Viagem internacional da governadora leva Walter novamente substitui-la Foto: Divulgação)
O vice-governador Walter Alves (MDB) assumiu nesta quarta-feira (10) a chefia do Executivo estadual. Ele fica no cargo de governador do Rio Grande do Norte até a próxima terça-feira (16).
Como governador do Rio Grande do Norte, pelos próximos dias, Walter Alves participará de todos os compromissos e reuniões de interesse do Estado, dando seguimento aos entendimentos já iniciados visando a continuidade da administração do Rio Grande do Norte.
Para o governador interino, o novo período na chefia do Executivo do RN é mais uma oportunidade na qual ele atuará no sentido de defender os interesses e o desenvolvimento do Rio Grande do Norte.
Walter Alves assume interinamente o Governo do RN em razão da viagem internacional da governadora. Fátima Bezerra (PT) está na França, onde participa do 1º Festival Internacional de Forró Raiz, que tem a participação de três artistas potiguares e servirá de palco para a formalização da candidatura do Forró como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em uma articulação do Consórcio Nordeste.
A delegação do RN é composta pelos músicos Jarbas do Acordeon, Deusa do Forró, e Cláudio Araújo. Os três artistas são ativos na defesa do forró de raiz no estado e atuarão para fortalecer a candidatura global.
Palácio de Bourbon – Paris Foto: do autor da crônica)
Dia 14 de julho sempre foi uma data especial para mim, pois é a data de aniversário do meu saudoso pai.
148 anos antes do seu nascimento, a Bastilha caiu e o médico Joseph-Ignace Guillotin prescreveu a utilização de um mecanismo que, até hoje, é o símbolo da Revolução Francesa.
Em umas das minhas idas à capital francesa, resolvi percorrer a pé toda a extensão da famosa Champs-Élysées, desde o Arco do Trinfo até a Praça da Concórdia.
Não entrei em nenhuma daquelas famosas lojas luxuosas, que você poderia identificar de longe, só pelo aglomerado de pessoas em frente às portas e vitrines.
Assim como a esmagadora maioria deles ali postos, o que me faltava não era tempo. Se bem, que o meu interesse ali era eminentemente histórico.
Quando você conhece algum fato histórico, especialmente aqueles que reverberam até hoje, é muito emocionante quando você tem a oportunidade de ver, sentir o cheiro, os sons e até a textura.
Por mais que você tenha lido ou escutado sobre aquele local ou fato histórico, nada se compara à experiência pessoal.
Disso, podemos ter tantas experiências e produzir tantas outras histórias sob o nosso ponto de vista, que se torna muito mais interessante quando encontramos pessoas que comungam dessa mesma visão de mundo, ou seja, pessoas que se interessam pelo conhecimento que nos enriquece culturalmente. Há certas coisas na vida que dinheiro não compra.
Conversar e conviver com pessoas que agregam cultura e assuntos interessantes é muito importante para o nosso bem estar, além de abrir novos horizontes, perspectivas, visão de mundo e, sobretudo, de ideias.
E quando falo de cultura e conhecimento, não me refiro apenas às culturas e histórias estrangeiras de forma excludente, como se ainda estivéssemos no viés do antigo eurocentrismo – se é que ainda de fato exista, diante das notícias que se revelam nos últimos tempos -, embora inegavelmente grandes rupturas históricas e sociais tenham tido gênese e eclodido no Velho Continente, especialmente no período das grandes revoluções, como, por exemplo, a de 14 de julho de 1789, com a Queda da Bastilha.
Aliás, no mesmo contexto histórico, no dia do meu aniversário, a Assembleia Nacional Constituinte da França aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, outro marco na história dos direitos humanos, com a adoção dos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que serviram como base de diversas constituições no mundo inteiro.
Embora essas datas sejam mera coincidência, já é um ponto de partida para uma boa conversa.
Dessa maneira, embora o desconhecimento de uma forma geral não deve desmerecer ninguém, há situações nas quais é necessário que sejamos influenciados pelo bom conhecimento, pois todo tipo de conhecimento que agregue algo de bom e útil é valioso. Ainda mais hoje, quando influenciar tem sido sinônimo de degradação cultural e moral.
Isso se reflete vividamente nas pequenas porções de ideias e colocações mal postas e mal interpretadas sobre todos os tipos de assuntos. Especialmente nos embates de posicionamentos ideológicos, desdobrando-se num verdadeiro escárnio sobre questões e contextos históricos, os quais são totalmente subvertidos, quer seja conscientemente para a massa de desconhecedores, quer por eles próprios.
Assim, até hoje se discute se Maria Antonieta, de fato, fez aquela famigerada colocação para que se não tivessem pão, que comessem brioche, o que teria ocasionado a fúria dos franceses e posto a sua cabeça sob a lâmina de Dr. Guillotin, na Praça da Concórdia, no dia do aniversário da minha esposa.
O motivo, afinal, não foi a falta de pão, mas o excesso de brioches.
Père Lachaise em foto do autor da crônica (Honório de Medeiros)
Père Lachaise. Tarde de frio, vento, e neblina. Tudo cinza, como convém a um cemitério. Ninguém à vista, exceto duas mulheres que se dirigem a mim e me perguntam se lhes posso informar onde está sepultado Azzis, “Le philosophe Azzis”. “Não, desculpem-me, não sei”. Elas se vão. Cochicham. Admiro-lhes o talhe elegante, a beleza madura, até mesmo os guarda-chuvas.
Tento decifrar o mapa do cemitério para ir em marcha batida na busca dos meus mortos queridos. Caminho. É um alumbramento. Em cada canto, história. Túmulos de grandes homens ou mulheres disputam espaço com anônimos. Enterneço-me com a lápide pousada no chão e rodeada de flores murchas. Foi recente o sepultamento.
No canto, solitário, um ursinho de pelúcia cumpre a dura tarefa de velar o morto e render-lhe as homenagens que alguém lhe destinou. Fotografo.
Sigo em frente. Ofereço as flores que carrego comigo a Honoré de Balzac. Rezo, não, converso com ele. Pergunto-lhe por Alexandre Dumas e lhe digo de minhas manhãs, tardes e noites, ainda menino, quase adolescente, preenchidas pelo gênio de cada um deles.
Mais além, rendo minhas homenagens a Oscar Wilde, mas me assusto com alguém que surge de repente, como uma aparição, ao meu lado, e cruzando o braço esquerdo sobre o peito, eleva o direito à face, esconde-a com a mão e põe-se em um isolamento absoluto em relação ao resto do mundo.
A tarde cai lentamente. Anoitece. Tenho que ir, embora não deseje. O instante é mágico. Olho e não vejo ninguém.
Sento em um banco às margens de uma das vias principais e me lanço em uma divagação sem nexo, constituída de fragmentos do presente e do passado: é plena madrugada, estou deitado de costas olhando para a torre da igreja do cemitério e para as estrelas logo acima; agora é a Mossoró da minha adolescência e infância, a Igreja é a de São Vicente, meus amigos de então conversam ao meu lado, mas ninguém dá por mim. Sou adolescente e adulto. Angústia.
Levanto-me e vou embora. A chuva molha meu rosto. Cumprimento a guarda. Chego à rua. A Paris movimentada vem ao meu encontro. Eu sigo mecanicamente, enquanto tento guardar as cores, os cheiros, as sensações, os fatos daquela minha caminhada.
Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN
O “gosto” é algo complicado. “Tem gosto pra tudo”, afirma o ditado popular; “(…), cada um tem o seu”, encerra um dito ainda mais enfático e escrachado. Essa sabença geral é confirmada pelos especialistas em estética. Virgil C. Aldrich, no seu “Filosofia da arte” (Zahar Editores, 1976), lembra que, “ao falar sobre obras de arte [e, aqui, eu incluo realizações da literatura, da música, das artes plásticas, da arquitetura e por aí vai], as pessoas frequentemente dizem que gostam mais de uma do que de outra ou, então, que simplesmente não podem suportá-las”.
E Jean Lacoste chega mesmo a ter, como um dos tópicos do seu livro “A filosofia da arte” (Jorge Zahar Editor, 1986), “o gosto como problema”. Acho que é por aí mesmo – e quem sou eu para contestar o povo e os doutos?
De toda sorte, sempre me pareceu que podemos enxergar certos consensos sobre algumas coisas. O convencionalismo é uma grande arma para enfrentarmos a inconsistência do gosto e apontarmos o que é “belo”. Um desses consensos é a cidade de Paris, no caso sua arquitetura/ambiência, de modo geral glamorosa. Eu acho Paris bela. Você provavelmente também acha. E algo entre meio mundo e mundo e meio concorda conosco.
Paris, ouso dizer, é belíssima. A Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Avenida dos Campos Elísios, a Ópera, os Inválidos, o Museu do Louvre, o rio Sena, a Catedral de Notre Dame, o Jardim de Luxemburgo, os grandes bulevares, as ruelas do Marais, de Saint-Germain-des-Près e do Quartier Latin, a boemia de Montmartre e a Sacré-Cœur, os muitíssimos cafés da cidade… etc. etc. etc.
Até a cor de Paris encanta: de dia, nos seus prédios, um tom bege que a tudo predomina; à noite, uma Cidade Luz, iluminada e iluminista. Paris é excitante como sentenciou Hemingway: “Se, na juventude, você teve a sorte de viver na cidade de Paris, ela o acompanhará sempre até ao fim da sua vida, vá você para onde for, porque Paris é uma festa móvel”. E Paris é, e talvez sobretudo, romântica.
Foi por causa da reconhecida beleza romântica de Paris que ficamos preocupados com o causo de um primo muitíssimo querido. Há alguns anos ele foi para Paris em lua de mel. Viagem dos sonhos de qualquer casal. Passear de mãos dadas à beira do Sena, tomar um vinho nacional, namorar à luz de velas e de Paris, isso é muitíssimo mais do que muito para qualquer par de amantes. Imaginem para os recém-casados.
Mas a mulher do meu primo não gostou de Paris, “definitivamente”, nos disse. Detestou talvez seja um qualificativo forte. Mas foi algo próximo daí. Separaram-se pouco tempo depois. Ficamos sem entender. E aqui me refiro ao “desgosto” de Paris.
Entretanto, outro dia, para além das complexas lições dadas pela filosofia sobre o problema do “gosto”, encontrei uma explicação até plausível – assim pelo menos eu quero crer – para os padecimentos parisienses do meu querido primo.
Há algumas semanas, quando voltamos da França em viagem familiar, meu pai perguntou ao nosso pequeno João o que ele tinha mais gostado de Paris. Eu estava na hora e esperava que João dissesse a Torre Eiffel (vi a empolgação dele embaixo daquele colosso de ferro onde estivemos duas vezes) ou a Euro Disney (por motivos óbvios). Mas ele disse os “esgotos”. Isso mesmo: os esgotos de Paris, embora aqui devamos ler o “Museu dos Esgotos de Paris” (Musée des Égouts de Paris), que visitamos, por promessa minha e exigência dele, numa malcheirosa, mas divertidíssima, tarde ao derredor do Sena.
É isso. Eles – o outrora casal de primos – apenas não foram na Paris certa. Pelo menos é isso que eu agora gosto de crer. E gosto… Bom, cada um tem o seu.
Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL
Dona Guia Benavides com uma de suas netas – Letícia (Foto: redes sociais)
Hoje, 14 de novembro, dia dedicado pela Igreja católica ao santo José Pignatelli, um sacerdote e professor jesuíta adorador de Nossa Senhora, lastimamos a convocação para tomar assento no céu, junto aos anjos de Deus, da nossa querida amiga e madrinha afetiva Guia Benavides. Para ela (e sobre ela!), o escrito mais completo e descritivo de sua valia humana pode ser tecido pelos adjetivos vivenciais de um familiar, a partir do seu companheiro de toda uma existência, meu padrinho EDGARDO BENAVIDES; ou de um dos seus filhos amados – JÂNIA, ADRIANA, EDGARDO e CYRUS BENAVIDES. Ainda, quem sabe de um dos seus netos, podendo ser o primeiro deles o advogado TÚLIO ALBERTO, o “Tulinho” como ela chamava…
Arrisco aqui, neste rabisco, sobremodo pela grandeza solar que ela representava para a família, trazer uma unidade decimal da sua importância humana em um depoimento compungido pelo sentimento da ausência que ela fará. Peço desculpas à sua gênese familiar pela simplicidade do meu texto, que mesmo com todas as exaltações que possa tecer, não dimensionaria a sua grandeza…
Guia Benavides foi uma das mulheres mais fortes que conheci na vida. Tinha uma personalidade marcante, uma posição altiva e um conhecimento de mundo, de pessoas e de coisas sem igual. Cativante e catalizadora de atenções, sua presença em um ambiente era garantia de alegria, contentamento, riso e espontaneidade.
Se é possível dividir uma personalidade no plano da metafísica, posso distinguir com nitidez as várias “GUIAS” dentro de uma só alma e de um só espírito. A GUIA religiosa, devota de Nossa Senhora, uma CRISTÃ autêntica, incorporada como cursilhista perseverante por muitas décadas, acompanhando presencialmente e com pontualidade britânica os eventos, aprofundamentos, assembleias regionais etc. Ou, ainda, na fiel comprometida e participativa das missas dominicais às 19h00 na Catedral de Santa Luzia, onde, invariavelmente, sentava-se no primeiro banco com seu esposo Edgardo, dividindo os dois com o sacerdote que presidisse a celebração a atenção e os cumprimentos dos misseiros.
A GUIA pintora, a ARTISTA, o telurismo pulsante no seu coração arriado por Acari, sua cidade natal, um tema permanente nos traços dos pincéis a brincar com as cores retratistas dos casarios e ruas de sua memória infanto-juvenil. Se Van Gogh teve por inspiração os girassóis da pequena vila de Zundert (Holanda), onde nasceu; se Diego Rivera se especializou em retratar a condição do trabalho dos operários pobres da minúscula cidade de Guanajuato (México); se o nosso Cândido Portinari emoldurou pelo mundo suas lembranças de Brodowski, interior de São Paulo, com quadros sociais de sua infância, por qual razão a pintora GUIA poderia desviar seus olhos de seu grande amor citadino por Acari? A arte de pintar é apenas a arte de exprimir o invisível através do visível, diria Eugène Fromentin. Ela apenas exprimia o seu gostar inenarrável pelas suas origens.
A GUIA, uma IMATERIALISTA por excelência. Embora de classe social favorável, fazia-se de uma simplicidade que beirava o franciscanismo. Convivia com o baronato estadual e frequentava as grandes festas e as colunas sociais sem fazer floreios e louvaminhas a quem quer que seja. Suas casas (de Mossoró e Tibau) eram guarnecidas de mobília antiga de muito bom gosto, e de artesanato por toda parte, em contraponto aos living chaise dos novos ricos.
No espaço mais caro da Nova Betânia, tinha o privilégio de esnobar dos ricos com uma chácara para acumular seu apreço por guardados artísticos. Seu único “luxo” era viajar. Adorava. Certa feita, em viagem à Paris, enquanto algumas senhoras recitavam as lojas de grife que frequentariam, ela e Edgardo me fizeram procurar o comércio universal do “Louis Camellot”, como brincávamos. Aos que não sabem, o “camelódromo”.
Recitava internamente, penso eu, a frase do poeta Virgílio: “Cada um é arrastado pelo seu prazer”. E em seus estudos deve ter lido Platão e fixada a sua mensagem: a maior riqueza é ser feliz com pouco.
Por fim, a GUIA, a EMBAIXADORA DE ACARI, a reveladora de sua estética urbana e do seu componente étnico-sócio-político. Ninguém divulgou mais a sua cidade do que ela. Ela carregava em si (até no patronímico) aquilo que a cidade tem de mais valioso e simbológico: a invocação à memória da padroeira, NOSSA SENHORA DA GUIA e um mito narcísico pela cidade.
Ela fundia – e confundia – essas valias referenciais por Acari. NOSSA SENHORA, com o nome de “DA GUIA” – um dos títulos da mãe de Cristo por ser sua educadora, não tem muito relevo na prelazia católica brasileira. São poucas as paróquias que a têm como padroeira.
Acari se distingue nessa devoção. Para além disto, Acari para GUIA era a Pasárgada aludida por Manuel Bandeira; a Paris de Baudelaire; a Lisboa, de Fernando Pessoa; a Buenos Aires, de Jorge Luis Borges; a Praga, de Franz Kafka; a Dublin, de James Joyce…
Sentindo a tristeza de EDGARDO, a quem invoco uma paternidade afetiva de primogenia, e do seu coração enlutado, com saudade imensa mas com a certeza renovada de que o seu espírito conviverá com os seus para sempre, só podemos dizer: Requiescat in pace, in perpetuum, Guia Benavides, a Embaixadora de Acari!
Marcos Araújo é advogado e professor da Uern
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Minha estada na festiva Paris, quando jovem, não se resumiu a café e cafeterias. Até acho que, de longe, a coisa que mais fiz foi caminhar. Muitas vezes sem destino, apenas pelo simples prazer de flanar. Pela Rive Droite (a tal margem direita do Sena), do Louvre à Opéra Garnier e pelos bulevares que dali partem. Pela Avenue des Champs-Élysées até o Arc de Triomphe. Pelo entorno do Centre Georges-Pompidou. Pelo agradabilíssimo Marais. E por aí vai.
Entretanto, a minha praia mesmo era a Rive Gauche, especialmente as regiões de Saint-Germain-des-Prés (onde morava) e do Quartier Latin. Sempre que podia, saía do meu hotel na Rue Madame, rezava um Santo Anjo na Igreja de Saint-Sulpice e passava na pertíssima livraria La Procure. Observava muitos rostos no Boulevard Saint-Germain. Chegava no Boulevard Saint Michel. Ali xeretava as enormes livrarias Gibert Joseph e Gibert Jeune. Voltava em direção à Notre Dame e à Shakespeare & Cia. Bisbilhotava os bouquinistes do Sena. E fazia tantas outras coisas que retornava, já tarde da noite, qual o elefante do poeta, invariavelmente fatigado.
Já na mistura de Saint-Germain-des-Prés com Montparnasse, havia uma jornada que eu fazia todos os dias, animado, para assistir aula na Alliance Française, no Boulevard Raspail, 101. E não demorei para descobrir que esse caminho passava em frente a um dos mais significativos endereços da Paris literária: a antiga casa de Gertrude Stein (1874-1946), na Rue de Fleurus, 27.
Conhecia Gertrude Stein de fama e, em especial, das suas memórias “A autobiografia de Alice B. Toklas”, de 1933. Na edição que tenho em mãos (L&PM, 2006) consta: “Mais moderna do que todos os modernos, mais vanguardista do que os cubistas cujos quadros forravam as paredes da sua casa, Gertrude Stein – mulher de opiniões inusitadas, opção sexual heterodoxa, americana auto-exilada na Europa – embebeu sua literatura com o caráter experimental da sua vida”.
Inteligentemente, ela “redigiu a autobiografia da sua amante, apenas para nela aparecer como personagem e narrar suas próprias experiências na terceira pessoa”. E essa sacada, um dos mais coloridos retratos da vida intelectual e artística de Paris, “transformou a influente escritora, crítica e colecionadora de arte Gertrude Stein em um dos célebres nomes da literatura norte-americana da primeira metade do século XX”.
De fora, a famosa habitação, com aquela placa indicando a ex-moradora, logo me pareceu elegante, mas não chique. Mas dizem que era apenas a escritora ou a sua amante abrirem a porta e o visitante quedava impressionado. O interior era luxuoso, com móveis em estilo renascentista italiano. Pouco confortáveis, também dizem. As paredes eram preenchidas, chão a teto, com quadros e telas. E aquele salão, sábado à noite, estava sempre “repleto de gênios, quase gênios e futuros gênios”, nas palavras da própria Gertrude.
De início, gente como Apollinaire, Picasso, Matisse, Braque e Juan Gris, tirando o primeiro, todos pintores, com obras expostas ali. Mas foi com o fim da 1ª Guerra Mundial, na virada de 1919 para os anos 1920, que a coisa, para o meu gosto, tornou-se mais interessante. Como anota Jessica Powell, em “Literary Paris: a Guide” (The Little Bookroom, 2006), uma nova leva de “americanos havia chegado em Paris e novos rostos logo encheram o seu apartamento térreo, entre eles Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Robert McAlmon e Ford Madox Ford.
A casa de Gertrude Stein (1874-1946)
A tradição do velho salão de Stein seria substituída nos anos 1920 por essa ‘geração perdida’ (um termo mais tarde atribuído a Gertrude mas que ela alegava lhe ter sido dito por um gerente de hotel francês). Stein, então aproximando-se dos 50 anos, era tida por alguns desses jovens escritores como a ‘mãe de todos nós’, em parte pelo seu papel de mentora”. Consta, para dar um exemplo, que Hemingway lhe era grande devedor na formatação dos seus primeiros contos.
Nunca entrei no endereço da Rue de Fleurus. Apenas sonhava com o café e a conversa naquele salão avant-garde, de ideias radicais e geniais, numa Paris de outrora. Paciência. Devo me contentar em reler “A autobiografia”. Há muitas fofocas e meias-verdades no livro, dizem. Os americanos adoraram. Alguns ilustres franceses também. Outros nem tanto, Braque, Matisse e Tzara entre eles. Amigos romperam com a autora. Bom, eu não tenho nada com isso. Acreditarei em tudo. E vai ver Miss Stein, assim como fez com Hemingway, procede à minha instrução.
Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Santos Dumont: poucos metros, mas voou (Foto: reprodução)
Termina ano, começa ano e o cenário não muda para o ministro do Desenvolvimento Regional e ex-deputado federal Rogério Marinho (PL).
Não consegue levantar voo.
A primeira pesquisa registrada e publicada este ano para identificar o cenário político-eleitoral no RN, de novo o revela lá atrás, sem prosperar como nome ao Senado (veja AQUI).
Em conversas reservadas, ele fazia planos de chegar ao fim de 2021 na casa dos 20% em intenções de voto. Porém, está bem longe disso.
Marinho é uma versão política do ’14 Bis’, aquele “mais pesado do que o ar”, aeronave que o brasileiro Santos Dumont, mesmo assim, conseguiu fazer planar por poucos metros em Paris, dia 23 de outubro de 1906.
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No que toca à quantidade de “cafés literários”, nenhuma cidade bate Paris. Se Viena nos deu o modelo das cafeterias europeias, foi Paris que emprestou o glamour e a fama mundial. São muitíssimos os estabelecimentos. De ontem, já idos, e de hoje, ainda fervilhando.
Interessantemente, como observa Antonio Bonet Correa em “Los cafés históricos” (Ediciones Cátedra, 2014), “a geografia histórica dos cafés parisienses tem uma estreita relação com o desenvolvimento urbano da capital francesa. Primeiro, no século XVIII, os cafés mais concorridos se encontravam no Bairro Latino, circa da Sorbonne, entre o Odéon e a Praça de Saint-Germain-des-Prés. Depois, antes da Revolução Francesa e durante o Romantismo, o ponto de gravidade dos cafés se mudou para o Palais-Royal, na margem direita do Sena”.
Já com Napoleão III e a reestruturação urbana do Barão Haussmann, “foram os grandes bulevares que contaram com os cafés mais frequentados por um público desejoso de desfrutar os benefícios da prosperidade econômica”. E, depois, já para o fim de século XIX, vem a época da livre e boêmia Montmartre, para além da Praça Pigalle, em cabarets e cafés, abaixo e acima do famoso monte.
Embora às vezes deseje voltar no tempo, à Paris dos anos 1920 ou da Belle Époque, vivo a minha era. É dela, dos cafés de hoje, que falarei. E, para nos poupar tempo, faço uso da lista de cafés elaborada por Noël Riley Fitch em “The Grand Literary Cafés of Europe” (New Holland Publishers, 2007): Café de la Paix, Le Fouquet’s, La Closerie de Lilas, Café du Dôme, La Coupole, Le Sélect, Le Procope, Les Deux-Magots, Café de Flore e Brasserie Lipp.
Das casas relacionadas apenas o Café de la Paix e Le Fouquet’s ficam na Rive Droit (metade norte de Paris). Le Fouquet’s fica na Avenue des Champs-Elysées. Mais badalado impossível. Quem já turistou por lá, se não o conheceu por dentro, pelo menos passou na porta. Já o Café de la Paix fica nas orelhas da Opéra Garnier. É um sobrevivente naquele que foi o coração da “cultura dos cafés” parisienses no século XIX.
Por uma época, ali estiveram, todos juntos e misturados, o Café de Paris, o Tortoni’s, a Maison Dorée, o Café Riche e o Café Anglais, estabelecimentos retratados na ficção dos seus habitués Balzac, Flaubert, Maupassant e Henry James. A lista de clientes célebres é infinita. Fui ao Café de la Paix umas poucas vezes. Quem vai à Opéra deve tomar um trago por lá. Pena que é caro.
Já na Rive Gauche (margem esquerda), temos dois núcleos muito definidos de “cafés literários”. O do Boulevard Montparnasse, onde estão, disputando espaço e clientes, La Closerie de Lilas, Café du Dôme, La Coupole e Le Sélect. São vistosos. Conhecidíssimos. Pontos de referência da cidade. Mas Scott Fitzgerald e Hemingway se perderam por lá. As personagens deste também. Eu mais encontrei do que me perdi, se é que me faço entender.
Contudo, em Paris, a minha “praia” é Saint-Germain-des-Prés, onde fica o segundo point das cafeterias da Rive Gauche. Morei no Bairro e hospedo-me lá se posso. Amalgamado ao Quartier Latin, bairro da Sorbonne e de mil livrarias, é onde amo flanar. Em Saint-Germain está “Le Procope”, dito o primeiro café-glacier de Paris, que, pela vizinhança com a Comédie-Française, ganhou fama na sociedade e intelectualidade locais. Virou moda entre ocupados e desocupados (dá para imaginar a quantidade de “artistas” por lá). Mas é no Boulevard Saint-Germain que ficam talvez os mais famosos cafés parisienses: Café de Flore e Les Deux Magots, colados, com a Brasserie Lipp em frente. Era casa de surrealistas e existencialistas, dentre estes Sartre e Simone de Beauvoir os mais badalados. Eu morava pertinho, na Rue Madame. Baixei muito lá, pagando de intelectual e boêmio. Não sou de ferro.
Eu tenho os cafés parisienses como uma das principais atrações da Cidade Luz. Posso até dizer, correndo o risco de parecer hedonista, que eles, para mim, andam de par com as livrarias em termos de prazer sensual. Aqui estou com Balzac, que, no seu “Traité des excitants modernes”, via na cafeína, tomada em abundância quando ele escrevia, um poder “eletrificante”. Imaginem, então, essa danada sorvida em meio a livros e damas parisienses.
Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
As paisagens e o cotidiano de São João do Sabugi, no Seridó potiguar, vão ganhar espaço em Paris, na França. Em outubro de 2022, o artista seridoense Vandeberg Medeiros leva aquarelas com o colorido do Nordeste para a Mostra Carrousel, ambiente subterrâneo de Paris, na França, que fica entre o Museu do Louvre e a Place du Carrousel.
Vandeberg fará mostra do seu trabalho num espaço internacionalmente conhecido (Foto: reprodução)
O pintor e professor de artes visuais do Instituto Federal de Pernambuco costuma publicar obras no perfil próprio no Instagram (@vandebergmedeirosart).
As pinturas são uma viagem pelo interior norte-rio-grandense, com imagens de crianças brincando pelas ruas, casas de alpendre, as tradicionais igrejas e praças do centro da cidade, além das senhoras que confortavelmente sentadas nas espreguiçadeiras observando os transeuntes. As escolhas remetem à vida do potiguar, nascido e criado no município seridoense.
Com presença consolidada na rede social, Medeiros viu sua arte atingir o pico de engajamento depois de publicar uma peça feita em homenagem à vencedora do Big Brother Brasil 2021, reality show exibido pela Rede Globo.
Ele escolheu duas fotos que retratavam a vida de Juliette Freire, paraibana de Campina Grande que ganhou milhões de seguidores conhecidos como “cactos” após uma trajetória de pouco mais de três meses de programa chamando atenção para símbolos da região, como o chapéu de couro, as plantas da Caatinga, os ritmos e alimentos tradicionais daqui.
Com o engajamento, os trabalhos foram vistos por uma empresa responsável por promover artistas e a própria Juliette aplaudiu as produções. O material Vandeberg, que nunca foi exposto fora do país, foi inscrito e aprovado para ser exibido na mostra Carrousel.
Como são estúpidos os parâmetros que o grosso da sociedade mossoroense tem adotado, para dimensionar sua ascensão social. Tudo baseado na superficialidade e babaquice do “parece ter”.
Estamos medindo esse novo status nos prédios que sobem, nos milhares de carros que invadem ruas, avenidas e ocupam até calçadas. Naqueles que muitas vezes para subir, precisam descer aos subterrâneos.
Ontem, eu tive mais um testemunho do atraso e da distância em que nos encontramos, da inversão de valores e confusão em que nos metemos, em nome do hipotético progresso.
Fuçando livros em um sebo, seu proprietário me fez um relato que fica entre o bizarro e o jocoso. Vamos a ele.Há algum tempo, esse sebista foi procurado por uma “nova rica”, interessada em comprar “um metro de livro”. Isso mesmo. Não era um título específico, coleção ou tomo de encadernamento especial. Tinha que ser no metro, sim.
Explico, reproduzindo o que ouvi: a deslumbrada precisava preencher um espaço em estante desenhada por sua arquiteta, sendo recomendada a colocar livros com a mesma dimensão estética. O espaço disponível pro “enfeite”? Um metro. Um metro de livros simetricamente alinhados.
Mossoró, até o início do século passado, vivia a influência europeia do movimento conhecido como “art nouveau” – daí nascendo até a corruptela de sua área de prostituição, transformada em “Alto do Louvor”, décadas depois.
Era uma cidade com requintes em roupas, moveis, arquitetura, mas também na cultura, desde o teatro ao hábito da leitura e música. Tínhamos cerca de 100 pianos. E as moças bem educadas tocavam. Eles não serviam apenas de ornamento na decoração.
Falar francês era normal para os jovens de ótima extração. Muitos eram poliglotas. Os janotas transitavam sempre impecáveis e ser rico, em verdade, era transformar dinheiro em bem-estar e referência de conteúdo.
Hoje testemunhamos a “Metrópole do Futuro” exultante com seu “crescimento” baseado em carrões pra exibição, TV de LCD e home theater na sala do apartamento, gente mal-educada saracoteando ao som de “lapada na rachada” e enchendo sacolas com bugigangas de grife.
Os que se salvam dessa manada são tratados como estranhos e afetados, ou seja, anormais.
Portanto não é por acaso que da atividade produtiva à política, estejamos “dominados” pela ignorância que mesmo rica, não reluz. É opaca ou furta-cor, mas certamente abobalhada e fútil.
Empobrecemos, em verdade, porque na ânsia de ser diferente, a grande maioria é apenas mais um nessa multidão pasteurizada, uniforme, feita em escala industrial: modelo standart. Faz da aparência a sua essência, da borra cosmética a sua alma.
Acredita que Paris é “a cidade luz” por ser muito iluminada; toma Old Parr com Coca-cola, mas preferia um legítimo “Odete”, por ser mais barato.
A propósito, bota uma bicada de Serra Limpa aí, amigo. O sertão é aqui.
* Texto originalmente publicado no dia 10 de Novembro de 2010.
Dizia Newton Navarro, pintor de cajus sem travo, poeta de palavras e gestos, que em Paris todos os dias eram Domingo.
Completava aquele verso de Valfran de Queiroz, definindo Paris: “Uma maçã no meio do caminho”.
Pois bem. O mundo virou uma Paris opaca, a negar o apodo de Cidade Luz. Por que essa comparação?
Porque nesse tempo de isolamento, confinamento e distâncias você não sabe que dia é da semana, ao acordar.
Todos os dias são Domingo.
Assim mesmo no singular, posto que são dias igualmente chatos. E o Domingo só é alegre para as crianças. Para os vividos o Domingo é apenas o anúncio da Segunda-Feira.
Agora, nem isso. Porque a Segunda não vem. E da Terça-Feira em diante todos os dias sumiram da lembrança ao amanhecer do dia. E na televisão a novidade é a mesma do dia anterior.
Apelo a Albert Camus, “com tanto sol armazenado na memória como pude apostar no absurdo”?
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Aos amigos e amigas que, sabedores de minha paixão pela França e de minha mania de dar pitaco sobre as coisas, me perguntaram opinião sobre os atentados em Paris, a dizer – e refletir – o seguinte:
1 – Não relativizo atos terroristas. Em hipótese nenhuma. Não discuto, não debato e não o farei neste post. Atentado é atentado e assassinato e assassinato, ponto. Não embarco em relativizações (“ah, mas estão colhendo o que plantaram”, “Oh, mas a França apoia os EUA nos ataques ao Oriente Médio”, “Ih, mas teve o Charlie Hebdo”. Não. NADA justifica atentado e assassinato.
2 – Sem disposição de ver amigos queridos e inteligentes “competindo” sobre tragédias (Paris x Lama em Mariana + Quênia + Nigéria) e cobrando solidariedade. Cada um se solidariza com o que quer e se quiser, e quem não o faz publicamente e no Facebook não quer dizer que esteja sentindo mais do que quem sente em silêncio, não é mesmo? E, não, não vou trocar minha foto nem pela bandeira da França nem pela bandeira brasileira. Quem o faz, bem. Acho legal quem se dedica a uma causa. Só não pode cobrar que os outros sigam a mesma causa, da forma que se deseja e na hora que o outro quer, né?
3 – Não há comparação entre tragédias. Uma foi um desastre ambiental causada pela negligência e mau caratismo de empresários que tiveram vista grossa de políticos, todos eleitos pelo voto popular. Outra foi um atentado terrorista que mais tem a ver com geopolítica do que com religião. As da Nigéria e Quênia também foram diferentes. Ah, e também teve chacina de 11 pessoas em Fortaleza e assassinato de um PM aqui em Natal,
4 – Amigo(a) que eu detectar ofendendo muçulmanos em geral pelos atentados, deleto amizade. Generalização é uma das pragas do Facebook. Ou os amigos nordestinos gostam quando um retardado de São Paulo posta coisas como “todos os nordestinos deveriam morrer” e similares?
5 – É isso. Cada qual tem seu time de futebol, seu filme preferido, suas causas e decide a hora de defende-las e se o fará neste Facebook ou não. Cobrança radical parece muito com o pensamento daquele pessoal que comete atentados terroristas, não? Que todos nós tenhamos mais calma na hora de apontar o dedo para os outros internautas.
Cefas Carvalho é jornalista.
* Texto originalmente publicado em seu endereço próprio na Web.