossistemas e suas dinâmicas.

Assim, em 2015 foi implementada a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e foi adotada por 193 países, incluindo o Brasil “A Agenda 2030, como é conhecida, foi criada como uma “lista de tarefas” para colocar o mundo em um caminho mais sustentável e resiliente em um prazo de 15 anos, ou seja, até o ano de 2030”.

A Agenda está baseada em 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e 169 metas. Para compreender melhor, essa agenda está baseada em 5 Ps:

Pessoas – erradicar a pobreza e a fome de todas as maneiras e garantir a dignidade e a igualdade; Prosperidade – garantir vidas prósperas e plenas, em harmonia com a natureza; Paz – promover sociedades pacíficas, justas e inclusivas; Parcerias – implementar a agenda por meio de parcerias sólidas; e Planeta – proteger os recursos naturais e o clima do nosso planeta para as gerações futura.

A Agenda, uma vez implementada no Município, apresenta um potencial para resolver problemas fundamentais presentes nas cidades, e se forem solucionados, trará benefícios para toda a população. Tais como, a fome e a desigualdade (ODS 1); promoção de uma agricultura sustentável (ODS 2); garantir uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade (ODS 4), e assim sucessivamente. É importante ressaltar que os ODS são integrados e indivisíveis, o que significa dizer que se desenvolvemos um em específico, logo estaremos preparando terreno para fortalecer outro ODS.

Abaixo, elencamos os 17 ODS propostos pela ONU:

  • ODS 1: Erradicação da Pobreza: Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares
  • ODS 2: Fome Zero e Agricultura Sustentável: Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável
  • ODS 3: Saúde e Bem-estar: Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
  • ODS 4: Educação de Qualidade: Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos
  • ODS 5: Igualdade de Gênero: Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas
  • ODS 6: Água potável e saneamento: Assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e saneamento para todos
  • ODS 7: Energia acessível e limpa: Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos
  • ODS 8: Trabalho decente e crescimento econômico: Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho decente para todos
  • ODS 9: Indústria, inovação e infraestrutura: Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação
  • ODS 10: Redução das Desigualdades: Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles
  • ODS 11: Cidades e Comunidades Sustentáveis: Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis
  • ODS 12: Consumo e Produção sustentáveis: Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis
  • ODS 13: Ação contra a mudança global do clima: Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos
  • ODS 14: Vida na água: Conservar e promover o uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável
  • ODS 15: Vida Terrestre: Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda
  • ODS 16: Paz, Justiça e Instituições Eficazes: Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis
  • ODS 17: Parcerias e Meios de Implementação: Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável

A nossa finalidade em apresentar os ODS propostos pela Agenda 2030 é deixar claro que eles estão presentes em nossa cidade, em nosso cotidiano. Se analisarmos atentamente, veremos que de diferentes formas a problemática identificada em uma área, afeta a outra.

Por exemplo, se não há no município um combate efetivo à erradicação da fome e da pobreza, logo, não haverá desenvolvimento eficaz do sistema de educação, logo também, não haverá segurança para os habitantes, não haverá também, acesso seguro ao mercado de trabalho, pois, além da falta de postos, haverá também a falta de qualificação, e assim por diante.

O direito a cidade se coloca como uma condição alcançável para todo cidadão e cidadã. Trata-se de um direito da pessoa a um ambiente harmônico e equilibrado que, sobretudo, ofereça meios para que as pessoas se estabeleçam tendo as suas necessidades atendidas, atentamos aqui para as necessidades prementes, como moradia, educação, emprego, transporte, lazer, saúde e segurança.

Cientes do caráter subjetivo das necessidades individuais, é urgente políticas públicas que alcancem as necessidades reais e concretas das vidas das pessoas. No próximo artigo apresentaremos cidades que têm implementado a Agenda2030 e quais efeitos essas mudanças têm causado.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN

Cidades inteligentes – espaços de esperança

Por Zildenice Guedes

Alguém antes de mim, já afirmou categoricamente que a cidade é o lugar do encontro (LEFEBVRE, 2001). Não posso deixar de concordar. Para Harvey (2000), a cidade é um espaço em transformação. Estamos no século XXI e a cidade continua a ser o local para onde nos mudamos sob diversas perspectivas. Afinal, inúmeros de nós viemos a cidade para realizar nossos sonhos, para melhorar de vida, para conseguir um emprego, para dar um ensino de qualidade aos filhos, para cursar aquele curso universitário dos sonhos.

É da compreensão da cidade enquanto um espaço de transformação e diferença, encontro com o outro, lugar de reprodução da vida e suas condições materiais que hoje proponho refletirmos o tipo de cidade que temos, seus desafios, e de onde podemos alocar esperança para (re)construção de uma cidade pautada pelo princípio do desenvolvimento sustentável.Estima-se que até 2050, mais de 75% da população mundial estará morando nas cidades (ONU, 2017). A cidade é caracterizada por maior densidade demográfica, maior demanda de recursos (água, sistema de energia, transporte, etc), relações contratuais e econômicas, bem como aspectos afetivos também. Afinal, é comum alguém não querer sair do lugar em que seus pais e avós passaram toda a vida.

Com isso, cada vez mais tem se intensificado a compreensão de que a cidade do século XXI demanda recursos naturais, mas também demanda o uso sustentável destes, que está relacionado ao uso coletivo, portanto, as cidades encontram-se frente a desafios muito importantes, tais como, as mudanças climáticas e todas as suas consequências. Entende-se assim, que as cidades precisam defender também um aspecto humanista em que se considere como fundamental a inclusão de todas as pessoas que habitam esse espaço, e por ser um espaço heterogêneo, tem também, demandas distintas.

Nesse sentido, tem se tornado comum a apropriação de conceitos para o espaço urbano, tais como, cidades inteligentes, em que defende-se o uso racional dos recursos naturais, maior participação da sociedade civil, difusão de tecnologias que potencialmente podem favorecer a melhoria na qualidade de vida dos cidadãos e cidadãs. Assim, afirma Navarro, Ruiz e Pena (2017, p. 273 apud Cortese et al 2019):

Os diversos conceitos de cidades inteligentes presentes na literatura incluem o uso da tecnologia para melhorar a comunicação entre empresas, coletivos, instituições e indivíduos; para soluções ambientais como produção de energia e gerenciamento de resíduos; para melhoria do acesso a serviços, como os de transporte, saúde, educacionais e culturais, ampliando o funcionamento operacional da rede, bem como para ampliar a eficiência na forma como os serviços são prestados e controlados.

Se antes pensar na cidade em uma perspectiva tão ampla era apenas utopia, hoje, trata-se de uma condição necessária para a sociedade de uma forma geral. Todos os problemas de uma cidade estão interligados. Se não há educação de qualidade, se não há acesso e garantias desse direito previsto na constituição, por exemplo, outros problemas advirão, tais como o aumento da violência, a falta de mão de obra qualificada, aumento das áreas de periferia e suas vulnerabilidades.

Se uma cidade não conta também como uma gestão inteligente de resíduos sólidos, ocorrerá igualmente uma infinidade de problemas, tais como, aumento de doenças, aumentando problemas de saúde pública, áreas perderão valor comercial, recursos naturais serão comprometidos.

Podemos citar muitos outros exemplos de como as problemáticas se intensificam na medida em que os direitos à população não são garantidos, na medida em que a cidade não se configura como uma cidade inteligente e, portanto, sustentável, pois “com planejamento e gestão eficientes, as cidades podem se tornar incubadoras para inovação e impulsionadoras do desenvolvimento sustentável” (CORTESE et al., 2019, p.138).

A necessidade de construir e (re) pensar o espaço urbano em uma perspectiva de sustentabilidade é uma necessidade para ontem. Nunca se reconheceu de forma tão clara o quanto as cidades precisam ser conduzidas por uma perspectiva de sustentabilidade a longo alcance. A ideia, nesse sentido, é fortalecer o dinamismo local pensando no global.

As cidades demandam uma série de resoluções para uma diversidade de problemas, tais como: mobilidade urbana, violência, desemprego, falta de assistência social, falta de inclusão social, moradia, sobretudo projetos de moradia que contemplem a vida real dessa família, pois, nesse quesito, o que temos visto é projetos de habitação que alocam as pessoas para bairros completamente distantes dos seus locais de trabalho, escola dos filhos, problemas intensificados com a falta de transporte público, falta de incentivo a participação popular nas tomadas de decisão. Afinal, as pessoas precisam sentir que pertencem a esse espaço e que são importantes para o desenvolvimento sustentável da cidade.

As cidades são organismos vivos e dinâmicos e por isso precisam incorporar novas tecnologias e processos que mais que tudo, objetivem diminuir a emissão de carbono na atmosfera, para dentre outros benefícios, diminuir os efeitos das mudanças climáticas na vida das pessoas.

Somos convidados ainda a (re)pensar o que a cidade simboliza para nós em um convite a coletividade, pois como afirma Harvey (1998, p.24) “é o poder do espírito humano, em vez do revólver, que encerra a chave para o futuro”. Que para todos nós a cidade represente em sua essência, esse espaço de esperança.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN

O alimento como um elemento sociocultural

Por Zildenice Guedes

A produção alimentar trata-se de uma prática milenar e uma das mais importantes revoluções da humanidade, foi sem dúvidas, a Revolução Agrícola. Essa mudança foi tão significativa para a humanidade, que se antes éramos apenas caçadores coletores que vivíamos espalhados pelo globo, foi a partir da Revolução Agrícola que passamos a nos fixar nos territórios e passamos a desenvolver culturas que são representativas até hoje. Foi um marco rumo à civilização.

As práticas foram se aprimorando com o passar do tempo, ao passo que as sociedades foram se organizando e artificializando os processos, para que se diminuísse a dependência da natureza e seus ciclos e garantisse com isso, abastecimento para uma população sempre em crescimento exponencial.Contudo, o aprimoramento dessas técnicas está voltado diretamente para a artificialização dos processos. No passado as pessoas estavam habituadas a comerem frutos da estação, por exemplo, em tempo de manga não se procurava caju, e assim por diante. Ocorre que veio um processo intenso e complexo chamado modernização e com isso, técnicas e tecnologias foram amplamente difundidas provocando com isso um cenário no mínimo dúbio.

As mudanças na alimentação humana têm uma forte relação com o processo de revolução industrial, sobretudo, através do desenvolvimento das indústrias alimentares. Produtos que antes eram fabricados de forma totalmente artesanal (farinhas, óleos, açúcar, etc.) passaram a ser produzidos de maneira totalmente industrial através das usinas, e as empresas que passaram a especializar-se para disponibilizar o alimento pronto (FLANDRIN; MONTANARI, 1998).

Ocorre que nesse tempo de pandemia, houve um aumento na procura por alimentos orgânicos, segundo dados da Valor (2020). Contudo, é importante ressaltar que esse aumento tem sido evidenciado nas últimas décadas, e a procura está relacionada a uma série de fatores tais como, busca por qualidade de vida que normalmente os consumidores associam ao produto orgânico que é isento de agrotóxicos e produzidos sobre os princípios da agroecologia; maior preocupação com a saúde, pois é comum encontrarmos em feiras agroecológicas consumidores que em decorrência de tratamentos de doenças, optam pelos alimentos orgânicos como uma forma eficaz de ajudar no tratamento, ou mesmo, aumentar a prevenção contra os riscos de doenças.

Há ainda a preocupação com a questão ambiental que nas últimas décadas tem sido alvo de debates e discussões para implementação de uma agenda ambiental pautada pela sustentabilidade. Outro elemento de muita relevância está o fato de o consumidor conhecer através das feiras agroecológicas, o produtor rural. Esse contato é fundamental para fortalecimento dessas cadeias curtas de comercialização.

Ressalto que a Agroecologia trata-se de um enfoque sistêmico e científico em que a produção alimentar é realizada sob a perspectiva da sustentabilidade em que uma diversidade de atores produz alimento orgânico em uma ressignificação dos espaços rurais e da agricultura familiar. É um modelo de produção pautado pela sustentabilidade socioambiental, econômica e cultural.

A procura pelo alimento orgânico já é uma tendência bastante consolidada em outros países e aqui no Brasil vemos que na última década tem se fortalecido o que denominamos de circuitos curtos de comercialização, que se configura como uma relação direta entre produtor e consumidor.

Pesquisas têm evidenciado[1], que mesmo os alimentos orgânicos sendo encontrados nas prateleiras dos supermercados, o alimento encontrado nas feiras e adquirido pelas mãos dos produtores vem incorporados de uma ressignificação da relação humana com a natureza, significa ainda para o consumidor que é uma forma de fortalecer a agricultura familiar e contribuir para um planeta mais sustentável.

Assim, o alimento está relacionado a uma necessidade biológica, mas também cultural. Nesse sentido, afirma Pollan (2008, p.16):

Esquecemos que, historicamente, as pessoas comem por muitas razões

além da necessidade biológica. Comida também tem a ver com prazer,

comunidade, família e espiritualidade, com a nossa relação com o mundo natural e com a expressão da nossa identidade. Já que os seres

humanos fazem refeições juntos, a alimentação tem relação tanto com

a cultura quanto com a biologia.

Com isso fica claro que a busca pela qualidade se configura também com o surgimento de uma diversidade de olhares sobre o alimento, e a questão de pensar no alimento procurando entender a sua simbologia e sua representação social, já é uma realidade. Logo, a alimentação passa a ser pensada sob a discussão dos resgates culturais de hábitos alimentares, e ainda como possibilidade de defesa ao meio ambiente, sobretudo, diante da necessidade de repensar a alimentação e as práticas produtivas.

Temos uma constatação, o mundo pós-pandemia precisa ser repensado em muitos aspectos, e pensar que a alimentação enquanto um ato político no sentido de escolha consciente e deliberada do indivíduo, tem se intensificado nas últimas décadas, tal fato pode nos inquietar para repensar a relação humana com a natureza.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN


[1] MAIA, Z.M.G. Circuitos curtos como estratégia da agricultura familiar camponesa: o estudo de caso da feira agroecológica de Mossoró-RN, 2018.

A mulher e o isolamento social

Por Zildenice Guedes

Anteriormente discutimos como a pandemia tem diversas dimensões (veja AQUI). Hoje, o propósito desse artigo é discorrer sobre como esse momento de distanciamento e isolamento social tem impactado diretamente às mulheres.

Nós mulheres, comumente somos desenhadas como frágeis, delicadas, fracas e indefesas, contudo, isso é distante para a realidade da maioria das mulheres. Em geral, somos nós que ficamos sempre quando os outros decidem partir. Somos nós que cuidamos dos nossos até o último suspiro.Somos nós que todos os dias enfrentamos duras jornadas sem nos dar o privilégio de questionar se realmente suportamos essa sobrecarga. Os dados por si já provam que a realidade para as mulheres é completamente distante desses estereótipos. Vamos lá.

Referente à população, somos a maioria em números, representando 51,7% da população brasileira, e 70% no número de profissionais da saúde que estão na comissão de frente no combate ao COVID-19 (VIEIRA; GARCIA; MACIEL, 2020).

São as mulheres que chefiam 28,9 milhões de lar no Brasil. Sobre o fator sobrecarga, há um acúmulo de atividades para as mulheres, pois há uma desigual divisão das tarefas, colocando em evidência a invizibilização e não remuneração das atividades realizadas pelas mulheres (OXFAM, 2020).

As mulheres são brutalmente mais afetadas pela crise ocasionada pela pandemia por muitos fatores, dentre eles: além da atuação em hospitais e frentes de trabalho, são as mulheres cuidadoras de idosos, empregadas domésticas, e lamentavelmente, submetidas a abusos e violência doméstica. Vale lembrar que a primeira vítima de Covid-19 no Brasil foi uma mulher que aos 65 anos de idade percorria 120km para trabalhar como empregada doméstica.

Assim, esse momento, tem imposto às mulheres uma jornada dupla ou tripla de trabalho, pois é relegado a mulher zelar pelo lar, sendo isso sinônimo de lavar, passar, cozinhar, cuidar dos filhos, etc. Assim, o isolamento social tem configurado para as mulheres uma sobrecarga de trabalho, ao passo que muitas economicamente, continuam dependentes dos homens.

Muitos problemas têm se intensificado nesse cenário. Dentre eles, o aumento da violência doméstica contra mulheres e meninas. As denúncias em diversos países triplicaram, exemplo da China, França, Itália e Espanha (VIEIRA, GARCIA; MACIEL, 2020).

No Brasil, o cenário não é muito diferente, os dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos apontam que houve crescimento de 18% no número de denúncias. No RN houve um aumento alarmante, o aumento foi de 258,7%, enquanto que as ações criminosas aumentaram 300% (OBVIO-RN).

Outro dado apresentado pela OXFAM e ONU Mulheres, aponta que na América Latina 54% das mulheres estão trabalhando na modalidade informal. Segundo a OIT 14 milhões de mulheres trabalham como domésticas, nesse momento, elas correm o risco ao não terem a opção de parar de trabalhar (OXFAM, 2020).

Uma citação em especial me motivou a escrever esse texto, trata-se de Éstes (2018, p. 15), ela diz: “A mulher moderna é um borrão de atividade. Ela sofre pressões no sentido de ser tudo para todos”. Eu olho para essa frase e não encontro nada mais propício a esse momento que estamos vivendo da história da humanidade.

Há muito que nós mulheres somos relegadas às lutas e batalhas, cuidar, proteger, prover, aquecer e trazer sombra, são sempre expectativas que giram ao nosso redor e alimenta os que estão a nossa volta no sentido do que podemos dar. A forma predatória com que nós mulheres somos tratadas é típica dos que não nos conhecem, desconhecem nossas essências, fragilidades, grandezas e potenciais também. Esse momento da história que estamos vivendo, é significativo nesse sentido.

É importante observar que esses problemas vindos à superfície nesse momento de pandemia e isolamento sempre estiveram diante de nós. Contudo, foi mais fácil ignorá-los. E é nesse momento que sentimos o quanto faz falta políticas públicas condizentes e coerentes que atendam a população.

O que a crise do coronavírus vem evidenciar é o processo histórico a que é subjugado a mulher, as desigualdades econômicas e de gênero.

Trata-se, portanto, de uma sobrecarga imposta histórica e socialmente às mulheres. Mudanças? Sim, precisamos. Contudo, ela não vem sozinha. Outras nos antecederam e nos mostraram que quando nos unimos, nos fortalecemos. Que mais vozes ecoem para denunciar e penalizar os que se levantam contra os direitos das mulheres.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN

A Pandemia e suas várias dimensões – Uma crise de percepção

Por Zildenice Guedes

Em outros momentos da história já fomos acometidos por crises sanitárias e epidemiológicas. Por exemplo, até a Segunda Guerra Mundial, houve uma grande quantidade de vítimas mortas devido aos micróbios trazidos com a guerra, maiores do que mesmo os ferimentos das batalhas (Diamond, 2017).

Estamos no século XXI e fomos surpreendidos, por um vírus que de uma hora para outra mudou o ritmo das nossas vidas, nos trouxe uma grande insegurança, o medo passou a estar presente em nosso cotidiano, as relações familiares mudaram, no geral tivemos que ficar isolados com as pessoas que outrora só víamos em média, 1 ou 2 vezes ao dia.

E diante disso tudo eu tenho me perguntado, quem seremos nós pós pandemia? Que cicatrizes ela deixará em nós? Como será nosso retorno ao convívio social? Quais ideias nos alimentarão? E o futuro?A proposta desse artigo surge de uma perspectiva socioambiental. E o que significa isso exatamente? Tratar a relação humana com o meio ambiente em uma perspectiva sistêmica em que todos estamos interligados é uma forma de dizer que a pessoa humana interfere e depende da natureza.

Há muitos anos, um autor chamado Fritjof Capra nos apresentou esse conceito sistêmico para entendermos a necessidade de mudar a forma como nos relacionamos com o meio que nos cerca. Trata-se de entender que o todo está interligado, e nós seres humanos somos parte da natureza em uma relação de constante troca e interdependência.

Certamente é um risco afirmar de forma tão categórica que esse momento que estamos vivendo trata-se de uma crise de percepção. Mas, acreditem, a ideia não é simplificar algo por demais complexo. Estamos sim diante de uma crise sanitária, ambiental, ecológica, econômica e, portanto, sistêmica.

A sensação que temos ao olhar para o cenário diante de nós é colapso. Sim, isso mesmo, estamos colapsando em vários aspectos. Temos o sistema de saúde público que sendo fundamental para a sociedade, não tem sido gerido de forma sustentável.

Para que isso fique mais claro, basta apenas que conversemos com os profissionais da saúde e vemos que já havia uma deficiência de recursos em geral e várias debilidades do sistema, e que com a pandemia as demandas estão ficando suprimidas. O que nos leva a crer que em todo caso, teremos sim, um colapso na saúde pós pandemia.

Em relação ao crescimento econômico, temos uma variação média do crescimento do PIB entre 2010 e 2019 em 1,39%, sendo, portanto, a menor taxa das últimas 12 décadas (EXAME, 2020). No mundo do trabalho, já estava havendo em nível de sistema capitalista um reordenamento das relações, contratos e configurações. Sendo associado a isso, elevação do desemprego tecnológico, aumento das jornadas de trabalho e precarização das condições de trabalho.

Estamos assim, em diversas esferas da vida, nesse momento, com a sensação de que há um mundo tal qual conhecíamos ficando para trás, e vindo com isso muitas incertezas, inseguranças, desafios e oportunidades também. Afinal, não saber o que nos espera pode nos dar a possibilidade de fazermos diferente, com mais altruísmo e pensamento sistêmico.

Temos muito sobre o que discorrer, refletir e agir. Com essa crise sanitária, que como vimos, não é apenas sanitária, temos problemas urgentes que se tornaram ainda mais evidentes, tais como, aumento da jornada de trabalho para as mulheres, desigualdade social que é perceptível no acesso à educação, por exemplo, e que nesse momento demanda acesso a recursos tecnológicos da comunicação, produção alimentar sustentável, inovação e tecnologia, e muito mais.

Vamos prosseguir dialogando? No próximo artigo discorreremos sobre o impacto do isolamento para as mulheres diante do aumento da jornada de trabalho e atividades. Estamos rumo a um mundo que precisaremos construir a partir das ruínas que estão ficando logo atrás de nós.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN