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A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 21

Paranoia

Por Marcos Ferreira

Depois que Luciano foi embora, estando Jaime sozinho no apartamento, ele se posicionou mais uma vez no parapeito da varanda para contemplar a rua e parte do movimento da cidade. Não tinha lembrança de que em algum momento de sua vida estivera em um prédio tão alto. Ao todo o edifício possuía vinte andares. A vista daquele ponto era realmente privilegiada em virtude do formado em arco da varanda, algo que proporcionava a tal visão panorâmica referida por Luciano.

Exausto devido a todo o estresse a que fora submetido na madrugada anterior, oportunidade em que trocou chumbo com os homens de Rato Branco e conseguiu acertar um tiro certeiro na cabeça do motorista da picape de cor cinza, fazendo com que esta descesse a ribanceira e explodisse com os ocupantes, Jaime acabou pegando no sono na cama de Luciano Aires.Paranoia, sombra, mania de perseguição

Ele próprio, ao ter a pontaria elogiada pelo amigo advogado, ressaltou que ter alvejado o dito-cujo em movimento não fora nada mais que um lance de sorte. Nessa manhã, portanto, extenuado física e psicologicamente, o escritor fora da lei terminou caindo num sono profundo, confortavelmente embalado pelo friozinho do aparelho de ar-condicionado. Quando acordou, já um tanto preocupado com o horário, viu que era tarde para realizar a postagem dos originais.

Ainda assim, por via das dúvidas, resolveu descer e verificar se a agência estava fechada. Qual era mesmo o nome da rua? “Major Moisés Resende. Um carioca filho da puta e alcaguete da ditadura homenageado em Vila Negra”, dissera Luciano Aires num tom de revolta. Naquele fim de tarde, portanto, ao cruzar a portaria do Condomínio Anatólia e se ver com os pés na calçada, Jaime sentiu mais uma vez a sensação de que estava sendo observado por algum pistoleiro de Rato Branco.

Em meio ao luxo, ao requinte do Anatólia, Jaime se sentia uma espécie de estranho no ninho. Até o sujeito da portaria, um tipo vermelho e de olhos agateados, o fitara com cara de poucos amigos. Apertado no colete à prova de balas sob a jaqueta jeans, o revólver no cós da calça, seu receio era ainda incômodo. Antes de efetuar qualquer passo, tendo às costas uma mochila com os originais de A Cidade que Nunca leu um Livro, notou que na frente do prédio diversas pessoas praticavam caminhada num ritmo apressado no entorno do logradouro bem-arborizado. Já outros indivíduos (uma pequena parcela) estavam sentados nos banquinhos de alvenaria e madeira, papeando sabe-se lá que assuntos com as suas garrafinhas de água e roupas esportivas. Nesse minuto ele imaginou como seria se fosse obrigado a trocar tiros ali com um pistoleiro.

SERIA UM PANDEMÔNIO, um salve-se quem puder. Certamente inocentes seriam atingidos pelo fogo cruzado. O pesadelo da Rodovia 315 se repetiria. E desta vez ele estaria completamente só, sem o apoio de Luciano Aires para também efetuar disparos contra o atirador. Refletiu, aprumou a mochila nas costas e resolveu que, diante do horário avançado, não mais valeria a pena deslocar-se até a Rua Major Moisés Resende a fim de conferir se a agência postal ainda estava aberta.

Apertou o botão da guarita e outra vez o homem o fitou com ar pouco amistoso. Desta feita, quiçá por mera implicância, indagou quem era ele e quem desejava visitar no Condomínio Anatólia. Respirando fundo, com a fleuma de um monge budista, Jaime explicou que estava hospedado, provisoriamente, no décimo nono andar, apartamento de propriedade do advogado Luciano Aires.

O cara da portaria admitiu que estava ciente do fato, pois Luciano havia comunicado à recepção sobre a presença de Jaime no condomínio, e que ele ficaria ali por tempo indeterminado. Mesmo assim, avaliando o semblante e as roupas desgastadas de Jaime, a exemplo da surrada jaqueta e dos tênis sofríveis, o recepcionista permaneceu de cara amarrada e comunicou ao literato que o acesso à piscina estava suspenso devido a uma obra de manutenção.

No dia seguinte, por volta das oito e meia da manhã, Jaime finalmente postou os originais de A Cidade que Nunca leu um Livro para três editoras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os volumes estavam devidamente encadernados e embalados em envelopes com o endereço do apartamento de Luciano Aires como remetente das obras. Jaime pagou a postagem em dinheiro e se deu conta da importância e gentileza de Luciano em lhe ter disponibilizado aquela quantia no total de mil reais.

— Bem, a sorte está lançada — monologou.

Após a postagem, ao passar pela porta sem detector de metais, Jaime viu uma picape de cor cinza no outro lado da rua. O escritor empalideceu de imediato. O veículo era exatamente igual ao que na madrugada passada descera a ribanceira com os atiradores e se transformara em chamas. Por alguns segundos, quiçá um minuto, ele ficou inerte, o coração aos baques, a mente em torvelinho, os olhos arregalados. De forma discreta, então, tocou a cintura para sentir a saliência do revólver. Pensou até que ponto o colete poderia salvá-lo. Temeu que de repente os vidros fossem baixados e dois ou três elementos abrissem fogo contra ele. Começou a suar frio, as mãos ficaram trêmulas. Será que Rato Branco teria enviado um veículo igualzinho com novos comparsas para dar cabo dele? Até as pernas de Jaime começaram a tremer.

Daí a pouco, conduzindo uma menininha de uns cinco anos de idade, uma jovem senhora saiu de um colégio ali vizinho à agência dos Correios, abriu a porta de trás da picape, colocou o cinto de segurança na possível filha, assumiu o volante e seguiu devagarinho pela Rua Major Moisés Resende. Ainda ligeiramente trêmulo, Jaime Peçanha respirou aliviado, seu coração voltou a bater num ritmo normal e ele enfim retornou com passos lentos para o luxuoso Condomínio Anatólia.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

Apertou o botão da campainha e esperou que o portão fosse aberto. O funcionário da guarita não mais o fitou de cara trancada. Começara a se habituar com ele. No apartamento, usufruindo de uma sensação de segurança pela primeira vez ao longo de semanas, Jaime se despiu do colete à prova de balas, trancou a porta na chave, passou os dois ferrolhos de reforço, largou o trinta e oito cheio de balas sobre o criado-mudo e foi tomar um banho quente para relaxar a musculatura absolutamente tensa. A seguir, na cozinha, pegou ovos e presunto na geladeira, preparou umas xícaras de café ao mesmo tempo em que fritava os ovos e o presunto. Bebeu um suco de caju desses que os mercados vendem em garrafinhas de vidro. Daí a pouco a cafeteira entrou nos últimos estertores e Jaime se serviu de uma boa dose da rubiácea pura e escoteira.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

Disse baixinho consigo próprio, sentado à mesa da cozinha, a caneca entre as duas mãos, os cotovelos apoiados sobre o tampo de vidro. Parecia até que na madrugada anterior não havia sofrido um grave atentado contra a sua vida e a de Luciano Aires. O revólver comprado ao amigo João Claudione, indivíduo atualmente em poder da polícia, permanecia lá no quarto. Quanto ao colete, ele o jogara ao pé da cama como se este fosse um tipo de armadura de que ele não fosse mais precisar.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

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Marcos Ferreira é escritor

Enfermeiro reage à acusação leviana sobre Covid-19

A pandemia do coronavírus está provocando uma crescente paranoia coletiva em todo o mundo. O medo, justificável, muitas vezes também provoca situações injustificáveis.

Um exemplo notório é o que envolve o enfermeiro Édson Sousa, acusado de estar disseminando a Covid-19 em Itaú, no Hospital Maternidade Marcolino Bessa. Em face dessa boataria, ele e sua família que residem em Apodi passam por discriminação e repulsa social.

Em reação a esse problema, ele emite uma nota pública que divulgamos abaixo:

Nota em defesa da verdade e da justiça

No último domingo (02/05), fui surpreendido com um áudio, de autoria de uma servidora pública do município de Itaú, atacando a minha honra e à minha ética profissional, acusando-me de supostamente estar com suspeita de coronavírus e de ter exposto profissionais de saúde da cidade de Itaú e a população, ao risco de contaminação pelo coronavírus.

Acontece, que não possuo qualquer vínculo de trabalho com o município de Itaú e consequentemente, toda situação a mim atribuída, não passa de uma acusação irresponsável e difamatória de quem não possui nenhum compromisso com a verdade.

Sou profissional da área da saúde há 20 anos, atuando como enfermeiro há quase 6 anos. Sempre me pautei na ética e na responsabilidade e felizmente até o presente momento não estou com qualquer suspeita de coronavírus, nem apresento qualquer sintoma gripal, assim como a minha família, como a mesma mencionou que supostamente meu filho teria feito o teste para coronavírus.

Infelizmente, apesar de notificada para restabelecer a verdade a professora responsável pelas acusações, não teve a honradez e a intensidade de tentar reparar os danos causados a mim e minha família, até o presente momento.

Não tem sido fácil, ser vítima de tamanha injustiça, bem como, ver a minha família sofrendo e sendo observada de forma discriminatória por causa de uma notícia mentirosa e irresponsável. A verdade será restabelecida!!!

Estou adotando todas as medidas judiciais cabíveis, para que a responsável por essa mentira seja responsabilizada e que eventuais indenizações sejam revertidas para os Hospitais de Apodi e Região.

Édson Sousa

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De sintomas e paranoia

Pro François Silvestre

A mulher liga para um amigo médico e informa:

“Carlinhos amanheceu com o dedão do pé muito vermelho e inchado”…

O amigo não deixou ela terminar, interrompendo-a, e falou:

“É. Já foi reportado alguns casos do vírus que provoca inchaço e vermelhidão nos membros inferiores”…

Agora foi ela que o interrompeu:

“Não, doutor, ele tava jogando bola no quintal e deu um trupicão que arrancou a banda da unha do dedão. Quero uma pomada ou qualquer coisa pra aliviar”…

François Silvestre é escritor

A paranoia da honestidade

Por François Silvestre

Somos todos honestos fugindo dos ladrões. Somos todos ladrões fugindo dos honestos. Onde reside o endereço da fuga? Em que lugar dessa terra dá pra se armar uma tenda sem endereço, fugindo de notificações, intimações, citações.

Num sopé de gruta, com pedras listadas de cinza, restos de maravalha, galhos de trapiá, piado de morcegos, cheiro de saudade, afago da solidão, barulho suave do escorrer dos restos da última neblina, escavado nas folhas secas da jitirana de um calango assustado, passos de feirantes tristes, vindos de uma feira de misérias.

A cangalha abandonada num banco de perna quebrada, restos de arreios guardados numa brecha da soleira, o trinado do cancão avisando que vai furtar, o sol se pondo escondido no fim da tarde cansada.

Em vez do jumento ruço, uma motocicleta sem registro. Em vez do roçado de milho, uma carroça de vender água. O rádio de pilha encostado enfeita um baú de couro. A televisão recebida por pagamento de conta antiga, nos tempos de uma bodega, traz o mundo até olhos e ouvidos.

Na manhã do antigo cuscuz com queijo de coalha, agora pão francês dormido com Coca-cola. Já emprestou dinheiro a juros, nos tempos de agiotagem entre pequenos. Já comprou produtos de furtos e passou alguns dias na cadeia. Precisou mudar de morada, distante da antiga cidade.

Joga no bicho toda semana, na loto, mega-sena e no baú de Silvio Santos. Mudou de lugar, mas não de vontades. Ainda sonha em ser rico.

Deu um agrado ao soldado que pediu os documentos da moto. Foi-se a grana de uma quinzena. Na garupa ele montou um pequeno engradado onde encaixa vários garrafões, desses de vinte litros, e sai pela madrugada a furtar água de caixas ou reservatórios próximos das estradas.

Leva uma mangueira grossa adaptada ao motor da motocicleta que serve de bomba de sucção. Enfia a mangueira na caixa e de lá traz a água para os garrafões. Se uma galinha ou guiné cochilar, vai junto.

Pela manhã, sai vendendo. “Olha a água mineral mais barata do lugar”.

Após a ceia, de arroz com galinha furtada, senta-se em frente à tevê e assiste aos jornais do dia. Sempre tem vizinhos, além dos dois filhos que lhe restam, pois os outros se mandaram, a terceira ou quarta mulher, todos de olhos fixos na tela. Só ele fala, apontando para a televisão e repetindo: “Só tem ladrão nesse país. E tudo solto. Olha a ruma de dinheiro qui esse fi duma égua guardou em casa”.

Cada um que aparecia no noticiário, era um monte de impropérios que seu Andrelino soltava, cobrando honestidade dos políticos. “Precisa acabar essa ladroagem”.

E pensando só com os botões, sussurra pra si mesmo: “Bicho burro. Tão fácil de esconder. ah! Se fosse cumigo”.

Té mais.

François Silvestre é escritor