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Enquanto o sono não vem (culto à noite)

Boêmio convicto, o jornalista-compositor pernambucano Antônio Maria cunhou uma frase que virou um culto à boa vida noturna carioca, que ele aproveitou intensamente, sobretudo nos anos 50: "A noite é uma criança". 

É verdade. Eu já a embalei muito e a conheço bem. Contei estrelas sob seu teto, tangi-a por aí, sem destino. Com seu consentimento eu bebi todas, bradando aos quatro cantos a minha felicidade.

Para Cazuza, "o banheiro é a igreja de todos os bêbados". À noite, é também o vômito espalhado no chão, o batom na gola da camisa, recanto das mais sórdidas confissões e daquele inescapável último pingo na cueca.

"À noite todos os gatos são pardos." Tenho minhas dúvidas. Muitos cintilam e reluzem, para morrer aos primeiros raios de sol da manhã. Outros têm cores próprias e se renovam ao amanhecer. Têm sete vidas.

Na verdade, a noite tem o poder de revelar pessoas, isso sim. Mas elas não são melhores ou piores por causa da noite. Nem adianta culpar a bebida por sua imagem lasciva declarada, longe da identidade diurna.

A "Persona" (máscara) não cabe em qualquer um. A máscara cai na maquiagem borrada, na moral encardida.

Hemingway disparou: "Paris é uma festa". Tem sido assim há décadas. E a noite?

Temos muito de Paris, do Sena que nos corta à Bastilha que nos prende. A Champs Élysées que parece infinita é como aquela noite que nunca devia acabar, de tão boa.

A "baladeira" me aguarda dadivosa. Tadinha, tão surrada, mas acolhedora. A noite engatinha e o sono não chega. É como meu novo bebê, vivo num imaginário dividido e partilhado, pronto para nascer. Estou à sua espera infinitamente. 

O que seria da humanidade pós-moderna se não fosse Twitter, MSN, Facebook etc.? Sobreviveria, lógico, mas assim mesmo quero ir para Pasárgada. Sem querer ser esnobe, vou logo avisando: lá não faço questão de ser amigo do rei.

Sou velho mesmo. Do tempo que puxava o sono ouvindo a Rádio Mundial, folheava a Playboy às escondidas, com olhar rútilo, jogava conversa fora à calçada para engolir as horas e fazia do sarro o ápice do "amor".

Bom tempo.

Sou do tempo que a madrugada insone, de boemia inocente, terminava no Mercado Central, na esquina de casa, na praça com o sol dando "bom-dia". Feliz pela camisa amarrotada, por sentir outro perfume no corpo ou conformado com a solidão de muitas vozes ininteligíveis, sem que umazinha sequer me acalentasse.

Saudosista? Não. Vivo hoje o melhor dos meus dias terrenos, sem medo de olhar para trás e enxergar minhas próprias pegadas.

O meu tempo não é o da saudade. Fico a falar do que passou, porque passou sem ir embora. É como aquele livro bom, socado entre outros na estante, que a gente sempre consulta numa releitura que se renova.

É, muitas vezes, um volver para rir das próprias desgraças. Passeio por desventuras próximas as de "Geraldo Viramundo", personagem de Fernando Sabino, sempre envolto em situações picarescas e estapafúrdias. Um Dom Quixote sertanejo.

Ah… e se eu fosse poeta? E se tivesse um violão? Não quero nem pensar. A sarjeta seria minha pátria. Bardo solto por aí crente na imortalidade, não estaria aqui, balbuciando essas palavras. A noite teria minha vigília permanente à janela de Rapunzel.

Talvez fosse "um menino passarinho, com vontade de voar", como escreveu Luiz  Vieira. Até pediria que copiassem o próprio Sabino com um etipáfio parecido àquele posto em seu túmulo, para fechar minha história:

"Aqui jaz Carlos Santos, que nasceu homem e morreu menino".

Boa noite. O sono chegou.

São 3h15… zzzz!!! 

Um rosto de mulher no espelho furtivo


Longe de ser bonita, ela é mulher. Trabalhadora, sem dúvidas. De certo, com mãos encaliçadas, dedos com pele escamada, unhas sem textura e opacas. Mas é mulher.

Vaidosa. Porém acuada e tímida. Nem percebi a tonalidade de seus cabelos.

Bumbum? A preferência nacional? Não, também não.

Chamou-me atenção o espelho. O reflexo em seu rosto, o jeito furtivo com que foi sacado do bolso. O olhar apreensivo jogado pro lado, enquanto as madeixas emaranhadas lhe encobriam parte do cenho, compunha aquela cena.

Peça de primeira necessidade na nécessaire da moça fina, na bolsa da belle de jour, na mochila da criança espevitada, o pequeno espelho com ela tinha aura de proibido. Ajudava-a a conspirar contra sua própria condição.

Era um ocultação delicada e cuidadosa, longe da curiosidade alheia.

O espelho redondo, emoldurado a lhe caber na mão semi-côncava, era também uma arma de auto-preservação: do direito ao culto à própria vaidade. Uma forma de se impor como mulher, feminina, um ser vivo.

De se afirmar e afirmar diante dele: "Eu existo!"

Àquela esquina, manhã ainda, no compasso de cores que se intercalavam no semáforo, havia um vaivém de carros, gente apressada. Bicicletas e motos disputavam espaços…

Buzinaço. O coquetel de barulho estava diversificado… vruum! O barulho dos motores mais estressados avisam que o dia está começando para milhares de pessoas.

Para ela, não. Bem antes já estava atalhando o que sobrou de nossas casas, ao pé das calçadas. Fazia da vassoura seu instrumento de  trabalho, em meio a homens fardados como ela.

A bruma de uma madrugada diferente, fria, era o bafo final daquela chuva fininha que teimou em banhar a cidade durante tantas horas. Sentada à esquina, quem ligaria para ela?

A calçada alta lhe daria naturais proeminência e visibilidade. Mas o enxame de gente e veículos passava ao largo, a desdenhando. Quem ligaria para aquele espelho pequeno, escondido em sua mão, tirado à sorrelfa?

Mulher anônima, mais uma, ponta de estoque de uma sociedade de consumo, da ditadura da beleza, ela não podia ser vista ou notada, mesmo parada ali. Era apenas mais uma ou coisa nenhuma.

Seu empenho em não ser flagrada em dedicação à beleza, no culto à feminilidade, era um esforço desnecessário e pueril. Quem liga para uma gari, parada, em outro cruzamento movimentado de uma cidade que fica grande a cada dia, sem perder sua faceta de aldeia?

Da sarjeta sai o que sobrou dessa mesma sociedade, que parece não perceber sua existência, nem desperta para seu gênero. Sexo, menos ainda. É apenas uma gari, que por certo pode se perguntar ousadamente sem medo: "Espelho, espelho meu, existe mulher mais bonita do que eu?"

Antes da resposta, a pressa em devolver a intrigante peça ao esconderijo.

Creio que é um espelho achado entre as sobras do lixo no bairro nobre, agora resgatado para ser reflexo de outra dona. Outra mulher vaidosa, em busca da  perfeição, do elogio que lhe abrisse finalmente um sorriso em meio à labuta.

Em sua simplicidade e pobreza, estaria pronta para ser notada. Vênus ou Afrodite? Não importa. Uma deusa sem nome, metida numa farda azul e branco, constatando que mais um carro passava ao lado sem notá-la.

Vi-a em pedaços pelo espelho. Só. Uma maria-ninguém.

Distanciando-se, não percebi Vênus ou Afrodite no retrovisor embaciado do meu carro, que lentamente a escondeu mais ainda naquela esquina. Ficou para trás. Ela e seu espelho.

Francisco Honório, um homem santo


Todos os homens e mulheres que professam alguma fé cristã têm um ponto em comum: a busca ardorosa da santificação (Igreja Católica) ou salvação (Igreja Evangélica), pautando  suas ações na assemelhação ao Cristo, embora seja uma tendência natural nossa a de abraçar o pecado.  Católico até que sou, cristão nem tanto.

É que alguém para se dizer cristão deve ser igual a Cristo. São Paulo, o apóstolo, já dizia: “Christianus alter Christus” – o cristão é um outro Cristo.

Na minha laica concepção, o homem brasileiro candidato a santificação deve ter dois perfis ideais: um sociológico e outro espiritual. O perfil de natureza sociológica deve ser o do “homem cordial” (cf. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil),  pleno de virtudes morais.

Se a etimologia latina de cordial vem de cordis (coração), o homem cordial é aquele que age movido pelos instintos do coração.

