Arquivo da tag: Ucrânia

Ucrânia, Rússia e Brasil

potencia-nuclear-foto2Por François Silvestre

O que há em comum? Muito, mais do que a vã observação desatenta não percebe. Ou faz de conta que não vê.

A Rússia é uma vasta potência nuclear, o Brasil é uma vasta impotência nucleada, isto é, fora do núcleo. A Ucrânia mandou pra cá Clarice Lispector, perto do coração selvagem, o Brasil mandou pra lá Artur do Val, longe do feto abdominal.

O Presidente da Rússia é um megalomaníaco, com armas para impor medo ao mundo e invadir o país vizinho, que já foi sede da sua pátria. Kiev é anterior a Moscou, capital de todas as Rússias.

O presidente da Ucrânia é um deslumbrado fascista que se treinou no palco dos teatros fazendo graça para divertir a plateia. Ao deslumbrar-se descobriu-se líder, e aproveitou a oportunidade para sair do tablado para o poder.

Em nenhuma das suas apresentações públicas, pelos vídeos divulgados, aparece na face um semblante sequer, por mínimo que seja, de sofrimento pela tragédia em que se meteu o seu país e o seu povo. Nada. Só faz pedir ajuda ao ocidente para continuar a tragédia. E que seu povo se desgrace, desde que ele continue a representar o palhaço da desgraça. Aquele que perdeu a graça.

O presidente do Brasil é um boneco de mamulengo, na empanada de uma farsa, que tenta superar João Redondo e Sargento Istufô, numa sala de medíocres de togas e ridículos de fardas. Ministros e Generais de fancaria. O povo não merece vocês. Tomem vergonha na cara e respeitem a Democracia.

General fulano, do Exército, não me interessa seu nome, vá cuidar do seu quartel e deixe a pátria ao destino do seu povo. Ministro do Supremo, qualquer que seja, não enxovalhe sua toga, ganha sem concurso, e deixe a política para os políticos. O Brasil é hoje, pelo presidente destrambelhado que tem, por generais analfabetos também, e juristas de miçanga, uma Ucrânia em processo de involução.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e Youtube AQUI.

Páscoa e a paz na Ucrânia

Por Ney Lopes

Há séculos um Homem veio ao mundo numa estrebaria de Belém. Os Reis Magos, guiados pela estrela, encontraram-no, mas não o entregaram ao Rei, que desejava matá-lo.

Entenderam que Ele seria o maior exemplo de amor e verdade, que a humanidade conhecera.

Neste Domingo de Páscoa é dia de parar e refletir sobre “o sepulcro vazio e a ressurreição do Cristo”.

The Ukrainian flag is seen as demonstrators gather to protest Russia’s invasion of Ukraine outside the Russian Embassy in Washington, DC, on February 27, 2022. - Tens of thousands of Ukrainians have fled their country since Russian President Vladimir Putin unleashed a full-scale invasion on Thursday. (Photo by MANDEL NGAN / AFP)
(Foto: MANDEL NGAN / AFP)

Tome-se como exemplo a Ucrânia, hoje sendo destruída pelo desamor, o ódio e a ambição de um déspota, cuja única intenção é reconstruir o império da Grande Rússia czarista.

Os estilhaços das bombas, ceifando vidas humanas, nada mais são do que o simbolismo do prolongamento da Paixão daquele que morreu flagelado para sepultar os defeitos humanos e depois ressurgiu dos mortos, ao terceiro dia, para semear a virtude, a alegria, a paz interior, sonhos e recordações.

A Páscoa simboliza a Verdade, que por não ter sido entendida, transformou-se em Cruz e na angustia do Calvário

Cabe recordar o encontro em 1994, de Madre Teresa de Calcutá, com o Presidente Bill Clinton, o Vice Al Gore, diplomatas de mais de 100 países e centenas de participantes em Washington DC.

Madre Teresa fez claramente um desafio aos acomodados detentores do Poder na maior potência mundial, que ouviram calados e contritos.

Como uma contribuição à reflexão transcrevem-se a seguir alguns trechos da palavra de Madre Teresa, na chamada “oração aos políticos”.

Ela começou assim:

“Uma vez que nos reunimos aqui para rezar juntos, eu penso que será bonito se começarmos com uma oração que expressa muito bem o que Jesus quer que façamos. São Francisco de Assis entendeu estas palavras de Jesus. Ele viveu as mesmas dificuldades, que nós temos hoje”

Em seguida, Madre Teresa confessou a fragilidade da família Ocidental, diante de homens e mulheres poderosos:

“Tentei descobrir por quê essa fragilidade. E a resposta era, “Porque não há ninguém na família para os receber”.

“Nossas crianças dependem de nós para tudo: sua saúde, sua nutrição, sua segurança, seu vir a conhecer e amar a Deus. Para tudo isto, eles olham para nós com confiança, esperança e expectativa.

Mas frequentemente o pai e mãe estão tão ocupados. Eles não têm tempo para suas crianças, ou talvez eles nem mesmo sejam casados, ou desistiram do seu matrimônio.

Assim as crianças vão para as ruas e são envolvidas nas drogas, ou em outras coisas”.

Sem negar o progresso e o desenvolvimento, Madre Teresa teve a coragem de abordar a questão da pobreza.

Disse ela:

“Os pobres são pessoas muito grandes. Eles podem nos ensinar tantas coisas bonitas…. Uma noite nós saímos e recolhemos quatro pessoas da rua.

E um deles estava em uma condição bem terrível. Eu disse às Irmãs: “Vocês tomem conta dos outros três; eu cuidarei do que parece pior”.

Coloquei-a na cama e havia um belo sorriso na sua face.

Ela pegou minha mão e só disse uma coisa: “Obrigado”.

Então, morreu.

Eu perguntei: “o que eu diria se estivesse em seu lugar”?

E minha resposta foi muito simples. Eu teria dito, “tenho fome, eu estou morrendo, estou com frio, estou com dor”, ou algo assim.

Mas, ela me deu muito mais. Ela me deu o seu amor agradecido e morreu com um sorriso em sua face”.

Madre Teresa foi entusiasticamente aplaudida, durante a “oração aos políticos americanos”.

Lançou as sementes da Paz, ainda hoje o desafio da humanidade.

Os dirigentes do mundo têm parcela de responsabilidade no drama atual da violência, fome, exclusão social, saúde precária, educação inacessível e tantos outros males idênticos.

O político terá que parar e refletir sobre “o sepulcro vazio e a ressurreição do Cristo”.

O calvário significou dias de angústia, dor e escuridão.

No terceiro dia, a luz brilhou com a Ressurreição.

Era o Domingo de Páscoa, que hoje festejamos.

A convivência com a realidade cruel contemporânea, coloca o cristão na posição dos apóstolos, que depois da ressurreição, tiveram a missão de buscar as pessoas e levar-lhes mensagem de paz e solidariedade.

Paulo e Pedro foram pregar na Grécia e em Roma; André chegou à Escócia; Tomé foi à Índia; Marcos ao Egito; Madalena atingiu a França.

Páscoa é a hora do sorriso, abraço, amizade, vontade de ser feliz; momento do recomeço, libertação, amor e perdão.

Rezemos pelos ucranianos, que sofrem nas mãos do invasor.

Feliz Páscoa, caro leitor!

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

Os erros de Putin

Por Ney Lopes

Os analistas internacionais são unanimes, na opinião de que Putin ao invadir a Ucrânia meteu-se em um  “beco sem saída”, levado por informações falsas do seu staff.

Agora, procura justificar, pois não sabe bem como sair.conflito-russia-ucrania

Os objetivos iniciais russos não foram atingidos e a evolução da guerra revela que os serviços de informação subestimaram o adversário.

Putin é um hiper-presidente, que concentra os poderes necessários para uma guerra longa.

A obsessão do líder russo é recuperar o domínio sobre o antigo espaço soviético.

Ele deseja o regresso da Rússia ao palco principal das relações internacionais.

Nessa ótica, as ambições russas concentram-se em invasões territoriais, com aconteceu na Crimeia.

Neste contexto, a sua posição é dificilmente abalável, a não ser por uma traição interna.

Não havendo traição caberá ao Ocidente permitir a Putin uma saída honrosa, para evitar o pior.

Por outro lado, a China também tem interesse de buscar o “cessar fogo”, pois o Ocidente é o seu grande mercado e não poderá perdê-lo pelo apoio a um líder sitiado.

Entretanto, até agora, os chineses adotam a política do “nem sim, nem não, antes pelo contrário”.

O país busca não se comprometer. 

Caso Putin enverede pelo caminho da “destruição total”, a China deixará a neutralidade e poderá deter a Rússia.

Sem a China, a Rússia não sobrevive.

Xi Jinping  teria uma grande oportunidade de surgir perante o mundo como o líder que conseguiu a paz.

Isso aumentará significativamente o seu prestígio político.

Um dado importante na análise do conflito é a bravura do presidente ucraniano Zelensky, o que não estava nos planos de Putin.

Ele arregimentou pessoalmente a população para fazer frente aos tanques russos, as baterias antiaéreas começaram a abater aviões e helicópteros, e aquilo que se previa simples e fácil para o Exército russo transformou-se num inferno.

Estrategistas russos avaliaram que a invasão da Ucrânia seria uma operação rápida e cirúrgica.

Bastaria um bombardeio inicial, um ataque limitado por terra, para neutralizar o “inimigo.

Putin considerou Zelensky   um cómico e não um guerreiro.

Esperou que na primeira ameaça, ele   fugiria para o Ocidente, e na capital ucraniana seria colocado um “colaborador do Kremlin”.

Tal não aconteceu.

A Ucrânia resiste bravamente.

Caso não se encontre saída diplomática, a evolução da resistência ucraniana poderá assemelhar-se ao que ocorreu no Vietnam, onde franceses e americanos, apesar de toda superioridade militar, foram obrigados a deixar o país.

Para pôr fim à violência devastadora, o mundo espera que seja encontrada alternativa, capaz de trazer de volta a paz.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

Como resolver a crise da Ucrânia

tanques e UcrâniaDo Brasil Journal

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, um artigo tem chamado atenção nos grupos de Whatsapp por analisar as raízes históricas do conflito e as potenciais saídas para o perigo nuclear que o mundo vive.

O texto é de Henry Kissinger, aquele promissor diplomata hoje prestes a completar 99 anos.

Nos anos 70, Kissinger foi o-di-a-do por todo mundo que amava os Beatles e os Rolling Stones enquanto – nos versos imortais de Mauro Lusini, famosos no Brasil pelos Engenheiros do Hawaii – os amigos eram “mandados ao Vietnã lutar com vietcongs.”

Mas Kissinger é muito mais que essa caricatura, e teve uma das vidas mais consequentes do século 20.

Depois de fugir da Alemanha nazista com sua família em 1938, Heinz Alfred Kissinger tornou-se um cidadão americano. Foi nomeado Conselheiro de Segurança Nacional em 1969 e Secretário de Estado em 1973.

Nesse período, abriu relações com a China, iniciou um degelo com a União Soviética e fez a chamada ‘shuttle diplomacy’ para acabar com a Guerra do Yom Kippur. Os Acordos de Paz de Paris, que ele negociou, encerraram o envolvimento americano no Vietnã.

O texto sobre a Ucrânia é pura Realpolitik de Kissinger, e seria a melhor descrição de tudo que o mundo hoje assiste consternado na CNN… não fosse pelo fato de ter sido escrito oito anos atrás.

Um texto que envelheceu assim merece ser republicado. A tradução é de Cris Silva, em Washington.

**

Para resolver a crise na Ucrânia, comecemos pelo fim

5 de março de 2014

Por Henry Kissinger

A discussão pública sobre a Ucrânia tem tudo a ver com confronto. No entanto, como saber que rumo a situação irá tomar? Durante a minha vida, assisti a quatro guerras começarem com grande entusiasmo e apoio do público. Em todas essas guerras, não sabíamos como a situação terminaria – em três delas, nos retiramos unilateralmente. O teste da política é como ela termina, não como começa.Henry Kissinger

Bastante frequentemente, a situação na Ucrânia é apresentada como confronto: a Ucrânia deve se juntar ao Oriente ou ao Ocidente? No entanto, para que a Ucrânia sobreviva e prospere, não deve ser posto avançado de nenhum dos lados contra o outro – deve sim, funcionar como elo entre eles.

A Rússia deve aceitar que tentar forçar a Ucrânia a status de satélite e, dessa maneira, mover novamente as fronteiras da Rússia, condenaria Moscou a repetir a história de ciclos que se cumprem a si mesmos de pressões recíprocas com a Europa e os Estados Unidos.

O Ocidente deve entender que, para a Rússia, a Ucrânia nunca será mero país estrangeiro. A história russa começou com o que se chamou de a Rússia de Kiev (Kievan-Rus) e, a partir daí, a religião russa se disseminou. A Ucrânia faz parte da Rússia há séculos, e as histórias dos dois países estiveram entrelaçadas muito antes disso. Algumas das batalhas mais importantes pela liberdade russa, começando pela Batalha de Poltava, em 1709, foram travadas em solo ucraniano. A Frota do Mar Negro – mecanismo de projeção da Rússia no Mediterrâneo – se baseia em um arrendamento de longo prazo em Sebastopol, na Crimeia. Até mesmo dissidentes famosos, como Aleksandr Solzhenitsyn e Joseph Brodsky, insistiram que a Ucrânia era parte integrante da história russa e, por conseguinte, da Rússia.

A União Europeia deve reconhecer que sua lentidão burocrática e subordinação do elemento estratégico à política interna na negociação da relação da Ucrânia com a Europa contribuíram para transformar uma negociação em crise. A política externa é a arte de estabelecer prioridades.

Os ucranianos são o elemento decisivo e moram em um país com uma história complexa e uma composição poliglota. A parte ocidental foi incorporada à União Soviética em 1939, quando Stalin e Hitler dividiram os despojos de guerra. A Crimeia, onde 60% da população é russa, se tornou parte da Ucrânia apenas em 1954, quando Nikita Khrushchev, ucraniano de nascimento, a concedeu como parte da celebração do tricentenário de um acordo russo com os cossacos. Em grande parte, o oeste é católico; enquanto o leste é, na sua maioria, ortodoxo russo. No ocidente do país, se fala ucraniano; no leste, se fala principalmente o russo. Qualquer tentativa de um lado da Ucrânia de dominar o outro — como tem acontecido — levaria a eventual guerra civil ou separação. Tratar a Ucrânia como parte de um confronto entre o Leste e o Oeste arruinaria por décadas qualquer perspectiva de aproximar a Rússia e o Ocidente – especialmente a Rússia e a Europa – a um sistema internacional cooperativo.

A Ucrânia conquistou a independência há apenas 23 anos; anteriormente, esteve sob algum tipo de domínio estrangeiro desde o século XIV. Não é de se surpreender que seus líderes não tenham aprendido a arte da negociação e, muito menos, a perspectiva histórica. A política da Ucrânia pós-independência demonstra claramente que a raiz do problema está nas iniciativas de políticos ucranianos de impor sua vontade a partes obstinadas do país, primeiro por meio de uma facção, depois pela outra. Essa é a essência do conflito entre Viktor Yanukovych e sua principal rival política, Yulia Tymoshenko. Eles representam dois lados da Ucrânia e não estão dispostos a dividir o poder. Uma política inteligente dos EUA em relação à Ucrânia buscaria cooperação entre as duas partes do país. Devemos buscar a reconciliação e não a dominação de uma facção.

A Rússia e o Ocidente e, menos ainda, as várias facções na Ucrânia, não agiram de acordo com esse princípio. Cada uma piorou a situação. A Rússia não conseguiria impor uma solução militar sem se isolar em um momento no qual muitas de suas fronteiras já são precárias. Para o Ocidente, a demonização de Vladimir Putin não é uma política; e sim um álibi para a ausência de política.

Putin deve perceber que, quaisquer que sejam suas queixas, uma política de imposições militares produziria outra Guerra Fria. Por sua parte, os Estados Unidos precisam evitar tratar a Rússia como aberração que tenha que aprender pacientemente as regras de conduta estabelecidas por Washington. Putin é um estrategista sério – nas premissas da história russa. Entender os valores e a psicologia dos EUA não são seus pontos fortes. Entender a história e a psicologia russa também não foi ponto forte dos políticos americanos.

Líderes de todos os países devem voltar a examinar os resultados, não competir em postura política. Aqui estão minhas ideias de um resultado compatível com os valores e interesses de segurança de todos os lados:

1. A Ucrânia deve ter o direito de escolher livremente suas associações econômicas e políticas, inclusive com a Europa.

2. A Ucrânia não deve aderir à OTAN, um posicionamento que assumi há sete anos, quando isso foi discutido pela última vez.

3. A Ucrânia deve ser livre para criar qualquer governo compatível com a vontade expressa pelo povo. Os sábios líderes ucranianos optariam por uma política de reconciliação entre as várias partes do país. Internacionalmente, eles devem adotar uma postura comparável à da Finlândia, nação que não deixa dúvidas sobre sua violenta independência e coopera com o Ocidente na maioria dos casos, mas evita cuidadosamente a hostilidade institucional em relação à Rússia.

4. A Rússia anexar a Crimeia é incompatível com as regras existentes da ordem mundial. No entanto, deve ser possível diminuir as tensões no relacionamento da Crimeia com a Ucrânia. Para esse propósito, a Rússia deveria reconhecer a soberania da Ucrânia sobre a Crimeia. A Ucrânia deveria reforçar a autonomia da Crimeia nas eleições realizadas na presença de observadores internacionais. O processo incluiria a remoção de quaisquer ambiguidades sobre o status da Frota do Mar Negro, em Sebastopol.

Estes são princípios e não fórmulas. Os entendidos sobre a região saberão que nem todos estes princípios serão aceitos por todas as partes. O teste não é a satisfação absoluta, mas a insatisfação equilibrada. Se uma solução com base nesses elementos ou em elementos comparáveis não for alcançada, a tendência ao confronto se acelerará. Este momento chegará em breve.

Henry Kissinger é ex-secretário de Estado dos EUA

Um mamute contra um jabuti

Por Marcos Ferreira

Pensei em afagar o ditador Vladimir Putin (só pensei) com a denominação O Senhor da Guerra, título da obra do célebre escritor britânico Bernard Cornwell. Mas, reparando direitinho, vejo que ao russo em questão melhor se aplica esta variante: O Senhor da Barbárie. Pois é, eu também, a exemplo da maior parte do planeta, estou puto com Putin. Perdoem o trocadilho. O ex-Esquilo Secreto do KGB está há mais de vinte anos no comando da Rússia e não deve sair tão cedo.

Desde 24 de fevereiro, quando a Ucrânia foi invadida, a matança não para. Falou-se num único e duvidoso cessar-fogo, porém a guerra acumula estragos irreparáveis. Segundo algumas agências de notícias, cerca de dois mil civis ucranianos já morreram nestes onze dias de bombardeios. Por sua vez, Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, diz que nove mil soldados russos foram mortos.

Putin é o líder russo numa guerra que parece muito desigual (Foto: Reuters)
Putin é o líder russo numa guerra que parece muito desigual (Foto: Reuters)

Como se percebe, além das ofensivas militares, está em curso a guerra da propaganda, uma disputa midiática que busca intimidar contendores e sensibilizar o mundo tanto para um lado quanto para o outro. A Ucrânia, especialmente, maldiz a omissão da Otan. Entrementes, como se lutasse uma guerra justa, de igual para igual, a Rússia usa e abusa de sua realidade paralela dos fatos, tentando provar à humanidade que eles são os mocinhos e os ucranianos são homens maus.

Enquanto isso, traiçoeiro e frio como a própria Sibéria, Putin não esquenta a cabeça com pouca coisa. Até porque nem o Sol brilha tanto em Moscou quanto o mais novo melhor amigo do nosso Grande Percevejo, este que até pouco tempo vivia osculando os possuídos do ianque Donald Trump. Ou seja, largou o loiro oxigenado. Agora, portanto, o menino dos olhos do Pateta brasileiro é Putin.

O Grande Percevejo, sem querer ofender as mulheres de vida “fácil”, é um tipo de messalina de luxo que deseja cair nas graças de Putin. Tem um fraco irreprimível por homens poderosos. Seu (dele) deslumbramento perante o bufão Donaldo Trump era algo tão obsceno a ponto de a baba escorrer no canto daquela boca de caçapa. Contudo Trump se deu mal nas urnas e aí o Nosferatu da Casa de Vidro mais que depressa se bandeou para o lado do neoczar e filhote da Guerra Fria.

No Brasil, além do Grande Percevejo, temos uma ala da esquerda sofrendo com uma forte crise de consciência. Até aqui, pelo que eu sei, o presidenciável Lula (para citarmos o líder máximo do Partido dos Trabalhadores) não emitiu uma só nota, sequer uma vírgula, condenando, enfaticamente, a invasão à Ucrânia. Muito menos reprovou o camarada Vladimir. Não com todas as letras.

Não é novidade alguma que as superpotências bélicas e econômicas, sobretudo bélicas, gostam de treinar a pontaria contra nações menores ou militarmente insignificantes. A história do mundo, como aquele jogo de tabuleiro War, está cheia de casos emblemáticos, desde os vikings a George W. Bush. Os Estados Unidos da América, por exemplo, têm grande know-how nessa prática execrável. Que o digam, entre outros, Coreia, Vietnã, Iraque, Afeganistão, Líbia e Somália.

Outra coisa que me revira o estômago é a hipocrisia em escala planetária. Pois os Estados Unidos, autoproclamados xerifes do globo terrestre, casam e batizam, pintam o sete e bordam o oito, fazem o mundo de gato e sapato e a suposta União das Nações Unidas (ONU) apenas faz vista grossa. A tal Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é mais inútil ainda; não faz patavina.

Em 2003, quando os americanos explodiram Bagdá, capital do Iraque, matando sete mil civis apenas no primeiro dia de bombardeio, tais organizações inúteis não fizeram coisa alguma. Ao todo, ao longo daquela sangrenta operação intitulada “Choque e Pavor”, entre homens, mulheres e crianças, os soldadinhos carniceiros do Tio Sam assassinaram quase um milhão de civis. Abomino inteiramente a invasão russa à Ucrânia, no entanto não vi àquela época tanta comoção como agora.

Ao contrário da Rússia, se estou correto, os Estados Unidos nunca sofreram nenhum tipo de sanção por invadirem outras nações. Nunca foram acusados pela ONU por crimes de guerra. Muito menos, como ora se dá com a Rússia, foram banidos do sistema de transações financeiras. Americanos jamais foram expulsos de universidades, ou a Fifa os puniu, excluindo-os de uma Copa do Mundo.

Em 1994, enganada por um certo Memorando de Budapeste, a Ucrânia concordou em entregar à Rússia cerca de mil e seiscentas armas nucleares oriundas da extinta União Soviética. Isso em troca de um frágil tratado de paz e da promessa de que a Rússia jamais invadiria a Ucrânia. Ninguém, entretanto, exige, nem ao menos sugere, o desarmamento nuclear dos Estados Unidos e da Rússia. Juntos, só esses dois países possuem armamento nuclear para destruir o planeta dezesseis vezes.

— Saddam é mau! — gritava o Tio Sam.

Hoje, após a tragédia da Segunda Guerra, que deixou um rastro de setenta milhões de mortos, o mundo se converte outra vez num barril de pólvora. Isto é, num gigantesco paiol de armas nucleares sob o comando, repito, do mais novo melhor amigo do Pateta brasileiro. Noto que a invasão à Ucrânia, volto a dizer, quem sabe por ser o continente europeu, parece sensibilizar mais a humanidade.

Naquele 1º de setembro de 1939, quando a Alemanha nazista invadiu a Polônia, a Segunda Guerra Mundial foi oficialmente declarada. Nesse momento, com as tentativas diplomáticas desprezadas por Hitler, os britânicos e os franceses decidiram tomar as dores da Polônia e se opuseram militarmente ao Führer. Assim, sob a liderança da Inglaterra e da França, formou-se o grupo conhecido por Aliados, que posteriormente contaria com o apoio dos Estados Unidos e da então URSS.

Os Aliados, como se sabe, fortaleceram-se com a adesão de vários outros países, entre os quais estava o Brasil. Portanto, entre 1939 e 1945, os Aliados combateram, além do poderoso exército alemão, os chamados países do Eixo, cujos integrantes de primeira hora foram Itália e Japão. Aquela, a meu ver, por causa da índole maléfica e genocida de Hitler, foi uma guerra inevitável e justificável.

Digo justificável devido ao fracasso da diplomacia. O Holocausto precisava ser interrompido com a máxima urgência. Hoje em dia, entretanto, em pleno Século XXI, é inadmissível, intolerável, que ainda aconteçam ataques covardes como esse implementado pela gigantesca Rússia contra a pequenina Ucrânia, um duelo em que o segundo tem mínimas condições de se defender e contra-atacar, enquanto o primeiro veste impenetrável armadura e se encontra armado até os dentes.

O povo ucraniano, embora o seu presidente também não seja flor que se cheire, não merece tamanha atrocidade. Penso no que diria e sentiria a nossa Clarice Lispector, uma das maiores escritoras brasileiras, que na verdade era ucraniana, ao ver pela televisão toda a lástima que seus compatriotas têm enfrentado, o terror imposto por Vladimir Putin, o mais novo melhor amigo do Pateta brasileiro.

Creio que a esta hora, porventura estivessem vivos, entre outros importantes escritores daquele país, os mestres Dostoiévski e Tolstói também condenariam esse covarde massacre do mamute Rússia sobre o jabuti Ucrânia. Enquanto isso, na Sala de Injustiça, ONU e Otan assistem à barbárie de camarote.

Marcos Ferreira é escritor

Ucrânia x Rússia se enfrentam com insultos e no braço

No Rio de Janeiro nessa terça-feira (1º), integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Partido da Causa Operária (PCO) trocaram sopapos e insultos diante do consulado da Rússia.

O MBL manifestou apoio público à Ucrânia, na guerra travada há poucos dias contra os russos.

Já o PCO é russo desde criancinha.

Que gente esquisita!

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e Youtube AQUI.

Otan x Quem?

Bandeira da Otan é ostentada por militar (Foto: Reuters)
Bandeira da Otan é ostentada por militar (Foto: Reuters)

Por François Silvestre

Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Esse é o nó górdio dessa guerra. A Otan nasce após a segunda guerra mundial, início da guerra fria, para fazer frente à expansão da União Soviética. Em oposição, a URSS cria o Pacto de Varsóvia, formalizado na Polônia. A Otan formada pelos Estados Unidos e o ocidente europeu, as potências que se opunham ao “comunismo”.

Do Pacto de Varsóvia faziam parte a União Soviética, com todas as repúblicas agregadas, inclusive a Ucrânia, e mais a Alemanha Oriental, Checoslováquia, Hungria, Albânia, Romênia e mais outros de menos peso. Não lembro se a Iugoslávia, de Tito, fazia parte. Esse era o quadro do mundo do pós guerra.

Com o fim da União Soviética, o Pacto de Varsóvia dissolveu-se. Não fazia sentido a continuidade da Otan. Mas continuou e expandiu-se. E continua querendo mais. Agora, aproveitando a ingenuidade desse ator humorista presidente da Ucrânia, a Otan resolveu encostar-se no terreiro da Rússia. Deu nessa merda.

A Otan pôs o rabo entre as pernas e deixou a Ucrânia ao relento. O presidente da Ucrânia mandando a população enfrentar os tanques russos com coquetéis Molotov.

O que vai acontecer? A Ucrânia vai continuar existindo, perdeu a Criméia há sete anos e agora perdeu mais duas províncias, e vai ter um governo títere da Rússia. O humorista vai se refugiar num dos países que lhe corda. Entrou em perna de parto saiu em perna de pinto, seu rei mandou dizer que contasse cinco.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e Youtube AQUI.

Biden e…

Biden derrotou Donald Trump na disputa presidencial (Foto: outubro/2021/Adam Schultz)
Biden derrotou Donald Trump na disputa presidencial (Foto: outubro/2021/Adam Schultz)

Por François Silvestre

a democracia dos democratas.

A única coisa boa de Joe Biden foi derrotar Donald Trump. Só. No resto é um democrata da democracia deles, americanos. O restante do mundo serve apenas para lustrar a adjetivação do termo, muito bonito e mais ainda prostituído.

Não se iludam. Essa conversa de que os democratas são progressistas é uma balela. O progressismo interno. Pros de fora, retrocesso.

Donald Trump foi um estrupício, não se nega. Porém, se você olhar com cuidado histórico, vai descobrir que os presidentes americanos mais transformadores de melhorias humanas, tanto no campo pessoal quanto social, foram do Partido Republicano. Abraham Lincoln é o mais exuberante exemplo dessa assertiva.

Nos tempos recentes inventaram esse progressismo dos Democratas, por conta do conservadorismo Republicano. John Kennedy é o modelo inverso. Vendido como progressista, era intervencionista e estimulador de ditaduras pelo mundo. Teve participação ativa no golpe militar de 1964. E ajudou a implantar e consolidar a ditadura.

Os Democratas são aliados de indústria bélica multinacional. Não é por outra razão que todo dia, há mais de mês, Biden diz: “A Rússia vai invadir a Ucrânia a qualquer momento”. Todo dia. Parece até Bolsonaro, que toda semana promete um “milagre” golpista para evitar as eleições.

A última de Biden foi: “A Rússia vai invadir a Ucrânia até o fim dos jogos de inverno da China”. E a indústria bélica lambendo os dedos. Dedos no gatilho

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e Youtube AQUI.

 

O dilema dos preços do petróleo

Por Ney Lopes

O elevado preço dos combustíveis é hoje uma “dor de cabeça” não apenas para o Brasil, mas todos os países.

O Congresso tenta regular a matéria com propostas específicas e agora o presidente Bolsonaro negocia uma PEC, para diminuição do preço dos derivados do petróleo e da energia elétrica, ainda este ano.

A ideia é que seja autorizada a redução dos impostos não apenas da União, mas também dos Estados e DF.petróleo, preços altos de combustíveis,

A desoneração sobre os combustíveis reduziria a arrecadação federal em cerca de R$ 50 bilhões.

No entanto, o impacto para o consumidor seria mínimo, entre R$ 0,18 e R$ 0,20 no preço final do litro do combustível.

O que afeta na verdade são os impostos estaduais e há grande resistência dos governadores a qualquer tipo de redução, desejando transferir o ônus para Brasília.

Realmente, o maior impacto no preço final vem da cobrança do ICMS pelos estados, em razão da incidência ser “no preço cheio”, ou seja, o preço final do produto.

É diferente do que ocorre com a CIDE e com o PIS e a COFINS, cobrados em valores fixos por volume ou quantidade vendida, incidindo sobre o valor comercializado pela Petrobras, independentemente do preço final.

Dessa forma, sempre que ocorre reajuste de preços na refinaria, há aumento do valor do ICMS não só sobre essa parcela, mas sobre todo o preço final de venda ao consumidor, ampliando seu efeito.

Além da gasolina, essa lógica também vale para a tributação sobre o diesel e o GLP.

O problema se torna altamente complexo, pelo fato de que os aumentos constantes influem decisivamente na elevação geométrica dos índices da inflação, tornando impossível o controle.

Os governadores e prefeitos sugerem um fundo de estabilização dos preços dos combustíveis.

Quem colocaria esse dinheiro?

União, estados, municípios e DF?

A propósito, já existe o tributo CIDE-combustíveis, cujo objetivo é ser reduzido nos períodos de alta dos preços internacionais dos combustíveis e aumentado nos períodos de baixa.

Não funciona, porque os governantes não “aumentam”, por temor de desgaste político.

No início da pandemia, o preço do petróleo caiu para US$ 20 por barril e a CIDE não foi aumentada.

O quadro se agrava pelo fato de que os preços da gasolina podem disparar se Rússia invadir a Ucrânia.

O barril de petróleo iria além de U$ 100.

Isso porque a Rússia é o segundo produtor de petróleo do planeta, atrás apenas dos EEUU.

A Ucrânia é o território por onde passam as exportações russas de gás natural para a Europa.

Um conflito Rússia-Ucrânia tem o potencial de impactar não apenas a economia brasileira, mas todos os países do Ocidente, com o recrudescimento da inflação generalizada.

Esse verdadeiro “quebra cabeça” para ser resolvido no Brasil necessitaria do desarmamento dos espíritos do presidente Bolsonaro e governadores, com todos sentados numa mesa em diálogo, colocando o interesse público como prioridade.

Entretanto, o que se notam são trincheiras de guerra abertas de parte a parte, com os conflitos já em marcha, pela proximidade das eleições.

Não há outra alternativa, senão entregar a Deus o futuro do país e do mundo.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

A tragédia calculada para dizimar gente

Por Mario Vargas Llosa (El Pais)

Em 1928, Josef Stalin fez uma viagem pela Sibéria que durou três semanas. Tinha derrotado seus adversários dentro do Partido Comunista e já era o amo supremo da União Soviética. Os cereais começavam a escassear no imenso território e, depois do que viu e ouviu naquela viagem, Stalin tirou as conclusões ideológicas pertinentes.

Segundo a doutrina marxista, a culpa era dos camponeses retrógrados, que, graças à expropriação dos latifúndios e à liquidação dos kulaks, tinham se tornado pequenos proprietários de terra e contraído as taras características da burguesia. A solução? Obrigá-los a ceder suas granjas e a se incorporar às fazendas coletivas que os tornariam proletários, a força poderosa e renovadora que substituiria sua mentalidade burguesa pelo fervor solidário dos bolcheviques.

Essa é a origem, segundo Anne Applebaum, em seu extraordinário livro Red Famine: Stalin’s War on Ukraine (fome vermelha: a guerra de Stalin contra a Ucrânia), do colapso da agricultura em todos os domínios da URSS, mas que golpearia principalmente, com ferocidade inigualável, a Ucrânia, causando, nos anos de 1932 e 1933, vários milhões de mortes e cenas arrepiantes de suicídios, assassinatos de crianças, saques e canibalismo.

A pesquisa realizada pela autora revela ao mundo, em sua dimensão apocalíptica, um acontecimento que, pelo menos em suas características reais, tinha sido ocultado pela censura stalinista, apesar dos esforços isolados de alguns historiadores como Robert Conquest, em The Harvest of Sorrow (a colheita do sofrimento), para divulgá-lo. Mas só agora, com a independência da Ucrânia, os documentos e testemunhos relativos àquele holocausto podem ser consultados e Anne Applebaum, que domina plenamente o russo e o ucraniano, tem feito isso com meticulosidade e objetividade escrupulosa.

Segundo ela, a fome foi premeditada por Stalin e seu séquito de cúmplices – Molotov, Kaganovich, Voroshilov, Postishev, Kosior e alguns outros − para subjugar a Ucrânia, frear qualquer tentativa de nacionalismo em seu seio e liquidar as organizações que resistiam a integrá-la à URSS sob o açoite de Moscou. Ela cita como prova o fato de que, naqueles mesmos anos, o Politburo soviético reduziu drasticamente a publicação de livros e jornais em ucraniano, assim como o ensino dessa língua nas escolas e universidades, e impôs o russo como idioma oficial do país.

Holocausto ucraniano levou muitos camponeses à morte pela fome nas cidades, em fuga do campo (Foto: Web)

Seja como for, em 1929 é iniciada a dissolução das pequenas propriedades agrícolas a fim de incorporá-las às fazendas coletivas. Os camponeses, que tinham visto com simpatia a revolução, resistem a entregar suas terras e seu gado, e a se associar às enormes empresas coletivas que, dirigidas por burocratas do partido, costumam ser pouco eficientes. As instruções de Stalin são rigorosas: aquela resistência só pode vir dos inimigos de classe que querem acabar com o socialismo, e deve ser esmagada sem piedade pelos revolucionários.

As brigadas comunistas percorrem os campos confiscando propriedades, gado, ferramentas agrícolas e sementes, e mandando para a prisão quem não colabora. Um dos chefes do Gulag, na Sibéria, envia um telegrama a Moscou pedindo que não lhe enviem mais detidos porque já não tem como alimentá-los. Ao mesmo tempo, um prisioneiro escreve para sua família: “Que maravilha! Eles me dão um pãozinho por dia!”

Entre 1932 e 1933,  há milhões de mortes e cenas arrepiantes de suicídios, assassinatos de crianças, saques e canibalismo

As colheitas começam a encolher, os roubos e ocultação de alimentos se multiplicam por todo lugar, Stalin insiste que o partido deve ser “implacável” em sua luta contra os sabotadores da revolução, e a fome entra em cena com suas terríveis sequelas: roubos, assassinatos, suicídios, aldeias que desaparecem porque todos os seus habitantes fugiram para as cidades na esperança de encontrar trabalho e alimentos. Os cadáveres já são tão numerosos que ficam estendidos nas ruas e estradas porque não há gente suficiente para enterrá-los.

Os testemunhos reunidos por Anne Applebaum são de arrepiar: há pais que matam seus filhos com as próprias mãos para que não sofram mais e, os mais desesperados, para se alimentar com eles.

Já comeram todos os cães, cavalos, porcos, gatos e até ratos que conseguiam pegar, e os comunicados que chegam à Ucrânia vindos de Moscou são cada dia mais urgentes: negar a fome e, principalmente, o canibalismo e os suicídios, e punir sem dó os verdadeiros causadores dessa catástrofe: os inimigos de classe, os fascistas, os kulaks, os responsáveis reais pelas calamidades que se abatem sobre a Ucrânia.

As instruções de Stalin são rigorosas: aquela resistência só pode vir dos inimigos de classe que querem acabar com o socialismo, e deve ser esmagada

Quantos morreram? Cerca de cinco milhões de ucranianos, pelo menos. Mas não há como saber com exatidão, porque as estatísticas eram forjadas pela disciplina partidária que assim exigia ou pelo medo dos burocratas do partido de ser punidos como responsáveis pela fome.

O Kremlin impôs, além disso, uma versão oficial dos acontecimentos que era reproduzida não só pela imprensa comunista, mas também pela capitalista, que fazia isso por meio de jornalistas vendidos ou covardes, como o repulsivo Walter Duranty, então correspondente do jornal The New York Times, que, comprado com casas e banquetes por Stalin, dava um jeito, em artigos que pareciam redigidos por um Pôncio Pilatos moderno, de apresentar um quadro de normalidade e desmentir os exageros de certos testemunhos que conseguiam vazar para o exterior sobre o que realmente ocorria na URSS e, principalmente, na Ucrânia.

Fome fabricada gerou milhões de vítimas (Foto: Web)

Uma das exceções foi o britânico Gareth Jones, quem conseguiu percorrer a pé o coração da fome durante várias semanas e contar aos leitores ingleses do jornal The Evening Standard os horrores vividos na Ucrânia.

Ler um livro como o de Anne Applebaum não é um prazer, e sim um sacrifício. Mas obrigatório, se queremos conhecer os extremos a que podem levar o fanatismo ideológico, a cegueira e a imbecilidade que o acompanham, e a irremediável violência que, mais cedo ou mais tarde, vem como consequência. A fome e as mortes na Ucrânia ajudam a entender melhor o terrorismo jihadista e a bestialidade irracional que consiste em se tornar uma bomba humana e explodir em um supermercado ou uma discoteca, pulverizando dezenas de inocentes.

“Ninguém é inocente!” era um dos gritos do terror anarquista segundo Joseph Conrad, que descreveu melhor do que ninguém essa mentalidade em O Agente Secreto.

Se ler o livro de Anne Applebaum provoca calafrios, como terão sido os anos que sua autora levou para escrevê-lo? Posso imaginá-la muito bem, imersa horas e horas em arquivos empoeirados, lendo informes, cartas de suicidas, sermões, e descobrindo de repente que está com o rosto encharcado de lágrimas ou que está tremendo da cabeça aos pés, como uma folha de papel, transubstanciada por aquele apocalipse.

Ela deve ter sentido mil e uma vezes a tentação de abandonar essa tarefa terrível. No entanto, continuou até o fim, e agora esse testemunho atroz está ao alcance de todos. Aconteceu há quase um século lá na Ucrânia, mas não nos enganemos: não é coisa do passado, continua ocorrendo, está ao nosso redor. Basta ter a coragem da Anne Applebaum para ver e enfrentar isso.

Saiba mais sobre o holocausto ucraniano (Holomodor) clicando AQUI.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Manifestantes jogam no lixo deputado ligado a ex-presidente

O Globo

Um grupo de manifestantes agarrou o deputado Vitaly Zhuravsky, ex-membro do partido do ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich, do lado de fora do Parlamento nacional e o jogou numa enorme caçamba de lixo. Zhuravsky foi mantido na caçamba pelo grupo que jogou água, sua pasta e um pneu sobre o deputado.

Zhuravsky, agora membro do Partido do Desenvolvimento Econômico, foi o responsável por um polêmico projeto de lei em janeiro, que aumentou as restrições nas manifestações antigoverno.

No passado, ele foi autor de um projeto de lei que criminaliza a difamação.

Culpa

O ataque aconteceu depois que os parlamentares ucranianos se comprometeram a ratificar um importante acordo com a União Europeia e votaram a favor de um plano que oferecer autonomia limitada a regiões separatistas do Leste do país.

O acordo remove barreiras comerciais e faz com que a Ucrânia tenha que adotar padrões semelhantes aos da UE em áreas como direitos humanos, segurança e controle de armas.

— Vivemos em um país onde o sangue corre por culpa sua — afirmaram os manifestantes ao deputado de 59 anos, enquanto cercavam a caçamba de lixo.

Posteriormente, Zhuravsky atribuiu o incidente a adversários nas eleições parlamentares previstas para outubro.

Nota do Blog – Senhores políticos, todo cuidado é pouco.

Acautelem-se!