Arquivo da tag: Getúlio Vargas

Simbolismos do atraso na difícil marcha do “novo”

Por Carlos Santos

Política é uma atividade carregada de simbolismos, naturais ou artificiais. Sempre. Formam-se por força laboratorial do marketing, ou decorrem da espontaneidade do povo. Um clique e… pah! Eureca! Acerta-se o alvo.

Um jingle, um slogan, cores e um gestual ajudam a inocular a imagem do candidato/partido/ideário no inconsciente popular. É por esse canal e não a face “consciente” do cérebro, que a identidade/mensagem bate à porta do eleitor – às vezes até arredio.

Uma ofensa – ou troça do adversário – também pode ser utilizada como peça de propaganda, virando uma marca a favor.

O “Cigano” Aluízio Alves converteu o desdém dos contendores em combustível para vitória ao Governo do RN em 1960.

O “Tamborete”, apelido de menosprezo a Geraldo Melo, foi anabolizante de sua conquista estadual em 1986.

A “Vassoura” contra a corrupção levou Jânio Quadros à Presidência da República em 1960, com a promessa de higienização do país.

O “Retrato do Velho” (clique no boxe acima) içou Getúlio Vargas ao Palácio do Catete outra vez, agora pela via democrática, na campanha de 1950.

Barack Obama falou para uma nação multifacetada a essência da alma americana, no slogan simples e certeiro: “Yes, we can!” (Sim, nós podemos!). Passou à história como o primeiro presidente-negro da América.

A propósito, o “Movimento RN Melhor” dos ex-candidatos a prefeito e vice de Mossoró, Tião Couto (PSDB) e Jorge do Rosário (PR), não podia ter sido mais imprevidente ao escolher a antiga mansão da ex-prefeita Fafá Rosado (PMDB), para promover reunião política na quarta-feira (20), em Mossoró.

O local é encharcado de símbolos na contramão do que eles pregam: modernidade, meritocracia, eficiência, probidade e alternativa de poder. Várias pessoas que estavam no evento político se sentiram “em casa”, de braços dados com o atraso e não com o “novo”.

Mais um pouco e não causaria estranheza se uma manada de ex-comissionados amestrados, da prefeitura, ressuscitasse em êxtase seus gritos de louvação à ex-prefeita: “Uh-huuuuu! Linda, maravilhosa! Arrasou!!!”

No próximo encontro, se os dois imberbes políticos tentarem, podem conseguir emprestado o “Sítio Cantópolis”, local de reuniões do rosalbismo em campanhas. Liguem para Carlos Augusto Rosado. Ele sabe muito de Simbologia, Semiótica e Política.

PRIMEIRA PÁGINA

Gostei de conhecer o ex-candidato a vereador Paulo Frutuoso Machado (PDT), jovem mossoroense muito antenado com a política, de boa capacidade de observação. Obrigado por nos acompanhar aqui no Blog Carlos Santos. Voltaremos a prosear. Abraços.

No lançamento do livro “Os Rosados Divididos – Como os jornais não contaram essa história“, do jornalista Bruno Barreto, à noite da última quinta-feira (21), em Mossoró, escassos integrantes desse clã focalizado apareceram para prestigiá-lo. É certo, porém, que o autor não produziu uma hagiografia nem é dado à modalidade do “jornalismo de incenso”, o que pode explicar a distância. O trabalho merece ser lido como objeto de pesquisa e fomento ao bom debate. Recomendamos.

O ex-prefeito de São Gonçalo do Amarante Jaime Calado, marido da deputada federal Zenaide Maia (PR), tem-se municiado de pesquisas quantitativas e qualitativas, monitorando as passadas dela ao Senado. Aos mais próximos, até fala com convicção: “Ela vai ser eleita”. Sua aposta faz sentido, sim. Mas claro que é cedo para assertivas irreversíveis.

Eudo Leite: muito a ser investigado (Foto: PGJ)

Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), da Região Oeste, do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), parece que trabalha silenciosamente. Só para lembrar ou esclarecer: ele foi implantado pelo procurador geral de Justiça, Eudo Leite, no dia 18 de julho deste ano. Está sediado em Mossoró e cobre 21 municípios (veja a resolução AQUI).

O ex-vereador Tomaz Neto (PDT) resolveu mergulhar. Tomou distância de atividades do seu partido, adotando a ausência e o silêncio (pasme!) quanto aos seus rumos em Mossoró e no estado, como no tocante à postulação ao governo do prefeito natalense Carlos Eduardo Alves (PDT).

O segundo voto ao Senado é uma preocupação de todos os principais pré-candidatos ao Senado em 2018. Ele pode decidir na contagem final, quais serão os eleitos. Os principais concorrentes, até aqui, sabem e trabalham estratégias quanto a isso. Os senadores Garibaldi Filho (PMDB) e José Agripino (DEM) observam que um deles pode “sobrar”, com o crescimento de Zenaide Maia (PR), atual deputada federal.

O governador Robinson Faria (PSD) segue em Brasília. Tempo integral para tentar viabilizar socorro financeiro para pagar dívidas com servidores, principalmente após pronunciamento contrário ao apoio financeiro do Governo Michel Temer (PMDB), de Júlio Marcelo de Oliveira, procurador do Ministério Público de Contas junto ao TCU (veja AQUI).

Promete ser eletrizante a corrida eleitoral à Câmara Federal no segmento evangélico no Rio Grande do Norte. O atual deputado federal Antônio Jácome (PMN) e Carla Dickson (PROS) podem protagonizar uma disputa à parte por uma das oito vagas do estado.

TÚLIO RATTO – JANELA INDISCRETA

EM PAUTA

Casa Moraes – Uma marca comercial vitoriosa em Mossoró e região vai atingir idade sexagenária. É a Casa Moraes. No próximo ano completará 60 anos de atividades. Parabéns a José Moraes, Moraes Neto e todos os seus colaboradores.

Gonzaga – O empresário Gonzaga Souza (Gonzaga Veículos) está novamente em Mossoró, após checape na saúde em São Paulo-SP. Voltou tinindo, após preocupar muito os amigos e familiares. Cuide-se, meu caro.

Empreendedor – Na próxima quarta-feira (27), o Governo do RN vai botar para funcionar o “Escritório do Empreendedor” no Partage Shopping Mossoró. Não haverá inauguração formal desse equipamento público, criado para facilitar a vida da livre iniciativa.

François – Articulista de Nosso Blog, o escritor François Silvestre deverá ter reeditado o seu livro “A pátria não é ninguém”. Os editores David Leite e Clauder Arcanjo burilam o projeto para viabilizá-lo através da sua editora, a Sarau das Letras. Livraço, que se diga.

Princesa do Vale – A convite do seu diretor, jornalista/radialista Lucílio Filho, o Blog Carlos Santos vai participar do programa “Panorama do Vale” (18h) em uma de suas edições desta semana. Combinado.

Lucieudes – O empresário Lucieudes da Silva (Lucieudes Material de Construção e Posto Tibau), da cidade-praia do Tibau, estuda o mercado mossoroense para novo investimento. Bem a seu estilo discreto, sem alardes.

FM do Apodi – Está em fase experimental a migração da Rádio AM Vale do Apodi para Frequência Modulada (FM). Sintonize-a clicando AQUI. É a FM 98.3, do Sistema Oeste de Comunicação, que tem como empresa-âncora a TV Cabo Mossoró (TCM).

Milícias – Em alguns setores comerciais e residenciais de Natal, a ausência da polícia nas ruas fez surgirem “milícias” à proteção patrimonial e de vidas, forças paramilitares armadas e com licença para matar.

SÓ PRA CONTRARIAR

Alves, Maias e Rosados vão arriscar novo chapão às eleições do próximo ano, num momento em que há crescente repulsa à política, aos políticos profissionais e aos partidos?

GERAIS… GERAIS… GERAIS

Dia de ontem foi de chuvas com pequenas precipitações em algumas cidades do estado, como regiões Oeste e Seridó. Nos últimos dias, também temos informações de chuvas ainda fracas no Ceará.

O bom filho a casa retorna. O jornalista Fábio Oliveira está de volta aos quadros da TV Cabo Mossoró (TCM)/FM 95.7, fazendo aquilo no qual é craque: jornalismo esportivo de qualidade. Parabéns ao grupo pelo enorme acerto.

O tempo passa sem que percebamos, no bate-papo com os ex-jogadores Agnaldo (lateral-esquerdo) e Isaías (goleiro), sobre a jornada épica do Baraúnas na Copa do Brasil 2005. Relatam o que as câmeras não captaram, entre diálogos e algumas curiosidades em campo, no jogo em que o tricolor fez 3 x 0 no Vasco da Gama em São Januário.

Obrigado à leitura de Nosso Blog a Pádua Júnior (Mossoró), Edinael Castro (Upanema) e Tibúrcio Marinho (Apodi).

Veja a Coluna do Herzog do domingo passado (17) clicando AQUI.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

Bruno Barreto e José Almeida Júnior lançam livros hoje

Mossoró tem hoje o lançamento de dois livros. À noite, o jornalista Bruno Barreto e o defensor público federal José Almeida Júnior fazem noites de autógrafos no centro da cidade, em locais e horários distintos, mas com narrativas político-jornalísticas.

Bruno será às 19h30, no Memorial da Resistência na Avenida Rio Branco, quando apresentará “Os Rosados Divididos – como os jornais não contaram essa história”, objeto de pesquisa acadêmica que focaliza cisão no clá rosadista nos anos 80 do século passado, a partir de prospecção de cobertura ou omissão da mídia impressa local.

A Editora Sarau das Letras chancela o título.

Bruno Barreto e José Almeida Júnior, dois livros, dois lançamentos, história, política, jornalismo (Foto: redes sociais)

Almeida Júnior, a exemplo de Barreto, é estreante no universo da literatura, mas já com peso. Foi ganhador do Prêmio Literário Sesc 2017, concurso nacional, com o livro “Última Hora”.

O livro – da Editora Record – será lançado às 19 horas no Teatro Dix-huit Rosado.

Nesse trabalho, o personagem central “Marcos”, um jornalista, passeia num momento delicado da vida política nacional, antes do suicídio  do suicídio do presidente Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954, e o duelo titânico entre os jornalistas Samuel Wainer, da Última Hora, e Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa.

Nota do Blog – Apesar de não ter o dom da onipresença, espero estar em ambos, que estarão separados por pouco mais de duzentos metros.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

“Última Hora” chega pelas mãos de autor mossoroense

Nasceu “Última Hora”, romance que venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2017. A publicação conta a história de “Marcos”, um jornalista atormentado entre a militância comunista e o trabalho no jornal que apoia Getúlio Vargas. O autor José Almeida Júnior reconstrói os últimos meses do presidente no governo, antes do suicídio, e a briga entre Samuel Wainer, da Última Hora, e Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa.

Livro foi premiado (Foto: cedida)

O livro será lançado oficialmente pela Editora Record em quatro cidades: 28/11 em São Paulo, 05/12 em Brasília, 07/12 em Belém e 21/12 em Mossoró, no Teatro Municipal Dix-huit Rosado.

Natural de Mossoró, José Almeida Júnior é formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), com pós-graduação em Direito Processual e em Direito Civil. Há dez anos reside em Brasília, onde exerce o cargo de Defensor Público do Distrito Federal.

‘Democrata’ e ditador

“Getúlio Vargas lançou as bases do trabalhismo brasileiro e influenciou o pensamento de esquerda de políticos como Jango, Brizola e Lula. Por outro lado, Vargas perseguiu comunistas e implantou uma ditadura violenta durante o Estado Novo. Tive a curiosidade de compreender o comportamento dos comunistas, que haviam sido perseguidos no Estado Novo, durante o governo democrático Vargas do início dos anos 50”, conta o autor, em entrevista ao blog da editora.

No livro, Almeida Júnior refaz uma das maiores batalhas da imprensa na época, a de Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, e Wainer. Com o apoio da cadeia de jornais e rádios de Assis Chateaubriand, o Chatô, e de outros magnatas das comunicações, como Roberto Marinho, Lacerda perseguiu o dono da Última Hora até o desfecho final da crise, com o suicídio do presidente. Marcos, que ora se alia a Wainer ora ajuda Lacerda, é o contraponto entre esses personagens tão complexos.

Boa literatura

“Procurei encontrar as contradições em Wainer e Lacerda e explorá-las no ponto de vista de Marcos”, diz o autor.

“Histórico, mas sem qualquer ranço de didatismo, Almeida Júnior consegue, ao mesmo tempo, com enorme competência, reviver uma época e insuflar vida a personagens reais, tornando-os complexos”, assinala o escritor Luiz Luffato, resenhando as 352 páginas de “Última Hora”.

“O romance é lapidar em nos lembrar a história do país sem expor a pesquisa – um bordado que camufla o cerzido e deixa ver apenas o que interessa: a boa literatura, diz a também escritora Andréa del Fuego, na orelha do livro.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

Ponte sobre rio Açu ganhará reforço e alargamento após 65 anos

Boa notícia para quem transita pelo Vale do Açu e trafega na BR-304 (Mossoró-Natal). A “Ponte Felipe Guerra”, sobre o Rio Piranhas/Açu, no limite entre os municípios de Assu e Itajá, passará por uma considerável “repaginação”.

Serão iniciados os serviços de reforço, reabilitação e alargamento da ponte que tem quase 65 anos de vida. Nesse caso, a “nova ponte” terá uma largura de 12 metros de pista, mais acostamento e passarela de pedestre nas duas laterais. Sua largura sairá dos atuais 8,60 metros para aproximadamente 18 metros.

Ponte Felipe Guerra tem quase 65 anos e deverá ser 'repaginada' até outubro de 2019 (Foto: Web)

O comprimento total da ponte será mantido nos atuais 595 metros.  A ordem de início dos serviços foi emitida no último dia 23 de janeiro, com prazo de execução de 990 dias. Previsão para que seja concluída por volta de outubro de 2019.

Os recursos investidos pela União serão da ordem de 38.700 milhões. A empresa vencedora da licitação foi a Construtora A. Gaspar S/A. Entre 60 e 90 dias deverá estar iniciando os trabalhos.

Maior ponte do Nordeste

A obra não tem vínculo com os serviços de duplicação da BR-304. Na verdade é uma iniciativa para readequá-la às necessidades contemporâneas de tráfego, segundo estudos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT).

A Ponte Felipe Guerra homenageia o ex-desembargador, ex-deputado constituinte e ex-secretário de educação homônimo, nome de expressão na primeira metade do século passado no Rio Grande do Norte.

Obra começou em 1948 e foi concluída em 1952, com investimentos federais (Foto: Fernando Caldas)

Sua edificação começou em 1948, na gestão do presidente Eurico Gaspar Dutra. O governador era José Varela. Foi concluída em 1952, na administração do presidente Getúlio Vargas. Sylvio Pedrosa era o governador, em face da morte de Dix-sept Rosado no ano anterior, em acidente aéreo (veja AQUI). O prefeito de Assu, à ocasião, era Edgard Montenegro.

Com 595 metros de extensão, ela é ainda hoje a maior ponte de concreto armado do Nordeste. Foi construída pelo técnico em carpintaria Francisco Gaag, austríacco, naturalizado brasileiro.

Clique AQUI e faça um passeio virtual pela Ponte Felipe Guerra.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

O servidor público e as elites

Por Honório de Medeiros

Costumava iniciar, ano a ano, quando ensinava, o curso de Filosofia do Direito, dizendo a meus alunos que filosofar é desvendar a realidade, como se esta tivesse véus que a ocultassem e, por assim ser, impedissem os menos persistentes de encontrar a verdade que ela insistia em nos esconder.

Essa imagem inicial guarda débito, óbvio, com a bela elaboração da mitologia hindu, que nos apresenta a deusa MAYA enquanto responsável pelo ocultamento da realidade tal qual ela é, bem como de não percebermos que tudo quanto nos cerca nada mais é que pura ilusão, um devaneio infindável a nos impedir o verdadeiro conhecimento.

Um desses véus mais persistentes é – se pudermos usar essa imagem para melhor explicarmos – aquele que despersonaliza a ação concreta do ser humano e a atribui a uma abstração, como é o caso da ideia de Estado.

Ouvimos e vemos sempre que o Estado não se faz presente, no caso do Brasil, desde épocas passadas, na luta contra a desigualdade e exclusão social – algo inquestionável, por sinal, pois podemos constatar que, de fato, evoluímos quanto ao aparato tecnológico com o qual a lógica do capital se instaura, mas não conseguimos solucionar questões comezinhas como a da eliminação do analfabetismo. Não é o Estado que não se faz presente.

Somos nós mesmos que estamos ausentes.

Despersonalizar a ação de quem detém o poder, mascarando-a com esses artifícios, dificulta sua responsabilização.

Outro véu onipresente é aquele que nos impede de apreendermos como se instaura uma determinada lógica na ação daqueles que detém o Poder. Uma vez instaurada, essa lógica passa a fazer parte do nosso cotidiano sem que, em qualquer momento, passemos a questioná-la em seus fundamentos básicos.

É o caso da persistente e programada despersonalização da ação da elite, através de artifícios que pretendem legitima-la, haja vista o caso do atual conceito vigente de Estado, que deixa de ser o “topos” onde ocorre a ação, para ser o instrumento burocrático atrás do qual se esconde o processo de instauração dos mecanismos do Poder.

Podemos considerar que a despersonalização é conseqüência coerente da necessidade de ocultar o real. Seria como uma manobra diversionista, se utilizássemos a linguagem da guerrilha. E qual é esse discurso real?

LEMBREMO-NOS que, no Brasil, desde a ocupação portuguesa, o espaço público foi privatizado. Não é desconhecida a carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei solicitando regalias para sua família. Tampouco o é o episódio das Capitanias Hereditárias. O fato é que, desde o início, e até o presente, esse espaço público pertence à elite e esta tem se revelado de um atraso inigualável.

Raymundo Faoro demonstra, em sua obra “Os Donos do Poder”, criando o conceito de “estamento”, o quanto, ao longo dos anos, até o presente, a elite privatiza o público e o utiliza em proveito próprio. Ou seja, segundo Faoro, no capitalismo brasileiro não há, necessariamente, uma apropriação dos meios de produção por parte da elite, mas, sim, uma privatização do espaço público em proveito próprio.

Assim é que vemos filhos de juízes sucederem aos pais, generais aos avós, deputados aos antepassados e assim por diante. A vingança dos excluídos tem sido, ao longo do tempo, variada, mas permanente. Não é à toa que na literatura, na música, na arte, de uma forma geral, o “barnabé” é sempre motivo de chacota. Mas o resultado é inócuo.

Continuamos tendo o espaço público privatizado. Essa ação da elite tem seu preço: a ampliação do espaço público, o gigantismo, o excesso de burocracia. Burocracia: mais cargos para atender a demanda, mais ações para atender a procura. Com a globalização, essa burocracia passou a ser um entrave para o grande capital internacional legitimado pela doutrina do “Consenso de Washington”.

A ordem passou a ser: devemos nos render ao Estado mínimo. Chegamos, agora, ao ponto fulcral desta análise.

A doutrina que passou a prevalecer após o ideário do “Consenso de Washington” exige um Estado mínimo para que não haja dificuldade na circulação do capital. Este tem que vir e voltar logo, bem mais gordo, para os bolsos de quem o possui.

Para que não haja dificuldade nessa circulação, é necessário impor a ótica financeira na ação governamental. Essa ótica financeira demanda opções típicas de mercado, como equilíbrio nas contas públicas e pagamento dos juros extorsivos do dinheiro emprestado pelos organismos internacionais.

Portanto, as políticas públicas de longo alcance, bem como os serviços e servidores públicos através dos quais elas são realizadas devem desaparecer para que a lógica do capital prevaleça, em detrimento dessa meta intangível. Não é à toa que os políticos somente pensam em termos de obras físicas. Acaso o investimento em uma meta real, concreta, significativa, de erradicação do analfabetismo traria retorno em termos de voto e dinheiro para financiamento de campanhas políticas?

Construir uma ponte, sob o argumento de que é preciso desenvolver, traz retornos mais concretos, segundo essa ótica, que investir na erradicação da mortalidade infantil! Também não é à toa o surgimento da publicidade: o “Governo investiu tantos milhões em obra tal e qual”, e a sociedade esquece que mais importante é alcançar metas mais abstratas, como a diminuição dos índices de violência pública.

Sem contar que o discurso para legitimar as obras é impressionante em sua vacuidade: “construamos para acelerarmos o desenvolvimento e aumentarmos a riqueza; em aumentando a riqueza, todos ganharemos”.

Claro, o capital precisa de rapidez para circular.

Então construamos estradas, rodoanéis, viadutos, pontes e outros mais, e esqueçamos o analfabetismo, a mortalidade infantil, a exclusão social, porque a riqueza vai circular mais rápido e tornar mais rico quem detém o capital, mas a desigualdade permanecerá, como o demonstra o crescimento desde Getúlio até os dias de hoje e a permanência dessa mesma desigualdade.

Nesse afã de tornar o Estado mínimo, faz-se a política da terra arrasada: não temos tempo nem queremos distinguir entre o que vale e o que não vale a pena eliminar: todo serviço público é ruim, e todos os servidores são ineptos.

Esse é o discurso da elite financeira a encontrar eco na sociedade nauseada com o mau serviço público e os maus servidores que existem exatamente na justa medida da apropriação do espaço público pela elite ansiosa para se locupletar.

Assim, aquilo que parece óbvio, qual seja a recompensa pela vocação do servidor, uma aposentadoria digna, está desaparecendo e, com ela, o interesse em se devotar ao Estado.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Uma razão muito forte para juntar Rosado com Rosado

O eleitor mossoroense não deve se surpreender se ocorrer uma hipotética união, em chapa majoritária, dos grupos da ex-governadora Rosalba Ciarlini (PP) e da sua prima, adversária e ex-deputada federal Sandra Rosado (PSB).

Rosalba a prefeito, vereador Lahyrinho Rosado (PSB) a vice – digamos.

Formalizando-se, repetirá o que já aconteceu incontáveis vezes na política nativa e nacional.

É preciso uma razão muito forte para juntar os contrários. Na retórica, a pregação é de que está em jogo o “interesse público” e o desejo de “reconstruir Mossoró”. Menos, gente. Nem uma coisa nem outra.

“Sobrevivência política” é o termo correto. Os dois grupos precisam sobreviver.

Os contrários se juntam, normalmente, quando percebem que possuem um problema comum com dificuldade de ser superado individualmente.

Atenas e Esparta juntaram-se na antiguidade para combater o poderio bélico e expansionista da Pérsia. Depois voltaram a brigar como antes.

Getúlio e Café

Exemplo: Alves e Maia estiveram juntos em 2010, para frear o crescimento contínuo de Wilma de Faria (PSB, hoje no PTdoB), depois de décadas de embates.

Getúlio e Café: antipatia (Foto reprodução)

Getúlio Vargas (PSD) detestava o deputado federal natalense Café Filho (PSP), mas o aceitou como vice na disputa presidencial de 1950, para ter o apoio estratégico do líder paulista Ademar de Barros (PSP). Foram eleitos, num tempo em que a legislação estabelecia que o vice concorria com outros adversários, sendo votado à parte da cabeça de chapa.

Os próprios Rosado passaram décadas trocando farpas com o aluizismo, para depois se acomodarem no combate comum aos Maia.

Um dia, já repetimos “ene” vezes, os Rosado estarão todos apinhados no mesmo palanque.

Talvez não tenha chegado ainda o momento.

A quem interessaria hoje a união de Rosalba e Sandra?

Dix-huit e Sandra

A princípio, tão-somente a Sandra/seu grupo, que busca a sombra da ex-governadora que é tida por muita gente como virtual eleita, uma espécie de “prefeita em férias”.

À Rosalba, por enquanto nada sinaliza para essa necessidade. Não existe uma ameaça iminente à sua potencial eleição. Levar o grupo de Sandra Rosado a tiracolo pode ser um problema pré-fixado.

Foi assim na relação de Sandra com o tio Dix-huit Rosado, eleito prefeito pela terceira vez em 1992, tendo ela como vice. Em poucos meses bateram de frente, a ponto do prefeito despejar Sandra do Gabinete de vice. Rompimento político e familiar traumático.

Chegou 2016. Vamos ver o que eles decidem, em nome da sobrevivência.

A ética da conspiração

Por François Silvestre

As eleições presidências de 1945, após a queda do Estado Novo, foram realizadas sob o comando constitucional da Carta de 1937. Essa constituição foi um diploma de inspiração fascista, elaborada por Francisco Campos, que “evoluíra” do positivismo de Comte para o fascismo ítalo-brasileiro.

Ela serviu ao projeto político de Vargas, com o fim da “federação” e implantação de um Estado unitário. Cuja consecução deu-se simbolicamente com a queima das Bandeiras dos Estados.

Hoje, a diferença é mais de forma e menos de conteúdo. Continuamos a ser uma Federação de mentira, sob o amparo de uma Direita obtusa, que promete ética e entrega hipocrisia; e uma Esquerda confusa, que promete progresso e entrega esmola.

As eleições foram disputadas pelos novos Partidos. O PSD, de inspiração getulista, com sustentação conservadora e base eleitoral no coronelismo e na vida rural.

A UDN, de inspiração no liberalismo americano, com força nas camadas urbanas, também conservadora e refratária às transformações sociais. O PTB, getulista puro, aliava-se ao PSD, assumindo o comando do trabalhismo urbano. Indo do sindicalismo ao peleguismo. Tudo brasileiramente macunaímico.

Pois bem. A Carta de 37 não previa a figura do Vice-presidente. A coligação PSD/PTB derrotou a UDN. O candidato do PSD, General Eurico Dutra, que fora o sustentáculo da Ditadura Vargas, derrotou o Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato dos udenistas.

Ocorre que a Constituinte de 46 restaurou a investidura da Vice-presidência. E à própria Assembleia foi delegada, por legitimidade natural, a prerrogativa de eleger o Vice-presidente.

Nem precisa dizer que a briga de foice, na penumbra das conspirações, típicas da nossa formação política, foi deflagrada nas mumunhas do poder. O PSD lançou o nome do Senador catarinense Nereu Ramos, que não gozava do afeto pessoal do presidente Dutra.

Os dissidentes do PSD, sabendo dessa desafeição, conspiraram com os udenistas para derrotar Nereu. Dissidência política, no Brasil, não se dá por amor à pátria. Mas por interesses pessoais. Taí Eduardo Cunha que não me deixa mentir.

Esses insatisfeitos procuraram Dutra e informaram que se eles lançassem outro candidato, da ala dissidente do PSD, teriam os votos da UDN e derrotariam Nereu Ramos.

Eurico Dutra, que ouvia muito e falava pouco, ouviu de ficar rouco. Depois falou: “Os senhores não tem o meu aval. Minha orientação é que votem no Nereu”.

Ante a perplexidade dos “dissidentes”, Dutra lecionou: “É verdade que eu não gosto do Senador Nereu Ramos. Mas a UDN o detesta muito mais do que eu.

Se o Vice-presidente for alguém suave à UDN, ela vai conspirar todos os dias para me derrubar. Se for Nereu Ramos, eu ficarei tranquilo, pois A UDN não vai querê-lo no meu lugar”. Assim foi feito e Dutra governou sossegado.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

O gosto do povo

Por François Silvestre

O comportamento da massa, que é a representação do povo em movimento, não se prende a reflexões ou questionamentos intelectivos.

A expressão “povo em movimento” usada do parágrafo anterior não significa apenas a massa mobilizada geograficamente. O chamado “povo na rua”. Não. Serve também para a medição de humor da opinião pública, na rua ou em casa, movida por paixões momentâneas.

A palavra “povo” aqui expressa não leva em conta o rigor significativo, consistente na constatação de que somos ainda um pré-povo, derivado da pré-humanidade que habita o planeta.

Nem a observação de que povo é tão somente uma abstração, usada e manipulada ante a presença hegemônica e maléfica do Estado.

O Estado corrupto arroga-se o direito do combate à corrupção. Violento, diz combater a violência. Ineficiente, vende-se como necessário. Inútil, mostra-se insubstituível. Perdulário, cobra parcimônia.

Mas esse não é o tom do presente texto. Quero aqui tratar de coisa mais amena, da fisionomia volátil e tragicamente ridícula da massa; ou do povo em movimento. Trágica porque oscila entre desgraças ou convulsões. Ridícula pela mutação descaradamente movida por paixões.

A paixão é uma deformação afetiva. Um impulso da condição humana, que no indivíduo imbeciliza e no coletivo convulsiona.

Nos dois casos não há controle do processo deflagrado. E geralmente vira monstro, após nascer inofensivo.

A lição de Samuel Taylor Coleridge nos remete à reflexão: A paixão escurece nossos olhos e a luz que a experiência nos dá é de uma lanterna na popa; só ilumina as ondas que já passaram.

Foi dessa máxima que Roberto Campos retirou o título das suas memórias, “Lanterna na Popa”.

O gosto do povo é de paladar oscilante. Gustativamente confuso e pueril. Levado por paixões que dispensam avaliações e questionamentos. Sai da canonização para a excomunhão sem qualquer escrúpulo analítico.

Há uma assertiva do pensamento puro de que a exemplificação empobrece o raciocínio filosófico. Posto que a argumentação deva bastar-se pela força do enunciado. E o exemplo reduz o alcance genérico.

Mas não resisto e exemplifico. No auge da crise política de 1954, Getúlio Vargas percebeu que perdera o apoio popular. Fora vaiado na última viagem oficial, que fez a Minas Gerais. Na ida e na volta. Sentiu a falta do apoio popular para tentar a resistência.

E para não ser um morto-vivo, como chamara, nos anos Quarenta, seus adversários dos anos Vinte, resolveu não repetir o gesto da primeira deposição. “Daqui só saio morto”. Era o cemitério em vez de São Borja.

Apostou na comoção que o passional fabrica. Um cadáver e uma carta disparam o projétil cujo alvo foi o coração do povo.

A madrugada alterou tudo. E a crise mudou de lado. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Blink: a decisão num piscar de olhos

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

“Um morto despertou os vivos”

(Carlos Lacerda)

Blink! E num piscar de olhos, vi na minha frente: Guimarães Rosa, Lulu Santos e o filósofo grego Heráclito. O primeiro, no seu Grande Sertão: Veredas, que disse: “A vida não é entendível; viver é negocio muito perigoso”; o segundo canta até hoje, em verso e prosa, que “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia: tudo passa; tudo sempre passará”; e o terceiro que filosofava na Grécia antiga ensinando:

“É impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio”…

Pois é caro leitor, é inútil querer entender esse mundo e os seus habitantes.

Mas, mesmo assim, sem entender o mundo, temos que admitir que o ser humano é realmente fantástico, e é inegável que Deus estava muito inspirado, quando pegou um monte de barro e fez dele a sua maior obra, com um cérebro e essa coisa chamada de inconsciente adaptável, que foi muito bem descrita, no livro BLINK, do autor Malcolm Gladwell:

“A única maneira pela qual os seres humanos poderiam ter sobrevivido como espécie por tanto tempo é que eles desenvolveram um tipo de dispositivo para tomada de decisões, capaz de fazer julgamentos muito rápidos com base em muito poucas informações… O inconsciente adaptável faz um excelente trabalho de avaliar o mundo, alertar a pessoa em caso de perigo, definir metas e iniciar a ação de maneira sofisticada e eficiente”.

Getúlio caricaturado por chargista Nássara

Pois bem! Entre uma piscadela e outra dos meus olhos, foi inevitável, diante dos últimos acontecimentos não pegar o livro “Depoimentos” de Carlos Lacerda, e abrir no capítulo XII:

Na noite de 23 para 24 de agosto, estávamos em casa de Joaquim Nabuco… abriram champanha, começamos a comemorar. Soubemos que Getúlio já tinha renunciado àquela altura. Até que, já de manhã, não me lembro bem a hora, alguém telefonou anunciando o suicídio. É evidente que houve aquele momento assim, de não sei bem como definir o sentimento, em todo caso, não era de alegria; era um sentimento de pena do homem, da tragédia humana, da tragédia pessoal do homem, de imaginar a agonia em que um homem deve estar para chegar a dar um tiro no coração… para quem tivesse um mínimo de sensibilidade, via que o que tinha acontecido no Brasil era o que aconteceu no drama de Shakespeare – Júlio César. A mesma multidão que aclamava Brutus e os assassinos de César, quando Marco Antônio fez seu discurso com o cadáver nos braços, começou a pedir a morte dos que tinham matado César. Foi assim que passei de vítima a assassino de Vargas”…

Tudo isso aconteceu há sessenta anos, em 1954. E não se espante, caro leitor, que estejamos vivenciando tudo novamente. Nietzsche e o seu cérebro privilegiado, de inigualáveis aforismos, já tinha nos alertado:

Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequencia e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente”.

E de repente, a perene ampulheta do existir virou mesmo. Dor, prazer, suspiro, pensamentos e acordamos com a notícia; “O avião caiu. Eduardo Campos morreu!”. Tudo como se fosse orquestrado pelo maestro chamado destino. Maktub! No mesmo dia da morte do seu avô Miguel Arraes; morre o neto, candidato do PSB a presidência da república. E é sempre no mesmo mês de agosto. Desgosto, tristeza, comoção, perplexidade e uma enorme de uma certa incerteza: “O mistério está em toda parte”. E quem se atreverá a desvendar o futuro a partir de agora?! Quem?!

Futuro que já é presente, ou melhor, já virou passado. E tudo corre e chega tão rápido, que pisco os meus olhos novamente e vejo os números 13 e 12. Não sou muito bom em matemática. Mas, graças a Deus, que esses cálculos são possíveis de serem feitos por qualquer pessoa: 13 do PT; 13 é o dia da morte de Eduardo Campos. 12 anos de governo do PT (oito de Lula e quatro de Dilma); 12 é o capítulo do livro de Lacerda que está sendo reescrito agora…

Longe, muito longe, de querer comparar Marina da Silva com um Marco Antônio, mas a morte de César – assim como a de Getúlio Vargas e agora a de Eduardo Campos-, é capaz de promover mudanças inesperadas e inimagináveis nas nossas vidas. E tudo que se ver não é igual ao que a gente viu há um segundo…

Em 12 dias, Marina da Silva saiu de 21% para 34%. Subiu 13 pontos e iguala aos índices da presidente Dilma. E no segundo turno, o estrago é ainda maior: “O país já não está diante de uma ‘onda Marina’ – afirma o jornalista Josias de Souza, no seu blog-, Mas assiste ao surgimento de um Tsunami eleitoral”.

Blink! Pisco os olhos mais uma vez. E escuto Carl Orff e o seu “Carmina Burana”:

“Oh, Fortuna/ És como a lua/ estado variável/ Sempre crescendo ou decrescendo”… e tudo muda mesmo o tempo todo no mundo… mais uma piscadela, e vejo a mensagem no WhatsApp, do meu colega de turma Fábio Marcelo:

“Pinto! O homem faz planos, mas tudo está no controle de Deus. Se tiver de ser, ninguém vai impedir”…

Blink, blink, blink. Pisco os olhos e corro em direção a minha biblioteca.

Abro a página 39, do Grande Sertão: Veredas e vejo a profética mensagem do amigo Guimarães Rosa:

“Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço!- me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo… Viver é negocio muito perigoso!”…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior

Getúlio Vargas, ame-o ou deixe-o

Por Tony Oliveira (Revista Escola)

Passados quase 60 anos, o fantasma de Getúlio Vargas continua rondando o País. Morto em 25 de agosto de 1954 após dar um tiro no peito, Getúlio saiu da vida para entrar para a história como uma das figuras mais polêmicas e contraditórias da política brasileira, capaz de inspirar paixões e ódios igualmente extremados Brasil afora. Prova de sua força é a crítica causada pelo lançamento da biografia Getúlio, escrita pelo jornalista cearense Lira Neto e publicada pela Cia. das Letras.

Para o autor de "Getúlio", ele continua sendo um personagem controvertido até hoje (Foto: reprodução)

O escritor, que tanto na escola quanto na universidade teve contato com versões negativas do ex-presidente, tomou para si a missão de produzir uma biografia moderna, exaustiva e tão isenta quanto possível de Getúlio Vargas.

Imaginada em três volumes, dois dos quais já chegaram às livrarias, Getúlio é fruto de cinco anos de pesquisas, em que o autor examinou cartas pessoais, memorandos oficiais, diários íntimos, autos judiciais, notícias de jornal, além de fazer entrevistas e colher depoimentos. O primeiro livro, Getúlio: 1882-1930 – Dos anos de formação à conquista do poder, narra a infância no interior do Rio Grande do Sul, os primeiros contatos com a política brasileira e sua chegada ao poder em 1930.

Já o segundo volume, 1930-1945 – Do governo provisório à ditadura do Estado Novo, dá conta dos 15 anos em que Vargas esteve no Palácio do Catete como chefe do governo provisório, constitucional e, por fim, como ditador.

O último livro, previsto para ser lançado em 2014, trata da volta de Getúlio ao poder em 1950 e de seus derradeiros anos. Lira Neto, para quem o livro pode ser útil aos professores de História por apresentar uma visão polifônica da história do político, concedeu entrevista a Carta na Escola por e-mail.

Carta na Escola – Getúlio Vargas ainda é uma das mais importantes e controversas figuras da história do Brasil. Como nasceu seu interesse em biografá-lo?

Lira Neto – Sempre me inquietou o fato de Getúlio Vargas, esse nome fundamental da história brasileira, não ter sido, até então, alvo de uma biografia moderna e exaustiva. Certa feita, li um texto assinado pela cientista política Maria Celina Soares D’Araújo que tratava exatamente dessa questão. Ela sublinhava que a maior parte dos escritos a respeito da trajetória pessoal de Getúlio situava-se na esfera da ficção, e não da narrativa historiográfica ou jornalística.

CE – Parte dos livros didáticos de História adota um viés marxista de valorizar as estruturas e conjunturas da época em detrimento do indivíduo. Nos seus livros, o indivíduo, o ator, fica em evidência. Por quê? Houve resistência às obras por conta dessa característica?

LN – Uma biografia, por essência, busca compreender como as ações de determinado indivíduo e, ao mesmo tempo, o contexto no qual ele viveu se impactaram mutuamente. Da mesma forma que não faz sentido imaginar a história de um personagem desvinculada da estrutura social, econômica e histórica de sua época, também é empobrecedor compreender a vida desse mesmo indivíduo circunscrita aos limites de determinismos de qualquer espécie. Os dois primeiros volumes da biografia de Getúlio foram recebidos de forma bastante generosa pela crítica especializada, inclusive acadêmica. Um dos maiores historiadores brasileiros da atualidade, Boris Fausto, assina a quarta capa do primeiro tomo. A doutora Maria Celina D’Araújo, a orelha do segundo. O terceiro terá na quarta capa uma recomendação do historiador Kenneth Maxwell, da Universidade de Harvard.

CE – De que maneira os livros podem ser aproveitados, na escola, por professores e alunos nas aulas de História? E quais contribuições a obra pode trazer para o ambiente de sala de aula?

Lira Neto – Penso que o livro pode ser útil na medida em que expõe, digamos, uma visão polifônica da trajetória de Getúlio, fugindo ao maniqueísmo típico que ronda o personagem. A utilização de um conjunto plural de fontes – incluindo charges de época, canções e obras literárias – também pode contribuir para a compreensão da história como algo vivo e pulsante.

CE – De que forma sua formação como jornalista o ajudou na feitura da biografia?

LN – Sempre digo que sou, essencialmente, um repórter. Escrevo longas reportagens históricas. Nesse sentido, valorizo a narrativa e a obrigação de escrever para um público heterogêneo, decodificando conteúdos complexos para um público não necessariamente especializado. O grande desafio para um jornalista é saber transmitir informações e ideias de forma legível e atraente, sem que isso signifique a simplificação do tema e, nesse caso, afrouxar mão no necessário rigor no trato com as fontes históricas.

CE – Existe certo preconceito ou desconfiança por parte de historiadores quando um jornalista se propõe a tarefa de realizar uma biografia histórica?

LN – Certa tensão aqui e acolá ainda existe entre historiadores e jornalistas que trabalham com temas históricos, e não passa disso: preconceito mútuo. Os jornalistas precisam aprender muito com os historiadores sobre o trabalho com as fontes documentais. E os historiadores, talvez, precisem compreender as especificidades do trabalho jornalístico, que sustenta uma preocupação básica com a questão da recepção, isto é, com o leitor. São trabalhos de naturezas distintas, com motivações e alvos diferentes, mas não necessariamente antagônicos.

CE – Apesar de ser, de certa forma, um mito, a busca pela imparcialidade é pilar forte do jornalismo. Diante de uma figura tão controversa e alvo de tantas paixões e ódios como Getúlio, de quais ferramentas o senhor lançou mão para buscar essa imparcialidade?

LN – Obviamente, a objetividade é um mito, uma falácia. Porém, isso não exime o jornalista do dever prioritário de buscar incessantemente a isenção possível. Na prática, isso se estabelece no confronto e na exposição das várias narrativas disponíveis a respeito do que se considera um “fato”. Isso, é claro, pressupõe buscar entender os mecanismos da própria construção social e histórica dos chamados “fatos”.

CE – Na visão de alguns historiadores, mais do que deixar um legado, Getúlio Vargas mora em nossa alma, isto é, contribuiu para a própria criação de nossa identidade como povo e país. E por isso Fernando Henrique Cardoso fracassou em tentar desmontar a Era Vargas. O que o senhor pensa sobre isso?

LN – Como bem escreveu Boris Fausto na quarta capa do primeiro volume da biografia, Getúlio Vargas é, “para o bem e para o mal”, o personagem mais importante da história republicana brasileira. Na quarta capa do segundo volume, o próprio Fernando Henrique Cardoso reconheceu Getúlio como um “estadista”, a despeito do que se pense sobre ele a sua forma de governar e fazer política.

CE – A figura de Lula é muitas vezes comparada à de Getúlio. Como o senhor vê essa comparação?

LN – Não há dúvidas de que, um e outro, Lula e Getúlio, até que se prove o contrário, foram os líderes políticos de maior expressão popular na história do País. Mas é curioso notar que Lula, no período de líder sindicalista, era um antigetulista ferrenho. Então criticava, de forma veemente, a herança histórica dos sindicatos pelegos e atrelados ao Estado, típicos da Era Vargas. Mais tarde, porém, já como presidente, tentou mimetizar a figura nacionalista do Getúlio criador de Volta Redonda e da Petrobras. A foto de Lula com a mão tisnada de petróleo, na época do anúncio do pré-sal, é o melhor exemplo disso. Aquilo era um decalque de outra imagem, a de Getúlio, com a mão estendida e também suja de petróleo, na época da fundação da Petrobras.

Getúlio: personagem em três livros
Getúlio: personagem em três livros

CE – Que imagem o senhor carrega de Getúlio Vargas nos tempos da escola?

LN – Em meus tempos de escola, vivíamos uma ditadura militar, que buscava desconstruir por completo a imagem de Getúlio e de seu principal herdeiro político, Jango. Já na universidade, nos tempos da abertura política, meus professores marxistas também procuravam reduzir a figura complexa do ex-presidente ao ditador do Estado Novo, negando-lhe qualquer virtude ou mérito.

CE – Essa imagem mudou após a produção da biografia? Em que sentido?

LN – Creio que os cinco anos de trabalho nessa biografia ajudaram-me a compreender que é inútil tentar analisar Getúlio a partir de uma visão simplista. A perspectiva ingênua e quase devocional dos getulistas mais sinceros é tão parcial e equivocada quanto a ira dos antivarguistas mais empedernidos.

CE – O que mais o surpreendeu sobre essa figura histórica durante o processo de pesquisa e produção dos volumes da biografia?

LN – Não digo que tenha sido exatamente uma surpresa, mas fascina-me a constatação de que até hoje, 60 anos após sua morte, Getúlio continue gerando tanta paixão, tantos amores e ódios extremados.

CE – Seus livros também se tornaram um grande sucesso comercial, inclusive figurando na lista dos mais vendidos em livrarias. Em sua opinião, por que Vargas e sua biografia ainda chamam tanta atenção do público brasileiro?

LN – Exatamente pelo fato de continuar dividindo opiniões de forma tão apaixonada. A controvérsia a respeito de Getúlio e de seu legado continua atualíssima.

CE – No site promocional dos livros, há uma enquete que pergunta “Para você, quem foi Getúlio?” Gostaria de estender essa pergunta ao senhor: quem foi, afinal, Getúlio Vargas?

LN – Uma das opções à pergunta, na enquete, diz que Getúlio, por sua complexidade, não pode ser definido em uma única frase. Se eu tivesse de responder à minha própria pergunta, cravaria esta opção.

Nossa tortura anual: hora de pagar Imposto de Renda

Por Honório de Medeiros

Está prestes a chegar a hora da tortura anual: a declaração do imposto sobre a renda. Nós, da classe média, como sempre assistiremos passivos o massacre feito pelo Governo.

Em algum lugar do cérebro surge uma vontade inicial de se revoltar, mas, logo, logo, retornamos à nossa passividade natural, tipicamente brasileira.

No nosso país não pagam imposto sobre a renda os muito pobres e os muito ricos. Os muito pobres por razões óbvias. Os muito ricos por que se beneficiam das brechas da lei, das facilidades legais, da impunidade onipresente, dos grandes escritórios de advocacia. Ou pagam, mas repassam o ônus para nós, a classe média.

E o Governo, o Governo acha mais fácil tributar na fonte ou expropriar a passiva e inerte classe média.

Essa nossa passividade não é genética, como pensam alguns sociólogos de meia-tigela. Não somos assim porque resultamos do cruzamento de brancos portugueses de baixíssima qualidade moral, negros indolentes e índios preguiçosos ou mal-acostumados. Nada disso é verdade. Ao contrário.

É difícil um povo que trabalhe mais para sobreviver que o brasileiro. E tampouco somos cordiais além da medida, como disse Sérgio Buarque de Holanda.

Ele, o grande Sérgio, talvez não tenha sido suficientemente crítico ao olhar para nossa história antes do Estado Novo de Getúlio. Uma história cheia de irridências, revoluções, insurgências, banditismo, cangaço e massacres. Taí Canudos, a cabanagem, o banditismo rural, o movimento farroupilha e tantos e tantos outros, para provar o que está sendo dito.

Com Getúlio e o Estado Novo acontece o que o professor Gilson Ricardo de Medeiros Pereira lembra a partir da obra de Raymundo Faoro “Os Donos do Poder”: o pacto das elites para dissolver a luta de classes através da “solução pelo compromisso”, ou seja, a permanente negociação através da qual o zé-povinho recebe, quando muito irada, uma ração extra de carne para acabar com o resmungo.

Não por outra razão vai ano e vem ano e os tubarões da elite continuam o colossal processo expropriatório através dos inocentes-inúteis que exercem cargos na estrutura do poder e se prestam a fazer o serviço sujo dos patrões. Quem conhece a história recente deste país sabe, talvez até mesmo na própria pele, o que foi feito com o serviço público a partir de Collor.

Quem não sabe porque não é servidor público, mas pertence à classe média para baixo, com certeza sentiu e sente na pele quando precisou ou precisa da estrutura do Estado na saúde, educação e segurança pública.

E nós, estúpidos, continuamos esperneando e votando nos mesmos candidatos de sempre!

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do RN

Carlos Lacerda, o político do tudo ou nada

Por Fernando Schüler (revista Época)

“Não gosto de política… gosto é do poder. Política para mim é um meio para chegar ao poder”, diz Carlos Lacerda, em Depoimento, publicado em 1978, um ano após sua morte. De fato, a paciência não era sua maior virtude. Em 1955, Juscelino Kubitschek eleito presidente da República, Lacerda defendeu a anulação das eleições. Juscelino não havia feito maioria, seu meio milhão de votos sobre Juarez Távora eram votos dos comunistas.

Lacerda em 1963, governador da Guanabara, tramou golpes para chegar ao poder (Folhapress)

Às favas com o jurisdicismo da ala legalista da UDN. O caso era apear Juscelino, e logo João Goulart, seu vice, do poder. Lacerda tinha pressa.

Em abril deste ano, Lacerda faria 100 anos. Nos manuais de história, ele é o corvo da Terceira República. O apelido foi dado pelo jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Pegou. Lacerda incorporou o pássaro negro a sua propaganda. Proscrito da vida pública ainda relativamente jovem, assim prossegue. Nenhuma comissão da verdade pede o reexame de sua morte.

Seu arqui-inimigo, Getúlio Vargas, chefe de um regime de exceção de década e meia, que fechou o Congresso, extinguiu os partidos, prendeu e torturou com sua polícia política, prossegue como herói da historiografia oficial.

Em parte, isso se dá pela sina incontornável da história: Lacerda foi um político derrotado. Nos 19 anos da “república populista”, andou sempre no avesso do poder. Terminou derrotado pelo regime militar – que apoiara e, depois, o baniu da vida política. Lacerda chegava à maturidade de seus 50 anos em 1964. Aspirava à Presidência, queria ser o candidato da “revolução”, nas eleições de 1965. Errou feio. De certo modo, terminou como Leonel Brizola, tolhido da chance de deixar um legado, como o fizeram Juscelino e Vargas. Brizola, longevo, ainda sobreviveu. Teve sua chance, na redemocratização. Lacerda se foi em 1977, inglório, morto de uma complicação cardíaca.

Vem daí o mérito do livro recém-lan­çado de autoria do historiador Rodrigo Lacerda, A república das abelhas. Rodrigo é um escritor premiado, doutor em história pela Universidade de São Paulo. É também neto de Carlos Lacerda. De cara, isso o livra do debate sobre o “distanciamento”. “Tentei tirar partido disso”, diz Rodrigo. E conseguiu.

Rodrigo toma o avô como narrador de sua própria história e produz um livro cativante. Algo que ele chama, “por falta de definição melhor”, um “romance histórico”. Não gosto da expressão. Um livro de história sempre será uma obra de ficção. A ficção sobre o tempo que se foi e do qual recolhemos os pedaços. Rodrigo recolhe os cacos da história dos Lacerdas, desde o avô de Carlos, Sebastião, abolicionista e republicano, e estabelece seu ponto de vista.

>> O Brasil das placas…e o Brasil das ruas

Rodrigo conta a história do atentado da Rua Tonelero, em 1954. Daria um bom hobby colecionar versões sobre o acontecido, naquela madrugada, em Copacabana. Conheço livros de história que asseguram tudo não ter passado de uma jogada para incriminar Getúlio: a confissão do negro Gregório, o ferimento de Lacerda, tudo mentirinha.

História? Talvez seja melhor ficar com o romance, mas não faz muita diferença. Rodrigo escreve um livro cuidadoso, como devem ser os livros de história. Seu maior achado foi transformar Lacerda num homem ponderado.

Na classe média carioca, com alguma informação e bastante idade, Lacerda é lembrado como governador enérgico e competente, o primeiro do então recém-criado Estado da Guanabara, na primeira metade dos anos 1960. Seu governo universalizou o acesso ao ensino primário e chegou a publicar um decreto prevendo processo para os pais que não matriculassem seus filhos na escola.

Modernizou a gestão, tornou obrigatório o concurso público, investiu como nunca em saneamento básico, investiu em obras estratégicas, como a estação Guandu, os túneis Rebouças e Santa Bárbara, mandou fazer o Parque do Flamengo.

Lacerda disse, no fim da vida, que sempre quis ser escritor. Foi dramaturgo, traduziu 30 obras (de Shakespeare a Tolstói) e escreveu um livro de memórias, A casa de meu avô, que lhe valeu a frase de Carlos Drummond de Andrade de que bastava o livro “para garantir-lhe esse lugar que importa mais do que os lugares convencionalmente tidos como importantes”. Mas deixou sua melhor memória como gestor público.

Sua paixão definitiva foi o jornalismo de combate, o articulismo enragé, tradição hoje desaparecida, pois nenhum governante perde o sono em função de um artigo de jornal.  Escreveu um livro apresentando sua visão sobre o jornalismo, A missão da imprensa, em que faz uma candente defesa da independência do jornalismo diante dos governos e grupos de poder, a profissionalização do jornalista, o rigor na verificação das fontes. É evidente que esse não foi o caso de seu jornal, a Tribuna da Imprensa, fundada por ele.

Nem foi o caso da publicação da Carta Brandi (uma carta forjada do deputado argentino Antonio Brandi a Jango, apresentada pelo jornal como a prova de uma conspiração para implantar uma “república sindicalista” no Brasil). O Lacerda reflexivo, saído da mente de Rodrigo, “fora do jogo, lembrando o campeonato”, quem sabe teria checado se aquela assinatura era mesmo verdadeira, antes de publicar a carta. Lacerda levou a contradição entre a palavra e a vida ao estado da arte.

Jovem comunista, Lacerda virou conservador e incorporou o
personagem do moralista da República

Nos anos 1930, foi comunista. Nunca foi formalmente aceito no partido, mas se tornou orador estudantil da Aliança Libertadora Nacional. Em 1935, fez a leitura do manifesto de Luís Carlos Prestes, que levaria ao fechamento da ALN. Rodrigo sugere um jovem Lacerda incomodado com a verborragia lunática de  Prestes, que entre outras coisas convocava os índios brasileiros a aderir à causa proletária. É possível. De todo modo, seu divórcio com o comunismo vem apenas no final dos anos 1930.

Escreveu um artigo, “A exposição anticomunista”, segundo Lacerda com o conhecimento do partido, em que fazia crer que o PCB não tinha mais influência relevante na política brasileira. Foi expurgado. Seus amigos comunistas o largaram, sob o efeito do Artigo 13 do estatuto do Partidão, que proibia seus integrantes de falar com os inimigos do partido. Foi sua experiência pessoal com a ideia totalitária.

>> Segredos de Jorge Amado

Da crítica ao comunismo emerge, nos anos 1940, o Lacerda conservador. Por volta de 1948, converte-se ao catolicismo, sob influência de Fulton Sheen, líder católico americano, carismático e tele-evangelista (atualmente em processo de beatificação), e de intelectuais, como Alceu Amoroso Lima. Lacerda lapida sua concepção do universo político, segundo a qual “o liberalismo só pode funcionar em uma sociedade dotada de base moral”. Base moral que, por suposto, subordina qualquer ideia de pluralismo político e social. Não é um acaso que a Tribuna da Imprensa surge, no final de 1949, com o objetivo explícito de “cristianizar a sociedade”.

No ambiente da Guerra Fria, o discurso conservador encontrava uma tradução fácil: o anticomunismo, mistura de “medo real com uma espécie de indústria do pavor”, na definição de Elio Gaspari. O comunismo, hoje, é um espantalho, e o moralismo católico saiu de moda. À época, dava audiência e um bom bocado de votos. O mundo andava em transição, nos anos 1950 e 1960. A juventude lia Jack Kerouac e experimentava a liberdade sexual que a pílula oferecia, mas expressões como o “perigo vermelho” e a “destruição do nosso modo de vida”  mexiam com a cabeça das senhoras de Copacabana. Lacerda soube ser seu porta-voz.

Larcerda discursa em São Caetano do Sul, em 1968 (Folhapress)

Suas posições, naqueles anos, são bem conhecidas – e não são isentas de contradições. Em 1947, agiu como um liberal, reagindo à decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de cancelar o registro do PCB. Diferentemente dos trabalhistas e da máquina sindical atrelada ao governo, avessos à concorrência.

Em 1954, foi o pivô da crise de agosto, que levou ao suicídio de Vargas. Em seguida, defendeu o adiamento das eleições, alegando a necessidade de um “estado de exceção”, um período de reforma constitucional para corrigir os males de nossa democracia. Em 1955, zarpou no Cruzador Tamandaré, com o presidente interino Carlos Luz, acossado pelos canhões do Forte de Copacabana, em oposição à posse de Juscelino.

Em 1961, opôs-se à posse constitucional de Jango e, em 1964, liderou a mobilização golpista no Rio de Janeiro, com sua metralhadora INA a tiracolo, desde o Palácio Guanabara.

Sempre desconfiei dos que atribuem coerência demais à trajetória dos atores políticos. O jogo do poder frequentemente adquire uma lógica própria, há o erro, há o desvio, o exagero e, por fim, há sempre muita teoria disponível para interpretar e ajustar a realidade. O fato é que Lacerda fez do “golpismo democrático” a marca maior de sua personalidade política. Aquela que produziu o “lacerdismo”, uma arte, um pecado da política brasileira, que consiste em pôr em xeque as instituições da República quando interessa. Uma arte sem ideologia, frequentemente feita de bons argumentos. Pecado que ninguém mais, felizmente, soube cometer como Lacerda.

>> A primeira revolução sexual

Quem sabe o lacerdismo tivesse um componente estético. Lacerda foi, na definição de Rodrigo, alguém com a “trágica incapacidade de aceitar o mais ou menos, na terra do mais ou menos”. O ponto é que a democracia vive, em boa medida, do mais ou menos. Do acordo, da procura pelo consenso. A vida de Lacerda foi a recusa permanente do acordo. Talvez tenha sido seu personagem: o moralista da República. Atores políticos elegem seus personagens. Juscelino escolheu ser o otimista, o democrata, o “sonhador do Brasil”; Tancredo escolheu ser a tradução discreta do bom-senso. Lacerda fez sua escolha. Nunca pareceu arrependido, mesmo na derrota.

Fiel seguidor do “estilo dos Lacerdas” – herdado de seu pai, Maurício, deputado na República Velha, pioneiro na defesa da legislação trabalhista –, Lacerda foi muito além. Seu poder de atração residia, essencialmente, na palavra, no talento de orador. O maior de todos, na opinião insuspeita de Almino Affonso.

A autoconfiança que o fez entrar sozinho, numa madrugada de dezembro de 1961, no presídio Lemos de Brito, para controlar a rebelião de algumas centenas de detentos, episódio em que teria sido ajudado pelo preso ilustre, Gregório Fortunato.

Exagero ou não, está lá, numa carta de Drummond, de 1976: “Ninguém é indiferente ao charmeur irresistível que você é; e mesmo os que dizem detestá-lo, no fundo, gostam de você. Gostam pelo avesso, mas gostam”.

A vocação de charmeur, quem sabe, fez com que conseguisse, a partir de 1966, uma improvável reaproximação com Juscelino e Jango, para a formação da Frente Ampla, em oposição ao regime militar. Também aí foi derrotado. São muitas as razões. Uma delas era a memória, ainda fresca. Mesmo que pensasse rápido, que não guardasse mágoa, era óbvia, para Lacerda, a dificuldade de ser reconhecido como um democrata pela oposição ao regime. Em 1968, logo após a decretação do AI-5, Lacerda teve seus direitos políticos cassados por dez anos.

Só com a Constituição de 1988, e após o impeachment de Fernando Collor, que a República adquiriu alguma estabilidade. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, foi criado o Ministério da Defesa, que passou a ser ocupado por um civil, e as Forças Armadas retiraram-se por completo da cena política.

Logo que eleito, Fernando Henrique sugeriu que chegara o tempo de superar a era Vargas: a era do Estado empresário, do sindicalismo oficial, do empreguismo público, da cooptação política via distribuição dos cargos e favores públicos.

A lista dos arcaísmos brasileiros é extensa e velha conhecida. Fernando Henrique poderia ter acrescentado que também chegara o tempo de superar a “era Lacerda”. A era do tudo ou nada, do diálogo impossível, do logro permanente das regras do jogo. Havia chegado o tempo da convergência.  Em nome desse aprendizado, haviam sido feitas a anistia, a transição pacífica para o poder civil, a nova Constituição e, finalmente, a normalização econômica do país, com o Plano Real. Nesta Quinta República, é certo que o Lacerda moderno, defensor do fim do imposto sindical, do direito das famílias à escolha educacional, e o Lacerda intelectual teriam algum papel a cumprir. O “corvo”, papel nenhum.

Rodrigo, agora, nos deve um segundo volume, contando sobre seu avô nos anos de 1954 a 1977.

Quem sabe um Lacerda, já veterano, entre suas abelhas, nos conte sobre suas aventuras da maturidade. Não apenas sobre seu governo na Guanabara, sua vitória de Pirro em 1964, mas também arrisque um pouco mais. Que diga se acreditava, realmente, no moralismo udenista e se de fato errou na perseguição que promoveu a Juscelino, como teria reconhecido, num encontro da Frente Ampla. Que fale de suas amizades com os intelectuais, de John dos Passos a Erico Veríssimo, e nos confesse se, nos últimos anos, não fora se tornando mais um liberal e menos um conservador.

E, de passagem, nos conte sobre o que realmente aconteceu entre ele e Shirley McLaine, naquele outono californiano de 1968.

Fernando Schüler é doutor em filosofia, diretor do Ibmec RJ e curador do Projeto Fronteiras do Pensamento

 

Biografias, santos e demônios

O cantor-compositor Roberto Carlos dá um passo atrás na celeuma das biografias. Admite “conversar”, mas avisa que prepara a sua autobiografia.

Deu entrevista exibida ontem à noite ao programa “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão.

Enfim, vem aí uma “hagiografia” (biografias de santos, excessivamente elogiosas).

Já imaginou convivermos só com “biografias autorizadas”?

Família de Al Capone o transformaria num benemérito de Chicago dos anos 20.

Veja só: se o jornalista-escritor Lira Neto não tivesse mergulhado de forma densa na vida de Getúlio Vargas, como saberíamos detalhes tão ricos da vida desse personagem controverso que faz parte da história moderna do Brasil?

Mas claro que não estamos livres de biografias “encomendadas” para satanização de quem não pode se defender, contratada por poderosos.

O tema envolve liberdade de expressão e direito à privacidade, interesses econômicos e outros aspectos.

Vai render mais polêmica.

Lira Neto diz como entender Getúlio Vargas

Por Honório de Medeiros

Como entender o camaleônico Getúlio Vargas?

Getúlio no traço de Nassara

No volume 1 do excepcional “GETÚLIO” (1882-1930), de Lira Neto, parece estar a resposta.

Borges de Medeiros, que andara às rusgas em relação aos Vargas, voltara a cortejá-los. São os idos de 1913-1915.

Faz o convite a Getúlio para ocupar o importantíssimo, na época, cargo que ele mesmo ocupara, de Chefe da Polícia Estadual. Getúlio analisa e recusa o convite.

“Mesmo rejeitando o convite”, conta-nos Lira Neto, (Getúlio) “tomou os cuidados necessários para que seu gesto não fosse interpretado por Borges de Medeiros como um acinte.”

Instado, pelos amigos, a se explicar, Getúlio Vargas o fez:

“Na luta, vencer é adaptar-se, isto é, condicionando-se ao meio, apreender as forças dominantes, para dominá-lo”, esclareceria ao amigo Telmo Monteiro.”

“Para Getúlio”, prossegue Lira Neto, “aquela frase, de clara inspiração darwinista, passara a funcionar como uma espécie de mantra. Faria questão de repassá-la aos filhos, como uma fórmula explicativa da vida e do mundo.”

Vencer não é esmagar ou abater pela força todos os obstáculos que encontramos – vencer é adaptar-se, repetiria certo dia Getúlio ao filho mais velho, Lutero. Como o garoto ficasse em dúvida a respeito do verdadeiro significado da sentença, o pai detalharia: Adaptar-se não é o conformismo, o servilismo ou a humilhação; adaptar-se quer dizer tomar a coloração do ambiente para melhor lutar.”

Essa informação, essencial para entender Getúlio Vargas, Lira Neto colheu em seu “DIÁRIOS” (2 volumes; São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas; 1995), e soube compreender sua importância.

Quanto à importância, muito embora essa informação, por si somente, a assegure, convém observar que dada sua relação com o pensamento de Lamarck, não propriamente com o de Darwin, pode ensejar rios de tinta enquanto dissertações de mestrado e/ou teses de doutoramento.

Principalmente se a cotejarmos com as consequências epifenomênicas teórico políticas da existência de uma lei da evolução, qual seja o pensamento de Maquiavel ou de Gaetano Mosca, ou se cotejarmos com a vida de notórios manipuladores e sobreviventes de sua própria época política, por exemplo Talleyrand ou Fouché.

O certo é que Lira Neto, de forma brilhante, apreendeu a medula do aparentemente proteiforme Getúlio Vargas e a expôs no primeiro volume de sua biografia, uma obra já seminal. Nesse pequeno trecho lemos, oculto por uma vida intensa, complexa, onipresente ainda hoje, como pensava e agia o mais importante político brasileiro do século XX.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

A boa prosa sobre jornalismo e literatura

A 8ª Feira do Livro de Mossoró deu-me oportunidade, ontem à noite, de mediar e conduzir bate-papo literário com o jornalista e escritor Lira Neto. Ocorreu no Expocenter, às 20h30.

Foi uma conversa leve e solta sobre as atividades do jornalista e escritor. Em seguida, um debate com a plateia.

Passeamos pelos bastidores da produção de livros biográficos, focando personagens riquíssimos como José de Alencar, Castello Branco, Maysa Matarazzo, Padre Cícero e Getúlio Vargas.

Lira Lira (à direita) fala sobre a trilogia de Getúlio Vargas durante bate-papo com o editor desta página (Foto: divulgação)

Quanto a Getúlio Vargas, a certeza de uma trilogia literária densa e reveladora. Dos três volumes, o primeiro (Getúlio: Dos anos de formação à conquista do poder) está entre os mais vendidos do país nos últimos meses. Os títulos seguintes virão nos próximos anos. Vão fechar o ciclo de vida desse vulto da história política brasileira.

– É um trabalho exaustivo – classificou o autor.

O escritor, de antemão, disse que os livros vão revelar bastidores e facetas interessantes da luta de titãs entre Getúlio Vargas e Carlos Lacerda (jornalista e político). Assinalou, por exemplo, que o leitor vai descobrir que o presidente-ditador tinha admiração pessoal por seu principal verdugo.

Lacerda era definido por Vargas como uma figura de notável inteligência, mas que infelizmente estava em lado oposto ao seu na política.

Lira informou ainda que biografias de Vargas e Padre Cícero devem se transformar em produções cinematográficas. E foi claro: não pretende exercer qualquer tipo de exigência à fidelização do que textualizou. Nenhuma ingerência.

Conformado, reconheceu que essa transposição de conteúdo do papel para as telas não costuma ser muito fiel.

Lembrou, por exemplo, que “Maysa: Só numa multidão de amores” (que se transformou numa minissérie da Rede Globo de Televisão) é uma experiência que prova muito bem essa visão. O roteiro da TV, em certos aspectos, conflitou com o dissertado no livro.

Como diria o cronista Antônio Maria… “a noite é uma criança”. A madrugada, então, foi de prosa à mesa do Bistrô Lyon, com os jornalistas Larissa Gabrielle, Carlão de Souza e Cid Augusto, além do próprio Lira.

Ninguém é de ferro. Merecíamos essa confraria sem pauta, após o compromisso na Feira do Livro.

A ‘anomalia’ de ser oposição no Brasil do patriciado

Os partidos brasileiros existem desde a primeira metade do Século XIX. De lá para cá, mais de 170 anos depois, a impressão que temos é de que na verdade só existe um aglomerado de siglas, sopinha de letras. De verdade mesmo, temos o “Partido do Patriciado”.

O patriciado, na Roma republicana, era o grupo ou classe dos que, por berço ou por concessão, detinham o prestígio dos títulos nobiliárquicos que significavam poder político. Só eles ascendiam aos cargos públicos.

Através dos  séculos e neste lado do Atlântico, a prática política do pindorama brasileiro tem dificuldade de funcionar diferente.

Já dizia o acadêmico e historiador José Honório Rodrigues, que no Brasil nunca existiu partido político; o pluripartidarismo seria uma miragem. Todos querem ser do patriciado. Pertencer à oposição é uma anomalia, quase um acinte, conforme a cultura política nacional.

Por isso que não temos partidos centenários, como nos Estados Unidos da América (EUA). Lá, o Democrata nasceu em 1790. São mais de 220 anos. O Republicano foi formalizado em 1837. São quase 175 anos de vida.

O instável ambiente político-institucional brasileiro ajuda a explicar, em parte, essa vocação para a voz única e punição ao contraditório. Estamos na sétima Constituição Federal – EUA só possui uma em toda sua história -, fomos uma Monarquia que desabou numa pseudo-República e já tivemos pelo menos dois regimes ditatoriais explícitos – Estado Novo de Getúlio Vargas e Ditadura Militar de 1064.

Realmente, não é fácil ser oposição nesse Brasil varonil!

 

Micarla agora quer “pessoas certas nos lugares certos”

Com quase 4 anos de gestão, Micarla de Sousa (PV) brada razões para sua mais nova reforma de equipe: “Quero colocar pessoas certas nos lugares certos”. São 54 na nova “fornada”.

E tava tudo errado?

Micarla sairá do governo para entrar na história. Comete suicídio político, diferente de Getúlio Vargas: sairá fisicamente viva e politicamente morta.

A prefeita natalense é uma mulher de paroxismo: entrou na prefeitura sob consagração, numa vitória histórica. Sairá sob repulsa de difícil repetição.

Garibaldi Filho prevê que Henrique presidirá Câmara

Acompanhei entrevista do senador e ministro da Previdência Social, Garibaldi Filho (PMDB), à TV Ponta Negra, à tarde dessa segunda-feira (2). Falou sobre vários assuntos.

Mas em especial me chamou a atenção sua firmeza em preconizar que o primo, deputado federal Henrique Alves (PMDB), será mesmo o futuro presidente da Câmara Federal.

O âncora do Jornal do Dia, jornalista Luiz Henrique, levantou o assunto.

– Estou absolutamente convicto de que ele será presidente – disse Garibaldi.

Seu arrazoado à profecia, se sustentou num acordo feito ainda em 2010, pelas bancadas majoritárias – PT e PMDB – que sustenta a assunção de Henrique, líder do PMDB.

Garibaldi lembrou, que o Rio Grande do Norte já tivera um presidente do Senado e agora terá um presidente da Câmara Federal.

Nota do Blog – Só a título de esclarecimento: o primeiro potiguar a presidir o Senado não foi Garibaldi Filho, mas Café Filho (PSP-Partido Social Progressista), eleito vice-presidente da República em 1950. Como regia a Constituição, a primazia de presidir o Senado cabia ao vice-presidente da República.

Outra curiosidade: os candidatos a presidente e vice eram votados separadamente. Café Filho não era da cota de amizades/aliado do presidente eleito Getúlio Vargas, mas esse o engoliu devido o apoio do líder paulista Ademar de Barros (PSP), endossante do nome de Café, natalense nascido no bairro Rocas.

Com o suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954, Café assumiu o governo até ser deposto em 8 de novembro de 1955. Foi o único potiguar a assumir a Presidência da República.