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O Efeito Casulo – Dia 25

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Saíram há pouco. Combinamos de nos encontrar aqui às dezessete horas, isto após enfim eu quebrar o silêncio à noite de ontem e entrar em contato com eles via telefone. Achei que demorassem a chegar. Os três, porém, compareceram quase a um só tempo. O primeiro foi Carlos Santos. Marcos Araújo chegou logo depois e, após uns dois minutos, surgiu Clauder Arcanjo. Recebi-os com um abraço e lhes apertei a mãoainda na calçada. Retribuíram os abraços de modo enérgico. Como de outras vezes, a cafeteira já estava pronta. Entraram e fomos para a mesa da cozinha. Liguei a maquininha e esta começou a processar a rubiácea. O cheiro do moca ocupou o recinto. Notei que examinavam a casa com o rabo do olho, um tanto de esguelha.

Estou há uns dez dias sem fazer uma faxina. Tem poeira por todo lado e é possível de se notar o discreto rendilhado das teias de aranha nos recantos dos móveis, no teto e reentrâncias das paredes. A mesa, no entanto, eu havia limpado direito, sobre a qual coloquei em espera quatro pequenas canecas.

Descreverei agora o que se passou na visita que recebi por volta das dezessete horas, ocasião em que vieram aqui meus prováveis editores Carlos Santos, Marcos Araújo e Clauder Arcanjo. Um ar apreensivo estava estampado naqueles rostos. Esperavam que eu lhes contasse o quanto antes detalhes de minha doença, coisa que divulguei no blogue há quase um mês. Arcanjo me pareceu o mais ansioso. Tinha, repito, o cenho tenso e volta e meia lambia o lábio inferior, exibindo as sobrancelhas mais arqueadas do que de costume. Os outros dois não tinham um aspecto menos preocupado. A veia bem-humorada de Marcos Araújo sumira. A angústia era visível. Carlos Santos falou qualquer coisa sobre eu já lhe ter enviado capítulos com antecedência; e aproveitei a deixa para, enquanto lhes servia o cafezinho, por tudo às claras:

— Muito bem. Acredito que vocês têm ciência de que esse quadro de saúde (doenças, na verdade) é grave e incurável. Já me encontro com metástase. Estou tranquilo, resignado com o destino que se apresentou para mim. Apesar do impacto que sofri no dia em que o doutor Epitácio Coelho (o oncologista) me comunicou tal coisa, não demorei muito e comecei a enviar para o blogue do Carlos Santos essa história irreversível, sem possibilidade de cirurgia. É este o drama.

Clauder, engenheiro da Petrobras e também escritor, a exemplo de Marcos Araújo e de Carlos Santos, é cearense da remota e pequenina Santana do Acaraú. Nos últimos tempos ele mantém um pé em Mossoró e o outro em Fortaleza. Tomou a palavra e destacou que deveríamos ouvir a opinião de outro médico. Carlos Santos balançou a cabeça e soltou um “exatamente”. Percebi que Clauder, além da fisionomiaentristecida, falava com a voz um tanto quanto embargada. Solícito, fraterno, ele me comunicou que eu contaria com todo o suporte necessário para essa viagem e consulta em um hospital especializado e particular daquele estado, berço de tantos grandes talentos na literatura e nas artes como um todo. Pois é, foi-me oferecida a opção de ouvir o parecer de outro doutor, além de contar com ajuda financeira para essa finalidade na capital alencarina. Os demais prontamente aprovaram a proposta de Clauder:

— É isso, Fernando. Concordo com a ideia de Clauder. Podemos ir a Fortaleza o quanto antes fazer novos exames e consultar outro oncologista. Quem sabe esse tumor seja maligno, mas operável, sem metástase. Tentar não lhe fará mal. Outra coisa que você não deveria desprezar é o tratamento por meio de radioterapia e quimioterapia.Não entregue os pontos tão depressa, sem lutar. Fortaleza é um centro mais avançado que Mossoró em vários aspectos — destacou Araújo.

Comecei a servir-lhes o café, que desta vez não obteve o sucesso como da maneira que ocorreu nas ocasiões em que estávamos aqui envoltos pelo puro prazer de nos reunirmos para bater papo, jogar conversar fora. Sentei-me à mesa com minha caneca e expus um ponto de vista acerca do meu próprio caso:

Considero isso, senhores, algo inútil. A terra de Rachel de Queiroz não será minha salvação. Aliás, não há salvação para mim em parte alguma. Estou condenado e resignado com o que me espera em um tempo demasiado curto. Chamei-lhes aqui meramente para discutirmos o que será feito dos livros inéditos. Espero contar com a colaboração de vocês para não deixar os originais confinados no computador tantoquanto no e-mail. Hoje eu lhes informarei a senha. A esta altura dos fatos não desejo outra coisa. Já contratei até um plano funerário. Torço não morrer antes do período de carência para a cobertura dos procedimentos mortuários. Não adianta mais a gente recorrer a Fortaleza ou qualquer centro clínico deste país. Minha situação é um caso defavas contadas. O tempo que me resta é por demais exíguo. Então, estimados amigos, tenho pleno interesse de que fiquem com esta casa, o único bem material que possuo, além dessa bicicleta que estão vendo aí escorada no muro. Cuidarei, de maneira formal, para que tenham direito ao espólio. Não disponho de herdeiro algum. Depois podem vender este imóvel para custear a publicação de minhas obras. Sobretudo cinco romances e um livro de contos, isto sem falar na grande quantidade de poemas.

O jornalista Carlos Santos insistiu um pouco, tentou se agarrar à ideia de Clauder, entretanto acho que, lá no fundo, compreendeu que não há escapatória nenhuma para mim. Cada um tomou o primeiro gole do café e se conservaram em silêncio por cerca de um minuto. Mostravam-se impactados com a notícia do câncer e do destaque que dei ao detalhe da metástase. Carlos Santos, depois de soltar dois pigarros, falou sem me olhar diretamente, os olhos voltados para a caneca:

— Acho difícil acreditar no que está acontecendo. Desde os primeiros capítulos que você me enviou para publicar no blogue, o modo como se isolou até agora, isso me deixou angustiado. Você não merece tal coisa, meu caro. Ainda é jovem, com muita estrada para percorrer no universo das letras. Não é fácil, portanto, processar uma informação desta. Afligi-me esses dias todos recebendo os textos informando, sobretudo, seu estado crítico. Reconheço que não há nenhuma saída, contudo a parte de nos tornarmos herdeiros não me agrada. Sinto-me desconfortável. Será que você não tem por aí algum parente, ainda que distante? Claro que a venda de sua residência cobre tranquilamente os custos da publicação, mas de qualquer modo iríamos nos organizar para trazer esses livros a lume. É isso, prezado Fernando, a gente não se sente nada bem passando à condição de seus herdeiros. Tenho certeza de que Clauder Arcanjo e Marcos Araújo pensam igual a mim. Eu me sentiria muito melhor se tivesse alguém a quem deixar sua casa. Essa doença maldita, no estágio em que o tumor se encontra, não costuma perdoar ninguém. Quanto tempo, aproximadamente, o médico lhe deu? Você pode, ao contrário de nos fornecer a senha de seu e-mail, mandar os arquivos que deseja publicar para nós. Todos anexados em um só documento. Acho melhor assim.

— Está certo. Não atinei para essa opção. Juntarei os arquivos num só documento e mandarei para vocês, tudo no formato Word. A Clauder, principalmente, confio a supervisão dos originais (também conhecidos como bonecas) que a gráfica vai oferecer para conferência, antes de começar o trabalho de impressão. Não vou indicar ninguém, no entanto peço que encontrem um bom designer para conceber o projeto gráfico. Esses são detalhes que eu considero muito relevantes.

— Não se preocupe — interveio Marcos Araújo. — Dedicaremos absoluta atenção para que suas produções literárias sejam impressas com a máxima qualidade, sem qualquer falha. Também ajudarei Clauder nessa etapa do serviço. Pode confiar que os títulos ficarão bonitos e bem-acabados. Quem sabe ainda dê tempo de você mesmo constatar isso. Vamos antecipar a organização, encontrar alguém para cuidar do projeto gráfico e fazer umas capas bem bacanas. Mudando agora de assunto, destaco o quanto é desagradável falarmos a seu respeito como se você não estivesse entre nós. Isso dóisobremaneira nos nossos corações, amigo.

— Agradeço por tanta sensibilidade.

A conversa com meus futuros herdeiros durou aproximadamente três horas. Discutimos os pormenores da publicação dos livros e eles foram embora muito abatidos com a comprovação de minha doença sem jeito.

 Marcos Ferreira é escritor

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O quinteto fantástico

Por Marcos Ferreira

Marcos Ferreira, Genildo Costa, Caio César Muniz, Cid Augusto e Rogério Dias (Fotomontagem e edição de imagem do BCS)
Marcos, Genildo, Caio, Cid e Rogério (Fotomontagem e edição de imagem do BCS)

Agora estou aqui a cismar com os meus botões sobre os antigos e os novos rumos de minha vida até o presente instante. Penso com carinho, e também de forma saudosa, nos vínculos de amizade estabelecidos ao longo de minha trajetória. Avalio essas questões e constato o quanto me distanciei fisicamente (ou nos distanciamos) de algumas pessoas queridas. Sim, apenas do ponto de vista físico, sem aquele calor fraterno e cotidiano de outrora.

Hoje estamos, como se diz, distanciados. Aqui e acolá nos avistamos nas esquinas das redes sociais, nos recantos da blogosfera.

Por uma razão ou por outra, manipulados pelos destinos que a vida nos reserva ou impõe, fomos na direção de outros horizontes e prioridades. Apesar desse afastamento físico, o nosso elo permanece, sobreviveu à diáspora que envolve a busca pelo pão. O papo tête-à-tête tornou-se raro, contudo volta e meia a gente se abraça através dos filamentos “internéticos”, recursos como (por exemplo) WhatsApp e Instagram.

Uma vez ou outra me aparece aqui um Túlio Ratto e mexemos no baú do passado, bebemos café, catamos retalhos de memórias ainda do tempo da Revista Papangu em papel, recordações com cheiro de naftalina, “pensamentos idos e vividos”, como clássico soneto “A Carolina”, de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho.

É isto. Já não existe aquela nossa interação amiúde, tão intensa e salutar. Dessa época de ouro, mágica e extremamente profícua em nosso universo de verdes sonhos e primordiais atividades literárias, quero me dirigir com um abraço bem caloroso a quatro indivíduos dos quais nunca me esquecerei. Refiro-me aos senhores Rogério Dias, Genildo Costa, Cid Augusto e um tal de Francisco Caio César Urbano Muniz.

Formávamos, naquela metade dos anos noventa para os anos dois mil em diante, o que ora denomino de Quinteto Fantástico. Apenas para afrontar a Marvel.

Caio César Muniz foi o cara que me tirou da minha toca no Santa Delmira, num tempo em que eu tinha muito pouco acesso àquela Mossoró das letras, da cultura, da prosa, da poesia. Fomos apresentados pelo então poeta underground Cid Augusto e daí por diante Muniz (assim como Cid) me mostrou o caminho das pedras. Na sequência, por sermos articulistas do Caderno 2 do Jornal O Mossoroense, topamos com o trovador Genildo Costa.

Pouco após, por intermédio de Genildo, Cid e Caio, fui apresentado ao publicitário, poeta e artista plástico Rogério Dias. Eu e Muniz visitávamos o QG, a “oficina irritada” e multicor de Rogério quase que diariamente. Rogério é o sujeito do pavio mais curto, o tipo mais sensível e fascinante que já conheci.

Desempregado à época, pois ainda não havia conseguido o trabalho de revisor e copidesque no jornal, eu não tinha um tostão furado. Caio César Muniz pagava até mesmo as minhas passagens de ônibus para irmos ao Centro. Noutras ocasiões ele também não tinha grana, vinha a pé lá do Conjunto Integração e de minha casa a gente se mandava a pé para O Mossoroense ou para o ateliê de Rogério.

No mais das vezes eu primeiro manuscrevia meus textos e depois passava a limpo em uma bela Olivetti Línea 88 que ganhei de Rogério. A seguir entregava os poemas ou crônicas ao jornal. Daí a pouco, então, formamos isso que hoje denomino de Quinteto Fantástico. Cid era o crânio, o Homem Elástico. Rogério era o Coisa, o Homem de Pedra, porém com um coração de manteiga.

Muniz era o Tocha Humana, o elemento que incendiava nossos ânimos, tocava fogo no circo, inflamava plateias nos bares, escolas públicas, particulares e universidades, sempre audaz, intrépido. Eu, naturalmente, era o Homem Invisível, mais tímido do que uma jovenzinha recém-chegada a um lupanar. Isso no tempo em que ainda existiam essas casas de tolerância.

Foi nesse período que nos deparamos com figuras emblemáticas da poesia, da cultura mossoroense e potiguar, personagens de grande relevo como Luiz Campos, Apolônio Cardoso, Onésimo Maia, Lenilda Santos, Nonato Santos, Tony Silva, Augusto Pinto, Crispiniano Neto, Luiz Antônio, Raimundo Soares de Brito, Vingt-un Rosado, Aluísio Barros, Leontino Filho, Zenóbio Oliveira, Laércio Eugênio e o vate Zé Lima. Uma elite intelectual que nós olhávamos com reverência.

Genildo Costa era (ainda é) um músico e tanto. Naqueles primórdios, sem dúvida, ele representava o grande menestrel do grupo, autêntico cantador, dono de uma voz poderosa e ótima presença de palco. Artista nato, oriundo de uma família de excelentes escultores do verso, musicou alguns poemas de minha autoria, em especial o soneto “Caminhos Opostos”, os poemas “Minha Casa” e “Cores e Caminhos”. Este último Genildo usou para intitular o CD que ele conseguiu lançar na marra.

Além de mim, o mossoroense de Grossos musicou poesias de Luiz Campos, Rogério Dias, de Caio César, Cid Augusto, Maurílio Santos, Antônio Francisco e Crispiniano Neto. Em suma, é justo dizer que o Costinha gravou uma verdadeira antologia poética.

Reacendemos a chama da Poesia nesta vila, levamos a arte do verso para os coretos e vários outros pontos culturais da urbe. Naquela vitrine do Caderno 2, encontravam-se poetas e prosadores como Kalliane Amorim, Gustavo Luz, Líria Nogueira, Francisco Nolasco, Jomar Rego, Margareth Freire, Ricarte Balbino, Fátima Feitosa, Airton Cilon, Goreth Serra, Gualter Alencar, Silvana Alves, Clauder Arcanjo, Antônio Cassiano, Graciele Callado, Tales Augusto, Kézia Silmara, Misherlany Gouthier, Symara Tâmara e o nosso hoje estelar cordelista Antônio Francisco.

Eram poetas e prosadores às pampas. Tantos e tantas que esta minha memória de Sonrisal em copo d’água não consegue abarcar. Temos hoje antigos e novos talentos que coexistem de maneira harmoniosa. Indivíduos de uma quadra remota ao lado de uma turma jovem e não menos talentosa. Então, apesar da eterna falta de incentivo por parte dos governos municipal e estadual, a literatura ainda resiste. “Se foi assim, assim será”. Como na famosa canção do Milton Nascimento.

Marcos Ferreira é escritor

Quando eu crescer

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Web
Arte ilustrativa Web

Estamos às portas do carnaval, infelizmente. Falo por mim, claro. Há ocasiões em que imagino que não sou deste planeta. Bom. Não é da minha conta o fato de um mundo e meio de indivíduos curtirem o momo. É uma espécie de cartão de visita do Brasil. Eu, entrementes, desprezo essa tradição com todas as minhas forças. Tanto o carnaval oficial quanto os ditos “fora de época”.

Sim, sou avesso a multidões, a fuzarcas, furdunços, frevos, pândegas, etc. Agrada-me, todavia, uma boa roda de amigos, que prefiro com a ausência ou sem excessos alcoólicos. Possuo, tenho meus motivos, um forte desconforto (um trauma, na verdade) quanto à cultura etílica.

Esqueçamos o carnaval e o álcool. Fui bobo ao tocar nesse ponto nevrálgico, pois pretendo discorrer acerca de outras coisas. Aqui estou, nos acréscimos do segundo tempo, com mais um desafio de produzir uma crônica para este meu domingo de bocejos e de preguiça. Bocejo é um negócio contagiante. Ao ver alguém bocejar, dificilmente a gente não boceja. Só de pensar já estou abrindo a boca.

Fixando-me agora no compromisso da escrita, confesso que estou enchendo linguiça, conforme o ditado. Careço extrair dos meus quatrocentos ou quinhentos neurônios uma página minimamente atrativa, digna da atenção do leitor. No mais tenho plena consciência de que escrever sobre o ato de escrever é um legítimo lugar-comum, um tema pisado e repisado, um tipo de artimanha tão desagradável e perniciosa quanto o ogro Donald Trump. Desta vez, observem só, aqui me vejo ocupando, gastando tinta com o lodaçal, o charco político que voltou à Casa Branca.

Num domingo como este cai bem certas amenidades, um bocado de pacatez, uma escrita branda. Nada de mau humor, de ranço ou polêmicas. Isso, em particular o âmbito da política partidária, finda abespinhando alguém. Quando eu crescer, por exemplo, quero que a minha pena adquira determinadas qualidades.

Assim sendo, suponhamos que meu texto possuiria a suavidade e leveza de Odemirton Filho, que é o cronista mais cuca-fresca que vejo no Blog Carlos Santos. É o que estou dizendo. Odemirton escreve macio como algodão. O homem demonstra a fleuma, a mansuetude de um peixinho de aquário. Sou fã dele tanto quanto Natália Maia e Bernadete Lino.

Quem quiser, talvez por mera inveja, que diga que sou puxa-saco. Não me importa. Estou sendo tão somente franco e justo. Assim como devo aplausos à memória prodigiosa de nosso confrade Rocha Neto. Essa benquista figura (eis mais um puxão de orelha) está nos devendo um livro com suas reminiscências faz muito tempo. Não sei por que tanto protela. Falta de estímulo é que não é.

Ambiciono, no bom sentido, o fôlego e a inventividade de Clauder Arcanjo e Ayala Gurgel, dois escritores versáteis e fecundos. E o que dizer do causídico Bruno Ernesto? Ora! O rapaz é ilustrado, carrega no quengo uma rara ciência das coisas de antanho, fortuna histórica, amplo conhecimento relativo ao passado desta nossa capital do embuste. Coisa mesmo das priscas eras. É um cronista-historiador e vice-versa. Não menos me encanta a prosa cristalina e saborosamente erudita do meu xará Marcos Araújo. Como diria o saudoso cronista e filólogo José Nicodemos, sou-lhe macaca de auditório. Favor nenhum. O sujeito faz jus aos seus predicados.

Admiro, também, o verbo de Antonio Alvino da Silva Filho, pensador, filósofo contemporâneo e autor do livro de crônicas intitulado Contrapontos — Reflexões a partir da vida em rebanho, cujo prefácio tive a honra de escrever. Permitam-me alongar a lista de meus escribas diletos, a maior parte articulistas deste blogue. Isto porque não posso esquecer de maneira alguma do senhor delegado da Polícia Civil (homem de armas e de letras) Inácio Rodrigues, cuja escrita ficcional me encantou logo de cara. Esta não é a primeira vez que destaco o talento de Inácio.

Quando eu crescer, pois, quem sabe meu estro amarre as chuteiras dos beletristas ora citados. Neste universo das palavras, como ninguém é de ferro, almejo até uns vestígios, uns mínimos resquícios de um Graciliano Ramos e de um Machado de Assis. Exatamente nesta ordem. Além de mestres do gênero crônica como Otto Lara Resende e Rubem Braga. Mas, repito, só quando eu crescer.

Marcos Ferreira é escritor

David Leite vai participar do programa Pedagogia da Gestão

David Leite falará sobre seu mais recente livro (Foto: Arquivo)
David Leite falará sobre seu mais recente livro (Foto: Arquivo)

Nesse domingo (17), o escritor David de Medeiros Leite terá espaço muito especial. Ele estará no programa Pedagogia da Gestão, na TV Cabo Mossoró (TCM), Canal 10, a partir das 10 horas.

Vai falar sobre carreira literária, especialmente o seu mais novo livro “Contos do Tirol” (Mossoró: Sarau das Letras, 2024).

Sua presença no programa faz parte da programação dos 20 anos de história do Pedagogia da Gestão na TCM Telecom.

A apresentação será de Clauder Arcanjo, Dinoá e João Maria.

Pedagogia da Gestão: dando asas ao seu talento – //www.tcmplay.tv.br/ (ao vivo).

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Obras de Drummond têm a palavra de um de seus organizadores

Caminha é um amante e estudioso da obra de Drummond (Foto: Web)
Caminha é um amante e estudioso da obra de Drummond (Foto: Web)

Neste domingo (23), teremos outra edição do programa “Pedagogia da Gestão”, na TV Cabo Mossoró (TCM Telecom), Canal 10, das 10 às 11h (acompanhe AQUI ao vivo). No horário, espaço para focalizar o escritor Edmílson Caminha.

Neste programa, haverá abordagem da produção literária do autor, com foco em seu novo livro “A noite em que dei autógrafo a Belchior”, assim como o seu trabalho como um dos organizadores da mais nova edição das obras de Drummond, agora pela editora Record.

O autor

Escritor, jornalista, professor de literatura brasileira e de língua portuguesa, Edmílson Caminha nasceu em Fortaleza, Ceará. É membro da Academia Brasiliense de Letras, do Conselho Editorial Drummond da Editora Record e do Observatório da Língua Portuguesa (Lisboa, Portugal); sócio da Associação Nacional de Escritores (ANE) e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

O Pedagogia da Gestão é apresentado por Clauder Arcanjo, Dinoá e João Maria e bateu a marca de 20 anos no ar.

Programa tem novo dia e horário na TV Cabo Mossoró

Programa Pedagogia da Gestão será exibido aos domingos na TCM - Tag - maio 2024O programa Pedagogia da Gestão, que possui foco na educação e cultura, passará a ser exibido em um novo dia na grade de programação da TCM.

Atualmente, a atração apresentada por Clauder Arcanjo e João Maria vai ao ar aos sábados, às 19h, e a partir desta semana passa a ser veiculado aos domingos, às 10h.

O primeiro programa após a mudança na programação está agendado para este domingo (12) e poderá ser acompanhado pelos Canais 10 e 14.1 e o site www.tcmplay.tv.br.

Já a reapresentação poderá ser conferida toda sexta-feira, às 17h, pelas plataformas da TCM.

“Um provinciano no caos” é o mais novo livro de Clauder Arcanjo

novo livro de Clauder Arcanjo - 16 de Março de 2024 em MossoróConvite feito: o escritor Clauder Arcanjo vai lançar nesse sábado (16), em Mossoró, às 9h30, na Casa da Santíssima Trindade, seu mais recente livro.

Sob o selo da Editora Sarau das Letras, Arcano apresentará “Um provinciano no caos.”

O endereço é a Rua Laura Medeiros, 980, Conjunto Liberdade I, por trás do Colégio Martins de Vasconcelos.

Clauder Arcanjo é engenheiro civil, editor-executivo da Sarau das Letras, professor, contista, poeta, cronista, resenhista literário e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL).

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e YouTube AQUI.

Leite de pedra

Por Marcos Ferreira

Ilustração Web
Ilustração Web

Mal acompanhado. É dessa forma (nos períodos de crise) que respondo ao escritor Clauder Arcanjo quando ele me liga e pergunta como estou. Explico o que isso quer dizer. Trata-se da presença indesejável da enxaqueca. Esta última visita, que nunca é a derradeira, foi longa e penosa. Durou a semana quase toda. Começou na terça e teve fim apenas com o pôr do sol da sexta, cansada de me fustigar.

Depois do vômito e da cabeça zonza, falei com os meus botões: “Vou colocar um ‘atestado médico’ no blogue do Carlos Santos, requentar um pão dormido. Quem sabe até um daqueles sonetos com cheiro de naftalina. Aí ficarei de molho mais uns dias. Aproveito e também dou uma folga ao meu sofrido notebook”. O que?! Ledo engano! Sabendo que meu encosto latejante tinha pegado o beco, Natália rasgou o “atestado”: “Deixe de moleza. Ainda dá tempo. Cuide de escrever a crônica do domingo. Não invente de mandar texto que já foi publicado! O pessoal não gosta, espera por coisa nova”. Até que na tarde de ontem, pelo WhatsApp, me chega este lembrete:

— Arremesse a crônica. Estou no aguardo.

— Positivo, meu Editor. Falta só a revisão.

Mentira! Eu não havia escrito uma linha sequer. “Deixe de moleza”. Dissera Natália. Como percebem, transformei fraquezas em forças e tirei leite de pedra. Mas nós sabemos que nem sempre tal façanha é possível. De qualquer jeito, mesmo com um travo de dipirona, estou de volta às palavras. Nada de fazer corpo mole. Sem essa de pão dormido. “O pessoal não gosta, espera por coisa nova”.

Concordo. Tantos bons autores, chovesse ou fizesse sol, abraçaram o compromisso de escrever uma crônica todo santo dia. Como fizeram, entre outros, Dorian Jorge Freire, Otto Lara Resende, Rubem Braga e Antônio Maria. Aqui pertinho, no Jornal de Fato, temos o José Nicodemos, verdadeiro artista da crônica. Ele não deixa a peteca cair, escreve cotidianamente, sem requentar pão dormido.

Penso nos que empregam alguns minutos do seu tempo na leitura do que escrevo. Fico feliz. São leitores daqui e de longe. Rostos conhecidos e outros que nunca vi.

Esse vínculo, essa conexão por vezes tão remota, é algo que faz tudo isso valer a pena. Assim, principalmente quando a enxaqueca é derrotada pelo saco de pancadas, é necessário retirar o leite da pedra e oferecer um pão bem novinho.

Marcos Ferreira é escritor

Clauder Arcanjo: leitor-escritor

Por Hildeberto Barbosa Filho

Parece já existir certa bibliografia em torno dos tempos pandêmicos. O confinamento em suas respectivas casas levou alguns escritores a pensar, refletir e escrever, a partir das circunstâncias singulares dessa tragédia que se abateu sobre o mundo e sobre a humanidade.

Clauder Arcanjo (Foto: arquivo)
Clauder Arcanjo (Foto: arquivo)

O isolamento, a solidão, o sentimento de exílio, associados ao medo e à ansiedade diante de tempos tão nublados, como que cria condições especiais para o ato de escrever, de escrever e de ler, numa voltagem mais intensa, sobretudo se pensarmos nos gêneros íntimos e testemunhais.

Ocorrem-me estas considerações porque tenho, diante de mim, o livro Confidências literárias (Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2021), do escritor Clauder Arcanjo, no qual exercita um diálogo com alguns autores e autoras de suas “afinidades eletivas”, primando sempre pelo cuidado poético com a palavra.

Clarice Lispector, Beatriz Alcântara, Emily Dickinson, Walt Whitman, Hilda Hilst, Miguel de Cervantes, Eugênio de Andrade, Nicanor Parra, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lília Souza, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Manoel de Barros, Helena Kolody, Marcos Ferreira, Manuel Bandeira, Adélia Maria Woellner e Vinícius de Morares constituem o seleto elenco dos seus interlocutores.

Vê-se logo que Clauder Arcanjo mescla, em suas escolhas, poetas e prosadores, clássicos e modernos, consagrados e desconhecidos, sinalizando, assim, para a riqueza e a diversidade de seu olhar de leitor sensível à variedade dos métodos de produção literária e à particularidade de cada visão de mundo.

Na “Nota ao Leitor”, o autor assinala: “Lembro quando os escrevia, uns três por semana, à época em que estava ´confinado` em um hotel em Vitória (ES), lendo e escrevendo para não enlouquecer, em pleno início da pandemia”, e, num recado mais direto para o leitor, faz este apelo: “Que Confidências literárias o faça (re)visitar as obras dos autores e autoras que me acompanham ao longo da minha vida de leitor-escritor; e que você, assim como eu, sinta-se motivado a se confidenciar com eles (as). A boa leitura nos é altamente inspiradora”.

Sem dúvida: a criação literária tem, na leitura, especialmente na leitura das obras literárias, uma de suas fontes mais ricas e um de seus processos mais decisivos. Quando um Harold Bloom assegura que um poema dialoga ou está em conflito com outro poema; quando um T. S. Eliot afirma que nenhum poeta pode ser conhecido sozinho, ou quando um Jorge Luís Borges fala de precursores desse ou daquele escritor, temos aí o selo de uma corrente unindo vozes e visões.

Clauder Arcanjo é um leitor-escritor e, por isto mesmo, poderia situá-lo muito bem dentro da tradição moderna de uma poética da leitura. Uma leitura que não se esgota na simples experiência emocional ou intelectiva, no indispensável prazer da subjetividade, no estímulo à meditação e ao pensamento, no gozo da sensibilidade e no voo da imaginação. Mas, principalmente, numa leitura que tende a encaminhar o leitor para o desafio da sua própria criação e, portanto, da realização de sua própria obra.

No diálogo com Clarice, há certa altura, escreve o autor: “No sereno da tarde, volto para dentro. Dentro de onde? De mim? De ti? Um silêncio anterior ao mundo dito civilizado. O oco de tudo a me revelar que é preciso abrir mão das platitudes para sentir as altitudes. {…} A literatura é um tributo à loucura de si mesmo”. Já no primeiro parágrafo do diálogo com Whitman, afirma que “O homem sofre de um silêncio absurdo”, e no prosear com Fernando Pessoa, revela: “Preso às obviedades da vida, caminho como se o infinito estivesse à minha frente. {…} E a Poesia teima em renascer, sem metafísica, na esquina menos festejada”.

Atento ao estilo e à técnica, assim como ao universo emotivo e intelectual, de cada escritor, Clauder Arcanjo traz à tona, na medida do possível, as inclinações psicológicas e as atitudes perceptuais de cada um deles, nas suas diferenças e aproximações, ao mesmo tempo em que se descortina a si mesmo, na sua geografia sentimental, nos seus predicados ideológicos e nas suas preferências estéticas.

Fazendo suas confidências literárias, este cearense de Santana do Acaraú, poeta, romancista, contista, editor, convida-nos a uma viagem de volta ou a uma viagem de descoberta pelas páginas artísticas dos escritores que leu e cuja leitura nos sugere, a seu modo também artístico e pessoal.

Hildeberto Barbosa Filho é poeta, escritor e professor da UFPB, além de membro da Academia Paraibana de Letras

Clube do Cafezinho

Por Marcos Ferreira

Esta semana precisei ir ao banco. Parei diante da porta giratória e dentro de uma caixa em acrílico (creio que fosse em acrílico) larguei alguns pertences que trazia comigo. Eram nada mais que um celular, as chaves de minha casa e algumas moedas embaladas numa fita adesiva transparente. Apenas depois disso foi que a desconfiada porta autorizou o meu ingresso naquele típico reduto do capital.

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Peguei uma ficha no porteiro eletrônico e, a seguir, tomei uma maçada de quase hora e meia até meu número ser chamado no monitor de televisão afixado no alto de uma parede. Nem sei dizer se toda aquela espera valeu a pena, pois o motivo de eu estar ali era um só: receber um novo cartão do Banco do Brasil. O outro estava vencido e com uma rachadura. Então, para obter esse objeto de importância nenhuma no tocante a dinheiro em caixa, lá estava eu, um cidadão ordinário e igualmente desimportante com uma merreca de setenta e quatro reais na conta-corrente.

Deixei a agência da Alberto Maranhão convicto do quanto o meu viver é uma espécie de zero à esquerda. Hoje me permitam estar assim, melodramático. É uma espécie de trejeito, um cacoete. Imagino que não se trate de vitimismo ou autocomiseração. Como se alguém houvesse perguntado, digo também que no próximo dia 10 de abril (peço que isto fique somente entre nós) completarei cinquenta e três anos de idade. Até o momento, para lhes ser franco, não me tornei outra coisa à exceção de um homem de letras sem relevo nesta terra e menos ainda por aí afora.

O que possuo de valor, outra vez sendo honesto comigo e com um bocado de gente bacana, não é muita coisa material, mas amigos que me têm honrado com sua amizade e consideração gratuitas. Alguns são de longa data, desde 1912, como Antonio Alvino, outros se achegaram não faz muito tempo. Talvez devido à minha súbita mudança de açougueiro do verbo para cronista dominical. Então, feito um sonâmbulo, eu caminhava devagar pela Avenida Alberto Maranhão, escolhendo os passos nas calçadas irregulares desta cidade, pensando à toa numa coisa e noutra.

Meti a mão no bolso, peguei o telefone e consultei as horas: 16:05. Com a mixaria no banco e aquelas moedinhas, cogitei entrar num café e pedir uma xícara da rubiácea. Mas, num reflexo de bom senso, larguei tal ideia e rumei para outro endereço: o do meu próprio casulo, onde uma porção do velho e saboroso moca não desfalcaria o meu orçamento como certamente ocorreria no comércio.

Quem sabe num dia qualquer, acompanhado de cafezistas como Elias Epaminondas, Marcos Rebouças, Odemirton Filho, Rocha Neto, Antonio Railton, Clauder Arcanjo, Carlos Santos, todos esses notórios apreciadores do líquido citado, sentemos para tomar essa bebidinha quente e odorífica. Por onde andarão Mário Gaudêncio, Ayala Gurgel, José Arimatéia, Francisco Amaral Campina, Túlio Ratto?… Estarei feliz ao redor dessas pessoas. Ontem mesmo, antes que eu me esqueça, recebi a visita do Dr. Marconi Amorim. E, evidentemente, tomamos mais um cafezinho.

Marconi veio conferir como ficou esta nova morada da Euclides Deocleciano, 32, fruto, em grande parte, do apoio de amigos. Claro que esta crônica não deveria ser tristonha, como se vê de modo predominante, todavia alguns ímpetos depressivos ainda me acometem, morbidez que combato seguindo as prescrições do Dr. Dirceu Lopes. Então, geralmente devido ao meu estado psíquico, às vezes esqueço do quanto a vida é maravilhosa e este mundo não é tão ruim quanto parece.

Portanto, às quatro e pouco da tarde, lá ia eu um tanto sem rumo, decerto em busca de algum amigo com o qual não havia agendado me encontrar. Realmente não encontrei ninguém, nenhum dos meus colegas batendo pernas.

Entrei no meu lar, tomei um banho, fiz café e bebi uma xícara sozinho. Após uns minutos o telefone tocou. Era o poeta Rogério Dias. Trocamos umas ideias através da invenção de Graham Bell e combinamos em ele vir aqui na próxima semana. Trará os seus apetrechos culinários para produzir algumas de suas boas e famosas tapiocas recheadas. De minha parte ficarei encarregado do café.

No fim das contas, dando o braço a torcer, reconheço que esta tarde não foi nada infecunda. Vez por outra, cheio de caraminholas, é o meu quengo que inventa as penas em que vivo, como no belo soneto de Olavo Bilac.

Marcos Ferreira é escritor

Confidências a Ferreira

Por Clauder Arcanjo

Foto de Marcos Ferreira (Revista Papangu)
Foto de Marcos Ferreira (Revista Papangu)

Agora habita o meu olhar 

noturno este vazio estranho, 

esta memória de chuva 

que descolore o pôr do sol, 

que emudece as palavras 

e silencia o chocalho das horas. 

Noturnos, os poetas se emudecem no silêncio das madrugadas, a fim de encontrarem a raiz poética, (re)encarnada na cumeeira do vazio.

Enquanto a cidade dorme, a poesia se apresenta, antes do nascer do sol, como oferenda legítima e mundana do (des)colorido atormentado da vida.

Pois não sou este espírito a esmo 

Que me busca entre sombras e abalos 

Na infinita procura de si mesmo. 

&&&

Os passos 

no corredor, 

a luz acesa. 

O perfume 

da inocência 

brincando 

entre as mãos 

pervertidas 

do vento. 

— Poeta Marcos Ferreira, há sempre em nós uma confissão tardia! — Assombra-se Carlos Meireles, entre palavras de pecado e farta remissão.

Eu olho para a parede alta e nua à nossa frente. Um fero obstáculo a nos usurpar da liberdade de flertar com a arquitetura das nuvens, de antever o bulício dadivoso dos arrebóis.

Apenas o céu 

emoldurado 

na janela, 

a tia nas orações 

— tateando 

o paraíso 

nas contas 

encardidas 

do rosário. 

&&&

Perdi meu romantismo. Não sou mais 

O amante, o cavalheiro, o menestrel 

— O ingênuo cantador de madrigais. 

O que se perde, Poeta, mais se nos (re)define. Defino-me mais pelo que abandonei, desrespeitoso com meus despojos, do que pelo que levo na algibeira das minhas certezas vãs.

Hoje, neste ranzinza habitáculo em que meu corpo habita, quero recobrar os meus românticos perdidos, mas o mundo, cruel engenho, já cuidou dos seus funerais.

A poesia só me encontra quando me perco, pecador por palavras, nos seus cruentos madrigais.

Estremeço à tua passagem 

e meu olhar de chumbo 

se afunda na ilusão movediça 

do teu colo de aromas. 

A tarde boceja envolta 

num pijama de arrebol 

e as últimas cardigueiras 

desaparecem na linha 

ensanguentada do horizonte. 

&&&

Ontem voltei à rua dos 

meus tempos de criança… 

O fantasma do amor imberbe 

atravessou-me num abraço diáfano. 

Sobre a laje negra do asfalto 

brincava o doido esqueleto 

do meu cavalinho de pau. 

A infância usurpa o nosso presente. De quando em vez, joga seus espectros em nossa frente. E, cabisbaixos e saudosos do ontem, caqueticamente, nos tornamos fantasmas do nosso passado.

Hoje, Poeta, esperarei a assombração do eu-menino com a roupa de homem, em frente à porta da frente. Se ele passar por mim e entrar… Bendito seja eu, Ferreira!

&&&

Acho que a velha casa 

dos meus sonhos mirins 

ameaçou um sorriso de janelas. 

Ainda hoje sonho com a velha casa de Licânia. Entre os meus, colhido pelos tipos da rua, recebi as minhas lições de maior valia. Na nossa rua, não havia pobres nem ricos, existiam amigos e amigas. Gente boa, gente crédula, gente simples.

Cresci e me formei. E o mundo, Poeta, depois de Licânia, só me deseducou; e, hoje, não sonho mais com o sorriso do nosso janelão da frente. Lições de menos-valia.

— E quando retornarás a Licânia?, você me indaga.

E Licânia algum dia saiu de mim?! Se tu te referes a este meu esqueleto, ele será plantado na terra que me viu chorar, e muito sorrir no peito.

Mesmo que a luz 

de nossas almas 

se apague e o tempo 

nos arraste para 

o mundo das sombras 

e da saudade, 

haverá sempre esta 

candeia de esperança 

ardendo na solidão 

lacrimosa do meu peito. 

&&&

Ontem concebi 

um poema 

bastardo. 

Cumpre-me agora 

escrevê-lo, 

pois larguei-o 

entre as águas 

do banho 

e ele se afogou 

na garganta 

escura do ralo 

Há versos concebidos na antevéspera do escarro; outros, na comunhão de um afago; alguns, não raros, no lusco-fusco da esperança. São raros os que resistem ao tempo, juiz cruel de muito enfado.

Não adianta te cercares das lições comezinhas dos vates de outrora, nem das homilias poéticas dos modernosos de agora, pois o poema, aprendiz de poeta, só se entrega (e se revela) a quem nunca o espera, e dele se torna um fiel escravo.

Um sopro de angústia vai movendo 

as dobradiças do silêncio. 

As teias do tempo se espalharam 

por todos os cômodos e móveis. 

Sequer o velho relógio de pêndulo 

reagiu à minha súbita presença. 

Vê, em frente ao teu espelho, o sopro lívido da tua última quimera se esvair por entre as nesgas do silêncio, e se acomodar nas engrenagens das horas extremas.

O mais é tudo sombra e frialdade. 

&&&

É tarde… Um galo canta no vizinho. 

Então ele retorna e continua 

Os versos que deixou pelo caminho. 

Levanta, Marcos, os raros leitores de poesia aguardam o recital do teu soneto esquecido na última tarde. O primeiro quarteto, em alexandrinos perfeitos, ultrajava a dor que te tornara forte; o segundo, rimado e bem urdido, decantava a flor que tu havias tido; o primeiro terceto, arejado e reverente, tecia a família que, de ti, se orgulhava. Já a última estrofe, Poeta, toma cuidado!, pois daqui antevejo o traquinas Chico de Neco Carteiro a tentar escandir-lhe os versos, com sua voz rascante de augusta e rutilante matraca.

É de lábios 

e línguas 

este anseio 

que deriva 

da curva 

do teu medo 

e se gruda 

nos fios 

do silêncio. 

Na curva do arremedo, os poetastros cevaram os espectros dos seus pretensos poemas. De paletó e gravata, cercados de muitos festejos, eles se esqueceram de convidar a musa humilde.

Acharam, por certo, que, para eles, não havia segredo. Cumularam-se de saberes, outorgaram-se detentores de uma fama de araque… e se defrontaram, fatal desencanto, com o “poema” oco, perdido na tepidez funérea do vazio.

Abracei-a com força, mas não creio 

Ter podido prendê-la muito assim… 

Ela foi e eu fiquei ali no meio 

Do silêncio noturno do jardim. 

No silêncio da noite, sem a algaravia dos falsos arpejos, aprendi que a graça da poesia só nos alumbrará se riscada em laivos transparentes, pendidos, com a força solfejante da cola de uma mísera rima, sob a platitude lírica do abismo.

Não te maldigas pela sorte escassa 

Nem pela vida muita vez tão dura… 

Aqui no mundo nada sai de graça, 

Ainda mais quando se tem ternura. 

Quando a última ternura me caiu no colo opresso, nem percebi quando se deu tão sublime esmola, obrou-se o milagre de me ver em festa, quando todos lá fora se consumiam em desenganos.

E, se ao fim e ao cabo, tu, ternura, me tornares imprestável para a lida cotidiana, só me restará a lira… e a sina malsinada de me fazer poeta.

Hoje amanheceu bonito 

Como fosse primavera… 

Sem metáforas de sombra, 

Nem pedaços de quimera. 

&&&

Declaro, para todos 

os fins que se fizerem 

necessários, que não possuo 

bem algum neste mundo 

em que os homens 

declaram a guerra 

e sonegam a paz 

E tu, Marcos Ferreira, cuida de assinar o teu último armistício poético; eu, por aqui, rabiscarei o testamento do meu degredo.

Entre os fulgores da morte, as sonegações da paz, nós, tortos poetinhas, finalizaremos o nosso espólio, declarando fé no amanhã, apesar do risco de sermos fuzilados por isso.

No coração da noite segue uma tristeza 

Com passos muito lentos e desmotivados 

Obs.: os trechos em itálico foram extraídos do livro A hora azul do silêncio, de Marcos Ferreira. — 2ª edição — Mossoró: Editora Verboletras, 2016.

Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras

*Texto originalmente publicado na revista Papangu

O caminho de sempre do escritor Clauder Arcanjo

Clauder é escritor e engenheiro da Petrobras (Foto: arquivo)
Clauder é escritor e engenheiro da Petrobras (Foto: arquivo)

Ex-gerente-geral da Petrobras em Mossoró, com circunscrição no RN e Ceará, o escritor e engenheiro Clauder Arcanjo divide seu tempo entre três estados há algum tempo: RN, Ceará e Espírito Santo.

Trabalho e família o fazem transitar entre Fortaleza-CE e Vitória-ES.

Já Mossoró é um vínculo diferente, a ponto de manter apartamento fechado e ‘imexível’, onde todo mês aporta. São laços de amizade e a literatura que o fazem retornar.

Quando é hora de partir novamente, recomenda à Luzia, sua amada: “Deixe tudo como está. Se precisarmos de algo, a gente compra.”

Lembra-me José Américo de Almeida: “Ninguém se perde no caminho da volta.”

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Isaura Amélia vai lançar livro sobre artistas potiguares

Isaura: arte em livro (Foto: redes sociais)
Isaura: arte em livro (Foto: redes sociais)

Ex-secretária especial da Cultura do Estado e titular de pasta equivalente na Prefeitura de Mossoró, a professora Isaura Amélia prepara lançamento de livro. Será no próximo dia 14 (terça-feira próxima).

Acontecerá na Caxa Guaxinim, bar-restaurante que funciona no Sítio Cantópolis, centro de Mossoró, às 19h.

A publicação Coleção de Arte Isaura Amélia tem 400 páginas e cerca de mil imagens retratando obras de artistas diversos. É uma homenagem a artistas plásticos potiguares.

Com capa ilustrada por um quadro do artista plástico Thomé, o livro conta ainda com textos do advogado Marcos Araújo, jornalista Ivanaldo Xavier, arquiteto Vicente Vitoriano e escritor Clauder Arcanjo.

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Lá se foi nosso amigo “Chico de Neco Carteiro”

Chico, eu e o também escritor Clauder Arcanjo em 2009, Areia Branca, noutro lançamento de livro do autor nativo
Chico, eu e o também escritor Clauder Arcanjo em 2009, Areia Branca, noutro lançamento de livro do autor nativo (Arquivo pessoal)

Faleceu nessa terça-feira (28), em sua casa no Abolição I, em Mossoró, nosso amigo e escritor Francisco Rodrigues da Costa, um areia-branquense da gema.

O óbito foi de causa natura, provavelmente infarto enquanto dormia.

Aguardamos maiores informações sobre velório e sepultamento para transmitirmos a tantos amigos e admiradores.

Chico era um mossoroense de coração, sem nunca largar as raízes do seu lugar-berço.

Aquele mesmo que adorava ser tratado por “Chico de Neco Carteiro”, que tinha sempre um sorriso leve e uma palavra amena para seus interlocutores.

Alguém com a prosa sempre recheada de uma memória detalhista, fotográfica e cinematográfica.

Vá em paz, cabra!

E obrigado pela generosa amizade.

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Meu ópio negro

Café na xícaraPor Marcos Ferreira

Ela poderia, em se tratando de outro indivíduo, ter ofertado um litro de uísque escocês, por exemplo. Quem sabe uma garrafa de vinho espanhol. Ou, no caso de um tabagista esnobe, ostentoso, uma caixa de charutos cubanos. Chique, não é?! Pois há pessoas, inclusive entre aquelas que compõem a fauna dos literatos, que apreciam artigos ou mimos dessa natureza e origem.

Eu, porém, sem finesse, fidalguia nem pedigree, não tolero nenhuma das opções referidas. Daí que me senti deveras feliz na manhã de ontem ao ser presenteado com um simples pacote de café. Sim. Um pacote desses de duzentos e cinquenta gramas, de cuja linha e fabricante não farei propaganda.

Estamos passando aí. Tenho um presentinho para você — disse-me, por telefone, a leitora e amiga Natália Amorim, esposa do também leitor e amigo José Arimatéia. Pouco após, em companhia dos pequenos Daniel e Joaquim, o casal parou o carro diante da minha casa, todos usando máscara. Natália desceu e me entregou a sacola por cima do meu muro, que tem frente baixa.

— Obrigado — falei sem examinar a sacola. — É muita gentileza de vocês, contudo eu não imagino qual seja o motivo desse presente. Hoje não é meu aniversário, dia da poesia, do escritor nem nada parecido.

— Não carece data especial para presentearmos alguém — contestou ela. — Depois me diga se gostou. Tomara que sim.

— Claro! Eu farei isso em breve.

Então, de bom grado e acertando na mosca, foi um pacote de café que minha leitora Natália Amorim (sentiram o orgulho quando digo “minha leitora”?) me trouxe na manhã de ontem. Tratei de levar a preciosa rubiácea à cafeteira. O inconfundível aroma ocupou a casa toda, decerto alcançando as narinas dos vizinhos mais próximos, como acontece comigo quando eles fazem café.

Permitam-me agora uma rápida digressão. Pois bem. Quem me conhece sabe do meu horror, da minha absoluta repulsa a álcool e a fumo. Tenho as minhas razões, acreditem. Um tanto análogo ao álcool, brinco ao dizer que a bebida mais forte que eu já ingeri foi Biotônico Fontoura. Aquilo descia queimando. Ao menos para o meu paladar de “menino mole”, dizia a minha mãe.

Tomei outras panaceias dessa classe e época, como o Leite de Magnésia Phillips e a intragável Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau), todos nas suas apresentações e sabores tradicionais. No caso específico do Biotônico, para fazer uma piadinha com o álcool, eu chegava a ficar puxando fogo.

Naqueles tempos bicudos de minha infância, enquanto o general João Batista Figueiredo só sabia mandar o povo apertar o cinto, volta e meia os meus pais recorriam a esses polivitamínicos, no mais das vezes sem receita médica. Esta, entre outras manobras, era uma estratégia intuitiva para mitigar a desnutrição, que campeava feroz em meio ao crepúsculo dos anos de chumbo.

Gostávamos mesmo era do Poliplex, com sabor e consistência semelhantes ao mel. Mas este não era nada indicado para mim e meus dez irmãos, posto que se tratava, também, de um estimulante do apetite. E apetite, senhoras e senhores, tínhamos de sobra. Ou, como se diz, para dar e vender.

Encerremos esta digressão medicamentosa. Voltemos ao assunto do café: meu ópio negro. Quero registrar que esta não foi a primeira vez que uma leitora me brindou com esse tipo de presentinho saboroso. Não faz muito a fisioterapeuta Luzia Praxedes, pelas mãos do esposo e escritor Clauder Arcanjo, também me enviou essa bebida apreciada por onze entre cada dez brasileiros.

Desculpem mais esta gracinha. Estou bem-humorado, como devem ter percebido. Nos últimos dias, entretanto, tenho me visto às voltas com uma saudade recorrente dos amigos, das boas conversas em torno de uma mesa, regadas a café e a taças de água mineral com gás. Exato, prefiro com gás.

Vem-me à lembrança, a propósito, a saudosa Livraria Café & Cultura, que funcionou ao lado do Teatro Municipal. Era o nosso ponto de encontro. Ali brotaram e cresceram amizades que nutro até hoje.

Penso nesses amigos enquanto escrevo e saboreio uma caneca de café escoteiro, forte e amargo. Por onde andarão meus colegas de ópio negro, como Leandro Tomé, Cid Augusto, Elias Epaminondas, Jessé de Andrade Alexandria, Gustavo Luz, Francisco Nolasco, Túlio Ratto, Antônio Alvino, André Luís? A pandemia, entre outros desfalques, prejudicou esse grêmio da cafeína.

Quando daquelas visitas, antes do coronavírus, eu disponibilizava um potinho de demerara. Só não tenho aqui, para quem possua glicemia elevada, adoçantes dietéticos, cujo travo final me lembra a dipirona e acaba interferindo no sabor do café. Melhor (na minha opinião) tomar totalmente amargo.

— Assim não dá! — dizem alguns.

Isto é uma questão menos de gosto que de hábito. Mas tudo bem. Com açúcar, adoçante dietético ou de todo amargo, o café nos une de alguma forma. Talvez quem se depare com esta crônica cafeinada, embora se tratando de leitores que não conheço pessoalmente, sinta o desejo de qualquer dia sentarmos para uma conversa descontraída, à volta de uma mesa com xícaras e taças.

O que acha, Carlos Santos? Refiro-me àqueles leitores que conheço apenas por nome: Rocha Neto, Fransueldo Vieira de Araújo, Naide Rosado, João Bezerra de Castro, Raniele Alves Costa. Outros ignoro o segundo ou o primeiro nome, a exemplo desses três: Magno, Fernando e Amorim.

Toda vez que me ponho a escrever, conforme participei a Odemirton Filho domingo passado, penso nos meus leitores. Penso no dever e desafio de fazer valer a pena o tempo que me dedicam. Eis um privilégio: contar com leitores, por menor que seja o número. Os meus, se não são tantos, ao menos são preciosos. Porque a qualidade me interessa ainda mais que a quantidade.

Observo o quanto estamos em sintonia nos depoimentos que me endereçam. Ao escrever, portanto, assumo um compromisso especial com leitores e leitoras não menos especiais. Tenho a agradável sensação de que os recompenso. Assim como me sinto recompensado e honrando por suas leituras.

Pecando pelo excesso, cito mais estes nomes: Aluísio Barros, Cristiane dos Reis, Leontino Filho, Rozilene Costa, Rogério Dias, Vanda Jacinto, Francisco Amaral Campina, Simone Martins, Valdemar Siqueira, Rizeuda da Silva, Marcos Aurélio de Aquino, Natália Maia, Airton Cilon, Luíza Maria, Gualter Alencar, Zilene Marques, David Leite, Fábio Augusto e Misherlany Gouthier.

Chega de citações! Não descambemos para o colunismo literário, ou algo pior. São oito e cinco da manhã e o aroma do meu ópio negro trescala pela casa. Então ergo a caneca e lhes saúdo com o gesto característico.

Um brinde a todos com café. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

Um dos melhores romances potiguares em oportuna reedição

Por Tácito Costa

Não poderia haver momento mais oportuno do que o atual para a reedição de “A pátria não é ninguém”, do escritor François Silvestre. Não apenas porque o livro está esgotado e tenha intrínseca qualidade, mas, sobretudo, devido a tenebrosa conjuntura política brasileira, que faz com que tudo ganhe assustadora urgência.

A primeira edição veio a lume em 2002, pela saudosa Editora A.S Livros, e foi muito bem recebida por críticos e leitores. A leitura causou-me forte impressão à época. É livro obrigatório em qualquer antologia ficcional que se faça no Rio Grande do Norte. Eu, que conheço relativamente bem a literatura potiguar, o coloco sem medo entre os dez melhores.

Com projeto gráfico primoroso (a capa, linda, é de Raíssa Tâmisa), a nova edição sai pela editora Sarau das Letras. Tem apresentação do escritor, crítico e integrante da ANL (Academia Norte-rio-grandense de Letras), Manoel Onofre Júnior, e prefácio do escritor e editor Clauder Arcanjo.

“Esta obra, no meu modesto entender, afigura-se importante pelo seu caráter de documento – painel das trevas – mas também pelos aspectos formais, reveladores de um artesão da palavra, no pleno domínio do seu ofício”, afirma Manoel Onofre Jr.

Em seguida, ele comenta a estrutura da obra: “A ação romanesca desenvolve-se em três planos distintos, sem preocupações de ordenamento cronológico: 1- os horrores da era Médici; 2 – a distensão ‘lenta, gradual e segura’, vale dizer, a ditadura agonizante; 3 – a infância sertaneja do narrador, no sertão pernambucano.”

“Neste livro de François Silvestre, os capítulos narram acontecimentos entre 1977 e 1982. Entrelaçados com intersecções, nem sempre em ordem cronológica, num intrincado tecido de memória, relato-reportagem e ficção”, escreve Clauder Arcanjo.

Ainda no prefácio, Clauder alerta o leitor que não irá encontrar somente “a reportagem de um período em que o medo imperava, e a tortura mostrava suas garras e sua fúria covarde nos locais eleitos pelos militares golpistas e seus áulicos-babões pra debutar maldades em cada vez mais desumanas maquinarias e procedimentos. Haverá de encontrar isso, mas verás, também que François não foge à luta de narrar tudo como uma crônica de época, madura e inventiva”.

Por decisão do autor não haverá lançamento desta nova edição de “A pátria não é ninguém”. O livro está à venda na Livraria Independência, em Mossoró, e na Cooperativa Cultural, no Centro de Convivência, da UFRN.

Senti uma vontade enorme de relê-lo, o que farei depois de acabar “Os irmãos Tanner”, romance de outro craque, o suíço Robert Walser.

Tácito Costa é jornalista e escritor

Carta a papai

Por Clauder Arcanjo

Há dois dias que você se encantou (pouco importa o lugar-comum) e parece que estou sofrendo de “perda de equilíbrio”, meu pai. Não saberia como descrever; melhor é deixar pra lá, não quero preocupá-lo. Saiba apenas que o adoro cada vez mais; reconheço o legado enorme que você nos deixou: sermos simples, mansos, carinhosos e bons. Com todos.

Claro que, com sua Maria, sua companheira e nossa querida mãe, o xodó era maior. Beijos seguidos, diferentes provas de carinho, olhares apaixonados de esguelha, apertos de mãos daqueles sabedores que se completam (e foram feitos um para o outro).

Ah, Zequinha Arcanjo, como a dor é grande. A primeira noite sem você, para mim, foi terrível, uma saudade de apagar estrelas. De vez em quando, flagrava uma voz a perfurar o muro da memória.Olhava, então, para todos os lados à procura do passo cadenciado, do sorriso franco, do refrigério da sua bênção… No entanto, logo concluí, teria que cerrar os olhos, voltar para dentro de mim, reencontrar-me em Licânia, para, somente assim, “vê-lo” novamente.

Pai, achei o senhor mais forte. O cabelo bem penteado, a barba feita. Trajando um bermudão verde e uma camisa branca de linho. Suspeito que meu irmão Tito (você sabe como ele é crítico) julgaria a posição do seu cinto um pouco alta em relação à cintura. Não ligue, papai, adoramos você assim.

Você foi, é e será o cidadão mais belo e charmoso que já conhecemos. Digo isto não só em nome de Maria Djanira (nossa mãe): Dedé (única filha) e seus filhos (Baía, Tito e João Helder) comungam da minha opinião.

— A sua bênção, papai! — Sim, na pressa de lhe escrever, esqueci-me de pedir-lhe que nos abençoasse.

Ah, o senhor já nos abençoou bem cedo?!… Tolo sou eu por ainda não conhecê-lo. Não é porque está morando no Além que vai se esquecer de nós. Mas, peço sua bênção outra vez: “A bênção, pai!”

E uma outra questão, você, que sempre foi nosso maior e melhor conselheiro, oriente-nos como viver (e conviver), de agora em diante, com tamanha ausência.

Hoje cedo até pensei em ligar para Santana e perguntar como você estava, se já havia tomado banho, feito a barba e sentado na poltrona da sala para ver televisão. Quase pedi a Conceição para colocar o fone no ouvido do “nosso menino” para lhe dizer:

— Bom dia, José Bosco Arcanjo! A sua bênção, meu pai! Aqui é o Antonio Clauder. Alguma esperança de chuva no nascente? O gado no Eldorado está gordo? E o das Cajazeiras? — Num conversar macio e sem pressa, apenas movido pelo prazer de ouvi-lo.

É claro que, em meio a tudo, confessaria, pela milionésima vez, que o adoramos, que agradecemos todos os dias a Deus por ter nos presenteado com genitor tão especial.

Outro dia (acabo sempre me flagrando a contar e recontar as nossas histórias), relatei aos meus filhos aquela bendita intervenção sua quando da minha formação acadêmica. Não se acanhe, é bom repeti-la para conhecimento dos seus descendentes. Vejamos.

No terceiro ano do meu curso de engenharia na Universidade Federal do Ceará (UFC), você soubera (penso que um arcanjo soprou-lhe) da minha inscrição num concurso para uma vaga nos quadros de uma instituição bancária. Depressa, você viajou a Fortaleza e, a seu modo, chamou-me à reflexão:

— Vai abandonar o seu sonho? Desde criança, filho, você só pronunciava: “quero ser engenheiro”, “vou ser engenheiro”. Você lembra?

— Mas, meu pai, a crise na engenharia é grande, as construtoras estão fechando as portas, o desemprego campeia… — argumentei.

Suprema presunção, querer aconselhar o conselheiro-mor.

O senhor me olhou com o rosto cândido, colocou as minhas mãos entre as suas, abençoou-me e, beijando-me a face juvenil, pronunciou:

— Não se abandona um sonho. E, se a crise está assim, basta estudar mais, ser um engenheiro ainda melhor. Mas… a decisão é sua, seu pai estará sempre com você. Deus o abençoe, e tenha uma boa noite.

Levantou-se, recolheu-se à sua rede no quarto, e eu fiquei no meu. Deitei-me, contudo o sono não se apiedou de mim.

Horas depois, liguei a luz, abri a gaveta da cômoda e lá estava o cartão de inscrição. Retirei-o e o fiz em pedaços.

A história não se encerra aqui. Um ano e meio depois, concluí a graduação em engenharia, colei grau numa sexta-feira à noite, viajei para assumir o cargo de engenheiro da Petrobras, em Salvador, no domingo seguinte.

Você, pai (se lembra disto?), veio de sua Santana do Acaraú (nossa Licânia) para me acompanhar até o aeroporto. Antes de minha entrada para o salão de embarque, o senhor me beijou, abençoou-me com carinho, não sem antes arrematar:

— Não ficou desempregado nem um dia. Não é, filho? — E rimos, felizes.

Contarei essa história vezes sem conta. Você me pede reserva?! Ah, papai, o mundo precisa saber das suas aulas em nosso lar. Que o senhor foi professor nosso, usando o lápis do exemplo pessoal na lousa da vida, o pincel da ética no cartaz da simplicidade, a cartilha do ABC do respeito, a gramática da mansuetude no trato com os outros.

Zequinha, José Bosco Arcanjo, nosso doutor honoris causa.

Sim, ainda choro, pai. Pede que eu enxugue minhas lágrimas?! Sim, eu o farei. Você sabe como eu sou sentimental. Certo dia, não me disse: “Antonio Clauder, você, filho, é o poeta da família”? Pois eu peguei corda, sabe, e ando me amostrando como poeta provinciano.

Uma lufada de ar chega-me à mesa, sinto o seu cheiro como a sair do banho. Levanto-me, abro a porta do banheiro e não o vejo. Ao retornar, dou com a fotografia da nossa família na parede do corredor. “Meu maior patrimônio!”, o senhor assim nos saudava, ao nos reunirmos com você e mamãe.

Hoje, sua falta à cabeceira da mesa de jantar e a sua cadeira vazia na calçada, querido Zequinha, tornam mais escura esta noite longa.

A partir de agora (acho que você assim nos aconselharia), teremos que seguir sozinhos, ao nosso modo, porém nos lembrando das suas máximas: “Um homem já se conhece no arriar das malas”; “É puro, é santo, é milagroso, e bom” — ecoando com o dito de mamãe: “Se os homens sérios não cuidam de sua terra, os canalhas vêm e tomam”; “Vou deixar para vocês algo que ladrão nenhum rouba: educação”…

Sei que estou a me alongar, todavia não se esqueça de pedir a São Pedro uma rede branca e larga para o senhor dormir depois do almoço, sua siesta é sagrada. E mamãe também me pede para lhe avisar que tenha cuidado com o sol do Paraíso, pois sua pele é muito sensível. E nada de comida pesada, ouviu?! O senhor tem estômago fraco.

Uma última coisa: fique tranquilo, nós cuidaremos de mamãe, sua amada, com todo o zelo; e seremos uma família só, cumprindo seu pedido: “Permaneçam juntos e unidos”.

A sua bênção, pai! Fique com Deus.

Lembranças aos seus irmãos, nossos tios: Arcanjo, Miguel, Gerardo e Nonato.

Sei que esta saudade não passa.

Nunca.

Fortaleza-CE, 21 de novembro de 2019

Clauder Arcanjo é escritor

* Texto originalmente publicado em endereço pessoal do autor, em redes sociais.

As fantásticas mulheres de Clauder Arcanjo

“Mulheres fantásticas” é o mais novo título a ser lançado pelo escritor e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL), Clauder Arcanjo. O livro será apresentado ao público no próximo dia 21 (sábado), às 19h30, no Salão de Festas do Edifício Antilhas, bairro Aldeota, Fortaleza-CE.

A publicação chega aos leitores em coedição da Editora Sarau das Letras e Edições Poetaria.

O livro traz dezoito contos tendo a mulher como tema central. É um trabalho em que o autor incursiona no realismo fantástico, tão presente na realidade dos contadores de histórias do Nordeste brasileiro.

O livro foi diagramado pelo artista e escritor cearense Geraldo Jesuino, traz prefácio do escritor Dimas Macedo, membro da Academia Cearense de Letras (ACL), bem como texto nas orelhas da poetisa potiguar Kalliane Amorim.

Outras cidades

Na contracapa, uma análise da escritora Maria Valéria Rezende, ganhadora do Prêmio Jabuti, na categoria romance.

Cada conto recebeu uma ilustração da artista plástica Raissa Christina.

Em breve, haverá noites de autógrafos em Mossoró, Natal e na querida Santana do Acaraú (CE) – a decantada Licânia do autor.

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“A pátria não é ninguém” vai ganhar nova edição

Primeira edição do livro (Reprodução)

A Editora Sarau das Letras, conduzida pelos escritores Clauder Arcanjo e David Leite, prepara lançamento de nova edição do livro “A pátria não é ninguém”.

François Silvestre é o autor da obra.

A publicação originalmente remonta ao ano de 2002, portanto há 17 anos.

Saiu pela A.S Editores àquela época.

Trata-se de romance ambientado num país conflagrado, asfixiado pela repressão e em busca de sua identidade.

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Escritor Clauder Arcanjo terá livro lançado na Espanha

Alfredo Pérez Alencart, poeta e professor da Universidade de Salamanca (Espanha), acaba de traduzir os poemas “Sinos / Campanas”, de Clauder Arcanjo. O autor é escritor cearense radicado em Mossoró desde 1986 e integrante da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL), empossado em 2 de março de 2018.

Alencart, Colinas e Clauder Arcanjo no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca (Foto: Jacqueline Alencar)

Ele e Alencart participarão do XXII Encontro de Poetas Ibero-Americanos, que será realizado em Salamanca de 14 a 17 de outubro.

O livro, que será publicado em co-edição entre a Salmantina Trilce e a editora mossoroense Sarau das Letras, dirigida pelo próprio Arcanjo e o também escritor David Leite, será apresentado no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca (USAL).

Imprensa

A publicação terá pintura de capa de Miguel Elías e fotografias interiores de José Amador Martín. O padre Fructuoso Mangas, de Salamanca, assina o prólogo.

A notícia é destaque na imprensa local (veja AQUI).

Alencart já traduzira para o espanhol, de Cauder Arcanjo, o livro de aforismos “Pílulas para Silêncio”, em 2014.

A Sarau das Letras, sediada em Mossoró, publicou mais de 260 títulos em quinze anos. Entre eles está o “Só Rindo II – A política do bom humor do palanque aos bastidores”, do editor desta página.

Leia também: Clauder Arcanjo na Academia.

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Escritor recebe alta hospitalar após AVC

Arcanjo: "Bem" (Foto: web)

Com diagnóstico de um “leve AVC (Acidente Vascular Cerebral)”, sem qualquer sequela neurológica ou motora, o professor/engenheiro/escritor Clauder Arcanjo, 56, teve alta hospitalar nessa quarta-feira (24).

Desde sábado (20) –  veja AQUI – que ele estava internado no Hospital São Carlos em Fortaleza-CE.

“O tratamento será medicamentoso. Ele está bem”, tranquiliza David Leite, também escritor e amigo de Arcanjo.

Clauder Arcanjo é funcionário de carreira da Petrobras. Atuou em Mossoró na direção da base da estatal na região.

Há anos é gerente numa plataforma marítima em Campos-RJ, conciliando atividades na empresa com vida de escritor e editor literário.

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Escritor Clauder Arcanjo passa por bateria de exames

Arcanjo: bateria de exames (Foto: Reprodução)

O professor, engenheiro e escritor Clauder Arcanjo está hospitalizado.

Foi internado no Hospital São Carlos em Fortaleza-CE.

Arcanjo está desde sábado (20) sob cuidados médicos nesse hospital cearense.

“Não é nada grave”, tranquiliza o escritor David Leite, com quem Clauder Arcanjo divide responsabilidades na Editora Sarau das Letras.

Segundo informações, uma indisposição no seu retorno da Flip Paraty (Rio de Janeiro), acabou o levando ao pronto-socorro. Está sendo submetido a uma bateria de exames desde então, para identificar as causas dessa oscilação clínica.

Nota do Blog – Saúde, meu caro. Precisamos muito de você ainda por aqui. Estamos juntos.

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