O clássico livro do escritor inglês, Charles Dickens, que tem o título desta crônica, inspirou-me a escrever o presente texto. O romance tem como personagem principal o senhor Scrooge, um velho rabugento que odeia o Natal e tudo que o envolve. Ele trabalha em um escritório em Londres com o seu empregado, Bob Cratchit.
No entanto, o fantasma de um falecido sócio de Scrooge aparece para ele, dizendo-lhe que três fantasmas irão acompanhá-lo em uma viagem ao passado, presente e futuro, a fim de que o velho repense a sua vida e seus valores.
Eis, em breves palavras, o resumo do mencionado livro.
De fato, a época do Natal é momento de inúmeras confraternizações, trazendo lembranças e saudades. Muitas famílias e amigos se reúnem nesse período para trocarem presentes e degustarem uma deliciosa ceia, além de sorrisos, abraços e discursos com palavras bonitas e reflexivas.
Por outro lado, entretanto, celebrar o Natal não é a realidade de milhões de pessoas. Para quem não tem o que comer, um teto para se abrigar e um lençol para se cobrir, a Noite do Natal é somente mais uma. Há, também, quem ache essas confraternizações uma verdadeira hipocrisia, pois no ambiente de trabalho, e até mesmo no seio das famílias, existem aqueles que adoram “puxar o nosso tapete”.
De toda forma, a época do Natal, para quem acredita no “clima natalino”, é a oportunidade de repensar atitudes e valores. O que fizemos? Em que posso melhorar enquanto pessoa? Talvez, fazer mea-culpa seja fundamental para se tentar uma mudança na forma de pensar e, sobretudo, de agir.
Certa vez, o escritor José Lins do Rego disse que “não há mais ninguém, neste mundo de Deus, que acredite em sentimentos humanos, em grandeza de alma, em boas intenções”. Eu, todavia, creio que não devemos deixar de acreditar na criatura, porque se assim for, deixaremos de acreditar no Criador.
Enfim, caro leitor, eu não sei se você credita no espírito do Natal. Porém, desejo-lhe muita saúde, sossego e uma ruma de coisas boas.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Durante as primeiras horas da manhã, depois que tomei os remédios, comecei a sentir fortes cólicas e ânsia de vômito. Resultado: findei vomitando uma água esverdeada. Como não bastasse, fui ao banheiro e constatei que minhas fezes estavam esbranquiçadas; o que já ocorreu umas quinze vezes, mesmo antes de eu receber o diagnóstico. Embora evacuando em dois momentos, num intervalo de cerca de meia hora, as cólicas não cessaram. Assim, no intuito de interromper esse mal-estar, tomei quarenta gotas de Buscopan. Em curto tempo a escopolamina foi eliminando as dores e a náusea, até findarem por completo.
Tomei um banho e escovei os dentes. A seguir preparei o café, junto com o qual comi um pão francês com manteiga e uma fatia de queijo de coalho. Felizmente, repito, os desconfortos sumiram. Apesar da melhora não me senti disposto a ligar o computador e redigir nada. Fiquei deitado na rede armada no quarto. Por volta do meio-dia fiz ovos mexidos com rodelas de banana. Este foi o meu almoço. Só agora, às quatro e onze da tarde, venho compor esta narrativa.
Não recordo direito o que abordei no capítulo passado. Deixo aos leitores (ainda me restam alguns) a tarefa de fazer esse tipo de conferência, acaso lhes falte a memória do que expus no último domingo. É isso. Não estou a fim, indisposto para abrir o arquivo e rever os pormenores, verificar se é o caso de concatenar o assunto de agora com o anterior. Acho que por hoje vou seguir um rumo indireto, sem vínculo com o enredo pretérito. Sinto que me alonguei no texto pregresso. Alguém já me disse que eu deveria escrever capítulos mais curtos. Esse alguém foi o saudoso Inácio Augusto de Almeida.
Parece-me que a trama de agora não vai sobreviver ao meu fastio, à minha desmotivação. Certas vezes nos perdemos no caminho, acabamos tomando uma direção desconexa. Dessa forma, com ou sem a indulgência do leitor, exporei uns assuntos, umas histórias desinteressantes. Nem as ostras produzem somente pérolas. Gravei isto em alguma página de que não tenho nenhuma lembrança em qual foi.
Perdoem o lugar-comum, mas, como diria Jack, o Estripador, vamos por partes. Penso que sequer o próprio Jack (nos infernos onde possa se encontrar) perdoará esta minha falta de criatividade, de algo melhor para ser dito. Neste momento, embora sem a menor intenção, acabo de me lembrar do que tratei no último relato. Contudo, ao menos por enquanto, não vou requentar aquela conversa com as pessoas que recebi no fim da tarde de ontem. Bom, falei que vamos por partes. Quem sabe dessa forma eu adquira um norte para esta narração ferida de mortal esterilidade. Pois é. Estiveram aqui, finalmente, os homens de letras Carlos Santos (jornalista), Marcos Araújo (advogado e professor) e Clauder Arcanjo (engenheiro civil e petroleiro).
Entretanto, conforme alertei, não quero retomar este assunto. Tenho a sensação de que já esgotei o bate-papo na referida ocasião. É certo que voltarei a falar a respeito dessa conversa noutra oportunidade. Neste minuto meu foco é outro. De repente me vejo pensando no vizinho à esquerda de minha casa. Aliás, para ser exato, penso na vizinha, aquela que foi brutalmente espancada por seu companheiro há mais ou menos três semanas. Todo castigo para quem agride física e covardemente uma mulher daquela maneira é pouco. Na verdade, como falei no ensejo em que discorri acerca do caso, não se bate em mulher nem com uma flor. O caule pode conter espinhos.
Agorinha, por coincidência, verifiquei uma movimentação no referido endereço. Olhei a rua por cima do muro e avistei dois homens em companhia da mulher agredida. Ela estava abandonando de vez aquela pequena moradia e, se possível, também as memórias traumáticas que, suponho, estão incrustadas naquelas paredes. Retiravam os móveis e os colocavam (especialmente os objetos maiores) na carroceria de um caminhão de médio porte. Havia uma outra jovem entre eles; esta ajudava a transportar coisas menores, que eram levadas para a caçamba de uma picape branca estacionada a uns cinco metros do caminhão. Decerto era uma amiga, quiçá uma prima ou irmã. Decorrido todo esse tempo da brutal surra sofrida por aquela criatura franzina, só hoje retornou ao domicílio para recolher o que lhe pertencia. O imóvel era alugado. Melhor analisando, três homens retiravam as coisas, colocando-as em cima do caminhão. Um deles era um rapazinho com algo em torno de vinte e dois anos. Seus traços fisionômicos pareciam com os da espancada. Considerei que pudesse ser irmão dela.
Outros vizinhos, uns dez ou mais, sem demonstrarem discrição, saíram para as calçadas e acompanhavam a retirada dos troços e utensílios. Duas mulheres da casa diante desta, a senhora Das Neves e a filha Magnólia, decerto por possuírem alguma intimidade junto à vítima, não perderam tempo e foram conversar com essa que agora é ex-moradora da Pedro Velho. O mais provável é que o agressor continue em poder da polícia. O caso teve ampla repercussão; foi veiculado e repudiado nos principais programas televisivos deste país, nas redes sociais e nos telejornais.
Acho que vou, pelo menos neste ensejo, ser breve e colocar um ponto final nesta página, seguindo o conselho do falecido Inácio Augusto de Almeida. Pois é. Inácio era um assíduo, um infalível colaborador e crítico do Blog Carlos Santos (BCS). Todos os dias ele tinha algumas opiniões sobres as postagens. Havia iniciado, quando se encontrava com a saúde favorável para isso, a publicação de um romance folhetim no BCS. Os capítulos, como me propusera, eram de fato curtinhos. Entrementes a saúde de Inácio foi se complicando, e o romance ficou sem desfecho. Suponho até que não atingiu a metade do que ele pretendia tornar público. Inácio baixava o pau em gregos e troianos. Especialmente em tudo que dissesse respeito ao atual inquilino do Palácio da Alvorada e Granja do Torto.
Como ninguém é perfeito, era um defensor mórbido do bolsonarismo. Batia com muito mais força no, conforme denominava, Nove-Dedos, o qual, entre outros afagos, chamava de cachaceiro e ladrão. Se vivo ele continuasse, estaria hoje colocando fogo pelas ventas em virtude da condenação (pelo STF) do Percevejo Supremo. Seja como for, o senhor Inácio Augusto está fazendo falta.
Espero amanhã estar me sentindo bem, livre de náuseas e cólicas, para então elaborar algo menos emaranhado. Tenho agora a sensação de que entrei em um oito e não consegui encontrar a saída. Todos que rabiscam correm esse risco. Porque esta atividade não tem receita pronta, está longe (bastante longe) de ser uma ciência exata. Quem disser que escrever é fácil é porque não é escritor, segundo Luis Fernando Verissimo, morto em agosto deste ano. Estou de acordo com ele.
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Saíram há pouco. Combinamos de nos encontrar aqui às dezessete horas, isto após enfim eu quebrar o silêncio à noite de ontem e entrar em contato com eles via telefone. Achei que demorassem a chegar. Os três, porém, compareceramquase a um só tempo. O primeiro foi Carlos Santos. Marcos Araújo chegou logo depois e, após uns dois minutos, surgiu Clauder Arcanjo. Recebi-os com um abraço e lhes apertei a mãoainda na calçada. Retribuíram os abraços de modo enérgico. Como de outras vezes, a cafeteira já estava pronta. Entraram e fomos para a mesa da cozinha. Liguei a maquininha e esta começou a processar a rubiácea. O cheiro do moca ocupouo recinto. Notei que examinavam a casa com o rabo do olho,um tanto de esguelha.
Estou há uns dez dias sem fazer uma faxina. Tem poeira por todo lado e é possível de se notar o discreto rendilhado das teias de aranhanos recantos dos móveis, no teto e reentrâncias das paredes. A mesa, no entanto, eu havia limpado direito, sobre a qual coloquei emespera quatro pequenas canecas.
Descreverei agora o que se passou na visita que recebi por volta das dezessete horas, ocasião em que vieram aqui meus prováveis editores Carlos Santos, Marcos Araújo e Clauder Arcanjo. Um ar apreensivo estava estampado naqueles rostos. Esperavam que eu lhes contasse o quanto antes detalhes de minha doença, coisa que divulguei no blogue há quase um mês. Arcanjo me pareceu o mais ansioso.Tinha, repito, o cenho tenso e volta e meia lambia o lábio inferior, exibindo as sobrancelhas mais arqueadas do que de costume. Os outros dois não tinham um aspecto menos preocupado. A veia bem-humorada de Marcos Araújo sumira. A angústia era visível. Carlos Santos falou qualquer coisa sobre eu já lhe ter enviado capítulos com antecedência; e aí aproveitei a deixa para, enquanto lhes servia o cafezinho, por tudo às claras:
— Muito bem. Acredito que vocês têm ciência de queesse quadro de saúde (doenças, na verdade) é grave e incurável. Já me encontro com metástase. Estou tranquilo, resignado com o destino que se apresentou para mim. Apesar do impacto que sofri no dia em que o doutor Epitácio Coelho (o oncologista) me comunicou tal coisa, não demorei muito e comecei a enviar para o blogue do Carlos Santos essa história irreversível, sem possibilidade de cirurgia. É este o drama.
Clauder, engenheiro da Petrobras e também escritor, a exemplo de Marcos Araújo e de Carlos Santos,é cearense da remota e pequenina Santana do Acaraú.Nos últimos tempos elemantém um pé em Mossoró e o outro em Fortaleza.Tomou a palavra e destacou que deveríamos ouvir a opinião de outro médico. Carlos Santos balançou a cabeça e soltou um “exatamente”. Percebi que Clauder, além da fisionomiaentristecida, falava com a voz um tanto quanto embargada. Solícito, fraterno, ele me comunicou que eu contaria com todo o suporte necessário para essa viagem e consulta em um hospital especializado e particular daquele estado, berço de tantos grandes talentos na literatura e nas artes como um todo. Pois é, foi-me oferecida a opção de ouvir o parecer de outro doutor, além de contar comajuda financeira para essa finalidade na capital alencarina. Os demais prontamente aprovaram a proposta de Clauder:
— É isso, Fernando.Concordo com a ideia de Clauder.Podemos ir a Fortaleza o quanto antes fazer novos exames e consultar outro oncologista. Quem sabe esse tumor seja maligno, mas operável, sem metástase. Tentarnão lhe fará mal. Outra coisa que você não deveria desprezar é o tratamento por meio de radioterapia e quimioterapia.Não entregue os pontos tão depressa, sem lutar. Fortaleza é um centro mais avançado que Mossoró em vários aspectos — destacou Araújo.
Comecei a servir-lhes o café, que desta vez não obteve o sucesso como da maneira que ocorreu nas ocasiões em que estávamos aqui envoltos pelo puro prazer de nos reunirmos para bater papo, jogar conversar fora. Sentei-me à mesa com minha caneca e expusum ponto de vista acerca do meu próprio caso:
— Considero isso, senhores, algo inútil. A terra de Rachel de Queiroz não será minha salvação. Aliás, não há salvação para mim em parte alguma.Estou condenado e resignado com o que me espera em um tempo demasiado curto. Chamei-lhes aqui meramente para discutirmos o que será feito dos livros inéditos. Espero contar com a colaboração de vocês para não deixar os originais confinados no computador tantoquanto no e-mail. Hoje eu lhes informarei a senha. A esta altura dos fatos não desejo outra coisa. Já contratei até um plano funerário. Torço não morrer antes do período de carência para a cobertura dos procedimentos mortuários. Não adianta mais a gente recorrer a Fortaleza ou qualquer centro clínico deste país. Minha situação é um caso defavas contadas. O tempo que me resta é por demais exíguo. Então, estimados amigos, tenho pleno interesse de que fiquem com esta casa, o único bem material que possuo, além dessa bicicleta que estão vendo aí escorada no muro. Cuidarei, de maneira formal, para que tenham direito ao espólio. Não disponho de herdeiro algum. Depois podem vender este imóvel para custear a publicação de minhas obras. Sobretudo cinco romances e um livro de contos, isto sem falar na grande quantidade de poemas.
O jornalista Carlos Santos insistiu um pouco, tentou se agarrar à ideia de Clauder, entretanto acho que, lá no fundo, compreendeu que não há escapatória nenhuma para mim. Cada um tomou o primeiro gole do café e se conservaram em silêncio por cerca de um minuto. Mostravam-se impactados com a notícia do câncer e do destaque que dei ao detalhe da metástase. Carlos Santos, depois de soltar dois pigarros, falou sem me olhar diretamente, os olhos voltados para a caneca:
— Acho difícil acreditar no que está acontecendo. Desde os primeiros capítulos que você me enviou para publicar no blogue, o modo como se isolou até agora, isso me deixou angustiado. Você não merece tal coisa, meu caro. Ainda é jovem, com muita estrada para percorrer no universo das letras. Não é fácil, portanto, processar uma informação desta. Afligi-me esses dias todos recebendo os textos informando, sobretudo, seu estado crítico. Reconheço que não há nenhuma saída, contudo a parte de nos tornarmos herdeiros não me agrada. Sinto-me desconfortável. Será que você não tem por aí algum parente, ainda que distante? Claro que a venda de sua residência cobre tranquilamente os custos da publicação, mas de qualquer modo iríamos nos organizar para trazer esses livros a lume. É isso, prezado Fernando, a gente não se sente nada bem passando à condição de seus herdeiros. Tenho certeza de que Clauder Arcanjo e Marcos Araújo pensam igual a mim. Eu me sentiria muito melhor se tivesse alguém a quem deixar sua casa. Essa doença maldita, no estágio em que o tumor se encontra, não costuma perdoar ninguém. Quanto tempo, aproximadamente, o médico lhe deu? Você pode, ao contrário de nos fornecer a senha de seu e-mail, mandar os arquivos que deseja publicar para nós. Todos anexados em um só documento. Acho melhor assim.
— Está certo. Não atinei para essa opção. Juntarei os arquivos num só documento e mandarei para vocês, tudo no formato Word. A Clauder, principalmente, confio a supervisão dos originais (também conhecidos como bonecas) que a gráfica vai oferecer para conferência, antes de começar o trabalho de impressão. Não vou indicar ninguém, no entanto peço que encontrem um bom designer para conceber o projeto gráfico. Esses são detalhes que eu considero muito relevantes.
— Não se preocupe — interveio Marcos Araújo. — Dedicaremos absoluta atenção para que suas produções literárias sejam impressas com a máxima qualidade, sem qualquer falha. Também ajudarei Clauder nessa etapa do serviço. Pode confiar que os títulos ficarão bonitos e bem-acabados. Quem sabe ainda dê tempo de você mesmo constatar isso. Vamos antecipar a organização, encontrar alguém para cuidar do projeto gráfico e fazer umas capas bem bacanas. Mudando agora de assunto, destaco o quanto é desagradável falarmos a seu respeito como se você já não estivesse entre nós. Isso dóisobremaneiranos nossos corações,amigo.
— Agradeço por tanta sensibilidade.
A conversa com meus futuros herdeiros durou aproximadamentetrês horas. Discutimos os pormenores da publicação dos livros e eles foram embora muito abatidos com a comprovação de minha doença sem jeito.
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– Nome?
– Augusto Floriano.
– Profissão?
– Dizem-me poeta.
– Tem filhos em idade escolar?
– Sim.
– Renda mensal?
– Inconstante e insuficiente. Sou um “liso estável”, como diria o jornalista Carlos Santos.
– O senhor tem o direito de permanecer em silêncio, sem que o silêncio seja usado em seu desfavor, mas o interrogatório é também momento de especial oportunidade para o acusado se defender, além de a confissão representar diminuição da pena que eventualmente vier a ser imposta. Compreende isso?
– Sim, compreendo. E desejo falar. Ou confessar, se minhas palavras assim parecerem.
– O senhor ouviu atentamente a acusação?
– Com certeza! Dicção perfeita, a de Vossa Excelência, com pausas dramáticas nas partes mais “incriminadoras”.
– Os fatos narrados são verdadeiros?
– Absolutamente!
– Não entendi. A resposta é ambígua.
– Cristalinos como um bordeaux Château d’Yquem, safra de 1811.
– Por favor, respeito. Não venha com ironia barata.
– Bom, o vinho é caríssimo, mas, de fato, prefiro cachaça.
– Essa confissão é espontânea?
– As minhas palavras são livres, espontâneas e gratuitas, sem os favores dos 30 dinheiros com os quais se vêm convencendo delatores das mais elevadas classes, patentes e estrelas. Até porque um poeta, por menos talento e inspiração que tenha, jamais seria dedo-duro. Aliás, senhor magistrado, o que tenho a dizer diz tudo de mim, nada de ninguém.
– Então, indo direto ao assunto…
– Sim, é verdade, eu faço amor por fazer, e não me importo, de jeito maneira alguma, se essa impostura ofende a honra da música sertaneja ou se os românticos vão me excluir de suas redes sociais. Quanto aos puritanos, prefiro exercitar o direito constitucional ao silêncio.
– O réu está se esquivando… ou fala tudo ou se cala…
– Seria preferível não falar dessa gente. Entretanto, já que insiste em me negar o silêncio seletivo, afirmo que os puritanos são criaturas desprezíveis, a escória da humanidade. Eles fazem guerra por fazer. Quem faz guerra não faz amor.
– Como assim?
– O puritano é, na essência, um depravado enrustido, que deturpa moralidades para disfarçar perversões e infernizar a vida alheia. Em vez de amor – puro, espontâneo, leve e solto –, ele faz guerra.
– Como assim, guerra?
– Guerra para atormentar ex-mulher, ex-marido, vizinho, desconhecido; guerra para atanazar protestante, budista, católico, umbandista; guerra para irritar esquerda, direita, centro; guerra contra a felicidade alheia; guerra contra tudo o que é democrático, a exemplo do amor. Guerra contra o que lhe parece contra!
– Fazer amor por fazer é subversivo aos olhos de Deus, da Pátria e da Família (escrivão, favor consignar Deus, Pátria e Família com letras iniciais maiúsculas).
– Não perante Florbela Espanca, que defende “amar só por amar” em vez de odiar só por odiar. A propósito, como diria José Régio, “Eu amo o Longe e a Miragem,/ Amo os abismos, as torrentes, os desertos…”. Nada contra quem ama “o que é fácil”, embora o amor belo, recatado e do lar não seja o espírito de Coríntios 13: 1-13.
– Coríntios 13: 1-13? O senhor zomba das Sagradas Escrituras (escrivão, Sagradas Escrituras com iniciais maiúsculas, por favor).
– De nada adianta falar a língua dos homens e até a língua dos anjos, conhecer mistérios, dominar ciências, distribuir falsa caridade, sem a capacidade de amar perdidamente o próximo e o distante, pois o amor é um dom que, em sua plenitude, supera a fé e a esperança.
– Melhor o senhor se aconselhar com a sua advogada antes de prosseguir nesse raciocínio profano e subversivo…
– Não vou precisar. O senhor mesmo exigiu-me a fala franca como condição de prosseguir com o interrogatório.
– Precisar, verbo transitivo direto ou indireto?
– Interprete como quiser, o juiz aqui é o senhor, embora eu deva dizer, “com a máxima vênia”, da intransitividade que…
– Respeito à Justiça! Chega de blasfêmias e ironias!
– Desculpa! Quis apenas ressair que a justiça deve se preocupar também – e ainda mais – com os que precisam de Justiça, muito acima, parodiando famoso jurisconsulto de minha terra, das abstrações da lei adormecida “na frialdade inorgânica da celulose, o papel”. Essa lei, excelência, jamais será exata porquanto interpretada por homens, que, por último, desde a Suprema Corte, passam a decidir maquinalmente pelo livre convencimento da inteligência artificial. Deram-lhe até nome: Maria!
– Eu decido com base no livre convencimento motivado, conforme a legislação me faculta, e escrevo minhas próprias decisões.
– Tudo bem, “Doutor”! Meu convencimento também é motivado. E meu motivo é a poesia, o verso que atravessa a alma e liberta a carne viva e pulsante de quem ama porque ama. Ou isso seria um livre convencimento imotivado, já que não preciso de motivo algum para fazer amor com quem me deseja e a quem desejo?
– Legalmente…
– Do ponto de vista legal, só posso dizer que sou camonianamente indefeso contra o tal “fogo que arde sem se ver”, contra a tal “dor que desatina sem doer”, contra o tal “querer estar preso por vontade”; embora drummondianamente consciente das “sem-razões do amor” e de seu parentesco de quarto grau com a morte, que o vence e por ele é vencida a todo o tempo.
– A medida do amor desmedido pode ser a dor constante da perda…
– Provavelmente. Contudo, sopesando os prós e os contras, convenço-me de que é melhor sofrer por amor do que se regozijar no ódio. Em outros termos, melhor ser passarinheiro e gostar de passarinhar, na voz de Roberta Sá, com a licença de Dudu Nobre e Roque Ferreira, do que cair nas armadilhas das desafeições.
– Que vergonha, seu Augusto! O senhor, um homem velho…
– Interrompo, respeitosamente, antes de que a Excelência cometa a gafe de antecipar o veredicto, não obstante vossa inquestionável proximidade com certa República de Curitiba. E, se me permite, acrescento, mais uma vez fundamentado em Drummond, que “amar se aprende amando” e que o “amor é grande e cabe/ no breve espaço de beijar”. De cada amor que se encanta o poeta, nasce uma rosa, um verso e, quem sabe, um quadro de Laércio Eugênio ou de Túlio Ratto.
– E os grandes e verdadeiros amores onde ficam?
– Grandes e verdadeiros? E todos não são assim? Olha, senhor juiz, já percorri tantas vezes o inferno e o purgatório para alcançar Beatriz e continuo descendo ao mundo dos mortos para resgatar Eurídice sempre que ela me chama.
– E esse esforço vale a pena?
– Sempre vale a pena. Sempre! Pois a recompensa é o paraíso perdido que se encontra e volta a se perder em si. Nesse exercício, aprendi que todos os amores são grandes, excelência, mesmo os que se consumam “no breve espaço de beijar” ou, transgredindo o bom mineiro, no breve espaço de um orgasmo.
– O senhor tem algo a acrescentar?
– Sim! Sem anistia! Sem anistia para os que atentaram contra o estado democrático de amar, com a arma – anagrama ilícito de amar – mais abjeta dos fascistas: o ódio à soberania dos que amam a liberdade.
– Ministério Público, perguntas?
– Satisfeito, excelência.
– Advogada Clarisse Tavares, perguntas?
– Sem perguntas, excelência. A defesa está posta.
– Partes intimadas em audiência para alegações finais sucessivas, por memoriais. O réu continuará preso cautelarmente, com respaldo na proteção da ordem pública, aguardando pela sentença. Audiência encerrada.
Cid Augusto é jornalista, advogado, professor, poeta e escritor
Inácio tinha 53 anos de idade quando faleceu no domingo passado (Foto: Reprodução)
Terça-feira passada, ao ler um conto do escritor Inácio Rodrigues Lima Neto, delegado da Polícia Civil e colaborador deste Blog Carlos Santos, senti-me inspirado diante da ótima urdidura de Inácio Rodrigues. Então, como há muito eu não faço, falei de mim para comigo e disse: “Vou escrever algo assim para o próximo domingo!” Coisa nenhuma! Fiquei só na vontade, no caqueado.
Sem querer jogar a toalha, sem digerir a derrota, procurei alguns autores e as suas páginas a fim de me livrar da influência do enredo trazido por Inácio, que no final das contas embaçou o meu horizonte criativo.
O referido conto, publicado aqui no Blog no dia 17 de novembro de 2019 sob o título “Memórias em cacos”, vale quanto pesa, conforme o adágio. O danado me pegou mesmo de jeito. Esse causo oferta ao leitor uma história cheia de surpresas e astúcias literárias que nos deixa de queixo caído no seu desfecho. Ouso dizer, sem sombra de dúvida, que se trata de um dos melhores contos já publicados neste espaço, muito embora o autor seja uma espécie de contista bissexto.
Como podem notar, findei entregando os pontos. Não escrevi o que pretendia, contentei-me com louvar o texto de Inácio, cuja narrativa merece ser lida ou relida por todos que acompanham o que se estampa aqui.
De minha parte, quando eu reorganizar a oficina da inventividade, almejo produzir uma peça dessas do chamado gênero short story. Por enquanto, sem lhes apresentar uma crônica propriamente dita e muito menos a ambicionada ficção, considero razoável tecer estes palpites acerca de “Memórias em cacos”. Apesar da ideia de fragmentação, tudo se encontra nos devidos lugares. Recomendo, portanto, a quem não conhece o texto, que procure ler essa escrita do Inácio Rodrigues.
Não se trata de incensar ou adular. Porém (coisa que não dói nem arranca pedaço) apenas parabenizo o autor. Pois se agora me comporto de tal forma é por único e simples merecimento desses bem-articulados “cacos”.
Marcos Ferreira é escritor
*Crônica originalmente publicada no dia 18 de agosto de 2024 no BCS.
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B.O: N° 21-1402/2022
NATUREZA: DENÚNCIA DE CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO IMATERIAL
DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE JUNHO DE 2022
COMUNICANTE: LÚCIA EMÍLIA SILVEIRA DE ANDRADE E ALVAREZ
A senhora Lúcia Emília Silveira de Andrade e Alvarez Cabral, sessenta e cinco anos, casada, doutora em letras, professora aposentada, escritora e acadêmica imortal da Academia de Letras de Tugúrio, cadeira número dezesseis, e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia para oferecer denúncia, perante mim, escrivã de polícia, sobre fatos dos quais diz ter notícia. A depoente solicitou que se registrasse que possui competência intelectual, profissional e moral amplamente reconhecida nos devidos meios para avalizar a notícia crime que veio oferecer junto a esta delegacia e seu testemunho deve ser considerado inconteste e prova de si mesmo, para o bem da cultura e defesa do patrimônio imaterial deste país. Disse que tem conhecimento de fato atentatório contra o patrimônio imaterial e cultural do nosso povo que põe em risco a simbologia e ritualística literária dos acadêmicos e imortais, tanto aqui quanto no país de Camões. Acrescentou que o fato sobre o qual pretende se queixar veio a seu conhecimento recente e tão logo tomou ciência, decidiu, pelo dever que impera sua digna condição de acadêmica imortal, literata e jurada defensora da língua portuguesa, oferecer denúncia para que a intenção ofensiva dos seus autores não prospere nem dê frutos. Que soube do fatídico por ter sido convidada a participar de importante concurso literário nacional, na qualidade de juri, graças ao reconhecimento de sua dedicação às letras. Que, graças ao convite, tomou ciência do que as mentes ansiosas por notoriedade e oportunidade de visibilidade estão a produzir. A depoente exigiu que não fosse usado o gerundismo para a transcrição do seu depoimento. Satisfeita com a promessa e esforço desta escrivã, disse que, em virtude da referida participação, da ânsia pela inovação e desprezo pela nossa cultura, percebeu que há excessivos desvios de mentalidade e do bom uso da nossa língua, fazendo com que estilos muito bem determinados enfrentem uma avalanche anarquista de ataques. Que, do mesmo modo que um soneto é o que é, pela sua forma, ou um cordel não pode ser uma trova, pelas mesmas razões, um conto é o que é por sua estruturação. A nossa academia tomou, desde as sábias e irretorquíveis palavras do grande folclorista nacional, o imortal potiguar Câmara Cascudo, a estrutura destas peças, que são os dois mais nacionais estilos literários, o conto e a crônica, e com isso, o assunto está encerrado. Não há mais o que discutir. Assegurou que se encontrava habilitada para fornecer informações complementares sobre esse estrutura, caso fosse preciso e requisitada. O delegado achou por bem dispensá-la dessa obrigação e pediu para se ater aos fatos. A depoente exigiu que ficasse registrado nesta ocorrência que não concordava com a visão positivista de sua excelência sobre a redutibilidade fatídica do relato policial, mas que se compromete a atender seu pedido. Retomando a narrativa, disse que, graças à sua participação no concurso, tomou conhecimento da preferência de alguns literatas, como o doutor José Roberto Alves Barbosa, que ameaçam a solidez dos nossos rituais de escrita e bens imateriais. Que o acadêmico está a fazer concessões à neoliteratura que subvertem a estética da língua culta e bem trabalhada em favor da linguagem ordinária. Que a presente denúncia se sustenta em virtude de saber que esse acadêmico está a considerar positivamente produção de um ignoto Ayala Gurgel, que reuniu sob sua autoria uma contoria na forma de boletins de ocorrência, profanando uma coisa e outra, não é conto nem boletim de ocorrência. Que, se todo esse liberalismo for permitido, o que se pode prever não é o melhor cenário para a manutenção dos costumes mais arraigados de tão alta estilística literária. É perceptível o risco que nosso patrimônio corre, tendo que inserir na contologia contemporânea escreveniências banais como receitas médicas, anamneses, correções de provas, laudos periciais, e tudo o mais que for escrito mesmo sem a menor ou qualquer intenção literária. Estaríamos a erigir à condição máxima da obra de arte que dignifica a nossa língua casos da linguagem comum, só porque no passado algumas pessoas de destacado talento fizeram isso com as cartas. Que, para o bem da proteção da nossa cultura e defesa do nosso patrimônio imaterial, o devaneio que ora se instaura deve ser impedido e limites precisam ser impostos. Por fim, solicitou que os acusados sejam intimados e o trabalho do neoliterata desacreditado enquanto ainda há tempo para evitar que dê frutos. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
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B.O: N° 12-7192/2021
NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO
DATA DA COMUNICAÇÃO: 08 DE FEVEREIRO DE 2021
COMUNICANTE: SANDRA MARIA DA CONCEIÇÃO SALDANHA
A senhora Sandra Maria da Conceição Saldanha, trinta e quatro anos, casada, enfermeira do SAMU e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia e noticiou, na qualidade de testemunha, perante mim, escrivã de polícia, fatos de que tem conhecimento envolvendo a morte do senhor Bartolomeu Barbosa da Silva. A depoente disse que foi a primeira a chegar ao local e não estava de serviço naquele dia, mas aquele era seu caminho habitual para retornar ao domicílio alugado por ela e outras colegas de trabalho durante a pandemia, como forma de proteger seus familiares. Disse que passa pela rua onde se deu o acontecido três vezes por semana, e, naquele início de noite estava voltando quando ouviu três disparos, o que a deixou atenta e a fez diminuir a marcha do carro, pois não sabia de onde vinha o perigo. Que, mais adiante, avistou o corpo ensanguentado na parada de ônibus e reconheceu se tratar de uma emergência, talvez associada aos disparos ouvidos, o que a levou a ligar para a polícia e o SAMU. Que, na qualidade de profissional qualificada e tendo observado não haver sinais de perigo, parou o carro no local para prestar os primeiros socorros. Logo constatou que a vítima estava sem vida, alvejada com três disparos, todos na região torácica. Ainda no local, achou a vítima parecida com um autor que gosta de ler, desde os tempos da faculdade, e, para tirar essa dúvida e ajudar na identificação, procurou por documentação nos bolsos da vítima e não encontrou nada, o que a levou a julgar que se tratava de latrocínio. A vítima pode ter reagido a um assalto, o meliante não gostou da reação e o alvejou à queima-roupa. Indagada sobre o que podia informar sobre a vítima e o estilo de vida que ela levava, a depoente declarou que sabia pouco sobre a vida pessoal do escritor, apenas que era considerado um dos maiores autores do século XXI, tendo deixado vasta produção literária, embora apenas um livro venha fazendo sucesso. Sabe também que ele não tinha recursos, pois os lucros das vendas não ficavam com ele, mas com sua editora, que comprou os direitos patrimoniais da obra. Que ele escrevia para ajudar as pessoas, como ele mesmo declarou em entrevista, de que de sua caneta nunca sairia uma palavra sequer para denegrir ou colocar qualquer pessoa para baixo, fosse quem fosse. Com sua arte, enaltecia a alma ou não escreveria, pois seus olhos só viam o que há de melhor nas pessoas. A depoente disse que tem conhecimento de vários escritos dele, dedicados às mais diferentes categorias sociais, inclusive uma composição que enaltece o trabalho das enfermeiras, a quem ele chamou de “anjos da guarda”. Segundo a depoente, ele foi, em vida, aquilo que podemos chamar de pronóico. Indagada sobre o significado do termo, a depoente esclareceu que se trata de classificação psiquiátrica para o tipo de pessoa que tem uma visão de mundo na qual as coisas que acontecem, acontecem sempre para o seu melhor possível. Completou dizendo que pessoas pronóicas são o oposto de pessoas paranoicas e estão sempre falando que tudo vai ficar bem, que vai dar certo, pois alguém ou algo está olhando por você, cuidando para que tudo ocorra da melhor forma possível. Que ela conhece muitas pessoas pronóicas, mas como ele, nunca tinha visto. Em vida, ele foi o exemplo vivo de pessoa pronóica, e o meio que usou para expressar isso foi a escrita. Que ele estava muito empenhado com a ideia de que podia mesmo ajudar as pessoas por meio das palavras. Que foi com o objetivo de ajudar as pessoas que escreveu o seu mais famoso livro, cujo título é “Humanos Melhores Virão”. Disse que o autor acreditava e escreveu que depois da pandemia irá surgir uma nova humanidade, que está sendo gestacionada no plano quântico, com o advento do que chamou de homo quanticum. Esta será a nova espécie, que substituirá o homo sapiens e passará a viver em simbiose com a vida do planeta. Seu livro foi traduzido para vários idiomas, um best-seller, e há quem o considere o novo Capital, graças ao conceito de “economia quântica” que ele introduziu. Que ao autor não coube nenhuma participação nos lucros, apenas conviver com a fama de ver seu livro sendo vendido sob outro nome, pois a editora achou que Bartolomeu Barbosa da Silva não era comercial. Foi assim que o livro passou a ser publicado sob o pseudônimo Barth S. A vítima afirmou, certa vez, não se importar, que Barth S era seu “eu quântico”. Indagada como a depoente reconheceu a vítima, mesmo o senhor Bartolomeu estando sem seus documentos, disse que foi o local do crime que a ajudou. Que, ao lado da parada de ônibus onde a vítima foi alvejada, havia um outdoor imenso com a propaganda do livro “Humanos Melhores Virão” e uma foto dele ao lado. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
Imagem ilustrativa com recursos de inteligência artificial para o BCS)
B.O: N° 10-6492/2020
NATUREZA: DENÚNCIA CRIME – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
DATA DA COMUNICAÇÃO: 08 DE AGOSTO DE 2020
COMUNICANTE: KELLY ANNE SORAYA DE ARRUDA MATIAS
A senhorita Kelly Anne Soraya de Arruda Matias, vinte e um anos, solteira, vendedora, universitária e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia e declarou, perante mim, escrivã de polícia, o desejo de prestar queixa de forma não identificada contra o senhor Félix Roberto Diniz Dantas por maus tratos e violência doméstica contra Débora de Almeida Dantas, cônjuge do denunciado. A depoente diz que, no início desta noite, por volta das dezoito horas e quarenta e cinco minutos, fez uma vídeo chamada para a senhora Débora de Almeida Dantas, com a qual mantém relação de amizade e compartilha o mesmo curso na faculdade, para falar sobre a aula da manhã de hoje, uma vez que a amiga faltou e o professor passou atividades para serem desenvolvidas em grupo e entregues até a próxima quarta-feira, dia treze de maio. Queria saber da amiga se desejava ficar no mesmo grupo que ela. Que não é incomum as duas se falarem, inclusive por meio de vídeo chamada, bem como realizarem atividades em grupo, o que ocorre desde o colegial, mas não é normal a amiga faltar às aulas sem avisá-la; que isso nunca aconteceu e essa foi a principal razão para procurar falar com ela. Que se lembrava de fato importante que pode também tê-la motivado a fazer a ligação, mas prefere falar adiante, pois quer primeiro narrar como foi a ligação. Que sua primeira tentativa de vídeo chamada resultou em vão, e que ela não sabe se foi porque o celular da amiga estava sem rede ou ela não pôde ou não quis atender, visto que não há como saber sobre isso. Diante da dúvida, não aguardou e enviou mensagem de texto na qual explicitou a necessidade de falar com ela sobre a última aula e o trabalho que precisava ser feito com urgência. Quase cinco minutos depois recebeu como resposta apenas um “ok”. A depoente mostrou ao delegado de plantão a tela do seu celular com a conversa aberta, para atestar o hiato temporal entre a mensagem enviada e a resposta recebida. Em seguida, a depoente narrou que, pouco depois, seu celular começou a vibrar, anunciando o recebimento de uma chamada de vídeo. Era sua amiga, Débora de Almeida Dantas. A depoente disse que a amiga estava sozinha no vídeo, na cozinha de casa, mas achou estranho porque a imagem se mexia um pouco, como se o celular estivesse apoiado em algum lugar que balançava ou alguém o estivesse segurando, enquanto gravava. Que aquilo era o tipo de coisa que sua amiga não costumava deixar acontecer, pois sempre usava o tripé e procurava um enquadramento que a valorizasse. A amiga, que sempre aparecia bem arrumada nas chamadas, mal havia se penteado. Aquilo não parecia coisa dela, ou coisa normal, pelo menos, mas, superado a impressão inicial, a depoente continuou a conversa. Disse que explicou sobre a atividade que deveria ser feita e como ela tinha pensado na distribuição do conteúdo, pois seriam quatro colegas na mesma equipe. Como notou apatia na sua amiga e vez outra um corte na fala, como um engasgar ou para engolir algo, ela perguntou se estava tudo bem, ao que ouviu como resposta que sim, e justificou que estava apressada porque ela e Félix Roberto estavam conversando sobre algumas coisas que precisavam em casa. A depoente disse que ao ouvir aquilo, cismou que houvesse algo de errado, pois conhecia a amiga há muitos anos e acompanhou o namoro dela com o atual marido desde o início. Sabia o suficiente para ter certeza que ela não gostava de chamá-lo Félix Roberto, a não ser que houvesse muita raiva ou alguma coisa muito séria. Que ao ouvir a amiga se referir ao marido pelo nome composto, foi tomada pela desconfiança que tinha algo de errado e precisou tirar suas dúvidas. Disse que tem ciência dos riscos aos quais as mulheres estão sujeitas e que o marido vinha tendo crises de ciúmes recentes depois que ela entrou para a faculdade. Que, em primeiro lugar, quis saber se o marido estava por perto, e, para tanto, falou apenas que mandava um abraço para ele, o que obteve como resposta um indiscreto “dou sim, ele está bem aqui”. Como não podia perguntar mais nada de forma direta e percebeu que a amiga estava querendo encerrar a ligação, que ela supôs por pressão do marido, a depoente disse que se lembrou de um código que as mulheres da sala tinham combinado para caso alguma estivesse em perigo, que chamaram de “o tchau do perigo”. A depoente disse que anunciou que ia finalizar a ligação e falou para a amiga não se esquecer do “nosso tchauzinho”. Que, para sua tristeza, foi exatamente o gesto que a amiga fez. Naquele instante, a depoente tirou todas as dúvidas e tem certeza que a amiga está em perigo, razão pela qual veio às pressas a esta delegacia prestar queixa e pedir providências imediatas. Insiste a depoente que o fato de sua amiga ter se referido ao marido pelo nome composto e feito o sinal de socorro no vídeo é um claro indício de que a vida dela corre perigo. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
B.O: N° 19-1402/2022
NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO
DATA DA COMUNICAÇÃO: 23 DE MAIO DE 2022
COMUNICANTE: VICTOR RODRIGO DOS RAMOS
O senhor Victor Rodrigo dos Ramos, conhecido popularmente como Neto de dona Zefinha, trinta e oito anos, casado, trabalhador rural e autônomo, residente no Distrito Oiticica, pertencente a esta freguesia, compareceu a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, fatos ocorridos naquele distrito dos quais é testemunha. O depoente disse que conhece seu Nanô, como é chamado o senhor Juvenal Olympio de Vaz e Sousa, há mais de vinte anos, desde que começou a trabalhar na residência dele como um faz-tudo e sabe da fama que ele tem na Oiticica de ser considerado o pior velho do mundo. Disse que a fama é justa e, de fato, o velho não saía de casa para nada, nem se dava bem com a vizinhança ou com qualquer outro morador da região. Que as poucas vezes que pôde trocar algumas palavras com ele foram sobre o serviço a ser feito ou o pagamento, mas o trabalho na sua casa foi o suficiente para ficar sabendo que ele nunca se casou e gosta muito de anjos. Que começou a desconfiar desse gosto quando notou que havia para mais de cem peças de anjos na casa, entre quadros e estatuetas. Que há anjos de vários estilos diferentes, desde os gordinhos e bonitos até anjos feios, magrelos, mais puxados para o capeta do que para as coisas de Deus. Que dona Ritinha de Deoclécio falou para ele que se não fossem cinco bocas que tem para alimentar não pisava na casa daquele velho nem para fazer caridade. Ela morria de medo dos anjos mais esquisitos e, às vezes, deixava de limpá-los. Que não tirava a razão dela nem das outras pessoas que não gostam de passar em frente à casa de seu Nanô. Que entende até mesmo as Testemunhas de Jeová, que desistiram de tentar visitá-lo. Que seu Nanô é muito casmurro e ninguém gosta dele, por isso foi um espanto geral quando o povo viu, no Domingo de Ramos, que o velho havia decidido sair de casa e ir à igreja. Disse que ficou pasmo quando viu seu Nanô entrar na igreja com um ramo na mão e depois se dirigir à fila da procissão. Só acreditou no que estava vendo depois de ficar muito tempo olhando. Pensou que pudesse ser uma pessoa muito parecida com o velho ou estivesse vendo assombração. Que teve dúvidas e perguntou a seu Raimundinho, que estava ao seu lado, se era mesmo seu Nanô quem estava ali diante deles, para saber se não era mal-assombro.Que Raimundinho ficou com dúvidas, pois não via o velho há muito tempo, e disse que se havia uma pessoa que poderia confirmar ou não se aquele era o velho, essa pessoa era ele. Que, diante daquela incerteza, procurou dona Ritinha de Deoclécio, mas ela não estava na igreja, e só desfez a dúvida depois de muito olhar e perceber que ele falava com outras pessoas, dando as horas, e elas estavam lhe respondendo. Não era o único que estava vendo o velho e se convenceu de que não era assombração. Aquilo mexeu com sua cabeça e também com a das outras pessoas e quase ninguém acreditou que se tratava de seu Nanô, mas era ele mesmo. Disse que o novo comportamento se fez observar durante a semana inteira, pois na segunda-feira o velho foi ao comércio local e comprou todos os ovos de chocolate, coisa que os comerciantes acharam bom, pois os ovos estão muito caros neste ano e eles já contabilizavam o prejuízo. Que ele mesmo já havia anunciado a seus filhos não ter condições de dar ovos de páscoa para nenhum deles, por mais que isso fosse dolorido. Que a solução foi comprar chocolate e fazer os ovos em casa. Que assim foi feito e agradece muito a Deus por sua esposa ter tido a ideia, pois foi a salvação. Muitos pais ficaram surpresos e felizes quando viram que seu Nanô começou a distribuir os ovos que havia comprado à todas as crianças da Oiticica, sem fazer qualquer discriminação. Na porta da casa do velho, na tarde da quinta-feira santa, tinha mais menino em busca de ovos que na missa do lava-pés. Seus filhos ficaram tristes porque não puderam pegar nenhum ovo. Souberam tarde demais, mas ele se comprometeu a falar com seu Nanô e, caso ainda tivesse algum, iria pedir. Que a ação de seu Nanô foi tão comovente que muitos ficaram sentidos e a maioria simpatizou com a atitude. Um ou outra falou que era um milagre, afinal o acontecimento se davana semana santa, no ano que Deus já havia acabado com a pandemia e estava de bem com o povo, mandando chuvas ao sertão. Que essas não foram as únicas conversas que ouviu. Também soube de pessoas dizendo que era psicológico, quando o homem está diante da morte fica com a consciência mais pesada, ocasionando mudanças no fim da vida. Dona Ritinha de Deoclécio falou a ele que aquilo só podia ser fruto de uma paixão escondida. Ouviu também o boato que Zé de Luzia, o vereador local, havia falado com o prefeito para fazer uma homenagem a seu Nanô, que tanto estava fazendo pelas crianças da Oiticica num ano tão difícil. Que soube de todo esse rebuliço e não sabia explicar o que realmente levou seu Nanô a fazer o que fez, mas começou a desconfiar, no domingo de páscoa, quando as crianças mais novas começaram a morrer. A coisa ficou feia com os pais desesperados, sem saber o que fazer, colocando a culpa numa nova pandemia. Que já haviam morrido oito crianças. Que tudo piorou e começou a fugir do controle quando alguém divulgou no grupo do WhatsApp que o médico legista diagnosticou que as crianças morreram por infecção ou, mais grave, por envenenamento. Assim que isso começou a ser divulgado, as pessoas suspeitaram logo de seu Nanô e correram à casa dele, para atear fogo com o velho dentro. Que isso só não aconteceu porque a guarda local acalmou a população. Que o depoente foi um dos primeiros a chegar ao local e chamou pelo suspeito, mas nada ouviu em resposta, e repetiu várias vezes, com batidas fortes na porta e na janela lateral. Que, incentivado por populares e pela guarda municipal, adentrou o recinto pela janela lateral, e, por conta disso, foi ele quem encontrou seu Nanô morto, com o seguinte bilhete: “não quis chegar lá sozinho, por isso levei alguns anjinhos comigo”. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
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B.O: N° 17-1402/2022
NATUREZA: NOTÍCIA SOBRE AÇÃO DELITUOSA
DATA DA COMUNICAÇÃO: 01 DE ABRIL DE 2022
COMUNICANTE: ALICE DIONÍSIO NEVES FONTES
A jovem Alice Dionísio Neves Fontes, vinte e seis anos, solteira, fonoaudióloga, funcionária da Clínica Ouvindo Melhor, residente nesta freguesia, compareceu de livre e espontânea vontade a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, notícia da qual diz ter conhecimento envolvendo a clínica na qual trabalha e alguns de seus clientes. A depoente disse que trabalha na referida clínica desde que estava no último ano da faculdade, ainda como estagiária, e sempre viu o lugar como um espaço acolhedor, familiar e que traz esperanças às pessoas com problemas auditivos, a maioria formada por pacientes adultos ou idosos, com poder aquisitivo em torno de cinco salários mínimos. Que sua vocação para trabalhar com a reabilitação da escuta vem desde a infância, quando passou a conviver com a avó, uma senhora surda, após a separação dos pais. Convivência essa fundamental para aprender a respeitar e procurar entender a pessoa com limitação auditiva, em especial a pessoa idosa. Em função disso, vê, até hoje, em cada paciente que atende a figura da avó e Selembra a gratidão que tem para com ela, já morta. Que tem sido assim e os pacientes gostam muito da forma como são atendidos por ela, o que tem lhe projetado destaque na empresa e contribuído para que as comissões com vendas de aparelhos sejam satisfatórias. Que nunca induz nenhum paciente a comprar o aparelho auditivo, mas a maioria compra, pois sente a diferença na qualidade de vida quando passa a ouvir melhor. Que tem visto o impacto que o uso frequente do aparelho auditivo causa na vida das pessoas e, justamente por isso, procura indicar somente o que há de melhor para garantir que o paciente não apenas passe a escutar bem, como inicie o processo de recuperação da audição prejudicada. A autonomia auditiva é um aspecto da saúde para o qual a depoente se disse muito sensível e sua vida não faz sentido se não for para ajudar as pessoas que precisam e estão em busca desse bem-estar. Que, em virtude do seu empenho, o gerente da sua unidade clínica a convidou para fazer um workshop, com tudo pago pela empresa que confecciona a principal marca de aparelhos auditivos usada na clínica. Que participou do workshop e recebeu treinamento sobre o produto e suporte técnico necessário, de onde saiu com a chance de se tornar embaixadora da marca na cidade. Informou que a clínica opera atualmente com duas marcas de aparelhos, ambas do mesmo fabricante, ofertadas de acordo com o poder aquisitivo dos pacientes, sendo a marca Alto e Bom Som mais popular e Puro Som mais elitizada. Que é sobre a última que deseja relatar. A depoente disse que depois daquele workshop passou a ter acesso tanto ao sistema de monitoramento à distância do uso dos aparelhos quanto às tabelas de vendas e parcerias da marca. Que esse acesso é importante caso exista a necessidade de atender a algum paciente remotamente ou precise fazer ajustes nos aparelhos. Que passou a usar o sistema com frequência porque alguns pacientes começaram a relatar desconforto auditivo, em virtude de zumbidos. Que sempre colocou a necessidade dos pacientes em primeiro lugar e ficou incomodada com aquilo, mas não conseguiu ver razões objetivas para a reclamação, uma vez que os aparelhos estavam calibrados na frequência programada para cada paciente. Que às vezes isso é normal, uma vez que parte da audição é subjetiva e o processo de adaptação ao aparelho demanda tempo, de modo que algumas pessoas se adaptam mais rápido que outras. Em razão da informação relatada pelos pacientes, ofereceu respostas protocolares pedindo para aguardarem mais tempo, até que estivessem adaptados. Contudo, em virtude do seu compromisso com o bem-estar dos pacientes, decidiu testar um aparelho programado para o seu perfil auditivo e pôde confirmar a queixa. Que havia um ruído quase imperceptível, mas podia se tornar incômodo. Antes de abrir uma reclamação junto à empresa, decidiu entrar no sistema para averiguar a possibilidade de encontrar algo a respeito no FAQ e fazer os ajustes. Que passou várias horas do seu tempo livre fuçando o sistema e procurando entender as tabelas e frequências de som que são usadas, inclusive para o monitoramento à distância. Que foi durante a investigação que notou o aumento de vendas dos produtos das empresas parceiras coincidindo com o aumento da venda e instalação dos aparelhos. Que achou a coincidência um pouco esquisita, em especial por aparecer nos gráficos da empresa, como se alguém quisesse atrelar o uso dos aparelhos ao aumento de consumo de produtos nada associados. Pensou que nada daquilo fazia sentido e não era do seu interesse, uma vez que sua única preocupação era com os ruídos que incomodavam os usuários. Que se debruçou sobre a logística do sistema e funcionamento dos aparelhos até que percebeu a emissão de sons em frequências que não são perceptíveis pelo ouvido humano, mas podem atingir o pavilhão auditivo. Tais frequências eram emitidas sem o controle do operador do sistema, o que significa que não elas tinham nada a ver com ajustes ou reparos solicitados. Pensou que pudesse ser alguma ferramenta do próprio sistema para monitorar o aparelho e sua carga ou sua capacidade de resposta aos estímulos sonoros externos. Que, em virtude de sua curiosidade, decidiu copiar as frequências e traduzi-las de forma triangulada em frequências audíveis que façam sentido ao ouvido humano. Que, para a sua surpresa, conseguiu decifrar as frequências copiadas e notou que eram mensagens enviadas aos usuários de aparelhos auditivos sugerindo que realizassem compras nas marcas parceiras. Que não sabe explicar como isso funciona, mas os gráficos que ela observou mostram que as vendas das marcas indicadas aumentaram à medida que o paciente se tornava usuário do aparelho auditivo. Que não sabe quais outras mensagens foram passadas, mas tem o arquivo das que conseguiu decifrar. Perguntada se essa teoria fazia algum sentido ou não poderia ser classificada como mera conspiração, a depoente disse que não estudou nada sobre o assunto e a única prova que tinha para mostrar era o arquivo decifrado e o testemunho de que ela mesma ouviu os zumbidos reclamados, bem como que a ocorrência dos zumbidos coincide com a hora dos disparos dessas mensagens. Sobre a possibilidade de serem passadas outras mensagens igualmente perigosas, como indução ao suicídio ou do voto, a depoente disse que não sabe informar, pois tudo é muito novo para ela, mas não descarta a possibilidade, uma vez que a parte ativada do cérebro para compras pode ser acessada pelo sistema auditivo e é a mesma para as tomadas de decisões, como votar ou dobrar à esquerda no trânsito. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
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B.O: N° 18-1402/2022
NATUREZA: NOTÍCIA SOBRE SUPOSTA AÇÃO DELITUOSA
DATA DA COMUNICAÇÃO: 11 DE ABRIL DE 2022
COMUNICANTE: RAIMUNDO NONATO DE SOUZA
O senhor Raimundo Nonato de Sousa, cinquenta anos, casado, operador de empilhadeira, residente nesta freguesia, em pleno gozo da faculdade dos seus juízos, compareceu a esta delegacia para denunciar, perante mim, escrivã de polícia, fatos ocorridos com sua pessoa que constituem agravo contra a honra de sua pessoa. O depoente disse que tem o hábito de sair todos os sábados à tarde para se encontrar com a amante, que mora no outro lado do Rio do Mangue e faz isso há mais de cinco anos. Indagado pelo delegado sobre a informação prestada há pouco, confirmou se tratar disso mesmo, de uma amante, e que a esposa e filhos sabem do seu relacionamento extraconjugal e o aceitam. A amante também sabe da esposa, da qual foi manicure, e não há problemas entre elas. Que os únicos a se meterem em sua vida amorosa são dois vizinhos, com os quais não se dá bem, mesmo antes de ter arranjado a amante. O depoente atribuiu à inveja a causa da desavença entre ele e seus vizinhos, por ter trabalho fixo, ao passo que ninguém daquela família consegue passar mais de um ano no mesmo posto de trabalho. Que a existência da amante só aumentou a inveja, pois ela tem metade de sua idade e já desfilou como madrinha de bateria na escola de samba do bairro onde moram. Que as fofocas inventadas por seus vizinhos aumentaram, mas ele não se importou, nem mesmo as que o colocaram como corno da amante, sob a falsa alegação de que ela só quer ficar com ele por conta do dinheiro. Quesabe da fofoca e não acredita nela. Que já perguntou à amante e ela jurou pela alma da própria mãe que nada disso é verdade. Que ninguém jura pela alma da mãe se estiver mentindo. Que não são essas histórias que o preocupam, bem como não é sobre elas que veio relatar, e sim sobre o ocorrido neste último sábado, dia 09, quando atravessava a ponte do trem para chegar ao outro lado do Rio. O depoente narrou que nos dias que vai se encontrar com a amante é de praxe tomar banho com óleos essenciais, fazer a barba, colocar roupa limpa, passar perfume e sair de casa depois das três horas da tarde, para não bater com o horário do trem. Disse que o risco de se encontrar com o trem no meio da ponte é a coisa que mais tem medo. Que não sabe nadar, caso precise um dia se jogar no rio. Que tem sonhos recorrentes com sua própria morte, sendo atropelado por um trem. Que só de pensar nisso, chega a lhe faltar o fôlego. Que, em virtude desse medo, toma todo o cuidado do mundo para atravessar a ponte e sempre tem ido no mesmo horário, quando tem certeza que não passa trem ou outro transporte ferroviário. A pedido, o depoente explicou que atravessar o rio pela ponte ferroviária é o caminho mais perigoso, mas os outros não são viáveis. Ou é a estrada, que fica longe da casa dele, transformando uma viagem de minutos em mais de hora, ou pagar para atravessar de canoa, o que acha caro. Que não tem tanto dinheiro para pagar duas corridas na canoa todos os sábados e que só faz isso se precisa levar a feira ou outra coisa para a amante. Que no dia em tela se arrumou como de costume, esperou a hora propícia, deu um beijo na esposa e saiu de casa. Como tem que passar na frente da casa dos seus desafetos, se preparou para ouvir as piadas de sempre e ouviu da velha cega a praga que naquele dia o trem iria pegá-lo. Ele não respondeu nada, mas se benzeu com o sinal da Santa Cruz e pediu proteção a São Cristóvão, protetor dos viajantes, pois não gosta de vacilar contra praga de cego. Em seguida, foi até a cabeceira da ponte, olhou para os lados, além de perguntar a algumas pessoas que costumam beber num bar que tem na beira do rio e pôde confirmar que o trem havia passado, no horário de sempre, e o próximo era o da volta, às sete da noite. Confirmada a informação que desejava, criou a coragem de sempre e saiu empurrando a bicicleta sobre a ponte. Que é preciso cautela para andar na ponte ferroviária, para não acontecer nenhum acidente. Que haviam outras pessoas passando por ele, nos dois sentidos, o que o deixou mais seguro para seguir em frente, sem pensar em mais nada, até que a desgraça começou. Que, ao passar da metade da ponte, ouviu ao longe um apito, como o de trem. Não pensou duas vezes, olhou para a frente e para as costas e não viu nada de trem, mas não ficou em paz, tranquilo, ao contrário, ficou com medo, àquela altura era o único ser vivo sobre a ponte. Decidiu que era bom apressar o passo e saiu empurrando a bicicleta, até que ouviu novamente o apito, dessa vez mais alto. Que não teve coragem de olhar para trás e confirmar o que era, seu coração estava para sair pela boca. Que apertou mais ainda o passo, não havia condições para voltar nem podia se jogar no rio. Além de não saber nadar, a maré estava baixa e havia muita lama. Só pensou que teria uma morte triste, esmagado pelo trem ou afundado na lama. Que, apesar das palpitações e do medo, arranjou forças e conseguiu empurrar a bicicleta, se aproximando cada vez mais da margem, quando poderia sair da ponte em segurança, e vivo. Pensou que pudesse ser um cargueiro atrasado ou fora de hora, pois não é incomum, embora o povo do bar saberia informar. Que não tinha o que fazer e todas as forças estavam voltadas para tentar escapar daquela situação com vida. Uma terceira vez ouviu o apito, mais alto, bastante perto, e o coração quase infartou. Nesse momento, ganhou coragem e decidiu se jogar no rio. Pelo trem não seria esmagado. De fato, declarou o depoente, com o apito mais perto, sentiu como se a locomotiva estivesse nas costas. Sentia os trilhos tremerem e o calor da morte fuçando sua nuca. Que não queria se virar para confirmar a morte em forma de ferro fundido, como acontecia nos seus pesadelos. Decidiu e se jogou no mangue com bicicleta e tudo. Que ao cair, não se afundou muito, estava próximo à margem e foi socorrido por dois catadores de caranguejo que estavam no local. Agradecido e todo enlameado olhou para cima para ver o trem que poderia ter lhe ceifado a vida, quando ficou sem condições de falar. Bem ali, em cima da ponte, sobre os trilhos que ele cruza todos os sábados para se encontrar com sua amante, estavam os dois netos da velha cega que lhe rogou as pragas com uma buzina de ar comprimido imitando o apito do trem. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
Arte ilustrativa gerada com Inteligência Artificial para o BCS
B.O: N° 09-6492/2020
NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO
DATA DA COMUNICAÇÃO: 21 DE JULHO DE 2020
COMUNICANTE: ELEANOR DAS DORES E SILVA
O senhor Eleanor das Dores e Silva, vulgo Nanô, sessenta e oito anos, casado, carroceiro licenciado, nascido e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia na companhia de advogado, devidamente identificado na forma da lei, para oferecer versão dos fatos, perante mim, escrivã de polícia, sobre ato que consta em inquérito investigativo. O depoente disse ter conhecimento da denúncia e dos fatos que foram trazidos a esta delegacia por meio da jovem Pâmela Chair da Costa Rodrigues e suas testemunhas e acha um absurdo o poder público, por meio desta delegacia de polícia, ser envolvido numa questão simplória como a apresentada. Declarou que, realmente, reside na mesma rua da reclamante há mais de cinquenta anos, antes mesmo da mãe dela nascer. Que a família dela é conhecida por ter muita gente feia e já saiu reportagem sobre isso. Que tem uma música de Falcão sobre gente feia que os ouvintes costumam dedicá-la a eles na rádio comunitária. Os que escaparam da feiura são bem poucos. Mas, assegurou o depoente perante esta delegacia, que sempre teve boa relação com os Costa Rodrigues e nunca antes fez qualquer ofensa nem brincadeira que pudesse ser mal interpretada. Que, na qualidade de homem casado e pai de família, sabe se comportar e respeitar os mandamentos da lei de Deus, em especial os que mandam não matar, não roubar e não desejar a mulher do próximo. Que é preciso respeitar o próximo e procura fazer isso. Que, no dia em questão, estava na rua da matriz conversando com sua madrinha, dona Titonha, sobre a morte de seu Guilhermino e como essa doença é uma praga infeliz. Que a morte de seu Guilhermino foi por covid, a quinta no bairro em que mora e tem certeza que não será a última, e, por conta disso, tem raiva das pessoas que não usam máscaras e não se protegem contra a doença. Que tem toda a certeza do mundo que Guilhermino só morreu porque o neto dele levou a doença pra dentro de casa, pois os jovens de hoje estão brincando com fogo e não respeitam os mais velhos. Solicitado para se ater aos fatos importantes para o inquérito, o depoente retomou dizendo que naquele dia falava sobre a morte de Guilhermino com dona Titonha e estava muito triste por ter que se despedir de mais um amigo, sem poder sepultá-lo com a dignidade que ele merecia. Naquela hora, viu que havia um grupo de jovens na praça, a poucos metros de onde estavam, e percebeu que estavam rindo, bebendo e furando a quarentena. Como percebeu que alguns estavam sem máscaras, começou a ficar incomodado com aquele comportamento e avisou a dona Titonha que iria lá para reclamar. Que dona Titonha se posicionou contra o que ela chamou de intromissão e até alertou que os jovens de hoje têm uma língua muito grande, e ele podia ouvir uma resposta que não iria gostar. Que não levou nada disso em consideração e apenas pensou na morte dos amigos e no sofrimento que todo mundo vem passando por conta da pandemia e como aumentaram os riscos por conta de pessoas que não se cuidam. Que ele mesmo tem muito medo de contrair a doença, de precisar ser entubado e morrer. Que tem mulher e filhos que dependem de seu trabalho como carroceiro, não tem aposentadoria e não pode morrer agora. Que, munido desse sentimento, decidiu ir até o grupo de jovens e pedir que colocassem a máscara e respeitassem a quarentena. Disse que se dirigiu ao grupo e manteve distância de dois metros, o suficiente para ser ouvido e seguro para não ser contaminado. Que, dessa distância, pediu ao grupo para que respeitassem a quarentena e os que estavam sem, colocar a máscara. Que nesse momento, a moça de nome Pâmela se virou para ele, tirou a máscara e perguntou se ele era da vigilância sanitária para querer obrigá-la a ter que usar a máscara. O depoente disse que a reclamante estava, até aquele momento, com máscara e somente quando ela retirou, ele a reconheceu como sua vizinha e lhe pediu para colocar a máscara de volta. Que a jovem não atendeu o pedido e ainda respondeu que não tinha covid e ninguém iria obrigá-la a usar máscara. Que, diante disso, pensando nos amigos que já morreram, o sangue lhe subiu pela cabeça e falou a frase que se tornou objeto de denúncia, para a qual veio prestar seus esclarecimentos. Que na raiva, olhou para a reclamante e falou que no caso dela era melhor colocar a máscara, porque ninguém era obrigado a conviver com uma feiura tão medonha. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
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B.O: N° 08-6492/2020
NATUREZA: COMUNICAÇÃO DE ANIMAL DESAPARECIDO
DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE JUNHO DE 2020
COMUNICANTE: OLEGÁRIO DE MARIA ANUNCIADA
O senhor Olegário de Maria Anunciada, vulgo padre Olegário, cinquenta anos, celibatário, sacerdote, formado em filosofia e teologia, pároco e morador desta freguesia, compareceu a esta delegacia para comunicar o sumiço de animal equino de propriedade paroquial e solicitar toda a ajuda policial e civil possível para captura ou obtenção de informações sobre o seu paradeiro. O depoente, perante mim, escrivã de polícia, comunicou que se deslocou nesta quarta-feira passada ao sítio de nome Oiteiro, propriedade do popular conhecido como seu Malaquias, a pedido do mesmo, para averiguar fato estranho ou provável atuação do sobrenatural e dar bênção no local. Disse que tinha conhecimento das histórias que o povo conta sobre a existência de uma maldição no local e acrescentou que a ciência dessas histórias nunca foi motivo para dar ou tirar crédito delas. Como São Tomé, gosta de acreditar depois de provar; que é assim que a Igreja ensina e os tempos modernos exigem. Explicou que a história da maldição começou assim que o coronel Manoel Bento, depois de ter morado muitos anos naquele logradouro, decidiu deixar o sítio. Uma parte do povo conta que ele decidiu sair porque encontrou uma botija no lugar, visto ser essa a regra para quem arranca esse tipo de tesouro: não tapar o buraco, não dar as costas ao sair do lugar e nunca mais voltar. E, completou, se houver algum pedido por parte da alma que revelou a botija, a pessoa fica com a obrigação de cumprir essa parte do acordo. E, disse o depoente, como o coronel não cumpriu com a parte dele, a alma continua lá, perturbando quem põe os pés na casa grande. Indagado, o depoente disse que essas crendices não são de todo contrárias à fé e acha por bem manter a mente aberta, embora não conheça nenhuma pessoa que tenha enriquecido com botija. Que o próprio coronel Manoel Bento já era rico antes dessa história. Que se ele, o padre, fosse uma alma penada nunca escolheria um homem daquela espécie para dar coisa alguma. Que pensa assim, mas acredita que os planos de Deus são sempre um mistério. Interpelado pelo delegado sobre a relevância dessa história para os fatos, pediu que fosse ouvido e depois o agente da lei decidia sobre o que fazer com a história ouvida. O depoente concordou em ser mais objetivo, porém pediu que ficasse também registrada a outra versão, a do povo, que tem outra causa para a origem da maldição, dessa vez, ligada a dona Dotinha, mãe do coronel, e os horrores que ela infligiu aos escravos naquela casa. Disse que, pelo que ouviu o povo contar, foi uma escrava, que tinha sido ama de leite do coronel, que foi escorraçada da casa e jogada no pátio para ser açoitada até à morte; que foi ela que rogou as pragas e amaldiçoou a casa, e que, desde então, ninguém mais consegue viver em paz naquela residência. Que a alma da falecida começou a perturbar o coronel e por isso ele foi embora, para nunca mais voltar, e foi nesse estado de abandono, com a habitação caindo aos pedaços, que o novo proprietário, seu Malaquias, a adquiriu e começou a reformá-la. Que, tão logo começou a reforma, apareceram os problemas. O depoente soube, por meio de populares, que a casa, em suas palavras, “começou a cuspir barro nos moradores”. Que os peões contaram que quem se atrevia a dormir lá, acordava com a rede e a boca cheia de terra. Que era muito barro caindo do teto e das paredes sobre eles. Que ouviu de um peão que um deles, um rapaz muito corajoso, ficou acordado, armado de facão e revólver, para ver o que acontecia, e o que aconteceu foi que ele amanheceu cego, de tanto barro que levou nos olhos. Que não tem mais ninguém querendo trabalhar na reforma da casa, não importa o valor que ofereçam, e, por conta disso, seu Malaquias, corajoso do jeito que é, prometeu passar a noite na casa, nem que fosse sozinho; ele disse que se houvesse algum assombramento, botava pra correr; mas se fosse desse mundo, só um dos dois sairia vivo pra contar a história. Que o proprietário estava mesmo determinado a cumprir com a promessa, e por isso passou cedinho na igreja, confessou os pecados, encomendou o corpo e pediu ao padre para ir no outro dia, o mais cedo que pudesse, fazer a bênção na propriedade ou recolher seus restos mortais. Disse que, como o acesso ao local é difícil, não dá para chegar de carro nem de moto, pegou um cavalo de propriedade da paróquia e se dirigiu ao logradouro, na montaria, como os padres de antigamente. Tão logo chegou ao pátio da casa e passou pelo tronco onde a escrava foi brutalmente espancada até à morte, deu um pé de vento tão forte que o derrubou da montaria e caiu de cara no chão, sem conseguir ver mais nada, pois havia terra saindo de tudo quanto era lugar em sua direção. Não pensou duas vezes e se apegou ao rosário pedindo a proteção da Virgem Maria. Que não sabe onde foi parar o breviário nem o frasco com a água benta, menos ainda a sua montaria. Só deu tempo de se benzer e sair correndo dali, para se esconder atrás de uma moita. Que não sabe notícias de seu Malaquias nem do animal, mas deseja muito saber como ele se encontra e recuperar o cavalo, e espera que os dois estejam bem. Perguntado sobre o que ele acha da maldição, disse que prefere não comentar mais sobre o assunto. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
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B.O: N° 06-6492/2020
NATUREZA: NOTÍCIA SOBRE AÇÃO CRIMINOSA
DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE ABRIL DE 2020
COMUNICANTE: JOSÉ JOAQUIM EFRAIM DA SILVA BRITO
O senhor de nome José Joaquim Efraim da Silva Brito, vulgo Zé Brito, vinte e nove anos, divorciado, porteiro, residente nesta freguesia, compareceu de livre e espontânea vontade a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, notícia da qual diz ter conhecimento sobre a verdadeira razão da morte do senhor José de Ribamar da Anunciação, porteiro falecido e ex-ocupante do cargo do qual o depoente diz ter se desligado na manhã de hoje. O depoente disse que assumiu a função de porteiro no Residencial Portal do Paraíso há dois dias e na noite de ontem teve seu primeiro plantão noturno. Que assumiu essa vaga após a morte do referido porteiro, que o antecedeu e foi encontrado morto no local de trabalho, ao amanhecer do dia. Que a causa da morte foi dada como natural, mas ele tem informações fidedignas a repassar que o levam a crer que a morte do colega de profissão não foi de causa natural. Disse que há nas filmagens armazenadas do condomínio em questão as provas que a delegacia precisa e pede que sejam solicitadas ao síndico com a máxima urgência. Que este tem o hábito de apagar as filmagens pela manhã cedo, dizendo que não gosta de guardar imagens da noite, a não ser que haja algum crime ou ato obsceno. Que é sobre as filmagens que pretende falar, mas que para isso precisa explicar como é o sistema de vigilância eletrônica do condomínio. Que há câmeras espalhadas por quase todos os lugares, da entrada do prédio aos corredores, passando pelos elevadores, e que só não há câmeras nos banheiros, dentro da guarita, dos apartamentos e nas escadas que ligam um piso ao outro. Que os corredores são bastante longos. Que há trinta unidades por andar, quinze de cada lado. O depoente fez questão para que registrasse que, apesar de todo esse sistema de monitoramento, a iluminação em alguns corredores é precária, pois muitas lâmpadas foram desligadas para economizar energia e em alguns pontos o sensor de presença não funciona, de modo que as câmeras nem sempre capturam uma boa imagem do que aconteceu. Dito isso e verificado que foi anotado por mim em seu depoimento, o depoente continuou e disse que na noite em que estava na guarita tinha como olhar pelo monitor as imagens produzidas pelas câmeras e numa delas viu passar um vulto, mas não se preocupou, pois na hora pensou que pudesse ser apenas uma criança correndo ou alguém andando rápido. Que viu novamente o vulto, e desta vez estava parado no final do corredor, no sexto andar, que é mal iluminado, e lhe chamou a atenção o fato de o vulto estar de camisola, dessas que só velho ainda usa, e parado. Disse que pensou ser alguma senhora de idade que ficou presa fora do apartamento, ou pior, sonâmbula. Que, com o intuito de ajudar e interfonar para o apartamento correto, selecionou a câmera que capturava a imagem e ficou de olho, tentando identificar ou entender o que se passava, mas não havia como dar mais zoom e a iluminação não era boa. Para sua surpresa, num piscar de olhos, o vulto sumiu. Que imaginou na hora que pudesse ter sido um delay da imagem. Que a câmera tivesse parado de funcionar e quando voltou ao normal a pessoa já tivesse conseguido entrar no apartamento. Por conta disso, relaxou, mas não demorou, o vulto tornou a aparecer, na mesma posição, no corredor do andar de baixo, que também é mal iluminado.Que ficou pensativo e focado naquilo, até porque não havia outra coisa com a qual se preocupar, a noite estava calma e chuvosa. Que, com a câmera fixa, percebeu que o vulto se movimentava vagarosamente, como se não mexesse os pés, em direção às escadas, mas sempre que acontecia alguma interferência estática, a imagem borrava e o vulto sumia, até que viu, numa imagem melhor, que o vulto andava pelo corredor do terceiro andar. Ao ser indagado, disse que não tinha como saber se era homem ou mulher, mas como estava de camisola e touca, concluiu que se tratava de uma senhora. Que percebeu um padrão nas imagens: que o vulto aparecia, andava lentamente em direção às escadas, acontecia um pouco de estática, sumia e reaparecia no andar de baixo. Sempre aparecia próximo às escadas, na ponta do corredor, quando começava a atravessar o corredor. E foi assim até chegar ao primeiro andar. Como nas escadas não há câmeras, ele deixou as do primeiro andar e as do térreo, que dão para as saídas das escadas, fixadas no monitor. Desta vez não havia como sumir, pois o vultovoltava para o corredor de onde tinha saído ou apareceria no térreo, pelas escadas. Que isso demorou de dez a quinze minutos e não apareceu nada. Que desta vez não teve estática e as imagens estavam boas, e não havia como se esconder, a pessoa só podia estar parada nas escadas, mas fazendo o quê, se perguntava. Disse que estava decidido e não tiraria os olhos do monitor enquanto o vulto não aparecesse novamente, nem que passasse a noite inteira olhando parra as telas. Que assim estava, quando sentiu a presença de alguma coisa. O ar ficou mais frio e ouviu uma respiração pesada em suas costas. Ficou com muito medo de se virar, pois tinha certeza que era o vulto atrás dele. O depoente disse que, congelado de medo, começou a rezar um Pai Nosso e pediu a proteção da Virgem Maria. Disse que tinha certeza que aquela seria sua última noite na terra. Aquele vulto estava ali para matá-lo. Estava só esperando ele se virar. Que aquilo demorou mais de meia hora, até que um trovão estourou nos céus e ele pensou que era chegada a hora. Que, para a sua sorte, não foi o que aconteceu. Quando o som dissipou, não havia mais nada, não sentia nenhuma presença, mesmo assim, não olhou para trás em nenhum momento. Na manhã seguinte, mal esperou o síndico aparecer, pediu demissão e veio direto a esta delegacia. Por fim, o depoente disse que tem certeza sobre a forma da morte do porteiro que o antecedeu, que foi a coragem dele de se virar para trás que o matou. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
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B.O: N° 05-6492/2020
NATUREZA: AVERIGUAÇÃO DE FATO ATÍPICO
DATA DA COMUNICAÇÃO: 03 DE MARÇO DE 2020
COMUNICANTE: VALENTINA CUNHA E AZEVEDO
A menor de nome Valentina Cunha e Azevedo, treze anos, solteira, estudante, residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia na companhia de sua progenitora e mãe, a senhora Margarida de Almeida Cunha, e da senhora Ruth de Sá, na qualidade de representante do Conselho Municipal da Infância e Adolescência, para fornecer sua versão sobre a investigação em aberto, a pedido do sargento Edson Nogueira, do Primeiro Batalhão do Corpo de Bombeiros desta cidade. A menor, perante mim, escrivã de polícia, e devidos responsáveis legais, disse que tudo começou na fila da comunhão quando conversava com uma amiga, outra menor, que não será aqui identificada, sobre a hóstia ser o corpo de Cristo ou se tratar apenas de uma lenda católica. Que, em virtude dessa conversa, sem qualquer intenção planejada anteriormente ou em combinado com a amiga, ela decidiu fingir que havia colocado a hóstia na boca, mas, na verdade, manteve-a escondida na mão e levou-a para casa, onde colocou-a dentro de uma caixa de acrílico, após retirar suas bijuterias, e manteve-a fechada, desde então. Que não sabia o que fazer depois que fez isso, pois não havia pensado em nada, mas decidiu deixar a hóstia guardada para ver o que acontecia. Que não lembra quantos, mas em poucos dias começou a falar para a hóstia sobre alguns dos seus sentimentos, desejos e problemas que tinha em casa ou com suas amigas. Que não ficou apenas nisso e começou a tratar a hóstia como prisioneira e passou também a exigir que lhe fizesse favores, em troca de liberdade. Que fazia ameaças como “se não me atender, vou te dar ao gato” ou “vou te vender na internet para os satanistas”, e pedia favores como “que meus pais me deixem sair com as minhas amigas e permitam que eu possa voltar tarde da noite” ou “que meus pais aumentem minha mesada”. A menor disse que não faz ideia do porquê estava fazendo essas coisas, mas se sentia bem ao fazê-las, além disso, coincidência ou não, seus desejos começaram a ser realizados. Interpelada por sua mãe, neste momento, a menor concordou em acrescentar à sua narrativa que, paralelo a isso, mudou de comportamento e adotou a moda gótica, o que desagradou a seus pais, mas não se importou. Que apenas procurou continuar com sua vida, pois estava feliz e conseguindo tudo o que queria, graças à sua prisioneira. Que um mês depois, com a crítica dos pais, especialmente do seu pai, contra seu gosto e novos hábitos, a depoente começou a ficar chateada com a hóstia e exigiu dela que fizesse com que os pais se separassem, do contrário, a jogaria na privada e daria descarga. Que não sabe explicar, mas na semana seguinte, seus pais começaram a falar em divórcio. [A mãe tomou a fala, interrompendo a menor, e disse que isso era verdade; que ela e o marido nunca haviam tido uma crise, até então, e naquela semana, começaram a falar em divórcio. A mãe foi instruída a não interromper a fala da menor e que poderia ser ouvida, posteriormente, caso tivesse algo a acrescentar]. A menor foi convidada a continuar e disse que começou a se sentir poderosa e feliz com tudo que estava conseguindo e, por isso, decidiu falar com a melhor amiga sobre seu segredo. Indagada, respondeu afirmativo à pergunta se a amiga à qual se refere era a mesma pessoa com a qual conversou na fila da comunhão. Disse que não havia revelado a ninguém sobre ter guardado a hóstia e as exigências que vinha fazendo, e já haviam passado dois meses e dez dias desde o início dos eventos. Que foi mais motivada por orgulho e vaidade que decidiu contar tudo à amiga. Disse que a amiga ficou em choque com a novidade e quis ver a hóstia, a quem ela chamava de “minha prisioneira”. As duas concordaram em vê-la e isso seria feito no mesmo dia, após as aulas, quando deveriam se dirigir à residência da menor, o que veio a ocorrer. Ao chegarem ao local, a mãe era a única pessoa que se encontrava em casa, de modo que, além da outra menor, é a única que pode dar testemunho do acontecido. Disse que, ao abrir a porta do seu quarto, não conseguiu entrar, nem ela nem ninguém, pois exalou um odor horrível de podridão que tomou conta da casa, provocando ânsia de vômito nas três. Que até o gato da família, que se encontrava no sofá, fugiu ao sentir o fedor. Que a mãe correu em direção às duas para tomar ciência do que estava acontecendo, mas nenhuma delas teve estômago para continuar dentro de casa e enfrentar a podridão que exalava do quarto. Que acionaram o corpo de bombeiros, narraram o odor e pediram ajuda para saber do que se tratava, no que foram atendidas. A menor disse que os bombeiros entraram no quarto e encontraram um pedaço de carne em putrefação dentro de uma caixa e suspeitaram se tratar de tecido humano, razão pela qual solicitaram explicações e as envolvidas foram encaminhadas à delegacia para que prestassem esclarecimentos. A menor relatou que a caixa na qual foram encontradosos restos de tecido humano é a mesma na qual ela mantinha a hóstia prisioneira e nunca a abriu desde que a colocou lá dentro. Que não sabe explicar o que aconteceu. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
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B.O: N° 04-7871/2019
NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO
DATA DA COMUNICAÇÃO: 17 DE DEZEMBRO DE 2019
COMUNICANTE: MARCELO DE LUNA MATOS
O senhor Marcelo de Luna Matos, mais conhecido pela alcunha cabo Matoso, trinta e dois anos, casado, técnico de segurança, prestador de serviço na Escola Superior de Tugúrio e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia, na qualidade de testemunha, e narrou perante mim, escrivã de polícia, que, apesar de já ter visto muita coisa ruim na vida, ainda se encontra apavorado com a cena que presenciou na manhã de hoje. Disse que, como de costume, foi a primeira pessoa a comparecer no setor onde trabalha, quando o sol mal havia quebrado a barra; que foi ele quem acionou a polícia e guardou o local para que ninguém contaminasse a cena do crime. Sobre a ordem dos acontecimentos, declarou que ao chegar ao trabalho percebeu gatos no local, o que não é incomum na área, mas não é normal naquele setor em específico, uma vez que ali não costuma haver comida para eles. Quando viu os gatos, pensou que fosse bicho morto ou resto de comida que alguém havia esquecido; e que, ao se aproximar do local viu, pela parede de vidro, a cena que fez seu estômago revirar e ter ânsia de vômito; mas fechou a boca e saiu às pressas. Que voltou pouco depois, desta vez mais bem preparado, para verificar o que havia ocorrido, acionar a polícia e avisar aos outros setores. Que, ao retornar ao local, confirmou o que temia, se tratava de uma cena de crime, e concluiu isso porque havia muito sangue e os corpos estavam dilacerados. Disse que conhecia cada funcionário daquele setor e os tinha em consideração, que sempre se falavam e se davam muito bem, e acrescentou que não entende como Deus pode deixar que uma maldade como essa aconteça no mundo. [O depoente me pediu um tempo para se recompor e diante de flagrante necessidade, o depoimento foi interrompido por trinta minutos. Findo esse lapso temporal, o depoente apresentou condições psicológicas ainda abaladas para continuar e solicitououtra pausa, dessa vez com tempo necessário para fazer uma oração e pedir que Deus nos protegesse de coisa parecida. O delegado insistiu na urgência da coleta de informações e o depoente voltou a fornecer detalhes sobre osfatos]. Retomando, disse que os corpos estavam todos com fraturas e vísceras expostas, havia muito sangue no recinto e o cheiro de morte misturado ao de café era forte. Que a sala estava fechada por dentro e a assassina se encontrava ali, à vista, parada, no centro da sala, impiedosa e fria. Que não havia outra coisa a ser feita a não ser se benzer, chamar a polícia e torcer para que a assassina ficasse onde estava, quieta, até a polícia chegar. Ao ser questionado sobre como conseguiu identificar a assassina na cena do crime, o depoente se levantou da cadeira e disse que repetiria a mesma história que contou aos policiais quando chegaram à cena e que, por mais absurdo que possa parecer, é a mais pura verdade. Convidado e se sentar, aceitou e passou a narrar o que viu. Disse que conhece os funcionários daquele setor há muitos anos e os três gostam muito de café, mas tinham ficado sem cafeteira. A anterior queimou e estavam providenciando uma vaquinha para outra. Destacou que sabe disso porque conversou com eles mais de uma vez sobre o assunto, tendo inclusive visto alguns preços com eles na internet. Que a compra só não foi em frente porque o novo chefe do setor, que assumiu há alguns meses, chegou com uma cafeteira nova e a deu de presente ao grupo. Acrescentou que a alegria da equipe foi muita, mas durou pouco, uma vez que ninguém esperava o pior, que a cafeteira estivesse endemoniada. Neste momento, o delegado interrompeu e solicitou ao depoente para repetir a palavra usada e, se possível, explicar de forma clara o seu significado, ao que o depoente atendeu e disse se tratar de pessoa ou objeto que está sob atuação de um demônio, o mesmo que endemoniado. Perguntado sobre o uso de fármacos controlados ou drogas, o depoente negou fazer uso e enfatizou que, por mais que o delegado não acreditasse na sua história, a verdade é que a cafeteira estava possuída por um demônio. Que tem certeza porque viu acontecer. Que, de início, ouviu histórias de vozes estranhas saindo da cafeteira quando a água começava a ferver e pensou se tratar de brincadeira, mas foi chamado para ouvi-las e pôde confirmar com seus próprios ouvidos, pelo menos uma vez. Que recomendou a equipe se desfazer do objeto amaldiçoado, pois não era de Deus, mas nenhum teve coragem, visto que não queriam ficar sem café. Que soube de outra ocasião, quando um deles foi olhar o café e a água espirrou, chegando a queimá-lo. Que, mais de uma vez, quando a cafeteira era ligada, a energia do setor começava a oscilar, e isso acontecia só naquela sala. Soube de uma vez que todos os computadores do setor ficaram loucos, tocando músicas esquisitas, dessasque o demônio canta, quando a cafeteira foi ligada, mas os funcionários atribuíram a um vírus ou coisa parecida e o resto tinha sido mera coincidência. Que, para ele, a gota d’água foi quando um dos funcionários foi passar um café e o computador ligou sozinho e na tela apareceu a cara do demônio, rindo, mas eles atribuíram novamente a um vírus. Que estava convicto que não se tratava de vírus, mas do demônio, pois nenhum vírus de computador faz aquilo. Por fim, disse que quando viu a cena, os três mortos e a cafeteira no centro da sala, não teve dúvidas. Tem certeza que foi ela que os matou. O depoente recusou ser ouvido por médico especialista e fez questão de que seu depoimento fosse mantido do jeito que foi colhido. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:
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B.O: N° 03-7871/2019
NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO
DATA DA COMUNICAÇÃO: 03 DE DEZEMBRO DE 2019
COMUNICANTE: IVALNETE MARIA APARECIDA IMACULADA E SILVA
A senhora Ivalnete Maria Aparecida Imaculada e Silva, vulgo Neta, quarentaanos, casada, ensino médio completo, do lar, residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia distrital em dia e hora agendados, na companhia de duas testemunhas e sua advogada, todas devidamente identificadas na forma da lei. A depoente narrou, perante mim, escrivã de polícia, que se encontrava profundamente abalada com o ocorrido e estranhava as acusações que pesam contra sua pessoa. Que não passa de um mal-entendido; que nunca foi sua intenção falar mal de ninguém, quanto mais de um defunto, muito menos ainda em frente à família enlutada. Que a mãe lhe ensinou que falar mal dos mortos pode trazer bastante azar e nunca faria uma coisa dessa. Solicitada para se ater aos fatos, disse que tem ciência da acusação aberta contra ela e que tudo não passa de mal-entendido. Quando indagada, assumiu que esteve no local da ocorrência e permaneceu ali por cerca de meia hora. Que o local a que se refere é a sala cinco da funerária central desta cidade e que ali ocorreu o episódio motivo desta oitiva. Que esteve a convite da família de um amigo de infância que havia morrido recentemente e há muito não se viam. Que foi justamente para o velório dele. Que convidou para irem ao funeral consigo duas pessoas, amigas de vizinhança, visto que o marido da depoente se recusou a acompanhá-la. Indagada, disse que as amigas às quais se refere são as mesmas que estão presentes como testemunhas nesta oitiva. Que tomou a atitude descrita para não correr o risco de ficar sozinha, pois não conhecia ninguém da família do morto além da amiga que a convidou. Que chegaram ao local por volta das oito horas da noite e não pretendiam demorar. Que nenhuma delas gosta de ficar em local onde há gente morta por muito tempo, especialmente à noite. Que, ao chegarem à funerária, não pararam na recepção e foram direto para a sala onde acontecia o velório, a sala de número cinco, conforme sua amiga e irmã do falecido lhe informou ao telefone. Ao adentrarem o recinto, percebeu que não eram as únicas a estarem atrasadas. Que a sala estava quase vazia, só haviam três pessoas no local, uma senhora e duas pré-adolescentes, todas sentadas no canto da parede. A depoente fez questão de explicar que quando disse que não havia mais ninguém não contabilizou o morto, que estava no caixão aberto no centro da sala, exposto à visitação. Que, chegando ao local, não viu sua amiga ou outra pessoa parecida com ela, que pudesse ser da família, nem qualquer pessoa conhecida, o que achou estranho, mas não parou para pensar no caso. Que, ao entrar na sala, fez uma saudação discreta à mulher e às meninas que estavam sentadas e foi direto ao caixão, para dar uma olhada rápida no morto. Que rezou um Pai Nosso junto ao falecido e somente depois foram se sentar, no lado oposto ao do grupinho que já estava na sala, para aguardarem a amiga ou outro parente. Que, nesse intervalo, para quebrar um pouco o clima chato de velório, ela começou a contar às amigas algumas lembranças que tinha do falecido. Indagada, disse que pode ter falado em voz alta, de modo que qualquer pessoa que estava na sala poderia ter ouvido o que ela falou. Sobre o conteúdo do que falou, disse que contou às amigas que se lembrava de poucos episódios sobre a vida do falecido, a maioria de quando eram crianças. Contou que o falecido costumava se vestir com roupas de mulher e brincar com as amigas, até altas horas. Que esse hábito foi mantido, escondido dos pais, até a adolescência; quando, em mais de uma ocasião, ela o ajudou a se maquiar antes de sair, mesmo tendo ensinado-o a fazê-lo sozinho. Que foi somente após o falecido começar a namorar com meninas que ele diminuiu o hábito, mas, vez por outra, passava na casa dela e os dois ficavam muito à vontade, e ele fazia questão de experimentar os sapatos e vestidos que ela tivesse. Que ele não gostava de outras coisas femininas além de vestidos, sapatos e maquiagem. Disse às amigas, naquela ocasião, que, certa vez, ainda na adolescência, ele levou para ela o seu primeiro cigarro de maconha e fumaram juntos. Que o falecido era muito divertido e que ela não sabe por qual razão os dois se afastaram. Disse que foi somente isso que falou às suas amigas naquela noite e não viu nada de mais nisso. Respondendo a pergunta do delegado, disse que sim, percebeu que enquanto falava do falecido a mulher e as duas meninas choravam bastante, mas não fazia ideia de quem eram ou por que estavam ali. Declarou que não sabia nada sobre a vida do falecido nos últimos dez ou doze anos, mas tinha certeza que ele não havia se casado e aquela mulher não podia ser esposa dele nem as meninas suas filhas, e se fossem da família deveriam saber muito bem o que ela estava falando, pois o próprio falecido abriu a boca e confessou tudo sobre sua vida sexual numa noite de natal em família. Que se lembrava muito bem da ocasião, apesar de não se recordar mais do ano, pois ele teve que ir dormir na casa dela após a confissão, e levou algum tempo para a família aceitá-lo, mas acabou dando tudo certo. Que a família não tinha mais segredos quanto a isso e aceitava seus namorados, por isso ela se sentiu à vontade para falar o que falou. Que não viu razão para se preocupar com a discrição sobre a intimidade do falecido, pois não acha vergonhoso ser gay. Quando perguntada, disse que se lembrava sim de ter falado às amigas que ela havia conhecido o grande amor da vida dele. Que se lembrava de ter dito isso e na mesma hora acrescentado que não se recordava mais do nome, mas sabia que os dois trabalhavam juntos quando se conheceram. Que, por mais de uma vez, teve vontade de perguntar àquela senhora o que era do falecido, mas como estava sempre chorando, achou por bem esperar a amiga chegar, pois não sabe lidar com gente chorona. Que isso demorou cerca de meia hora. Como não viu chegar ninguém da família, as três decidiram que estava na hora de irem embora. Que, ao saírem da sala cinco onde o corpo estava sendo velado, viu sua amiga no bebedouro e chamou por ela, que lhe perguntou o que faziam ali, visto que o velório estava sendo realizado na sala quinze. Que somente nesse momento percebeu que falou do morto errado na frente de uma família que ela não faz a menor ideia de quem é e que ficou morta de vergonha, mas não teve coragem de voltar e pedir desculpas. Era o que tinha a relatar.
Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental
*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).
Naquele fim de tarde a senhora Dolores, jornalista ainda em atividade com um blogue que discorre principalmente sobre política, dispensou a empregada uma hora mais cedo. Disse à jovem serviçal que ela própria (Dolores) cuidaria do jantar, pois se tratava do aniversário de casamento dela com o senhor Tibério (desembargador aposentado) e que eles fariam uma comemoração muito íntima, visto que ambos não conceberam filhos em virtude da esterilidade da senhora Dolores.
Tinham adotado duas crianças, um menino e uma menina de três e dois anos, respectivamente, mas estes hoje são adultos, foram estudar nos Estados Unidos e por lá ficaram. Dolores e Tibério estão casados há cinquenta anos. Ele já ronda as portas dos oitenta, a completar-se em dezembro, enquanto que Dolores (oito anos mais nova) conta setenta e dois. Havia bastante tempo que os consortes não sabiam mais o que era um momento de relação sexual. Sobretudo o senhor Tibério, que guarda quanto a isso apenas uma vaga lembrança. Nesse dia, porém, a senhora Dolores estava disposta a reacender a cama gloriosa de que eles gozaram no passado.
— Olha, eu estou muito a fim, querido.
— Hum. Até posso imaginar o que seja.
— Pois é. Você não tem escapatória.
O jantar não teve nada de muito especial, quando degustaram uma boa garrafa de vinho de cinco mil reais. O detalhe que se destacou na refeição foi uma considerável quantidade de castanhas-de-caju salgadinhas e amendoim torrado. Isso, no entendimento da senhora Dolores, em harmonia com o vinho fino e caro, possivelmente ressuscitaria a libido há muito adormecida do senhor Tibério.
Sim, o homem apreciava castanhas e amendoim. Em particular castanhas-de-caju. Mas essas angiospermas devem ser consumidas com moderação, ainda mais quando falamos de um indivíduo com quase oito décadas.
Na cama, durante umas massagens e outros estímulos, parecia que o senhor Tibério readquirira as forças abaixo da linha da cintura. A senhora Dolores, trajando uma minúscula camisola vermelha, como era apropriado naquela ocasião, animou-se com os discretos sinais, os sutis espasmos eréteis do marido.
Completamente nu e de papo para cima, a barriga branca e avantajada se destacando na penumbra, até mesmo o próprio senhor Tibério empregou um tanto de fé no seu hipotético desempenho ali, entre quatro paredes. Enfim, após um jejum de anos a fio, ele estava prestes a cumprir com sua obrigação de virilidade. A senhora Dolores caprichava na massagem daquele membro invertebrado.
— Está gostando, meu Alain Delon?
— Sim, sim, minha Afrodite. Muito.
— Que bom! Hoje, então, dará certo.
Eis, todavia, que o excesso de castanhas e amendoim com vinho surtiu um efeito desastroso. A vaga lembrança da cama gloriosa deu lugar a cólicas repentinas e o senhor Tibério mal teve tempo de chegar ao banheiro. A senhora Dolores pôde ouvir os estampidos. Após uns trinta minutos, lavado e enrolado em um roupão de banho, o Alain Delon voltou para a cama com um aspecto de morto-vivo. A tórrida noite de amor do casal foi pelo ralo. Frustrada, ela indagou baixinho:
Terça-feira passada, ao ler um conto do escritor Inácio Rodrigues Lima Neto, delegado da Polícia Civil e colaborador deste Blog Carlos Santos, senti-me inspirado diante da ótima urdidura de Inácio Rodrigues. Então, como há muito eu não faço, falei de mim para comigo e disse: “Vou escrever algo assim para o próximo domingo!” Coisa nenhuma! Fiquei só na vontade, no caqueado.
Sem querer jogar a toalha, sem digerir a derrota, procurei alguns autores e as suas páginas a fim de me livrar da influência do enredo trazido por Inácio, que no final das contas embaçou o meu horizonte criativo.
O referido conto, publicado aqui no Blog no dia 17 de novembro de 2019 sob o título “Memórias em cacos” (veja AQUI), vale quanto pesa, conforme o adágio. O danado me pegou mesmo de jeito. Esse causo oferta ao leitor uma história cheia de surpresas e astúcias literárias que nos deixa de queixo caído no seu desfecho.
Ouso dizer, sem sombra de dúvida, que se trata de um dos melhores contos já publicados neste espaço, muito embora o autor seja uma espécie de contista bissexto.
Como podem notar, findei entregando os pontos. Não escrevi o que pretendia, contentei-me com louvar o texto de Inácio, cuja narrativa merece ser lida ou relida por todos que acompanham o que se estampa aqui.
De minha parte, quando eu reorganizar a oficina da inventividade, almejo produzir uma peça dessas do chamado gênero short story. Por enquanto, sem lhes apresentar uma crônica propriamente dita e muito menos a ambicionada ficção, considero razoável tecer estes palpites acerca de “Memórias em cacos”.
Apesar da ideia de fragmentação, tudo se encontra nos devidos lugares. Recomendo, portanto, a quem não conhece o texto, que procure ler essa escrita do Inácio Rodrigues.
Não se trata de incensar ou adular. Porém (coisa que não dói nem arranca pedaço) apenas parabenizo o autor. Pois se agora me comporto de tal forma é por único e simples merecimento desses bem-articulados “cacos”.
Sob o ponto de vista da extensão do texto, numa ordem decrescente, a ficção em prosa é classificada em romance, novela e conto. Longe de ser arbitrária, essa classificação tem sua razão de ser, pois, entre outras coisas, os recursos imaginativos do escritor e a própria formatação da narrativa dependem muito do estilo/subgênero em que se deseja escrever.
Como explica Alan Wall, em “Writing Fiction” (Collins, 2007), “a mais óbvia diferença entre o romance e o conto é a extensão/tamanho. O romance é algo muito mais longo, e todas as outras diferenças decorrem desse fato. A maior extensão permite uma variedade de vozes, retratos detalhados de diferentes vidas; ela permite uma ambientação variada, com a descrição dos locais e de suas populações. A narrativa pode acelerar ou diminuir de velocidade, pode ter longas seções meditativas, em que nada acontece com exceção da descrição das inúmeras reflexões. Por isso o romance é talvez a mais flexível forma literária já inventada”.
A novela, basicamente, fica no meio do caminho, no que toca a tamanho e características, entre o romance e o conto.
Quanto ao conto, os especialistas ensinam o que dá forma e conteúdo a um texto de excelência: partir de um fragmento da vida ou de uma história; daí retornar a um tema universal; apresentar uma mínima biografia das personagens; sugerir mais do que contar; ter um narrador irreal, num monólogo, ou ter um diálogo, com duas visões de mundo; ter um mistério a ser decifrado; apresentar um caso sobrenatural com a exploração do suspense ou do terror; sugerir uma estória de amor, em regra não realizado; e, ao final, ter uma epifania. Edgar Alan Poe, Guy de Maupassant, Anton Tchecov, Ernest Hemingway, Flannery O’Connor, Jorge Luis Borges e o nosso Machado de Assis, entre outros gigantes, foram os “craques do jogo”.
Embora o romance ainda seja o subgênero narrativo ficcional mais glamouroso, o conto é um meio de expressão narrativa sobremaneira ajustado ao mundo “líquido” atual, certamente bem mais fragmentado do que o mundo/vida de outrora. O já citado Alan Wall lembra mesmo que “as estórias da modernidade são frequentemente fragmentadas: isso porque a própria modernidade é fragmentada. A vida moderna, ela mesma, não se nos apresenta num todo contínuo. Ela é comumente uma montagem de fragmentos desconectados”.
Na roda-viva de hoje, a ficção em forma de conto é uma dádiva tanto para o escritor como para o leitor. A duração de sua leitura, bem menor que a de um romance, é o suficiente para gostarmos da estória sem cansarmos. É um mundo em miniatura para se viver, com começo, meio e fim.
É nesse contexto agitado que me caiu em mãos o livro “Contos do Tirol” (Sarau das Letras, 2024), do prolífico escritor mossoroense David de Medeiros Leite, que é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e Mestre e Doutor em Direito pela Universidade de Salamanca (USAL) – Espanha. Li-o de uma tirada. Adorei. E desejo recomendá-lo por aqui.
As estórias de “Aurora”, “Tatuagem”, “Húmus de minhoca”, “Medo de dedo”, “Dahora”, “Unhas roídas”, “Fim do mundo”, “Reencontro”, “O colecionador de guarda-chuvas”, que compõem os “Contos do Tirol”, seja na voz de um narrador imaginário ou nos seus diálogos, retornando a temas universais, têm amores não realizados, um tico de pornografia, psicologia, suspense e, claro, várias epifanias. Identifiquei-me, inclusive, com algumas dessas estórias.
Sophie King, em “How to Write Short Stories” (How To Books, 2010), ensina que “escrever contos é tanto uma ciência como uma arte”. Pois David de Medeiros Leite, professor doutor e fino escritor, em “Contos do Tirol”, misturou muito bem essas duas sabenças.
Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL
A chegada de novo pároco em Januária atiçou a curiosidade noturna dos habitantes. O que houvera de fato? O sacristão segurava-se na promessa feita ao padre Salomão. O novo padre, jovem, foi alvo de assédios e bajulações. Desde aquele episódio do “pastor” envolvido em falcatruas e outras sujeiras, a igreja católica de Januária havia recuperado prestígio e angariado novos praticantes.
Agora, era a igreja romana que se via no enrolado de um silêncio. Assim, no singular, como gostava Saramago. O que houvera?
Na madrugada daquele dia, uma semana após a chegado do padre Thiago, a pensão de dona Olívia recebe dois forasteiros. Dois rapazes e uma moça portando vários equipamentos de filmagens e fotos. Máquinas e tripés. Januária amanhece alvoroçada. Ao chegarem à igreja matriz, os visitantes se apresentaram ao padre.
Fariam uma reportagem sobre o padre Salomão, Antecessor do jovem pároco. Ou melhor, uma matéria sobre a vida do padre destituído naquela localidade. Posto que, sobre o próprio padre Salomão, eles é que sabiam das coisas que Januária desconhecia.
Ouvindo a explicação dos forasteiros ao padre Thiago, o sacristão resolveu contar o que sabia. Pois fora superficialmente informado por aquela comissão que viera buscar o velho padre. Tudo girava em torno do “segredo” vazado da confissão.
De tempos antigos, anos de chumbo, o padre Salomão fora capelão do Regimento de Infantaria do Exército, em Recife. E nessa condição, prestara serviços inconfessáveis aos órgãos de repressão. Dentre esses préstimos, o uso do confessionário para obter informações que repassava aos policiais, nos “inquéritos” da repressão política. Presos políticos, sob tortura, muitos deles católicos, prestavam-se “ao conforto” do confessionário. Confessor? Padre Salomão.
Como fora desmascarado comprovadamente? Conto. Um seminarista de São Paulo, preso juntamente com frades beneditinos, foi transferido para Recife, por ter sido citado num inquérito ali instaurado. Corria o boato das suspeitas sobre o confessor capelão. O seminarista, ardilosamente, pede para se confessar. E na confissão, conta ao padre Salomão que participara de uma queima de canavial, em Nazaré da Mata, nominando mês, dia, horas. Ele sabia do fato e o fato ocorrera. Colocou-se na cena do ato. Não deu outra. O padre repassa a informação.
O seminarista é interrogado sobre aquele ato terrorista, apanha pra confessar aos torturadores. Informa, contudo, que era impossível sua participação naquele dia, daquele mês, pois estava preso em São Paulo. Confrontada a informação, atestou-se que era impossível ele estar em São Paulo e Recife no mesmo dia. Ubiquidade anulada por si mesma.
Porém, nem os investigadores e muito menos o padre queriam a publicidade da desmoralização. Retiram o seminarista daquele inquérito, mantendo-o no outro, e transferem o padre Salomão pros cafundós do Judas. Onde? Januária. Esconderijo de silêncios.
Quase cheia, a Kombi da Boate Planeta parou na esquina do ferro-velho. Madrugada de sexta-feira, mais de três horas. Geralmente ele é o último a ser deixado em casa. Dessa vez, porém, os colegas votaram por desviar da rota habitual e deixá-lo primeiro. “Queremos saber onde você se esconde, Raimundo”, dissera Augusto, o barman. Então, por gentileza e alguma curiosidade, o jovem garçom chegaria menos tarde.
Chovera. O lugar estava desértico, alagadiço.
— Tem certeza, Raimundo? — indagou o motorista Fernando, que se encontrava em sua primeira semana de trabalho, de maneira que ainda não estava muito familiarizado com a rota e os endereços de todos os empregados.
— Sim. Minha casa fica bem ali.
— Até amanhã, Raimundo!
— Até. Obrigado a todos vocês!
Abriu a porta corrediça, desceu com o paletó em cima do ombro. Só então se recordou do volume. Alguém avisou que o celular dele ficara sobre o banco. Deu meia-volta. A senhora Conceição, a boquirrota cozinheira, que estava na parte da frente, pareceu ter notado alguma coisa de suspeito. Pôs o olhar diretamente na linha de cintura do rapaz. Encabulado, Raimundo cuidou logo de cobrir a saliência com o paletó.
— Vivo esquecendo esse telefone…
O veículo foi-se embora com os demais colegas da boate. Entre estes estava Gabriela, operadora de caixa, vinte e poucos anos, responsável por aquele incidente erétil. Raimundo seguiu pela rua sem pavimento. Sua casa estava a uns duzentos metros. O músculo repetia espasmos. Naquela ocasião caía apenas umas gotículas de chuva. O inverno trouxe otimismos. Açudes encheram; a vegetação e a esperança dos agricultores reverdeceram; matou-se a fome e a sede dos bichos; salvaram-se superstições.
“Será que a fofoqueira da Conceição percebeu alguma coisa? Se sim, deve estar falando sobre isso no caminho. Não duvido nada”, pensou.
Um raio fotografou telhados, alumiou quintais. Veio a trovoada. Cães no entorno se puseram a latir, grilos emudeceram nos esconderijos. O vento agredia as árvores e os fios do posteamento, produzindo um assobio intermitente. Raimundo recordou-se da lástima em que se encontra o telhado de sua casa, a esposa a condenar-lhe a falta de ação. Desceu pela rua enlameada. Driblava poças d’água, o paletó dobrado debaixo do braço, as mangas da camisa acima dos cotovelos, a mochila pendurada ao ombro.
Naquele instante lhe sobreveio uma sensação de perigo. Virou a cabeça, olhou o caminho às suas costas, os olhos vermelhos de sono piscando por trás das lentes de grau. Encontrava-se ali um homem desarmado, desprotegido, vulnerável; a mochila podia atrair meliantes. A criminalidade neste município prossegue aterrorizando o povo, enchendo os bolsos de proprietários de casas funerárias e centros de velórios.
Na semana passada, durante um assalto a uma panificadora do bairro, o dono reagiu e foi morto pelo assaltante com dois tiros. O Jarbas leiteiro ficou sem a motocicleta e a carteira com todos os documentos no dia de Nossa Senhora Aparecida. Até o momento, pelo que se sabe, nem a moto nem os documentos apareceram.
Não está fácil para ninguém. Um sargento da Polícia Militar teve a sua jovem e bonita esposa levada por um estranho. A digníssima foi embora com o desconhecido por vontade própria. Mas não tratemos aqui sobre senhoras que se extraviaram sob o nariz dos maridos. A negligência dos homens para com as mulheres é um caso antigo. Muitos se dão conta disso só depois de abandonados. O garçom corre esse risco.
Raimundo começou a se sentir à vontade. A lembrança de Gabriela voltou a mexer com ele. A sensação de perigo se afogou nas poças d’água, as passadas caíram de ritmo. Já não tinha pressa de chegar quanto no instante em que descera da Kombi. Teve a impressão de que o vulto de Gabriela se apresentara diante dele, dissipando-se rapidamente. Buscou retê-la na memória. Recordou-lhe a covinha na ponta do queixo, os olhos verdes e os cabelos negros, a pele morena ainda exalando um perfume amadeirado, além da blusa a exibir um pouco das alças do sutiã. Não é de agora que essa moça o atrai.
Meteu a mão no bolso esquerdo a fim de melhor acomodar o volume. Aí se apercebeu da umidade viscosa que ultrapassara o tecido do forro. Sungou os testículos, passou a mochila de um ombro para o outro. Durante o trajeto, que durou pouco mais de vinte minutos, supôs que a colega lhe pressionava uma das coxas. Isto o atiçou. Aproveitou os solavancos e o balanço do carro para retribuir o hipotético estímulo.
Mas não passou disso. Manteve-se discreto, seguiu a prudência; nenhum gesto ousado. Ateve-se ao plano das hipóteses, ao vaivém das conjecturas. Imaginou-lhe a maciez da pele, o frescor dos lábios, a firmeza das coxas, seios, nádegas.
— Meu Deus! Que pedaço de mau caminho!
Aproximava-se das três e quarenta quando enfim Raimundo pisou a soleira de casa. Coçou a cabeça e olhou o céu. Deu algumas pancadinhas na porta e esperou. Algum tempo depois pôde ouvir o arrastar das sandálias vindo em sua direção. Por hábito, a mulher perguntou quem era. Ele respondeu. Francisca abriu a porta. Bêbada de sono, sem olhar no rosto do marido, deu-lhe as costas e retornou na penumbra.
Raimundo entrou calado. Pôs o paletó e a mochila sobre o sofá. Encaminhou-se para a cozinha, abriu a geladeira e destacou algumas uvas do cacho que restara em uma bandeja de isopor. A chuva recomeçou com raios e trovões. De novo a lembrança de Gabriela invadiu a sua cabeça. Ele foi ao quarto, despiu-se, pegou uma toalha e rumou para o banheiro, a força do vício solitário a lhe inflamar os pensamentos.