O segundo perfil, de origem espiritual,  é o ideal ascético. Nesse último, uma renúncia aos desejos físicos ou psicológicos, como demonstração da virtude.  Ao longo da minha vida, conheci raríssimas pessoas que reunisse esses dois perfis.

Uma delas, seguramente, foi “Seo” Chico Honório, falecido recentemente, pai do grande advogado Honório de Medeiros e da servidora pública Maria Emília.

Conheci seu Chico Honório há mais de vinte anos, quando entrei no Cursilho de Cristandade, um movimento da Igreja Católica. Na época, “Seo” Chico Honório era o nosso preletor de humanidade, sabedoria, humildade  e intimidade com Deus.

Recatado, de hábitos simples e linguagem moderada, “Seo” Chico ao  cumprimentar uma pessoa transmitia a cordialidade verdadeira (lembram “cordis”?).

Logo depois da minha iniciação no Movimento de Cursilho, “Seo” Chico Honório não pode mais participar, devido a enfermidade da esposa Aldeíza Fernandes.  Sentimos imensamente a sua falta, sua fé irradiante, seu entusiasmo cristão e a sabedoria que só tem quem sabe ser simples.

Compreendiamos porque todos nós sabíamos da sua dedicação extrema à esposa enferma, de seu apego aos filhos e netos, e das limitações de saúde que impediam sua estadia nos retiros.

Passei a vê-lo fisicamente apenas na missa dominical da São Vicente,  embora o seu nome – e o seu exemplo inconteste de amor ao Cristo – fosse lembrado constantemente nos retiros espirituais do Cursilho, especialmente nas histórias narradas por Álber Nóbrega e Antônio Paula. Esses dois conviveram com ele por mais tempo.

Tenho saudades do seu tempo de cursilhista, e maior saudade ainda por não ter convivido com ele por mais tempo.

Um homem entra para a história pelas suas virtudes. Sócrates dizia que a virtude é o fim da atividade humana e se identifica com o bem que convém à sua natureza. Santo Agostinho acresceu: "a virtude é uma boa qualidade da mente, por meio da qual vivemos retamente".

Se assim o é, “Seo” Chico Honório só tinha virtudes. Reconheço nele as virtudes cardeais eleitas por Platão para atingir a perfeição moral: a sabedoria, a fortaleza, a temperança e a justiça.

Qualquer pessoa que o conheceu dará por satisfeitas as exigências sociais para a sua perfeição como homem. Sem dúvidas, os materialistas  teriam-no como um homem íntegro do ponto de vista social. E os espiritualistas, o que diriam? Defendo que, quando se somam as virtudes sociais às virtudes espirituais (teologais), temos os elementos para a santificação de uma pessoa.

As virtudes espirituais (teologais) ditas pela Igreja são: fé, esperança e caridade.

Ora, quem conheceu “Seo” Chico sabe muito bem que ele reunia muito bem o transcendente com o imanente; associava com perfeição as virtudes terrenas com as virtudes do céu.

A santificação do homem consiste em estar unido a Deus na forma devida, e o conceito de santidade aparece como realidade vivida deliberadamente por aquele que, com a riqueza do seu ser e com a espontaneidade de sua vontade livre, se une a Deus entregando-se a Ele com o calor do amor.

São Paulo Apóstolo já dizia que todos nós somos chamados à santidade, "Porquanto, esta é a vontade de Deus, a nossa santificação” (I Ts 4, 3; Ef. 1, 4).   Por isso, brado com convicção e a plenos pulmões: VIVA CHICO HONÓRIO, o nosso Santo mossoroense!

Marcos Araújo é professor e advogado

Tributo a Chiquinho


Meu passado como folião não chega a ser glorioso. É opaco mesmo. Nem passado é. Não passa de um fóssil antropológico. O máximo a que me atrevi foi compor a platéia para ver “Os pimpões”, “Salinistas”, tribo de índios “Penas Prateadas” e outras agremiações de rua em Mossoró.

Os olhos de menino testemunhavam o belo, o rugir de tambores, evoluções circenses e um multicolorido incomum. Mas a timidez parva não permitia sequer os passos recatados do miudinho, uma coreografia quase imperceptível, que em momento algum eleva o sujeito do chão. É como amassar barro.

– Você vai passar o carnaval comigo em Aracati (CE). Você é meu convidado – fuzila Enéas, meu novo-velho amigo de faculdade.

Podia faltar? Seria descortesia e insulto àquela camaradagem. E cá pra nós: eu precisava mudar de ares, oxigenar, chacoalhar o esqueleto ou apenas aliviar o estresse. Decidi-me por aceitar convite. 

Foi lá que conheci Chiquinho.

Discreto, indivíduo de poucas palavras, benquisto por todos e com uma intimidade familiar capaz de lhe garantir um lugar acima de todos, Chiquinho não era qualquer um. Era o “cara”, digamos assim.

Tanto prestígio não o tornava arrogante no meio familiar. Fechadão diante de quem não conhecia, averiguava primeiro com quem tratava, para deixar de olhar de lado e balbuciar algumas palavras.

O infante Heitor, príncipe-herdeiro de Enéas, até parecia conformado em dividir as atenções com Chiquinho, naquela casa sempre agitada, de frenético entra-e-sai de gente.

Na verdade, os dois não pareciam rivais. Só que não se pode afirmar também que Heitor estivesse numa companhia exemplar e ideal à sua formação de garoto-homem.

Testemunhei o Chiquinho mergulhando o bico na cerveja e até mesmo na pinga, com a maior naturalidade. Os olhos reviravam de êxtase. “O forte dele era mesmo a cerveja”, comenta Enéas. “Bebia até se fartar”, esclarece. Ou seja, não tinha limites para o vício e o seu copo estava ali, separado, à mesa.

Por que estou tanto a comentar sobre o Chiquinho, quando o natural seria descrever o burburinho do carnaval popular de Aracati?

Bem, é triste revelar, mas não vou mais esconder: Chiquinho morreu. A notícia quem me dá é o próprio Enéas. “Era como se fosse da família”, admite. Nem precisava acrescentar a observação.  Pude testemunhar isso.

O pouco tempo de convivência com Chiquinho revelou o que seria impossível ignorar, ou seja, a presença dele era imponente. Fitava a todos de cima para baixo, mas com a popularidade de uma vedete do teatro de rebolado. Ops! Peraí.

Deixe-me esclarecer. Ninguém tome o comparativo como insinuação que atente contra a honra e os valores sexuais do finado.

O costume feio dele se prendia às carraspanas. Era cu-de-cana declarado. Só. Não lanço qualquer insinuação menor. Morto merece respeito.

As primeiras averiguações feitas no local onde encontraram seu corpo inerte, em posição de decúbito frontal, revelam que a morte ocorreu ainda na madrugada. Houve luta corporal, um duelo titânico.

O agressor o derrubou de considerável altura, passando a atacá-lo com fúria bárbara. As marcas da crueldade eram visíveis.

Com a experiência de quem foi diarista da vodca Wyborowa e que na decadência etílica esteve movido a “Odete” e conhaque Imperial (argh!), arrisco um comentário: “Chiquinho estava triscado quando morreu. Deve ter facilitado a vida do assassino.”

Enéas retruca. Defende-o com vitalidade. “Ele só tomava umas nos finais de semana”, assegura. Como se convencionou chamar, Chiquinho “bebia socialmente”. Tudo bem. Não contesto a informação e não desejo criar embaraço à biografia de quem se foi. Mantenho discretamente minha desconfiança e pronto.

Inconformado com a morte no quintal de sua casa, Enéas jurou vingança. Seria a reprodução do “olho por olho, dente por dente.” Relaxando, livre da tensão inicial ao relatar o infortúnio, ele fala com ar triunfante que deu cabo do algoz do seu amigo. Não deixou barato.

Colocada estrategicamente no local do crime, uma ratoeira enjaulou o enorme roedor que matara o pacato Chiquinho. O papagaio de cerca de um ano de idade, alegria da casa de Enéas, realmente não merecia fim tão violento. Entretanto, a justiça foi feita.

Minhas condolências à família. Eis meu tributo a Chiquinho.

Don Fructuoso e Padre Sátiro


Agora a saudade é no sentido inverso. Lá, em Salamanca, sentia falta de nosso calorão. Aqui, em Mossoró, dos dias amenos da primavera. Lá, salivava ao lembrar o gosto nordestino do cuscuz e da tapioca.

Aqui, já sinto falta da tortilha de batatas e do presunto ibérico. Lá, minha memória olfativa, vez por outra, me fazia lembrar o cheiro das essências que, invariavelmente, sentimos ao passar próximo ao Mercado Central.

Aqui, sinto imensa falta das caminhadas pelas margens do Rio Tormes e dos passeios pela Plaza Mayor, onde não entrar em um dos seus antiguíssimos bares, para um café, ou um chocolate quente, é praticamente irresistível.

Ao falarmos na Plaza Mayor – onde tudo acontece –, é inevitável não lembrarmos de um ótimo show de Gilberto Gil que ali assistimos, e, principalmente, não recordarmos alguns “cafés especiais”, como, por exemplo,  um proporcionado pelo professor Alfredo Alencart, onde fomos apresentados à figura ímpar do pensador, tradutor e humanista Luis Frayle Delgado. Vocês não imaginam a despretensiosa e descontraída aula que me foi dada.

Aliás, minha dívida com o professor Alencart é altíssima, creiam-me. Ele, ocupadíssimo professor de Direito de Trabalho, além de profundo conhecedor da literatura ibero-americana e luso-brasileira, semanalmente reservava uma hora do seu muito ocupado tempo, para gastar com este humilde mossoroense.

Ainda na área literária, posso enumerar outras inestimáveis amizades conquistadas: Hugo Milhanas, poeta português, gente melhor que dinheiro achado; Fernando Gil, professor de Sociologia da Universidade, poeta maior. Sim, não posso esquecer o amigo Paco Durán: o espanhol que mais conhece música popular brasileira (ele sempre protesta quando digo isso, mas é a pura verdade).

E o que dizer da convivência na própria Faculdade de Direito? Colegas do mundo todo, nclusive, claro, brasileiros. O cearense Nivardo Melo, o paraibano Hugo César, o paulista Gustavo Silveira, o português André Ventura, o mexicano Abelardo González. E os professores?

Alguns de extrema simpatia. Mesmo correndo o risco de eclipsar nomes, cito três: Zulima Sánchez, Pedro Nevado e Rafael Bustos. Os dois primeiros, de Direito Administrativo, e o terceiro, Constitucional. Ela, Zulima, minha atenciosa orientadora… Cada qual com a produção acadêmica mais “espritada do mundo”, como diria meu saudoso pai.

E Don Fructuoso e Padre Sátiro, que dão título a estas mal traçadas, onde entram?

Conto-lhes um “segredo de polichinelo”: nos primeiros dias de Salamanca, frequentando algumas igrejas, nessas visitas de curioso olhar histórico, quase sempre assistíamos à missa dominical. Em quase todas, as homilias eram conservadoras. Boas pregações, admito, porém nesse tom.

Quando fomos à paróquia do bairro em que vivíamos, cuja padroeira é Nossa Senhora da Conceição – para eles, “La Puríssima”–, causou-nos verdadeiro encanto a preleção do pároco, Don Fructuoso Mangas.

Honestamente, nem saberia definir a homilia de Don Fructuoso. Misto de sacro e poético, numa fala sem soberba nem pedantismo. E o mais impressionante é que, em determinados momentos, e temas, revela-se altivo e questionador, como se fora um jovem revolucionário – sem ser panfletário –, chegando mesmo a transmitir “uma ira santa”, para usarmos uma expressão do nosso cancioneiro popular.

Acrescente-se: tudo recheado por um leve e proporcional bom humor.

Notei que um chileno, colega de doutorado, também não perdia uma missa. Em um encontro pelos corredores da Faculdade, comentei que sempre o via aos domingos na “Puríssima”.

Ele disse que a frequentava por conta da homilia do sacerdote e que, quase sempre, ia às lagrimas. Estranhei, pois considerava os sermões de Don Fructuoso mais para alegre do que para triste.

Ele disparou, nocauteando-me: “Não choramos somente ao escutarmos coisas tristes; também emocionamo-nos com a beleza e profundidade das palavras”. Pano rapidíssimo. Convergimos no sentido de achar que aquelas alocuções deveriam ser gravadas, transcritas e divulgadas.

Bem, depois da quarta ou quinta missa, criei coragem e fui à sacristia. Identifiquei-me e disse que gostaria apenas de parabenizá-lo por tão belas homilias, e que, a mim, eram por demais agradáveis. Don Fructuoso riu e devolveu-me em tom de blague: “Agradável de escutar é o seu comentário.”

Rimos juntos. Daí a um café, em nosso apartamento, foi um pulo. Tarde-noite agradabilíssima, com ele a perguntar coisas do Brasil: culinária, música, política, poesia…

Com o passar dos dias, fui chegando à conclusão de que Don Fructuoso tinha muito em comum com nosso estimado padre Sátiro Dantas. Se não, vejamos: Os dois conservam um espírito jovial, apesar de já contarem mais de quatro décadas de sacerdócio. Ambos possuem sólida formação cristã e humanista: Padre Sátiro, educador de mão cheia e atuante comunicador, ainda hoje na labuta diária de seu programa de rádio; Don Fructuoso, também educador e moderno comunicador, mantendo, inclusive, um site intitulado “Al rostro de Dios”.

Padre Sátiro sempre a nos trazer Santo Agostinho, traduzindo-nos a profundeza do pensamento desse doutor da igreja; Don Fructuoso, a nos mostrar como os preceitos de São Paulo Apóstolo são amplos e atuais.

Perguntado em uma entrevista sobre um “personagem” com que ele, Don Fructuoso, tinha identificação, a resposta dada foi mais ou menos assim: “Identifico-me com um personagem que desconhecemos o nome, mais admiramos muito o feito… o moço que, anonimamente, doou os cinco pães e os dois peixes, para que o milagre acontecesse”.

Cá de minha canhestra visão, entendo que padre Sátiro e Don Fructuoso doam, diariamente, pães e peixes, multiplicados em forma de ensinamentos.

David de Medeiros Leite é professor da Uern

O sertão em Salamanca


O escritor e intelectual David de Medeiros Leite retirou de Mossoró para Salamanca. Não foi um retirante da seca, das nossas migrações internas. Foi uma viagem de aprimoramento catedrático. E David carrega uma característica rara que é não se envergonhar de sua origem matuta. Ele leva o sertão nordestino para onde vai.

E foi com essa bagagem que chegou à terra e universidade de Unamuno. E lá, como cilada do destino, encontra um ilustre professor e poeta já renomado, no solo da mesma universidade que imortalizou o grande pensador espanhol.

Alfredo Pérez Alencart é o nome do poeta referido. E como a natureza procura os seus, no dito dos sertanejos, Alencart e David se procuraram. E se acharam.

Alencart informa a David seu vínculo patronímico com o sertão do Nordeste. Seu avô era Alencar do Crato. Migrara antes do nascimento do poeta para a Amazônia peruana, onde, no inicio dos anos Sessenta, veio Alencart a nascer em Puerto Maldonado, no Peru.

Com essa e outras informações David levou ao conhecimento do ilustre professor e poeta a minha vida e a existência dos meus livros.

Alencart é um poeta que adora ler ficção. Pois não é que gostou dos meus livros?! Tanto que publicou várias resenhas sobre livros meus em jornais e folhas culturais da Espanha.

Feita a ponte por David, o poeta de Salamanca passou a ter contato comigo e com Raíssa.

Dessa ponte eu fui o maior beneficiário. Tanto que o poeta escreveu uma série de poemas não apenas dedicados, mas tirados da minha vida e escritos. Que ele denominou “Aqui Hago Justícia”. Escrito em espanhol, o livro foi traduzido pelo professor português António Salvado, nome conhecido e respeitado na vida universitária de Lisboa e Cidade do Porto.

Alfredo P. Alencart já publicou vários livros. E alguns deles em várias línguas na mesma edição. Seus versos já foram traduzidos para mais de quinze idiomas. Dentre eles; o português, inglês, alemão, russo, búlgaro, vietnamita, japonês, coreano, indonésio, italiano, hebraico e árabe.

E eu que nunca fui traduzido nem para o paulistês, caí na graça e gosto do grande vate de Salamanca.

Agora mesmo recebo dele e de David a informação de que haverá um lançamento desse livro, a mim dedicado, no Centro de Estudos Brasileiros, lá na Espanha.

Pergunto meu caro leitor: Não seria hipocrisia minha silenciar sobre esse evento? O livro já foi divulgado pelos blogs de Carlos Santos e de Sérgio Vilar e por Maria Betânia Monteiro na Tribuna do Norte. Foi onde eu vi.

Escritor pequeno de uma província menor saio eu mesmo sacolejando minha matraca para anunciar ao sossego do silêncio que também tenho uma barraca de missanga na dobrada de alguma esquina. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal (Natal)

“Seu” Chico, nosso honorável ministro

Por favor, não me pergunte. Não, não sei maiores detalhes de sua vida mais remota.

As informações que estão fixadas em minha memória têm outro formato; fluem da minha infância até aqui, sem o detalhismo exigido de um biógrafo. Nesse interregno, ele sempre foi "seu" Chico.

Chico Honório, assim os meus velhos o tratavam solenemente. Comigo, sempre a cortesia. Para ele continuei "Carlinhos", mesmo que há muito tenha dobrado o Cabo da Boa Esperança da vida. Crescido.

Nunca efetivamente deixei de ser isso, quase um "Peter Pan", diminutivo que não me apequenava. Mantinha-me menino diante de seus olhos acolhedores, mão empalmada e lirial, sempre pronta pro aceno fraterno.

A cabeça levemente inclinada, o sorriso perene. Imagens que ficam.

Pros vizinhos do entorno da Capela de São Vicente, era um senhor honorável. Combinação perfeita com a professora Aldeíza Fernandes – mulher e diretora da Escola "13 de Junho", ali tão próxima, vértice entre nossas casas que pareciam coladas e contíguas.

Era o homem religioso, impregnado de fé. Feito ministro da eucaristia, tinha um mandato vitalício, incomum, proclamado pelo pároco de nossa capela, padre Sàtiro Dantas. Decisão autocrática, democraticamente aceita.

Digno ministro em nossa república sentimental. Pra toda a vida. Agora, além dela.

"Não somos matéria e espírito: somos pessoa", proclamou Sátiro na missa de corpo presente do "seu" Chico.

– Foi o homem mais decente que conheci – sussurou ao meu lado o bancário Wagner Azevedo.

Bem depois, um circunstante resmungou indagação desnecessária: "Será que ele tinha inimigos?" O empresário Manoel Barreto, também da República da São Vicente, riu em compasso antes de dissipar dúvidas: "Impossível".

Santo? Não, santo não. Humano, carregado de simplicidade, desprovido de apegos puerís. Amante da viola, do repente, desde a juventude mais primária. Homem de família e dos amigos.

Depois da perda de Aldeíza, em maio deste 2010, a fragilidade o levou a uma rendição continuada e incondicional. Parou de respirar, porque de algum modo deixara de se inspirar.

Pai de Honório de Medeiros, o "Medeirinhos", de Maria Emília, avô de Bárbara e Diogo, eis "seu" Chico.

É o mesmo que não se embrutecia até nos momentos mais asfixiantes. Aplacava a intolerância sendo apenas "seu" Chico.

Caminhando a passos lentos, perto da São Vicente, ele foi abordado por um assaltante muito jovem. Nervoso, rosnando que queria dinheiro, o biltre não tirou a vítima da placidez: "Eu só tenho esse relógio".

Apesar de insatisfeito, forçou a subtração do objeto do seu braço. Antes de retirar-se, porém, ouviu a reação de "seu" Chico:

– Vá com Deus, meu filho. Tenha cuidado.

Minutos depois, o mesmo assaltante voltou a surpreendê-lo. Devolveu-lhe o relógio e rapidamente retomou a fuga, com as mãos abanando, mas coração alcançado pela compaixão.

Parece história da carochinha? Não, é de nosso universo particular: a "Terra do Nunca", em que custamos a crescer, porque não nos faltam personagens verdadeiros preservando sonhos.

Natal: ver com os olhos do coração


Somos obrigados a viver num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel.

Ele é a elaboração comercial de São Nicolau -Santa Claus- cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo.

A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal.

Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoa se movimentam em trenós puxados por renas.

Papai Noel existe? Esta foi a pergunta que Virgínia, menina de 8 anos, fez a seu pai. Este lhe respondeu: "Escreva ao editor do jornal local! Se ele disser que existe, então ele existe de fato". Foi o que ela fez. Recebeu esta breve e bela resposta:

Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida.

Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor.

Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração.

É o que mais nos falta hoje: a capacidade de resgatar a imaginação criadora para projetar melhores mundos e ver com o coração. Se isso existisse, não haveria tanta violência, nem crianças abandonas nem o sofrimento da Mãe Terra devastada.

Para os cristãos vale a figura do menino Jesus que tirita sobre as palhinhas sendo aquecido pelo bafo do boi e do jumento. Disseram-me que ele misteriosamente através de um dos anjos que cantaram nos campos de Belém enviou a todas as crianças do mundo uma cartãozinho de Natal no qual dizia:

Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:

Se vocês olhando o presépio e me virem aí, sabendo pelo coração que sou o Deus-criança que não veio para julgar, mas para estar, alegre, com todos vocês,

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente no mais pobrezinhos, a minha presença neles,

Se vocês conseguirem fazer renascer a criança escondida no seus pais e nos adultos para que surja nelas o amor a ternura,

Se vocês ao olharem para o presépio perceberem que estou quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e desejarem que ela mude de fato,

Se vocês ao verem a vaca, o boi, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante pensarem que o universo inteiro recebe meu amor e minha luz e que todos, estrelas, pedras, árvores, animais e humanos formamos a grande Casa de Deus,

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma estrela sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos,

Então saibam que eu estou chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia que só Deus sabe quando estaremos todos juntos na Casa de nosso Pai e de nossa Mãe de bondade para vivermos bem felizes para sempre.

Belém, 25 de dezembro do ano 1.

Assinado: Menino Jesus

[Autor de Sol da Esperança: Natal, histórias,poesias, símbolos, Mar de Ideias, RJ 2007].

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor

Para dizer que lhe sou grato (Feliz Natal)


Hora de agradecer.

Ser grato, dizem, é uma obrigação. Bem, penso diferente.

Ser grato é ser humano. Fazer-se gente e não apenas mero exemplar da espécie humana.

O gesto de agradecer deveria ser inato, mas nem assim automático, desprovido de sentimento.

Agradeço não apenas por ser humano e por ser Natal. É uma manifestação que vai além da formalidade. Faz-me bem.

Hora de agradecer a quem lembrou com o presente, com a mensagem escrita, com o aceno positivo, com a voz afetuosa, com o aperto de mão firme, com o abraço caloroso, com o correio eletrônico ou com o simples pensamento positivo e à distância de mim.

Hora de dizer obrigado por suportar com serenidade a leviandade, a perseguição odiosa, a injustiça, o recalque, a inveja e o vômito dos ressentidos que tentaram macular a mim e até meus filhos neste 2010.

Resisti.

Saio mais forte. Mais inteiro. Melhor, porque nem mágoa esses vermículos provocam em mim, de tão insigficantes que o são.

O caso é de compaixão com silêncio e indiferença.

O mal, diz um antigo provérbio popular, "por si só se destroi". Que assim seja.

Se é para agradecer, então obrigado por tudo. Mesmo que a palavra "obrigado", em sua essência semântica, seja polissêmica e até paradoxal.

Ela exprime algo compulsório, imposto, mas é também tênue para representar a gratidão.

Sou grato.

Muito obrigado.

Feliz Natal!!!

O retrato na parede

Conheci pouco a dentista Gagaça Lopes. De sua família, a amizade é com outros irmãos.

Mas parece que sua imagem estampada, em mural do "Sêbado", afirma em contrário. Todos, sem a exceção, a conhecíamos muito, é o que revela aquele retrato na parede. 

O sorriso toma conta do lugar.

A emoção, também. É lembrança recorrente, não apenas pela grande foto que reluz, mas pela presença iluminada e incessante.

Nesse sábado (11), o Sêbado lembrou o primeiro ano de morte de Gagaça, ocorrida no dia 10 de dezembro de 2009. Marcos Almeida, seu colega dentista, anfitrião desse lugar que transpira cultura e compadrio, outra vez se emocionou.

É assim, toda vez que ele rememora seu nome.

Foi assim, novamente, nesse sábado. Outro sábado diferente por ser igual a tantos outros que passaram, mas com uma pitada de emoção a mais.

Marcos pediu uma pausa naquele ambiente babélico, de mil vozes. Insistiu.: "É… é… é… Eu peço um minuto de silêncio".

Quase ninguém o ouviu. Quase ninguém o atendeu. Seria impossível no burburinho da prosa solta, música ao vivo, poesia, literatura e gargalhadas de todos nós.

– Vamos fazer uma oração por Gagaça – propôs o mesmo Marcos.

Aos poucos fez-se silêncio. Uns, compungidos; outros com olhar longe. Mãos entrelaçadas numa corrente. Coral em oratório compenetrado. A  boemia vespertina convertida numa fé única.

Aplausos ao final.

Na parede, Gagaça sorridente. Não apenas com aquele sorriso "Colgate" que a caracterizava, mas por ser ainda a dentista humanista, de alma boa.

Um pouco mais abaixo, outra foto marcante: José Ferreira, o "Ferreira da Gazeta", músico e cantor saltimbanco, num click de Edilberto Barros.

Seu aceno, na última passagem pelo Sêbado, é quase benção.  Deixou seu adeus, sem também sair de nosso convívio.

Foto (Arquivo do Blog do Carlos Santos)

À memória e à saudade do que não vivi


Quem o conhece sabe muito bem: o professor Anchieta Alves, um lorde no trato interpessoal, tem memória privilegiada. Quase nada escapa aos seus registros, catalogados ao longo de sua vida.

Inexiste qualquer anotação rabiscada em papel ou em pastas virtuais no computador, servindo ao seu norteamento. Está tudo mesmo na cachola.

Mossoró é seu universo prioritário.

Da genealogia à política,  há informação das mais notórias, como também o pueril, apenas para ilustrar o bate-papo. Ajuda-o a gargalhar, enquanto puxa a gola da camisa pra cima, com os dedos polegares e indicadores servindo de pinças.

Sobre o advogado Paulo Fernandes e o professor Walter Fonseca, eu tinha a ligeira impressão que esse dom marcante, ao perfil de Anchieta, era também comum a ambos. É.

Sobre os três, em verdade, meu testemunho encantado e abobalhado,  como mero expectador. O interlocutor quase mudo, mas de ouvido atento, que passeia o olhar vivo e os tímpanos afinados ao detalhismo de uma prosa em fim de tarde. De céu nublado.

Ao abrigo de uma pequena árvore, na célebre calçada de Anchieta e seu "Senado" democrático, hordeiro, há o temor da chuva. Confesso: é quase sacrilégio  para nós, exorcizá-la, como nordestinos e filhos do semi-árido. Mas o faço.

Nesse vaivém, no leva-e-traz de cadeiras, a conversa desfia histórias de personagens da vida cotidiana de Mossoró, vistas pelos infantes Anchieta, Walter e Paulo em época remota. 

Reconstroem o velho centro da cidade. Reconstituem-no diante de mim; vejo-o como um croqui à mão, agora uma urbe cenográfica, pois quase tudo já fora desfeito.

Seus comerciantes, endereços mercantís, casarões chiques, homens elegantes, as mulheres finas; loucos e putas. Trejeitos e  costumes (alguns nada republicanos) de personagens que circulam em minha mente, como se estivessem diante de mim.

Ah, um gravador! Descabido ao repórter confiar apenas em sua memória, reconhecidamente falha e tacanha.

Pura nostalgia? Não, não é bem assim.

Eles abrem mão da conversa sobre o contemporâneo, do ramerrame da politica e dos muitos saltimbancos de agora, para se encherem de saudade. Sinto-me, também, passeando por essa Mossoró bucólica, provinciana.

Sinto saudade do que não vivi.

Uma paixão moldada nos botões – Fluminense campeão


Futebol, quem há de entender nossa paixão? Talvez ela esteja plasmada na infância, com suas simbologias, jogos épicos, ídolos com chuteiras.

A minha paixão, tricolor, chegou antes que as transmissões pelo rádio me cativassem. Veio com um time de botão, branco. Sobre ele, impresso, a foto de cada jogador do time do Fluminense de 70.

O "Canal 100" no cinema e a Rádio Nacional reforçaram minha afeição.

Brinquei com Galhardo, Marco Antonio, Samarone, Flávio, Mickey, Lula. Vi Félix fazer milagre no "Estrelão", campo em que palhetas davam vida aos meus herois, manuseadas por mãos adestradas e olhos encantados.

A TV, revista "Placar" e os jornais foram tornando irreversível a identidade.

Nas peladas, sempre divorciado da bola, fui um pouco cada um dos meus idolos. Cresci com dores e amores.

Por isso, tricolor de coração.

Tricolor campeão.

P. S – Agora, com licença, mas o tricolor-blogueiro concede-se merecida folga para comemoração.

Beatlemania, febre de minha juventude

Quando assisti o filme “Febre de Juventude”, uma produção do mago da Sétima Arte Steven Spilberg, em meados dos anos 80 do Século passado, sofri um choque. A Beatlemania estava distante, mas ali começava a minha febre beatlemaníaca.

Algo difícil de explicar.

O poder da música dos Beatles tomou conta do meu corpo, da minha mente, do meu coração. A minha primeira providência foi comprar um LP. Fui na Disco Fitas e vi o Lei it Be. Não comprei. Como não conhecia o trabalho da banda, fiquei reticente.

Na época fiz o certo.

Para minha sorte, a rede Pague Menos de Supermercados tinha uma seção que vendia LPs e lá estava o 20 Greatest Hits. Enchi os olhos. Enfim, tinha comprado o que na época para mim era o Santo Graal.

A coletânea dos Beatles estava perfeita, com She Loves You, I Want to Hold Your Hand, Help, Yesterday, Lei it Be, We Can Work it Out e outras de igual quilate.

Começava a minha saga e a minha sede em comprar mais LPs. Cheguei a possuir a coleção e a doei a um amigo após ter chegado a era do CD. Um erro de minha parte, diga-se de  passagem.

As lembranças são válidas para explicar por que um mossoroense sai de sua terra natal para ir a São Paulo assistir a um show. Oportunidade única de ver um ídolo.

Por mim estariam lá, também, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr. Impossível. Tudo bem.

Mas Paul McCartney estava lá e simbolizava todo o meu amor pela música e pelos Fab Four.

Simpático, Paul fala em português para uma platéia de 64 mil pessoas, todas ansiosas, inebriadas, encantadas… Pessoas de todo o país se largaram para São Paulo para ver um verdadeiro espetáculo, um verdadeiro show. Não se decepcionaram.

O que mais me chamou a atenção foi ver jovens não acreditando no que estavam vendo, no que estavam ouvindo. Lá no palco, um senhor de 68 anos demonstrava vitalidade e intimidade com os instrumentos que tocava – sem falar na excelente banda que o acompanha.

Vi um garoto de seus 20 anos – se isso tivesse – boquiaberto com a execução de Helter Skelter. Sensacional, verdadeiramente.

O show de Paul McCartney é superlativo como a cidade que o acolheu, São Paulo.

No final das contas, estou muito feliz por ter assistindo, ao vivo, uma lenda do rock, um ex-beatle, um de meus ídolos musicais. O show de Paul vai ficar na minha memória assim como lá está o dia em que descobri o Beatles.

Espero que essa febre, essa febre que começou na minha juventude, não se acabe nunca.

Emerson Linhares – Jornalista e diretor de programação da Rádio Difusora de Mossoró

A primeira-dama de Natal


"As mulheres de Maria Boa (famoso prostíbulo de Natal) tem uma predileção pelo grego, em detrimento do latim. Usam a palavra "gala", e não esperma. Gala é leite em grego."
(
Luís da Câmara Cascudo)

Natal, década de 40 – A cidade fervilhava de militares americanos e brasileiros. Aviões, hidroaviões, Catalinas e Jeeps patrulhavam a vida dos natalenses.

Instalava-se na cidade a paraibana de Campina Grande, Maria Oliveira Barros (24/06/1920 – 22/07/1997). Começava neste ínterim a história da mais conhecida casa de tolerância do estado (do país ou do mundo?).

Entre as movimentações na Ribeira, nas pedidas de Cuba Libre no saguão do Grande Hotel, nas notícias pelas Bocas de Ferro, na Marmita, em Getúlio e em Roosevelt e na nova geração de meio americanos e meio brasileiros, lá estava Maria Barros enaltecendo-se na Cidade do Natal como a proprietária do melhor (ou maior) cabaré.

Tornou-se conhecida como Maria Boa. Mesmo com pouco estudo ela despertou o gosto por música, cinema e leitura. O seu "estabelecimento" era o refúgio aos homens da cidade, com residência fixa ou, simplesmente, por passagem por Natal.

Jovens, militares e figurões acolhiam-se envoltos as carnes mornas das meninas de Maria Boa. Muitas mães de família tiveram que amargar, em silêncio, a presença de Maria Boa no imaginário de seus maridos em uma época de evidente repressão sexual. Vários fatos envolveram a personagem.

O episódios mais comentado foi a pintura realizada pelos militares em um avião B-25. Um dos mais famosos aviões da 2a Guerra Mundial, os B-25 eram identificadas com cores características de cada Base Aérea.

Os anéis de velocidade das máquinas voadoras da Base Aérea de Salvador eram pintados com a cor verde. Os aviões de Recife, com a cor vermelha, e os de Fortaleza, com a cor azul. Para a Base de Natal foi convencionada a cor amarela.

Os responsáveis pela manutenção dos aviões em Natal imaginaram também que deviam ser pintados no nariz do avião, ao lado esquerdo da fuselagem junto ao número de matricula, desenhos artísticos de mulheres em trajes de praia.

Autorizada pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo, a idéia foi colocada em prática. Pouco tempo depois, os B-25 de Natal surgiram na pista com caricaturas femininas e alguns até com nomes de mulheres. Alguns militares da Base escolheram o B-25 (5079), cujo desenho se aproximava mais da imagem de Maria Barros.

Outras aeronaves também receberam nomes como "Amigo da Onça" e "Nega Maluca".

Quem custou a acreditar neste fato foi a própria Maria. Até que alguns tenentes decidiram levá-la até à linha de estacionamento dos B-25 logo após o jantar para não despertar a atenção dos curiosos. Ela constatou o fato.

As lágrimas verteram de seus olhos quando viu à sua frente, pintada ao lado do número 5079, a inscrição "Maria Boa".

O mito "Maria Boa" rendeu trabalhos acadêmicos como o da Sra. Maria de Fátima de Souza, intitulado: "A época áurea de Maria Boa (Natal-RN 1999)".

O trabalho aborda o "fenômeno da prostituição infanto/juvenil, suas conseqüências e causas no desenvolvimento físico e psicossocial de crianças e adolescentes(…). Com o aprofundamento dos estudos percebemos o importante papel dos bordéis na prostituição, bem como o fechamento dos mesmos(…).

Chegamos então ao cabaré de Maria Boa, já fechado. Tivemos, assim, a oportunidade de conhecer um pouco da saga da Sra. Maria de Oliveira Barros, uma profissional do sexo, com grande importância na história da prostituição de adultos, ou ainda, tradicional; das histórias contadas a seu respeito chamou-nos atenção para sua representação social, seu "mito" e sua ligação com o imaginário masculino.

Com isso, passamos a averiguar mais profundamente uma participação na sociedade da época e buscamos reconstruir parte de sua história enquanto meretriz, cafetina, e proprietária da mais famosa casa de prostituição que o RN já conheceu."

Em 26 de março de 2003 o cantor Valdick Soriano, quando entrevistado por Everaldo Lopes, registrou que quando esteve em Natal, pela primeira vez, cantou até para as meninas de "Maria Boa".

Hoje bebe-se Maria Boa em alguns bares de Natal. Uma mistura de creme de cassis, vinho branco ou champanhe embriaga as lembranças da maior cafetina da cidade. O Professor Assistente do Departamento de Letras Márcio de Lima Dantas publicou e 28 de abril de 2002 o texto "Retratos de silêncio de Maria Boa".

"(…)Para além da atitude ética de proteger sua família, o que faz parecer um jogo com a hipocrisia da sociedade, penso que, na atitude de se manter reservada, se inscreve um outro aspecto digno de ser ressaltado. Falo do mito que entorna a personagem Maria Boa, de certa maneira, criado e ritualizado por ela mesma, dimensão de fantasia para além do empírico vivenciado. (…).

(…) Astuciosamente se fez conhecer por "Maria", o antropônimo mais comum no universo feminino, genérico e pouco dado a divagações semióticas. Ironicamente é o nome da mãe de Jesus… Quem não tinha conhecimento no Estado de uma proprietária de um requintado lupanar, e que se chamava Maria, a Boa. O mito, da constituição do éter, era aspirado por todos, preenchendo necessidades, ocupando lugares no espírito, imprimindo fantasias nos adolescentes, despertando em jovens mulheres às aventuras da carne, engendrando adultérios imaginários. Integrava, assim, o patrimônio individual e coletivo. (…)"

Eliade Pimentel, no artigo "E o carnaval ficou na memória" destaca a presença de Maria Barros nos carnavais de Natal: "Lá pela década de 50, os desfiles passaram a acontecer na avenida Deodoro da Fonseca. Maria Boa desfilava com Antônio Farache em carros conversíveis."

O Jornalista Agnelo Alves quando escreveu o artigo "A Natal que governei e o 3º Milênio" citou o cabaré de Maria Boa como ponto de referencia geográfica para informar sobre as suas obras quando prefeito de Natal.

"(…) Desobstruir para crescer. Alargar para trafegar. Conversei com os arquitetos João Maurício Miranda e Daniel Holanda. Como fazer? Lancei o desafio. Sem a contra-partida de nenhum pagamento, os dois me apresentaram o esboço da solução, surgindo daí o primeiro Plano Viário de Natal com a primeira estação metropolitana da cidade.  Asfaltar a Hermes da Fonseca até o contorno com a Praça Aristófanes Fernandes, seguindo daí em linha reta até a Duque de Caxias. Ponto um. Asfaltar a Duque de Caxias, subindo pela Junqueira Aires, via Praça das Mães, pegando a lateral por trás do Tribunal de Justiça (hoje OAB) até a Praça André de Albuquerque, prosseguindo pela Praça das Laranjeiras, Padre Pinto, sobrando em Maria Boa para sair na lateral do cemitério, já no Alecrim, ou numa primeira etapa prosseguir pela Padre Pinto até o Baldo e aí tomar o rumo do Alecrim.(…)"

Maria Barros é história.

Mesmo sendo paraibana é a Primeira Dama (ou anti-Dama) de Natal. Impera nas lembranças dos seus contemporâneos e se faz presentes nos prostíbulos que ainda resistem nas periferias da cidade ou travestidos de casas de "drinks" nos bairros mais nobres.

Maria Barros é citada no filme For All – O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado em 1997, com os prêmios de melhor filme brasileiro, melhor filme do júri popular, melhor roteiro, melhor direção de arte e melhor trilha sonora de filme brasileiro), de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz.

O filme retrata a cidade do Natal em 1943 quando a base americana de Parnamirim Field, a maior fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.

Para a população local a guerra possuiu vários significados. A chegada dos militares americanos alimentou fantasias de progresso material, romance e, também o fascínio pelo cinema de Hollywood.

Em meio aos constantes blecautes do treinamento antibombardeio, dos famosos bailes da base aos domingos, dos cigarros americanos, da Coca-Cola e do vestuário estavam os sonhos natalenses. Sem questionamentos, "Maria Boa" foi uma das principais atrizes no elenco desse belicoso teatro.

A Primeira Dama Maria Boa…

José Correia Torres Neto – Do Blog Alma do beco

Prosa da terra prometida

Capiau, apegado ao meu chão, desse lugar não quero sair. Ir embora pra quê?

Tenho pedacinho de terra prometida em Santana, pertinho do rio, caminho de Upanema. Fica a cerca de 14km de Mossoró.

Em se plantando, tudo dá.

A casinha não existe. Mas já é sonho. Pros dias que virão bem adiante, é meu lugar pra um tempo outonal.

Lugar de meus amigos, netos. Filhos, sempre eles. Rancho para a prosa sem fim. Da rede, batizada de "baladeira", sempre posta no alpendre acolhedor.

Endereço da mulher amada.

Dos meus livros, do computador sempre ligado.

Telefones celulares? Melhor não. Combinemos: que fiquem desligados na maior parte do dia.

Radinho sobre a geladeira, pode. Deve. Vai competir logo cedo com o galo em seu bom-dia madrugador. TV? Quase sempre desligada, mas a postos para o Fluminense jogar.


Em minha casinha, a vida não tem pressa. O sol pode demorar a sair. A chuva será bem vinda e a noite é sempre uma criança.

Passaredo pode revoar em bando, saudando-nos a cada amanhecer. Sapos coaxam e o bichano ronrona aos meus pés, sonhando com a gatinha fornida.

Cachoros? "Plutão" e "Àtila" perdi-os há vários anos. Reluto em conviver com outros, em face da morte ainda não superada. Eram guardiões e amigos. Que seja um pastor alemão: "Argos", o cão fiel de Ulisses na "Odisseia" de Homero.

 
Daqui sinto o aroma do cafezinho saindo do fogão à lenha. Da tapioca umectada em manteiga; dos ovos mexidos e o cuscuz que cai no prato, ainda formando vapor.

A cadeira, lá fora, estática e sem vida, me espera pros primeiros balanços do dia. A água, cristalina, desce da quartinha para matar a sede.

– Acorda, homem! Vamos botar a prosa em dia – provoca a primeira visita de hoje, já "invadindo" a sala, como os raios do sol matinal, que cruzaram a janela um pouquinho antes.

Com licença. Agora vou assuntar as novidades.

Sobre a solidão


A solidão me faz conhecer as coisas que me completam. A solidão me faz esbarrar em mim. De repetente, eu começo a notar que eu e a música, se tivermos um livro, uma vodka e um pacote de biscoito passatempo, nos bastamos.

E começo a constatar que esta solidão pode acontecer numa noite de sexta-feira ou numa tarde de domingo sem diferenciar que dia é dia de que.

Estou doente. E observo melhor tal constatação quando estou sozinha. É quando estou sozinha que sou desleixo. É quando estou sozinha que me deixo. Que deixo o perfume destampado e a toalha molhada em cima da cama. Que não dou descarga no sanitário, nem dobro os lençóis.

Ando nas livrarias, ando, ando, ando, como se aquelas estantes pudessem conversar comigo e o sentido real é esse mesmo, de que cada livro daquele me conte sua história.

Outro dia, outra tarde de sábado vazia, depois da aula, das enfadonhas aulas de comunicação, não, não, acho que nesse sábado em especial a aula nem foi tão enfadonha assim, teve uma discussão sobre crise em grandes empresas e foi, foi legal.

Mas eu saí depois da aula sem rumo, como sempre sem rumo são os finais das minhas tardes e o inicio das noites. Saí. Sozinha. Não preciso de nada além de música, livro, vodka e um pacote de passatempo.

Tinha o livro na bolsa, a música no Ipod, a vodka e o biscoito no bar da esquina. Caminhei.

A agonia das livrarias nas tardes de sábado me afastam. Sentei no café. Alguém tinha esquecido um livro na cadeira. Gostei do título. Da capa eroticamente sugestiva para uma noite de sábado.

Antes que eu esqueça, o título: Cerimônia da Sedução. O autor? Cassie Ryan. Não sei se Americano ou Europeu, sei que eu, nunca tinha ouvido falar. Não é um romance de grande primor, não é um livro que tenha grandes citações ou que nos deixe com a sensação de que “o cara que escreve coisas assim é genial”, mas tem uma frase. Aliás, tem um diálogo genioso. Que segue assim:

— É um homem teimoso, dominante, insofrível, e chia os dentes enquanto dorme até o ponto de que muitas noites gostaria de matá-lo. — Sorriu e seus olhos brilharam (…) — Mas também é meu melhor amigo, e o quero com todo meu ser. Além disso, perdoa-me meus costumes mais desagradáveis e, apesar deles, quer-me. — encolheu os ombros e continuou a falar.

É abstratamente concreto.

Larissa Gabrielle – É jornalista e gerente de marketing (clique AQUI e conheça seu Blog)

Dois escritores no moquiço


Olha só quanto privilégio o meu: recebi há pouco em meu moquiço, nos arrabaldes de Mossoró, os escritores David Leite e Francisco Rodrigues.

Visitas raras, que se diga.

O comum por aqui é a presença dos meus amigos oficiais de justiça, sempre muito polidos, com intimação ou citação de processos movidos pela patota.

Com David e "Chico de Neco Carteiro" a prosa é rápida.

Nem ofereço cadeira; café não há. No máximo disponibilizaria água potável, extraída de minha vetusta geladeira, carinhosamente apelidada de "Chafariz": só tem água.

Assinalo, ainda, que por pouco não saio a recebê-los em traje sumário, quase Adão, nesse meu físico apolíneo de canário belga.

Chico é amigo das antigas; David compõe a infantaria da  "República da São Vicente", universo telúrico de nossa infância.

Os dois, cá, presenteiam-me com "Caminhos de recordações", o terceiro livro de Chico.

Suas crônicas, com linguagem coloquial, dão lirismo a cada pedaço de Areia Branca, Mossoró ou terras de além-mar. São doces, acima de tudo.

Obrigado.

Um tal casal desnudo


Acordei com seu cheiro. Estou com seu gosto na boca.

Sensação de que dormes, ainda, ao meu lado: corpo desnudo. Inerte. Sou  feliz, presumo confiante.

Desejei acordá-la. Não. Melhor não.

O sublime silêncio, agora, é outra forma de prazer. É o lado "B" de nossos gritos, gemidos e sussurros rodriguianos em comunhão com a placidez lírica de Mário Quintana.

A respiração lenta atrai-me. Comove-me. Petrifica-me novamente. Mesmo assim, contenho-me.

Sou bicho em estado contemplativo. Sou companhia ausente, virtual até. Mesmo assim estou aqui, paradoxalmente próximo.

Confesso-lhe e, que não me ouças: tenho a sensação de onipresença. Onipotência também.

Sobre o criado-mudo um copo guarda pouca água. Não é-nos mais útil. É  matéria subalterna, nesse cenário de suposta desordem. Tudo está em seu lugar.

Nossos corpos, líquidos, agora frios e paralisados, provam que somos animais ardentes. Em erupção, cuspindo e jorrando magma.

O lençol amarrotado forma sulcos e vincos, trilhas que me levam ao seu encontro. Os travesseiros, soltos, são nossas barricadas. Protegem-nos do mundo lá embaixo, onde chinelos e roupas espalhadas formam um teatro de guerra napoleônico. O "Guerra e Paz" de Tolstoi.

Batalha sem vencidos ou vencedores. Somos sobreviventes. Que bom!

Meu olfato de perdigueiro campesino sente tudo no ar. Levita-me. Entretanto a física é inquestionável: "Tudo que sobe, desce". 

Desculpaê, véi! – Exumo sua frase provocativa, solta em nossa madrugada, desdenhando meu poeta gaúcho. "Quintana não é velho, não", retorqui.

Apesar da afronta, aceitei o reparo.  

Gostamos desse gaúcho imortal. Gaúcho de Alegrete, tchê! Nasceu lá. Só poderia ser Alegrete: "Pequeno vaso para plantas e flores", informa o Aurélio. 

Guilherme Arantes reconcilia-nos. "O tal casal", de Vanessa da Matta, tem participação especial. "É a minha cara?" Pergunto. Pode ser. " pra lá!", desconverso.

No fundo, continuo vivendo a metáfora do mineiro chileno: prestes a ser "salvo", alimento ansiedade, não o descontrole. Sei que chego já à superfície da minha vida.

Preciso ir.

Há tempo ainda de ver minha caixa de mensagens no celular, largado ao chão por tantas horas ensurdecedoras ou não. O netbook continua ligado. A tela é minha natureza morta, inanimada. Deixo-o lá.

Torpedo: "Abuso. Por que você não aparece? Saudades."

Teclo furtivamente e respondo pra quem ainda dorme ao meu lado:

– Chego já. Cuide-se!

Um mendigo de Paris


Em frente a um dos cinzentos prédios da Sorbonne, onde há uma torre que deve ter sido, em tempos idos, um observatório astronômico – tanto o foi que, por trás, desponta outra menor cujo topo é aquele tipo de cúpula próprio para perscrutar os céus – encontro, na Rue Granelle, sentado sobre um grosso pano cinza, costas apoiadas na parede, as pernas separadas formando ângulos agudos contra o chão e dando suporte aos braços que seguram um livro, um mendigo e, à sua frente, a esperada tigela de metal na qual repousam algumas moedas.
Um mendigo que não olha os passantes, não lhes estende as mãos súplices, não lhes dá, enfim, qualquer atenção, sequer se incomoda com o que se passa em seu entorno. Sua aparência não é andrajosa ou suja, pelo contrário.

Muito embora suas roupas sejam bastante usadas, revelam pobreza, não miséria. Não é ele novo, tampouco velho – um cinqüentão, talvez, derruído pelo tempo e circunstâncias, aureolado por uma densa massa de cabelos longos caindo sobre os ombros e completamente grisalhos, barba por fazer.

Após algum tempo, resolvi chamar sua atenção. Antes, pedira que lhe fotografassem, sem que percebesse. De passagem por onde ele estava sentado, coloquei uma quantidade inusual de moedas na tigela.

Recebi um olhar breve, mas intenso, e um “merci”, após o que a leitura foi imediatamente retomada. Não foi possível ver a capa do livro que tanto lhe prendia a atenção.

Minhas perguntas a lhe serem feitas foram contidas pela percepção do seu alheamento.

Ao meu lado alguns poucos turistas fotografavam os prédios da Sorbonne. Tínhamos ido em busca do mais antigo restaurante de Paris, onde François Miterrand construíra, nos seus tempos de jovem, sua barricada.

Lá almoçáramos, observáramos a fauna parisiense, o que sobrara da arquitetura do século XVII, os garçons a balbuciarem algumas palavras de português – homenagem aos tempos de “real” forte.

Nada, entretanto, fora tão interessante quanto aquele retrato de Paris ao vivo e à cores: um mendigo entregue à leitura.

Honório de Medeiros – É professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

Um Sêbado bom demais com Roberto do Terríveis

O "Sêbado" continua surpreendendo positivamente. Não me canso de proclamar que é um ambiente incomum, diferenciado, em Mossoró.

Sob a batuta do odontólogo Marcos Pereira, esse sebo que só funciona aos sábados, teve hoje a presença especial de Roberto Teixeira de Lima, conhecido artisticamente como "Roberto Cantor".

Ele iniciou carreira em Mossoró mesmo em 1969, com passagens por grupos como Terríveis e Impacto Cinco.

No Sêbado, Roberto deu uma canja ao lado de filhos e outros familiares.

Emocionante.

Valeu demais!

Assim tem sido, para dizer que “te amo”


Menino ainda, entre a peraltices e um jeito ensimesmado de ser, conheci a dor. Vi a morte assim, de pertinho. Toquei-a. Senti-a.

Tudo ficou vazio. Fez um vácuo.

Dona Mariinha, quase pele e osso, estava ali em minha frente.

"Morreu!" A palavra e a imagem, juntas, com a força de uma comunhão perfeita entre fato e verbo, tiravam o fôlego, inundavam meus olhos.

O menino mirrado, de olhar vivo – às vezes melancólico -, cabelo escuro e escorrido, passaria a entender parte do grande mistério da vida: o morrer.

O corpo inerte na sala de casa, socado num caixão, seria a despedida. Ambiente soturno e sufocante. Gente que entra e sai. Rostos encrespados.

O choro aumentava a agonia nas entranhas de cada cômodo. A morte batera à nossa porta. Eu me sentia sepultado vivo.

O pulmão asmático, que durante anos não conseguia sanfonar o oxigênio, a contento, finalmente se rendera. O coração perdia sua última batalha.

Mas nem por isso a morte fazia sentido para mim.

– Por que ela tinha que ir?

Sentado num canto de parede, comprimindo as pernas dobradas e entrelaçando-as com os braços, parecia disposto a reter a dor com minha parca força muscular. Joelhos banhados em lágrimas, cabeça inclinada sobre eles, eu queria entender:

– Por que ela tinha que ir?

Meu porto seguro e suprema proteção em todos os excessos, como garoto, partia pro "descanso", afirmavam uns circunstantes. E eu? Como seriam meus dias e anos dali pra frente?

Ficou não apenas a perda da "vó", chamada de "mãe". Ficou a frase nunca dita, nem repetida. Faltou minha redenção: "Eu te amo!"

Uma foto amarelada e desfocada, contida num antigo documento de identidade, foi a herança que me coube de seu espólio. O bem que virou amuleto, companhia diária escondida em minha carteira de cédulas.

Mais do que isso ficou a lição: jurei nunca mais deixar que ninguém que eu amasse, de verdade, partisse sem ouvir a frase nunca dita nem repetida: "Eu te amo!"

Meu medo sempre foi não dizer "te amo", a meus velhos, olhando em seus olhos. A maturidade e o tempo me deram oportunidade para repetir e acrescentar: "Obrigado!"

Minhas perdas são presenças diárias. Não saem de mim. Meu sacrário é a memória; os sentidos os têm por perto e as lembranças não os tiram de mim…

Assim tem sido. Que assim seja.

Notícias de além-mar, retratos e canções da alma portuguesa


Caro amigo:

Vi seu registro da nossa viagem. Obrigado. Estamos cá pela velha Europa, onde as diferenças entre nós e eles aparecem cada vez mais sutilmente.

Há uma tendência de nivelamento, a longo, longo prazo, eu diria, que se pode perceber a partir da onipresença da “worldmidia” – queira desculpar meu neologismo.

Eles descem, nós subimos. É a vida…

Primeiro é bom registrar que atualmente a Europa é dos brasileiros!  Eles estão em todos os lugares. Do metrô aos cafés, é impossível não ouvirmos, momento-a-momento, a língua-mãe. E, hoje, até mesmo os enfatuados garçons europeus já arriscam uma ou outra palavra em “brasileiro” – algo, antes, impossível de encontrar.

Nossa porta de entrada foi Lisboa. Tínhamos que ir, e fomos, à Torre de  Belém – magnífica! – beijando o Tejo, a guardar Portugal e nos dar uma pálida idéia de suas glórias passadas.

Como contraponto aos tempos de antanho, o motorista de táxi, este sempre um Mercedes da década de noventa, me disse, sombrio, quando nos conduzia ao hotel: “este é um mundo cão”.

A frase não veio solta no tempo e espaço. Estávamos a falar acerca das greves francesas.

Baixo, magro, sotaque carregado, beirando os setenta, maus dentes, típico representante da melancolia portuguesa, explica: “estão acabando conosco”. “Minha aposentadoria anual de paraquedista – eu lutei em duas guerras, na linha de frente – eram cento e trinta euros anuais. Cortaram trinta.”

– Quais guerras o senhor lutou?, pergunto.

“Sim, claro, na linha de frente”, insiste, “sessenta e um, Angola; 63, Guiné-Bissau.”

“Ferimentos?”, pergunto, receoso de alguma resposta brusca.

“Somente na alma; e os carrego junto com algumas medalhas com as quais meus netos brincam. Não servem para nada”

– O que lhe doeu, na guerra? Ele olha de relance para mim, e parece não se dar conta de que os outros são testemunhas atentas da conversa. “Ver, em Angola, um compatriota de chicote na mão a vigiar negros trabalhadores”.

– Por que isso?, perguntei-lhe.

“Se não eles não trabalham”, me respondeu. "Compreendi, ali, que aquela não era uma guerra pela qual lutasse um homem.”

Agora é noite e já estamos no Bairro Alto, onde tudo é Fado, as ruas são estreitas, e há um clima de boemia no ar frio.

Peixe – este é seu nome, o “maïtre d’honeur”, desliza pelas mesas apertadas com a elegância de uma antiga modelo a matar saudades da passarela. É o próprio espírito da Casa que nos acolhe.

Serve-nos um vinho jovem do qual não nos arrependemos. Explica-nos as apresentações dos cantores de Fado. E nos confidencia: “são todos grandes divas”.

É verdade, percebo logo a seguir. Todos têm dois nomes. Nada daquela intimidade fácil do Brasil; nada de Chico, Caetano ou Roberto.

Ali, desde a ainda jovem, para os padrões do Fado, a bela Ana Marta, até a crepuscular Lenita Gentil – a “grande dama” e principal atração da noite, variam os estilos: do contido, elegante, de Antônio Rocha, ao exuberante, popular, de Anita Guerreiro, mas, todos, expressões máximas de uma arte que eles manejam com rara habilidade e distanciamento, e que tento explicar aos meus companheiros, lhes dizendo que tudo isso expressa uma verdade implícita, a de que se nós não gostarmos do fado, a culpa é nossa; portanto, entendamos: ali se canta a alma de um povo, não canções quaisquer.

Nada representa tanto esse “espírito das coisas” quanto aquela a quem eu alcunhei de “a velha dama”: imperial, majestosa, de perfil forte, no qual despontava um queixo autoritário, toda de negro, ela cantava para si e para suas lembranças enquanto cantava para nós, a dominar o pequeno espaço no qual revoluteava entre ondas de um forte perfume de toalete e esgrimia seu xale com rara maestria.

O acompanhamento, feito pela viola de sete cordas tocada como se fosse violão, e a guitarra portuguesa, era soberbo. No final, uma homenagem aos brasileiros: “Ai, Mouraria”, um pedido meu, seguido de um fado de Vinicius de Moraes, e a presença da “grande dama” na nossa mesa, a aceitar, condescendente, nossas homenagens, enquanto sobre nós espargia um olhar esverdeado e uma voz rouca enfeitiçante.

Honório de Medeiros é escritor, professor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN