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Pequeno manual para se escrever uma crônica

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Agora vejo que a semana expirou. A labirintite, um tanto de esquecimento e outro de preguiça findaram por prejudicar o envio de meu texto para o BCSBlog Carlos Santos. Não bastasse, nocauteado pelos antipsicóticos, hoje só me acordei às nove e quinze da madrugada. É dia 6 de março. Noite veloz. Há pouco eu estava no mercado fazendo umas compras, gêneros alimentícios, quando súbito ouço um bipe. Peguei o telefone. Meu editor (lacônico) havia deixado uma mensagem no WhatsApp me cobrando a fatura.

Foi só aí que esta tarefa me veio à lembrança. “Mais tarde eu mando”, respondi também de modo telegráfico. Sendo franco, não tenho muita convicção disso: tirar da cartola algo dessa ordem assim, em cima da hora. Às sextas, tipo uma poção mágica, é o dia que tacitamente estabelecemos como prazo. Meu laboratório de escrita possui umas fórmulas pouco criativas quanto surradas.

Não tenho, ao contrário de Otto Lara Resende, redação fluente. Escrevo deveras a custo; inicio um parágrafo e por vezes fico sem o que dizer no período seguinte. Quem sabe este pequeno manual para se escrever uma crônica seja útil a alguém. Vou me afundando no lugar-comum, e a necessidade de produzir literatura de qualidade ao menos razoável descamba para o brejo. Estou às voltas com um exercício autopunitivo e sigo tocando esta barca furada a duras penas.

Nem tudo, entretanto, é só engodo e fracasso. É possível, embora apresentando um recurso batido, repisado, avançar no manejo desta sopa de letrinhas. O sabor é de fato ruim, todavia o caldo pode se tornar nutritivo. Claro que ninguém é forçado ou manipulado a consumir este miojo pouco substancial, inapetente. No que se refere ao improviso, contudo, desconfio de que o resultado será exitoso.

Porque uma narrativa deste naipe pode ser elaborada com boa quantidade de rodeios e delongas. Indivíduos de alto coturno no universo das letras passaram e passam por esse tipo de aperto e quase todos, para não faltarem aos seus espaços culturais, optaram por esta velha receita de escrever sobre a falta do que escrever. Então, conforme mencionei algumas linhas atrás, essa malandragem inócua vai devagarinho ganhando peso.

Estou, podem crer no que lhes digo, resignado para receber uma chuva de canivetes. Dou a cara à tapa sem ressentimento algum. Fico imaginando o semblante do solene editor deste blogue diante da minha artimanha palavrosa. O que dirão (ou tão só farão vista grossa) determinados habitantes deste ilustrado recinto de opinião e cultura? Tenho para mim que, no mínimo, devem exibir um ar de decepção. Não lhes condeno os resmungos ou apenas o silêncio. Fazer o quê?! Depois de todo este circunlóquio, após um nariz de cera sem tamanho, posso assegurar que já escrevi algumas coisas bem piores. O que sempre me incomoda é requentar o pão.

Entrementes, assim maculando a pureza desta página, noto que sobrevivi à complexidade da missão: fugir da guilhotina. Meus colegas de blogue (alguns nunca vi mais gordos) podem perfeitamente concluir que sou um escriba de menor estatura, de cabedal nitidamente limitado. Não reúno, por exemplo, o misto de erudição e didática do escritor e causídico Marcos Araújo, meu xará, que é mais difícil de se ver do que um político reeleito.

Existe também, entre outros, a mansuetude cativante do cronista Odemirton Filho. Quanto ao meu tiquinho de leitores, cujos nomes prefiro não citar, de modo a não cometer o pecado da omissão, conto com a tolerância e o carinho deles. Isso não é pouca coisa. Classifico esse tratamento ou indulgência para comigo como um grande privilégio, um voto de confiança de especial nobreza.

De resto, para aqueles que padecem com a falta de assunto, de inspiração, recomendo que não se desesperem. Tomem um gole de café e, por que não, façam uso deste pequeno manual para se escrever uma crônica. Não têm nada a perder. Talvez isto dê certo e lhes salve o pescoço da guilhotina.

Marcos Ferreira é escritor

O assassinato da palavra (“Palavricídio”) e o alfabeto infantil dos Emojis

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Um dos fenômenos linguísticos desse tempo da digitalidade é a substituição da palavra pela figuração de um emoji. A humanidade, que um dia produziu Homero, Cervantes, Dante e Machado, agora se contenta com um polegar apressado e um rostinho amarelo piscando. Que triunfo.

Passamos milênios aperfeiçoando a linguagem — essa máquina complexa capaz de erguer filosofias, ciências e tragédias — para hoje substituí-la por um catálogo de figurinhas. É a consagração do Homo Sapiens versão fast-food: mastiga menos, pensa menos, fala menos. Basta um emoji e pronto: você comunica tudo… ou melhor, nada com aparência de tudo.

Não se trata de nostalgia filológica; trata-se de constatar um fenômeno linguístico preocupante: a regressão voluntária da competência verbal. A substituição sistemática de palavras por emojis não representa modernização, mas infantilização expressiva. E infantilização não no sentido doce: infantilização cognitiva, aquela que encolhe o pensamento ao tamanho de um balãozinho colorido.

O problema não é o emoji — o problema é o que ele substitui. Quando o ícone ocupa o lugar da frase, não economizamos tempo: empobrecemos o repertório mental. A linguística é clara e cruel: palavras não são ornamentos, são instrumentos de raciocínio. Ao abandoná-las, abrimos mão da única tecnologia capaz de organizar ideias complexas. O emoji, afinal, não argumenta; apenas sinaliza emoções básicas.

Há quem romantize o fenômeno, comparando emojis a hieróglifos. É uma analogia conveniente — e profundamente equivocada. Os hieróglifos eram sistemas semânticos sofisticados; os emojis são reações emocionais pré-fabricadas. Confundir ambos é o primeiro sintoma da crise linguística que fingimos não ver.

A linguística explica, mas o cotidiano comprova: quando você reduz palavras, reduz sentidos. Cada palavra abandonada é um conceito amputado, uma nuance enterrada viva. E ainda há quem comemore: “olha que lindo, agora todo mundo se entende!” Sim, claro. Basta reduzir a humanidade ao vocabulário emocional de uma criança de dois anos. Universalidade garantida.

Se a palavra é a espinha dorsal da civilização, o emoji é sua vértebra de plástico: simpática, decorativa e absolutamente incapaz de sustentar qualquer estrutura que não desabe ao primeiro vento.

Mas o melhor — ou o pior — é a ilusão de profundidade. O sujeito manda um 😔 e acredita ter comunicado sofrimento existencial. Um 😂 resolve qualquer conversa. Um ❤️ substitui qualquer afeto. É a terceirização absoluta das emoções: não formulamos mais sentimentos, escolhemos ícones.

Não deixa de ser trágico assistir à humanidade, orgulhosa de sua própria racionalidade, entregando sua herança linguística em troca de conveniência. Talvez, quando a última biblioteca silenciar, sobre apenas um símbolo iluminado na tela.

Provavelmente um 👍

Marcos Araújo é professor da Uern, advogado e escritor

O Efeito Casulo – Dia 25

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Saíram há pouco. Combinamos de nos encontrar aqui às dezessete horas, isto após enfim eu quebrar o silêncio à noite de ontem e entrar em contato com eles via telefone. Achei que demorassem a chegar. Os três, porém, compareceram quase a um só tempo. O primeiro foi Carlos Santos. Marcos Araújo chegou logo depois e, após uns dois minutos, surgiu Clauder Arcanjo. Recebi-os com um abraço e lhes apertei a mãoainda na calçada. Retribuíram os abraços de modo enérgico. Como de outras vezes, a cafeteira já estava pronta. Entraram e fomos para a mesa da cozinha. Liguei a maquininha e esta começou a processar a rubiácea. O cheiro do moca ocupou o recinto. Notei que examinavam a casa com o rabo do olho, um tanto de esguelha.

Estou há uns dez dias sem fazer uma faxina. Tem poeira por todo lado e é possível de se notar o discreto rendilhado das teias de aranha nos recantos dos móveis, no teto e reentrâncias das paredes. A mesa, no entanto, eu havia limpado direito, sobre a qual coloquei em espera quatro pequenas canecas.

Descreverei agora o que se passou na visita que recebi por volta das dezessete horas, ocasião em que vieram aqui meus prováveis editores Carlos Santos, Marcos Araújo e Clauder Arcanjo. Um ar apreensivo estava estampado naqueles rostos. Esperavam que eu lhes contasse o quanto antes detalhes de minha doença, coisa que divulguei no blogue há quase um mês. Arcanjo me pareceu o mais ansioso. Tinha, repito, o cenho tenso e volta e meia lambia o lábio inferior, exibindo as sobrancelhas mais arqueadas do que de costume. Os outros dois não tinham um aspecto menos preocupado. A veia bem-humorada de Marcos Araújo sumira. A angústia era visível. Carlos Santos falou qualquer coisa sobre eu já lhe ter enviado capítulos com antecedência; e aproveitei a deixa para, enquanto lhes servia o cafezinho, por tudo às claras:

— Muito bem. Acredito que vocês têm ciência de que esse quadro de saúde (doenças, na verdade) é grave e incurável. Já me encontro com metástase. Estou tranquilo, resignado com o destino que se apresentou para mim. Apesar do impacto que sofri no dia em que o doutor Epitácio Coelho (o oncologista) me comunicou tal coisa, não demorei muito e comecei a enviar para o blogue do Carlos Santos essa história irreversível, sem possibilidade de cirurgia. É este o drama.

Clauder, engenheiro da Petrobras e também escritor, a exemplo de Marcos Araújo e de Carlos Santos, é cearense da remota e pequenina Santana do Acaraú. Nos últimos tempos ele mantém um pé em Mossoró e o outro em Fortaleza. Tomou a palavra e destacou que deveríamos ouvir a opinião de outro médico. Carlos Santos balançou a cabeça e soltou um “exatamente”. Percebi que Clauder, além da fisionomiaentristecida, falava com a voz um tanto quanto embargada. Solícito, fraterno, ele me comunicou que eu contaria com todo o suporte necessário para essa viagem e consulta em um hospital especializado e particular daquele estado, berço de tantos grandes talentos na literatura e nas artes como um todo. Pois é, foi-me oferecida a opção de ouvir o parecer de outro doutor, além de contar com ajuda financeira para essa finalidade na capital alencarina. Os demais prontamente aprovaram a proposta de Clauder:

— É isso, Fernando. Concordo com a ideia de Clauder. Podemos ir a Fortaleza o quanto antes fazer novos exames e consultar outro oncologista. Quem sabe esse tumor seja maligno, mas operável, sem metástase. Tentar não lhe fará mal. Outra coisa que você não deveria desprezar é o tratamento por meio de radioterapia e quimioterapia.Não entregue os pontos tão depressa, sem lutar. Fortaleza é um centro mais avançado que Mossoró em vários aspectos — destacou Araújo.

Comecei a servir-lhes o café, que desta vez não obteve o sucesso como da maneira que ocorreu nas ocasiões em que estávamos aqui envoltos pelo puro prazer de nos reunirmos para bater papo, jogar conversar fora. Sentei-me à mesa com minha caneca e expus um ponto de vista acerca do meu próprio caso:

Considero isso, senhores, algo inútil. A terra de Rachel de Queiroz não será minha salvação. Aliás, não há salvação para mim em parte alguma. Estou condenado e resignado com o que me espera em um tempo demasiado curto. Chamei-lhes aqui meramente para discutirmos o que será feito dos livros inéditos. Espero contar com a colaboração de vocês para não deixar os originais confinados no computador tantoquanto no e-mail. Hoje eu lhes informarei a senha. A esta altura dos fatos não desejo outra coisa. Já contratei até um plano funerário. Torço não morrer antes do período de carência para a cobertura dos procedimentos mortuários. Não adianta mais a gente recorrer a Fortaleza ou qualquer centro clínico deste país. Minha situação é um caso defavas contadas. O tempo que me resta é por demais exíguo. Então, estimados amigos, tenho pleno interesse de que fiquem com esta casa, o único bem material que possuo, além dessa bicicleta que estão vendo aí escorada no muro. Cuidarei, de maneira formal, para que tenham direito ao espólio. Não disponho de herdeiro algum. Depois podem vender este imóvel para custear a publicação de minhas obras. Sobretudo cinco romances e um livro de contos, isto sem falar na grande quantidade de poemas.

O jornalista Carlos Santos insistiu um pouco, tentou se agarrar à ideia de Clauder, entretanto acho que, lá no fundo, compreendeu que não há escapatória nenhuma para mim. Cada um tomou o primeiro gole do café e se conservaram em silêncio por cerca de um minuto. Mostravam-se impactados com a notícia do câncer e do destaque que dei ao detalhe da metástase. Carlos Santos, depois de soltar dois pigarros, falou sem me olhar diretamente, os olhos voltados para a caneca:

— Acho difícil acreditar no que está acontecendo. Desde os primeiros capítulos que você me enviou para publicar no blogue, o modo como se isolou até agora, isso me deixou angustiado. Você não merece tal coisa, meu caro. Ainda é jovem, com muita estrada para percorrer no universo das letras. Não é fácil, portanto, processar uma informação desta. Afligi-me esses dias todos recebendo os textos informando, sobretudo, seu estado crítico. Reconheço que não há nenhuma saída, contudo a parte de nos tornarmos herdeiros não me agrada. Sinto-me desconfortável. Será que você não tem por aí algum parente, ainda que distante? Claro que a venda de sua residência cobre tranquilamente os custos da publicação, mas de qualquer modo iríamos nos organizar para trazer esses livros a lume. É isso, prezado Fernando, a gente não se sente nada bem passando à condição de seus herdeiros. Tenho certeza de que Clauder Arcanjo e Marcos Araújo pensam igual a mim. Eu me sentiria muito melhor se tivesse alguém a quem deixar sua casa. Essa doença maldita, no estágio em que o tumor se encontra, não costuma perdoar ninguém. Quanto tempo, aproximadamente, o médico lhe deu? Você pode, ao contrário de nos fornecer a senha de seu e-mail, mandar os arquivos que deseja publicar para nós. Todos anexados em um só documento. Acho melhor assim.

— Está certo. Não atinei para essa opção. Juntarei os arquivos num só documento e mandarei para vocês, tudo no formato Word. A Clauder, principalmente, confio a supervisão dos originais (também conhecidos como bonecas) que a gráfica vai oferecer para conferência, antes de começar o trabalho de impressão. Não vou indicar ninguém, no entanto peço que encontrem um bom designer para conceber o projeto gráfico. Esses são detalhes que eu considero muito relevantes.

— Não se preocupe — interveio Marcos Araújo. — Dedicaremos absoluta atenção para que suas produções literárias sejam impressas com a máxima qualidade, sem qualquer falha. Também ajudarei Clauder nessa etapa do serviço. Pode confiar que os títulos ficarão bonitos e bem-acabados. Quem sabe ainda dê tempo de você mesmo constatar isso. Vamos antecipar a organização, encontrar alguém para cuidar do projeto gráfico e fazer umas capas bem bacanas. Mudando agora de assunto, destaco o quanto é desagradável falarmos a seu respeito como se você não estivesse entre nós. Isso dóisobremaneira nos nossos corações, amigo.

— Agradeço por tanta sensibilidade.

A conversa com meus futuros herdeiros durou aproximadamente três horas. Discutimos os pormenores da publicação dos livros e eles foram embora muito abatidos com a comprovação de minha doença sem jeito.

 Marcos Ferreira é escritor

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Ao mestre José Oto, com carinho…

José Oto Santana tinha 91 anos de idade (Foto: reprodução de rede social)
José Oto Santana tinha 91 anos de idade (Foto: reprodução de rede social)

Por Marcos Araújo

Hoje, Mossoró se veste de luto e reverência. Despede-se não apenas de um advogado, mas de uma instituição viva da advocacia potiguar: o inesquecível Dr. José Oto Santana, decano, mestre e referência para todos nós.

Fui seu aluno no quinquênio de 1983 a 1988; depois de formado em Direito, seu eventual contendor profissional em muitos processos; e, ao longo da vida, fundamentalmente, seu amigo e admirador. Relembro com carinho não só as suas aulas e os seus exemplos inusuais, mas as conversas hilárias ao longo dos nossos encontros.

Titular da OAB de nº 16-B (o 16º advogado com inscrição suplementar no RN), teve escritório por mais de cinquenta anos na rua Almeida Castro nº 39, nos fundos do Cine Teatro Cid. Sua prática profissional combinava bom senso, coragem, técnica e humanidade. Havia nele algo que transcendia a toga e os códigos: um espírito leve, um humor fino e generoso, capaz de desarmar tensões e transformar embates em aprendizado. Mesmo nas situações mais complexas — em audiências, em sala de aula ou em conversas entre colegas — José Oto encontrava um modo espirituoso de iluminar o ambiente, arrancando sorrisos sem jamais perder a compostura.

De banqueiro rico a Auditor Fiscal do Estado do Ceará como salvaguarda financeira, para depois vir a advocacia, “Zé Oto” gostava de contar, sem mágoas ou tristeza, os seus desafios existenciais. Ria das vaidades humanas com aquela ironia doce dos sábios que sabem que a vida é breve demais para ser levada tão a sério.  Seu bom humor era a prova de que a inteligência e a alegria, quando caminham juntas, também são virtudes jurídicas.

Contava muitas histórias e estórias, sendo essas últimas apenas para divertir o ambiente… Gostava ele de contar – e isso é um fato! – de ter sido o primeiro advogado em solo mossoroense a ter a liberdade de atuação. Quando ele aqui chegou, nos anos 70, não se processava determinados sobrenomes famosos da cidade. Nessa época, em um tempo em que ser advogado era um terreno tátil entre o ofício e a vocação, foi ele precursor da cobrança profissional de honorários. Enquanto os advogados da época recebiam prendas como animais e legumes por paga dos seus trabalhos, teve ele a coragem e lucidez em estabelecer que honorários não são concessão, mas reconhecimento justo do trabalho intelectual e moral que a advocacia exige.

Era uma espécie de Robin Hood na cobrança de honorários: dos ricos, cobrava bem; aos pobres prestava favores. Nas salas de aula, unia a precisão prática de um jurista à paixão de um humanista. Ensinava o processo não com o ritualismo estéril das teorias complexas, mas apenas como “instrumento de realização da justiça”, lembrando sempre o ensinamento de Piero Calamandrei: “O processo é o caminho do direito em busca da verdade.”

Suas petições eram breves e objetivas. Sem juridiquês. Gostava de dizer sempre: “Direito é lógica e bom senso!” Aliava à objetividade de um prático à consistência de quem “conhecia o caminho das pedras”. Era um frasista irreparável. São muitas as suas “pérolas”, como: “quanto mais cabra, mais cabrito”; “tudo certo? a casa quieta e o povo dentro!”.

Homem de hábitos discretos e convicções firmes, José Oto fez da assertividade e da amizade sua marca. Apesar de ser um “construtor de pontes” e cultivar amizades em dois Estados (CE e RN), quis terminar seus dias na idílica Tibau, arrastando para o seu alpendre os vizinhos para horas contínuas de gargalhada.

“A vida só tem sentido quando deixa marcas no caminho dos outros”, dizia Miguel Reale.  José Oto deixou marcas profundas em todos com quem conviveu, seja na advocacia, no ensino, nas instituições, nos negócios….

Na moldura do tempo, ficará sua imagem de advogado risonho, de fala ponderada e olhar firme, sempre cercado de ideias e de um sorriso pronto.  Disse o escritor Victor Hugo que “Morrer não é nada; horrível é não viver”. E José Oto viveu — intensamente, plenamente. Viveu como quem sabe que a morte não é o fim, mas coroamento; que a biografia dos justos não se apaga, apenas muda de lugar — sai do tempo e entra na memória.

Hoje, Mossoró chora, mas agradece. Chora o amigo, o mestre, o colega.
E agradece o legado: a forma como ensinou, o respeito que conquistou, a leveza com que soube viver, e a coragem com que soube partir.

José Oto Santana parte, mas não se ausenta. Ele é, e continuará sendo, parte viva da história afetiva da advocacia mossoroense. Descanse em paz, Mestre José Oto Santana.

A advocacia potiguar e a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte reverenciam seu nome e sua memória. Pois, como dizia Rui Barbosa, “Maior que a dor de ter perdido um justo, é o orgulho de ter convivido com ele.” 

Marcos Araújo, um ex-aluno e eterno amigo.

*Velório de José Oto Santana, 91, acontece no Centro de Velório Sempre, Sala 02, em Mossoró, com cerimônia Religiosa às 20h, no mesmo local.

Nessa terça-feira (14), será iniciado cortejo até Fortaleza-CE às 7 horas. Às 14h, será cremado no Crematório Fortaleza.

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ACJUS promoverá debate com Roberto Freire e Marcos Araújo

Marcos Araújo é advogado e acadêmico da ACJUS; Freire é ex-deputado federal por dois estados e ex-senador (Fotomontagem do BCS)
Marcos Araújo é advogado e acadêmico da ACJUS; Freire é ex-deputado federal por dois estados e ex-senador (Fotomontagem do BCS)

A Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Mossoró (ACJUS) promoverá na próxima sexta-feira (29),  às 18h30, mais uma edição do Fórum de Debates Pensando Mossoró. Ocorrerá no Teatro Alpha Lyra da Escola Mater Christi, à Rua Francisco Xavier, 365, bairro Santo Antônio.

Nessa noite, será promovida edição especial denominada “Pensando o Brasil”, com presença de dois debatedores de peso: o advogado, escritor, ex-ministro da Cultura, ex-deputado estadual, ex-senador e ex-deputado federal por Pernambuco, além de ex-deputado federal por São Paulo Roberto Freire, e o advogado, professor, escritor e acadêmico da ACJUS Marcos Araújo.

Tratarão de temas como a conjuntura política do Brasil, nova ordem global, conflitos internacionais, liberdade de expressão, democracia e interdependência dos poderes da República.

O acesso é franco e inscrições são feitas no próprio local do Fórum de Debates.

Mais informações: (84) 9 8868-4824.

