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Carlos Augusto adora ser ele mesmo até hoje

Antônio Abujamra era um personagem que se encaixou em Carlos Augusto e vice-versa (Foto: Arquivo)
Abujamra foi um personagem que foi adesivado em Carlos Augusto (Foto: Arquivo)

Habituado a adesivar apelido em qualquer um, seja aliado ou adversário político, o ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado coleciona essa modalidade de troça há décadas. Inocentemente, alguns ‘homenageados’ até pensam que é uma deferência ou afago.

Não mesmo.

A ex-deputada federal Sandra Rosado (PSDB), prima e por muito tempo adversária política, para ele é “A poderosa.” No seu íntimo, claro que não. O todo-poderoso é ele mesmo.

O bancário aposentado Pedro Moura é “Ministro,” na definição de Carlos Augusto. Pedro foi um conselheiro herdado dos tempos do rosadismo, grupo liderado pelo ex-deputado federal Vingt Rosado – tio do ex-deputado.

O jornalista Canindé Queiroz (in memoriam) era saudado como “Miséria.” Por trás, na frente, em qualquer lugar, qualquer conversa. Era Miséria aqui e acolá.

Canindé Miséria dava uma baforada no cigarro, cofiava a barba e ria.  Sabia bem o significado do tratamento pessoal. A-do-ra-va, que se diga. Contudo, não dava o troco. O tratava pelo prenome mesmo: Carlos.

Eu também não escapei do xará. Dos tempos de redação do extinto jornal Gazeta do Oeste, o codinome ‘nobre’ que me aplicou foi o de “Príncipe.” Plebeu, isso sim.

Para me ‘vingar’, sem querer ficar por baixo, atrevidamente revidava. A cada contato pessoal ou por telefone com o deputado, a saudação era uma só: “Diga, Vereador.”

Meu interlocutor não se incomodava. Sempre via tudo do alto, com olhos de enquadramento cinematográfico plongée (ângulo de cima para baixo), com todos a seus pés).

Sua mulher Rosalba Ciarlini Rosado tem um para deixá-la toda dengosa, ganho ainda nos  tempos de namoro: “Mãinha.” Entretanto, se ele está num daqueles dias de erupção, indócil… esqueça. Não cabe espalhar. Coisa de casal.

Nosso personagem também foi vítima do seu próprio veneno. Dos adversários, em tom provocativo, ganhou o epíteto de “Ravengar.” Era alusão ao personagem maquiavélico interpretado pelo ator Antônio Abujamra, na novela histriônica e satírica “Que rei sou eu?” (1989) – da Rede Globo de Televisão.

Mas, não pense você que isso lhe fez ou faz mal. Nadica de nada.

Carlos Augusto adora ser ele mesmo: Ravengar.

Vereador? Não. Esqueça essa minha bobagem.

Ravengar está de bom tamanho.

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Diáspora

Pão, pobreza, dividindo pão, fome. misériaPor Marcos Ferreira

O menino pequeno e negro abre a lixeira.

Revira o lixo e encontra um pedaço de pão.

Parece que contém um pouco de sujeira…

Estuda o fragmento e logo passa a mão.

 

Depois, espertamente, o garotinho cheira

A massa descartada e ele mordisca. Então

Descobre que seu gosto não é de primeira,

Porém não desperdiça aquela refeição.

 

É magro e cabeçudo, pernas bem cambadas.

Decerto o pobrezinho não tem nem dez anos.

À noite, com a mãe, dormindo nas calçadas.

 

Divide o pão com ela, cerca da metade.

A mãe quanto o pequeno são bolivianos,

Sozinhos e invisíveis na grande cidade.

Marcos Ferreira é escritor

Deus está vendo

Por Marcos Ferreira

Talvez eu não passe do primeiro parágrafo, não estou em condições muito favoráveis, no entanto retorno a este computador para escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Foram vinte dias sem produzir uma linha e ainda me encontro sem bússola e sem ânimo. Nesse espaço de tempo, entre ajustes nos meus psicotrópicos e efeitos colaterais, senti que esta cidade está cada vez mais desumana, insensível. Reparem nesse monte de gente desvalida que hoje mendiga em toda parte.

Olho à minha volta e reflito sobre minha condição. Esta é uma casa velha, cheia de buracos e cupins, certamente a mais modesta e feia desta Euclides Deocleciano, entretanto aqui estou guardado, protegido, com alguns pequenos luxos como uma geladeira, um ventilador e uma cafeteira. Tenho sempre algo para comer e vou conseguindo pagar ao menos as minhas contas de água e luz.

Grande parte do meu auxílio-doença, mediante laudo do meu psiquiatra Dirceu Lopes, é empregada na aquisição de medicamentos. Porém, ao andar pelas ruas de Mossoró, eu me sinto um privilegiado, afortunado. Penso que poderia ser eu (sob este nosso sol implacável) a exibir cartazes nos semáforos, pedidos de socorro. Sim, as pessoas estão pedindo socorro. Suplicam por qualquer alimento ou moedinha. Vez por outra, medindo minhas possibilidades, tento ajudá-las.

Enquanto isso, dentro dos seus carrões refrigerados, a maioria dos motoristas não baixa o vidro, sequer olha de lado. Tal súplica se arrasta desde o começo do dia e segue noite adentro. Indivíduos de todas as idades, homens, mulheres e crianças tentam vender coisas ao público motorizado, especialmente garrafinhas de água mineral, dindins, picolés, bombons e até desinfetante caseiro.

Essas pessoas, nesta Mossoró desarborizada, ficam expostas a sol e chuva. Mas chuva é algo raro por aqui. Sobre seus produtos, quando conseguem vender, têm lucro de centavos. Como se consegue subsistir numa carestia como esta em que se acha este país ganhando centavos? Aos demais, os que não têm nada para tentar vender, só resta a mendicância. A esta hora, meio-dia e quinze, enquanto escrevo esta página, eles estão nos semáforos, sob o sol, ignorados e famintos.

Onde estão os vereadores, o ilustre senhor prefeito, a Igreja Católica, as igrejas evangélicas, os donos de redes de supermercados e vários outros empresários e poderosos que não se mobilizam em favor dos pobres? Ou só vão doar alguma comida quando chegar o Natal? Acham que os miseráveis não têm fome nos outros dias? Não vejo distribuição de cestas básicas em parte alguma.

Cadê os poetas de Mossoró, escritores, jornalistas, intelectuais? É preciso união da classe pensante, a fim de se pressionar o poder público e a sociedade como um todo. A prefeitura queima muita grana com fogos de artifício, enfeites natalinos e diversos adornos, enquanto os pedintes definham de estômagos vazios. Por sua vez, a Câmara Municipal aprova verba para todo tipo de coisa. Inclusive, fato notório, aumentaram os já polpudos salários dos próprios parlamentares.

O que os caros (e dispendiosos) vereadores pretendem fazer pelos desvalidos? Algum desses legisladores ou legisladoras, por gentileza, poderia me responder? Não foram todos eleitos, principalmente, com a promessa de assistir o povo carente da terra de Santa Luzia? Tomara. Estamos esperando. Ainda há tempo. Façam valer os votos que receberam. Mostrem serviço, caríssimos!fome_pobreza_ss_1

Os mandachuvas do Executivo e do Legislativo precisam deixar as suas confortáveis poltronas e os seus gabinetes geladinhos e olhar de perto, fora dos seus carros de luxo, a fome estampada nos rostos de quem esmola nos semáforos, praças e canteiros. Há mulheres com crianças pequeninas, sofridas, desnutridas, implorando a caridade dos que podem ajudar e não ajudam. Porque muitos dos potentados desta província, infelizmente, viram o rosto diante dos infelizes.

“Ah, senhor cronista, essa fome toda não é só neste município”, dirá alguém no espaço reservado à opinião do leitor. Eu sei disso. Todos nós sabemos, embora certas pessoas prefiram fingir que não estão vendo nada. O Brasil das camadas inferiores vem padecendo em demasia nestes últimos anos. São quase vinte milhões de brasileiros passando fome e quinze milhões de desempregados.

Mesmo nesta residência estragada do subúrbio, com todos os indícios de um morador sem recursos ou haveres, aqui e acolá um cristão aproxima a cara dos combogós do muro, bate palmas e grita: “Ô de casa!” Vou atender, sem abrir o portão, e deparo com alguém pedindo qualquer tipo de auxílio. Às vezes é uma idosa, um idoso, ou mãe com um ou mais filhos pequenos em sua companhia. Isso me dói no coração e na alma. Abro o armário, a geladeira, e lhes ofereço algo.

— Que Deus lhe abençoe — agradecem.

Aqui, portanto, entre estas paredes velhas, torno a refletir: sou um privilegiado, um homem de sorte, apesar de certas privações e da minha gangorra psicológica. Disponho de um velho computador, que vem caducando há vários anos, uma TV, telefone, internet, um fogão que quase não uso, uma motocicleta e os meus poucos e empoeirados livros numa estante. São o meu futuro espólio.

E aquelas pessoas desassistidas, possivelmente sem um teto, o dia todo à mercê da benevolência de terceiros, expostas a um sol forte, sem um banheiro que porventura precisem utilizar? Uma tarde, ao parar no semáforo defronte ao cemitério São Sebastião, eu vi quando um homem desses que exibem cartazes apanhou do chão o que me pareceu ser uma manga apodrecida, tirou a terra com as mãos e começou a comê-la. Outros mais reviram lixeiras de supermercados e restaurantes.

Não há boa vontade dos que efetivamente poderiam agir. A Petrobras, que tem um papel social no seu quadro de ações, não se mexe, não põe a cara fora. Temos duas grandes indústrias de cimento aqui bem próximo, além de ricos proprietários de postos de combustíveis, segmentos estes que faturam alto em nosso município, contudo se preocupam apenas em se tornarem ainda mais ricos.

Deus, aparentemente, também não tem feito nada em favor dos que estão aí pelas ruas em busca de uns centavos, sobretudo de alimento. Mas Deus não falha e está vendo, não se enganem, a sovinice, avareza e falta de compaixão dos ricaços, dos potentados, abastados e políticos desta cidade. Sei que no Brasil inteiro a situação não é diferente, repito, porém me atenho ao torrão onde nasci há meio século. É necessário, e com urgência, que outros escribas e vozes se levantem.

Como sermos felizes, estarmos com as nossas consciências leves, quando vemos tantas pessoas suplicando por uma refeição? Não podemos simplesmente dizer para nós mesmos que não temos nada a ver com isso, lavar as mãos, virar o rosto, ignorar. Então, senhoras e senhores, que o espírito natalino toque os nossos corações e nós possamos abrir a carteira e estender a mão aos necessitados.

Mas não só porque Deus está vendo tudo.

Marcos Ferreira é escritor

Ninguém chorou por ti

Por Inácio Augusto de Almeida 

Faz tanto tempo. Eu não era nem nascido. Crupe é o nome da doença que te levou. Hoje, uma coisa boba. Mas naqueles dias antibióticos era difícil. Difícil e caro, principalmente para nosso pai que trabalhava numa mina de carvão no interior de Santa Catarina. Vê, Geraldo, nem mesmo o nome da cidade eu me lembro mais.

Para ti, irmão, faltou um comprimido de penicilina e o homem da mercearia, que sempre te via brincando nos fins de tarde, só soube da tua morte dias depois do teu enterro.  sofrimento, reflexão, solidão, depressão, isolamento, banco de praça,

A preta velha que te rezou, fez de coração, mas, coitada, rezava sozinha, sem nenhuma corrente formada para ajudá-la.

Eu, apesar de não te ter conhecido, sempre me lembro de ti. Papai sempre me falava de teus cabelos pretos, encaracolados, teus olhos castanhos, vivos, de uma vivacidade que denotava uma inteligência muito acima do normal; dizia que tu te foste porque Deus quis.

Sei não, irmãozinho. Sei não.

Ou será que se tu tivesses naquela noite uma equipe médica à tua cabeceira, com todos os medicamentos possíveis e imagináveis; e muitas, muitas pessoas a pedir por ti, será que o Criador não teria um pouco mais de paciência e deixaria para te levar só muitos anos depois?

Tu foste um nordestino que morreu como morrem milhões e milhões de irmãos nossos. Sem um comprimido sequer. E o que é pior irmãozinho, sem que ninguém derramasse uma lágrima sequer. Porque sobre ti e sobre os teus coleguinhas de desgraça não se criou nenhum clima emocional. Não se dramatiza sobre os Zés da vida. E são tantos, Geraldo.

Tantos, tantos que me causa espanto, quando vejo gente tão insensível, à fome e à miséria destes pequeninos, chorando nas ruas por um doente qualquer. E era dos pequeninos que o Senhor mais gostava ou não foi ele que disse: “ai de quem tocar em um dos meus pequeninos…”

Sabe, Geraldo, ainda hoje morrem pequeninos de Crupe. Não, irmãozinho, não. Existem antibióticos, sim. Bastam alguns comprimidos e pronto.

A doença que te matou é hoje fácil de curar. Tão fácil como uma simples gripe. Mas os garotinhos do Nordeste continuam morrendo de crupe. Por quê?

Ora, nenhum destes que choram e oram por um doente que nunca viram, é capaz de mandar para um pequenino uma pílula.

E elas custam tão pouco! Menos do que o preço de uma cerveja.

Não consigo entender a sensibilidade desta gente que chora a morte de um animal de estimação ou de algum famoso a quem nunca viram. Se alguém consegue entender, não sei.

Não, não me pergunte, irmãozinho, eu realmente não entendo esta sensibilidade.

Sinto vontade de rir. De rir e de chorar.

Tu te foste, irmão querido. Não tinhas sequer cinco aninhos. Eu não te vi, mas em mim ficaram as imagens de ti através do meu pai, que como nordestino que era, não podia chorar por ti.

Nem ele nem ninguém chorou por ti. E hoje, ninguém chora, reza ou faz promessas pelas crianças que, como tu, morreram e morrem sem a menor assistência.

Ninguém chora por elas, ninguém, como ninguém chorou por ti.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

P.S. – Quatro mil crianças morreram de subnutrição em 2020 e ninguém chora por elas. (Fonte: Data SUS- Ministério da Saúde).

Garimpeiros da fome

Por Marcos Ferreira

São nove e quinze. Agorinha caiu uma garoa. O tempo segue nebuloso. Deve chover novamente. Estou aqui fora do supermercado, à espreita de um cliente que me queira dar umas moedas pela limpeza do para-brisa, pois me vejo sem emprego há quase dois anos. Daqui observo quatro seres desprotegidos.

Imagino que a esta hora da noite, se tivessem o que comer, estariam em casa, talvez assistindo a uma telenovela ou vendo a partida do Flamengo contra o Grêmio. Isso mesmo. Hoje tem jogo do Brasileirão, transmitido pela TV aberta. Falo dessa maneira, claro, supondo que aqueles indivíduos possuam um lar e até um modesto televisor.marcos-miseria2-758x498

Ciranda de mosquitos, ratos ocasionais, baratas em polvorosa com suas asas envernizadas. Detalhes! O homem ignora tudo, prende a respiração devido ao odor das embalagens de carne apodrecidas. Tem estômago forte e olhos aguçados de garimpeiro urbano, bateador de refugos. Sempre é possível encontrar algo aproveitável nessas lixeiras de supermercados. Quiçá um pacote de biscoitos avariado, uma fruta machucada, um saco de pães com um tiquinho apenas de mofo.

Estimo que seja uma família: ele, a esposa e duas crianças na faixa dos seis e oito anos, um menino e uma menina. Rostos com máscaras de pano, os quatro reviram as lixeiras desse supermercado onde ora me encontro também na expectativa de conseguir algum para os meus. Pois é, tenho um menino de dez anos e uma mocinha de treze. Desde que os jornais impressos faliram, aniquilados pelo advento da Internet, com seus blogues e portais eletrônicos, enfrento perrengues. Não mais consegui me manter como revisora de textos, eis a minha antiga ocupação.

Perdoem se acaso acham que falo demais de mim e não das pessoas que revolvem as lixeiras. É que me encontro num nível não muito acima deles. Logo, por tabela, sou partícipe desse flagelo social. Tenho intimidade com os percalços por que passam esses brasileiros repelidos e marginalizados pelo sistema econômico desta “pátria amada”. É o que estou dizendo. Enquanto mãe solteira, sou protagonista dessa intolerável e vergonhosa história de exclusão e desigualdade.

Sou autodidata. Um dia aprendi a ler e nunca mais parei. Não possuo curso algum de nível superior. O mais alto que cheguei foi na conclusão do ensino médio, via provões supletivos, quando eu estava prestes a completar quarenta anos de idade. Atualmente estou com quarenta e sete, embora pareça ter bem mais. Sou a primogênita de uma prole de onze filhos de pai e mãe analfabetos. No meu tempo, com tantas bocas para alimentar, meus pais viam nossa educação escolar como uma espécie de luxo, algo não essencial ou prioritário. Não àquela época.

Opa! O garotinho encontrou alguma coisa. Parece uma barra de chocolate estragada. Meu Deus! Ele começou a comer. Agora a irmãzinha se aproxima, e o menino divide o achado com ela. Não há como não me lembrar daquele poema do Manuel Bandeira. Atualíssimo, infelizmente. O pai e a mãe estão debruçados sobre outras lixeiras próximas, compenetrados, e nem se dão conta de que os pequenos comem essa droga de chocolate, que decerto lhes fará algum mal.

Família negra, subnutrida, possivelmente sem nível algum de escolaridade. Os quatro vestem andrajos e parecem sem banho não sei há quanto tempo. Agora creio que sejam sem-teto. Gente assim não tem lugar nem dia certo para tomar um banho. Quantas outras privações não têm passado? A essa hora revirando lixeiras. Que lástima, meu Deus!

Ah, Brasil injusto, desigual! São quinze milhões de desempregados e quase vinte milhões de brasileiros curtindo fome nos quatro cantos do País. Por que, Senhor, tão poucos com tanto e tantos com tão pouco?!

Essa pandemia medonha amplificou o drama da fome, não resta dúvida, gerou desemprego em toda parte, colocou a todos nós de joelhos, contudo é o descalabro desse governo que ora nos desgoverna que vem dando o golpe de misericórdia. Caminhamos a passos largos para ultrapassar a triste marca dos seiscentos mil mortos pela Covid-19, enquanto o Nosferatu da Casa de Vidro faz pouco-caso da crise sanitária e zomba das famílias enlutadas olímpica e impunemente.

Ignorar ou omitir a criminosa contribuição que esse governo oferece para agravar a fome no Brasil, em parceria com o vírus e o desemprego, seria uma postura não menos criminosa. Não posso fazer de conta que não estou compreendendo o que se passa nem usar de eufemismos como “insegurança alimentar” ou “famílias vulneráveis”. Não, senhoras e senhores, o que mais agride o povo carente deste país é, sem uso de metáforas, fome! Muita fome! Uma fome nua e crua como essa que hoje à noite revira lixeiras de supermercado à procura de comida.

Fome dói, senhoras e senhores. Não afirmo isso por osmose ou dedução, mas por conhecimento de causa. Sei bem o que é passar necessidades, amanhecer o dia sem ter o que comer. E, ao contrário da famosa Amélia, com todo o respeito aos mestres Mário Lago e Ataulfo Alves, eu não achava isso nem um pouco bonito, por mais poético que essa tragédia possa parecer na letra e melodia de uma bela canção. A fome é uma coisa triste e feia; arrasa as pessoas, sepulta sonhos.

A mulher também encontrou alguma coisa entre os mosquitos e as baratas vermelhas. Parece que se trata de uma bandeja de iogurte. Está pingando. Ela mostra a mercadoria ao marido com um sorriso vitorioso. A menina e o menino se aproximam da mãe, na expectativa de que a genitora lhes ofereça um pouco.

Quem sabe os produtos estejam em condições razoáveis, com o revestimento de um ou outro potinho furado. Às vezes alguns clientes mal-educados violam esses laticínios nas seções refrigeradas e aí o supermercado descarta o produto sumariamente.

Como era de se esperar, a mulher divide os potinhos com as crianças. Ela própria experimenta um. Que perigo, meu Deus: ambos usam o dedo indicador como colher. A jovem senhora oferece um potinho ao marido, porém este meneia a cabeça com uma negativa, e continua a garimpagem famélica. Ainda não encontrou nada, mas é provável que também ache alguma joia dessas, a exemplo da bandejinha de iogurte e da barra de chocolate descobertas por sua família.

Um funcionário do supermercado se aproxima com um carrinho cheio de coisas para jogar nas lixeiras. O garimpeiro sorri confiante.

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede (Setembro de 2021)

A miséria filosófica…

Terra, satélite, vista aérea, planeta, espaçoPor François Silvestre

…No universo da mediocridade

O planeta é pequenino, girando num universo que o dimensiona feito grão de mostarda perdido na imensidão.

Menores que o raquítico planeta só os países que nele se aboletam, se limitam, se definem e se impõem para prover a vida em sociedade de animais “inteligentes”, auto definidos humanos, superiores aos colegas animais que não roubam, não enganam, não disfarçam e só matam para a própria sobrevivência. Legítima defesa natural.

Dito isso, vamos ao controle atual da geopolítica na Terra. Nunca, na história da humanidade, o planeta foi habitado por tanta mediocridade. Nunca.

Vejamos. Divide-se o mundo hoje entre dois impérios. O império americano e o império chinês. O americano, com seus tentáculos espalhados nas suas áreas de influências vitais.

O chinês, aproveitando os fracassos americanos, continuados, nessas mesmas áreas. Investindo no mercado de trocas, desde mercadorias agrícolas, para compra e mercadorias eletrônicas para venda. Sofisticação originária de inteligência humana e mão-de-obra servil.

E o resto? O resto é burrice e incompetência. A Europa oscila num pêndulo entre a tradição e a decadência. A África, coitada, continua a filha bastarda da História. A América do Sul, que sempre foi pouco importante na geopolítica do mundo, agora virou insignificante. Insignificante.

Desprovida até de um mínimo de dignidade humana na compleição de um estadista. Quais são os “estadistas” expostos ao conhecimento público universal da América Latina?

Respondo. Maduro, da Venezuela e Bolsonaro, do Brasil. Nossos estadistas. Um maduro que passou do ponto, estragado. E outro que passou de verde para podre sem amadurecer, Bolsonaro. Essa é a miséria filosófica do nosso tempo.

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A grande miséria

Por Inácio Augusto de Almeida

Se a maior tragédia que pode acontecer a um homem é o abandono, a maior miséria é a renúncia.

Observem que a vida do infeliz se resume a um eterno renunciar.

E de renúncia em renúncia vai se fazendo a vida daquele a quem nem ser bom é permitido, já que para ser bom é necessário estar em harmonia consigo mesmo.E isto não lhe é permitido.

De forma muito sutil o empurram para uma estagnação total.

Isolado, tende a atrofiar-se e, sem desenvolver-se, estacionado literalmente, mergulha num mundo onde não caminha.

Mas não só os pobres de bens materiais conhecem a grande miséria.

Os miseráveis de espírito, os que dão a vida por um centímetro de ascensão social, estes são os que mais afundam na grande miséria.

Por ambição renunciam a tudo, até mesmo ao direito de existir.

Torturam-se de uma forma monstruosa, negando a si mesmo qualquer coisa, num processo anulatório que, animado pelo medo, termina por afogá-los na mais extrema das degradações.

Deixam de existir e passam a viver uma ilusão que não permite sequer sonhar os próprios sonhos. Não mais pensam, apenas obedecem e aceitam absurdos como verdades indiscutíveis. Absurdos tão estapafúrdios que ferem a todos os que não estão envolvidos pelo sistema que os transformou em seres desprovidos de senso.

E não pensem que são somente os iletrados que se deixam envolver pela máquina destruidora que esmaga todos os sentimentos e anula por completo a personalidade.

Letrados, sim, doutores, também, que na busca por reconhecimento público, negam-se de forma violenta e desumana, tornando-se carrascos de si mesmos.

Trocam o direito de bem dormir pelo riso sardônico e apenas passam a mostrar os dentes, já que o riso só é permitido aos que têm alma.

Sabem, sim, sabem que levamos sempre conosco o céu e o inferno.

E fazem a opção de forma consciente,

Acham que o céu não é muito claro e na busca por mais e mais luzes terminam indo ao inferno, inferno de onde não mais conseguem retornar.

E se perdem no amontoado de mentiras, tropeçam nas próprias artimanhas e terminam mergulhando na grande miséria, que é a renúncia.

A renúncia de si mesmo.

E como a renúncia sempre vem acompanhada do abandono, quem renuncia, renuncia a si mesmo e aos outros, temos o quadro completo, a imagem nítida da miséria em toda a sua plenitude, o retrato perfeito da grande miséria.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Mais de 50% dos mossoroenses vivem na miséria

Prezado Carlos Santos, bom dia!!

Há algum tempo não escrevo ou comento no seu Blog, mas continuo a acompanhá-lo. Não sei se lembra, mas sou geógrafa e hoje, atualizando meu banco de dados com as informações do Censo IBGE 2010, fiquei “abismada” com os números referentes aos rendimentos dos mossoroenses.

Em época de sucessão eleitoral, queria dar a minha contribuição, compartilhando as contas que fiz para que possamos refletir ainda mais sobre o que queremos para o futuro da nossa cidade.

Segue o texto com os dados e uma figura “jpeg” que elaborei no power point (em anexo).

Gostaria que, se possível, a publicasse junto com o texto, pois mostra bem a dura realidade dos números: Mossoró é “a Metrópole do FuturoO????!!!!

Façam as contas.

Segundo o último Censo IBGE 2010 temos: População Total: 259.815 habitantes. Deste total: 74.676 pessoas não tem nenhum tipo de rendimento, 73.100 pessoas ganham até 1 salário mínimo.

Resultado: 147.776 habitantes mossoroenses ganham entre 0 e 1 salário (MAIS DE 50% da população).

Será que isso explica alguma coisa? Uma das melhores cidades pra se viver? Com certeza, para a parcela que ganha entre 10 e +de 20 salários mínimos.

Mais uma vez, grata pela atenção e pelos serviços prestados a este município ao abrir espaço do seu Blog para discussões importantes.

Andréa Cristiane de Melo – Geógrafa

Nota do Blog – Andréa, obrigado pela contribuição ao debate elevado nesta página.

Infelizmente, Mossoró é um microcosmos do Brasil, uma parte do todo.

A desigualdade continua acentuada, apesar de termos ampliado o contingente de massa produtiva, com melhor instrução e que ascendeu no mercado consumidor.

Nosso futuro prefeito (a) não poderá resolver ou minimizar esse problema sozinho, mas pode dar contribuição à redução desse desnível. A crítica, a opinião construtiva e a sugestão altruísta podem ajudar sobremodo.