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O renascimento de um setentão que estava no “fundo do poço”

Por William Robson (Bolsa de Discos)

Bartô e sua banda em apresentação no MCJ 2023 (Foto: Célio Duarte)
Bartô e sua banda em apresentação no MCJ 2023 (Foto: Célio Duarte)

Bartô Galeno aguardava a sua vez para se apresentar no Mossoró Cidade Junina (MCJ), em camarim montado para ele por trás do palco do Arraiá do Povo. Milhares de pessoas cantavam e dançavam ao som de Waldonys, enquanto a próxima atração era assediado por fãs e pela imprensa. O BOLSA DE DISCOS estava lá para conversar com um dos grandes nomes da música brega brasileira.

Em nova fase, Bartô não quer apostar na sorte outra vez. Agarra-se na nova chance que recebeu da vida, após fase tenebrosa em que ele revelou chegar ao fundo do poço. Mesmo na fase baixa da carreira, os fãs nunca deixaram de acompanhá-lo e sua retomada de shows pôde comprovar isso.

As milhares de pessoas ao som de Waldonys não arredaram o pé. Ficaram para ver Bartô Galeno, a última atração daquela noite.

Para o Bolsa de Discos, Bartô falou do ritmo de shows nesta nova fase, agora com 73 anos completados em maio, dos momentos difíceis e revela que não está vivendo apenas dos sucessos do passado. Músicas novas virão ai em álbum que deve ser lançado até o final do ano. Seu último trabalho é de 2009: “Paixão Errante”.

Por falar em disco, parte da sua discografia, a do início de carreira, será relançada pela gravadora Tapecar.  Familiares do fundador da gravadora afirmaram que estão lançando algumas obras em streaming e em formato vinil. Disseram que alguns dos discos relançados agora vêm de masteres, enquanto outros são antigos LPs remasterizados.

E como, para eles, não faz mais sentido fabricar CDs, em baixa no mercado, a aposta está no streaming e nos LPs. Quatro discos do Bartô estão na lista: “Só Lembranças” (1975), “Pelo Menos uma Palavra” (1977), “No Toca Fita do Meu Carro” (1978) e “Tudo é Nada sem Você” (1979).

Você enfrentou problemas de saúde e agora retoma a série de shows. Como está sendo isso?

Agora está bom, graças a Deus e ao bom Jesus. Saí do álcool, do cigarro e agora melhorou muito. Minha saúde está boa e só tenho a agradecer. Eu estava no fundo do poço.

Este fundo do poço que você se refere, como influenciou em sua carreira?

Atrapalhou muito e perdi muita coisa também. Perdi shows, dinheiro, carro importado, meu contrato com a Warner. Hoje recuperei tudo.

Até os direitos de suas músicas?

Bartô prepara novo trabalho fonográfico (Foto: Célio Duarte)
Bartô prepara novo trabalho fonográfico (Foto: Célio Duarte)

Tenho músicas com muitas gravadoras, entre elas a Som Livre. Falta para estas gravadoras organizar melhor o pagamento da gente. Tá faltando só isso.

Quatro LPs seus da década de 70 serão relançados em vinil pela Tapecar. Como está sendo esta negociação?

Foram discos lançados pela Tapecar e eles abriram uma plataforma em que estão realçando e refazendo todos os trabalhos, os sucessos das antigas, remasterizando tudo com um som maravilhoso.

E sua volta a Mossoró?

Está sendo legal. Tenho uma banda aqui em Mossoró que está comigo há mais de dez anos e são músicos muito bons. Tocam naquele ritmo romântico, apaixonado.

Há perspectivas de novas composições e de disco?

Sim, inclusive já estou gravando o disco novo. Pode aguardar que vem música nova por aí. Ainda não tem nome, estamos pensando, a gente vê depois. Tenho em torno de nove, dez músicas compostas para este disco. A perspectiva é de lançar no fim do ano. São quase 20 discos lançados.

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Um escritor e seu folhetim que faz história no mundo virtual

Por Carlos Santos

Escritor polígrafo, Marcos Ferreira de Sousa nasceu aos 10 de abril de 1970 em Mossoró (RN), onde reside desde sempre. Tem figurado entre as primeiras colocações de alguns importantes concursos literários no país.

Com a obra “A Hora Azul do Silêncio” venceu os “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, na categoria Melhor Livro de Poesia. Além do folhetim “A Cidade que Nunca leu um Livro” (romance publicado aos domingos no Canal BCS), possui obras inéditas nos gêneros conto, romance, poesia e crônicas.

Marcos Ferreira é escritor de origem mossoroense com vários prêmios literários (Foto: arquivo)
Marcos Ferreira é escritor de origem mossoroense com vários prêmios literários (Foto: arquivo)

Autodidata, Marcos atuou na imprensa mossoroense, onde desempenhou as funções de revisor, copidesque, repórter e editor de cultura. Entre outras distinções, foi laureado com os prêmios “José Cândido de Carvalho” (Categoria Contos); “Prêmio Petrobras de Literatura Prata da Casa”, edições do Rio de Janeiro e Salvador (Categoria Poesia); e o “Prêmio Vinicius de Moraes” (Categoria Sonetos), promovido pela editora Companhia das Letras.

Abaixo, um bate-papo com ele em relação a uma experiência inusitada: a produção de romance em série, como nos antigos folhetins, albergado em nossa página ao longo de 22 semanas:

Pelo visto, “A cidade que nunca leu um livro”, concluído no domingo passado (veja AQUI), é o primeiro romance publicado em suporte digital e em série na imprensa potiguar, talvez do País. Como você avalia essa experiência?

Não tenho conhecimento quanto ao ineditismo ou não. Mas acho que isso é uma consequência dos novos tempos, especificamente da blogosfera e das redes sociais. Trata-se de uma linha tão peculiar quanto plural. São os tempos irreversíveis das plataformas eletrônicas e esse é um caminho sem volta. Os veículos impressos tiveram a sua longa e apaixonante época, contudo agora os poucos que restaram vivem a debacle, a asfixia econômica, o crepúsculo de suas edições em papel-jornal. Outros romances digitais, a exemplo de “A Cidade que Nunca eu um Livro”, logo surgirão e esse é um processo que vem desde longa data quando do apogeu dos folhetins publicados nos jornais impressos, momento em que se destacaram, entre outros, grandes vultos da literatura brasileira como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Machado de Assis.

Marcos, um romance virtual, ou seja, em plataforma diferente do livro físico, é uma experiência incomum para nós do Canal BCS e acredito que para você também. Como nasceu a ideia?

Marcos tem planos para novos lançamentos (Foto: arquivo)
Marcos tem planos para novos lançamentos (Foto: arquivo)

Eu comecei literalmente do zero, não tinha nada pronto ou em andamento. Num determinado dia, então, eu sentei para escrever a minha habitual crônica que eu veiculava aos domingos no Canal BCS e aí, como o texto é um bicho cheio de vontades próprias, eis que eu senti que aquela suposta crônica havia descambado para algo diferente, uma coisa que me pareceu muito mais um conto ou capítulo de um romance do que propriamente uma simples crônica. Foi aí que tudo começou. Mesmo vivenciando a gangorra da minha saúde instável, eu fiz a minha estreia como folhetinista no Canal BCS e arquei com a responsabilidade de todo domingo ter um novo capítulo de romance para apresentar ao público leitor e, se possível, mantê-lo interessado na trama.

A construção de personagens, a narrativa, o esforço para prender o webleitor e o fio de ligação entre uma publicação e outra, entre um domingo e outro, são dificuldades enormes à produção, não temos dúvidas. O escritor na plataforma virtual é um novo caminho?

Sem dúvida. A plataforma digital, espaço em que o ficcionista recebe a pressão de fazer o dever de casa chova ou faça sol, é um desafio muito maior do que aquele vivido por um literato que está isento dessa cobrança e escreve, digamos assim, quando se sente inspirado. O escritor que surfa na crista da onda da plataforma digital tem que lidar com uma cobrança muito maior, tanto de si próprio quanto dos webleitores cuja atenção ele despertou.

O romance é um gênero muito disseminado há séculos no mundo. No Brasil, ele ganhou forma no século 19, com popularização em jornais impressos, em capítulos, o chamado “folhetim”. O Canal BCS e você dão ao leitor cibernético, plugado, on-line, uma experiência que resgata esse período. Como é viver essa realidade virtual?

Digo sem nenhuma economia ou excesso de vaidade que “A Cidade que Nunca leu um Livro”, pelas características já expostas e que envolvem o compromisso de um capítulo semanal para continuar alimentando o fogo da criatividade, foi, até aqui, o projeto mais ousado e desafiador a que me lancei e me propus a realizar. E agora, encerrando essa trama da personagem Jaime Peçanha após vinte e dois capítulos seriais, não posso negar, particularmente, o gostinho de vitória, o sentimento da missão cumprida.

Tivemos webleitores acompanhando o romance “A Cidade que Nunca leu um Livro” de vários estados do país e diversos municípios do RN, conforme dados de nossa estatística. Como você lida com essa interação ‘estranha’, digamos assim, diferente do que o livro físico proporciona?

Primeiramente, antes que digam que eu não falei das flores, essa é uma notícia que me surpreende de maneira muito positiva. Eu não tinha ideia de que minha história contasse com toda essa audiência. Acho que isso é o coroamento (e aí entram as flores) de um texto e de uma trama produzidos com muita seriedade e respeito aos webleitores de um modo geral. Pois é sempre vital, imprescindível, respeitar o leitor (no caso, webleitor) e coroá-lo com o que podemos oferecer de melhor em matéria de literatura.

Você considera possível a maior difusão do romance e outros gêneros literários por meio dessa infovia e suas diversas plataformas, como o blog, Instagram, Facebook etc?

Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Tanto que passei muitos anos sem publicar uma só vírgulas nos jornais impressos, quando ainda existiam jornais impressos em Mossoró, exceção para o De Fato, mas aí eu voltei a escrever com periodicidade semanal graças ao BCS — Blog Carlos Santos. A infovia está aberta para todos os gêneros e expressões de arte literária, inclusive o romance. Quanto ao meu retorno a escrever, existe algo que o Canal BCS me ofereceu que outros não ofertaram: motivação.

No universo criativo, no campo das artes, da literatura à pintura, passando por escultura e outras manifestações artísticas, muitos feneceram sem experimentar o gosto do sucesso de público e o mínimo de bem-estar à vida pessoal. Costumo dizer, usando adágio popular, que “quem incha com bafo (elogios) é cuscuz.” Isso o incomoda e o angustia?

A hora azul do silêncio à venda na Amazon, para leitura virtual (Reprodução)
A hora azul do silêncio à venda na Amazon, para leitura virtual (Reprodução)

A mim tal patologia (a da vaidade do cuscuz) não acomete. Possuo certa vaidade, sim, mas esta é no tocante a produzir alguma coisa em matéria de literatura e tomar conhecimento de que algumas pessoas estão gostando. Então, levando-se em conta o meu tipo de vaidade, não tenho nenhuma bigorna pesando na consciência. Não sou, muito menos, aquele tipo de literato que tem que dormir de beliche: ele embaixo e o ego em cima.

Quais os próximos planos literários de Marcos Ferreira?

Antes de responder a esta pergunta, quero agradecer aos webleitores que têm me acompanhado no Canal BCS. Agora, sem querer contar vantagem, no entanto me permitam um tiquinho de imodéstia, possuo um certo número de livros inéditos e que não estão expostos nas prateleiras das livrarias e quejandos simplesmente porque não tenho grana para a autopublicação. “A Cidade que Nunca leu um Livro”, por exemplo, é um romance que gostei de escrever e que eu gostaria de vê-lo publicado em livro físico. Quanto aos meus próximos planos literários, o que pretendo fazer é continuar escrevendo. Isto porque, bem ou mal, não há outra coisa que eu saiba fazer melhor do que escrever. Por falta de habilidade em ofícios diversos, portanto, escrevo.

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“Quem optar pelo home office vai sair perdendo”, prevê estudioso

Por Stela Campos (Valor)

Os escritórios depois da pandemia podem ficar menores, ter mais espaços colaborativos e parecerem mais informais. Existem várias possibilidades sendo testadas. Mas a grande transformação não será no formato ou no ambiente. O que vai mudar é o status de quem estiver nele. “Se você deseja subir na hierarquia, provavelmente terá que voltar ao escritório”, afirma Peter Cappelli, diretor do Centro de Recursos Humanos e professor de administração de Wharton, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia.

Há décadas dedicado ao estudo dos ambientes organizacionais, Cappelli acaba de lançar um novo livro “The Future of the Office” (O Futuro do Escritório). Nele, além de mostrar a evolução do conceito do escritório ao longo do tempo, ele mergulha nas transformações no trabalho observadas na pandemia. O professor faz uma análise meticulosa sobre os impactos, para empregadores e funcionários, da adoção dos modelos híbrido de trabalho – com parte do efetivo no escritório e parte remota- e do home office permanente.

Para Cappelli, o profissional remoto terá como desvantagem ganhar menos atenção, oportunidades e informações (Foto: divulgação)
Para Cappelli, profissional remoto terá menos atenção, oportunidades e informações (Foto: divulgação)

Embora diga que ainda não existe um consenso sobre o futuro do escritório, “porque esta ainda é uma história fluida”, ele diz que o que vivemos na pandemia não servirá de parâmetro. “Nada vai ser igual porque não estamos mais juntos nisso”, disse em entrevista ao Valor. A seguir os principais trechos:

Por que o senhor diz que voltar para o escritório será uma experiência mais inusitada do que esperávamos?

Porque não será como trabalhar ao vivo em casa durante a pandemia, quando todos no escritório estavam em casa. Agora haverá alguns no escritório e alguns em casa, e aqueles que trabalham em casa ficarão em desvantagem quanto a atenção, oportunidades, informações e assim por diante.

Como não há consenso sobre qual modelo será o melhor, as empresas deveriam experimentar para depois decidir?

Acho que elas devem ser claras ao dizer às pessoas que tudo é um experimento, não se apegue a nada do que estamos tentando.

De todos os modelos híbridos que o senhor descreve no livro, qual tem maior potencial de ser bem-sucedido?

A questão é sucesso para quem. O trabalho remoto permanente pode funcionar muito bem para o empregador: ele recicla o escritório, economiza em imóveis, e pode decidir se tornar um empreiteiro em algum momento, o que pode ajudar a economizar dinheiro. Isso nem sempre é bom para o funcionário que terá perdas em sua carreira apenas por não estar no escritório. Modelos híbridos em que os funcionários decidem quando trabalhar em casa são ótimos para eles, mas não está claro o que os empregadores ganham com isso, exceto as complicações.

Qual a sua opinião sobre a relevância da experiência vivida na pandemia para o futuro?

Espero que os empregadores aprendam que dar aos funcionários o controle sobre o que fazem e quando o fazem pode funcionar muito bem. Os empregadores não puderam microgerenciar, eles tiveram que confiar em seus funcionários e tudo funcionou bem para ambas as partes. Continuem fazendo isso.

Muitos funcionários parecem ter medo de perder a liberdade conquistada na pandemia ao ter quer retornar à antiga vida de escritório. Como os chefes devem lidar com essa nova mentalidade?

Se os empregadores vão trazer todos de volta, eles precisam explicar por que isso é importante, por que ficar em casa não estava funcionando ou pelo menos não era bom o suficiente. Se os funcionários acharem que você está fazendo isso apenas por teimosia ou porque não confia neles – depois de aparentemente ter trabalhado bem dessa forma antes -, eles ficarão compreensivelmente irritados.

Os funcionários que defendem o home office devem pensar sobre o impacto que isso terá em suas carreiras?

Sim. Se você deseja subir na hierarquia da administração, provavelmente terá que voltar ao escritório. Não há problema em ficar em casa se quiser ser um colaborador individual e não se importar em fazer progressos.

Empresas e funcionários estão tomando decisões com base na experiência de trabalho vivida na pandemia. Qual é o risco de agir dessa forma?

O risco está no lado do funcionário de presumir que não há problema em ficar trabalhando de casa. Nada vai ser igual porque não estamos mais juntos nisso.

No livro, o senhor mostra que o trabalho remoto nunca funcionou como esperado. Por que funcionaria agora? O que mudou?

Se seu objetivo é progredir na carreira, você não vai querer trabalhar remotamente. Se sua meta for morar em um lugar onde você realmente deseja e colocar seu foco lá, pode realmente funcionar para você.

O que os empregados ganham com o trabalho remoto?

Mais controle sobre o tempo e a redução no deslocamento diário.

Escritórios sempre foram importantes para os relacionamentos, muitos casamentos, por exemplo, acontecem entre pessoas que trabalham juntas. Tirar as pessoas do dia a dia do escritório pode ter um impacto na vida em sociedade?

Sim. Trabalhar em casa para pessoas no final de suas carreiras parece ótimo. Trabalhar em casa para alguém que está começando – especialmente em um novo local – é péssimo. Mais difícil de conhecer pessoas, mais difícil de aprender coisas e assim por diante.

Durante muito tempo o escritório foi associado a status. O novo status no modelo híbrido ficará com os que permaneceram mais próximos do poder e das decisões?

Sim, o status relacionado ao trabalho será maior para aqueles que permanecerem no escritório.

Qual é o seu conselho para as empresas que têm dúvidas sobre qual modelo seguir?

O seu próprio contexto é muito importante — os trabalhos podem ser realizados de forma independente ou são baseados em equipe? O ambiente é profissional e os padrões do que fazer e como fazer são claros? É importante entender o viés e a interpretação na sua organização. Conheça a si mesmo é a resposta.

Qual o seu conselho para o profissional que tem a opção de optar por trabalhar em home office?

Cuidado com o que você deseja. Descubra o que você vai perder antes de dizer sim.

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Recuperação da economia brasileira ganhou tração

Por Nestor Rabello (Poder 360)

Embora em ritmo lento, a recuperação da economia ganhou tração e o PIB (Produto Interno Bruto) pode crescer em 2020 acima dos 2,2% estimados pelo mercado. A avaliação é do economista Gesner Oliveira, sócio-executivo da GO Associados.

No 3º trimestre deste ano, a economia brasileira avançou 0,6% na comparação com o período imediatamente anterior (abr-mai-jun). Registraram bom desempenho os setores da agropecuária, indústria e serviços.

Sócio-executivo da GO Associados, Gesner Oliveira está otimista com a recuperação do PIB (Foto: divulgação)

Para Gesner, o PIB do último trimestre de 2019 pode repetir patamar similar ao do 3º trimestre, o que vai ajudar a impulsionar a economia em 2020. O economista espera que o Produto Interno Bruto avance 2,4% no próximo ano. No entanto, afirma que o crescimento poderia ser mais vigoroso caso o ambiente externo fosse mais favorável.

Segundo ele, a situação política e econômica conturbada de países vizinhos, como Chile e Bolívia, além da crise enfrentada pela Argentina, podem limitar o ritmo da recuperação da economia brasileira.

Ainda assim, Gesner avalia que a recuperação brasileira está em trajetória positiva e não vê obstáculos no lado político que possam afetar esse desempenho de forma significativa.

Em 2019, os indicadores macroeconômicos apresentaram melhora e a reforma da Previdência, considerada essencial, foi aprovada. Diante disso, como fica o cenário para a economia em 2020?

Para o próximo ano, projetamos um crescimento de 2,4% do PIB [Produto Interno Bruto]. Estamos percebendo 1 aquecimento bom da economia e achamos que recuperação da economia realmente está ganhando força. Se estivermos certos,  no 4º trimestre cresceremos 0,7%. Se o crescimento for forte em 2020, vamos ter assegurado ao menos 09,% de taxa de crescimento. O carregamento estatístico de 2019 sozinho assegura 1 bom crescimento em 2020.

A atividade econômica está crescendo e, em outra frente, o Brasil vive uma situação inédita no caso da taxa básica de juros. Qual é a previsão da taxa Selic para o próximo ano?

Acreditamos que na próxima 4ª feira veremos uma redução de 0,25 pontos percentuais na taxa básica. O ciclo de queda ainda continuaria em janeiro, com mais 0,25 pontos percentuais, encerrando o ano com a Selic em 4,25% ao ano. Aí então, o ciclo de cortes pararia, já que teríamos uma economia mais aquecida.

Nesta semana, a Bolsa de Valores superou os 110 mil pontos e economistas têm mostrado otimismo em relação à economia. Há algum risco ou obstáculo para que as expectativas se concretizem?

Eu acho que a retomada da economia está mais que dada. A política é importante, mas não vemos grandes obstáculos políticos. As condições estão dadas.

Dentro do contexto de retomada da economia, como se encaixam as reformas econômicas? Elas podem fortalecer o crescimento?

As reformas são importantes, mas não há ‘o Dia D’. Elas demoram um tempo, como a reforma da Previdência. Foram 3 anos de discussão. É um processo longo. O que é importante é a direção. Se houver percepção de que a direção está correta e de sentimento reformista, as expectativas certamente vão melhorar.

Como questões internacionais, como a guerra comercial entre EUA e China ou as turbulências na América Latina, podem afetar a recuperação da economia?

Certamente. A questão externa não vai ajudar muito o Brasil. A crise argentina já afetou muito a indústria brasileira, isso já é 1 problema. O fato de haver instabilidade política no Chile, Bolívia e na própria Argentina, resulta em 1 ambiente ruim na América Latina. Se o mundo estivesse bem, haveria condições de crescer mais rápido.

Apesar do avanço do PIB no 3º trimestre, alguns setores econômicos ainda se recuperam em ritmo lento. Há expectativa de que a recuperação se acelere em 2020?

Acho que temos 3 chances boas em 2020. Uma delas é a construção civil, que está se recuperando bem. Isso e bom para o emprego, por exemplo. Tem a agropecuária, como sempre com enorme potencial para o saldo comercial, que será reforçado pela taxa de câmbio. E, também, a infraestrutura, que pode crescer bastante. Esses são setores que podem ajudar bastante a economia brasileira.

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Economia do RN pode ser retomada com indústria petrolífera

Por Sandra Monteiro (Agência .COM Comunicação)

Gutemberg Dias é dirigente da Associação Redepetro/RN. Está à frente de um dos mais importantes eventos da área econômica do RN, com amplitude além das fronteiras do estado. É o Mossoró Oil & Gas Expo, que acontecerá entre os dias 26, 27 e 28 no Expocenter.

Dias possui Mestrado em Recursos Naturais pela Universidade do Estado do RN (UERN), graduação em Geografia também por essa instituição e curso técnico em Geologia pela antiga Escola Técnica Federal do RN (ETFRN).

É atualmente é Diretor Executivo da empresa Projetos Geológicos Ltda (PROGEL), Conselheiro do Conselho Curador da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ) e professor assistente na Uern. Tem experiência na área técnica em Geociências, com ênfase em geologia e geografia, atuando principalmente nos seguintes temas: meio ambiente, prospecção geológica de rochas carbonáticas, geoprocessamento, geografia urbana e geografia da saúde. Na área administrativa tem experiência em gestão de negócios e planejamento estratégico.

Nessa entrevista, o bate-papo com ele está focado no Mossoró Oil & Gas Expo. Em sua ótica, “2020 será o marco para essa retomada da produção” petrolífera em terra.

Gutemberg Dias aponta números iniciais da retomada de investimentos no setor no RN (Foto: Marcelo Bento)

Por que 2020 é considerado por especialistas o ano da virada da produção de petróleo e gás em terra (onshore) no Brasil?

Gutemberg Dias – O Ministério de Minas e Energia lançou, dia 22 de agosto deste ano, em Brasília, o Reate 2020, que é o Programa de Revitalização das Atividades de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural em Áreas Terrestres (REATE). No lastro do Reate 2020, a meta do governo é quase duplicar a produção onshore (em terra) no país, dos atuais 270 mil barris de óleo equivalente por dia para 500 mil barris até 2030. Essa meta pode ser atingida, e acredita-se que até em menos tempo. E 2020 será o marco para essa retomada, para a virada do onshore. Sem contar que existe uma convergência muito forte de todo o setor.

Mas, 2020 já se avizinha. Existem ações práticas nesse sentido?

Gutemberg Dias – Sim, e exemplifico o Rio Grande do Norte, outrora líder nacional da produção onshore, que está sendo protagonista para essa retomada. A mudança já começou, novas empresas estão entrando no Estado em duas frentes: uma é a partir das aquisições dos ativos da Petrobras em função do programa de desinvestimento dela, no Projeto Topázio. A outra, é a partir da aquisição de blocos exploratórios por empresas em leilão da Oferta Permanente da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Poderia detalhar um pouco esses negócios?

Gutemberg Dias – Na venda dos ativos da Petrobras no Estado, o Polo Riacho da Forquilha, na Região Oeste, foi comprado pela Potiguar E&P, dia 31 de maio de 2019; o Polo Macau foi adquirido pela SPE 3R Petroleum, dia 9 de agosto deste ano, e os campos Ponta do Mel e Redonda foi comprado pela Central Resources do Brasil Produção de Petróleo Ltda., mais recentemente. Já no leilão da Oferta Permanente da  ANP, 19 blocos no Rio Grande do Norte foram arrematados pela Phoenix, Geopark, Imetame e Petro-Victory, último dia 10 de setembro. E outras áreas na bacia potiguar deverão ser arrematadas em novos leilões, que a ANP já está preparando. Ainda, destaco a venda do polo de Fazenda Belém, no estado do Ceará, que já está fase vinculante, ou seja, esperando apenas o aporte financeiro do comprador para fechamento do negócio por parte da Petrobras.

Na prática, o que essa movimentação pode produzir para o Rio Grande do Norte?

Gutemberg Dias – Com essas políticas de incentivo, nossa produção poderá dobrar nos próximos cinco anos, garantindo a retomada da economia do estado, a partir da indústria petrolífera. E isso é algo extremamente necessário, porque no passado chegamos a produzir mais de 100 mil barris/dia e hoje nossa produção é menos da metade, ou seja, 38 mil barris. É um cenário muito promissor para o Rio Grande do Norte e, sobretudo, para a cadeia de fornecimento, que vem sofrendo bastante nos últimos quatro anos. Um dado importante que merece muita atenção é o volume de recursos que serão aplicados nos próximos anos que superarão 1 bilhão de reais.

Dias: Reate reforça trabalho (Foto: Marcelo Bento)

Então, será em um momento bem oportuno que Mossoró receberá o maior evento do onshore do país…

Gutemberg Dias – Não tenho dúvida. Toda a cadeia onshore está mobilizada e, certamente, estará em Mossoró para esse evento que é genuinamente potiguar. O Mossoró Oil & Gas Expo, será realizado dias 26 e 27 deste mês, no Expocenter e é uma parceria da Redepetro RN e SEBRAE. Posso afirmar que é um evento estratégico para o onshore brasileiro. Nele, será apresentado o Plano de Ações do Reate 2020. Esse plano foi concluído na última reunião nacional do Reate, em Vitória (ES), da qual também participamos.

Qual a dimensão desse evento?

Gutemberg Dias – O Mossoró Oil & Gas – IV Fórum Onshore Potiguar mobilizará aproximadamente 150 reuniões de negócios, 80 estandes de empresas, mil visitantes, e ainda programação científica e conferências. Mais informações podem ser obtidas no site do evento (//mossorooilgas.com.br/). Para se ter ideia da relevância desse evento, todos os estandes já foram negociados e hoje já podemos dizer que é a maior feira de negócios de Mossoró e a maior feira de petróleo onshore do Brasil.

E em termos de emprego, o que essa virada do onshore representa para o Rio Grande do Norte e, especialmente, para a região de Mossoró, que tantas vagas no segmento perdeu nos últimos anos?

Gutemberg Dias – Quanto mais se produz óleo, mais se demanda mão de obra. Um recente levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (ABESPETRO) mostra que, para cada emprego gerado direto na indústria do petróleo, outros dois são induzidos na cadeia de fornecimento e mais oito postos são gerados pelo efeito renda. Isso em um cenário em que os salários na indústria petrolífera chegam a ser três vezes maiores que os demais segmentos industriais. Portanto, é inegável a importância do reaquecimento do setor para o emprego e a economia da região. Mossoró já começou a sentir esse reaquecimento, com a chegada da Potiguar E&P empresas fornecedoras da cadeia já iniciaram novas contratações para atender as demandas, um exemplo claro é minha empresa que ampliou recentemente cinco novos postos de trabalho.

É um momento como há alguns anos não se via no setor…

Gutemberg Dias – Todo esse contexto cria a ambiência favorável, que há tempos a cadeia produtiva de petróleo e gás ansiava. Para esse setor, é a garantia de geração de novos negócios e, consequentemente, retomada do processo de contratação de pessoal especializado e reaquecimento da economia de um modo geral, já que grande parte das compras dessas empresas será de forma localizada. E a Associação Redepetro RN vem participando ativamente desse processo, presente em reuniões, visitas técnicas, lançamentos, enfim, em todos os eventos relacionados, acompanhando de perto toda a movimentação. Por estar in loco, ouvindo autoridades, especialistas e empresários, posso garantir que todo o segmento considera 2020 o ano da virada do onshore brasileiro.

Habilidade emocional será diferencial no mercado de trabalho

Por Felipe Laurence e Iander Porcella (O Estado de São Paulo)

O britânico Ian Pearson não foge de uma polêmica. Em 2018, o futurologista ficou em evidência após declarar que em 2050 os humanos vão se tornar imortais, por conta dos avanços na medicina e na tecnologia de tratamento de doenças hoje incuráveis.

Sobre o futuro do trabalho, Pearson acredita que a automação e a inteligência artificial vão tornar as funções dos humanos mais focadas em situações que envolvam um alto grau de inteligência emocional. “Pode ser que nosso trabalho seja tomar uma cerveja com um amigo e saber como ele está. Talvez o Estado até nos pague para isso”, afirma.

Formado em física e matemática, Pearson trabalhou como futurólogo da empresa de telecomunicações britânica BT Group de 1991 a 2007, quando fundou sua empresa de consultoria, a Futurizon. Ele calcula que a taxa de acerto nas suas previsões seja de 85%. Veja se você concorda com ele, na entrevista exclusiva ao EstadãoQR:

Aprimoramento das relações pessoais é uma exigência, diz Pearson (Foto:Arquivo Pessoal, com tratamento no PhotoMosh)

Como você vê as relações de trabalho nas próximas décadas?

O que todo mundo prevê, e eu concordo, é que a automação vai resultar em funções com um foco maior em habilidades emocionais e sociais e ir acabando gradualmente com tarefas repetitivas. Um fenômeno que vai crescer é o chamado “cobots”, o trabalho colaborativo de humanos com robôs. Enquanto uma máquina inteligente ou uma inteligência artificial faz as partes chatas de um trabalho, o humano vai ter mais tempo para se aprimorar e concentrar esforços nas tarefas que realmente importam no seu emprego. A não ser que aconteça uma inovação sem precedentes, acho que pelos próximos 10 a 20 anos a inteligência artificial não vai conseguir realizar essas tarefas que exigem habilidades essencialmente humanas. No médio prazo, vejo os humanos saindo das funções que exigem um QI elevado para as que necessitam de QE, um quociente emocional, mais apurado.

Essas mudanças no trabalho, mesmo com foco em inteligência emocional, vão causar desemprego?

Eu comparo essa situação com caixas eletrônicos de bancos. Quando os primeiros surgiram, muitas pessoas ficaram receosas e continuaram usando os caixas com funcionários, mas hoje as pessoas pouco frequentam um banco. Vai chegar um ponto em que as pessoas vão preferir a rapidez de uma máquina a um humano e o mercado de trabalho vai se adaptar. Eu não sou um daqueles apocalípticos que acha que a inteligência artificial vai acabar com empregos, porque em um primeiro momento você vai precisar de pessoas supervisionando a máquina e o aumento de produtividade por conta dessa automação vai causar uma expansão e, com isso, mais postos de trabalho.

Como assim expansão de empregos?

No Reino Unido isso acontece, e tenho certeza que aí no Brasil também, de pessoas que trabalham com uma espécie de hobby como forma de ganhar um dinheiro a mais no fim do mês. Eu tenho uma amiga na área de software que nas horas vagas faz bolos de casamento, mas isso não chega a ser um negócio por conta de toda a burocracia que envolve abrir e gerenciar uma empresa. Com a inteligência artificial cuidando dessa parte operacional e um sistema automatizado de entregas, via drones, por exemplo, ela poderia profissionalizar esse hobby e ganhar mais dinheiro, talvez até contratar alguém para ajudá-la. Por isso que não vejo com pessimismo a automação: ela vai garantir mais autonomia para as pessoas realizarem tarefas que hoje elas não têm tempo por conta das funções repetitivas no dia a dia.

Quais habilidades serão essenciais para o trabalhador do futuro não perder seu emprego?

Empregos que hoje envolvem um alto nível de inteligência emocional, como o de enfermeira, que exige um contato humano de zelo e acolhimento, não vão sumir. Isso é engraçado porque alguns médicos, principalmente os da área diagnóstica e alguns cirurgiões, vão acabar ficando sem função com a automação, mas enfermeiras, que recebem menos da metade do salário e não têm glamour como eles, vão continuar empregadas. Por mais avançada que uma máquina ou inteligência artificial seja, essas funções que exigem um contato humano são insubstituíveis. O que é importante salientar é que ninguém é contratado porque sabe apertar teclas de um computador muito bem e sim o que ele, como pessoa, traz para o ambiente de trabalho. Então, hoje se um gerente tem funções operacionais, ele será mantido em seu emprego como alguém que vai elevar a produtividade do setor e checar a parte humana, se os colegas de trabalho estão bem e se precisam de alguma coisa.

Quais empregos vão surgir?

Uma das funções que mais vemos crescer atualmente são relacionadas de alguma forma a coaching, ensinar outras pessoas habilidades que elas não sabem ou precisam de um aprimoramento. Com mais tempo livre por conta da automação, vamos ter de aprender novas coisas e há uma categoria profissional se especializando nisso. Não se trata apenas de ensinar novas habilidades, mas também aprimorar relações interpessoais e se tornar um líder melhor. O que nós entendemos como trabalho está mudando. Pode ser que lá em 2050, quando os computadores ocuparem a maioria das funções que desempenhamos hoje, nosso trabalho seja tomar uma cerveja com um amigo e ver como ele está emocionalmente. Talvez o Estado nos pague para isso.

E trabalhos relacionados a segurança da internet serão importantes?

Hoje, esses empregos têm uma importância enorme, mas conforme as inteligências artificiais forem se tornando mais complexas, elas vão realizar esse trabalho de segurança muito melhor do que qualquer humano. O que será importante é ter gente que fique de olho nas tendências de segurança na internet, porque o ser humano é engenhoso, ele sempre vai conseguir ultrapassar os limites se for para ganhar alguma vantagem.

Quais as profissões que com certeza vão sumir?

Costumo escrever sobre o futuro dos contadores, porque até eles já sabem que esse trabalho vai sumir e querem saber o que fazer para se reinventar. A tendência é que os contadores precisem se recolocar no mercado de trabalho. Outro emprego que está sumindo é o de agente de viagens. Hoje, você resolve tudo pela internet sem precisar lidar com ninguém. Você ocasionalmente vê alguém nas agências de viagem, mas por que eles estão lá? Esses trabalhos deveriam ter sido automatizados há 20 anos. Os que ainda restam estão sendo automatizados. Mudanças também na área do dinheiro. Na maioria dos países, as pessoas estão falando na extinção da moeda. Pessoas que lidam com notas bancárias são impactadas por essa mudança de tecnologia simplesmente porque não precisamos mais desse trabalho. Há outros empregos que estão surgindo em empresas como o Facebook, que está criando uma nova moeda. Outras empresas vão inventar seu dinheiro. Nós vamos ver muitas moedas virtuais começando a aparecer no uso diário também. E vai ser preciso muita gente para aconselhar as pessoas sobre como manter sua carteira digital, que é um novo conceito para a maioria. Eu olho para isso e penso que isso é um estímulo. Então, você deve pensar não apenas em termos de tecnologia disruptiva, mas em termos de tecnologia estimuladora. Você está ajudando as pessoas a se ajustarem a todas essas outras coisas e projetando isso, imaginando as oportunidades. Por isso, a tecnologia estimula mais do que perturba.

Na sua opinião, quais áreas vão oferecer novos empregos no futuro?

Eu vejo a impressão 3D, a inteligência artificial e a robótica como os três principais representantes disso. Mesmo coisas como novos tipos de dinheiro ou blockchain também estão nessa categoria. Todos vão criar mais que destruir. Então, na verdade, poderíamos dizer que as pessoas estão ficando bastante otimistas sobre isso. Como resultado final da inteligência artificial, da robótica e da automação, poderíamos ver 5 trilhões a mais na economia mundial. Há dois anos estávamos com medo da automação e, de repente, ela é a melhor coisa que já aconteceu. Estamos começando a ver ciclos muito positivos agora, quase diariamente.

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Mossoró poderia ter se desenvolvido mais sem oligarquia

O jornalista Bruno Barreto (TV Cabo Mossoró-TCM e 95.7 FM de Mossoró; ex-O Mossoroense/93 FM), 35, lança no dia 9 de novembro, às 19h30, no Memorial da Resistência, em Mossoró, o livro “Os Rosados Divididos: como os jornais não contaram essa história”. É seu primeiro título, fruto de dissertação de mestrado em Ciência Sociais e Humanas da Universidade do Estado do RN (UERN).

Nesta conversa, esse natalense convertido ao “mossoroísmo”, fala sobre o livro, política, caminhos para o jornalismo, atividade literária e acadêmica, além do ativismo nas redes sociais. Leia:

Bruno lança livro no próximo dia 9 de novembro no Memorial da Resistência em Mossoró, às 19h30 (Foto: Fernando Nicholas)

Blog Carlos Santos – “Os Rosados Divididos” é um livro para estudo da história, contestação da história, confirmação da história ou para alimentar o debate da história a partir de uma pesquisa acadêmica?

Bruno Barreto – Diria que é um livro para iniciar uma discussão. Edgard Morin, filósofo e estudioso do pensamento complexo, afirma que um trabalho científico deve ser feito aberto à contestação. É assim que pensei esse trabalho desde o início por ser o ponto de partida de lago que ainda não tinha sido objeto de estudo até então. A divisão política da família Rosado sempre foi abordada de forma tímida em trabalhos acadêmicos e, via de regra, levantando a tese conspiratória de que foi tudo “combinado”. Essa ideia não faz sentido, mas pode muito bem surgir alguém fazendo um contraponto no futuro ou confirmando o que explano no trabalho. É o risco de se fazer um trabalho pioneiro.

Jornalismo, Internet e história

BCS – O desaparecimento gradual dos jornais impressos e, com certeza, o fim do seu apogeu, compromete a documentação no campo acadêmico e até mesmo a pesquisa sobre a história política, ou a Internet supre essa lacuna inteiramente?

BB – Durante o período da pesquisa fazia essa reflexão: “como será a pesquisa histórica sobre os meios de comunicação?”. É um caso complicado porque o jornal impresso está no museu e salvo uma tragédia estará lá do mesmo daqui a cem anos. Mas na Internet? Os sites possuem curta duração, os blogs acabam quando os seus editores morrem. As páginas saem do ar quando o servidor deixa de receber os pagamentos e uma infinidade de documentos se perde. É um problema sério para a pesquisa histórica no futuro, principalmente no plano local.

BCS – Os Rosados compõem uma das mais duradouras e bem-sucedidas oligarquias do país e do Nordeste, onde se concentra esse modelo de poder político. Em sua ótica, o que determinou tamanha longevidade?

BB – Primeiro é preciso entender a natureza da atuação política dos Rosados. Diferente de Alves e Maias, eles souberam construir um imaginário em torno deles cuja Coleção Mossoroense teve um papel fundamental. Outro aspecto importante é que eles surgiram enquanto grupo político durante a primeira experiência democrática de fato no Brasil (1945/64) dentro de um contexto urbano.

Além disso, os Rosados sempre foram atuantes em seus mandatos e isso foi fundamental para a construção de um imaginário de que Mossoró só dá certo com eles. Hoje essa ideia anda meio capenga, mas ainda tem peso relevante. Olhando sob o aspecto positivo eu diria que se trata de uma oligarquia de resultados. Pelo negativo cravo que é um modelo que me deixa a sensação de que Mossoró poderia ter se desenvolvido muito mais porque via de regra o modelo oligárquico é patrimonialista. 

BCS – É escassa a produção bibliográfica sobre política no Rio Grande do Norte. Boa parte dela, a propósito, com o forte odor da deificação de nomes e grupos, além de termos casos de “encomendas” biográficas ou hagiográficas, ao gosto de quem pagou. O senhor concorda ou pensa diferente?

BB – Concordo. O que foge dessa regra que você citou fica restrito à academia que, via de regra, não transforma seus estudos em livros para o grande público. Fora da academia eu destaco nosso colega jornalista João Batista Machado, que escreveu um livro fundamental para compreender como eram escolhidos dos governadores do Rio Grande do Norte durante a ditadura militar. A história política do Estado precisa de mais estudos que sejam publicizados.

BCS – Há mais de dez anos Bruno Barreto atua na imprensa mossoroense, com presença no jornal impresso, rádio e TV. Evoluímos ou involuímos nesse tempo e qual o papel do Curso de Comunicação da Uern nesse contexto?

BB – Estamos em evolução. A primeira turma de comunicação da nossa universidade, da qual faço parte, comemora em 21 de dezembro dez anos de formatura. Há uma mudança de perfil no nosso jornalismo graças ao curso que só não está mais acelerado porque o nosso mercado entrou em colapso deixando a maioria dos colegas desempregados. Essa é uma questão que me deixa angustiado porque vejo muita gente talentosa tendo que mudar de profissão por falta de espaço.

BCS – O ativismo nas redes sociais faz parte do seu cotidiano, expondo opiniões, tomando posições, debatendo e às vezes se digladiando com internautas. A Web é um canal de democratização da comunicação ou um ambiente inóspito para quem teima em não ser estúpido e intolerante?

BB – Primeiramente entendo que o jornalista hoje em dia não pode ficar enclausurado. É preciso ter esse contato com o público via redes sociais. É uma forma eficiente de tirar a temperatura do cidadão médio. Eu me desgasto muito por ter esse perfil, digamos, mais combativo, mas também aprendo muito. Mas por outro lado há uma armadilha nisso que são as provocações estúpidas de quem não está querendo um debate saudável, mas o desejo doentio de se impor ou buscar contradições no interlocutor numa discussão inócua. O segredo é buscar ser tolerante e não levar para o lado pessoal. Já caí nessa arapuca e não foi uma boa experiência.

BCS – Uma pergunta que sempre me fazem quando participo de eventos ou bate-papos sobre mídia: qual o futuro do jornalismo?

BB – O jornalista. Estamos numa crise em que vamos emergir como fundamentais na defesa da informação de qualidade. Todo mundo acha hoje que pode ser jornalista, mas desconhece as técnicas de produção e apuração da notícia. Na medida em que as pessoas forem percebendo quem são os sites de fake News também perceberão o quanto somos importantes para a democracia que passa por uma informação de qualidade. Talvez demore um pouco para isso acontecer, porque o cidadão médio tem um divórcio com a leitura e se baseia apenas em manchetes. Mas o jornalista que vive da informação e da análise dos fatos (como eu e você) ainda faz a diferença.

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Bruno Barreto no “Conversando com…” de domingo

O jornalista Bruno Barreto é o entrevistado de domingo (22) do Blog Carlos Santos, na série “Conversando com…”

Ele falará sobre o lançamento do seu primeiro livro – “Os Rosados Divididos – como os jornais não contaram essa história”.

No bate-papo com esta página, também teremos na pauta conversa sobre jornalismo, pesquisa acadêmica e política.

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‘Palocci compromete ex-presidente Lula, mas há que ter cautela’

Por Daniel Haidar (El Pais)

O escritor Frei Betto, 73 anos, conheceu seu amigo Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro de 1980, em João Monlevade, Minas Gerais, durante a posse de um dirigente sindical. Vinte e três anos depois, virou assessor especial de Lula na Presidência da República e coordenador do programa Fome Zero. Nessa época, conviveu com Antônio Palocci, ministro da Fazenda de 2003 a 2006.

"É no mínimo estranho que o PT tenha abandonado a bandeira da ética na política e não punido, até agora, seus militantes comprovadamente envolvidos em falcatruas", diz Frei Betto, um dos fundadores do partido, ao jornal El Pais(Foto: José Cruz)

Frei Betto assistiu ao depoimento de Palocci contra Lula na Operação Lava Jato e defende investigações das “graves acusações” contra o ex-presidente, mas com “cautela”.

Na quarta-feira, Palocci detalhou o que chamou de “pacto de sangue” entre Lula e a Odebrecht, e confirmou os fatos narrados na denúncia do Ministério Público contra ambos.

“O que Palocci declarou, motivado pela ânsia de minorar sua reclusão carcerária, é muito grave e compromete a credibilidade de Lula. Contudo, há que ter cautela”, afirma Frei Betto, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), em entrevista ao EL PAÍS.

Apesar de reconhecer a gravidade das acusações contra o ex-presidente, o escritor exige a “expulsão sumária” de Palocci do partido. E também cobra uma “autocrítica” do PT após as comprovadas “falcatruas” em que se envolveram seus militantes.

Pergunta – Considerando o que o senhor conhece de Palocci e o que o senhor conhece de Lula, como diferenciar a credibilidade de cada um neste momento?

Resposta. Considero precipitado qualquer julgamento e fico à espera das investigações da Justiça. O que Palocci declarou, motivado pela ânsia de minorar sua reclusão carcerária, é muito grave e compromete a credibilidade de Lula. Contudo, há que ter cautela. O ex-senador petista Delcídio Amaral também fez graves acusações a Lula e, depois, a Justiça apurou que ele mentiu, o que resultou na recente absolvição de Lula quanto aos supostos crimes imputados a ele. De qualquer modo, Palocci maculou profundamente a imagem do fundador do PT e o partido deveria, no mínimo, promover o quanto antes a sua expulsão sumária.

P – Palocci se beneficia de uma confissão com redução de pena mesmo sem delação premiada. O depoimento dele traz credibilidade?

R. Palocci se encontra em situação de profundo sofrimento como encarcerado. Estive preso quatro anos e sei que não é fácil para uma pessoa que, como ele, gozava do respeito e da amizade de banqueiros, desfrutava uma vida de luxos e mordomias, suportar a reclusão carcerária. Portanto, ele está disposto a tudo para ver a sua pena reduzida e obter prisão domiciliar. Isso compromete a credibilidade do que declara. Vi muitos companheiros de prisão que, sob tortura física ou psicológica, declararem o que os nossos algozes queriam ouvir. Portanto, repito, é preciso aguardar as investigações da Justiça e as provas que Palocci deverá apresentar para fundamentar o que disse.

P – Como avalia a confissão de crimes de Palocci e a contextualização de crimes que ele entende que Lula cometeu?

R. O fato de uma empresa comprar um terreno e doá-lo a Lula ou ao PT não implica nenhum crime, bem como financiar um apartamento. A gravidade é se o dinheiro dessas transações foi obtido mediante propinas de serviços prestados ao governo federal. Cabe à Justiça apurar se Palocci fala a verdade quando diz que sim, que o dinheiro resultou de licitações ilegais e favorecimentos escusos.

P – Como fica agora a história do Partido dos Trabalhadores?

R. O PT nega qualquer ato ilícito. O ônus da prova cabe a quem acusa. Porém, é no mínimo estranho que o PT tenha abandonado a bandeira da ética na política e não punido, até agora, seus militantes comprovadamente envolvidos em falcatruas. O PT deveria fazer autocrítica.

Sua atual presidente declarou que o partido não fará autocrítica “para não dar munição à direita”. Ora, quem não deve não teme. E não adianta tapar o sol com a peneira. É preciso calçar as sandálias da humildade e ousar separar o joio do trigo, caso contrário fica comprovada a cumplicidade do partido com militantes que comprovadamente se envolveram em corrupção, como Palocci, que se autodenuncia.

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Desembargador tem outra visão sobre Uern e critica governo

Nascido em Jardim do Seridó em 1954, o desembargador Claudio Santos, deixou a presidência do Tribunal de Justiça do RN (TJRN) em janeiro deste ano. Desembarcou em novo papel nesse poder. Cuida da direção da Escola da Magistratura (ESMARN).

Cláudio Santos destacou sua passagem pela presidência do TJRN (Foto: Blog Carlos Santos)

À semana passada ele esteve em Mossoró e foi entrevistado pelo Blog Carlos Santos, ao cumprir agenda de trabalho na cidade.

Casado, pai de três filhos, Santos atuou como jornalista e advogado, passando por redações de publicações como Tribuna do Norte e RN Econômico, quando bem jovem. Ingressou na carreira jurídica, atuando como advogado e chegou ao TJRN em agosto de 2004 pelo quinto constitucional (egresso da carreira advocatícia).

Antes, ainda teve passagem pela Secretaria de Segurança do Estado (2003-2004).

Conosco, ele foi provocado sobre vários temas, não se esquivando ou recorrendo a evasivas.

Sobre a Esmarn

Em relação à Esmarn, Cláudio Santos afirmou que há planos de promover trabalhos para reciclagem de juízes e também melhoria do pessoal do Judiciário. Entre as ideias, “curso interessante que será o Diálogo com a Justiça”. Segundo ele, será abertura de contato com a sociedade, para discussão de questões diversas de poder e sua relação com o jurisdicionado.

Gilmar Mendes e a liberdade para José Dirceu

A decisão à semana passada de garantia de habeas corpus para um dos líderes do PT, José Dirceu, no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF). Na ótica de Cláudio Santos, o “entendimento que prevaleceu foi alicerçada na Constituição”, com placar de 3 x 2, garantido pelo ministro Gilmar Mendes. Ponderou que “a Justiça é isso: interpretação e aplicação do Direito. Cada um tem sua maneira de aplicar as normas jurídicas”.

Gestão no TJRN e dinheiro em caixa

Cláudio Santos lembrou que deixou R$ 564 milhões em caixa no TJRN, ao deixar a presidência desse poder. Mas em algumas comarcas, a Justiça funciona com pessoal e prédio cedidos por prefeituras.

“Não é um paradoxo, desembargador? Isso não é uma espécie de Hobin Hood pelo avesso?” – indagamos.

– O Judiciário do RN é um dos mais caros do Brasil. Não fiz tudo que quis fazer, com meu perfil de gestor rigoroso, até porque não podia fazer mais por cima da vontade do colegiado. A Justiça do RN custa R$ 250 per capita/habitante/ano. No Ceará é R$ 136. Eu poderia ter deixado R$ 1 bilhão em cofre. Eu acho que não temos grandes necessidades de fóruns no interior, pelo menos em termos físicos. Mas eu pergunto: será que esse dinheiro não é do povo do RN em vez do Judiciário? Mas parece que todo juiz, todo diretor, sempre deseja mais gente. Não sei se precisa de tanta gente, já que investimos pesadamente em tecnologia para economizarmos recursos e em nome da eficiência. Em relação ao pessoal eu não pude fazer muita coisa, porque o próprio Judiciário está acima do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A própria Justiça descumprindo a lei. Não poderemos aumentar despesa com pessoal por pelo menos uns oito anos.

Dinheiro para Saúde e Segurança

Ele destaca, que em sua passagem pela Presidência do TJRN, tentou destinar boa parte dessa economia para que o Executivo tivesse realizações nas áreas da Segurança e Saúde, em especial. Mas sofreu pressão em contrário no próprio Judiciário.

– Ofereci R$ 100 para o Governo do Estado investir para a Saúde e Segurança, mas fui impedido pela Associação dos Magistrados. Recursos para compra de munição, diária operacional. Garanti R$ 20 milhões para construção de presídio e até agora o governo não fez nada, não tem um projeto.

Prioridades e o caos na Segurança Pública

Com passagem pela pasta da Segurança Pública na gestão Wilma de Faria (então no PSB) entre 2003 e 2004, Cláudio Santos questiona o modelo de governo adotado no RN. Para ele, a opção pelo assistencialismo, o clientelismo, em vez de prioridades para Saúde, Educação e Segurança, explica um pouco a violência de hoje.

– O governador tem que escolher entre assistencialismo e modelo de estado mínimo mais forte, com segurança, saúde e educação sendo prioridades. O Executivo negligenciou isso ao longo dos anos e décadas. Eu provei que com 7,5 % do orçamento no TJ foi possível fazer muito. Existe dinheiro. O estado está aplicando mal aplicado. Será que não está priorizando demais a pasta do Desenvolvimento Social? Na Paraíba, no Ceará, estados vizinhos, os governos estão pagando salário em dia e com estruturas de segurança e saúde melhores. Por que será?

Assinalou, que quando foi secretário destinou 80 veículos para a polícia na região “e hoje a gente sabe que rodam no máximo uns oito em Mossoró, para cobrir todo esse vasto município, com quase 300 mil habitantes.”

Uern e privatização

Há alguns meses, Cláudio Santos chegou a defender a privatização da Universidade do Estado do RN (UERN). Hoje, depois de muitos debates, embates e reflexões, repensa a proposta.

– Eu refluí um pouco de ter essa ideia como única opção, mas continuo defendendo a universidade para os carentes, os pobres; com as pessoas que podem pagar, pagando por essa formação. Continuo defendendo os estudantes carentes, professores e funcionários. O próprio poder Judiciário precisa ser discutido publicamente. É isso que defendi e continuo defendendo em relação à Uern. A privatização não é necessariamente o objeto da discussão, mas precisamos discutir suas finanças.

Carreira política

– O senhor tem se envolvido densamente em debates políticos e conversado com os mais variados segmentos políticos do estado. Vem aí uma candidatura em 2018?

– Só se for inevitável (afirma, sorrindo)!

Garante que não tem pretensão político-partidária eleitoral, mas tem conversado sobre temas relevantes e assuntos que dizem respeito à atividade. Em Mossoró mesmo, esteve jantando com os ex-candidatos a prefeito e vice de Mossoró, empresário Tião Couto (PSDB) e Jorge do Rosário (PR), respectivamente. Mas justificou que tudo não passou de coincidência (veja AQUI).

Operação Lava Jato

Na ótica do desembargador Cláudio Santos, a “Operação Lava Jato” é divisora de águas na vida nacional. Haverá uma gradual mudança de cultura na política e na própria postura do cidadão em relação à atividade pública.

– Precisamos sair do profissionalismo. Política não é atividade profissional, não deve ser atividade profissional. Espero que voltemos aos tempos antigos, em que tínhamos gente envolvida na política por espirito público, por idealismo, por paixão, não por interesse escuso.

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“Eu acho que sou um homem simples… em paz!”

Abaixo, o Blog Carlos Santos apresenta a íntegra de entrevista feita pela jornalista Ana Paula Cadengue, para o jornal O Mossoroense, em julho de 2007.

Ela conversava com o professor Milton Marques de Medeiros, falecido hoje (veja AQUI). Leia:

Nascido em Upanema no dia 9 de julho de 1940, filho de pai tabelião e mãe doméstica, Milton Marques de Medeiros é casado com Zilene e  tem quatro filhos e três netos.

Médico, advogado, professor, empresário e atual reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), ele veio para Mossoró aos seis anos de idade para estudar e considera o apoio da família, a educação da família fundamental.

Nesta entrevista, Milton Marques nos conta um pouco sobre a sua vida e seus desafios, e se define como “um homem a serviço”.

Por: Ana Paula Cadengue

O Mossoroense – Com quantos anos você veio para Mossoró?

Milton Marques – Vim cedo, aos seis anos de idade, para estudar porque minha cidade era pequena e meu pai e meu irmão mais velho tinham interesse que eu estudasse…  Aqui, fui morar com uma tia, Donana Bezerra. Uma santa, que teve 12 filhos e ainda me acolheu dentro de casa. Era um grupo de muitas crianças e jovens.

OM – Como foi a experiência de sair de casa tão cedo?

MM – Essa é uma experiência que com o tempo é que a pessoa vai percebendo que há diferenças, principalmente na tolerância, na questão de suportar situações novas, sem que isso pareça tão estranho.

Eu vim  de um lar com bastante afeto, amor por parte de meu pai e de minha mãe e fui morar numa residência que tinha muitos irmãos, um prole muito numerosa, e foi uma experiência muito boa e dolorida algumas vezes, porque a gente sai de um contexto  muito individual, já que era o filho mais novo, para um contexto onde você passa a ser semelhante aos demais e tem que aprender a dividir a atenção. Mas, ela e seu Né Bezerra, que foram meus orientadores, meus tutores, eram muito bons, delicados, afáveis, queriam muito bem aos filhos e eu acho que nós nos criamos num ambiente muito bom, sadio.

OM – Ficou em Mossoró até quando?

Milton Marques faleceu hoje em Fortaleza (Ceará) - Foto: arquivo

MM – Eu fiquei até terminar o segundo científico no Colégio Diocesano Santa Luzia. Como eu pretendia fazer vestibular para Medicina e aqui em Mossoró não tinha esse curso, eu me desloquei a João Pessoa, na Paraíba.

OM – Estudar Medicina numa outra cidade e desta vez sem família… O senhor tinha quantos anos?

MM – Eu estava com vinte e poucos anos, vinte e dois, mas também fui morar na residência de outra família. Porque naquele tempo existiam poucas chances, a não ser através das famílias. Era muito comum os jovens que queriam estudar e as famílias acolhiam com facilidade. Era uma família daqui de Mossoró que já estava morando há algum tempo em João Pessoa, a família Leite.

Depois eu fui para São Paulo, onde fiz especialização na USP, Universidade de São Paulo, em psiquiatria.

OM – Por que psiquiatria?

MM – Quando chegou determinada fase da evolução do curso, lá pelo terceiro ano do curso, começam a surgir os pendores e eu comecei a ver… a cirurgia eu achava que era muito repetitivo, muito comum, um parto era sempre o mesmo parto, aí fui para outras especialidades e fui parar na psiquiatria. A psiquiatria era uma especialidade que, na época, exigia bastante.

OM – São Paulo nos anos 60, como foi a experiência?

MM – Muito interessante. A residência não era de ficar residindo mesmo no hospital, então eu morei com uns amigos numa república. A juventude ajuda bastante a gente, São Paulo não era tão grande como é hoje e o caráter científico prendia muito a gente.

OM – Dos anos 60 para cá, houve grandes mudanças no tratamento das pessoas portadoras de distúrbios mentais. Como foi essa passagem?

MM – O que aconteceu é que naquela época o profissional que cuidava da saúde mental era o médico. Basicamente, existiam muito poucos enfermeiros, não existia o assistente social, o psicólogo, o terapeuta ocupacional… O doente era cuidado só pela medicina e hoje é cuidado por uma equipe multidisciplinar. Conseqüentemente, mudaram todos os métodos de tratamento, que foram sendo acrescidos, humanizados.

Mas, eu quero destacar que a saúde mental ainda continua na mão do médico, os outros profissionais auxiliam, mas na verdade ainda continua na mão do médico porque os quadros profundos continuam os mesmos. Há dois mil anos as pessoas se suicidam. O que acontece com a saúde mental é que falta “o” remédio.

Por que é que não acabam os hospitais de psiquiatria? Porque até agora não apareceu a droga heróica que a pessoa ao tomar fique boa imediatamente, como aconteceu com a tuberculose, com a hanseníase. Não existem mais hospitais de tuberculose e de hanseníase porque apareceu a droga que cuida em casa mesmo. No dia em que aparecer uma medicação que cure a psicose maníaco-depressiva, a esquizofrenia, com certeza os hospitais não vão ter mais necessidade de existir.

OM – Da vida médica para a vida acadêmica…

MM – Eu desde cedo que tenho uma vocação para a academia, para se ter uma idéia, eu nunca deixei de ensinar. Na época que eu era estudante, existia o Colégio Universitário,  em João Pessoa, e eu já dava aulas de química. Em São Paulo, eu não ensinei, mas assim que voltei para Mossoró eu comecei a ensinar na Faculdade de Enfermagem, na FURRN. Depois eu terminei o curso de Direito e comecei a ensinar também no curso de Direito e ainda consegui ser professor do curso de Medicina e, por último, cheguei aqui na Reitoria.

OM – É um desafio?

MM – É. Hoje a Universidade está passando por um processo de reestruturação, consolidação do que foi implantado recentemente. A Universidade implantou 18 cursos novos, faculdades inteiras, campus inteiros. Esses pontos passaram a ser desafiadores porque a demanda para que se tenha estrutura física, laboratórios, equipamentos, transporte, acervo bibliográfico, professores é muito grande. A demanda passou a ser maior do que a oferta orçamentária e financeira. Para este ano nós precisamos de 21 milhões de reais para a estrutura física e operacional da Universidade. Nós estamos com seis milhões de reais. O que tem que fazer?convocar todos e dizer: gente, vamos escolher as prioridades. Mas, é claro, que as pessoas nem sempre estão dispostas a fazer parte desse pacto. Mas eu estou dizendo para a comunidade universitária que em três anos – 2007, 2008 e 2009 –  o nosso projeto é que a Universidade fique pronta. Porque se nós aplicarmos seis milhões este ano, sete no próximo e oito no seguinte, nós teremos exatamente vinte e um milhões de reais.

OM – O senhor considera que houve um crescimento sem planejamento?

MM – É verdade, deveria sempre se fazer o seguinte: quando se fosse criar um curso, deveria ter se criado a área física, salas de aula, laboratórios, equipamentos. Mas não houve isso, a Universidade criou o curso sem a parte física que ficou na dependência de outras instituições.

OM – Médico, advogado, professor, atual reitor, empresário. O senhor também tem pretensões políticas?

MM – Não, eu não tenho essa pretensão política. Há sempre uma posição de estar presente na comunidade. Como médico eu passei 35 anos atuando, atendendo, até que chegou o ponto que eu entendi que tinha que deixar essa parte para a nova geração. Como professor eu também continuei atuando normalmente na Universidade até chegar à Reitoria, onde continuo a fazer a prestação desse serviço público. Quero ver se consigo também fazer parte da comunidade dentro da atividade pública, mas não tenho projeto político.

OM – Essa sempre é a conversa pré-eleitoral…

MM – O que eu vejo é que a atividade política deve ser exercida por quem já está no exercício da política. Quem tem e quem deve ter prioridade para qualquer cargo político deve ser as pessoas que já estão identificadas com a política. Por exemplo nesse grupo nosso, com a governadora Wilma de Faria, quem que aqui em Mossoró tem representação política? É a deputada Sandra  Rosado, é a deputada Larissa Rosado, que além de deputada é secretária de governo, é o próprio secretário Marcelo Rosado, Renato Fernandes… Então eu vejo que tem um leque de pessoas que estão identificadas com a política, que já fazem a sua atuação ligada à política, que tem vocação, que fazem grandes e excelentes trabalhos nas suas áreas. Então, eu só vejo que a comunidade deva primeiro ter que olhar essa parte dos políticos. A parte que me cabe é uma parte mais de trabalho junto à sociedade, da prestação de serviços, seja como privado ou como público.

OM – Escorregadio?

MM – Não. A política precisa que a pessoa tenha um certo histórico… e eu nem sou filiado a partido político.

OM – O senhor trabalha com a gestão pública…

MM – Eu vejo que eu tenho prestado bastante serviços públicos, já fui secretário de Saúde, diretor do Inamps, presidente do IPE e hoje já estou aqui dando a minha contribuição, dentro das milhas limitações, à Universidade. Olhando para trás, não me vejo identificado com parte política propriamente, isso é uma arte, precisa saber fazer, ter o apoio da comunidade, da sociedade. Eu vejo que hoje tem que se racionar em quem já está nesse processo. Eu fico bem acomodado na minha posição de reitor…

OM – Com direito à reeleição?

MM – (risos) Eu juro que não estou pensando… ainda não me apareceu na cabeça isso não…

OM – Como se define o homem Milton Marques?

MM – Eu acho que sou um homem simples, que vem de família humilde, que esteve presente em vários momentos da sociedade como estudante, como profissional, como operador na parte pública e que por isso ganhou  certa capacidade de suportar situações novas, enfrentar desafios. Considero-me dinâmico, não consigo conviver com a inércia, ligado ao pijama. Eu ainda me considero bastante ativo, pró-ativo social e muito em paz, sem maiores ambições, conformado com o processo de vida.

OM – O que vai pedir de presente de aniversário?

MM – Saúde, paz e até certo ponto forças a Deus para continuar esse trabalho. Eu me considero a serviço, a serviço da comunidade.

OM – A pergunta que não quer calar: por que tirar o bigode depois de tantos anos?

MM – Porque ele foi ficando cada vez mais branco (risos) e a tinta começou a não pegar mais, não é por vaidade, mas começou a ficar incômodo, difícil, uma mão-de-obra… Tinha que pintar ou então deixar branco, um branco diferente do cabelo que já está começando a ficar branco…

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Pressão popular vai alterar a Reforma da Previdência

Do Congresso em Foco

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/16 (íntegra), que institui a reforma da Previdência, promove o “desmonte” de direitos do contribuinte. Essa é a opinião do jornalista, analista político e diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz, para quem diversos pontos da proposição, já em fase de debates em comissão especial instalada na Câmara, são negativos.

Nada que a pressão popular não possa conter, diz o especialista, ao mencionar a ampla maioria da base aliada de Temer no Congresso. Para ele, não se trata de uma reforma da Previdência, mas de um desmonte. “Reforma é para melhorar”, justifica.

Antônio Augusto de Queiroz também vê aspectos positivos (Foto: Congresso em Foco)

Mas Toninho do Diap, como é conhecido, também diz ver aspectos positivos na proposta de reforma, como a contribuição dos exportadores, classe atualmente livre de taxação. “Estão previstos também uma série de mecanismos de fiscalização em relação a benefícios em que há desvios, e isso tem que ser feito mesmo. Mexer em pontos para o futuro é uma necessidade”, acrescenta.

Veja essa entrevista abaixo:

De que maneira as discussões do Diálogos Congresso em Foco podem ser úteis no debate sobre a reforma da Previdência?

Antônio Augusto de Queiroz – A primeira contribuição que o fórum pode dar, em debate como este, da reforma da Previdência, em primeiro lugar é chamar a atenção para que, de fato, há um desequilíbrio nas contas públicas. E que, portanto, há a necessidade de um ajuste no orçamento dos governos federal, estadual e municipal. O que se deve ter presente nisso é que esse ajuste, que vai implicar sacrifícios, seja feito distribuindo esses sacrifícios entre todos os agentes econômicos e sociais do país, e não apenas um segmento em particular. E que esse sacrifício seja proporcional à capacidade contributiva de cada um. Porque o que se nota, no caso específico da reforma da Previdência, é que vem uma reforma muito dura, e para dar efetividade à Emenda à Constituição 91, aquela que congelou o gasto público em termos reais, mas só congelou a parte do gasto de despesas não financeiras. O que for economizado com despesas não financeiras se converterá em superavit e, em consequência, será utilizado para amortizar a dívida e pagar os juros. O titular ou credor de título público está blindado. Com esse ajuste, ele só ganha. Não perde nada, não participa desse sacrifício.

Há quem diga que o governo mente quando diz que a Previdência é deficitária. Quem está com a razão?

Na verdade, o governo usa, para demonstrar que há insuficiência no financiamento da Previdência, ou deficit, apenas as contribuições de trabalhadores e empregadores sobre a folha. Ora, em um momento de recessão, em que o PIB [Produto Interno Bruto] teve uma contração da ordem de 7%, é claro que as receitas desses campos diminuem, porque têm 12 milhões de desempregados. E o governo utiliza só essa fonte, utiliza essa fonte sem considerar as renúncias, as isenções, e a não cobrança da dívida ativa da Previdência. E desconsidera ainda, solenemente, as receitas do Tesouro, as receitas da seguridade, não inclui PIS/Cofins, contribuição sobre o lucro líquido [CSLL], jogos de azar… Tudo isso vai, também, compor o orçamento que atinge a Previdência. Então, o primeiro aspecto é esse: excluir esses pontos, não considerar outras receitas. De fato, a Previdência – em função dos critérios financeiros e atuarial, do crescimento demográfico, dessa mudança na pirâmide etária – vai requerer algum tipo de ajuste. Mas o problema é que está se fazendo sobre os atuais segurados, quando [reforma na] Previdência se faz, geralmente, para os futuros segurados, para frente, com regra de transição muito generosa em relação a quem está.

A escolha de Carlos Marun (PMDB-MS), aliado do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para presidente da comissão da reforma da Previdência causou certo frisson na Câmara, em razão do estilo contundente que o deputado tem apresentado. O que isso pode representar para a tramitação da proposta?

Antes de falar, especificamente, sobre a tramitação da proposta, eu queria falar mais alguma coisa sobre mérito. É o seguinte: a proposta está ampliando o tempo na atividade laboral antes da aposentadoria. E todos os países que, em função de uma mudança na Previdência em que as pessoas vão permanecer por mais tempo na atividade, esses países fazem programas de inclusão digital para idosos, de capacitação continuada, de saúde ocupacional.

Buscam adaptar os cargos e os horários, flexivelmente, de tal modo que acomode idosos, a redução do preconceito e a melhoria do transporte público. E, no Brasil, em relação a esses pontos, o que tende a ocorrer é o contrário, por força do congelamento dos gastos públicos. Ou seja, você retém o cidadão por mais tempo trabalhando, mas não lhe dá condições de trabalhar com a dignidade necessária frente à idade da pessoa.

Outro aspecto é o seguinte: para que o segurado do INSS possa ter 100% da média de contribuição que ele fez no seu benefício, ele precisa comprovar contribuição por 49 anos. E aí, como segurado do INSS, no setor privado, a cada 12 meses ele fica três para contribuir – por informalidade, por desemprego etc –, ele iria precisar de 64 anos e meio para comprovar os 49 anos de contribuição. Ou seja, ele não estaria vivo para usufruir da aposentadoria dele. É uma regra muito dura.

E em relação aos 65 anos para homens e mulheres?

Fazendo [a aplicação das mudanças] de forma gradual, não há problema. O problema é que você pega, por exemplo, os trabalhadores rurais. Hoje, mulher trabalha 55 anos, e homem, 60. Vai aumentar para 65 anos para o trabalhador rural – aumenta dez anos [de contribuição] para mulher. No caso do professor, vamos aumentar 15 anos para mulher, para a professora. Vai tirar a aposentadoria especial do policial, que é atividade de risco. Vai haver uma série de mudanças. Outro exemplo: a idade mínima exigida para assistência social vai ser de 70 anos, e um valor que pode ser menor do que o salário mínimo. Então, são muitas mudanças que muita gente não vai ter sobrevida para poder usufruir.

E quanto à tramitação, com Carlos Marun?

O governo escolheu a dedo os operadores da comissão – Marun como presidente e Arthur Maia como relator. Na comissão há maioria, e o governo precisa apenas de maioria simples para aprovar a proposta. Agora, em plenário, são necessários três quintos [dos deputados, ou seja, 308 dos 513], em duas votações. Considerando a pressão popular que haverá – porque a população vai se dar conta do quanto essa reforma é dura, e que estão querendo fazer o ajuste somente em cima de assalariados, de segurados da Previdência e de quem vive de prestação do Estado –, a pressão vai ser de tal ordem que os parlamentares tendem a modificar essa proposta, tirar os seus efeitos mais perversos. Acho que a grade disputa vai se dar, mesmo, no plenário.

Isso sem falar na mobilização de entidades diversas, que têm o poder de multiplicar essa mobilização popular. A Conamp (Associação Nacional dos Membros do Ministério Público), por exemplo, já se prepara para o confronto e nos disse, em entrevista, que nenhum ponto da proposta de reforma é defensável. O senhor compartilha desse entendimento?

Não chegaria a esse exagero. Acho que há pontos que são necessários. Por exemplo, está sendo lá cobrada a contribuição para previdência dos exportadores, que hoje são isentos de contribuição. Isso é um absurdo! Tem que cobrar mesmo. Estão previstos também uma série de mecanismos de fiscalização em relação a benefícios em que há desvios, e isso tem que ser feito mesmo. Mexer em pontos para o futuro é uma necessidade. Agora, as regras de transição apresentadas, de fato, prejudicam enormemente os atuais segurados. Negam a eles a expectativa do direito e, mais do que isso, o direito acumulado.

O governo Temer usa essa reforma para beneficiar o capital financeiro?

O Michel Temer foi levado à condição de presidente da República para alterar a agenda do governo anterior, que era tida como intervencionista na atividade econômica, para fazer privatizações e um ajuste fiscal que levasse ao equilíbrio das contas públicas. Mas, como todo liberal e fiscalista, ele sempre busca, nesses ajustes, favorecer mais o capital do que o trabalho. O trabalho é sempre mais penalizado, e é isso o que ele está fazendo. Quando ele propõe uma reforma da Previdência dessa, na verdade é para economizar, fazer superavit e, portanto, honrar os compromissos com os credores, com os títulos da dívida pública, por um lado, e ampliar o mercado de previdência privada – porque, se as pessoas descreem do Estado, do INSS, da previdência pública, elas vão buscar se proteger na previdência privada.

Isso é uma decorrência natural, dado o alinhamento ideológico do governo. No governo anterior havia, no seu interior, uma disputa pelo orçamento público para atender políticas de inclusão social, combater desequilíbrios regionais e de renda etc. No atual governo essa preocupação é pequena, baixa. A preocupação maior é garantir contratos, garantir propriedades, garantir a moeda, contratar serviços essenciais à população no setor privado, ou seja, reduzir o tamanho do aparelho do Estado tanto na concessão de serviços quanto no fornecimento de bens, direitos, programas sociais etc.

É uma reforma apenas para viabilizar o teto de gastos públicos, emenda à Constituição promulgada em 15 de dezembro?

Rigorosamente, isso. O que está previsto na PEC do Teto de Gastos, que uma vez extrapolado o gasto – e ele vai extrapolar – dispara o gatilho, tirando direito do servidor, só tirar direitos do servidor não vai ser suficiente para fazer o ajuste. É por isso que a PEC da Previdência é a única política pública capaz de dar o mínimo de recurso para fazer com que o governo possa honrar aquilo que está na PEC 55 [teto de gastos], ou seja, não gastar mais do que o que se gastou no ano anterior, porque aí terá que ser feito um corte duro na Previdência. E é ela que representa um volume significativo de recursos.

Defina a proposta de reforma em uma palavra.

Desmonte. Reforma é para melhorar.

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Graças à Internet, “facilitamos muito para quem odeia”

Da BBB Brasil (Por Néli Pereira)

Historiador e um dos palestrantes mais requisitados do país atualmente, Leandro Karnal diz que o discurso de ódio sempre existiu nas sociedades mas chama a atenção para a facilidade com que ele se propaga, hoje, graças à internet.

“Hoje é um clique e um site, com muitas imagens. Facilitamos muito para quem odeia. O ódio tem imenso poder retórico. Ele sempre existiu. Agora, existe este ódio prêt-à-porter, pronto, onde você se serve à la carte e pega seu prato preferido”, disse ele à BBC Brasil.

Leandro Karnal afirma que o 'ódio é o mais poderoso opiáceo já criado' (Foto: divulgação)

Mas apesar da maior facilidade, hoje, de propagação do discurso de intolerância, o professor de história da Universidade Estadual de Campinas diz que “os mais sólidos preconceitos e violências humanos são muito anteriores à globalização”.

Leia abaixo trechos da entrevista:

BBC Brasil – Uma das suas frases que mais viralizou e foi repetida em 2016 diz que “não existe país com governo corrupto e população honesta”. O sr. acha que a população não se enxerga como responsável também pelo processo de corrupção?

Leandro Karnal – Característica nossa e da humanidade: excluir da parte negativa da equação o pronome pessoal reto EU. Em nenhum momento quis dizer que todos nós, brasileiros, somos corruptos, mas que a corrupção é algo forte na política e que a política é uma das camadas constituidoras do todo social, como um mil-folhas.

A política não é descolada da sociedade, mas nasce e volta ao mundo que a gerou. Os políticos são eleitos por nós. Denúncias são feitas e o político é reeleito. Seria coisa de grotões?

De forma alguma, eu me refiro também aos grandes centros urbanos. A expressão rouba mas faz não nasceu no sertão mas na maior e mais rica cidade do país. Meu alunos costumavam assinar lista de presença por colegas e, depois, ir a uma passeata contra corrupção na política.

A mudança não pode ser somente numa etapa do processo. Se você usa – a metáfora é importante – um lava-jato para limpar seu carro e a estrada continua sendo de terra batida, você precisará de uma nova lavagem todos os dias.

BBC Brasil – Mas de certa forma, responsabilizar a população pela corrupção da classe política pode parecer culpar a sociedade pelos erros cometidos pela elite governista, não?

Karnal – O que eu desejo sempre afirmar é que não existe uma elite separada do todo. Um político ladrão deve ser preso e devolver o que roubou. A culpa é dele e só dele. Mas, se queremos um novo país, devemos discutir na base, na educação, na família, na fila do aeroporto e em todos os campos para uma sociedade mais ética.

BBC Brasil – Nesse sentido, é a desigualdade mesmo nosso maior problema?

Karnal – A desigualdade é a base do problema e colabora para a má formação escolar. Uma sociedade que seja desigual já é um problema, mas uma que não educa nega a chance de corrigir a desigualdade. Como sempre, educação escolar básica é a chave da transformação.

Mudar isto muda tudo, como vimos no Japão e na Coreia do Sul após a guerra. Educação é músculo e osso, limpeza ética do Senado é maquiagem, mesmo quando necessária, como toda maquiagem, passageira.

BBC Brasil – Tivemos nesse fim de ano o episódio do ambulante morto a pancadas após defender uma transexual, também tivemos uma chacina em Campinas na qual o autor deixou uma carta criticando o feminismo. O que explica essa intolerância – racial, de gênero, de classe -, e de que forma ela pode ser combatida?

Karnal – Sempre existiu este ódio que flui por todos os lados. Não é fácil existir e acumular fracassos, dores, solidão, questões sexuais, desafetos e uma sensação de que a vida é injusta conosco. O mais fácil é a transposição para terceiros.

Um homem fracassa no seu projeto amoroso. O que é mais fácil? Culpar o feminismo ou a si? A resposta é fácil. Tenho certeza absoluta de que o autor do crime não era um leitor de Simone de Beauvoir ou Betty Friedan. Era um leitor de jargões, de frases feitas, de pensamento plástico e curto que se adaptava a sua dor.

Esses slogans são eficazes: “toda feminista precisa de um macho”, “os gays estão dominando o mundo”, “sem terra é tudo vagabundo”. Curtos, cheios de bílis, carregados de dor, os slogans entram no raso córtex cerebral do que tem medo e serve como muleta eficaz.

No cérebro rarefeito a explicação surge como uma luz e dirige o ódio para fora. Se não houvesse feminismo, o assassino continuaria sendo o fracassado patético que sempre foi, mas agora ele sabe que seu fracasso nasceu das feministas e ele não tem culpa. Isto é o mais poderoso opiáceo já criado: o ódio.

BBC Brasil – De que forma as redes sociais acabaram potencializando essa intolerância e esse discurso de ódio. Eles são reflexo da nossa sociedade ou acabam estimulando os comportamentos mais intolerantes e polarizados?

Karnal – Antes era preciso ler livros para criar estes ódios. Mesmo para um homem médio da década de 1930, ele precisava comprar o Mein Kampf de Hitler e percorrer suas páginas mal redigidas. Ao final, seus vagos temores antissemitas era embasados numa nova literatura com exemplos e que fazia sentido no seu universo. Mesmo assim, havia um custo: um livro.

Hoje é um clique e um site, com muitas imagens. Facilitamos muito para quem odeia. O ódio tem imenso poder retórico. Ele sempre existiu. Agora, existe este ódio prêt-à-porter, pronto, onde você se serve à la carte e pega seu prato preferido.

Exemplo? Uma pessoa me disse: “Quem descumpre a lei deveria ser fuzilado! Bandido deveria ser executado”. Eu argumentei: “Pela sua lógica, descumprimento da lei merece pena capital. Como a lei brasileira proíbe a pena capital, você está defendo crime e incitação ao crime, na sua lógica, deveria ser punida com pena de morte.”

Era uma maneira socrática de argumentar a contradição do enunciado. O caro leitor pode supor que a resposta do indivíduo não foi socrática nem platônica.

BBC Brasil – Pensando num contexto geral, a globalização deu errado? Com esse discurso de fechar fronteiras, de medidas protecionistas…Estamos vivendo um retrocesso, um avanço ou uma estagnação?

Karnal – Não havia um mundo harmônico e feliz antes, e não existe agora. O que varia em história é como produzimos a dor. Nosso método atual mudou este método. Os mais sólidos preconceitos e violências humanos são muito anteriores à globalização.

BBC Brasil – Para muitos, 2016 foi um ano marcado pelo avanço de forças conservadoras. Em 2017, haverá eleições na França e na Alemanha, com os partidos de extrema-direita em ascensão. O que vem pela frente?

Karnal – Difícil falar de futuro para um historiador, profissional do passado. A tendência é de uma onda conservadora por alguns anos em quase todos os lugares. Provavelmente, seguindo o que houve antes, depois de experimentar candidatos conservadores que prometem o paraíso e não vão conseguir, os eleitores estarão de novo inclinados a candidatos de outro perfil que oferecerão o paraíso.

As coisas mudam, mas não mudam porque o presidente usa topete ou é conservador. Presidente democratas estavam no poder com Kennedy e Johnson e a violência racial chegou ao ponto máximo. No período Obama, muitos policiais mataram muitos negros, tendo um presidente negro no poder. Então, de novo, não estamos abandonando um paraíso e ingressando no inferno.

BBC Brasil – O dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como palavra do ano de 2016. A definição é “circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência sobre a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. O conceito é de que a verdade perdeu o valor, e acreditamos não nos fatos, mas no que queremos acreditar que é verdade. Qual sua avaliação sobre essa “nova era” e novo comportamento, que acaba reforçado pelas redes sociais?

Karnal – Sempre fomos estruturalmente mentirosos em todos os campos humanos. A mudança é que antes se mentia e se sabia a diferença entre mentira e verdade, hoje este campo foi esgarçado. O problema talvez seja de critério. Com a ascensão absoluta do indivíduo, o que ele considerar verdade será para ele.

Perdemos um pouco da sociologia da verdade, ou de um critério mais amplo de validação do verdadeiro. No século 18 era o Iluminismo: o método racional que tornava algo aceito como verdade. No 19, foi a ciência e o método empírico para distinguir falso de verdadeiro.

Hoje o critério é a vontade individual. “A água ferve a 100 graus centígrados ao nível do mar”. Verdade? A resposta seria diferente no (século) 19 e hoje.

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Mossoroense por ascendência, por nascimento e por vocação

Por Cid Augusto (O Mossoroense)

Ernani: entrevista para O Mossoroense mostra um pouco de sua vida (Foto: Web)

“Eu sou mossoroense por ascendência, por nascimento e por vocação”. Assim se define o médico Carlos Ernani Rosado Soares, 70, que no dia 1º de dezembro tomará posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, passando a ocupar a cadeira nº 2 daquela instituição, cujo patrono é a escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta e pela qual passaram Henrique Castriciano, Hélio Galvão e Grácio Barbalho. O futuro imortal é médico pela antiga Faculdade de Medicina do Recife e licenciado em Língua e Literatura Inglesas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A sua obra é vasta e inclui desde escritos memorialistas a artigos publicados em revistas científicas do Brasil e do exterior. Ele foi professor de todos os médicos graduados na UFRN, até 1995, e ajudou a implantar a Faculdade de Ciência da Saúde da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), a qual lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa. Nesta entrevista, Ernani, um conformado sofredor do Flamengo, narra também como se tornou locutor esportivo da Rádio Iracema, de Fortal eza-CE, e da campanha de Dix-sept  Rosado para o governo do Estado,  em 1950.

* Entrevista originalmente feita pelo jornalista Cid Augusto, para o jornal O Mossoroense, veiculada na edição do periódico no dia 30 de novembro de 2004. É uma homenagem do Blog ao professor-médico-escritor Ernani Rosado, falecido (veja AQUI) ontem.

O Mossoroense – Até que ano você morou em Mossoró?

Ernani – Até 1938 ou 1939. Meu pai era comerciante, teve dificuldades no comércio, procurou um emprego e conseguiu. Foi nomeado para a primeira Previdência, que se chamava Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Operários da Estiva (Capoe). Ele começou a carreira previdenciária em Areia Branca, na Rua da Frente. Essa permanência em Areia Branca, da qual tenho boas recordações, marcou uma coisa: o agente morava no Instituto. A sede ficava na frente e o agente morava nos fundos. Foi assim em Areia Branca, em Cabedelo, em São Luís e em Manaus.

O Mossoroense – Como foi participar do esforço pela implantação da Faculdade de Medicina da Uern?

Ernani – Muito gratificante, porque tudo o que diz respeito a Mossoró me toca profundamente. Eu sou mossoroense por ascendência, por nascimento e por vocação. Foi batalha por Mossoró, eu já estou na linha de frente.

O Mossoroense – Antes desse trabalho, você já era Doutor Honoris Causa da Uern…

Ernani – Já, porque na realidade, sem falsa modéstia, eu dei algumas contribuições à Uern. E ela, generosamente, reconheceu essas contribuições. Eu trabalhei em favor da Escola de Serviço Social. Eu e doutor Hélio Santiago. Posteriormente, contribuí com a implantação da Escola de Enfermagem, que deu um trabalho muito grande e hoje é uma das mais florescentes da Universidade.

O Mossoroense – Você se tornou médico por decisão pessoal ou encaminhamento familiar?

Ernani –  Opção pessoal. Não houve influência de ninguém lá de casa para coisa nenhuma. Houve até uma fase que eu pensei em ser engenheiro, porque sempre fui bom aluno de matemática.

O Mossoroense – Há muitos médicos na família e…

Ernani – Talvez tenha sido isso. Eu não sei exatamente, lá se vão mais de 50 anos, qual foi o fator preponderante dessa escolha.

O Mossoroense – E a formatura em Letras?

Ernani – Formei-me depois, em 1965. Eu me formei em medicina em 57, aí eu tinha o diploma de proficiência em inglês da Universidade de Michigan. Toda vida estudei inglês, sabia falar bem inglês, e havia uma lei que nos facultava a matrícula na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, fazendo apenas o último ano, que era a parte de didática. E eu fiz, me licenciei em Língua e Literatura Inglesas. Eu, Dalton Melo, dona Marieta Guerra, Patriota, Zé Melquíades.

O Mossoroense – É verdade que, até há poucos anos, você foi professor de todos os médicos formados pela UFRN?

Ernani – É verdade. Eu vim para cá em 1958 e a Faculdade de Medicina tinha começado em 1956. O cirurgião com quem eu trabalhava, doutor Travassos Sarinho, era professor da cadeira de Técnica Operatória, que começava no quarto ano, como começou em 1959. Então, eu peguei desde a primeira turma até 1995, quando me aposentei forçado pelas circunstâncias, porque sempre ameaçaram e continuam ameaçando o funcionalismo público, o professorado, e eu não podia correr certos riscos. Mas confesso que me aposentei constrangido.

O Mossoroense –  Dizem que a sua memória é prodigiosa. Então, vamos ao teste: qual o filme exibido na inauguração do Cine Pax?

Ernani – “Formosa Bandida”. Nós morávamos em Manaus e chegou a notícia de que havia sido inaugurado outro cinema em Mossoró, que ainda era do tempo do Cine Almeida Castro.

O Mossoroense – Como as notícias de Mossoró chegavam a Manaus naquela época?

Ernani – Longas cartas que demoravam muito tempo para chegar e telegramas inseguros, quando era o caso, porque naquela época, 42, 43, 44, morar em Manaus era morar no fim do mundo, era uma aventura cívica. Não havia praticamente comunicação. Telefone nem pensar. Navios lentos, que seguiam pelo rio Amazonas, aviação incipiente.

O Mossoroense – Como foi participar, na condição de locutor, da campanha de Dix-sept Rosado?

Ernani – Essa é uma página que relembro com extrema saudade, porque rádio é uma coisa que injeta, fica no sangue, nunca sai. Tenho muita saudade do meu tempo de rádio e, inclusive, um dia desses pensei em ir ao campo de futebol. Transmitir, eu acho que não saberia mais não, mas fazer o comentário do jogo, lá no campo, para reviver aqueles tempos, eu tenho vontade.

O Mossoroense – Você chegou a ser locutor profissional de rádio?

Ernani – Muito tempo. E bom!

O Mossoroense – Qual emissora?

Ernani – Rádio Iracema, de Fortaleza. Essa história é engraçada. Durante muito tempo eu fui filho único e possuía uma coleção de botões, mas não tinha com quem jogar, aí eu botava os dois times para jogar e jogava só. E como toda vida gostei de ouvir futebol, acompanhei meu pai com o Flamengo dele, de 1943. Eu transmitia os jogos de futebol de botão. Era aquela gritaria em casa. Aí o meu padrinho sugeriu: “Messias, cuidado, se não Ernani vai acabar ficando doido”…

O Mossoroense – Quer dizer que você é da “terceira” divisão?

Ernani – Não! Não! Eu ainda não entreguei os pontos… Pois bem, papai tinha um amigo na rádio, o nome dele era Peixoto de Alencar. Papai contando essa história para ele, Peixoto disse “Mande ele falar comigo lá na rádio, pode ser que ele tenha jeito”. E eu fui, e teve jeito. Comecei a trabalhar na Rádio Iracema, dando as notícias do Sul do País. Depois me mandaram fazer uns escritos, eu fiz. Depois comecei a me insinuar e, um dia, deixaram eu transmitir um pedaço de jogo. Eu me tornei um bom locutor. Eu era renomado no Ceará.

O Mossoroense – E onde entra a campanha de Dix-sept?

Ernani – Muito fácil. Na campanha de Dix-sept houve um mutirão da família Rosado para ajudar. Naquele tempo, não havia tanta facilidade quanto há hoje. Eu vou lhe dar alguns exemplos que marcaram a época de Dix-sept. Seguramente foi a primeira campanha com músicas de campanha, que tio Duó (Duodécimo Rosado) conseguia no Rio de Janeiro, através de amigos.

O Mossoroense – Quem eram esses amigos?

Ernani – Outro dia conversando com uma pessoa, ela me disse que aquelas letras eram de Elano de Paula, irmão de Chico Anísio. Os discos de acetato eram rodados na campanha, na amplificadora e nos jeeps volantes. Em Natal, o grande locutor da campanha foi o jornalista Marcelo Fernandes. Por todo Estado, nós tínhamos Zé Leite de Aragão Mendes, Edmilson Andrade e Jin Borralho Boa Vista. Eu fiquei em Mossoró, na amplificadora, que era ali, perto da Câmara Municipal. O estúdio era lá e as bocas de som ficavam na Rua do Comércio, na Praça do Pax e em outros pontos estratégicos. Hélio Santiago redigia os textos. Eventualmente eu fazia campanha nos bairros.

O Mossoroense – Então, você foi um dos pioneiros na locução de campanhas políticas.

Ernani – Nessa parte de locução política, acredito que sim.

O Mossoroense – Voltando à Faculdade de Medicina, por que você foi contra a realização do vestibular este ano?

Ernani – Eu tinha receio de que acontecesse o que aconteceu. O serviço público tem uma série de obstáculos, uma liberação de verba aqui, uma firma que não entrega acolá, uma licitação que não se completou, essas coisas. O reitor José Walter achou que devia fazer – ele realmente é muito obstinado – e fez o vestibular. Como os equipamentos ainda estavam para chegar, não havia como se ministrar as aulas práticas do primeiro período. Aí a gente teve de adotar uma solução para contornar o problema. Qual foi essa solução? Foram colocadas para o primeiro período disciplinas que não exigem laboratório. O importante é que não haverá prejuízo.

O Mossoroense – Qual a expectativa para a posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras?

Ernani – Essa Academia de Letras… Eu sou um homem amante das letras, eu não sou um literato. Os meus escritos são escritos esparsos. São instantes de vida, são recordações. A minha vertente de escrita é uma vertente essencialmente memorialista. As honrarias que recebi de meus alunos na Faculdade de Medicina, em ser paraninfo e dar aulas da saudade. Eu tenho uma coleção grande disso. Na realidade, elas devidamente enfeixadas dão uma panorâmica na vida médica do Estado e do País. Eu também escrevi a respeito de vários vultos da medicina potiguar que já nos deixaram do doutor Sarinho, do doutor Silvino Lamartine, do primeiro Raul Fernandes da medicina potiguar – houve três -, Varela Santiago, Sérgio Guedes. A memória de vários médicos ilustres foi resgatada por mim.

O Mossoroense – Mas a sua produção acadêmica também é vasta.

Ernani – Eu tenho mais de 40 trabalhos publicados no Brasil e no estrangeiro. E tenho também uma coisa que me agrada muito, porque é um exercício muito interessante: eu fui honrado através do tempo em fazer sucessivas apresentações de livros.

O Mossoroense – O elogio ao patrono e ao seu antecessor já está pronto?

Ernani – O elogio ao patrono e aos antecessores, que são três. Sabe quem é o meu patrono? Nísia Floresta Brasileira Augusta. E sabe quem foi o primeiro ocupante da cadeira? Henrique Castriciano, primeiro presidente da Academia, seguido por Hélio Galvão, outra grande figura, e por Grácio Barbalho, a quem eu estou substituindo. O meu grande problema é enxugar o discurso. O negócio é comprido.

O Mossoroense – A Academia tem alguma finalidade prática?

Ernani – Poderia ter mais. A reunião dos acadêmicos com maior regularidade ensejaria a realização de uma série de movimentos culturais. São cabeças muito boas que estão ali reunidas. A academia é um corte transversal da intelectualidade, então, quando ela aceita e pode receber as mais variadas tendências intelectuais, pode atuar em qualquer campo. Talvez esteja faltando um diálogo maior entre a academia e a sociedade.

O Mossoroense – Quem lançou a sua candidatura foi Vingt-un…

Ernani – Ave Maria! Foi quem inventou essa candidatura. E teimar com doutor Vingt-un dá um trabalho danado.

O Mossoroense – Você foi eleito por unanimidade, logo após uma crise entre os grupos de Vingt-un e de Diógenes da Cunha Lima, num episódio que culminou com a vitória de Elder Heronildes. O seu nome pacificou a Academia?

Ernani – Qualquer candidatura que doutor Vingt-un lance tem um respaldo muito grande. Por outro lado, eu vivo nesta cidade (Natal) há quase cinqüenta anos e tenho muitos amigos dentro da academia, amigos pessoais, e eu fui a cada acadêmico, porque a academia é, acima de tudo, um exercício de humildade e de pertinácia.

O Mossoroense – Você morou em Recife, Manaus, Fortaleza…

Ernani – Falta ainda: Areia Branca, Cabedelo, Natal pela primeira vez, em 1941, São Luís do Maranhão, Manaus, Belém do Pará, Fortaleza, Natal a segunda vez, em 1951, Recife, Maceió e Natal pela última vez, em 1958, de onde não saí mais.

O Mossoroense – Por que Natal?

Ernani – Nós estávamos todos cansados de andar para cima e para baixo. Nessa época, eu já estudando medicina, passava as férias em Natal trabalhando com doutor Sarinho, e doutor Sarinho me convidou para trabalhar com  ele em Natal logo que terminasse o curso. Papai perguntou se eu viria para Natal, eu disse que sim, e ele pediu transferência, terminando aqui o ciclo dele como funcionário da Previdência.

O Mossoroense – Família?

Ernani – Uma beleza. Minha mulher e meus filhos fazem o encanto da minha vida, ao lado do meu irmão, que é o único irmão que eu tenho, Roberto. E dentro de tudo isso, uma saudade enorme de meus pais.

O Mossoroense – Esquecemos alguma coisa?

Ernani – Esquecemos! Você falou mal do meu Flamengo, deu uma insinuação altamente maliciosa e, antes do final, eu quero dizer que times como o Flamengo e o ABC, que também anda ruim das pernas, são velhos guerreiros. E os velhos guerreiros nunca morrem.

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Juiz diz ser impossível acabar abuso de poder em campanhas

Da Revista Web RN

Falando sobre reforma política, moralidade, abuso de poder, atividade do Juiz Eleitoral, redes sociais e sobre as últimas eleições em Mossoró e Baraúna, Herval Sampaio fala à Revista _rn (//issuu.com/revistawebrn), em bate papo descontraído, sem deixar de lado a seriedade dos temas discutidos.

Sem meias palavras, como é de seu estilo, cumpre o papel de expor suas ideias e posições de cidadão ativamente interessado nas questões sociais e políticas, sem, entretanto, extrapolar os limites que lhe são impostos pela ética profissional, já que o fato de ter atuado como Juiz Eleitoral nas últimas eleições em Mossoró e Baraúna restrigem a sua manifestação em relação a processos que ainda estão em tramitação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A Revista _rn é publicada exclusivamente em formato digital e está disponível em //issuu.com/revistawebrn/docs/rn22, podendo ser acessada diretamente e de forma gratuita por meio da rede mundial de computadores. Produzida no estado do Rio Grande do Norte, a Revista _rn se consolida como uma das mais importantes do estado, primando pela qualidade de seus textos, com uma dose discreta de humor.

Segue a íntegra da entrevista concedida:

O peso da sua caneta fez a diferença na Eleição 2012 em Mossoró. Existiria o Herval antes e depois de 2012?

Não. Cumpro o meu dever independente de momento e vejo como normal o fato de ter decidido vários processos eleitorais naquele ano e em 2013, pois como juiz tenho que estar sempre preparado intelectualmente e emocionalmente para decidir fazendo valer a Constituição e as leis que repute constitucionais, logo a intervenção judicial dentro desse processo ocorreu porque infelizmente houve desrespeito de praticamente todos os tipos de infrações eleitorais existentes em nosso ordenamento jurídico e para preservar a higidez do voto, que deve ser livre e consciente, sem qualquer tipo de abuso de poder, as decisões foram prolatadas e isso é mais do que normal para a atividade de um juiz.

E hoje acaso receba nova função eleitoral agirei do mesmo modo, logo o Herval é o mesmo e lutarei para me manter dentro desses propósitos legais e éticos, pois o povo espera isso de qualquer servidor público.

Na cidade de Baraúna continua o lenga-lenga de entra e sai prefeitos. Por quê?

Isso é uma pergunta muito difícil e em abstrato, ou seja, sem me referir ao caso concreto em si, pois tenho impedimento legal para tanto, vejo que a legislação eleitoral tem que avançar nesse ponto, trazendo mais segurança jurídica, pois não é razoável que os processos de um dado pleito não sejam julgados o mais rápido possível e ocorra situações em que mesmo o primeiro e segundo grau já tendo decidido, os Tribunais Superiores no caso o TSE ainda não tenho emitido a posição final e a população não saiba o que realmente vai prevalecer.

“Cumpro o meu dever independente de momento (…), pois como juiz tenho que estar sempre preparado intelectualmente e emocionalmente para decidir fazendo valer a Constituição e as leis que repute constitucionais(…)”.

Essa situação ainda se potencializa quando se trata de liminares em que o vai e vem de governantes é ainda mais precário. Em Baraúna, na minha visão e como decidi, os dois primeiros lugares infringiram a legislação eleitoral, coincidentemente com os mesmos fatos, tendo ambos sete condenações, o primeiro três e a segunda quatro, logo é um caso sui generis como se diz e precisa de uma definição o mais rápido possível, pois indiscutivelmente quem sofre com isso é a população, que pelo que tenho visto falar na imprensa vem sofrendo, pois já sai do caso há quase um ano.

O senhor acha que depois de tantas condenações de 2012 para cá os políticos mudaram a forma de fazer política? Ou a classe política e o povo insistem em tratar o processo eleitoral como um negócio?

Acho pessoalmente que as coisas estão melhorando e precisamos investir mais na educação de todos, conscientizando o povo de que a conduta de querer se dar bem nas eleições é crime, logo o momento que vivemos de descoberta diária de corrupção em todo canto faz com que o povo comece a se tocar que ele também é culpado de tudo isso que já está acontecendo, pois a nossa classe política reflete a nossa sociedade e tenho muito esperança de que possamos a partir desses exemplos e de uma profunda reforma de todo o sistema político em que a busca do poder pelo poder deixe de ser a regra, possamos avançar na melhora de nosso povo e, por conseguinte, minimizarmos a corrupção.

Em sua opinião, como acabar com o abuso de poder nas eleições?

Impossível acabar totalmente, pois como disse na resposta anterior, precisamos educar melhor nosso povo sobre a importância do voto e a consciência de escolha por projetos concretos de governo e ideologia partidária com programas preestabelecidos, o que não existe. Daí a interferência total de todo tipo de abuso de poder como regra geral. O que acreditamos numa visão bem realista é que podemos transformar o que hoje é regra geral em exceção e tudo começa com a reforma política, daí defendermos uma reforma feita pelo povo e para o povo.

A reforma política está na ordem do dia. Quais mudanças o senhor gostaria de ver efetivadas?

A mais importante delas para que as outras possam vir dentro dessa conscientização maior de todo o povo brasileiro que defendemos é sem sombra de dúvidas o fim do financiamento das campanhas por empresas, pois infelizmente esse sistema atual é uma porta aberta com várias outras escancaradas para a corrupção, pois com todo respeito que nutro a classe política e empresarial, o que vimos com relação a maioria dos casos não é doação e sim investimento direto em todo tipo de postulação, onde a menor preocupação de quem investe é com quem vai ganhar e muito menos com o povo e sim com o retorno de seu investimento e que as investigações infelizmente estão demonstrando o que já era de senso comum do povo, que as empresas fazem conchavos após para dividirem o bolo dos futuros contratos e desviarem descaradamente o dinheiro público, mantendo esse círculo vicioso, pois parte desse dinheiro depois é utilizado até mesmo formalmente para a futura eleição dos que são ligados a esse sistema cruel, mas verdadeiro e que em parte pode ser minorado com a retirada formal dessa prática.

Além disso precisamos fortalecer o Ministério Público e a Justiça Eleitoral para fiscalizar tudo isso. Também entendo que a reeleição no Executivo tem que acabar, pois nesses últimos anos ficou mais que comprovado que os políticos em sua maioria, dentro de toda essa realidade que chamo de triste realidade da política brasileira, usaram da estrutura estatal para se reelegerem. Além dessas medidas, defendo as demais propostas do movimento da Reforma Política Democrática e Eleições Limpas, que congrega mais de 100 entidades e que aqui no Estado represento o MCCE movimento de combate à corrupção eleitoral e que as demais propostas podem ser vistas no site www.mcce.org.br e no nosso site www.novoeleitoral.com.

Pessoalmente ainda defendo o fim do político profissional e no nosso blog trouxe tal pensamento jusbrasil/joseherval, pois o maior mal da política é a busca desenfreada por poder de quem quer o mandato e quando adquire luta da mesma forma ou pior para se manter, daí o nosso projeto de total desapego ao poder.

No seu entendimento o prefeito Silveira Júnior (PSD) não pode sair candidato à reeleição. Ele falou, inclusive em entrevista aqui na Revista _rn, que grandes nomes do meio jurídico afirmam que sim, ele pode. O senhor continua com a mesma ideia de impedimento?

Não falei em artigo no meu site www.novoeleitoral.com sobre a situação em específico do Prefeito, mas quando impugnaram a candidatura dele disse claramente que ele estava indo pra reeleição e trouxe os meus fundamentos, aos quais inclusive academicamente estão no site acima e que os reitero, pois defendo que quem ocupou o cargo no Executivo e concorreu no exercício do cargo, por qualquer hipótese, já fez uso da única possibilidade para tal como a Constituição autoriza. Agora destaco que realmente existem posições contrárias e no nosso site tem a outra tese também. É uma boa discussão hoje que espero que acabe junto com a reeleição.

O senhor é muito criticado nas redes sociais por sua postura, eloquência. No geral, as redes sociais ajudam ou atrapalham?

Pode ajudar e atrapalhar ao mesmo tempo, daí ter que ser bem utilizada e acho que ajo com cautela sem deixar de dizer o que penso. Sou criticado porque as pessoas em geral não gostam de ouvir a verdade e nós como sociedade somos muito egoístas e como digo isso sem meias palavras como se diz recebo várias contestações, mas continuarei na mesma linha, sem atingir ninguém pessoalmente, mas sempre dizendo o que penso sem preocupação se vão gostar ou não!

A justiça está próxima do povo?

Está melhorando, mas ainda falta muito para realmente atingir o ideal. Penso que devemos cada vez mais democratizar a justiça e o prestígio que está sendo dado as soluções consensuais facilita essa aproximação e a própria relação que hoje o Poder Judiciário tem com a mídia, através de comunicação social próprias e projetos sociais é muito legal e o TJRN vem investindo nesses setores e a médio e longo prazo teremos retorno.

P.S – Caricatura utilizada nesta postagem é do chargista Túlio Ratto, editor da Revista Web RN.

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“Sem competitividade estarão em risco conquistas recentes”

Para Flávio Rocha,  as conquistas brasileiras recentes, como a estabilidade da moeda e a redução das desigualdades dependem fundamentalmente de o país recuperar espaço não só no mercado externo mas, também, no interno. À frente de uma rede com 257 lojas espalhadas pelo país, Rocha é enfático ao defender o papel do varejo na melhoria de renda da população brasileira a partir dos anos 2000. “Tem muita gente querendo ter a paternidade desse milagre do varejo, mas isso não tem a ver com bolsa isso ou aquilo, crédito, não”, sustenta.

"Ninguém está preocupado em mexer nas raízes da perda de competitividade" (Foto: Tribuna do Norte)

“O crédito se deu naturalmente, com o controle da inflação.”

Ex-deputado federal pelo Rio Grande do Norte, Rocha vê no monopólio estatal a raiz do escândalo de corrupção que assola a Petrobras. O antídoto natural para o problema, acrescenta ele, é o livre mercado.

“O que nos move, o que nos tira da cama de manhã e nos faz dormir tarde é concorrência. É a concorrência que é o motor da humanidade”, acredita o presidente da Riachuelo.

Qual a sua expectativa para a gestão do novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior?

Na última segunda-feira, foram duas reuniões com o Armando Monteiro. Lá na Federação do Comércio, onde estive representando o IDV (Instituto de Desenvolvimento do Varejo), que eu presidi, e, depois, na Fiesp, usando meu outro chapéu, de industrial. Ele está muito focado nessa questão da exportação. Com muito menos esforço, você consegue capturar US$ 100 de mercado que os chineses ou a concorrência internacional estão perdendo aqui dentro. O esforço para você atravessar o oceano e ganhar essa quantia é muito maior.

O país tem condições de concorrer com os chineses?

Tanto na Fecomércio como na Fiesp, a constatação geral é a perda vertiginosa de competitividade. Primeiro, você pede a capacidade de exportar. Depois, começa a perder o seu quintal, o mercado doméstico. Isso ficou muito claro. Nós tivemos um grande momento de exportação, por volta de 2005, quando foi o pico de exportação. Deixamos de exportar, a balança se tornou negativa e começamos a perder terreno dentro de casa. O ministro só está falando em armas, linhas de crédito subsidiadas pelo BNDES, só fala em exportação. Só que é tão mais fácil você recuperar o terreno que perdeu aqui. Primeiro, você já causou uma estranheza no varejo, que foi o grande propulsor do que aconteceu de bom nessa década. Foi o instrumento da inclusão, de que o governo tanto fala.

A inclusão social não tem a ver, também, com o aumento da renda da população?

É uma discussão entre o que veio primeiro, a galinha ou o ovo. O ganho de produtividade da economia que leva ao aumento da renda. Se essa revolução, cujo grande impacto é o aumento de produtividade, não só no varejo. Nasce no varejo, mas contamina toda a cadeia com aumento de produtividade. O melhor cenário seria se nós tivéssemos conseguido conter a pesada carruagem que nós carregamos nas costas, chamada Estado, no mesmo tamanho de quando esta revolução começou, de 20% do PIB. Aí, a China seria aqui. Mas, infelizmente, nesse ganho de produtividade, os efeitos positivos foram parcialmente consumidos pelo inchaço da parcela improdutiva da sociedade pelo Estado, que cresceu por causa da formalização.Enquanto ela tem um efeito positivo de aumento na produtividade, tem um negativo de aumento no tamanho da carruagem. É como se você tivesse um automóvel, no qual você colocou um tubo compressor que ficou duas vezes mais potente. Mas a carroceria ficou duas vezes mais pesada. E a sinalização do governo é o ajuste fiscal pela via fácil, com ainda mais aumento no peso da carruagem. Ninguém está preocupado em mexer nas raízes da perda de competitividade, que é o inchaço dessa carruagem.

Qual o peso da formalização nessa expansão do varejo?

Na última reunião do IDV, a gente apresentou um estudo feito com a McKinsey, que mostra uma transformação muito interessante, na qual o varejo é protagonista. Foi a década da formalização. O Brasil é o país que mais se formalizou nesses dez anos. Dentro desse universo do Brasil, o setor que mais se formalizou foi o varejo. E a correlação entre formalização e produtividade é de um para um, total. Quando você formaliza, automaticamente vem um ganho enorme de produtividade. Uma farmácia de cadeia, de alta produtividade , é oito vezes mais produtiva do que a farmácia de fundo de quintal. Um supermercado de alta produtividade, um Carrefour, um Extra é seis vezes mais prod<CW0>utivo do que um supermercado de fundo de quintal. A loja de departamentos é cinco vezes mais produtiva. Esse efeito de ganho de produtividade tem um contágio em toda a cadeia de suprimentos. Quando você formaliza, o varejo tem esse poder de contágio.

A ênfase nas exporações atrapalha o varejo?

Acho que ele (Armando Monteiro) vai pegar o artilheiro, que fez boa parte dos gols nesse período, e colocar no banco de reservas.

Não dá para varejistas e exportadores caminharem juntos?

Não sei qual é a dose de competitividade adicional que ele (Armando Monteiro) tem na manga do colete para nos proporcionar. Tomara que seja grande a ponto de nos permitir recuperar não só o mercado doméstico, como vender camisa para a China. Não sei qual é a dose de surpresas boas que ele tem. Mas com a mesma dose de competitividade que ele puder proporcionar à indústria hoje, ou à economia brasileira… O timing é este: você perde a capacidade de exportar. A balança comercial de cada setor, em diferentes momentos, vira negativa. Ele (o concorrente estrangeiro) começa a invadir o seu jardim. Em nossa empresa, por exemplo, nós produziamos 80% de toda a confecção vendida. Nossa importação era de 5%. Isso em 2010. Em cinco anos, nós fomos de 5% para 35%. E nossa produção própria caiu para os mesmos 35%. A diferença é de terceiros.

Como avalia a política industrial brasileira?

A melhor política industrial é um ambiente de negócios business friendly. Nós temos um ambiente de negócios hostil. Não é só a carga tributária, que cresce absurdamente. No meu tempo de deputado, a carga tributária era 20% do PIB. De lá para cá, mais do que duplicou, porque tem o déficit. E as alíquotas são mais ou menos as mesmas. Quer dizer, a formalização, que trouxe todo esses fatores positivos, liderados pelo varejo, tem um lado perverso, que é o aumento da quantidade de dinheiro que vai para o que existe de mais ineficiente para um país, seja qual for, que é Estado. Com as mesmas alíquotas de 1994, a arrecadação foi de 20% para 37%, pela simples formalização. E ela vai continuar. Nós competimos com países que têm carruagens de 15% do PIB. A competitividade de um país é a relação de duas forças: a de tração, que puxa a carruagem, e o peso. Enquanto estamos correndo a mesma maratona com concorrentes nossos, com a Coreia e a própria China, que são corredores com uma mochilinha leve nas costas, só com o essencial, com uma mala sem alça de 37% do PIB, que, ainda por cima, nos traz um excesso normativo, regulatório, absurdo. O Código de Defesa do Consumidor é absurdamente exigente, a lei ambiental mais exigente do que a da Dinamarca; um aparato trabalhista absolutamente anacrônico, uma usina de conflitos que gera três milhões de causas trabalhistas por ano. Nós geramos, por hora, mais ação trabalhista do que o Japão em um ano. Por dia, geramos mais do que os EUA em um ano. Isso é custo Brasil na veia.

Loja conceito da Riachuelo na Rua Oscar Freire em São Paulo-SP, um concorrido endereço paulistano (Foto: divulgação)

O ministro Joaquim Levy afirmou que o novo modelo econômico não será mais baseado no consumo, mas no investimento. Não há uma certa contradição aí?

É um falso dilema. Esse momento maravilhoso do consumo na última década não teve nada a ver com interferência estatal. Tem muita gente querendo ter a paternidade desse milagre do varejo, mas isso não tem a ver com bolsa isso ou aquilo, crédito, não. O crédito se deu naturalmente, com o controle da inflação. Mas o driver dessa boa revolução foi o desabrochar do varejo de alta produtividade, a criação de um terreno que era inóspito. Essa revolução estava acontecendo desde os anos 80 lá fora, e não chegava aqui por causa da erva daninha da clandestinidade econômica.

A previsão de um crescimento minúsculo do PIB para 2015 não assusta?

O varejo tem crescido mais do que o PIB, em média três vezes mais. Mas com um crescimento tão baixo do PIB, é um número frustrante. Tem tudo a ver com o fenômeno de aumento do peso da carruagem. Seja qual for o ano que você analise, concluirá que a carruagem vai parar. Ela não vai parar só porque está pesada demais para sua força de tração. O excesso normativo pesa tanto quanto a carga tributária.

Vários governos já prometeram a reforma trabalhista, mas não a realizaram…

Falta um direcionamento de propósito. Se você fala em reforma tributária, todo mundo quer. Os prefeitos querem, sob a alegação de que os municípios estão morrendo a míngua. Entre os governadores, 100% de adesão, porque precisam de mais dinheiro para gerir os seus estados. A União quer a reforma para resolver o déficit público, como está fazendo agora. Todo mundo tem sua visão sobre a reforma, mas são colidentes. A reforma que está na cabeça de 7 mil prefeitos não é a que está na cabeça dos empresários, nem a mesma que está na cabeça dos sindicalistas. Não precisamos convocar forças com visões tão díspares para uma reforma tributária genérica. Precisamos de reformas com vistas à competitividade. Ou nós recobramos a competitividade ou estão em risco todas as conquistas recentes. A redução da desigualdade, a estabilidade da moeda e, em última análise, até a democracia. É isso que essas forças precisam entender. São as três grandes conquistas recentes, que vieram através de consensos. Agora, o consenso que parece estar ficando mais claro na cabeça de toda a sociedade brasileira é o da competitividade. Não existe melhora na qualidade de vida sem prosperidade. A melhoria das condições de trabalho não se dá por leis e bondades aprovadas no congresso, mas pelo aumento da demanda por mão de obra.

Houve aumento, nos últimos anos, no número de casos envolvendo utilização de mão de obra escrava por empresas ligadas ao vestuário. Como você enxerga essa questão? Tem relação com o excesso normativo?

Graças a Deus, nosso modelo de negócio nos protege de um dilema muito sério do setor de confecção. O elo crítico da cadeia têxtil é o da costura. Esse elo virou refém de uma coisa que, em teoria, é boa, mas que traz desdobramentos negativos, que é a questão da lei do Simples. Tirando a nossa empresa, e outras duas ou três, a totalidade do setor de confecção, 35 mil empresas, são reféns do Simples.

Nos últimos anos, o varejo vinha crescendo num ritmo bastante acelerado. No ano passado, até novembro, o IBGE apontava um crescimento nominal de 8,7%, o que dá um crescimento real de pouco mais de 2%. Essa desaceleração era esperada pelo setor?

O varejo vem de uma década de crescimento robusto. Essa desaceleração já era previsível porque não é sustentável uma década de demanda crescente e produção declinante. É como uma fazenda que passa dez anos colhendo, colhendo e colhendo e não semeia. Mais cedo ou mais tarde essa queda da produtividade — que acontece para todos os setores produtivos — mostra a fatura. Por que o varejo continuou crescendo tanto mais do que o PIB e a indústria? Porque a indústria compete diretamente com a concorrência internacional. O varejo — apesar do e-commerce que vai globalizar essa concorrência — a briga ainda é regional. A disputa concorrencial é regional. Varejo e serviços conseguem repassar esse aumento vertiginoso da inflação, mas a indústria não. Ela sente isso na pele. Daí a discrepância de uma banda do Brasil que disputa internamente, varejo e serviços — e a produção, que é quem mais está sofrendo.

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Para Flávio, "o monopólio é o habitat natural da corrupção" (Foto: divulgação)

Como o senhor enxerga o escândalo de corrupção na Petrobras?

Acredito que é o momento de colocar o dedo em uma ferida que precisa ser tocada: que o monopólio é o habitat natural da corrupção. O que nos move o que nos tira da cama de manhã e nos faz dormir tarde é concorrência. É a concorrência que é o motor da humanidade. É totalmente previsível que uma empresa monopolista caia na preguiça, caia na zona de conforto e a última escala disso é a corrupção. E a solução pra isso é dar concorrência a esse processo. Da mesma forma que o monopólio é o habitat natural da corrupção, o livre mercado é o único antídoto natural da corrupção. Se aqui na Riachuelo eu tivesse um comprador de gravatas que fosse corrupto, que se associasse a um fornecedor de gravata para cobrar uma propina, o mercado puniria automaticamente. Sem nem mesmo saber, a gravata da Riachuelo seria mais feia, seria mais cara do que a gravata do meu concorrente. Então, eu acho que esse é o momento apropriado pra mostrar a que leva o monopólio. E a sociedade brasileira paga um custo altíssimo. O custo da energia está caindo vertiginosamente no mundo inteiro e aqui nós pagamos esse alto preço pra bancar uma máquina absolutamente contaminada pela corrupção.

O senhor defende a privatização da Petrobras?

Bem, eu não preciso de voto. Então posso dizer que sou absolutamente a favor da privatização da Petrobras. Seria a grande solução, teríamos energia muito mais barata: é o que aconteceu com todas as privatizações. O problema é que se demonizou (a privatização) de uma forma…Tenho uma fé religiosa no livre mercado. Eu acho que é isso que distingue o ser humano dos animais. Eu acho que quando Deus criou os seres humanos, ele deu a habilidade de se negociar, de fazer trocas mutuamente consentidas, voluntárias, em benefício comum. Aonde, milagrosamente, acontece o ganha-ganha. Que parte ganha numa negociação? As duas partes ganham. E o PIB de um país é a soma desses ganhos. A visão mais à esquerda acredita que numa negociação tem um ganhador e um perdedor. Um está explorando o outro. Mas na nossa visão liberal é justamente o contrário: em cada negociação tem dois ganhadores. Livre mercado é isso: essa coisa sublime e que trouxe tantos ganhos a outros setores que foram privatizados e estão submetidos aos freios e contrapeso do mercado.

O cenário macroeconômico desfavorável alterou os planos de investimento da Riachuelo para este ano?

Nós não alteramos nosso programa de investimento. Nós tivemos um recorde no ano passado, inauguramos quase 100 mil metros quadrados de área de venda. Nós iniciamos 2014 com 500 mil metros quadrados e encerramos com quase 600 mil metros quadrados. Foram 45 lojas, de grande porte. São lojas com mais de 2 mil metros de área na média. E estamos mantendo o mesmo ritmo. Inclusive, o volume de investimento será um pouco maior do que no ano passado porque estamos investindo em um grande centro de distribuição de última geração, o mais moderno do Brasil e um dos mais modernos do mundo, em Guarulhos.

E o comércio eletrônico? A Riachuelo ainda não vende diretamente pela internet…

Deste ano não passa. Nós temos uma presença online forte, mas não temos venda online. O que já fizemos, com algumas coleções, foi a venda click on colect: de comprar online e retirar na loja. Mas nós vamos ter realmente a logística B2C (business-to-consumer) até o fim deste ano, no máximo no início de 2016.

Nos últimos anos, a Riachuelo, como outros varejistas, vem incorporando à sua operação serviços diversificados, como assistência para automóvel, odontológica… O varejo puro morreu?

A sinergia entre a produção e o varejo é muito grande. O ser humano tem a tendência natural de fatiar o problema. Esse é o retrato fiel da confecção no Brasil. A suposição é que se tiver uma fiação eficiente, uma tecelagem eficiente, uma confecção eficiente, um varejo eficiente, terá o todo eficiente. Mas a Zara e a Toyota mostraram, pelo just in time, que este é um pressuposto falso e não é suficiente para atingir um patamar superior de eficiência e de excelência.

Por quê?

Há decisões que fazem todo o sentido dentro de quatro paredes de uma fiação ou tecelagem, mas podem ferir de morte a eficiência global do sistema. A nossa crença é que o ótimo local é inimigo do ótimo global. A nossa gestão é holística. Pra dar um exemplo simples: fomos a vida toda uma empresa verticalizada e nós estimulávamos esse fatiamento. Mas o bom momento que a empresa está vivendo se deve ao fato de ter rompido com esse mundo do ótimo local para o ótimo global e gerir em função do ótimo global.

Pode dar um exemplo prático?

Na época do ótimo local, a gerente da empresa de logística estava com 70% da carga no CD de Guarulhos numa sexta-feira para ir para a loja de Center Norte. Ela esperava a segunda-feira para completar o 100% da carga e extraía 100% de eficiência do todo local, que é o que ele gere. Alcançava o ótimo no negócio dele, que é o caminhão, mas era um desastre do ponto de vista do ótimo global. O fast fashion é a gestão holística globalizada da cadeia têxtil. A Riachuelo, em relação aos cases bem sucedidos lá fora, acrescentou mais um elo que é mais sinérgico ainda: o elo financeiro, que sofre muitos conflitos pois as diferenças do varejista com o banco são maiores ainda. Então, colocando o produto financeiro embaixo do mesmo guarda-chuva acionário você ganha uma elasticidade em termos de planos de parcelamento, de juros — ao invés de ter, como nossos concorrentes, a cabeça de banqueiro pensando na fatia financeira, sem nenhuma visão comercial do processo. Isso é que o que diferencia o nosso modelo: ir do fio até a última prestação depois da venda. Uma visão holística, gerindo a eficiência global do sistema e escapando armadilha do ótimo local.

Qual a sua fonte de inspiração, na gestão da Riachuelo?

Somos — desculpe a pretensão — nós queremos ser a Apple da cadeia têxtil. A Apple fez essa mesma inovação: na cadeia Microsoft você entrava no Magazine Luiza, comprava um computador Positivo, rodando sistema operacional Windows, tirava foto com câmera Sony, editava com Photoshop e fazia o upload com o Picassa da Google. Você tem aí seis ótimos locais. Seis fatias do problema. A Apple se libertou desses ótimos locais e está tudo embaixo do mesmo guarda-chuva acionário, tem a visão holística do problema. Ninguém está pensando na estreita fatia do problema. Está todo mundo pensando no todo. Essa é a diferença: por isso nós somos a Apple do varejo os outros estão sujeitos a todas as armadilhas do ótimo local.

* Entrevista originalmente publicada pela revista online Brasil Econômico em 09/02/2015 (veja AQUI).

“Doação por empresa é corrupção legalizada”

Por Edson Sardinha (Revista Congresso em Foco)

Aos 45 anos, Márlon Reis é um juiz que não se limita a falar pelos autos. Coordenador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa, o magistrado virou alvo de representação da Câmara no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) este ano após lançar um livro (O nobre deputado) em que um parlamentar corrupto fictício revela suas artimanhas para conquistar e se perpetuar no poder.

Sem recuar, o juiz promete incomodar mais o Congresso em 2015, com a apresentação de uma proposta de reforma política de iniciativa popular, respaldada por 1,5 milhão de assinaturas, a exemplo da Lei da Ficha Limpa. Conta, para isso, com a adesão de dezenas de entidades.

Reis: foco contra os maus costumes na política (Foto: reprodução)

Entre as inovações sugeridas, proibição de doações eleitorais por empresas, teto para gastos de campanha e eleição em dois turnos para deputado e vereador. Mudanças capazes, segundo o juiz, de corrigir as distorções que impedem o Parlamento de representar o “rosto” da sociedade e de devolver ao eleitor o poder que lhe foi confiscado pelos grandes grupos econômicos: o de decidir o resultado da eleição.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Congresso em Foco, Márlon critica a Justiça eleitoral, qualifica o sistema de financiamento de campanhas como “parteiro de escândalos” e as doações por empresas como um ato de “corrupção legalizado” do qual não escapam nem os políticos honestos. “O fato de a lei autorizar não reduz o que há nisso de lavagem de dinheiro e tráfico de influência”, considera.

Para o juiz, as revelações da Operação Lava Jato sobre o envolvimento de alguns dos principais financiadores eleitorais no esquema de corrupção na Petrobras aceleram a discussão da reforma política. “Se o Congresso não fizer a reforma política, a polícia vai fazer.” Veja trechos da entrevista concedida por Márlon à revista (veja, ao final deste texto, como ler a íntegra).

Revista Congresso em Foco – As eleições deste ano foram as mais caras da história, de acordo com a prestação de contas oficiais. Quem decide a eleição no Brasil?

Márlon Reis – Os grandes eleitores do país hoje são as empresas, principalmente as empreiteiras, os bancos e agora uma gigante da indústria da carne. Esses grupos decidem a eleição. O eleitor exerce papel secundário, apenas referenda o resultado.

Como se dá essa inversão na prática?

MR – A eleição de deputados se dá em grupos de candidatos que concorrem entre si pelo mesmo partido. Como a lista é aberta, ganham os candidatos que têm mais votos. Entra aí o desequilíbrio propiciado pelo financiamento de campanha. Como não há uma base minimamente igualitária de recursos, quem desequilibra o processo é o doador. Por causa do dinheiro, as empresas têm direito de vida e morte sobre os candidatos.

Quais as implicações disso?

MR – Isso explica a tendência à perpetuação de mandatos. Quem está no cargo tem maior proximidade com o financiador, pela visibilidade de que desfruta e porque pode prestar mais serviços. O mandato depois será um tributo ao apoio financeiro conseguido na campanha.

O eleitor consegue enxergar a existência dessa relação?

MR – O eleitor percebe, mas ainda muito pouco. Os doadores não contribuem de forma gratuita. Não há caridade, as empresas doam para ampliar seus lucros. Nas reuniões de sócios não se discute doar para um candidato em virtude do beneficio político que ele possa dar para a nação em geral, mas sim as vantagens que esse político pode trazer à empresa. Os eleitores deveriam olhar isso de maneira mais consciente.

Como mudar essa realidade?

MR – A solução parte necessariamente da proibição da doação empresarial, um grande câncer que corrói nossas instituições democráticas. A sociedade assiste ao nível de domínio da política por segmentos que não a representam. A composição atual do Congresso Nacional não tem o rosto da sociedade brasileira. Por conta do modelo de financiamento e do sistema eleitoral, cujo resultado é uma distorção, não se pode invocar a legitimidade do mandato como algo inerente à posição ocupada pelos atuais mandatários.

As empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato estão entre as principais doadoras eleitorais. Esse caso pode provocar mudanças no sistema de financiamento eleitoral?

MR – A Operação Lava Jato é muito pedagógica para mostrar na prática o que afirmo teoricamente. Um pequeno número de empresas se alia ao poder político e fecha a porta para as demais. O modelo atual de financiamento de campanha é uma grave ofensa à liberdade de iniciativa do país. Junto com a proibição das doações empresariais, deveria haver um conjunto de medidas para assegurar a transparência nos processos eleitorais e a auditoria das contas de campanha para impedir o caixa dois, que é gigantesco, mesmo para as empresas.

No seu livro (O nobre deputado), o senhor fala como nascem, crescem e se perpetuam os políticos corruptos. Como dissociar a política da corrupção hoje?

MR – Nunca qualifiquei todos os políticos como corruptos. Seria uma grande injustiça, inclusive com pessoas que eu admiro muito. O modelo de campanha baseado no dinheiro das grandes empresas já é um ato de corrupção permitido pela lei. O fato de a lei autorizar não reduz o que há nisso de lavagem de dinheiro e tráfico de influência. Nunca há uma doação empresarial sem interesse econômico.

O senhor acredita numa reforma política feita pelo Congresso?

MR – Não, de maneira alguma. Essa última proposta de reforma apresentada por um grupo de deputados na Câmara é uma grande violência contra a democracia. A mudança tem de partir da sociedade civil. O Congresso só vai fazer uma reforma política boa quando perceber que ou se vão os anéis ou se vão os dedos. E que, para permanecer no jogo político, tem de entender o que a sociedade civil quer, ceder e se adaptar às novas regras.

A Operação Lava Jato é combustível para essa reforma política avançar de fora para dentro do Congresso?

MR – Quero crer que sim. A Operação Lava Jato é a face mais escancarada dos males das nossas regras eleitorais. Devemos aproveitar essa oportunidade para falar sobre o assunto e concentrar a energia social necessária para que a reforma política saia como um grito da sociedade e não pela conveniência da maioria dos congressistas.

O MCCE liderou o movimento pela Lei da Ficha Limpa. Agora, pressiona pela reforma política. Quando esse projeto começará a tramitar no Congresso?

MR – Temos mais de 600 mil assinaturas para um projeto que é mais complexo que a Lei da Ficha Limpa. Mas a mobilização tem ocorrido em padrões muito similares aos que nós tínhamos naquela época. Ainda no primeiro semestre de 2015 vamos apresentar ao Congresso mais de 1,5 milhão de assinaturas para cobrar a aprovação dessa proposta.

Veja texto original AQUI.

Getúlio Vargas, ame-o ou deixe-o

Por Tony Oliveira (Revista Escola)

Passados quase 60 anos, o fantasma de Getúlio Vargas continua rondando o País. Morto em 25 de agosto de 1954 após dar um tiro no peito, Getúlio saiu da vida para entrar para a história como uma das figuras mais polêmicas e contraditórias da política brasileira, capaz de inspirar paixões e ódios igualmente extremados Brasil afora. Prova de sua força é a crítica causada pelo lançamento da biografia Getúlio, escrita pelo jornalista cearense Lira Neto e publicada pela Cia. das Letras.

Para o autor de "Getúlio", ele continua sendo um personagem controvertido até hoje (Foto: reprodução)

O escritor, que tanto na escola quanto na universidade teve contato com versões negativas do ex-presidente, tomou para si a missão de produzir uma biografia moderna, exaustiva e tão isenta quanto possível de Getúlio Vargas.

Imaginada em três volumes, dois dos quais já chegaram às livrarias, Getúlio é fruto de cinco anos de pesquisas, em que o autor examinou cartas pessoais, memorandos oficiais, diários íntimos, autos judiciais, notícias de jornal, além de fazer entrevistas e colher depoimentos. O primeiro livro, Getúlio: 1882-1930 – Dos anos de formação à conquista do poder, narra a infância no interior do Rio Grande do Sul, os primeiros contatos com a política brasileira e sua chegada ao poder em 1930.

Já o segundo volume, 1930-1945 – Do governo provisório à ditadura do Estado Novo, dá conta dos 15 anos em que Vargas esteve no Palácio do Catete como chefe do governo provisório, constitucional e, por fim, como ditador.

O último livro, previsto para ser lançado em 2014, trata da volta de Getúlio ao poder em 1950 e de seus derradeiros anos. Lira Neto, para quem o livro pode ser útil aos professores de História por apresentar uma visão polifônica da história do político, concedeu entrevista a Carta na Escola por e-mail.

Carta na Escola – Getúlio Vargas ainda é uma das mais importantes e controversas figuras da história do Brasil. Como nasceu seu interesse em biografá-lo?

Lira Neto – Sempre me inquietou o fato de Getúlio Vargas, esse nome fundamental da história brasileira, não ter sido, até então, alvo de uma biografia moderna e exaustiva. Certa feita, li um texto assinado pela cientista política Maria Celina Soares D’Araújo que tratava exatamente dessa questão. Ela sublinhava que a maior parte dos escritos a respeito da trajetória pessoal de Getúlio situava-se na esfera da ficção, e não da narrativa historiográfica ou jornalística.

CE – Parte dos livros didáticos de História adota um viés marxista de valorizar as estruturas e conjunturas da época em detrimento do indivíduo. Nos seus livros, o indivíduo, o ator, fica em evidência. Por quê? Houve resistência às obras por conta dessa característica?

LN – Uma biografia, por essência, busca compreender como as ações de determinado indivíduo e, ao mesmo tempo, o contexto no qual ele viveu se impactaram mutuamente. Da mesma forma que não faz sentido imaginar a história de um personagem desvinculada da estrutura social, econômica e histórica de sua época, também é empobrecedor compreender a vida desse mesmo indivíduo circunscrita aos limites de determinismos de qualquer espécie. Os dois primeiros volumes da biografia de Getúlio foram recebidos de forma bastante generosa pela crítica especializada, inclusive acadêmica. Um dos maiores historiadores brasileiros da atualidade, Boris Fausto, assina a quarta capa do primeiro tomo. A doutora Maria Celina D’Araújo, a orelha do segundo. O terceiro terá na quarta capa uma recomendação do historiador Kenneth Maxwell, da Universidade de Harvard.

CE – De que maneira os livros podem ser aproveitados, na escola, por professores e alunos nas aulas de História? E quais contribuições a obra pode trazer para o ambiente de sala de aula?

Lira Neto – Penso que o livro pode ser útil na medida em que expõe, digamos, uma visão polifônica da trajetória de Getúlio, fugindo ao maniqueísmo típico que ronda o personagem. A utilização de um conjunto plural de fontes – incluindo charges de época, canções e obras literárias – também pode contribuir para a compreensão da história como algo vivo e pulsante.

CE – De que forma sua formação como jornalista o ajudou na feitura da biografia?

LN – Sempre digo que sou, essencialmente, um repórter. Escrevo longas reportagens históricas. Nesse sentido, valorizo a narrativa e a obrigação de escrever para um público heterogêneo, decodificando conteúdos complexos para um público não necessariamente especializado. O grande desafio para um jornalista é saber transmitir informações e ideias de forma legível e atraente, sem que isso signifique a simplificação do tema e, nesse caso, afrouxar mão no necessário rigor no trato com as fontes históricas.

CE – Existe certo preconceito ou desconfiança por parte de historiadores quando um jornalista se propõe a tarefa de realizar uma biografia histórica?

LN – Certa tensão aqui e acolá ainda existe entre historiadores e jornalistas que trabalham com temas históricos, e não passa disso: preconceito mútuo. Os jornalistas precisam aprender muito com os historiadores sobre o trabalho com as fontes documentais. E os historiadores, talvez, precisem compreender as especificidades do trabalho jornalístico, que sustenta uma preocupação básica com a questão da recepção, isto é, com o leitor. São trabalhos de naturezas distintas, com motivações e alvos diferentes, mas não necessariamente antagônicos.

CE – Apesar de ser, de certa forma, um mito, a busca pela imparcialidade é pilar forte do jornalismo. Diante de uma figura tão controversa e alvo de tantas paixões e ódios como Getúlio, de quais ferramentas o senhor lançou mão para buscar essa imparcialidade?

LN – Obviamente, a objetividade é um mito, uma falácia. Porém, isso não exime o jornalista do dever prioritário de buscar incessantemente a isenção possível. Na prática, isso se estabelece no confronto e na exposição das várias narrativas disponíveis a respeito do que se considera um “fato”. Isso, é claro, pressupõe buscar entender os mecanismos da própria construção social e histórica dos chamados “fatos”.

CE – Na visão de alguns historiadores, mais do que deixar um legado, Getúlio Vargas mora em nossa alma, isto é, contribuiu para a própria criação de nossa identidade como povo e país. E por isso Fernando Henrique Cardoso fracassou em tentar desmontar a Era Vargas. O que o senhor pensa sobre isso?

LN – Como bem escreveu Boris Fausto na quarta capa do primeiro volume da biografia, Getúlio Vargas é, “para o bem e para o mal”, o personagem mais importante da história republicana brasileira. Na quarta capa do segundo volume, o próprio Fernando Henrique Cardoso reconheceu Getúlio como um “estadista”, a despeito do que se pense sobre ele a sua forma de governar e fazer política.

CE – A figura de Lula é muitas vezes comparada à de Getúlio. Como o senhor vê essa comparação?

LN – Não há dúvidas de que, um e outro, Lula e Getúlio, até que se prove o contrário, foram os líderes políticos de maior expressão popular na história do País. Mas é curioso notar que Lula, no período de líder sindicalista, era um antigetulista ferrenho. Então criticava, de forma veemente, a herança histórica dos sindicatos pelegos e atrelados ao Estado, típicos da Era Vargas. Mais tarde, porém, já como presidente, tentou mimetizar a figura nacionalista do Getúlio criador de Volta Redonda e da Petrobras. A foto de Lula com a mão tisnada de petróleo, na época do anúncio do pré-sal, é o melhor exemplo disso. Aquilo era um decalque de outra imagem, a de Getúlio, com a mão estendida e também suja de petróleo, na época da fundação da Petrobras.

Getúlio: personagem em três livros
Getúlio: personagem em três livros

CE – Que imagem o senhor carrega de Getúlio Vargas nos tempos da escola?

LN – Em meus tempos de escola, vivíamos uma ditadura militar, que buscava desconstruir por completo a imagem de Getúlio e de seu principal herdeiro político, Jango. Já na universidade, nos tempos da abertura política, meus professores marxistas também procuravam reduzir a figura complexa do ex-presidente ao ditador do Estado Novo, negando-lhe qualquer virtude ou mérito.

CE – Essa imagem mudou após a produção da biografia? Em que sentido?

LN – Creio que os cinco anos de trabalho nessa biografia ajudaram-me a compreender que é inútil tentar analisar Getúlio a partir de uma visão simplista. A perspectiva ingênua e quase devocional dos getulistas mais sinceros é tão parcial e equivocada quanto a ira dos antivarguistas mais empedernidos.

CE – O que mais o surpreendeu sobre essa figura histórica durante o processo de pesquisa e produção dos volumes da biografia?

LN – Não digo que tenha sido exatamente uma surpresa, mas fascina-me a constatação de que até hoje, 60 anos após sua morte, Getúlio continue gerando tanta paixão, tantos amores e ódios extremados.

CE – Seus livros também se tornaram um grande sucesso comercial, inclusive figurando na lista dos mais vendidos em livrarias. Em sua opinião, por que Vargas e sua biografia ainda chamam tanta atenção do público brasileiro?

LN – Exatamente pelo fato de continuar dividindo opiniões de forma tão apaixonada. A controvérsia a respeito de Getúlio e de seu legado continua atualíssima.

CE – No site promocional dos livros, há uma enquete que pergunta “Para você, quem foi Getúlio?” Gostaria de estender essa pergunta ao senhor: quem foi, afinal, Getúlio Vargas?

LN – Uma das opções à pergunta, na enquete, diz que Getúlio, por sua complexidade, não pode ser definido em uma única frase. Se eu tivesse de responder à minha própria pergunta, cravaria esta opção.

“É preciso oferecer um outro caminho ao país”

Pré-candidato à Presidência da República, o senador Randolfe Rodrigues, do PSOL-AP, concedeu entrevista exclusiva ao Blog Carlos Santos.

Não obstante sua agenda cheia na atividade como congressista e pré-candidato, parou para atender ao Blog.

Randolph Frederich Rodrigues Alves, mais conhecido como Randolfe Rodrigues, nasceu em Garanhuns-PE, em 6 de novembro de 1972.  Mas desde os oito anos de idade que vive no Amapá, onde se formou em História pela Universidade Federal do Amapá e atuou como professor.

Randolfe defende redução drástica no número de ministérios no Governo (Foto: divulgação)

Com formação socialista, foi integrante do PT, mas deixou o petismo insatisfeito com os rumos do partido. Porém pela legenda ele obteve dois mandatos como deputado estadual.

Em 2010, foi o senador mais votado do estado do Amapá com 203.259 votos,tornando-se o mais jovem integrante Senado Federal da atual legislatura.

Em 1° de dezembro de 2013, o PSOL escolheu-o como candidato do partido para a presidência. Derrotou a pré-candidata Luciana Genro, em votação promovida no 4° Congresso Nacional do partido.

Veja abaixo, um rápido pingue-pongue com o senador, sobre temas nacionais pertinentes.

O Brasil vive há décadas sob a batuta de partidos e forças econômicas poderosas, que se acusam, se digladiam e prometem mudanças. Como o Psol pode ser, de fato, mudança a esse modelo plutocrático, oligárquico e reducionista?

Randolfe Rodrigues – A população brasileira, especialmente os jovens, ocupou as ruas em junho do ano passado demonstrando claramente um cansaço com esta forma de fazer política. É um duplo cansaço. De um lado, por que a democracia formal virou sinônimo de negociatas, corrupção e toma-lá-dá-cá entre os grandes partidos. De outro lado, os serviços públicos são precários e a sensação de que pagamos impostos e não somos recompensados é evidente. Quero oferecer ao povo brasileiro a oportunidade de virar esta página de nossa história.

Quero inaugurar uma nova governabilidade, baseada na participação direta do cidadão. No meu governo, pela primeira vez na história recente, figuras como Sarney e tantos representantes da oligarquia estarão na oposição.

Sempre se fala na necessidade de “governabilidade”, na relação perniciosa – histórica – entre Executivo e Congresso Nacional. O Psol, no comando do país, tem como enfrentar velhas práticas com visão tão excludente de alianças e de coabitação com contrários?

RR – A atual governabilidade aprisionou o país aos interesses particulares, seja aquele dos caciques da política, seja de grupos empresariais que financiam candidaturas e, após eleição, recebem os dividendos deste investimento. É possível governar de forma diferente? Não somente é possível, como é uma demanda da sociedade. Governaremos respeitando o parlamento, mas pondo fim ao toma-lá-dá-cá. O parlamento precisa cumprir sua obrigação de fiscalizar o executivo e estar atento aos anseios da sociedade.

O que pode ser feito de forma diferente, no Executivo do país?

RR – No primeiro dia de mandato encaminharei ao Congresso uma proposta de reforma política que, dentre outras providências, acabe com o financiamento empresarial de campanha, garanta participação direta dos cidadãos nas decisões cruciais para o país e torne mais transparente e eficiente o controle da sociedade sobre os recursos públicos. E uma providência imediata será acabar com tantos ministérios (39 no Brasil e 15 na França), fruto desta governabilidade e não de exigências sociais. E iremos reduzir drasticamente o número de cargos comissionados, valorizando os funcionários de carreira.

O Brasil viveu a era dos “tucanos” e nos últimos anos convive com ciclo da “estrela” do PT? Que contribuição os dois deram, de fato, à construção de um Brasil moderno e capaz de reduzir uma de suas principais chagas, as desigualdades sociais?

RR –  Não posso afirmar que não melhorou nada em nosso país. Seria equivocado de minha parte, mas anos de governo tucano e petista guardam coerência entre os dois períodos. Os tucanos privatizaram nossas empresas estratégicas e os petistas continuaram privatizando rodovias e portos. Os tucanos quebraram o monopólio da Petrobrás e os petistas continuaram desmantelando a empresa e entregaram o pré-sal pro capital internacional. Os dois blocos mantiveram uma política econômica semelhante, reservando metade do que o povo brasileiro paga de impostos para agradar cinco mil famílias credoras de nossa divida pública e reservaram migalhas para pagar a divida social.

Randolfe (dia 19 de maio deste ano, ao lado do vereador Marcos do Psol (Natal), é entrevistado na redação do Jornal de Hoje (Foto: Jobson Galdino)

Esse modelo pouco acrescentou algo positivo ao país?

RR – A persistência da desigualdade regional é um bom exemplo de como esta política fez pouco pelo país. Temos demandas que estão bloqueadas desde antes da ditadura, como a questão agrária. É preciso oferecer um outro caminho.

Caso os brasileiros estejam satisfeitos com a política e com a economia podem votar em um dos 3 candidatos representantes do que está aí. Se quiserem mudar de rumo, ofereço o meu nome.

“O que não podemos permitir é a ditadura da ilegalidade”

Por Bruno Barreto (O Mossoroense)

O juiz José Herval Sampaio Júnior (Herval Júnior) se notabilizou nas eleições de 2012 por fiscalizar in loco as movimentações políticas e ter preocupação com o tamanho dos adesivos nos carros de apoiadores dos candidatos. Ele atuou com rigidez no pleito e cassou os registros de candidatura das duas principais candidatas. Nesta eleição, ele analisa as consequências dessas decisões nas eleições suplementares.

Eleição viciada precisa ser anulada, deixa claro o juiz eleitoral na entrevista a Bruno Barreto (Foto: Cézar Alves)

O MossoroenseApós as eleições de 2012 o senhor cassou as duas principais candidatas. Isso lhe tornou um herói para uns e vilão para outros. Como o senhor lida com isso?

José Herval Sampaio Júnior – Não me considero nem um nem outro. Fiz o meu trabalho fazendo valer sempre o que preconiza a nossa Constituição e as leis eleitorais do país, mesmo sem concordar pessoalmente com algumas, todavia como juiz não me cabe impor os meus valores pessoais, logo vejo minha atuação nesses processos eleitorais como normal e se as pessoas me veem como herói ou vilão é um direito de acharem como queiram, desde que respeitem a nossa honra e imagem e a própria instituição da Justiça. Arrematando lido com essa situação com muita tranquilidade e sensação do dever cumprido.

O senhor sente nesse pleito suplementar uma mudança de comportamento dos candidatos num comparativo com 2012?

HJ – Sinceramente sinto, mas ainda não o suficiente, com todo respeito que tenho à classe política, pois ainda estamos muito arraigados numa cultura de assistencialismo muito grande, logo a ideia de que os mandatos são comprados em sua grande maioria persiste e isso deve ser banido da prática eleitoral e para tanto precisamos conscientizar também o povo de que este tanto quanto o político comete o crime de captação ilícita de sufrágio (compra de voto). Precisamos realmente fazer uma campanha de divulgação em massa, em especial para a classe mais pobre a fim de que as pessoas valorizem o seu voto, cobrando dos candidatos propostas que possam melhorar a coletividade e não vantagens econômicas. Mas no geral afora essa linha houve uma preocupação bem maior dos candidatos quanto ao receio em descumprir a legislação eleitoral e isso é muito positivo. Uma grande evolução que não pode parar.

Existe uma polêmica muito grande porque o senhor liberou Larissa Rosado para fazer propaganda e Cláudia não. Porque essa diferença?

HJ – A diferença conforme deixei bem clara em nossas decisões é gritante. E se agisse igual para ambas estaria desrespeitando à própria isonomia. Cláudia Regina, com todo respeito que pessoalmente lhe nutro foi quem deu causa à nulidade das eleições passadas e quem lhe tirou do processo foi o TRE, a priori com a textualização clara de um dispositivo na resolução que rege as presentes eleições, logo sequer recebi o seu registro, apesar de isso ter acontecido por sua patente inelegibilidade em 12 processos até agora. Já a candidata Larissa, que também pessoalmente lhe respeito, cometeu ilicitudes confirmadas por órgão colegiado que lhe culminou inelegibilidade, todavia não deu causa à nulidade das eleições, logo teve seu registro recebido, mas indeferido de plano por essa circunstância, sendo lhe assegurado um direito patente na lei das eleições de continuar a campanha por sua conta e risco, mesmo após a Lei da Ficha Limpa, segundo jurisprudência do TSE. Mas repito: da mesma forma não pode ser candidata segundo a nossa decisão. Apesar de pessoalmente não concordar, como enfatizei, na decisão é um direito seu que não podia lhe ser negado e foi para a outra candidata porque, repito, ela deu causa à nulidade das eleições e tal fato segundo jurisprudência remansosa do TSE, lhe retira tal direito, pois sequer deveria ter requerido o registro. Além do mais em que pese ambas serem inelegíveis, a primeira candidata teve 10 condenações a mais e será que por essas peculiaridades deveria ter o mesmo tratamento?

Para o senhor e o TRE, a mídia mossoroense praticou exageros na campanha de 2012. Há uma mudança comportamental por parte de nós?

HJ – Não queria tratar desse assunto da eleição passada e dos reflexos das nossas decisões pela mídia mossoroense. Todos sabem o que passamos e resolvi não me defender. Fiz meu trabalho e minhas decisões falam por si sós.

O senhor acredita que a partir de agora os políticos mossoroense vão ser mais cautelosos nas eleições?

HJ – Não tenho a menor dúvida e isso é positivo e na realidade já está acontecendo na presente eleição e todos devemos nos orgulhar de cumprir a legislação e, por conseguinte, as decisões judiciais, mesmo que pessoalmente não se concorde e até possamos criticar. Recebemos crítica de que estamos numa ditadura jurídica e isso não é verdade, pois na realidade cabe ao Poder Judiciário a última palavra sobre lesão a direito, logo se a vontade do povo foi viciada é mais do que natural que seja anulada e se não deve ser assim, prevalecendo como absoluto a soberania popular que acabem com as leis eleitorais e de quebra extingam também a Justiça Eleitoral. Logo, o que não podemos permitir é a ditadura da ilegalidade.

Seu, digamos, mandato no TRE termina dia 7 de maio.  Há a possibilidade de ficar mais dois anos no cargo?

HJ – De modo algum. Fiz a minha parte. Outro valoroso colega continuará essa missão e isso também vejo como positivo a alternância após prazo preestabelecido.

Estamos a uma semana da eleição e tivemos um processo de revisão biométrica. Quem está habilitado a votar?

HJ – Somente os eleitores que formalmente se encontravam como tais em 05 de dezembro do ano passado e fizeram a biometria até o dia 23 de abril.

O senhor foi criticado por fiscalizar in loco as candidaturas. Por que os outros juízes não fazem isso?

HJ – Respeito incondicionalmente o modo de agir de meus colegas, contudo entendo como imprescindível a presença do Juiz Eleitoral em todas as fases do processo, logo também exijo respeito a essa nossa posição por parte da sociedade, já que quem me conhece sabe que gosto de realizar as tarefas pessoalmente e somente assim não ajo quando impossível. O poder de polícia exercido nessa forma vejo como mais eficaz tanto na seara preventiva como repressiva no combate às ilicitudes eleitorais.

O senhor e a juíza Ana Clarisse Arruda chegaram a ser atacados por militantes nas redes sociais. Incomoda não ter o trabalho compreendido?

HJ – Se eu responder que não, estarei mentindo. A gente sente pessoalmente já que fizemos o nosso trabalho fazendo valer a Constituição e as leis eleitorais do país e não os nossos valores pessoais, e mesmo assim somos ofendidos muitas vezes pessoalmente, e o pior: a nossa instituição. Precisamos mudar essa realidade. Infelizmente a sociedade como um todo se enfraquece com essas ofensas, já que a cultura dos valores realmente democráticos são também ofendidos. Uma verdadeira inversão de valores e oportunamente, por óbvio, tomaremos as devidas providências e nos sentimos muito felizes com as notas de apoio que foram feitas pelos Promotores Eleitorais e de Justiça, bem como pela Amarn (Associação dos Magistrados do RN) e todos os nossos valorosos colegas juízes de Mossoró. Sem adentrar ao mérito por óbvio dos processos que julgamos, os colegas sabem de nosso zelo na condução dos mesmos e o respeito à Constituição e às leis, logo o nosso interesse sempre foi cumprir da melhor forma possível esse difícil encargo que é julgar e em especial os feitos eleitorais, pelo patente acirramento entre as postulações e suas militâncias.

Como o juiz Herval lida com os que dizem que o senhor gosta de aparecer?

HJ – De modo muito natural, pois os que me conhecem sabem que sou assim mesmo expansivo e que a comunicação é uma de minhas armas. Tanto é verdade que por muito tempo apresentei programa de televisão e rádio e só saí justamente por essa minha atuação no eleitoral, logo os que dizem que gosto de aparecer estão nos elogiando, pois com essa aparência cumpro fielmente o dever de informação ao povo sobre os processos e as atividades da Justiça Eleitoral, bem como ajo com conscientização anterior da sociedade e da classe política sobre o que pode e o que não pode. Através da mídia e das redes sociais utilizei o espaço a serviço da coletividade e se exagerei em algum momento, peço as minhas devidas escusas, mas nunca houve má-fé e nem desejo de ficar aparecendo como sou criticado e isso faz parte. Se apareço segundo os críticos é porque estou trabalhando e se me atacam pessoalmente deve ser porque faltam bons argumentos para combater as minhas decisões.

* Esta entrevista foi originalmente publicada pelo jornal O Mossoroense no dia 27 de abril de 2014.

Reeleição de Rosalba Ciarlini não é prioridade no DEM do RN

Do jornal Tribuna do Norte

O Democratas no Rio Grande do Norte caminha para uma aliança com o PMDB, PR e PROS. A sinalização é do presidente estadual do partido, o senador José Agripino Maia. Ele confirmou que a prioridade do partido é a eleição proporcional e destacou que a definição é nacional. Sobre o pleito local, o senador disse que os deputados estaduais (José Adécio, Getúlio Rego e Leonardo Nogueira) e federal (Felipe Maia) já expuseram o desejo de compor proporcional com alguns partidos que integrem o palanque do PMDB.

José Agripino não tem conversado com Carlos Augusto e defende direito de Henrique Alves ser candidato (Foto: Magnus Nascimento)

Sobre a reeleição da governadora Rosalba, José Agripino é cauteloso, diz que o rumo do partido será tomado pela Executiva estadual, mas reconheceu que, em caso de lançar uma chapa majoritária, o DEM não tem aliados para compor o palanque. “Não vejo parceiros de expressão em vista para eleição majoritária”, destacou. Enaltecendo os aliados do PMDB, José Agripino considerou legítima a candidatura própria dos peemedebistas ao Governo e destacou: “O nome tem que ser Garibaldi (Garibaldi Filho) ou Henrique (Henrique Eduardo Alves)”.

Embora evite críticas ao governo Rosalba, o líder do DEM lembra que havia tudo para acertos, mas admite que a chefe do Executivo cometeu equívocos, um deles foi perder o apoio do PR e do PMDB. “O que está faltando ela (Rosalba Ciarlini)? É difícil encontrar (um motivo) porque, para mim ,Rosalba tinha tudo para ser uma grande governadora, porque ela foi uma grande prefeita, uma senadora que se destacou, ganhou eleição no primeiro turno, tinha suportes muito bons. Mas, infelizmente, falhou”, comentou. Nesta entrevista, o senador fala sobre o projeto nacional do DEM, destaca que a definição sobre o rumo no Rio Grande do Norte será da executiva nacional e ressaltou que a eleição proporcional é a prioridade do partido.

Tribuna do Norte – A aliança com o PSDB nacional está consolidada?

José Agripino – O deputado Ronaldo Caiado, que é uma das melhores expressões do nosso partido, manifestou desde 2013 o desejo ou colocou o nome dele para sondagem do partido como pré-candidato à presidência. Ele próprio teve oportunidade de conversar com os colegas deputados e de sentir a receptividade e perspectiva de viabilização do objetivo de candidatura presidencial. E ele percebeu que a candidatura prejudicava as alianças, porque imobilizava para as alianças possíveis nos Estados, que viabilizarão a eleição de 35 a 40 deputados federais e até seis ou oito senadores. Os mais simpáticos a candidatura de Ronaldo Caiado, na última reunião do partido, já afirmaram que ele (Ronaldo Caiado) pré-anunciava que seria candidato ao Senado pelo Estado de Goiás. Com o partido não tendo candidatura a presidente, o que se vislumbra é a aliança para o plano nacional.

O Democratas se encaminha para o palanque de Aécio Neves?

JA – Encaminha-se, sim, mas não está definido. Até porque eu coloquei como pré-condição para formação de aliança (com o PSDB) que vai dar o nosso tempo de rádio e televisão (para o PSDB) as alianças convenientes ao partido (DEM) nos Estados. Há uma série de demandas que estão em curso e, nesse momento, sinalizam sim para uma eleição com o PSDB, mas essas conversas
têm que ser concluídas para quea eleição se pragmatize.

Ou seja, a definição do Democratas nacional é priorizar a proporcional para reerguer o partido?

JA – Isso. Assim como esse fato acontece no plano nacional, ele remete ao plano estadual. São os mesmos modelos.

Nessa reunião, na qual foi definida a prioridade para eleiçãoproporcional, algum outro potiguar do DEM, além do senhor, participou?

JA – Eu e o ex-deputado Carlos Augusto Rosado, que é o presidente do diretório municipal do partido em Mossoró.

A prioridade do Democratas para proporcional colide com o projeto de reeleição da governadora Rosalba Ciarlini, que vem sendo já sinalizado por ela?

JA – Não sei se colide ou não colide. Até porque nas conversas que eu tinha com Rosalba há algum tempo atrás, ela me dizia que postularia a candidatura à reeleição se estivesse em condições reais de disputar. Não sou candidato a nada nessa eleição, mas tenho a responsabilidade de presidir o partido nacionalmente e estadualmente. E preciso da eleição dos nossos deputados. Tenho que pensar também neles. Então tenho a obrigação de entregar a decisão sobre candidatura própria ou aliança aos que são candidatos. Quem é candidato? José Adécio, Getúlio Rego, Leonardo Nogueira são candidatos à reeleição, Felipe Maia é candidato a reeleição. Se Rosalba quiser ser candidata coloque a postulação dela e a gente vai avaliar, consultando o partido, os prefeitos, os vice-prefeitos, as lideranças do partido sobre a conveniência, no diretório estadual, da candidatura ao Governo, que teria as mesmas conseqüências. Quem seriam os aliados? Qual seria aliança na proporcional para viabilizar a reeleição dos deputados federais e estaduais? Temos uma defecção, o deputado Betinho Rosado nos deixou. Temos só um deputado federal e precisamos manter nossa estrutura e crescer. Temos candidatos novos a deputado estadual com expressão eleitoral e temos a obrigação de oferecer condições de aliança, de soma de voto por coligação, que viabilize a eleição. Isso eles (os deputados) têm direito de opinar. Isso vai ocorrer na hora própria em uma reunião no diretório estadual, que vai definir. Se houver a pretensão de candidatura a reeleição (de Rosalba Ciarlini) o partido vai se reunir e pelo seu diretório estadual vai definir qual a melhor conveniência para o crescimento ou preservação do partido no Rio Grande do Norte, como no plano nacional.

Quem define o rumo do DEM é o diretório estadual? É uma espécie de prévia?

JA – Não é prévia. O diretório estadual, se aparecerem teses de candidatura própria ao Governo ou alianças com outras candidaturas, o diretório estadual decidirá, assim como a executiva nacional vai decidir sobre qual a tese prevalente. Entendendo que, em qualquer circunstância, você tem uma última instância que é a convenção estadual ou nacional.

Quem decidirá o destino do DEM no Estado será a Executiva estadual? Ela é que tem esse poder?

JA – Claro que tem. A executiva estadual tem poderes, só não tem poderes mais do que a convenção. Mas a executiva estadual tem poderes para deliberar, é ela quem fala pelo partido. A executiva traduz a expressão do partido.

Mas, ainda assim, poderá ir para a convenção duas teses a serem definidas?

JA – Nada impede. A executiva estadual sinaliza a vontade do partido. Se a executiva definir uma coisa que conflite com o interesse de alguns, a democracia reserva a instância da convenção.

O senhor disse que em uma das últimas conversas que teve com a governadora, ela afirmou que seria candidata se “estivesse condição de reeleição”. Na sua visão, Rosalba está em condição de reeleição?

JA – É muito difícil dizer isso. Não tenho, feita pelo partido, nenhuma pesquisa de opinião. Agora o grande instrumento de avaliação, de possibilidade, é pesquisa de opinião feita um pouquinho mais para frente e avaliar se a governadora estaria em condição de pleitear ou não. Pelos dados que foram exibidos por pesquisas divulgadas há pouco de tempo, a condição dela não é confortável.

O senhor tem conversado com a governadora ou com o ex-deputado Carlos Augusto?

JA – Não tenho.

Faz quanto tempo que o senhor não conversa com eles?

JA – Nada impede que conversemos a qualquer hora, mas não tem havido oportunidade de conversarmos.

Há, de fato, um distanciamento do senhor da governadora e do ex-deputado Carlos Augusto Rosado?

JA – Desde o começo do governo me coloquei o tempo todo à disposição dos interesses do Estado do Rio Grande do Norte através da interpretação da governadora e me mantenho nessa mesma disposição. Sempre que ela precisa de mim, sabe que encontra um guardião dos interesses do Estado. É só ser procurado.

O senhor concorda que a governadora tem sinalizado para um projeto de reeleição pela agenda que adota e pelo discurso?

JA – Não sei, uns me dizem que sim, outros que não. Prefiro dizer que não sei. E se houver essa pretensão ela será remetida à executiva estadual. O papel que me cabe como dirigente estadual do partido é fazer a avaliação por aqueles que falam pelo partido e que têm interesse, os três deputados estaduais, o deputado federal haverão de colocar sua argumentação e tentar convencer em um rumo e outro. Democraticamente, quem vai decidir não é o presidente do partido. A lógica, o bom senso é quem conduz e remete a definições. Não sei o que pensarão os três deputados estaduais e um federal se uma candidatura ao governo engessaria de tal forma as alianças partidárias que poderia até inviabilizar suas próprias reeleições. Esse é um assunto que se for provocado pela tese da governadora de candidatura à reeleição será colocada para deliberação da executiva estadual.

O senhor tem conversado com o PMDB, com o PR. Essas conversas remetem à aliança do Democratas com esses dois partidos?

JA – Quem levou, quem trabalhou, quem se esforçou para levar o apoio de pessoas que não votaram em Rosalba, mas apoiaram o seu governo? Fui eu, com João Maia, com Henrique (Eduardo Alves). Tenho uma proximidade com eles de muito tempo. Tenho uma relação muito positiva e muito robusta com o PMDB de Garibaldi Filho e Henrique, com o PR de João Maia, com o PSDB de Rogério Marinho e Aécio Neves, com o PROS de Ricardo Motta. Tenho uma relação com essas forças todas e tenho estado dentro das conversas desse grupo.

Falando em hipótese, o Democratas, partindo para candidatura majoritária com Rosalba Ciarlini, quais seriam os prováveis partidos aliados?

JA – Infelizmente, não vejo. Não vejo parceiros de expressão para eleição majoritária.

A governadora Rosalba, sua aliada, vem enfrentando dificuldades na administração. Em que ou onde ela está errando?

JA – Eu preferia olhar outro lado, qual o papel dela? Vejo nela uma mulher esforçadíssima, dedicada, trabalhadora, incansável, mas ela tem cometido equívocos. A perda do apoio do PR, do PMDB, por mais recomendação foi uma coisa negativa para o governo dela. O que está faltando a ela? É difícil entender porque, para mim, Rosalba tinha tudo para ser uma grande governadora. Ela foi uma grande prefeita, uma senadora que se destacou, ganhou eleição no primeiro turno, tinha suportes muito bons. Mas, infelizmente, falhou. Não sei, exatamente, a que atribuir. Agora sei sim que a aposta que fizemos no nome dela era respaldada no caminho só de sucessos. Infelizmente, não tenho um raciocínio pronto para justificar porque a governadora não vai bem como eu gostaria que ela estivesse indo bem.

O senhor já foi aliado e oposição à vice-prefeita Wima de Faria. Haveria hoje reaproximação com a vice-prefeita?

JA – Não tenho conversado com Wilma. Cumprimento quando me encontro com ela em evento.

Mas o PMDB conversa e negocia com ela uma aliança. O Democratas, em caso de aliança com o PMDB, apoiaria Wilma de Faria para o Senado?

JA – Vejo com naturalidade.

O DEM poderia apoiá-la para o Senado?

Rosalba e Henrique: preferência de Agripino é clara (Foto: Demis Roussos)

JA – Na hora em que a tese da aliança for colocada para avaliação dos que vão decidir, claro que vai ser colocada a hipótese de candidatura própria, se for colocada, e aliança com A, B e C. A decisão não será de José Agripino, mas dos protagonistas que são do partido e se submeterão a voto agora em 2014.

De todos os partidos que o senhor tem conversado, o único que já definiu candidatura própria é o PMDB. Como o senhor avalia essa pretensão? Quem seria o potencial nome do PMDB?

JA – Essa definição cabe ao PMDB, não cabe a mim dizer que o candidato ideal é A, B ou C. O PMDB aspirar a candidatura própria ao Governo é legítima porque o partido cresceu bastante no Estado. O PMDB, pelas funções que ocupa — Garibaldi ministro e Henrique presidente da Câmara — conseguiu fazer um bocado por aquilo que é interesse do Estado. Isso fortaleceu Garibaldi e Henrique e ao partido PMDB. Em função disso, dessa conjugação de fatores, o PMDB tem legitimidade para pleitear candidatura própria.

E quem seria o candidato?

JA – Tem que sair da dupla Garibaldi ou Henrique.

E o ex-senador Fernando Bezerra?

JA – É um nome bom, mas entre ser um nome bom e ter condição de ganhar a eleição tem uma distância. O candidato tem que ter elementos políticos e eleitorais importantes. Tenho com ele (Fernando Bezerra) relação confortável. Se ele for o candidato terá que mostrar condição política, que é o mais fácil, e condição eleitoral, que é mais complicada, para ganhar a eleição. O PMDB não vai entrar na disputa sem avaliar muito bem as chances de vitória.

O deputado Henrique Eduardo Alves é o nome?

JA – O deputado Henrique tem o direito de pensar em ser candidato a governador, por toda sua história, pelo espírito público que tem demonstrado com as causas do Estado. Ele tem o direito de pensar nisso.

Algum desgaste pela reportagem veiculada no jornal O Estado de São Paulo, que mostrou gastos do senhor, de R$ 50 mil, no plano de saúde do Senado para um tratamento dentário?

Nenhum. Até porque o que houve foi o uso de um direito. Eu tenho uma cota anual para tratamento médico ou dentário. Não houve reparação estética. O que houve foi reparação estrutural. Eu tive um problema sério de recomposição de toda base dentária que foi ao longo de quase dois anos refeita. Todo trabalho que foi feito foi para recuperação de um trabalho mal feito que não foi feito por dentista do Estado. Quando fiz com dentista do Estado foi tudo muito bem feito, mas quando eu fiz em Brasília foi mal feito e me levou anos depois a ter que recompor. Usei o que o Senado dá direito, desde que tenha problema de ordem médica.

Gilton Sampaio prega reforma em estatuto da Uern

O professor Gilton Sampaio é o nosso entrevistado de hoje, completando a série de pingue-pongue com candidatos a reitor da Universidade do Estado do RN (UERN). Ele possui graduação em LETRAS (UERN/Pau dos Ferros) e especialização em Didática do Ensino Superior, mestrado em Linguística Aplicada e doutorado em Linguística e Linguística Portuguesa. Desenvolveu estágio de pós-doutorado em Estudos Comparados pela Université Paris 8 Vincennes-Saint-Denis na França.

Gilton defende decisões em conjunto com setores acadêmicos na Uern

Exerceu liderança no Movimento Estudantil da UERN, de 1988 a 1992, sendo Representante do DCE em Pau dos Ferros e, por duas vezes seguidas, Presidente do CA de Letras naquele Campus. Em gestão acadêmica, exerceu as funções de Chefe do Departamento de Letras (2003-2007), Coordenador das Especializações em Linguística Aplicada e Língua Inglesa (2004-2005); Coordenador do Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Letras (2007-2008) e Diretor do Campus Avançado de Pau dos Ferros (2007-2011 e, em segundo mandato, desde 2012), sendo eleito democraticamente pelos pares para todas essas funções de gestão. Vamos à entrevista:

Blog Carlos Santos – Sua campanha é de clara oposição à atual gestão e ao modelo que ela representa. Sua postulação – com apoio do vice Lúcio Ney – é uma alternativa diferenciada e melhor por quê?

Gilton Sampaio – Sim, propomos um novo modelo de gestão, um modelo descentralizado, desburocratizado, funcional e acadêmico, no qual as decisões sejam tomadas em conjunto com as unidades acadêmicas, os campi avançados e os órgãos colegiados, e não em gabinetes fechados, tendo a caneta de um Pró-reitor mais poder que uma Unidade ou um Campus inteiro. Nossa proposta se torna diferenciada porque foi implantada e aprovada; implantamos em Pau dos Ferros, como diretor, um modelo descentralizado, tanto na parte administrativa como na parte acadêmica.

Na nossa gestão os departamentos acadêmicos ganharam poderes, matrículas, diários, declarações de alunos, assinatura de pontos dos professores. Antes centralizados na direção, passaram a ser de responsabilidade e acompanhamento dos departamentos; estabelecemos parcerias com instituições públicas e privadas em prol de melhorias para o CAMEAM e também como forma de contribuir para o desenvolvimento da região, como no caso da luta pelos Campi do IFRN e da UFERSA. Reforçamos ainda nosso espírito de luta e de mobilização que pode ser exemplificado na luta pela conclusão do Bloco Vertical com três pavimentos, o único da UERN que começou a ser construído em 2009 e está em pleno funcionamento desde 2010, os demais estão com obras paradas, em estado de deterioração.

BCS – O senhor tem uma experiência administrativa no Campi de Pau dos Ferros e larga vivência como docente da UERN, bem como no prélio sindical. Do outro lado da mesa, como reitor, como conciliar deveres institucionais com necessidades das categorias funcionais?

GS – Nossa experiência Administrativa e de participação nos movimentos discente e docente nos qualifica para assumirmos a reitoria e mudarmos a situação ‘anêmica’ em que a UERN se encontra. Um dos princípios da nossa gestão é a Indissociabilidade entre ensino pesquisa e extensão como pilar para termos uma Universidade de qualidade. Entretanto, para alcançarmos tal objetivo precisamos de profissionais bem remunerados, bem capacitados, além de um ambiente acadêmico e as condições de trabalho necessárias para que os docentes e os técnicos possam desenvolver suas atividades sem percalços e para que os alunos possam de fato ter acesso a um ensino de qualidade.

De modo que não há uma contradição entre os “deveres institucionais” e as “necessidades das categorias funcionais”; pelo contrário, existe sim uma complementariedade entre os dois. Ao sonharmos e buscarmos uma Universidade de qualidade precisamos antes de tudo valorizarmos nossos recursos humanos, tanto em termos de lutar pela implantação de um plano de cargos, carreiras e salários condizentes com sua atuação profissional, quanto em garantir a capacitação de docentes e técnicos.

BCS – O senhor prometeu – em encontro com estudantes – meios para apoio a residências universitárias, restaurantes, transportes, bolsas remuneradas etc. Como tornar isso factível numa universidade que não tem autonomia financeira?

GS – Vamos assumir esse compromisso com recursos do orçamento estadual e federal, com base num projeto estruturante para a UERN, articulado com os segmentos acadêmicos, com a sociedade civil e com os poderes públicos. Garantir o acesso e a permanência dos estudantes em nossa Universidade será questão de honra para nossa gestão. A luta dos nossos estudantes por Residências e Restaurantes Universitários, por transporte coletivo, por condições adequadas ao ensino aprendizagem é histórica, foi pauta inclusive das últimas greves. Não podemos ficar esperando apenas pelo Orçamento do Estado, que além de insuficiente é imprevisível, nunca se sabe de fato quanto de recursos teremos de fato, nem quando serão liberados.

É preciso captar recursos externos, existem recursos e editais disponíveis em diversos Ministérios, Órgãos públicos e outras Instituições, agora é preciso buscar. Já temos alguma experiência em captar recursos externos, apesar da burocracia uerniana, criar muitas vezes obstáculos para a efetiva utilização desses recursos. Dois exemplos recentes: o Museu de Cultura Sertaneja efetivado com recursos ganhos em edital do Ministério da Cultura, e os recursos do CT Infra para a construção da Biblioteca de três pavimentos no CAMEAM, edital de 2009, este ainda hoje esperando sua efetivação.

BCS – Caso seja eleito, o senhor pretende viabilizar a isonomia entre os segmentos no peso dos votos a reitor e vice, em relação ao próximo pleito? E como viabilizar a autonomia financeira da UERN? Em toda campanha a reitor esses são temas recorrentes e nunca materializados.

GS – Na verdade, não só esses, mas outros assuntos de interesse da comunidade ueniana têm sido postos sempre na campanha e os eleitos nunca os executam. E observe que são mais de 44 anos de continuísmos. Daí porque pretendemos mudar esse modelo de gestão na UERN. Em relação ao voto paritário, essa é uma luta histórica, faz parte da minha identidade enquanto estudante da UERN. E como professor sempre defendemos a isonomia entre os segmentos em todas as instâncias. Essa proporcionalidade é desigual e vergonhosa numa sociedade democrática. Inclusive articulamos junto a alunos e funcionários a aprovação do voto paritário no último processo estatuinte, tanto nos processos eleitorais, como na composição dos conselhos e demais órgãos colegiados da nossa instituição.

É compromisso nosso, de Gilton Sampaio e Lucio Ney, como Reitor e Vice-reitor, retomar logo na segunda reunião do CONSUNI, a reforma do Estatuto da UERN com base no último processo estatuinte. Quanto a Autonomia Financeira, também é um princípio da nossa carta-programa e será bandeira de luta da nossa gestão, não apenas a autonomia financeira, mas a autonomia plena (política, didático-científica, administrativa, financeira e de gestão) que obedeça ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão e atenda aos anseios da comunidade acadêmica. Como conseguir?

Através da articulação com os segmentos acadêmicos, com a classe política (independente de partidos e siglas) e com a sociedade civil organizada, a UERN está em todo o Rio Grande do Norte, seja através dos Campi ou dos Núcleos, precisamos unir forças em prol de uma UERN que proporcione um ensino de qualidade, que tenha projetos de pesquisa e extensão que atenda aos anseios da sociedade, para isso precisamos de uma Universidade Autônoma.

BCS – A Uern é muito criticada por não ter uma inserção social conforme às demandas da sociedade. Às vezes, parece ignorar o que acontece à sua porta. A instituição deixou de ser atuante, preocupada apenas com seu próprio “umbigo”?

GS – A UERN hoje está presente em todas as regiões do Rio Grande do Norte. Mas ela poderia ser mais presente também em termos de formulação de políticas públicas, por exemplo. Entretanto, problemas como a falta de autonomia das unidades, problemas de financiamento da pesquisa, da pós-graduação e da extensão, tem tornado a inserção da UERN na sociedade cada vez mais difícil. Acrescente a isso outras questões, como: qual é a política efetiva e o debate de questões centrais para educação básica, conduzidos pela UERN? Qual é a nossa política para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte?

Nós temos profissionais em diversas áreas que podem ser aproveitados e junto a outros, de outras instituições, pensarem, articularem e implementarem projetos diferentes para uma sociedade diferente, mais democrática, mais ética. É preciso atuar de forma mais concreta na construção de uma sociedade melhor para todos nós cidadãos. A UERN não é a-sociedade; ela não é anti-social. Pelo contrário. Ela é um espaço privilegiado de relações sociais, de projetos coletivos, de produção e de disseminação do conhecimento. E vamos dar maior visibilidade a essas questões também, que muito beneficiará a sociedade.

BCS – Na atual gestão do Governo do Estado, a UERN bateu recorde negativo: chegou à greve de maior duração, com 106 dias. Instituição e governadora Rosalba Ciarlini (DEM) estão longe de uma convivência serena. O senhor tem os meios para aplacar essa crise?

GS – Articulação dos segmentos acadêmicos em torno dos interesses da UERN e diálogo sério, transparente e aberto com o governo e com os demais poderes do estado é o caminho. Nosso Estado está vivenciando um momento muito difícil, o Governo que aí está não tem atendido às demandas da população, aos anseios da sociedade que o elegeu. Na UERN em particular, temos a histórica partidarização dos reitores, que são filiados a partidos políticos, e isso não tem trazido nenhum benefício para a Instituição; houve um Reitor que era amigo do Governo e saiu criando núcleos e campi sem estrutura nenhuma e sem discussão interna nos conselhos; outro reitor é inimigo do governo e por isso não dialoga, não busca soluções para os problemas da Universidade.

Gilton Sampaio e Lúcio Ney formam chapa de oposição

A UERN precisa de um Reitor que se coloque acima dos partidos políticos, um Reitor que tenha autonomia para lutar pelo melhor para a UERN. Essa será a nossa forma de gestão, nosso partido é a UERN, buscaremos unir todas as bandeiras, estabelecer amplos diálogos com todos os partidos a favor da Universidade.  Já fizemos isso diversas vezes, quando fomos coordenadores do Fórum para a implantação dos novos cursos no CAMEAM, quando participamos da luta para a implantação dos Campi do IFRN e da UFERSA em Pau dos Ferros.

BCS – Sua campanha tem apontado interveniência da Reitoria, com uso de meios da instituição, para desequilíbrio do pleito. A disputa está viciada e pode ter um resultado final comprometido?

GS – Lutar contra um grupo que vem se perpetuando no poder há décadas não é fácil. A propaganda institucional que durante meses elevou o seu nome à frente da Pró-reitoria de pesquisa e pós-graduação, mesmo que para isso fosse necessário apagar o brilho dos pesquisadores. Daqueles que são realmente os que elaboram os projetos de mestrado e doutorado, bem como os editais para a busca de recursos externos. Some-se a isso a campanha de calúnia e difamação a minha pessoa e a perseguição aos colaboradores da nossa campanha.

A despeito disso, os apoios e adesão são em grupo e diariamente; estamos confiantes na vitória, temos andado por todo o Estado e recebido apoios em todos os Campi, unidades e setores pelos quais temos passado. Sentimos que os professores, alunos e servidores técnicos e de apoio estão cansados de promessas não cumpridas; o sentimento de mudança é predominante, o sonho de uma UERN melhor, descentralizada, equitativa, mais democrática, mais acadêmica e funcional tem tomado conta de todos os segmentos.

A onda da nova UERN, descentralizada, democrática, funcional e transparente, que emergirá do Campus Central está tomando conta de Mossoró e de todo o estado. Será uma nova UERN dirigida por dois filhos seus. Fui aluno de Pau dos Ferros e do Campus Central. Sei o que é vir da zona rural para a UERN em carros desconfortáveis e sei o que é “pegar carona” na Cobal para poder chegar ao Campus Central. E isso me honra e nos dá elementos objetivos para entender melhor os que sentem os nossos alunos, abandonados em toda a história de nossa universidade. Então, como o dia da eleição, 20 de março, está chegando, conclamamos todos a juntar-se a Gilton Sampaio e a Lucio Ney para construirmos a “UERN do tamanho dos nossos sonhos”. Aproveito para agradecer-lhe pela atenção e pelo espaço.