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O Brasil e o quadro “Xeque-Mate” – a esperança na última jogada

Por Marcos Araújo

Friedrich Moritz August Retzsch, em pintura óleo sobre painel, 1831 (Reprodução)
Friedrich Moritz August Retzsch, em pintura óleo sobre painel, 1831 (Reprodução)

Há uma famosa pintura atribuída a Friedrich Moritz August Retzsch, artista alemão do século XIX, intitulada “Xeque-Mate”. A obra retrata uma cena tensa: de um lado da mesa, o Diabo triunfante; do outro, um jovem abatido, desesperançado. No tabuleiro de xadrez entre eles, parece não haver mais escapatória: o Diabo sorri, certo de sua vitória, enquanto o jovem vê todas as peças alinhadas contra ele. Mas, a despeito das aparências, há uma peça esquecida: o rei ainda não foi vencido. Existe uma última jogada.

Esse quadro tem servido, ao longo dos tempos, como metáfora poderosa da luta entre o bem e o mal, entre o desespero e a resistência. E talvez não haja figura mais apropriada para ilustrar o momento que vivemos no Brasil.

Vivemos um tempo em que o tabuleiro nacional parece dominado por forças hostis à racionalidade, à liberdade e ao senso comum. A política se vê encurralada por polarizações que se retroalimentam. A sociedade, fraturada, busca identidade em extremos. E o Direito — última trincheira da civilidade — parece por vezes cooptado por conveniências ideológicas, ativismos institucionais ou silêncios convenientes.

Em nome de causas, esquecem-se os princípios. Em nome da ordem, rasga-se o devido processo legal. Em nome do bem comum, toleram-se abusos que seriam intoleráveis em qualquer democracia madura. O povo — como o jovem do quadro — observa o tabuleiro com crescente desesperança, como se os lances já tivessem sido todos feitos e a derrota fosse inevitável. Mas talvez, como no quadro de Retzsch, o jogo ainda não esteja perdido.

Conta-se que um grande enxadrista, ao observar essa pintura, exclamou: “O jogo ainda não acabou! O rei ainda tem uma última jogada!”.  A observação partira do lendário campeão de xadrez Paul Morphy (1837–1884). Essa frase, que virou quase uma lenda, carrega um ensinamento poderoso: a esperança não está em negar a gravidade do cenário, mas em enxergar além do óbvio. O que parece xeque-mate pode ser apenas aparência — se houver sabedoria, coragem e fé.

O Brasil precisa reencontrar essa última jogada.

Talvez ela esteja na redescoberta dos valores republicanos, na restauração dos freios e contrapesos constitucionais, na recuperação da confiança entre as instituições e os cidadãos. Talvez esteja na sociedade civil, que pode — e deve — abandonar a passividade e exigir ética, técnica e decência na política. Talvez esteja na juventude, nos educadores, nos pequenos atos de resistência ao cinismo e à mentira.

A democracia brasileira não pode ser reduzida a um duelo de torcidas nem a um teatro de vaidades togadas. É tempo de nos lembrar de que o jogo da história nunca está encerrado enquanto houver um povo disposto a lutar, pensar e crer.

Como no quadro de Retzsch, pode parecer que o Diabo venceu. Mas o rei ainda pode se mover. Ainda há uma última jogada…Nas mãos do povo.

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Cronofobia social – a discriminação que se sente

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Vivemos tempos em que os rótulos ainda precedem os talentos. Um deles é o da idade. Há uma “doença” silenciosa na psiquê social quanto à idade, um idadismo ou ageísmo; uma discriminação com base na idade.

A capacidade não está nos fios brancos, nem na juventude do rosto. Ela reside na visão, no senso de justiça, na paixão pelo bem comum e na coragem de agir quando muitos preferem se calar.

Como disse Victor Hugo, “os quarenta anos são a velhice da juventude; os cinquenta, a juventude da velhice.” O que realmente conta é a disposição interior de fazer a diferença. “A juventude não é um tempo da vida; é um estado da alma”, dizia Samuel Ullman.

Por pura ignorância, a sabedoria é, com frequência, confundida com a passagem do tempo, e a inexperiência, equivocadamente, atribuída à juventude. Quem assim fala desconhece que a História está repleta de provas de que a idade, por si só, nunca foi determinante para o exercício da liderança, da coragem e da capacidade de transformar realidades.

Jovens já fizeram história no mundo, a exemplo: Abraham Lincoln foi eleito deputado (membro da Câmara dos Representantes dos EUA) pela primeira vez em 1847, aos 38 anos de idade; Winston Churchill foi eleito pela primeira vez para o Parlamento britânico em 1900, aos 25 anos de idade.

E idosos, ao mesmo tempo, cometeram muitos erros, não se podendo tê-los como “experientes”. Richard Nixon, George Bush e Donald Trump são considerados exemplos de gestões desastrosas. Apesar de separados por décadas e por estilos muito distintos de governo, os três presidentes cometeram erros que têm traços estruturais em comum. Nenhum deles errou apenas por convicção ideológica ou por acaso.

No campo das ciências, podemos citar vários idosos que continuam influenciando e mudando o mundo com suas pesquisas: Noam Chomsky, com mais de 90 anos; James Watson, codescobridor da estrutura do DNA, com 97 anos, continua pesquisando; Jane Goodall,  etóloga e conservacionista, com mais de 90 anos, continua sua saga da preservação ambiental e bem-estar animal; Roger Penrose, ganhador do Nobel de Física em 2020 (aos 89 anos), ainda dá aulas…

A juventude, por sua vez, tem impulsionado descobertas científicas surpreendentes nas últimas décadas. Destaques globais por pesquisas inovadoras, prêmios ou startups científicas transformadoras podem ser citados: Jack Andraka (nascido em 1997 – EUA), descobriu, aos 15 anos, um teste barato e rápido para diagnóstico de câncer de pâncreas; Gitanjali Rao (nascida em 2005 – EUA), inventora com apenas 18 anos, desenvolveu ferramentas para detectar chumbo na água; Sarah Al-Amiri (nascida em 1987 – Emirados Árabes), líder científica da primeira missão interplanetária árabe, a sonda Hope para Marte, sendo a Ministra de Ciência e Tecnologia dos Emirados com menos de 35 anos; Nina Tandon (nascida em 1980 – EUA), fundadora da Epibone, empresa que cria ossos humanos a partir de células-tronco; Boyan Slat (nascido em 1994 – Holanda), criador da The Ocean Cleanup, que utiliza engenharia e ciência para remover plástico dos oceanos…

No campo político, há também quem, por preconceito ou hábito, julgue que a juventude carece de maturidade para liderar, como se a força das ideias e o brilho do ideal dependessem do número de aniversários. Outros, de igual modo injusto, desconsideram a experiência dos mais velhos, como se o tempo vivido fosse sinônimo de obsolescência.

Tal visão, quanto aos jovens, alimenta uma cultura que exclui talentos em ascensão, impede a renovação de ideias e perpetua velhas práticas. Igualmente é preconceituoso julgar que os mais velhos já não têm mais a contribuir. A verdadeira justiça está em avaliar pessoas por suas ideias, valores, integridade e compromisso com a coletividade — não pela idade contida no RG.

A reflexão sobre A IDADE quando se fala na ocupação dos espaços públicos deve ultrapassar as ideologias políticas, as bandeiras partidárias e os rótulos apressados.  “O poder revela o homem.” Essa frase de Maquiavel continua atual.

Subestimar o jovem é tolher o futuro. Descartar o velho é renegar as raízes. Como afirmou Victor Hugo: “Não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou.” E essa ideia pode brotar tanto da mente inquieta de um jovem, quanto da sabedoria tranquila de um ancião.

Se jovens, ou idosos, o cargo não vai tornar ninguém sábio. O tempo não garante ética. A experiência, sozinha, não gera consciência. O que define a boa liderança é a humildade em ouvir, a coragem em decidir com justiça e a ética inegociável na hora de agir.

A capacidade e a sabedoria nascem do caráter, do preparo, da visão e da coragem. A juventude pode ser ousada e transformadora. A maturidade pode ser prudente e inspiradora. O que importa não é quando se chega, mas como se chega, e com que propósito se caminha.

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Esclerocardia, o mal da existência humana

Por Marcos Araújo

Ilustração com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Ilustração com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Vivemos uma era marcada por contrastes gritantes: avanços tecnológicos e científicos sem precedentes, ao lado de uma escalada de violência e guerras que parecem saídas de tempos primitivos. Em meio a esse cenário, uma palavra bíblica ressurge com força e urgência: esclerocardia – a dureza do coração.

No grego bíblico, sklerokardia aparece para descrever a resistência do ser humano à voz de Deus e ao próximo. Jesus usou esse termo para denunciar aqueles que, cegos por sua religiosidade legalista, eram incapazes de enxergar a misericórdia (Mc 3:5). Hoje, essa mesma esclerocardia se manifesta de forma assustadora em nossa indiferença diante do sofrimento alheio – especialmente das vítimas de guerras que se alastram pelo mundo.

A cada nova imagem de crianças soterradas, famílias despedaçadas, cidades reduzidas a escombros, muitos de nós sentimos… nada. Seguimos rolando o feed, trocando de canal, anestesiados por excesso de informação e indiferença. O que antes nos chocava, hoje nos entedia. Esta é a esclerocardia do século XXI: não um endurecimento físico, mas espiritual e moral.

Nos últimos dez anos, conflitos espalhados pelo mundo causaram perdas humanas devastadoras e, muitas vezes, invisíveis à nossa rotina. Podemos mencionar:

  • Síria: desde 2011, entre 580000 e 656000 mortos, incluindo mais de 26000 crianças e mais de 16000 mulheres;
  • Iêmen: conflito iniciado em 2014 já resultou em cerca de 377000 mortes até 2021, sendo 70 % por causas indiretas como fome e doenças;
  • Sudão (desde 2023): houve mais de 150000 civis mortos, além de 522000 bebês falecidos por desnutrição;
  • Ucrânia (desde 2022): mais de 45000 civis mortos e quase 32000 feridos até abril de 2025;
  • Gaza e Israel – só o ano de 2024 viu mais de 61000 vítimas civis de explosivos, com Gaza representando 39% desse total – incluindo cerca de 14435 mortos;

Contam-se cerca de 59 guerras, somente nesta década, com aproximadamente quase 1 milhão de mortos.

Para a humanidade do presente, essas mortes não causam mais emoção ou qualquer tipo de comoção. A compaixão é uma marca inerente à condição humana, e sua negação caminha em direção à desumanização. Deixar de sentir pelo imenso sofrimento nas guerras é negar a nossa própria humanidade. A palavra “compaixão” tem origem latina, proveniente do termo “compassio”, que significa “sofrimento em comum” ou “sofrimento partilhado”. Este termo é formado pela junção de “cum”, que significa “com”, e “passio”, que vem do verbo “patior”, que significa “sofrer” ou “ser paciente”.  Assim, a palavra “compaixão” carrega a ideia de sofrer ou sentir junto com o outro, partilhando sua dor e tristeza.

No presente, a ESCLEROCARDIA e a FALTA DE COMPAIXÃO caminham juntas e têm encontrado abrigo até em discursos religiosos. Quantas guerras ainda serão travadas em nome de Deus? Quantas mortes continuarão sendo justificadas por ideologias religiosas que ignoram os mandamentos mais elementares da fé – amar a Deus e ao próximo? A história mostra que a religião, quando usada para legitimar ódio, alimenta monstros em vez de curar feridas.

Na Bíblia lemos sobre corações de pedra desafiando o clamor das vítimas: “Endureço o seu coração para que não ouça…” (Ex 7:3) Mas, também reafirma: “Dar-vos-ei coração novo… e porei dentro de vós espírito novo” (Ez 36:26). A fé verdadeira exige um coração renovado pela compaixão. O Evangelho manda que soframos com o próximo — não nos distanciemos. Ignorar o lamento das famílias sírias, iemenitas, sudanesas, ucranianas e palestinas é violar o mandamento de amar ao próximo.

A verdadeira fé exige coração de carne, não de pedra (Ez 36:26). Um coração sensível ao clamor dos oprimidos, inquieto diante da injustiça, quebrantado pela dor dos inocentes. A espiritualidade cristã não é um refúgio para a alienação, mas um chamado à responsabilidade: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5:9).

A cura para a esclerocardia não virá com discursos vazios, mas com ações concretas de empatia, acolhimento e justiça. O mundo não precisa de mais religião. Precisa de mais evangelho. Um evangelho que toque, transforme e movimente corações.

Se a esclerocardia é o mal, a compaixão é o remédio. A Igreja é chamada a ser farol de humanidade num mundo que se endurece. É hora de colocar a fé em prática, com ações que devolvam ao mundo o que ele mais perdeu: a capacidade de sentir, de cuidar e de amar.

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

As fronteiras simbólicas do saber

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Construiu-se no imaginário brasileiro a ideia de que a maior capacidade profissional e a melhor produção intelectual se situam nos grandes centros do Sul e Sudeste. O Nordeste, mesmo com sua riqueza intelectual, cultural e tradição acadêmica, foi — e em muitos casos ainda é — relegado ao papel de coadjuvante. Essa lógica centralizadora alimenta um complexo de inferioridade entre profissionais, escritores, pensadores e leitores nordestinos. Tal sentimento, infelizmente, não é raro entre os próprios potiguares.

Se no início do Século XX a regra social vigente para a elite nordestina era a formação dos filhos na Europa, nas cinco últimas décadas o epicentro tem sido São Paulo.  O garbo paternal nas rodas de conversa é uníssono:

– Meus filhos estudam em São Paulo!

Entre comuns, escuto com desalento o aparente descrédito aos profissionais com formação em universidades nordestinas. Com extensão do sentimento aos nossos autores e literatos. “O nordestino tem complexo de vira-lata”, já se ouviu em salas de aula e rodas literárias locais. Talvez o problema não esteja na autoestima, e sim na invisibilização sistemática de quem está fora do eixo Rio-São Paulo.

Sou um entusiasta do nordeste. E do Rio Grande do Norte com muito mais afinco e intensidade. Ao mesmo tempo, incorporo um crítico ácido aos que supõem que o saber tenha uma justificação geográfica. O Sudeste precisa conhecer nossos autores e intelectuais.

Posso citar alguns dos nossos e seus textos, para contrapor a dominância “sudelista”. Nísia Floresta, amiga de Augusto Comte, autora de “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” (1857), foi pioneira na educação feminista no Brasil.  Zila Mamede, a grande poetisa que fundou a Biblioteca Central da UFRN, em antanho já dizia: “Canto, porque há pressa em desentranhar o grito.” Luís Carlos Guimarães, uma das vozes mais potentes da lírica potiguar, era insurgente aos novos “donos” da escrita: “Sou do tempo em que as palavras eram respeitadas, e um verso tinha o peso de um tijolo na mão.” Câmara Cascudo, um dos maiores intelectuais do Brasil, universalizou o folclore nacional com obras como História da Alimentação no Brasil (1967) e Dicionário do Folclore Brasileiro (1954). Ele foi o maior etnólogo de todos os tempos.

A escrita como instrumento, o argumento e a estética linguística como elementos informativos pautam os trabalhos de escritores genais como Carlos Santos, Vicente Serejo, Rejane Cardoso, Marcos Ferreira, Honório Medeiros e outros mais.

A história da produção intelectual potiguar vai além da literatura. O pensamento jurídico e as ciências humanas também tiveram aqui um solo fecundo. Miguel Seabra Fagundes é o autor do primeiro trabalho nacional sobre atos administrativos. Outros, como Eloy de Souza, Olavo de Medeiros Filho, Mário Moacyr Porto, Floriano Cavalcanti, Múcio Vilar Ribeiro Dantas, João Medeiros Filho, Ivo Cavalcanti, Manoel Dantas, Djalma Marinho, Claudionor Telógio de Andrade, Manoel Varella, Eider Furtado, Ney Lopes de Souza e Hélio Vasconcelos, intelectuais de grande vulto, foram responsáveis pela formação de gerações de bons profissionais.

A UFRN e a UERN têm se tornado polo de formação de juristas com inserção nacional. Marcelo Alves, que escreve no BCS, é um deles.  Na academia nacional da docência do direito estão emoldurados os nomes de Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, Luiz Gurgel de Faria, Paulo Linhares, Ana Monica Amorim, Keity Saboia, Fernanda Abreu, Inessa Linhares, Lauro Gurgel, Adilson Gurgel de Castro, Armando Holanda, Barros Dias, Edilson Nobre, Erick Pereira, Ricardo Tinoco, Miguel Josino Neto, Xisto Tiago, Yara Gurgel, Erica Canuto, entre outros… Apenas para nomear alguns nascidos aqui.

Os cursos jurídicos do RN capacitam para a vida humana. Cumprem o mandato profético do professor Carlos Roberto de Miranda Gomes, autor de diversos artigos e ensaios sobre hermenêutica: “A letra da lei não deve sufocar a voz do povo. Direito sem humanidade é só uma norma fria.”

A sabença do Direito, a literatura e o pensamento não se medem por CEP. A boa escrita nasce da experiência, da escuta do mundo — e disso o Nordeste é mestre. A exclusão simbólica dos autores do Nordeste não reflete a sua qualidade, mas a desigualdade histórica de acesso a meios de publicação, circulação e crítica. É preciso romper com a lógica centralizadora que associa prestígio à geografia. Se os profissionais e escritores “Sudestinos” são chamados de “melhores”, talvez seja porque o Nordeste — como o sol que o ilumina — é tão intenso que ofusca os olhos de quem olha de cima.

Temos por aqui os melhores profissionais, escritores, pensadores e intelectuais brasileiros. Nada a dever aos de outras regiões. É hora de quebrar o espelho torto em que o Nordeste se vê. A produção intelectual potiguar não precisa pedir licença. Ela existe, resiste e contribui com a identidade brasileira de forma decisiva. O que falta não é talento ou sabedoria — é espaço e autorreconhecimento!

Marcos Araújo é advogado, professor da Uern e escritor

Manicômio digital

Por Marcos Ferreira

Cabeça do palhaço maluco (Fonte: Freepik)
Cabeça do palhaço maluco (Fonte: Freepik)

Desapego, quiçá altruísmo, abnegação, fidelidade ao seu destino de agregador de pinéis. Pode ser tudo isso e muito mais. Só sei que dessa forma, desinteressado de aplausos e lucro financeiro, o diretor deste manicômio digital, o jornalista e escritor Carlos Santos, reúne em seu blogue todos os domingos um expressivo e polimático número de malucos informais. Pois é. Temos aqui amalucados para todos os gostos e atribuições. A começar pelo próprio timoneiro desta nau psiquiátrica, que obviamente tem a sua parcela de insanidade.

Creio que alguém que bate direitinho da cachola não abraçaria essa missão de confraternizar e apaziguar mentes alvoroçadas. “Loucura! Loucura!”, diria o galáctico Luciano Huck, ele também um louco de pedra.

Claro que nem todos que orbitam em torno deste blogue são pirados. Há exceções. Especialmente no tocante aos leitores. Já alguns articulistas padecem de elefantíase do ego. Como os pavonescos Euzébio Ramalho e Gustavo Noronha, intelectuais com renome e prestígio na praça. Exibem um inegável grau de deficiência cognitiva em seus próprios artigos indecifráveis. Digo, a bem da verdade, que esses cavalheiros são mais que meros tipos egocêntricos. Tanto o senhor Ramalho quanto o senhor Noronha são profundos estudiosos de objetos voadores não identificados.

Existem aqueles que fazem questão de deixar bem claro que são doidos. É o caso, por exemplo, do meu estimado xará e jurisconsulto Marcos Araújo, o mais ilustrado e apaixonante maluco que conheço. Araújo, além de cronista invulgar, é comentarista deste espaço, ele que de quando em vez me dá a honra de emitir uma opinião construtiva sobre meus escritos.

Antes que alguém o diga, declaro que não sou nenhum alicerce de equilíbrio mental. A diferença entre mim e os pavões Ramalho e Noronha (suponho) é que estou sempre medicado e não misturo meus antipsicóticos com álcool. Aliás, não conheço o gosto de bebida alcoólica nenhuma. Muito menos posso afirmar que o senhor Ramalho e o senhor Noronha tomam remédio controlado.

Estou sóbrio desde o dia 10 de abril de 1970, há cinquenta e cinco anos. Mais de meio século remando contra as convenções sociais. E isso não tem relação com igreja evangélica nem católica, budismo, espiritismo ou candomblé. A minha sobriedade etílica, portanto, não está vinculada a nenhuma religião.

Sou desconfiado por natureza. Não boto a minha mão no fogo por esses messias e mitos que pipocam em toda parte deste país e do mundo. Enxergo tanta honestidade nessa récua de sacripantas quanto em uma cédula de trinta reais. Penso, todavia, que não somos frutos do acaso. Mas voltemos ao que de fato interessa. O papo aqui não é sobre credulidade ou descrença. Desejo abordar apenas a questão dos que possuem parafusos frouxos ou até faltando. Situação na qual possivelmente me encaixo. Meu alienista é quem pode falar melhor sobre o meu caos psicológico.

Entre os alvoroçados estão os doidos mansos, elementos deveras tranquilos, moderados, com a serenidade de um peixinho de aquário. Desse naipe aponto escribas como Bruno Ernesto, Odemirton Filho, Jessé de Andrade Alexandria, Ayala Gurgel e o delegado da Polícia Civil Inácio Rodrigues Lima Neto, sujeito de fino trato e um ficcionista dos melhores desta terra de Santa Luzia.

Um tanto mais incisivo, combativo, há o poeta e escritor de responsa François Silvestre. Em meio a esses (acho que já estou cometendo o pecado do esquecimento) não posso deixar de incluir o amigo e memorialista Rocha Neto, verdadeiro arquivo ambulante desta aldeia.

Carlos Santos, então, com a sua fleuma de monge tibetano, consegue harmonizar e socializar todas essas categorias de discípulos do saudoso Paulo Doido, cujo nome de pia é Paulino Duarte Morais, que se encantou aos sete dias de junho de 2024. Deixou para todos nós, tantãs, um robusto legado de doidices ora meio afobadas, ora bem-comportadas. Sua biografia de maluco beleza está gravada na história desta província e jamais será esquecida. Os doutores psiquiatras Dirceu Lopes e Roncalli Guimarães, que também possuem as suas neuras, ficaram desolados com o passamento de Paulo Doido. Infelizmente, apesar dos esforços, nosso editor nunca conseguiu firmar um contrato com Paulino Duarte para participar do BCS — Blog Carlos Santos.

Como os demais cronistas deste hospício, Paulo Doido teria bastante o que contar sobre suas andanças pelas ruas de Mossoró. Segundo uma fonte porra-louca, corre à boca miúda a notícia de que o diretor deste malucódromo adquiriu o passe de outro doido para jogar em nosso time de birutas. Minha fonte diz que se trata de ninguém mais, ninguém menos do que o ponta-esquerda Adélio Bispo, esfaqueador de elite predestinado. Será muito bem-vindo ao nosso manicômio digital.

Marcos Ferreira é escritor

O risco de uma canetada – de Pedro Aleixo a Alexandre de Moraes

Por Marcos Araújo

Imagem em estilo aquarela gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Imagem ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Nesta semana que passou, o malfadado golpe militar que depôs o presidente João Goulart fez 61 anos. Simbolicamente, na mesma semana, o STF aceitou a denúncia criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Os dois eventos marcaram a história do Brasil, destacando-se dois personagens relevantes: Pedro Aleixo e Alexandre de Moraes. De comum a ambos, o uso da “caneta” como um instrumento de poder.

Pedro Aleixo era o vice-presidente da República na época da edição do Ato Institucional nº 5. Este ato fechou o Congresso, acabou com liberdades individuais e culminou no endurecimento do regime militar.  Pedro Aleixo, na qualidade de jurista experiente, se posicionou contra a sua edição e recusou colocar a sua assinatura. Perguntado se duvidava das mãos honradas do presidente, que seria o único juiz da aplicação do ato, o vice-presidente civil respondeu: “Das mãos honradas do presidente Costa e Silva, jamais. Desconfio é do guarda da esquina”. Pedro Aleixo queria dizer que o perigo da ditadura estava no poder que se assentava nas mãos de uma escala de autoridades que descendia do presidente da República até o guarda que vigia a rua.

As “canetadas” recentes do STF trazem à lembrança a necessária menção ao “guarda da esquina”. São evidentes os abusos de poder, como o interminável Inquérito das “Fake News”, iniciado sem a provocação do órgão acusador natural (a Procuradoria da República) e apenas com uma “canetada” do Ministro Alexandre Moraes. Outro exemplo é a ADPF 635 (a chamada “ADPF das Favelas”), em que o STF interveio nas políticas de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, suspendendo a instalação de bases fixas nas favelas e o uso de helicópteros nas operações policiais.

O autor inglês Edward Bulwer-Lytton dizia: “A Caneta é mais poderosa que a espada”. A frase foi usada pela primeira vez pelo Cardeal Richelieu em sua peça “Richelieu: Or the Conspiracy”. Em um mundo onde a gratificação instantânea e as tendências passageiras dominam nossa atenção, este ditado da caneta encapsula a ideia de que as habilidades intelectuais e comunicativas podem ter um impacto mais significativo do que a força física.

Embora o meio de transmissão do poder da caneta possa ter mudado — de tinta e papel para pixels e telas — a essência permanece a mesma. As ordens, sejam digitadas ou escritas, têm o poder de inspirar mudanças, provocar pensamentos e influenciar ações.

Pois bem! Assim, como as “canetadas” do pseudo-juiz lá de Curitiba, que fazia arremedos processuais com sua caneta tirânica, idênticos riscos sofremos agora com os atos abusivos do STF. Os que não aceitam limites, comungam intimamente com a hipertrofia do Poder Judiciário, e militam, sem saber, em favor da Juristocracia. O termo “juristocracia” foi criado pelo cientista político canadense Ran Hirschl para descrever o tipo de regime político que nasce do deslocamento de poder da esfera representativa para a esfera judicial – implodindo a clássica separação entre os Poderes, um dos pilares da democracia moderna.

A Juristocracia se alimenta das “canetadas”, e apropria-se da ficção que seu uso se dá em favor da Democracia. A retórica, materializada numa assinatura, ganha contornos de uma encenação teatral, já que as decisões importantes são tomadas em favor próprio. O poder de verdade é exercido pelo estamento burocrático, expressão usada por Raymundo Faoro em sua interpretação da sociedade brasileira.

Alguns hão de dizer que não temem Alexandre de Moraes e os ministros do STF. Acham-se imunes a eles. Mas, lembrando Pedro Aleixo, o nosso problema pode não ser o STF, mas o Juiz da “esquina”, geograficamente situado na nossa Comarca. É dele o poder da caneta.

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Pão nosso de cada dia

Por Marcos Ferreira

Foto do autor da crônica
Foto do autor da crônica

Presumo que poucas pessoas se interessem por esse conteúdo, por essa informação. Pois se trata, a bem da verdade, de uma sensaboria, algo de quem parece não ter coisa melhor para dizer. Teimoso, porém, vou contar esta história insípida. É que hoje acordei cedo. Cedinho mesmo: pouco depois das quatro da madrugada. A bexiga estava de fato nas últimas, então fui ao banheiro e não consegui reaver o sono. Volta e meia isso acontece; uma emergência fisiológica. Ainda assim, com o quarto na penumbra e naturalmente frio, retornei para a minha rede e os cobertores.

Vocês sabem que em ocasiões dessa ordem, quando a gente se encontra insone por inteiro ou parcialmente, mil e uma maluquices nos vêm à cabeça. Então nos alcança um monte de besteirol, pessoas e meio mundo de lucubrações. No meio disso, fato corriqueiro, vêm ao meu juízo determinados temas que julgo aproveitáveis, com certo potencial para converter em uma crônica garranchosa.

Recordei-me, por exemplo, de uma dúzia ou mais de amigos que têm (coloco-me no meio deles) esse alumbramento visceral, comunhão, enlace com o exercício da escrita. Sim. É o que estou dizendo. Somos, de forma saudável, reféns espontâneos e um tanto orgulhosos dos vencilhos, das amarras da escrita. Como no verso de Camões, é estar preso por vontade, é servir a quem vence o vencedor. O bardo caolho é fora de série, extraordinário, um fenômeno da poesia. É incomparável.

Então penso, após todo esse nariz de cera, nos meus pares, nos meus amigos literatos, homens e mulheres dominados pelo micróbio da literatura. Alguns desses indivíduos inéditos em livro (por razões que a própria razão desconhece) seguem fugindo da raia, fazem ouvidos moucos ao chamado da Literatura. Lembro, mas que isso fique apenas entre nós, de figuras preciosas e cheias de hesitações como nosso querido arquivo ambulante Rocha Neto. E não apenas o Rocha. Há outros desertores da tinta e do tinteiro nesta Macondo nordestina. Faço aqui a vez de dedo-duro.

O que tanto esperam (insisto que esse assunto fique só entre nós) os senhores Marcos Araújo, Bruno Ernesto, Odemirton Filho, Ailson Teodoro, Raquel Vilanova e, entre outros, Bernadete Lino? Pois é, meus caros. A senhora Bernadete Lino, pernambucana que mora em Caruaru, tem o que verter para o papel. Ela, que me oferece a honra de sua amizade e tem um forte elo com nossa terra, possui uma biografia muito bonita. Estou certo de que um livro seu de memórias, considerando a clareza de seu pensamento e intimidade com nosso idioma, seria uma ótima contribuição às letras. João Bezerra de Castro, gramático vocacionado, pode afiançar o que digo.

A labuta da escrita, perdoem esta metáfora talvez de mau gosto, representa o nosso pão de cada dia, mesmo em se tratando (repito) de personagens que ainda não estrearam em livro. De repente alguém pode saltar e dizer que estou cobrando dos outros uma produção que eu próprio não reúno. Quem isto afirma não está de todo errado, considerando que sou autor de um só livro publicado.

Todavia, para quem não sabe, possuo quase dez títulos inéditos nos gêneros romance, contos, poesia e crônicas, tudo isso à espera de melhores horizontes financeiros ou da possibilidade de ser pego no pente-fino de concursos literário que oferecem premiação em dinheiro e, no mais das vezes, publicam a obra vencedora. Este é o caminho que percorro há tempos.

Ressalto, claro, que estou a anos-luz da fecundidade, da prenhez e dos recursos econômicos de autores de minha estima como Clauder Arcanjo, Ayala Gurgel e o prolífero e versátil Marcos Antonio Campos, três mosqueteiros, três espadachins bem-sucedidos nos salutares duelos com a arte do fazer literário.

Além desses três, e não menos meritórios, temos no País de Mossoró e no estado manejadores da língua portuguesa bem-aventurados como Vanda Maria Jacinto, Fátima Feitosa, Dulce Cavalcante, Margarete Freire, Lúcia Rocha, Júlio Rosado, Caio César Muniz, Cid Augusto, Jessé de Andrade Alexandria, Crispiniano Neto, François Silvestre, Carlos Santos, Inácio Rodrigues Lima Neto, Airton Cilon, Thiago Galdino, Marcos Pinto, Francisco Nolasco, David Leite, Honório de Medeiros, Antonio Alvino e, devido às condições da memória, outros mais que ora não recordo.

Todos, com um nível maior ou menor de arrebatamento, buscam esse pão nosso de cada dia que resulta em crônicas, contos, romances, poemas. No que me toca, enquanto cativo deste mister de arranjar palavras e exibi-las em páginas com um mínimo de qualidade, produzo coisas desse tipo: uma crônica um tanto quanto prolixa, mas sempre com a mão na massa do verbo do qual nos alimentamos.

Marcos Ferreira é escritor

Os habitantes do BCS

Por Marcos Ferreira

Imagem ilustrativa da Web – Creative Sign
Imagem ilustrativa da Web – Creative Sign

Duvidar, não duvido. Pois decerto existe no Brasil e no mundo quem desconheça o significado da nossa familiar sigla BCS, tão notória, por exemplo, quanto SUS, FBI, CIA, ONU ou a temida e extinta KGB, agência de espionagem e polícia secreta da igualmente morta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Alguém ariscará dizer, entre outros equívocos, que se trata de Banco Central da Suíça. É possível, portanto, que existam indivíduos neste planeta que nunca tenham ouvido falar no Blog Carlos Santos (BCS). Além disso, alguns terráqueos não têm conhecimento (ignorância não menos grave) do rol de colaboradores do referido Blog.

Todo domingo, desde tempos imemoriais, cabeças singulares da intelectualidade mossoroense e de além fronteiras do RN exibem as suas tintas neste ilustrado espaço de opinião, arte e cultura. Temos aqueles que marcam presença de modo bissexto, esporádico, contudo há um punhado de articulistas que muito raramente deixam uma lacuna nestas manhãs domingueiras que contam ainda com o brilho e categoria de um sem-número de leitores e comentaristas de alto nível.

Os habitantes do BCS, tanto os cronistas, os poetas, os ficcionistas e, repito, o precioso rol de leitores e comentaristas, mantêm uma sintonia e fidelidade admiráveis. Encontramos neste gueto das palavras várias cucas talentosas, beletristas de responsa. Ninguém pode se queixar da produção intelectual que os homens de engenho deitam dominicalmente entre as quatro linhas desta vitrine da prosa, do verso e, como não poderia deixar de ser, com informes do atacado e do varejo da política norte-rio-grandense, nacional e mundial. Aqui, no tocante à informação e à cultura como um todo, os leitores dispõem de grande sortimento de ideias e debates.

Sendo um pouco indiscreto, permito-me citar os nomes de expressivos escribas que têm concorrido para o brilho e sucesso do BCS. Falo, entre outros, de malhadores de teclados como o próprio Carlos Santos, Marcelo Alves Dias de Souza, Honório de Medeiros, David Leite, William Robson, Marcos Pinto, Odemirton Filho, Bruno Ernesto, François Silvestre, Marcos Araújo e, mais recentemente, surge para enriquecer o escrete um tal de Ayala Gurgel. Este último, a meu ver, representa uma das mentes mais engenhosas e prolíferas da nova ficção norte-rio-grandense.

Quem quiser que diga que estou puxando o saco do BCS e dos seus habitantes dominicais. Não tem problema. O aplauso e a vaia são livres. Vivemos (ao menos até o momento) num país democrático. Sim. A democracia esteve seriamente ameaçada no governo anterior, todavia não sucumbimos ao golpismo.

Creio que em breve o “mito” (o espírito de porco, a degradante alma sebosa que infectou o Brasil, fez pouco-caso dos mortos pela pandemia e zombou de famílias enlutadas) está prestes a conhecer as acomodações de Bangu 8 ou da Papuda. Deixem estar.

Voltando à audiência e relevância do Blog, penso que não existem por aí muitos espaços assim, com tantos e tão bons poetas e prosadores. É um ambiente digital dos mais procurados pelo público leitor. Enfim, agora parodiando aquele frevo do Caetano Veloso, digo que só não vai atrás do BCS quem já morreu.

Marcos Ferreira é escritor

A sinfonia dos Arys

Por Marcos Araújo

Ary Neto, em foto de autoria familiar
Ary Neto, em foto de autoria familiar

O nosso pai se chamava ARY. Não faço a menor ideia como o meu avô, um campesino e analfabeto, vivendo nos grotões do Seridó, possa ter registrado um filho com este nome. A única razão lógica da origem do nome, penso eu, é que se tratava de uma homenagem ao compositor Ary Barroso, nascido em 1903. Não há outro homógrafo “Ary”, com “Y” no final, antigo, que a história registre. Embora remanesça internamente também uma dúvida porque, em 1934, ano do nascimento de papai, Ary Barroso, com apenas 31 anos de idade, não tinha fama nacional. A canção pela qual ele ficaria famoso (o samba-exaltação “Aquarela do Brasil”), somente seria gravada e apresentada ao público em 1939.

De certo é que o homenageado ARY Barroso, mineiro de Ubá/MG, primeiro brasileiro a ser indicado ao Oscar (pela música “Rio de Janeiro”, do filme Brasil, de 1944), ficaria muito feliz com o seu antropônimo seridoense ARY Araújo, especialmente pelos qualificados dotes musicais. Afinação, ritmo e interpretação fizeram de nosso pai um cantor diletante. Com um pendor natural para a exibição de seus dons sem qualquer convocação. Seja na Padaria, no Supermercado, ou em qualquer lugar que houvesse público ouvinte, ele puxava um canto de inopino, causando surpresa aos circunstantes.

Em festas privadas – nossas ou de amigos, ele “sequestrava” o microfone, e emburrava-se na hipótese de o músico profissional contratado querer resgatá-lo. Cantava de tudo, mas sua preferência era por guarânias e boleros, tendo como ídolo Francisco Alves (o “Rei da Voz”).

Em 2015, nosso pai foi diagnosticado com câncer, impactando toda a família. Fui minimizado pela dor, na época, ao saber que seria pai de gêmeos. Em consenso com Carla, um dos neonatos foi batizado com o nome do avô, acrescido de Bernardo, em referência ao santo companheiro de São Francisco, de modo a pactuar simbolicamente a unidade com o irmão gemelar (João Francisco). ARY Bernardo é o nosso caçula, com a inegável transferência genética artística do avô.

O ARY (neto) logo nos primeiros meses/anos de vida demonstrou pendor pela música e pelo canto. De bebê embalado pelo ninar dos compositores clássicos instrumentais, engatou de logo suas primeiras palavras com as letras infantis do grupo “Palavra Cantada”, pulando em pouco tempo para o canto das músicas de Vitor Klein, Merlin, AnaVitória, Kell Smith, entre outros. Agora, seu “passeio” sonoro comporta apreço por sambistas da velha guarda como Ivone Lara, Beth Carvalho, Cartola, Nelson Cavaquinho e Arlindo Cruz, e os da nova geração a exemplo de Diogo Nogueira e Ferrugem.

Sofisticado nas preferências e um Lord no comportamento, seu gosto musical transcende a explicação humana. É sobrenatural. Um eflúvio do espírito. Outro dia, ele me apresentou a canção americana “Old Yazoo”, das irmãs Boswell (The Sisters Bolswell), de 1932. A letra fala de um lugar ideal (“Yazoo”) para se viver; um alento existencial como a Pasárgada de Manuel Bandeira.

Com a sensibilidade aflorada, acessa por vezes o Spotify do meu carro, a caminho do colégio, para ouvir um repertório que inclui “Retalhos de cetim” (composta em 1973 por Benito di Paula), ou “Corazón Partío”, de Alejandro Sanz (1998).  A conclusão que se chega é de que um “velho” habita o corpo de um garoto de apenas 09 anos…

Seu apuro e harmonia vocal credenciaram-no a fazer parte – por uma temporada – do Coral do Colégio onde estuda. Claro que, sendo criança, recebe a influência do meio social, tornando-o um pouco eclético. Não causa nenhuma estranheza quando em dado momento ele está cantarolando Ana Castela ou MC Kevinho.

Aliás, eclético o seu avô também era. Mesmo não sendo do seu gosto primevo, nem de sua época, vez ou outra ele cantarolava “La belle de jour”, de Alceu Valença. Grandes músicos são sinfônicos. Gostam de todos os sons. A palavra sinfonia tem origem grega, significando “todos os sons juntos”. Ary Barroso associou, pioneiramente, o pandeiro a outros instrumentos de sua época. E não só isto: unificou sons, geografia e raças na sua Aquarela do Brasil.  Como diz a letra: “Deixa cantar de novo o trovador / À merencória luz da Lua / Toda canção do meu amor …”.

Viva a música! Viva a sinfonia artística dos Arys!

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Maldito tempo moderno!

Por Marcos Araújo

Imagem gerada com uso de Inteligência Artificial do BCS
Imagem gerada com uso de Inteligência Artificial do BCS

No ano de 1936, quando o cinema ainda era em preto e branco, Charles Chaplim dirigiu e protagonizou o clássico Tempos Modernos. O enredo é a vida de um trabalhador comum, que está em busca de se estabelecer tanto profissionalmente quanto como indivíduo em uma sociedade cheia de inovações tecnológicas e contradições. A história começa com Carlitos sendo operário em uma fábrica. Lá, o trabalho é cansativo e desinteressante, pois sua única função é rosquear parafusos.

O filme retrata a preocupação e a disposição dos donos dos meios de produção em conseguirem lucrar cada vez mais explorando trabalhadores. A desumanização do homem trabalhador fica evidente numa cena em que Carlitos acaba sendo “engolido” pela máquina e entrando nas suas engrenagens, quase como se fosse uma peça mecânica.

Se há quase um século a industrialização era o inimigo visível da humanidade, hoje a adversariedade humana é enxergada no desenvolvimento tecnológico. Cientistas do mundo inteiro (entre eles Steve Wozniak, fundador da Aplle) têm feito alerta sobre o risco do uso indiscriminado das IA´s (Inteligência Artificial). Para listar os mais comuns: i) falta de transparência nos seus sistemas; ii) a coleta de dados pessoais dos usuários, levantando questões relacionadas à privacidade e segurança; iii) não há como incluir valores morais e éticos em sistemas de IA, especialmente em contextos de tomada de decisão com consequências significativas; iv) os riscos de segurança associados ao seu uso indevido, com hackers e agentes mal-intencionados explorando vulnerabilidades em sistemas; v) a dominação por um pequeno número de grandes corporações e governos exacerbando a desigualdade; e, vi) a dependência de IA, levando à perda de criatividade, habilidades de pensamento crítico e intuição humana.

Quanto a perda de criatividade e habilidades, constata-se que: poesia, letras de música, desenhos, artes gráficas, provas, trabalhos e design, são, em sua maioria, feitos por Inteligência Artificial. A informação escrita nos meios de comunicação é padronizada, os textos jornalísticos são copiados e repetitivos, elaborados por um ghost writer (escritor-fantasma) digital. Discute-se atualmente até se é possível a Inteligência Artificial ter direitos autorais…

Os usuários do Chat GPT4 não se cansam de exaltar as suas virtudes. E eu de rejeitá-las. Aliás, vivo confundindo (de propósito!) o Chat GPT4, implantando respostas falsas. Perguntei outro dia quem havia descoberto o Brasil. A resposta veio “Pedro Alvares Cabral”. Eu replicava dizendo que não. Colocava que teria sido Pedro Alcântara de Souza. Na 15ª pergunta, a resposta veio Pedro Alcantara de Souza. Venci o Chat GPT!

Com estas guerras em curso, percebemos a diferença – e vantagem! – de quem possui tecnologia. O “Domo de Ferro” israelense contra os “Walkie- Talkies” do Hezbollah; as bombas acionadas por frequência modulada.

Outro dilema do avanço acelerado da tecnologia é sentido na crescente dependência da comunicação e interação dos usuários dos aplicativos de redes sociais, levando à diminuição da empatia, das habilidades sociais e das conexões humanas.

Existe um paralelo entre a industrialização de Chaplin e a época presente, com bem maior gravidade. A industrialização do século passado envolvia trabalho exclusivamente mecânico/físico. A máquina tinha estrutura visível (correias, ruelas, parafusos). A tecnologia atual reclama uso da inteligência e está longe da visão e compreensão dos mortais (são algoritmos, estrutura de dados, programação…).

No Brasil, temos um percentual, segundo as estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da União Internacional de Comunicação, de que apenas 24% dos brasileiros possuem o letramento digital. Estamos falando que 4/5 da população brasileira não tem o letramento, não sabe o que está fazendo, como está sendo manipulado, não sabe identificar o que é verdadeiro e o que é falso. Nós estamos vivendo essa combinação de uma modernidade da transformação digital com um atraso brutal. Hoje, nós temos uma massificação dos brasileiros que opera nas redes sociais mais vulneráveis à manipulação do que aqueles da época de Carlitos.

Podemos chamar isto de retrocesso ou de modernidade social? Chico Anysio tem um monólogo espetacular chamado “Maldito tempo moderno”, bem propício para retratar este cenário. Nas suas palavras: “mascarando maracutaias / majestoso manicômio / mentiras, mazelas, misérias, massacres, maior maldade mundial, maltrapilhos morarão modestamente / malocas metropolitanas / mocambos miseráveis / menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo / mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, mundo medíocre, milionários montam mansões magníficas, melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania / mundo maluco, máquina mortífera, mundo moderno melhore, melhore mais, melhore muito, melhore mesmo / merecemos, maldito mundo moderno, mundinho merda!”

Não adianta mais tentar travar o “progresso”. Que venha o poderio das máquinas.

Adeus, humanidade!

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Parapoucos

Por Marcos Ferreira

Meu Editor num brinde com café, após luta medonha, com autor da crônica (Foto: Arquivo/rede social)
Meu Editor com o autor da crônica, num brinde com café, após luta medonha (Foto: Arquivo/rede social)

Muita gente sabe que “Paratodos” é uma das mais importantes obras musicais de Chico Buarque. O disco (ainda na forma do velho e bom vinil) foi lançado no ano de 1993. Agora, parafraseando o famoso título de Chico, surge em Mossoró um evento que ouso denominar de “Parapoucos”. Exatamente.

Refiro-me às comemorações alusivas ao natalício do jornalista e escritor Carlos Santos. Pois é, o homem soprou “velinhas”. Só não sei dizer o dia específico, pois até o momento tal informação segue para mim tão ultrassecreta quanto a “Operação Contragolpe”, da Polícia Federal.

Apenas uns poucos chegados do nosso Editor tiveram o prazer de festejar a data com o aniversariante. Eu, a exemplo de vários outros, não fui convidado a participar desse momento de celebração à vida, biografia e saúde do “rapaz velho”. Boa parte dos convivas era de gente do café-soçaite.

Seja como for, com ou sem convite, aqui transmito meus sinceros votos de felicidade, saúde e paz a esse menino grande tão benquisto quanto admirado por meio mundo de indivíduos dentro e fora do País de Mossoró.

Vi nas redes sociais, ao longo dos últimos dias, que estão planejando estender as comemorações até o final do ano. Se não estou enganado, tal notícia foi postada pelo bem-humorado César Amorim, figura esta que ainda não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Por sua vez, Carlos Santos até criou uma sigla para nominar as sucessivas e futuras reuniões que reverenciam o dia dos seus anos. Torço que mais cedo ou mais tarde, quando a alta-roda liberá-lo dos festejos, meu Editor visite este singelo endereço para um dedo de prosa e uns tragos de café.

Sendo feita sua vontade, algo que ele exige, não haverá bolo confeitado nem presentes. Esse convite abarca os senhores Marcos Araújo, André Luís e também o já citado causídico César Amorim. Todos bem-vindos.

Marcos Ferreira é escritor

João e sua inexplicável paixão pela “estrela solitária”

Por Marcos Araújo

João Araújo, ele mesmo, o botafoguense (Foto: cedida)
João Araújo, ele mesmo, o botafoguense (Foto: cedida)

João tem nove anos de idade. Um gosto único e inigualável por história, e em particular por história do futebol. Dotado de uma memória prodigiosa, conhece escalações e títulos dos clubes, nacionais ou internacionais. Pode perguntar o ano, o campeonato e o time vencedor que ele responde “na bucha”.

Outra especialidade de João é fugir do lugar-comum; contrariar as tendências. Tem uma personalidade muito própria, insuscetível a submissão de influências. Para realizar ou gostar de algo, não vai com “as massas”, forma isoladamente suas próprias convicções. Se fosse seguir o tronco familiar, o lógico seria ter ele o espírito e o fanatismo dos flamenguistas, dada a influência do padrinho-tio Evans, dos seus irmãos Lorna e Ary, das suas primas-irmãs Alice e Clara, dos outros primos Magno, Adriano e Samuel, e por aí vai… Por amor ao pai, poderia ter sido vascaíno, de quem já ouviu relatos sobre o craque Roberto Dinamite e sua habilidade inata nos anos 70, sendo esta a causa do apreço paterno ao clube cruzmaltino.

João não quis ser Vasco (clube do pai), nem Flamengo (clube do resto da família), ele é torcedor do Botafogo. Uma “estrela solitária” entre os Araujo.

Sua opção foi manifestada desde tenra idade. Ao dizer no colégio e entre os amigos por qual time torcia, sofria chacotas. Tempos em que o Botafogo oscilava entre os últimos colocados da 1ª divisão. Como se sabe, o Botafogo vinha numa fase difícil, somente voltando a reluzir sua “estrela” nos últimos dois anos.

Em setembro de 2022, ainda na fase “baixa” do Botafogo, João foi à Fortaleza ver o time do seu coração jogar. Esperou ansiosamente – e em pé – a passagem dos seus ídolos pelo saguão do Hotel por mais de três horas. Do seu lado, apenas dois outros estoicos torcedores. Um detalhe: ele era a única criança entre dois adultos.

Nada te faz mais feliz do que ser botafoguense. De um amigo querido (Daniel Vale), ganhou uma camisa autografada pelos craques da Libertadores de 2017. É o seu amuleto. Assiste aos jogos sempre vestido com ela. Momentos de jogos há um teletransporte mental. Coloca-se no anfiteatro dos acontecimentos. Fica ansioso de fazer pena, rói unha, disputa bola, xinga juiz… Inacessível a outro tema. Não ofereça nada, nem puxe conversa. Não responderá. É de uma compenetração e de um estado de atenção únicos.

Sua idolatria pelos jogadores do clube transcende ao natural. Conhece dados biográficos, clubes e locais de origem, performance nos campeonatos, gols etc.

João tem um desejo, um sonho manifesto, porém de impossível realização: gostaria de assistir a uma final de campeonato envolvendo o seu clube.  Pelo risco, já foi explicado que não comporta frequentar estádios em dias de jogos importantes. Poderia ele ser envolvido numa cena de violência, algo banalizado nesses tempos. Com tristeza, ele assistiu a cena dantesca protagonizada pelos torcedores do Penãrol neste último jogo. Na sua pureza de alma, não entende as agressões e a violência gratuita, quando o esporte deveria unir pessoas e povos.

Ele tem uma noção doméstica do que seja unidade entre as torcidas.  Seu irmão gêmeo, Ary, é torcedor do Flamengo. Os dois se sentam vizinhos em frente à TV, comemorando e fazendo pirraças recíprocas entre vitórias e derrotas. Sempre em tons civilizatórios e de carinho.

João e Ary, gêmeos em lados opostos, na torcida fraternal (Foto: cedida)
João e Ary, gêmeos em lados opostos, na torcida fraternal (Foto: cedida)

Sobre João, temos duas indagações: i) em que momento, e por qual razão, passou ele a ser torcedor do Botafogo?  ii)  de onde ele firmou convicção inabalável e absoluta de seguir um clube sem qualquer estímulo interno (familiar) ou externo (dos amigos)?

Quanto ao futuro, e como expectadores desta unidade e convivência futebolística entre os dois irmãos gêmeos (Ary e João), dois sentimentos assolam os nossos corações. O primeiro sentimento é de esperança. A alma juvenil, inspirada em valores como bondade, amizade, afeto e amor, hão de recuperar a fraternidade e a civilidade inatas ao ser humano e social.

O segundo sentimento é o desejo de um dia o esporte ser instrumentalizado apenas como agente da paz. Para isso, teríamos que contar com a conscientização de clubes, jogadores e torcedores. Por vezes, as redes sociais desse trio (clubes, jogadores e torcedores) alimentam o dissenso. São agentes de discórdia a estimular rivalidades, quando deveriam construir pontes, derrubar barreiras e promover relações pacíficas. O esporte, no presente, sofre duas ameaças tirânicas:  a violência e o fenômeno das apostas (as chamadas “Bet”s).

O Botafogo é chamado de “estrela solitária” porque os treinos começavam de madrugada, e por isso seus atletas conseguiam ver no céu o planeta Vênus, também conhecido como Estrela D’Alva.  Que essa “estrela”, que brilha solitária no apreço de João, mas se multiplica compreensiva e solidária em seu coração, inspire a nossa juventude e a maturidade para que possamos construir um futuro em cujo “céu” comporte uma constelação de “estrelas”, num bordado de luz contendo as palavras AMOR e PAZ.

Marcos Araújo é pai de João

Gratidão

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Adobe Stock
Arte ilustrativa Adobe Stock

Apesar de alguns altos e baixos, minha saúde vai bem. Sim. De um modo geral, estou com a cabeça e o corpo em ordem. Existe a bateria diária de remédios, que não é das menores, contudo os efeitos colaterais são ínfimos diante do custo-benefício. Diversos são os motivos pelos quais me sinto grato e privilegiado. A Fome, por exemplo, largou do meu pé faz tempo, foi erradicada do meu viver. Hoje eu possuo casa própria, luz elétrica e água de boa qualidade em abundância.

Desde quando voltei a escrever, pouco antes da pandemia, as coisas só têm melhorado para mim. Aqui neste Blog Carlos Santos, justiça seja feita, reencontrei velhos amigos e adquiri a admiração e carinho de leitores que sequer conheço pessoalmente, como o escritor e delegado Inácio Rodrigues, aqui em Mossoró, e a pernambucana e bancária aposentada de Caruaru Bernadete Lino.

Pois é, surgiram novos amigos que acompanham meus escritos neste blogue e que se tornaram íntimos deste escriba e desta Casa Branca da Euclides Deocleciano. Sinto-me, repito, um privilegiado. Olho pelo retrovisor e vejo quantos apuros e privações ficaram para trás. Fisicamente falando, todavia, estou fora de forma, adquiri um sobrepeso de quase vinte quilos e assumo (por enquanto) minha condição de sedentário. A maior parte daquela cabeleira de algumas décadas pretéritas despencou e já não sou o palminho de rosto bonito de outrora. O tempo é iniludível.

No geral, torno a dizer, estou no lucro. Possuo entre estas paredes, debaixo deste teto que me abriga (além de outros bens materiais modestos) uma geladeira resiliente, fogão de quatro bocas, telefone celular, um velho computador, escrivaninha que ganhei no meu último aniversário, motocicleta, tevê moderna e uma rede de dormir. Pode parecer pouco para alguns, no entanto estou satisfeito.

Não, prezados leitores. Isto não é um espólio prematuro. Trata-se de uma espécie de prestação de contas ou um exercício de gratidão perante o Todo-Poderoso. Não pago nada pelo oxigênio que respiro. A Lua e o Sol não me cobram taxa de iluminação pública. As estrelas muito menos. Vivo em um recanto do mundo onde não há bombas e mísseis desabando sobre nossas cabeças. Não sofremos com enchentes, terremotos, furacões nem chuva ácida. O Brasil e Mossoró têm problemas, mas não é um deus nos acuda como esse que vemos na Palestina e Ucrânia. Longe disso.

Infelizmente, também seja dito, ainda existem muitos cidadãos desvalidos, crianças, adultos, idosos, mendigando nos semáforos, dormindo sob marquises, viadutos, em praças públicas e casas abandonadas. Eu, entretanto, por alguma benesse ou divina providência, vivo uma vida módica, porém digna.

Dá-me uma tristeza enorme quando me deparo com esses pobres coitados, indivíduos rifados no relento, invisíveis aos olhos dos gestores, dos governos, dos homens públicos, ignorados até mesmo pelo Criador. Por que será, oh, Deus?! O que terão feito de tão mau ou errado para viverem em semelhante lástima, curtindo fome e repelidos, tratados como leprosos sociais?! Então olho para mim e à minha volta, penso nos amigos que tenho e nos tostões que chegam às minhas mãos. Aí reflito, pondero e digo de mim para comigo o quanto sou feliz e bem-aventurado.

Aqui não há luxo, algo fácil de se constatar, mas quem me frequenta sabe que é bem-vindo. Toma-se um café escoteiro ou acompanhado das guloseimas que trazem Elias Epaminondas, Odemirton Filho, Rocha Neto, Marcos Araújo, entre outros que muito prezo e quero bem. Hoje é isso. O assunto é gratidão. Entrementes rogo que o Altíssimo se apiede de todos que se acham na miséria.

Marcos Ferreira é escritor

As mulheres no palco da memória

Por Marcos Araújo

Mulheres (Getty Images)
Mulheres (Getty Images)

A história não tem sido justa com as mulheres. Em grande parte, elas foram colocadas a lattere, dessignificadas. A historiadora francesa Michelle Perrot denunciou isto em um livro (As mulheres ou os silêncios da história).

Já que estamos em período eleitoral, cabe lembrar sobre a importância da participação da mulher na política. O cenário nacional segue desfavorável à participação feminina na política: as mulheres somam 52% dos votantes, mas representam apenas 15% dos parlamentares do Congresso. Na prática, a política no Brasil tem sido conduzida por homens.

Algum misógino poderia até dizer que a política é ambiência masculina. Até esbarrar no exemplo de Golda Meir, Margareth Thatcher, Indira Gandhi, Angela Merkel, Madeleine Albright, Kamala Harris…

Nos Estados Unidos, dizem que Rosa Parks se sentou para que Martin Luther King pudesse marchar, e que King marchou para que Barack Obama pudesse correr, numa referência à expressão em inglês “run for office”, usada para se referirem à disputa pela Casa Branca.

Por justiça, deve ser destacada a contribuição das mulheres potiguares na história política brasileira: a cidade de Mossoró/RN teve a primeira eleitora alistada – a professora Celina Guimarães em 1927; em Lajes, em 1929 foi eleita a primeira prefeita – Alzira Soriano. Desde o início da República, em 1889, o país teve uma única presidente, Dilma Rousseff, e apenas oito governadoras foram eleitas para o cargo, sendo três delas no Rio Grande do Norte.

Os “apagões” da participação feminina são visíveis em todos os setores sociais, e em todos os recantos do planeta.  Alguns exemplos na ciência: Esther Lederberg não teve permitido o registro de sua pesquisa. A Universidade de Stanford, onde lecionava, atribuiu aleatoriamente ao seu esposo, Joshua Lederberg, que levou o crédito — e o Nobel de Medicina em 1958. Outro caso: Jocelyn Bell descobriu os pulsares da eletromagnética. Em 1974, sua pesquisa venceu o prêmio Nobel de Física, mas seu nome nem sequer foi mencionado — os homenageados foram Antony Hewish e Martin Ryle, coadjuvantes na descoberta. Hedy Lamarr desenvolveu um sistema para lançamento de torpedos, mas teve o seu uso tomado indevidamente pela Marinha Americana e somente em 2014 entrou para o Hall da Fama Nacional de inventores, ficando conhecida como “a mãe do wi-fi”.

Poderia ir além, citando mulheres em todas as áreas do saber humano que tiveram seus nomes sonegados a registro da história.

Por aqui (no RN), devemos exaltar a biografia das mulheres na política e suas relevâncias na construção social. Não se olvide nunca a importância intelectual e política de Nísia Floresta, Auta de Souza, Alzira Floriano, Celina Guimarães Viana, Maria do Céu Pereira Fernandes, Lindalva Torquato Fernandes, Ana Floriano, entre outras.

É preciso resgatar o protagonismo feminino no palco da história. E incentivar a participação da mulher em todos os espaços da vida pública brasileira.

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Faculdade de Direito da Uern comemora 5º “Selo OAB Recomenda”

Conquista de mais um selo foi comemorada com simplicidade, mas emoção (Foto: Uern)
Conquista de mais um selo foi comemorada com simplicidade, mas emoção (Foto: Uern)

A Faculdade de Direito (FAD) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) celebrou, nesta quinta-feira (05), a conquista do “Selo OAB Recomenda” pela quinta vez consecutiva. A solenidade, realizada na área externa da faculdade, debaixo das mangueiras, reuniu professores, alunos e autoridades acadêmicas para comemorar esse reconhecimento de excelência.

A Uern tem sido agraciada com o selo desde a edição de 2010/2013, seguido pelas edições de 2013/2016, 2016/2019, 2019/2022, e agora, na edição mais recente de 2022/2025. Tanto o curso de Direito em Mossoró quanto em Natal figuram entre os melhores do país, com o campus de Natal recebendo o selo desde 2016.

Em seu discurso, a reitora Cicília Maia destacou o significado dessa conquista para a Universidade, lembrando o esforço coletivo ao longo dos anos. “Poderíamos criar vários retratos, cada um com uma história para contar, e não tem como não lembrar daqueles que vieram antes de nós, que enfrentaram dificuldades, como meses sem salários, mas seguiram acreditando na educação e na Uern”, afirmou.

O decano da FAD, Professor Marcos Araújo, compartilhou uma lembrança pessoal de sua época como estudante da Uern, emocionando o público. “Eu fui aluno dessa Universidade, morava no bairro Inocop e trabalhava. O que me inspira hoje é olhar para vocês e dizer: há continuidade na história da Uern”, afirmou.

“Vocês são os edificadores de uma nova sociedade. São pelos olhos de vocês que vejo o futuro”, completou o professor, salientando o papel central dos alunos na construção de um amanhã mais promissor.

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Nota do Blog – Bravo, Uern. Aplausos aos de hoje e àquelas pessoas que vieram antes, assumindo enormes sacrifícios à conquista desse reconhecimento e de tantas outras vitórias.

Reminiscências…

Por Marcos Araújo

Imagem ilustrativa Freepik
Imagem ilustrativa Freepik

“A minha meta de vida? Apenas gastar o resto da areia da ampulheta, antes que chegue ao fim!” 

Segundo o dito popular, “quem vive de passado é museu”, e confesso que estou nessa condição de “museólogo”. Sou um memorialista, um historiógrafo vivencial. Depois de cinco décadas de existência, meu pensamento se retém mais no passado, sem conseguir expectrar quase nada sobre o futuro. Na ampulheta da vida, vejo que escorreu muito mais areia para a parte de baixo, remanescendo uma pequena porção na parte de cima…

Estou preso nas memórias do ontem, vivendo o hoje, sem pensar muito no amanhã. Outro dia, entre jovens do “Segue-me” (movimento da igreja católica), dei um depoimento do tempo de adolescência, falando sobre a importância da Catedral de Santa Luzia na formação das famílias mossoroenses, na construção dos relacionamentos… Contei aos garotos que muitos dos casais de hoje se conheceram nas paqueras da Praça do Cid, depois da missa da Catedral na noite aos domingos. Foi por ali que dei as minhas primeiras piscadas, depois de girar na praça umas cinco vezes…

Desde sempre tive um pendor para olhar o passado. Fui um “velho” na pele de um adolescente. Sempre convivi e adorava conversar com idosos. Fui amigo de Rafael Negreiros, Cristóvão Frota, Negro Chico do Bar, Chiquinho Germano, Tibério Rosado, Osires Pinheiro, Francisco Revorêdo, Heriberto Bezerra, Antônio Rosado, entre tantos…

Ainda garoto, fui frequentador do Café e Bar Mossoró, tendo conhecido seu Fransquinho e Aurino. Minhas primeiras cervejas foram no bar de Raimundão, na rua Almino Afonso, sob seu olhar de censura à minha falta de recursos. Alcancei ainda o Castelinho, e frequentei algumas festas no clube ACEU. Conheci seu João Pinheiro, do IP, e “roía” por não poder beber whisky e conversar sobre política no seu bar.  Assisti a filmes nos Cines Pax e Cid, comprando bombons nos carrinhos que ficavam em frente.

Testemunhei a abertura do bar de Zé da Volta na Abolição II, proximidades da Usibrás, aonde aos domingos papai e mamãe iam dançar. E também “pastorei” minha irmã Odinha e suas amigas Patrícia, Daniela, Rosimeire e as irmãs Kênia e Kélia Rosado na boate/bar Burburinho, propriedade de Gustavo Rosado. Esperei por elas cochilando dentro de um carro muitas noites, enquanto elas se divertiam e dançavam na Hastafari, uma boate de Samuel Alves, na rua Mário Negócio (em cima da Panificadora 2001).

No período político, panfletei algumas vezes durante a madrugada colocando “santinhos” nas portas das casas, com imagens de Vingt Rosado e Francisco Lobato (pai do meu colega do curso de Direito, Serlan Lobato).  Ao receber o título de eleitor, fui recepcionado à vida eleitoral com a candidatura do Professor Paulo Linhares a Prefeito Municipal.

“Ganhei” minha primeira habilitação do então candidato a vereador Regy Campelo, sob o patrocínio do governador Lavoisier Maia, e posso testemunhar haver assistido, com entusiasmo juvenil, no largo do “Jumbo” (local onde está edificado o Ginásio Pedro Ciarlini), os discursos emocionados de Geraldo Melo (o “tamborete”), Odilon Ribeiro Coutinho e do velho alcaide Dix-Huit Rosado.

Minha predileção musical também denuncia a minha maturidade, e, principalmente, a inaptidão aos ritmos atuais.  Fui incitado a refletir sobre cidadania com Zé Geraldo (“Cidadão”); protestei ao som de Geraldo Vandré (“Pra não dizer que não falei das flores”); fui agitado pela revolta cívica de Renato Russo (“Que País é este?”); vibrei com a personalidade confusa de Belchior (“Paralelas”), e envolvido pela loucura sana de Raul Seixas…

O romantismo e a fossa sempre ressoaram como bálsamo nas canções de Tom Jobim, Vinicius de Morais, Roberto Carlos, Moacyr Franco e Altemar Dutra. A devoção à música americana veio pelos acordes de “My Way” e “New York, New York”, com Frank Sinatra. Ou por “Unforgettable”, de Nat King Cole.

A “mão” da idade pesa nos ombros da minha existência. Resguardo no coração a tristeza de ter assistido a partida de tantos amigos para a eternidade, agradecendo a Deus com fervor pela minha vida, e mais ainda pela dos que ficaram.

Observando bem o ontem, fico genuflexo aos céus pela não contemporaneidade com os jovens de hoje. Não vejo muita graça no divertimento dos adolescentes do presente. Os jogos eletrônicos e as redes sociais como passatempo não superam os jogos de bola nos terreiros com carrascos de pedra de antanho. O passado é história. O hoje é o amanhã de ontem. E o hoje será o ontem de amanhã. Por aqui, conto o passado, sem saber o porvir.

Espero que meus filhos possam reproduzir memórias felizes. A minha meta de vida? Apenas gastar o resto da areia da ampulheta, antes que chegue ao fim!

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern