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Moagem

Por Bruno Ernesto

Foto de Carla Janine
Foto de Carla Janine

O açúcar, carboidrato cristalizado, atualmente elevado à categoria de vilão-mor da saúde pública, nem sempre foi tão combatido. Pelo contrário, entre os séculos XV e XVIII, os europeus consideram-no como sendo o ouro branco, ao lado das famosas especiarias da Índia.

Se você lembra bem das aulas de história, o Brasil, segundo consta, só foi descoberto, e por acaso, na busca de uma nova rota para as Índias, visando as tão cobiçadas especiarias que, até hoje, podemos ver nas prateleiras dos supermercados, convenientemente embaladas em pequenas porções de cravo, canela, noz-moscada, pimenta preta, gengibre, açafrão e tantas outras, e que dão aquele toque de mágica nas comidas.

Faço um destaque, entretanto, a respeito da descoberta ocasional do Brasil, que a historiografia oficial convencionou, quase como um dogma, com todas as vênias possíveis, e ouso discordar dela.

Desde que li, há uns vinte e cinco anos, o livro “Dois Ensaios de História: A intencionalidade do descobrimento do Brasil. O mais antigo marco de posse”, publicado em 1965 pela Imprensa Universitária do Rio Grande do Norte, e que é de autoria do mestre Câmara Cascudo, cruzei essa linha da história oficial, e me inclinei para a sua tese.

Em resumo, ele defende que o local da chegada dos portugueses ao Brasil foi em Touros/RN, e que o monte avistado não era o Monte Pascoal, da Bahia, e, em verdade, tratava-se do Pico do Cabugi, localizado em Lajes, no Sertão central do Rio Grande do Norte, e que a rota da famosa viagem já estava bem traçada. Não foi um mero acaso.

O famoso Marco de Touros ainda pode ser visto no interior do Forte dos Reis Magos, ou, como diziam os holandeses, o Castelo de Keulen, em Natal, digo, Nova Amsterdã. E caso tenha curiosidade de ir conhecê-lo pessoalmente, aproveite e visite o Instituto Câmara Cascudo (@institutocascudo) e conheçam Daliana e Camilla Cascudo, as netas do velho mestre, que preservam todo o seu legado. Certamente será uma experiência incrível.

Embora a exploração do Pau-brasil tenha sido um dos produtos mais emblemáticos da história do Brasil, foi o açúcar a mola propulsora de sua ocupação e desenvolvimento econômico durante os séculos XVI, XVII e XVIII, e que moldou, especialmente, a região Nordeste, e hoje, ainda tem marcante presença em sua economia, notadamente no Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia.

No caso do Rio Grande do Norte, quem sai de Natal e ruma para os Estados da Paraíba e do Pernambuco, verá canaviais a perder de vista e usinas de beneficiamento margeando a BR-101.

Especificamente no caso do açúcar, historicamente, pode-se estabelecer que após a Guerra dos Cem Anos (1463), travada entre os reinos da Inglaterra e da França, ao final da era Medieval, houve uma verdadeira explosão de procura por esse ouro branco.

Como a história conta, após trinta anos da chegada dos portugueses ao Brasil, e já na iminência de perdê-lo para Espanha, foi assinado o famoso Tratado de Tordesilhas, tendo Portugal dividido o Brasil em Capitanias Hereditárias e seus donatários, tendo, ao fim e ao cabo, prosperado apenas as Capitanias de São Vicente, de Martim Afonso de Souza, e a Capitania do Pernambuco, de Duarte Coelho Pereira, eminentemente produtoras de cana-de-açúcar com utilização de mão de obra escrava, outro traço marcante para a formação do Brasil.

No período colonial brasileiro o açúcar era um produto tão importante economicamente, que os holandeses invadiram e tomaram grande parte da região Nordeste, ocupando-o entre os anos de 1630 a 1654, no chamado Brasil holandês, com a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, cuja história também abordei em outra oportunidade (//blogcarlossantos.com.br/areia-branca-e-os-holandeses/).

Não obstante a exploração em grande escala do açúcar na região Nordeste tenha se dado predominantemente em seu litoral, é inegável que tal cultura também deixou grandes marcas no interior, embora sendo uma região semiárida, que é praticamente desfavorável à tal cultura, tanto com relação ao solo, mas, especialmente, quanto ao clima.

É muito comum nos deparamos com engenhos de cana-de-açúcar no interior do Estado do Rio Grande do Norte e, para mim, a cultura da cana-de-açúcar é elemento familiar central.

Meus avós maternos, são originários do litoral Sul do Rio Grande do Norte, sendo minha avó materna de Tibau do Sul, nas proximidades da famosa e badalada Praia da Pipa, e meu avô de Pedro Velho/Canguaretama, onde se localiza o famoso Engenho Cunhaú, construído em 1604.

No que tange à minha família parterna, ela tem origem no Sítio Serra de São Miguel, atual município de Almino Afonso/RN, e que está localizado na Serra dos Três Cabeços, onde mantém o sítio há quase duzentos anos.

Ao que consta, os primeiros membros se estabeleceram na região por volta no início do século XIX, e, desde então, cultivam cana-de-açúcar para a fabricação de rapadura, alfenim, mel de engenho e, claro, açúcar; e de lá, tenho muitas e inesquecíveis memórias das moagens da cana-de-açúcar.

Nesse período, há convergência de muita gente das cidades próximas e de meus parentes que vão ao engenho, erguido dentro da propriedade, e único que resistiu ao tempo. Embora, quando criança, tenha chegado a ver em funcionamento cinco, nos sítios vizinhos.

Lá eu me empanturrava de caldo de cana, raspa de rapadura e muito mel e, embora a produção não seja em escala industrial, a tradição continua.

A despeito da tradição, ela é tão intensa, que meu pai, enquanto vivo, jamais se desfez ou deixou se desfazerem das terras da família, engendrando esforços para adquirir parte delas e persuadindo meu tio Chiquito, único parente que remanesce habitando o local há quase oitenta anos, a manter a tradição da moagem, que ocorre sempre entre os meses de agosto e setembro de cada ano.

Embora praticamente sem muita esperança de ver a tradição ser mantida em razão de diversos fatores, especialmente por falta de quem a mantenha – o que de fato é muito desafiante -, espero ansiosamente, a próxima moagem e poder sentir aquele cheiro de caldo-de-cana fervente.

E para matar um pouco a saudade e manter a esperança, preservo em Natal, ao pé da churrasqueira, um pé de cana-de-açúcar que meu pai plantou há mais de quinze anos, de uma das mudas que ele trouxe de Viçosa/MG, para renovar o canavial do sítio da família.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

A província comparada

Por Marcelo Alves

Ilustração da Freepik
Ilustração da Freepik

Outro dia, fui convidado pelo seu autor, Paulo Caldas Neto, para prefaciar o livro “Palimpsestos: ensaios”, ainda no prelo. Fiquei muito feliz. O livro é interessantíssimo. Um belo exemplo da arte pluritemática de Michel de Montaigne (1533-1592). E se assim o é, acho que a razão está, para além da cultura e do estilo do autor, no uso, com grande eficácia, na maioria dos ensaios, da “ferramenta” da comparação literária.

O autor mistura/compara autores, obras e temas de diversas literaturas, a exemplo da inglesa e da grega, com a nossa produção, tanto nacional, como regional ou mesmo provincial. São feitas incursões de caráter histórico nas literaturas comparadas, de maneira ao mesmo tempo integrativa e contrastante, que identifica os elementos da literatura de outros povos, de outros países, de outras línguas, suas semelhanças e diferenças para com a nossa literatura, assim como os nossos pontos fortes e fracos no panorama cultural universal. Gosto dessa perspectiva ampla e multicultural da literatura. Jamais em competição com as outras literaturas, mas em parceria com elas, ela nos ajuda a chegar a um julgamento crítico e equilibrado da nossa produção intelectual. E isso é mais do que muito.

Tomemos como exemplo de comparação literária o ensaio “Opereta em dó maior a um humanismo decadente: o riso em Laurence Sterne e Machado de Assis”, que versa especificamente sobre a influência do “Tristram Shandy” (“The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman”, 1759-1767) sobre “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), obras clássicas dos autores citados, respectivamente. Eis um trecho que é uma ode à comparação literária: “No caso do riso, fica bem mais simples se repensar valores culturais e sociais por ser universal, e o Universalismo é que torna a linguagem também uma a todos os povos.

Mesmo que haja um engajamento sociopolítico, conforme se constatou primeiramente na prosa de Laurence em comparação depois à de Machado, o perfil universalizador deve prevalecer em função da unidade; nós, seres de um processo histórico, somos marcados por nossas atitudes e vícios, registrados depois ou por um historiador ou por artista. O intercâmbio entre os discursos fortalece a visão de que todos estamos num palco, guiados por uma educativa comédia a qual assinamos com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Está aí o equilíbrio que rege quem podemos ser”.

Um mérito notável de “Palimpsestos” é comparar a nossa literatura regional, muitas vezes dita “popular”, valorizando-a, com as “literaturas universais”, como no ensaio “Máscara greco-sertaneja: o ressurgimento do humor no teatro de Ariano Suassuna”. Lá consta uma frase lapidar:  “pelas mãos do Popular, transformar-se-á o Erudito”. E “Palimpsestos” tem o mérito – ainda maior – de focar a nossa província, o Rio Grande do Norte, resgatando, por exemplo, a obra do poeta, violonista e cantor Lourival Açucena (1827-1907), boêmio que alegrava as rodas de conversa, as noitadas ao luar e as solenidades da Natal do seu tempo, mas hoje infelizmente esquecido.

Devo registrar que esse tipo de regionalismo – ou mesmo de provincialismo – é de ouro. Um provincialismo à moda de Câmara Cascudo (1898-1986), “O provinciano incurável”, que, em crônica com esse título, publicada lá pelo final da década de 1960 (revista Província, IHGRN, 1968), confessava:

– “Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivências dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço. Percepção medular da contemporaneidade. Nossa casa no Tirol hospedou a Família Imperial e Fabião das Queimadas, cantador que fora escravo. Intimidade com a velha Silvana, Cebola quente, alforriada na Abolição. Filho único de chefe político, ninguém acreditava no meu desinteresse eleitoral. Impossível para mim dividir conterrâneos em cores, gestos de dedos, quando a terra é uma unidade com sua gente. Foram os motivos de minha vida expostos em todos os livros. Em outubro de 1968 terei meio século nessa obstinação sentimental. Devoção aos mesmos santos tradicionais. Nunca pensei em deixar minha terra. (…). Fiquei com essa missão. Andei e li o possível no espaço e no tempo. Lembro conversas com os velhos que sabiam iluminar a saudade. Não há um recanto sem evocar-me um episódio, um acontecimento, o perfume duma velhice. Tudo tem uma história digna de ressurreição e de simpatia. Velhas árvores e velhos nomes, imortais na memória”.

Esse provincialismo, de quem vive e trata da sua terra por amor a ela, sobretudo quando a faz objeto de comparação multicultural, é muito mais do que muito. Decerto porque, parafraseando o próprio Cascudo, ele é duramente forjado em “Livros. Cursos. Viagens. Sertão de pedra e Europa”. Mas também porque, como disse o enorme Leon Tolstói (1828-1910), “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Igreja quer colocar vigário Antônio Joaquim no seu devido lugar

Catedral, com Praça Vigário Antônio Joaquim em frente; ao lado, a Praça DIx-sept Rosado onde é construído o Memorial das Vìtimas da Covid-19 (Imagem do Google Eart)
Catedral, com Praça Vigário Antônio Joaquim em frente; ao lado (círculo verde), a modesta praça Dix-sept Rosado onde é construído o Memorial das Vítimas da Covid-19 (Imagem do Google Earth)

A Diocese de Mossoró vai propor à Prefeitura Municipal de Mossoró, o deslocamento do busto do vigário Antônio Joaquim do local onde é construído o Memorial das Vítimas da Covid-19 (veja AQUI), para a praça que leva o seu nome, em frente à Catedral de Santa Luzia. O assunto será levado ao prefeito Allyson Bezerra (UB) ainda essa semana.

O vigário-geral da catedral, padre Flávio Augusto Forte Melo, falou sobre a proposta durante missa dia passado (31 de dezembro), às 19h. Em meio à liturgia, ele perguntou aos presentes que lotavam a matriz, se concordavam com a mudança. Ouviu o “sim” de forma maciça.

Na Praça Vigário Antônio Joaquim está uma estátua do governador Jerônimo Dix-sept Rosado Maia  (25/03/1911-12/07/1951). Segundo o padre Flávio Augusto, a colocação do busto não implicaria na retirada da homenagem a Dix-sept Rosado. Ou seja, o pensamento é que os dois ilustres nomes da história local coabitem o mesmo logradouro.

O bizarro nesse enredo de muitas décadas, é que onde está o busto do vigário Antônio Joaquim é a “Praça Dix-Sept Rosado,” ao lado da catedral.” A ‘troca’ aconteceu no início dos anos 50 do século passado. Valeu o peso político do emergente clã Rosado na hora de botar a estátua do governador na praça mais importante da cidade.

História

Busto do vigário foi inaugurado pouco mais de dois meses após homenagem a Dix-sept Rosado (Foto: Reprodução)
Busto do vigário foi inaugurado pouco mais de dois meses após homenagem a Dix-sept Rosado (Foto: Reprodução)

Nascido na vila de Aracati-CE (hoje município) em 5 de novembro de 1820, Antônio Joaquim Rodrigues faleceu em Mossoró dia 9 de setembro de 1894. Foi religioso e político que empreendeu luta para elevar o povoado de Santa Luzia ao status de vila e, depois, cidade. Teve carreira política como deputado provincial (equivalente hoje a deputado estadual) em sete mandatos e exerceu papel religioso por mais de 50 anos na terra que o adotou.

Desde o dia 2 de dezembro de 1953 o seu busto foi fixado na Praça Dix-sept Rosado, ao lado da catedral, obra produzida pelo escultor Osísio Pinto, sob encomenda do industrial mossoroense José Rodrigues de Lima.

Pouco mais de dois meses antes da inauguração do busto do vigário Antônio Joaquim, na Praça Dix-sept Rosado, no dia 30 de setembro de 1953 a estátua de Dix-sept Rosado foi inaugurada no local. A obra foi executada por Ottone Zorlini, (Treviso, Itália, 1897-São Paulo-SP, 1967), reconhecido escultor ítalo-brasileiro. Ela tem 3 metros e 80 centímetros de altura e pesa 1.300 Kg. É ladeada por dois grupos de homens, mulheres e crianças, em tamanho natural, além de outros detalhes que lembram integrantes do seu governo, mortos no mesmo ano.

As esculturas foram esculpidas em bronze e o seu pedestal, em granito róseo, originário do município de Angicos-RN.

Ex-prefeito de Mossoró, Dix-sept Rosado morreu em acidente aéreo em Sergipe, no dia 12 de julho de 1951. Estava no cargo de governador do RN há pouco mais de cinco meses (posse dia 31 de janeiro de 1951).

Monumento a Dix-sept Rosado está na Praça Vigário Antonio Joaquim (Foto: Arquivo)
Monumento a Dix-sept Rosado está na Praça Vigário Antonio Joaquim (Foto: Arquivo)

*Fontes de informações e pesquisas históricas: Câmara Cascudo, Raimundo Soares de Brito, Geraldo Maia, Raimundo Nonato da Silva e VIngt-un Rosado.

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Potiguares na literatura nacional

Por Manoel Onofre Jr.

Foto de Câmara Cascudo (Reprodução)
Foto de Câmara Cascudo (Reprodução)

Analisando-se a História da Literatura Brasileira, vê-se que, no Nordeste, apenas dois estados – Rio Grande do Norte e Piauí – não tiveram literatos de projeção nacional realmente importantes. As demais unidades federativas da região orgulham-se de contar, entre seus filhos ilustres, com verdadeiros ícones literários : Bahia – Castro Alves e Jorge Amado; Pernambuco- Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto; Sergipe – Gilberto Amado; Alagoas – Graciliano Ramos ; Paraíba – José Lins do Rego; Ceará – José de Alencar e Rachel de Queiroz; Maranhão – Gonçalves Dias e Aluizio Azevedo.

Nosso estado tem um grande nome – Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), mas este se destaca no campo das ciências humanas e sociais, e não no da literatura, embora alguns dos seus livros, como Canto de Muro Prelúdio e Fuga do Real, revelem apreciáveis qualidades literárias.

No início de sua carreira, Cascudo tinha veleidades de ficcionista, haja vista a relação de obras do autor, “a publicar”, constante do livro Histórias que o Tempo Leva (1924) : Persephona (romance de uma cidade triste), Sertão d´ Inverno (contos), Cajueiro Florido (novela praieira) – obras natimortas, ao que tudo indica. Depois, Cascudo encaminhou-se pela Etnografia e pelo Folclore, tornando-se um dos mais respeitáveis estudiosos, nestas áreas do conhecimento, em todo o mundo.

Algum leitor destas linhas há de argumentar que nós do RN temos duas estrelas no firmamento da literatura brasileira: Nísia Floresta e Peregrino Júnior. Sim, é verdade. Mas, não são estrelas de primeira grandeza…

Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) ganhou certa notoriedade por ser educadora e precursora do feminismo, além de escritora, com algum mérito, numa época em que as mulheres, de modo geral, eram semianalfabetas, limitavam-se a cuidar das tarefas domésticas.

Nísia Floresta é ignorada pela grande maioria dos historiadores da Literatura brasileira; apenas Nelson Werneck Sodré, em seu livro História da Literatura Brasileira- Seus Fundamentos Econômicos (1969), a menciona “entre os poetas menores do romantismo” (p. 318). Os demais historiadores, do meu conhecimento, Alfredo Bosi, Luciana Stegagno-Picchio, José Guilherme Merquior, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, Manuel Bandeira, Érico Veríssimo – não dedicam sequer uma linha à escritora de Papari.

Quanto a outra ” estrela” acima citada – Peregrino Júnior (1898-1983), brilhou, talvez, com maior intensidade na vida literária do Rio de Janeiro (foi até Presidente da Academia Brasileira) do que na literatura propriamente dita. Sem dúvidas, trata-se de um bom contista regionalista, pintor de paisagens, tipos humanos, usos e costumes da Amazônia, onde viveu algum tempo exilado voluntariamente do Rio Grande do Norte. No entanto, ele nem consegue se ombrear com outros importantes escritores nordestinos não mencionados no primeiro parágrafo deste artigo, como, por exemplo, Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos e Jorge de Lima.

De todo exposto resta a pergunta que não quer calar:  por que essa ausência de potiguares entre os grandes das nossas letras? A resposta a tal indagação daria para se elaborar toda uma tese. Quem se habilita?

Creio que, num futuro não muito distante vários escritores norte-rio-grandenses serão reavaliados pela crítica e, em consequência, ganharão renome em todo o país. Dentre os veteranos poderíamos citar os seguintes: Polycarpo Feitosa, autor de cinco romances, sendo três da melhor qualidade; Afonso Bezerra, bom contista regionalista; Ferreira Itajubá, Henrique Castriciano, Auta de Souza e Jorge Fernandes, poetas que produziram pouco, mas ainda assim merecem realce; José Bezerra Gomes e Eulício Farias de Lacerda, romancistas de valor; Newton Navarro, nosso melhor contista; Zila Mamede, Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros, Myriam Coeli e Deífilo Gurgel, poetas que consolidaram o Modernismo no Estado, todos eles integrantes da Geração 61. E mais: Homero Homem, poeta e ficcionista, ainda não estudado devidamente, a nível nacional. Last but not least, Bartolomeu Correia de Melo, exímio contista.

Abstenho-me de nomear autores vivos, para não correr o risco de ferir suscetibilidades esquecendo alguns deles.

Vale dizer, por último, que já em meados do século XX,  não mais éramos “uma terra só de poetas”. Desde então têm surgido ficcionistas em número cada vez maior, e não poucos dignos de status federal.

Manoel Onofre Jr. é desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

*Texto publicado originalmente na página Papo Cultura

Cascudo sempre!

Por Honório de Medeiros

Câmara Cascudo em seu habitat (Foto: Web)
Câmara Cascudo em sua biblioteca, à máquina: textos para o prazer da boa leitura (Foto: Web)

Releio, mais uma vez Na Ronda do Tempo, do mestre Câmara Cascudo. E mais uma vez me deixo encantar, fico seduzido pelo seu talento de escritor.

Gosto de ler esses seus livros memorialísticos, tal qual Ontem e Pequeno Manual do Doente Aprendiz, lentamente, saboreando as palavras, a construção das frases, o bordado do texto que se delineia ante nossos olhos. O prazer da boa leitura!

Cascudo é inquestionável quanto ao conjunto da obra. Denso, complexo, eterno, se tivesse nascido na Europa ou nos Estados Unidos seria cultuado.

Neste “Brasil” que segundo suas próprias palavras, em Na Ronda do Tempo, “regiamente recompensa aqueles que não servem e se servem dele, condescendendo em ser vaca de leite para malandros escorregadios, atingindo todas as alturas, rastejando e babando”, o merecimento, o respeito que se tem por sua produção, é episódico e fragmentado.

Resiste bravamente pelo denodo de alguns enquanto ele, Cascudo, o pensador, o polímata, em sua própria Região, o Nordeste, se transformou em personagem folclórico. “Vá ler em Cascudo, ignorante”, dizem. Ironia do destino.

Já em 1969, no Ronda do Tempo, fino observador do que se lhe passa em seu entorno, e à Montaigne, um dos seus prazeres literários sempre renovados, observou: “Para mim, compra-se infinitamente maior quantidade de livros, mas a leitura é muito inferior e rara.”

E continuou, cáustico:

Desapareceram aqueles embaixadores da Cultura Axilar, na classificação de Agripino Grieco, passeando com o volume debaixo do braço. Deduzo esse resultado no contato de amigos e audição de palestras intelectuais sobre autores. Dá-me a impressão de viagem aérea. Não há pormenor, figuras, episódios, boiando na memória. Há visão de conjunto, síntese, resumos impressionistas, marchas, flashes. A opinião virou parecer técnico. A maior massa adquiriu para ter o volume que a voga apregoou e é um decesso ignorá-lo, como a um recanto pitoresco ou Night Club consagrado pelos cronistas da Vanity Fair. As alusões e conclusões ao autor são sempre vagas e genéricas. E essa minoria que lê pertence aos concorrentes reais ou em potencial. Já não existe aquela memória fiel às preferências literárias, recitando trechos e lembrando frases felizes. O restante olha sem ver. Muito Best-seller dormindo nas cestas dos “saldos”.

Impressionante. O olhar do sábio reconstrói, no presente, com a messe do passado, aquilo que será o futuro.

A simplicidade com a qual escreve é algo invejável, inatingível. Com uma frase expõe um espaço significativo da realidade. E o faz rendendo homenagens, sempre, ao estilo, como nessa frase, colhida do seu livro já citado, por meio da qual critica a excessiva produção literária daquele tempo (imaginemos o que diria hoje!): “Passeio furtivo pelas livrarias. Montanhas de livros. Dá-me o remorso de ser cúmplice.”

Que mais poderia ambicionar um leitor contumaz ao ler um livro, a não ser se deparar com uma frase como essa?

Cascudo sempre!

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

*Crônica extraída do livro De uma longa e áspera caminhada, pela Editora Viseu.

“Cariri Cangaço” começa nesta quinta-feira em Natal

Cariri Cangaço sobre Câmara Cascudo - 21 a 23 de setembro de 2023Começa nesta quinta-feira (21), em Natal, no Centro Universitário do RN (UNI-RN), o “Cariri Cangaço Personalidade.” Programação de abertura está marcada para as 18h30.

O personagem abordado por essa iniciativa é o escritor Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).

“Luís da Câmara Cascudo – o homem, a obra, o mito” – é o tema da iniciativa conjunta do do Cariri Cangaço, ao lado da Uni-RN, Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHGRN) e Instituto Câmara Cascudo.

21 de setembro de 2023- Quinta-Feira

NOITE SOLENE DE ABERTURA

18h30 Auditório da UNI-RN

Rua Prefeita Eliane Barros, 2000 – Tirol – Natal – RN

Formação da Mesa Solene de Abertura

DALADIER PESSOA CUNHA LIMA – Magnifico Reitor da UNI

MANOEL SEVERO BARBOSA- Curador Cariri Cangaço

DALIANA CASCUDO – Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo

HONÓRIO DE MEDEIROS – Instituto Histórico e Geográfico do RN

19h Hino Nacional

19h15 – Entrada do Estandarte do Cariri Cangaço

CAPITÃO QUIRINO e CÉLIA MARIA

19h40 – Apresentação do Cariri Cangaço

Conselheira LUMA HOLANDA – João Pessoa PB

Conselheiro BISMARCK OLIVEIRA Pocinhos PB

19h50 – Cumprimentos aos Convidados

DALADIER PESSOA CUNHA LIMA – Magnifico Reitor da UNI

MANOEL SEVERO BARBOSA- Curador Cariri Cangaço

DALIANA CASCUDO – Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo

HONÓRIO DE MEDEIROS – Instituto Histórico e Geográfico do RN

20h30 – Entrega de Diplomas “Mérito Cultural Cariri Cangaço”

1.UNI – RN  – REITOR DALADIER PESSOA CUNHA LIMA

2.Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo – DALIANA CASCUDO

3.Instituto Histórico e Geográfico do RN- HONÓRIO DE MEDEIROS

20h45 – Comenda “Personalidade Eterna do Sertão”

LUIS DA CÂMARA CASCUDO

Camilla Cascudo Barreto Maurício

Entrega de Comenda por Conselheiros

CARLOS ALBERTO DA SILVA e KYDELMIR DANTAS

Veja programação completa AQUI, que vai transcorrer até o próximo dia 23 (sábado).

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Sem fim

Por Marcelo Alves

Como disse certa vez, há livros que li, reli e lerei novamente. “Civilização” (1969), de Kenneth Clark, “A era da incerteza” (1977), de John Kenneth Galbraith, “O nome da rosa” (1980), de Umberto Eco, “Amor a Roma” (1982), de Afonso Arinos de Melo Franco e “O século dos intelectuais” (1997), de Michel Winock, então certamente entre eles. São os meus queridinhos.

Câmara Cascudo em seu habitat (Foto: Web)
Câmara Cascudo em seu habitat (Foto: Web)

Formam o meu simulacro da “Biblioteca de Babel”, tal qual imaginada por Jorge Luis Borges, com os mesmos volumes se acumulando na desordem ordenada da minha mesa de cabeceira.

Há também o oposto. Livros que, começando e até insistindo, não consegui ler. Alguns eram ruins mesmo e rogo distância. Outros eram – na verdade, são – considerados obras-primas da literatura. “Auto-de-fé” (1935), de Elias Canetti, e “O jogo das contas de vidro” (1943), de Hermann Hesse, por exemplo. Talvez eu não estivesse preparado à época para essas duas leituras. São livros “densos”. Ou, o que é um fenômeno comum, “os nossos santos não bateram”. Acontece.

Todavia, por estes tempos – e contem para lá de dois anos –, está acontecendo comigo um fenômeno/problema em relação a um outro livro clássico, uma obra-prima no seu gênero, posso dizer: “Civilização e cultura”; o autor, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Também não consigo terminá-lo. Mas isso se dá por um outro motivo, deveras curioso, paradoxal até: nossos santos bateram demais. E estou nitidamente desacelerando a leitura do danado, parando a cada página, indo e voltando, postergando um fim que rejeito ser inexorável.

O historiador, sociólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, cronista, jornalista, jurista e professor Câmara Cascudo dispensa maiores apresentações. O seu “Civilização e cultura”, perdidos os originais, reencontrados e restaurados anos após, publicado quando Cascudo já completava 75 anos, é um livro de madureza, de chegada, depois de andanças por “Sertão de pedra e Europa”.

Da edição que possuo, de 1983, da Editora Itatiaia, dedicada pelo autor aos meus pais, consta: “Este livro de Luís da Câmara Cascudo resulta de uma longa experiência de pesquisador, explorando ao mesmo tempo conceitos teóricos e realidades materiais, numa amplitude de visão que surpreende e encanta. Alia à seriedade do erudito a leveza do artista. O rigor do informe e o pitoresco dos fatos e da forma combinam-se em páginas de estudo e diversão. (…). A riqueza e a minúcia com que descreve as atividades dos grupos humanos, desde suas técnicas de vida material aos tipos de organização social, religiosa e estética, fazem deste livro uma obra fundamental na extensa bibliografia do autor. Obra pensada e repensada em longos anos de trabalho intelectual”.

Mas o fato é: não consigo – na verdade, não quero – terminar o livro. E olhem que não cheguei à parte do direito (ciência da qual Cascudo foi professor), às páginas 600 e tanto, onde o mestre afirma: “O problema da origem do Direito tem sido sempre objeto especulativo de filósofos e juristas. Não de etnógrafos. O ângulo de apreciação não coincide embora o interesse pela pesquisa tenha a mesma importância máxima. Como o Direito é uma norma fixada para a conduta humana na continuidade cronológica, é óbvia a necessidade de sua elucidação, as raízes milenárias da formação, clareando a diversidade do comportamento na história do mundo”. Isso promete.

Tenho suspeitas para essa minha malevolência literária, que vão além do conteúdo da obra ou do deleite intelectual da sua leitura. É algo sensorial que me prende à “Civilização e cultura”.

Fisicamente, a visada e o toque no livro me subjugaram. Falo da textura do papel, das páginas já amareladas e da fonte utilizada. Recordam-me leituras de outrora. Sejam as edições da velha Forense, os meus Orlando Gomes e Caio Mário, que entesouro desde a Universidade. Seja a coleção Vaga-lume e o seu sinistro “O escaravelho do diabo”. Sinto-me, palpavelmente, voltando àqueles bons tempos, de irresponsável juventude ou de lúdica infância, o que já seria muitíssimo.

E algo mais: o sábio conterrâneo Cascudo sempre foi para mim um referencial de um tempo em que eu perguntava aos meus pais “O que é isso?”, “Por quê?”, exatamente como hoje me faz o pequeno João. As cousas que eu indagava e que hoje João repete são as mesmas que Cascudo busca responder no seu livro de madureza. A infinitude de grandes e pequenas coisas que forjam civilizações e culturas. Com pais vivos e filho desabrochando, o livro em mãos parece ser um elo, um amuleto, que une essas duas pontas do destino. Não posso soltá-lo. Postergando o fim de “Civilização e cultura”, vou trapaceando, sensorialmente – e “tudo é sensação”, já dizia o poeta-filósofo Pessoa –, o curso da vida.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador regional da República e Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Câmara Cascudo – o homem, o sertão, o coronelismo e o cangaço

Câmara Cascudo - Grandes Encontros Cariri Cangaço - Honório de Medeiros, Daliana Cascudo, Manoel Severo - 17 de Novembro de 2021O Cariri Cangaço, movimento de cunho turístico, cultura, histórico e científico que reúne os mais destacados historiadores e pesquisadores das temáticas cangaço, messianismo, coronelismo, misticismo e correlatos do sertão do Nordeste brasileiro, tem promovido série de debates no ambiente virtual. Um novo está agendado.

A pauta para essa quarta-feira (17), em seu endereço no Youtube (veja AQUI), é com o tema “Câmara Cascudo – o homem, o sertão, o coronelismo e o cangaço”, a partir das 19h30.

Faz parte do projeto “Grandes Encontros Cariri Cangaço” terá o professor, pesquisador e escritor Honório de Medeiros e a psicóloga e neta do escritor e folclorista Câmara Cascudo, Daliana Cascudo, discutindo sobre a temática proposta.

Idealizador e curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo é o moderador do debate.

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A ‘imortalidade’, segundo Diógenes da Cunha Lima

faraó com cajado e mangual - símbolos de poder e divindadeHá mais de 32 anos presidindo a Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL), entidade que passou a barreira dos 85 anos de vida, Diógenes da Cunha Lima diz quem será ou não será ‘imortal’ da casa.

É o que se comenta nos bastidores da ANL, por dentro e por fora. Ele decide, apesar de ter apenas o próprio voto.

Portanto, senhores e senhoras que sonham com o fardão da eternidade no vetusto prédio da Rua Mipibu, em Natal, aproximem-se dele.

Cunha Lima é a antítese do criador e fundador da ANL em 1936 – Câmara Cascudo.

O festejado intelectual potiguar nunca quis ser integrante do academia ou presidi-la, apesar de fomentar seu nascimento.

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Serra de João do Vale, um destino a ser descoberto no RN

Por Tárcio Araújo (Para o Blog Carlos Santos)

Imagine um lugar onde os seus moradores ainda conservam costumes sociais como sentar todas as tardes e noites no alpendre para prosear; contar histórias, onde a carne de sol é batida no pilão e o almoço preparado na panela de barro em fogo à lenha.

Ecoturismo, contato direto com vegetação preservada e imagens idílicas, revelam potencial da serra (Foto: Francinildo Silva)

Um lugar de religiosidade forte, onde se reza as novenas, tradição que lembra os tempos dos nossos avós e antepassados até mais longínquos.  Um lugar onde a natureza ainda dar o tom de verde com árvores nativas que já não vimos mais no sertão catingueiro; onde o canto dos pássaros é a sinfonia que ecoa pelo a brisa úmida das manhãs, com temperaturas que chegam até 14° em alguns meses do ano.

Um lugar onde as pessoas vivem muito tempo; alguns com mais de cem anos. O segredo de tanta longevidade talvez seja o leite e o queijo feitos lá mesmo. Talvez seja a fava sem amargo que brota dos terrenos arenosos, ou quem sabe o clima temperado que predomina durante o ano. E talvez seja o conjunto de todas estas coisas juntas, onde o tempo parece passar em marcha lenta.

Esse é o cenário da Serra de João do Vale, a cerca de 730m de altitude, estendida por 277km² entre os municípios de Jucurutu, Campo Grande e Triunfo Potiguar no Rio Grande do Norte e Belém do Brejo do Cruz na Paraíba. Fica a 130 quilômetros de Mossoró e 275 de Natal.

Até hoje sem pavimentação ou asfalto que leve os visitantes até o seu platô, o acesso é feito por estrada carroçável, tanto por Jucurutu quanto por Triunfo potiguar. Em tempos de chuva, esse acesso fica ainda mais difícil, recomendado apenas para veículos 4×4.

A REGIÃO tem sido explorada pelos amantes de todo terreno, o off-road (veja AQUI, AQUI e AQUI). Muitos se aventuram em eventos já reconhecidos e existem aqueles que fazem sua própria rota ou enveredam pela “Trilha do Pacifico”, considerada a mais íngreme e acidenta do Rio Grande do Norte.

Jipieiro desafia a Trilha do Pacífico na Serra de João do Vale (Foto: arquivo/2019)

É somente o barulho dos motores em dias de aventura, que quebra o silencio da localidade.  A dificuldade de acesso talvez tenha sido o fator primordial para a preservação dos costumes e da natureza em seu entorno. Um ponto positivo!

Seus primeiros moradores foram os índios Pegas que a denominavam de “Pepetama”. Os Tapuias (Janduís) a conheciam por “Pookiciabo” (informações do livro “Os índios Tapuias do RN”, de Valdeci dos Santos Júnior)..

Depois os holandeses penetraram seus sertões quando da ocupação batava no território potiguar entre 1630 a 1654. Até hoje há vestígios da passagem holandesa.

A partir do domínio português, após a “Guerra dos Bárbaros”, em 1713 a serra ganhou a alcunha de Cepilhada e em 1761 é adquirida em leilão pelo Capitão-Mor João do Vale Bezerra. Seu dono virou topônimo preservado até hoje.

Mortes e abandono

De lá pra cá, a serra teve uma ocupação lenta e foi sempre ignorada pelas autoridades públicas. No final do século XIX, por muito pouco um movimento messiânico liderado pelo religioso Joaquim Ramalho não ganhou contornos de uma versão potiguar do que foi Canudos na Bahia. Esse fato foi registrado pelo escritor Câmara Cascudo.

No século XX, o algodão foi a primeira grande cultura agrária do povoamento. Depois vieram o caju e a fava como fontes de produção e sustento de sua população nativa.

Antonio Francisco da Silva ( sêo Virô) 92, um dos moradores mais antigos. aprendeu a ler e escrever com o Mobral. Sua vó participou do movimento messianico do beato joaquim Ramalho em 1899. (Foto: Francinildo Silva)

Isolados durante séculos, sem acesso e sem estradas, os moradores padeceram de assistência. O lugar é marcado por um passado de mortandade de crianças e de mulheres grávidas que sem atendimento agonizavam até a morte, no parto.  Lembranças tristes que permeiam até hoje a memória da comunidade; histórias passadas pela cultura oral de pai para filho, de pai para filho…

No final da década de 70 do século XX, o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi o divisor de águas à sua gente. Visto como um programa educacional federal fracassado, no propósito de tirar milhões de adultos do analfabetismo, ao ser extinto em 1985 deixou alguns legados na serra. Muitos aprenderam além do beabá, moradias ganharam melhorias estruturais e sanitárias.

Foi também por meio dessa iniciativa, que foi construída a primeira estrada da comunidade, por volta de 1980. Ligava-a ao que é hoje o município de Triunfo Potiguar.

Atualmente, quase 2.000 mil pessoas moram no alto da serra, distribuídas por 05 comunidades chamadas de “Chãs”. As condições de hoje são melhores do que no passado, com energia elétrica, unidades de saúde e escola para as crianças. No entanto o abastecimento d’água ainda é precário.

Pavimentação

Um outro gargalo é a falta de pavimentação dos 19 km até Jucurutu. É um um pleito da comunidade que já perdura há mais de quatro décadas. Seu custo é estimado em cerca de R$ 25 milhões. Noutra frente, há um acesso por Triunfo Potiguar com cerca de 17 quilômetros, com cerca de um terço tendo pavimentação deteriorada a paralelepípedo.

O futuro que se avizinha é de expectativa para o desenvolvimento do turismo serrano com seu vasto potencial climático e paisagístico.  Mas para isso, a construção da estrada é o primeiro grande desafio a ser superado.

Natureza exuberante, clima e tranquilidade revelam potencial turístico do lugar (Fotos: Francinildo Silva)

Em outra frente, há estudos e experimentos para instalação de unidades de energia eólica na área, aproveitamento do ecoturismo e do turismo de aventura. Belezas exuberantes não faltam.

Nesta série de 05 reportagens (Especial Serra de João do Vale), vamos trazer as histórias de um lugar rico em cultura e tradições, de personagens reais e de belezas naturais pouco conhecidas. Um cantinho do estado do RN que até parece não existir. Enfim, não existe mesmo no mapa das autoridades e para a enorme maioria dos norte-riograndenses, sequer para aposta num turismo doméstico.

Mas não se engane: a Serra de João do Vale vai ser um destino no roteiro de muita gente que ama a natureza. Quando? Esperamos que não dure mais umas quatro décadas. Todos temos pressa em usufruir, de forma sustentável, desse paraíso em pleno sertão nordestino (veja vídeo abaixo com o amanhecer na serra).

Seja bem-vindo ao Especial Serra de João do Vale. Aguarde as próximas reportagens.

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Morre o jornalista e escritor Luiz Gonzaga Cortez

Gonzaga: câncer (Foto: reprodução)

O jornal Tribuna do Norte informa que morreu nesta segunda-feira (19), em Natal, o jornalista e escritor Luiz Gonzaga Cortez, 70. Estava internado no Hospital do Coração, enfrentando câncer.

Seu velório acontece no Centro de Velório da São José, no bairro de Lagoa Seca.

Sepultamento acontecerá às 17 horas no Cemitério Morada da Paz.

Cortez atuou no Diário de Natal e Dois Pontos (ambos já extintos), além do jornal Tribuna do Norte.

Escreveu livros importantes para o resgate da história do RN, como “A revolta comunista de 1935 em Natal”, “Câmara Cascudo, jornalista integralista”.

Nota do Blog – Li muitas reportagens e entrevistas feitas por Cortez. Mais uma perda significativa que sofremos na imprensa potiguar. Que descanse em paz.

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Cortez Pereira em perfil

Por François Silvestre

Honório de Medeiros me convoca. Informa que um grupo de estudiosos das coisas nossas daqui deste paquiderme raquítico pretende continuar uma obra de Câmara Cascudo, que traçou o perfil dos governadores do Rio Grande do Norte.

Parece que Cascudo foi até Rafael Fernandes.

Disse-me ele que recebera a incumbência de me convocar, e a mim foi delegada a tarefa de escrever sobre Cortez Pereira. Topei. Cortez foi meu professor, depois meu amigo. No meio dessa amizade, um período difícil de oposição minha ao seu governo.

Tempos escuros e crus.

Num episódio, na Casa do Estudante, eu contestei uma entrega que Dona Aída, primeira-dama, foi fazer no pardieiro da Praça Lins Caldas. O meu discurso naquele evento resultou na minha prisão, após o coronel ajudante de ordem do governo ter desligado o microfone.

Continuei com o som nu da minha voz. Esse evento me rendeu uma das minhas prisões e um processo na Auditoria Militar da Aeronáutica, em Recife.

Muitos pensaram e alguns ainda pensam que eu me tornara inimigo de Cortez. Nada disso. Se dependesse dele ou de Dona Aída eu não teria sido preso.

Ocorre que naquele período, governo do torturador Emílio Médici, governador de Estado não tinha força para prender nem prestígio para soltar. Essa frase, que eu disse na época, foi usada pelo próprio Cortez quando um repórter lhe perguntou, na TV Universitária, se ele havia colaborado com a repressão.

Disse ele:

– “Sei do que você está falando, mas o próprio reprimido me isentou daquela repressão”. E me citou.

Vou tentar fazer um painel minimalista do perfil de Cortez Pereira. Um daguerreótipo para tentar fotografá-lo. Tentarei, se conseguirei não posso assegurar.

François Silvestre é escritor

Entrelaçamento familiar como fator de povoamento do Oeste

Por Marcos Pinto

Dentre os  diversos  tipos  de  relações  sociais  existentes  na  história  da  humanidade, destaca-se  com  veemência  um  estatuto  dominante  denominado  de  tráfico  de  influência.  Costumo  dividi-lo  em  patrimonial  e   espiritual.  Naturalmente, é  encontrado em todos os  segmentos  sociais,  do  mais  humilde  às  tradicionais  famílias, espécies  de  castas  com  fito  único  de  predominância  sobre  os  menos  favorecidos  pelos  detentores  do  poder.  Nesse  contexto, assume  nuances  estonteantes,  quando  se  adentra  em  estudo  minucioso  sobre  o  desiderato  histórico  das   primitivas  famílias  que  povoaram  a  região  Oeste  potiguar.

Há  notórios  tipos  de  entrelaçamentos  familiares  seletivos, destacando-se  aqueles  entre  famílias  afrodescendentes  com  os  famosos  Caboclos, gente  oriunda  da  presença  do  elemento  branco  colonizador   preando  e   prenhando  índias  em  tenra  idade, denominadas  de  cunhãs.

Surgem, com destaques, os  famosos  entrelaçamentos  familiares  endogâmicos,  espécie  de  instituição  social  normativa-intuitiva, objetivando  a  manutenção  da  posse  e  domínio  das  terras  sob  o  comando  de  uma  mesma  família, consolidando,  assim, costumes  e  tradições  ético-familiares.   Neste quadro, destacamos o  fechado  grupo  familiar  caraubense    denominado  de  “Caboclos  da  Cachoeira”,  referencial  toponímico  às  terras  da  antiga  Data  de  Sesmaria  “Cachoeira”,  que  media  três  léguas  de  comprimento  por  uma  de  largura.

Tem  origem  povoadora  no  Tenente-General  Francisco  de  Souza  Falcão.

Afirma  a  tradição  que  este  militar  seria  português, tese  esposada  pelo  celebrado  historiador  Raimundo  Soares  de  Brito (“Município  de  Caraúbas, Ano  1958, Coleção  Mossoroense Série  B número  914, 1991). Já  o  renomado   historiador   e  genealogista  Marcos  Antonio  Filgueira   lançou  nova  tese  de  que “considerando  o  nome  desse  povoador  e  dos  seus  filhos, deve  ser  descendente  de  Vasco  Marinho  Falcão, marido  de  Ignez  Lins, tronco  dos  Marinhos  e  Falcão  do  Nordeste,  e  que  tiveram  um  filho  Francisco  de  Souza  Falcão (Marcos  Antonio  Filgueira  in  “Velhos  Inventários  do  Oeste  potiguar” –  Série  C – Volume  740 –  Ano  1992).

Há  outro  famoso  grupo  familiar   oestano-potiguar  em  Portalegre-RN,  denominados  de  Pêgas  ou  Caboclos  do  Pêga, em  referência  à  fechada  comunidade  rural  de  nome  “Pêga”.

Existe  estudo   histórico,  antropológico  e  cultural  ainda  inédito, que  sintetiza  a  história  desta  comunidade   vinculando-a  ao  fato  da  comprovada  existência  do  cacique  indígena  Tapuia  Paiacu  batizado  com  o  nome  de  João  do  Pêga, mencionado  em  documento  oficial  sobre  a  chacina  de  70  índios  tapuias  paiacus  no  sopé  da  serra  de  Portalegre-RN, no  ano  de  1825, tendo  escapado  milagrosamente  o  dito  João  do  Pêga.

No “Pêga” assentava-se  a  aldeia  deste  resistente  indígena.  Escravos  fugitivos  de  distantes  plagas   procuravam  refúgio  e  abrigo  nesta  comunidade, surgindo  com  o  passar  do  tempo  os  inevitáveis  entrelaçamentos  familiares  negro  com  índio,  nascendo  daí  o  Cafuzo.

Os  notáveis  historiadores  Rocha Pombo, Tavares de Lyra e Câmara Cascudo foram unânimes  na  afirmativa  de  que  o  processo  de  ocupação  e  povoamento  do  interior  do  RN  fora  lento, penoso  e  gradual.  É  certo  afirmar-se  que  o  primeiro  passo  para  a  ocupação  destas  terras  teve  o  Entradista  paraibano  Manoel Nogueira  Ferreira e  Ferreira (05/05/1655/ Aldeia  do  Lago  Pody  17/01/1715).

Estes mesmos   historiadores  afirmam que  Apodi  foi  o  polo  irradiador  de  todo  o  processo  de  ocupação  do  solo  nesta   citada  região, espraiando sua  influência  até  os  contrafortes  da  região  lindeira, divisa  com  os  estados  da  Paraíba  e   Ceará.   É  indubitável  que  todo  o   processo  de  povoamento  teve  como  elemento  norteador   na  presença   dos  famosos  Terços  militares  acossando  a  indiada   hostil  em  seus  feudos  naturais  Assu, Apodi  e  região  Jaguaribana.

Inté, amigo webleitor.

Marcos Pinto é advogado, historiador e pesquisador

O poder das cartas

Por Paulo Linhares

Na História do Brasil, que remonta cinco séculos de colonização europeia, as cartas têm representado um papel fundamental, a começar pela carta que o escrivão-mor da frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha, enviou a el-Rei Dom Manuel, o Venturoso, comunicando em grandiloquente estilo o ‘achamento’ de novas terras, datada de Porto Seguro (hoje no Estado da Bahia), no dia 1 de maio de 1500, cujo ‘estafeta’ teria sido Gaspar de Lemos, comandante do navio de mantimentos da frota, designado a levar à pátria-mãe tão alvissareiras notícias.

Claro, a despeito de Caminha considerar aquela missiva algo “inferior”, razão porque pedia desculpas ao ilustre destinatário, não deixou de interceder junto ao soberano português pela libertação de um genro, preso por assalto e agressão, o que é considerado como o marco inicial da prática de nepotismo no Brasil, nos exatos termos usados pelo arguto escrivão:

– “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, 1º dia de maio de 1500.”

Estava inaugurada a safadeza que perpassaria cinco séculos de patrimonialismo, de paternalismo, de confusão entre o que é público e o que deveria ser privado, de privilégios, de nepotismos e, por último e não menos importante (“last but not least”, na língua de Shakespeare),  a velha corrupção endêmica e sistêmica que marca a cruel hegemonia política, cultural e econômica da Casa-Grande que, para alguns maldosos ou ignorantes pura e simples, seria recentíssima invenção “desse povo do PT”.

Interessante é notar que, afora as cartas de alforria, todas as outras inventadas pelos  burocratas do Estado brasileiro, nestes quinhentos anos, refletem privilégios antirrepublicanos, a exemplo das cartas patentes, aqueles documentos emitidos pelo poder público que encerram privilégio, concessão ou autorização de funcionamento, lastimavelmente ainda presentes neste país.

No mais, o Brasil tem muitas outras cartas no seu sistema administrativo-legal: carta de abono, carta de adjudicação, carta de aviso, carta de citação, carta de consciência, carta de corso, carta de crédito, carta de fiança, carta de guia, carta de marca, carta de prego, carta de remessa, carta do abc, carta magna, carta precatória, carta régia, carta reversal, carta rogatória, cartas dimissórias, carta testamentária, carta testemunhável, carta topográfica etc.

Se preocupe não, amigo(a) leitor(a): o bom Aurélio, no verbete “carta”, diz o que significa cada uma destas citadas e outras mais. Enfim, cartas e mais cartas nos costumes destes brasis, cartas à mancheia, para tomar por empréstimo conhecida expressão do nosso maior poeta, Castro Alves, acerca dos livros, os primos ricos das cartas, no seu poema “O livro e a América”:”Ó bendito o que semeia/ livros, livros à mancheia/ e manda o povo pensar./ E o livro caindo n’alma,/ é germe que faz a palma,/ é chuva que faz o mar”(…).

Doutra parte, no âmbito das relações privadas, sejam comerciais ou pessoais, as cartas sempre constituíram importantes ferramentas de comunicação, inclusive, as cartas de amor que o multicitado vate lusitano, Fernando Pessoa, na pele do seu heterônimo Álvaro de Campos, taxa de ridículas: “Todas as cartas de amor são/ Ridículas. /Não seriam cartas de amor se não fossem/ Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,/ Como as outras,/Ridículas.” Na contramão de Pessoa, é também bendito o que semeia cartas, mesmo que sejam apenas cartas de amor.

Aliás, nos últimos dois séculos se notabilizaram as cartas trocadas por reis, pensadores e literatos, que tiveram o importante papel de desvendar fatos históricos e estabelecer parâmetros de análise da vida e do pensamento dos missivistas.

Arendt e Heidegger (Foto: Web)

Entre escritores e pensadores de variadas extrações, essas cartas passaram à condição até de um novo estilo literário, o epistolar. As cartas trocadas, por exemplo,  entre  os filósofos Hannah Arendt e Martin Heidegger, de 1925 a 1975, até pelo inusitado de serem mentes brilhantes e opostas, além da componente amorosa, se tornaram um marco desse estilo. Noutro exemplo, tem-se a genialidade de um Câmara Cascudo e sua volumosa correspondência com pensadores do Brasil e do mundo. Enfim, a partir do século XVII, as epístolas de pessoas letradas passaram a revelar muito mais dos que até dizem suas obras publicadas em livros e escritos avulsos.

Fato é que, nos dias que correm, a Internet sepultou as velhas cartas de todos os matizes, substituídas que foram pelos velozes “posts”, sejam abertos, para conhecimento geral, ou no “privado” para atingir destinatários específicos, porém, quase sempre lavrados em linguagens que se afastam das regras da gramática normativa e criam novas – e nem sempre razoáveis! – possibilidades de comunicação escrita, sobretudo, com abreviações e ablações nem sempre compreensíveis para não iniciados.

No entanto, quando se pensava que as velhas cartas eram coisas do passado, eis que ressurgem com vigor no atual cenário político brasileiro: impedido de fazer comunicações diretas com seus acólitos, eis que encarcerado a cumprir pena numa enxovia estatal no Califado de Curitiba, o ex-presidente Lula resgata as cartas para expressar seu apoio a futuros postulantes de mandatos eletivos diversos, em textos concisos, despojados e singelos. É a voz das senzalas e mocambos a espargir resistência e vontade política.

Os destinatários dessas missivas, ressalte-se, assumem a condição legatários do capital político-eleitoral do líder petista que “surfa” em mais de 50% das intenções de voto na eleição presidencial brasileira de 2018, embora sabidamente não possa emplacar uma candidatura à presidência da República, eis que enquadrado nas restrições da Lei da Ficha Limpa que ele mesmo sancionou num impensado arroubo politicamente correto e se tornou, ele mesmo, anos depois,  “carta fora do baralho” nas eleições de 2018.

Nesse embaralhamento estranho de valores que medram nestas planícies tupiniquins, enquanto o barco da nação soçobra perigosamente em oceano de crises, os dilemas do Encarcerado de Curitiba, em futuro próximo, talvez se enquadrem naquela assertiva  de Victor Hugo de que “as suas reflexões não eram pensamentos, o seu sono não era repouso. De dia não era um homem, de noite não era um homem adormecido”.

E para saber o que acontecerá no próximo outubro, resta aos mortais comuns, a exemplo do que fazem alguns políticos e artistas famosos, conseguir uma cartomante que conheça bem a arte de “deitar as cartas”…

Paulo Linhares é professor e advogado

Índole da vergonha

Por François Silvestre

País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.

Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.

Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.

Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.

Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freire abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.

Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. E a índia não era fácil, era enganada ou possuída. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.

Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade. A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.

E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes. Da mesma Europa falida; italianos, alemães, poloneses, espanhóis, russos, escandinavos, somados aos orientais, de onde o sol nasce primeiro.

Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.

Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.

Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores. Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes.

Se o futuro dessa molecada que cresce agora for melhor do que estamos construindo, certamente terá vergonha do nosso presente. Tomara que assim seja, a vergonha de uma índole de mentira. E que essa molecada consiga repor, na prática, a antropologia do otimismo.

mais.

François Silvestre é escritor

‘Festival de Caboclos’ será de 27 a 31 de março em Major Sales

O município de Major Sales, na região Oeste do RN e distante 429 quilômetros de Natal, vai realizar a 28ª edição do seu “Festival de Caboclos”. Será entre os dias 27 e 31 de março, numa iniciativa de sua prefeitura e apoio de diversos parceiros.

O evento ocorre em plena Semana Santa. Faz parte do calendário cultural do estado e atrai o interesse de numeroso público na região e de outras áreas do estado e da vizinha Paraíba.

Cidade tem evento como uma atração que exalta a cultura e está em calendário estadual (Foto: PMMS)

Sua programação contempla apresentações culturais, encontro de sanfonas, itinerário de turmas de caboclos pelas ruas da cidade, arrastão cultural, exposições, espetáculos teatrais e shows musicais com artistas locais, regionais e nacionais.

A dança foi criada em 1924 pelo boiadeiro José Berto da Silva, que teve como inspiração a dança indígena, com sua pisada forte e evoluções cadenciadas. Os Caboclos, segundo o escritor e folclorista Câmara Cascudo, são oriundos da Península Ibérica, mas são comuns em toda América Latina.

As roupas de trapos de panos, multicoloridos, provocam um impacto plástico surpreendente, ao lado de sua coreografia (saiba mais clicando AQUI).

Veja a programação:

27 de março  | Terça-feira
19h – | Abertura Oficial
:: Apresentação das Orquestras Sanfônicas Mirim  e Adulta da Associação Comunitária Sociocultural de Major Sales;
:: 2º Encontro de Sanfonas – Comenda: José Auclimar de Morais “Baiá”;
23h – | Shows com: Dorgival Dantas, Anízio Junior e Giannini Alencar.

28 de março | Quarta-feira
19h – | Abertura da Exposição “Na pisada dos Caboclos”.
20h – | 1º Noite de Itinerário dos Caboclos:
:: Apresentação Cultural do Pronatec;
:: Apresentações das Turmas de Caboclos: Baixio, Ailton e Antonio Grosso.

29 de março | Quinta-feira
19h – | Continuação da Exposição “Na pisada dos Caboclos”;
20h – | 2ª Noite de Itinerário dos Caboclos:
:: Apresentação Cultural do Grupo de Caboclos e Rei de Congo do Mestre Bebé;
:: Apresentação das Turmas de Caboclos: Canarinhos e Anchieta.

30 de março | Sexta-feira Santa
19 – | Apresentação da Peça Teatral “Paixão de Cristo” – Grupo Gruteu de São Gonçalo do Amarante/RN.

31 de março | Sábado de Aleluia
07h – | Arrastão Cultural dos Caboclos (concentração na Prefeitura Municipal);
19h – | XXVIII Concurso de Caboclos – Malhação de Judas;
23h – | Shows com Walkyria Santos, Joelma e Banda Cavalo de Pau.

Nota do Blog Carlos Santos – Espero poder este ano, finalmente, conhecer essa interessante expressão cultural.

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A maldição da escrita

Por François Silvestre

Ou a “dura escritura” a que se referia Clarice Lispector. É certo que ninguém, do ramo de mesmo, escapa impune dessa maldição.

Tranquilizem-se os que fazem da escrita apenas um exercício de redação, principalmente na internet, onde todas as línguas são maceradas pelas penas infames dos redatores de shoppings. Não serão alcançados pela maldição.

Aliás, nesse caso a maldição atinge o leitor. O coitado pune os olhos e ainda maltrata a escassa instrução. São leitores de copistas que nem sabem de onde vem o palimpsesto. Nem pra onde vai.

Mas essa não é a maldição de que trata o presente texto. Aqui eu quero cuidar da real escrita, maldita e carcereira que mantém sob cadeados os que a usaram ao longo da vida sem perceber que é ela a usá-los e não o contrário.

E quando percebem, já nada podem fazer. Apenas esperneiam, deprimidos e angustiados. Sentindo os grilhões que lhes aprisionam o juízo.

Foi assim com Manoel de Barros. Poeta da desfeitura, do desaprender para atingir o miolo do desconhecimento. Da inutilidade mais útil do que todas as utilidades práticas. Essa inutilidade a que se refere Kerubino Procópio, como exercício do envelhecer.

E o castigo foi a morte do riso do poeta, ainda em vida. Abatido pela depressão que não perdoa nem a poesia.

Com Câmara Cascudo. Escreveu mais livros do que os leitores que tem. Escreveu mais do que a maioria lê durante toda a vida. Também viveu, e o fez intensamente. Mas não se livrou da maldição, ao pronunciar uma única vez a amargura provinciana. “Não consagra nem desconsagra”…

Com José Lins do Rego. Sua escrita é a tentativa frustrada de espantar o fantasma de um garoto a cuja morte lhe deu causa.

Com Ariano Suassuna. A tragédia que abateu sua família, quando um parente seu matou João Pessoa. E o resultado mais brutal foi o assassinato do próprio pai. Diniz Quaderna, d’A pedra do Reino, confirma o revelado. Que nem Sinésio, o alumioso, conseguiu alumiar.

Com Guimarães Rosa, o “reacionário da palavra”, a feitura nova da frase. “Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que fui o primeiro que cri”. Premonitor da própria treva.

Com Drummond de Andrade. A poesia mais chafurdada por críticos e acadêmicos. O esplendor poético na pele de um funcionário tímido, da burocracia oficial.

Com João Cabral de Melo Neto. A poesia de pedra a ser jogada secamente na cara dos sentimentos, para negá-los. E a rendição final, ante a fraqueza física que não se nivelou à fortaleza poética.

Com Mário de Andrade. Angústia antropofágica e partida precoce. As letras e a música modelaram a maldição íntima de um homem além do tempo. “No Pátio do Colégio, afundem meu coração”.

Com Clarice Lispector. “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. A dor invisível do próximo instante desconhecido. Ou presentemente visível. Em Manoel Bandeira, Oswaldo Lamartine, Zila Mamede, Augusto dos Anjos. Nenhum anjo.

E assim é com quem paga o preço dessa maldição. Da palavra escrita com jeito novo, mesmo sendo palavra velha. Do espanto que causa a cópula das palavras a embuchar a frase e parir o rebento.

Té mais.

François Silvestre é escritor

O escudo ético do ministro Alexandre de Moraes

Por Honório de Medeiros

A “Teoria do Escudo Ético”, concebida e refinada por Frederico Pernambucano de Mello em “Guerreiros do Sol”, a mais importante obra acerca do epifenômeno do cangaço, e que Câmara Cascudo intuíra em “Vaqueiros e Cantadores”, explica a justificativa dada pelos cangaceiros a si mesmo e aos outros para sua vida de crimes.

Encaminho os leitores para o texto seguinte “Câmara Cascudo- Frederico Perbambucano” AQUI:

Para Cascudo, ao explicar por que a valentia, quanto aos cangaceiros, originava a “aura popular na poética” dos cantadores, necessário se fazia a existência, como pressuposto, do fator moral, que nada mais era que o “escudo ético”.

Disse Cascudo:

“Para que a valentia justifique ainda melhor a aura popular na poética é preciso a existência do fator moral. Todos os cangaceiros são dados inicialmente como vítimas da injustiça. Seus pais foram mortos e a Justiça não puniu os responsáveis.”

Frederico Pernambucano de Mello fala do banditismo no sertão nordestino narrando o fenômeno do cangaço (Foto: Web)

A “Teoria do Escudo Ético” não se aplica somente ao estudo do cangaço. Também pode ser utilizada para explicar a forma como fugimos da obrigação de assumir a responsabilidade pelos nossos atos. Ou como nos contrapomos aos nossos críticos.

Recentemente, o Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes afirmou o seguinte:

“Se quer fazer populismo, não seja juiz”.

E criticou juízes e procuradores que buscam popularidade. Provavelmente foi uma alfinetada em seu colega Gilmar Mendes, que busca incessantemente gerar fatos que o coloquem na mídia.

Entretanto o fundo da questão, na verdade, é outro. Alvo de críticas em relação aos seus votos na Suprema Corte, Moraes lançou mão do escudo ético.

Moraes: ética? (oto: Web)

Implicitamente justificou suas decisões como sendo corretas, do ponto de vista legal e de legitimidade, e aquelas que não semelhantes as suas, mas são respeitadas pelo seus críticos, de populistas.

Ou seja: suas decisões são impopulares mas legais e legítimas; a dos outros são populares, mas ilegais, ou ilegítimas, ou inferiores.

É indiscutível que o Ministro deva e possa julgar como quiser; já não o é quando, julgando como julga, ao invés de respeitar a opinião alheia, trata de desqualificá-la.

Pois em se tratando de Direito, um universo de valores, não há certo ou errado, há opiniões contrárias, e mecanismos (o uso da força, por exemplo) que fazem com que uma delas prepondere sobre as outras.

Parece mais um mecanismo de defesa.

Um escudo ético.

Ruim, por sinal.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do RN

Fatos forjados na história de Mossoró

Por Marcos Pinto

Tenho encontrado, não raros fatos, descritos por alguns historiadores e pesquisadores desta “Província” (Mossoró) completamente divorciados da realidade geradora da história. Em uns percebe-se a intenção deliberada de ocultar algum libelo ou vício que recai sobre um protagonista, em outros a evidência em proteger algum parente ou amigo, arrolados pela prática de não heroico nunca praticado.

Cito como exemplo a versão criada pelo clã Rosado e remuneradamente adotada por Câmara Cascudo, Edgar Barbosa e Raimundo Nonato da Silva, de que a viagem em que perecera Dix-sept Rosado tinha como objetivo ultimar empréstimo de trinta milhões de cruzeiros com os quais ampliaria os serviços de abastecimento d`água de Natal, Mossoró e Caicó.

O renomado João Maria Furtado, em sua inexpugnável obra intitulada “Vertentes”, publicada no Rio de Janeiro em 1976, pela gráfica Olímpica, contesta esta deslavada versão com argumentos eivados de rasgos de veracidade, cuja tese contestatória consta no livro “A(Re)Invenção do Lugar – Os Rosados e o País de Mossoró” do Prof. Dr. José Lacerda Alves Felipe, com o seguinte teor:

“Outras vozes davam objetivo diferente e menos mitológico à referida viagem, pois seu sentido real, estava relacionado à resolução de problemas criados com a partilha dos cargos estaduais entre lideranças e os partidos que elegeram Dix-Sept e que compuseram, portanto, a “Aliança Democrática” na qual Café Filho, julgando-se Presidente da República, nomeara apenas seus correligionários para os cargos federais do Estado”.

Em que pese os relevantes serviços prestados à cultura, pelo prof. Vingt-un Rosado, observa-se a intenção deste em fixar o falecido irmão Dix-Sept como herói cívico, como mártir que se sacrificou pela resolução do problema de água em Mossoró e no RN, afirmando que a “água era a própria história dos Rosados a começar do velho patriarca” (vide livro de sua autoria “O protocolo de Mossoró; …Coleção Mossoroense – 1998) ”.

Quando Vingt Rosado foi eleito prefeito de Mossoró em 1952 teve como uma das primeiras metas adotadas, a contratação dos historiadores Câmara Cascudo e Edgar Barbosa para, sob o “incentivo” de larga remuneração, utilizarem seus conhecidos naipes literários para traçarem uma espécie de culto à personalidade, atribuindo conotações heroico/históricas às pessoas de Jerônimo Rosado, Dix-sept Rosado e Ana Floriano, respectivamente pai e irmão de Vingt, e bisavó paterna da esposa de Vingt.

Assiste razão a Juarez Távora quando afirma que “O memorialista conta o que quer, o historiador deve contar o que sabe”.

A história deve ser contada a partir de documentos oficiais, e estes sepultam definitivamente a versão de que Ana Floriano comandou o famoso Motim das Mulheres. Senão vejamos. Em oficio datado de 4 de setembro de 1875, o então Juiz de Direito de Mossoró, Bel. José Antônio Rodrigues, comunica ao Presidente da Província do RN, dentre outros itens:

– “Presenciaria esta cidade a farsa mais ridícula de um grupo de 50 a 100 mulheres mal-aconselhadas por seus maridos e parentes, e capitaneadas por D. Maria Filgueira, mulher de Antônio Filgueira Secundes, D. Joaquina de Tal, mulher do camarista Silvério Ciriaco de Souza e D. Ana de Tal, mãe de Jeremias da Rocha Nogueira… (Vide livro “Escócia – 2ª Edição pag. 130:133 – Coleção Mossoroense – Vol. 989). D. Maria Filgueira era a mãe do Major Romão Filgueira.

O pesquisador historiador Lauro da Escócia fez, ainda os seguintes insertos históricos inexplicáveis:

– “Que o Motim das Mulheres” era composto por cerca de 300 mulheres, que Ana Floriano se armara com um espeto de ferro e postara-se na Agencia Consular Portuguesa em Mossoró, em uma escada defendendo o filho Jeremias José Damião e Ricardo Vieira do Couto, no atentado praticado por Rafael Arcanjo da Fonseca e outros, no dia 1º de janeiro de 1875. Que Ana teria dito: “quem subir a escada morre na ponta deste espeto”.

Vejamos o que diz o sobrinho-neto de Lauro, o jornalista Cid Augusto, em seu livro acima citado – pag. 153: “Contrariando a versão mencionada anteriormente, Jeremias presta, em seu texto, solidariedade a José Damião e ao Agente Consular Frederico Antônio Carvalho, o que pode significar que ele e Ricardo Vieira do Couto não estavam presentes no local do acontecimento, a Agência Consular Portuguesa. Em momento algum, Jeremias se refere a Ana Floriano”.

Jeremias faleceu em 1881.

Há que ressaltar que o próprio Cid Augusto, homem de reconhecido talento literário, procura, de forma incontida e insubsistente, infundir a ideia  de que Jeremias da Rocha Nogueira (seu ascendente) encarnaria a ideia abolicionista.

Todos os documentos são unânimes na configuração de que Mossoró teve desencadeado o movimento libertário somente em janeiro de 1883, culminando em 30 de setembro do mesmo ano. O resto é coisa para ser contada no “arco da velha” ou na “Povoa do Varzim”.

Inté!

Marcos Pinto é advogado e escritor

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Livro percorre caminhos de Henry Coster 200 anos depois

O livro Travels in Brazil, escrito pelo inglês Henry Koster, um viajante do Brasil do século XIX, traduzido por Câmara Cascudo nos anos 1940, que deu o título “Viagem ao Nordeste do Brasil”, tornou-se há alguns anos objeto de estudo do pesquisador Flávio Hildemberg Gameleira. Ele é cirurgião dentista e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema/UFRN).

Mas não lhe interessava apenas o aspecto histórico que, obviamente, um livro escrito há 200 anos traz em si.

O mote inicial que lhe despertou o interesse inicial foi a descrição do vaqueiro nordestino que tanto lhe chamou a atenção, quando se deparou com um desenho, cuja origem era o livro do inglês, que iniciou sua jornada em 1810 e publicou o livro em 1816. Assim, nasceu “200 Anos de Viagem de Henry Koster pelo RN”, que trata de aspectos ambienteis, históricos e culturais no Rio Grande do Norte de ontem e o atual.

O lançamento será na próxima terça-feira, 5 de setembro, às 11h, na Cooperativa Cultural Universitária, no Centro de Convivência da UFRN.

O livro, que faz parte da Série Humanidades I da Caravela Selo Cultural, custará R$ 40.

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Teatro de horrores

Por François Silvestre

País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.

Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.

Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.

Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.

Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freyre abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.

Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.

Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade.  A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.

E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes.

Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.

Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.

Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores.

Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes. O futuro certamente terá vergonha do nosso presente.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

A Revolução Pernambucana de 1817 e a região Oeste potiguar

Por Marcos Pinto

A chamada Revolução Pernambucana, também conhecida como Revolução dos Padres, foi um movimento emancipacionista que eclodiu em 6 de março de 1817, na então Capitania de Pernambuco, no Brasil, culminando  em 19  de  Maio  do  mesmo  ano.

Dentre as suas causas, destacam-se a influência das ideias Iluministas propagadas pelas sociedades maçônicas (sociedades secretas), a crise econômica regional, o absolutismo monárquico português e os enormes gastos da Família Real e seu séquito recém-chegados ao Brasil — o Governo de Pernambuco era obrigado a enviar para o Rio de Janeiro grandes somas de dinheiro para custear salários, comidas, roupas e festas da Corte, o que ocasionava o atraso no pagamento dos soldados, gerando grande descontentamento do povo brasileiro.

Foi o único movimento separatista do período colonial que ultrapassou a fase conspiratória e atingiu o processo revolucionário de tomada do poder. Câmara Cascudo, historiador-mar do Rio Grande do Norte definiu esse movimento como “…A mais   linda, inesquecível e inútil das Revoluções brasileiras.  Em relação a então Capitania do Rio Grande do Norte, a região Oeste assume papel relevante promovendo intercâmbio com as Capitanias do Ceará e Paraíba.

Assumiu proporções com magnitude de vulto, que chegavam a ofuscar as conspirações engendradas na cidade de Natal.

Essa temática suscitou um longo processo investigativo que soma o decurso de quatro décadas, em que colhi subsídios diversos e dispersos constantes em obras famosas, citando-se as que tratam sobre a história do RN, dos célebres historiadores Tavares de Lira, Rocha Pombo e Câmara Cascudo.

Destaca-se, ainda, a famosa Coleção denominada “Documentos Históricos”, publicada pela Fundação Biblioteca Nacional, Divisão de Obras raras, no ano de 1955, Volumes CV a CX.

Esse artigo não representa trabalho didático.  Costumo fugir dos planos metódicos e da aridez dos compêndios.  Constitui mais um processo de resgate dos protagonistas e heróis que se sacrificaram pela causa da independência do país, promovendo o bem coletivo e o progresso da nação.

Quando faz abordagem sobre esse movimento separatista no RN, o historiador Rocha Pombo cita a região do Apodi como foco irradiador desse ideal revolucionário, para as Vilas de Portalegre, Martins e Pau dos Ferros.

Em Portalegre e Pau dos Ferros eram comandados pelos Padres João Barbosa Cordeiro e Manoel Gonçalves da Fonte, respectivamente. Observa-se marcante desenvoltura desses padres, em suas pastorais e efusivos discursos nos púlpitos de suas paróquias.

Na devassa feita por determinação da Corte portuguesa radicada no Brasil, são citados os nomes dos levantados do Apodi, com ênfase para os Capitães do Regimento de Milícias das Várzeas do Apodi José Francisco Ferreira Pinto, José Ferreira da Mota (O 1º deste nome), Manoel Freire da Silveira. O contato dos revolucionários apodienses com Pernambuco eram feitos pelo Capitão José Ferreira da Mota que, disfarçado de comprador de gado, se dirigia até à cidade de Olinda, onde o seu filho de igual nome, estudava no Seminário, onde ordenou-se em 1820.

Esse notável Clérigo nasceu na fazenda “Santa Cruz” no ano de 1797, tendo falecido – acometido pelo ‘Cólera morbos” – na Vila de Brejo do Cruz, no ano  de 1862.

Dentre  o  vasto  referencial  aos  fatos  desse  movimento  revolucionário em terras do Apodi, sobressai-se  a revel de que o belo lugar de nome “Passagem Funda”, encravado no célebre “Brejo do Apodi”, era valhacouto dos revolucionários da Região Oeste, destacando-se os irmãos Domingos Alves Ferreira Cavalcanti (Falecido a 02.10.1830), Manoel  Januário  Bezerra  Cavalcanti  (Residia  no  Ceará)  e  Capitão  Antônio  Alves  Ferreira  Cavalcanti, residente  em  Portalegre, depois  na  Serra  do  Martins.

Em torno desse retumbante movimento revolucionário, cita-se, ainda, os relevantes serviços prestados pelos irmãos João Saraiva de Moura e David Leopoldo Targino, filhos do Capitão-mor Geraldo Saraiva de Moura, que casou em segunda núpcias com Rita Maria de Jesus, pernambucana, filha do primeiro Padre da Paróquia de Apodi  João da Cunha Paiva (1766-1776), patriarca dessa tradicional família da região Oeste potiguar.

Não olvidemos, também, a pessoa do Capitão Agostinho Pinto de Queiroz, comandando os ideais revolucionários na dadivosa Serra do Martins.  Essa figura de vulto passou dois longos anos preso nos cárceres da Bahia.

Esses dados sobre os irmãos Moura foram colhidos do   livro “Velhos Inventários do Oeste Potiguar”, de autoria de Marcos Antônio Filgueira –   Coleção Mossoroense – série C –  Volume 740 –  ano 1992.

Logo que os revoltosos souberam do aniquilamento do movimento revolucionário, ocorrido em 19 de Maio de 1817, aderiram imediatamente ao comando da Corte portuguesa.

Para escapar da sanha perseguidora pós-revolução, o indômito apodiense Capitão José Francisco Ferreira Pinto resolveu transferir sua residência para a Vila Rio Preto, na Província de Minas Gerais, de quem descende o renomado banqueiro (Dono do Banco Itaú) e político mineiro Magalhães Pinto.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor