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Interrogatório do poeta Augusto Floriano

Por Cid Augusto

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

– Nome?

– Augusto Floriano.

– Profissão?

– Dizem-me poeta.

– Tem filhos em idade escolar?

– Sim.

– Renda mensal?

– Inconstante e insuficiente. Sou um “liso estável”, como diria o jornalista Carlos Santos.

– O senhor tem o direito de permanecer em silêncio, sem que o silêncio seja usado em seu desfavor, mas o interrogatório é também momento de especial oportunidade para o acusado se defender, além de a confissão representar diminuição da pena que eventualmente vier a ser imposta. Compreende isso?

– Sim, compreendo. E desejo falar. Ou confessar, se minhas palavras assim parecerem.

– O senhor ouviu atentamente a acusação?

– Com certeza! Dicção perfeita, a de Vossa Excelência, com pausas dramáticas nas partes mais “incriminadoras”.

– Os fatos narrados são verdadeiros?

– Absolutamente!

– Não entendi. A resposta é ambígua.

– Cristalinos como um bordeaux Château d’Yquem, safra de 1811.

– Por favor, respeito. Não venha com ironia barata.

– Bom, o vinho é caríssimo, mas, de fato, prefiro cachaça.

– Essa confissão é espontânea?

– As minhas palavras são livres, espontâneas e gratuitas, sem os favores dos 30 dinheiros com os quais se vêm convencendo delatores das mais elevadas classes, patentes e estrelas. Até porque um poeta, por menos talento e inspiração que tenha, jamais seria dedo-duro. Aliás, senhor magistrado, o que tenho a dizer diz tudo de mim, nada de ninguém.

– Então, indo direto ao assunto…

– Sim, é verdade, eu faço amor por fazer, e não me importo, de jeito maneira alguma, se essa impostura ofende a honra da música sertaneja ou se os românticos vão me excluir de suas redes sociais. Quanto aos puritanos, prefiro exercitar o direito constitucional ao silêncio.

– O réu está se esquivando… ou fala tudo ou se cala…

– Seria preferível não falar dessa gente. Entretanto, já que insiste em me negar o silêncio seletivo, afirmo que os puritanos são criaturas desprezíveis, a escória da humanidade. Eles fazem guerra por fazer. Quem faz guerra não faz amor.

– Como assim?

– O puritano é, na essência, um depravado enrustido, que deturpa moralidades para disfarçar perversões e infernizar a vida alheia. Em vez de amor – puro, espontâneo, leve e solto –, ele faz guerra.

– Como assim, guerra?

– Guerra para atormentar ex-mulher, ex-marido, vizinho, desconhecido; guerra para atanazar protestante, budista, católico, umbandista; guerra para irritar esquerda, direita, centro; guerra contra a felicidade alheia; guerra contra tudo o que é democrático, a exemplo do amor. Guerra contra o que lhe parece contra!

– Fazer amor por fazer é subversivo aos olhos de Deus, da Pátria e da Família (escrivão, favor consignar Deus, Pátria e Família com letras iniciais maiúsculas).

 – Não perante Florbela Espanca, que defende “amar só por amar” em vez de odiar só por odiar. A propósito, como diria José Régio, “Eu amo o Longe e a Miragem,/ Amo os abismos, as torrentes, os desertos…”. Nada contra quem ama “o que é fácil”, embora o amor belo, recatado e do lar não seja o espírito de Coríntios 13: 1-13.

– Coríntios 13: 1-13? O senhor zomba das Sagradas Escrituras (escrivão, Sagradas Escrituras com iniciais maiúsculas, por favor).

– De nada adianta falar a língua dos homens e até a língua dos anjos, conhecer mistérios, dominar ciências, distribuir falsa caridade, sem a capacidade de amar perdidamente o próximo e o distante, pois o amor é um dom que, em sua plenitude, supera a fé e a esperança.

– Melhor o senhor se aconselhar com a sua advogada antes de prosseguir nesse raciocínio profano e subversivo…

– Não vou precisar. O senhor mesmo exigiu-me a fala franca como condição de prosseguir com o interrogatório.

– Precisar, verbo transitivo direto ou indireto?

– Interprete como quiser, o juiz aqui é o senhor, embora eu deva dizer, “com a máxima vênia”, da intransitividade que…

– Respeito à Justiça! Chega de blasfêmias e ironias!

– Desculpa! Quis apenas ressair que a justiça deve se preocupar também – e ainda mais – com os que precisam de Justiça, muito acima, parodiando famoso jurisconsulto de minha terra, das abstrações da lei adormecida “na frialdade inorgânica da celulose, o papel”. Essa lei, excelência, jamais será exata porquanto interpretada por homens, que, por último, desde a Suprema Corte, passam a decidir maquinalmente pelo livre convencimento da inteligência artificial. Deram-lhe até nome: Maria!

– Eu decido com base no livre convencimento motivado, conforme a legislação me faculta, e escrevo minhas próprias decisões.

– Tudo bem, “Doutor”! Meu convencimento também é motivado. E meu motivo é a poesia, o verso que atravessa a alma e liberta a carne viva e pulsante de quem ama porque ama. Ou isso seria um livre convencimento imotivado, já que não preciso de motivo algum para fazer amor com quem me deseja e a quem desejo?

– Legalmente…

– Do ponto de vista legal, só posso dizer que sou camonianamente indefeso contra o tal “fogo que arde sem se ver”, contra a tal “dor que desatina sem doer”, contra o tal “querer estar preso por vontade”; embora drummondianamente consciente das “sem-razões do amor” e de seu parentesco de quarto grau com a morte, que o vence e por ele é vencida a todo o tempo.

– A medida do amor desmedido pode ser a dor constante da perda…

– Provavelmente. Contudo, sopesando os prós e os contras, convenço-me de que é melhor sofrer por amor do que se regozijar no ódio. Em outros termos, melhor ser passarinheiro e gostar de passarinhar, na voz de Roberta Sá, com a licença de Dudu Nobre e Roque Ferreira, do que cair nas armadilhas das desafeições.

– Que vergonha, seu Augusto! O senhor, um homem velho…

– Interrompo, respeitosamente, antes de que a Excelência cometa a gafe de antecipar o veredicto, não obstante vossa inquestionável proximidade com certa República de Curitiba. E, se me permite, acrescento, mais uma vez fundamentado em Drummond, que “amar se aprende amando” e que o “amor é grande e cabe/ no breve espaço de beijar”. De cada amor que se encanta o poeta, nasce uma rosa, um verso e, quem sabe, um quadro de Laércio Eugênio ou de Túlio Ratto.

– E os grandes e verdadeiros amores onde ficam?

– Grandes e verdadeiros? E todos não são assim? Olha, senhor juiz, já percorri tantas vezes o inferno e o purgatório para alcançar Beatriz e continuo descendo ao mundo dos mortos para resgatar Eurídice sempre que ela me chama.

– E esse esforço vale a pena?

– Sempre vale a pena. Sempre! Pois a recompensa é o paraíso perdido que se encontra e volta a se perder em si. Nesse exercício, aprendi que todos os amores são grandes, excelência, mesmo os que se consumam “no breve espaço de beijar” ou, transgredindo o bom mineiro, no breve espaço de um orgasmo.

– O senhor tem algo a acrescentar?

– Sim! Sem anistia! Sem anistia para os que atentaram contra o estado democrático de amar, com a arma – anagrama ilícito de amar – mais abjeta dos fascistas: o ódio à soberania dos que amam a liberdade.

– Ministério Público, perguntas?

– Satisfeito, excelência.

– Advogada Clarisse Tavares, perguntas?

– Sem perguntas, excelência. A defesa está posta.

– Partes intimadas em audiência para alegações finais sucessivas, por memoriais. O réu continuará preso cautelarmente, com respaldo na proteção da ordem pública, aguardando pela sentença. Audiência encerrada.

Cid Augusto é jornalista, advogado, professor, poeta e escritor

Livro trata sobre humor e jornalismo com chargistas potiguares

Livro será lançado dia 3 de junho na UFRN (Reprodução do BCS)
Livro será lançado dia 3 de junho na UFRN (Reprodução do BCS)

Por Minervino Wanderley (do blog Pense!)

Um lançamento de livro que articula vários eventos num único dia: uma exposição de charges e uma mesa-redonda com quatro chargistas, além da tradicional sessão de autógrafos. Assim está programado o lançamento de “Ilustríssimo Jornalismo: a notícia em desenho satírico e o Cartão Amarelo”, mais novo livro da escritora, pesquisadora e poeta Josimey Costa livro na terça-feira, 03/06/2025, 18h30h, no Auditório do Laboratório de Comunicação do Departamento de Comunicação Social – Campus da Universidade Federal do RN (UFRN).

O livro é composto de textos e imagens e apresenta os resultados de uma pesquisa que começou em 1983 com um estudo de caso sobre a coluna de charges Cartão Amarelo, publicada diariamente por 30 anos em dois jornais do Rio Grande do Norte. Traz amostras da coluna e uma entrevista com seu idealizador e roteirista, Everaldo Lopes, jornalista setorista de Esportes e escritor, falecido em 2018.

Um dos maiores ícones do humor gráfico nacional, Henrique de Souza Filho, o Henfil, também está no livro, numa entrevista feita ainda no ano de 1983 e nunca divulgada.

A pesquisa foi acrescida por entrevistas com autores/chargistas atualmente em atividade no Rio Grande do Norte, em São Paulo e na Espanha.

Foram entrevistados os chargistas Cláudio de Oliveira, Ivan Cabral, Túlio Ratto e Brum. Solino de Souza, hoje advogado e um dos autores do antigo jornal satírico potiguar O chafurdo, cedeu para o livro a última edição, até então inédita.

Tem destaque também a entrevista com Igor Fernández, editor da revista satírica espanhola El Jueves,
uma das mais antigas da Europa.

No livro, Josimey Costa diz que o humor gráfico jornalístico na forma de charges, cartuns e caricaturas tem a função de denunciar os problemas sociais e criticar o poder, incomodando os acomodados de modo criativo, o que inclui o próprio público como alvo dessas provocações.

Mas como uma ilustração pode informar fazendo, ao mesmo tempo, humor? E como o humor se transforma em crítica? A escritora busca respostas para estas e outras perguntas ao longo do livro.

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A resistência de Mossoró numa obra impressionista de Túlio Ratto

Reprodução do BCS
Reprodução do BCS

A obra “1927”, de Túlio Ratto, é uma densa pintura impressionista em óleo sobre tecido, medindo 160 x 100 cm. Esse trabalho destaca a trincheira mossoroense durante o ataque do bando de Lampião, capturando com maestria a tensão e a resistência daquele momento histórico.

As pinceladas expressivas e o uso vibrante das cores conferem vida à cena, transmitindo tanto o caos do confronto quanto a determinação dos defensores de Mossoró.

O estilo de Ratto revela uma atmosfera vívida, onde luz e movimento se entrelaçam para contar uma história de coragem e resistência do dia 13 de junho de 1927, em Mossoró.

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O humor sério da Papangu na Rede está no ar

Capa da revista (Reprodução do BCS)
Capa da revista (Reprodução do BCS)

Respeitável público… está no ar a edição 48 da revista Papangu na Rede. Cá para nós e o povo da rua: humor é coisa séria.

Com a editoria sob a batuta do chargista/caricaturista Túlio Ratto, a revista tem participação de nomes como Clauder Arcanjo, Alex Gurgel, Brito e Silva, Erasmo Carlos, Clarisse Tavares, Ana Paula Cadengue, Natália Chagas, Cefas Carvalho, Sulla Mino, Paiva Rebouças e Marco Túllio.

Conto, crônicas, artigos, poesia, colunas de notas em geral e reportagem especial fazem parte dessa edição.

Clique AQUI e comece essa viagem.

Um “Jumento” no Vaticano

Por Carlos Santos

Reprodução de quadro com charge e crônica
Reprodução de quadro com charge e crônica

O professor, advogado e ex-vereador mossoroense Tomaz Neto passeia pelas “Oropas”, com prioridade para visita ao Vaticano.

Ao lado de sua mulher, a professora Ceição, faz a segunda viagem internacional da vida.

Na primeira aos Estados Unidos, há alguns anos, foi apresentado ao WhatsApp e chamadas de vídeo por esse aplicativo. Os amigos sofreram bastante com essa descoberta científica dele.

Agora, creio, venha da Basílica de São Pedro com o domínio do Direito Canônico, amigo do Papa Francisco e alguma encíclica para pacificar o Brasil.

Tomaz, que a todo interlocutor trata carinhosamente por “Jumento”, ainda poderá contar em sua volta a Mossoró, que pela primeira vez um “animal” nordestino atravessou o oceano para receber a bênção papal.

O Jumento é nosso irmão!

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos

*Crônica originalmente publicada no dia 22 de outubro de 2022 (veja AQUI)

Nota do Blog Carlos Santos – O ex-vereador Tomaz Neto completou 70 anos essa semana e o presenteamos com  quadro espelhando charge constante desta crônica e o próprio texto, em trabalho do chargista, artista plástico e caricaturista Túlio Ratto. Saudação a uma amizade de mais de 35 anos de estrada, que sobreviveu ao tempo, às diferenças, conflitos de interesses e ao nosso temperamento por vezes trovejante.

Saúde, paz e juízo (se ainda for possível), Velho.

‘Atalho’ rodoviário entre Natal e Mossoró testa paciência de motoristas

O vídeo nesta postagem é do chargista, caricaturista e artista plástico Túlio Ratto, feito à tarde dessa sexta-feira (12), trecho da BR-406, perto de Guamaré.

Uma carreta sofreu acidente na pista e comprometeu trajeto de veículos entre Natal e Mossoró, via alternativa criada enquanto a BR-304 ganha ‘atalho.’ O engarrafamento foi inevitável, testando paciência de motoristas.

Paciência, paciência. A 304 foi obstruída há poucos dias (veja AQUI) nos km 204 e 206, entre Lajes e Caiçara do Rio do Vento, devido enxurrada. que até uma ponte destruiu.

Ô luta medonha!

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Caiu na rede é Papangu

Tulio-Ratto.jpg4_A revista Papangu na Rede – veja AQUI – completa 20 anos neste finalzinho de mês.

A publicação que nasceu num corpo impresso, depois se convertendo em página virtual, foi concebida pelo cartunista, chargista e artista plástico Túlio Ratto, ao lado da jornalista Ana Cadengue.

A Papangu nasceu para ser guache, pintando o sete por aí. Do corpo no impresso à nova existência virtual, um pulo. Fico feliz em ter dado uma gotinha de contribuição às cores desse projeto, que nasceu para botar para correr a mediocridade, a passividade e a desinteligência.

Nesse reisado, a gente se empanzina de alegria, saudando quem merece.

Ave, Papangu!

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Quando a casa cai

Por Marcos Ferreira

Ilustração Web
Ilustração Dreamstime Web

Existem certos golpes que nós sofremos e precisamos de muitos anos para assimilar. Passamos por céus e terras, terremotos e vendavais psicológicos, até conseguirmos (se pudermos) seguir em frente. Nesse ínterim, como às vezes ocorre, o mercurocromo do tempo cuida de cicatrizar as feridas do coração e do espírito. Aí o sujeito toma fôlego, retorna à superfície e encara a correnteza da vida.

Mas nem todo mundo consegue cruzar o rio enfestado de crocodilos e chegar ileso à outra margem. Alguns cansam, ficam no meio do caminho, e são devorados pelos répteis.

Essas metáforas todas são para recordarmos do quanto somos (há exceções) pequenos e falíveis. Pois da noite para o dia, de uma hora para outra, num momento em que julgamos desfrutar de plena saúde, poder e riqueza, súbito nos damos conta de que tudo isso ruiu e o céu desabou sobre as nossas cabeças.

Vivenciamos coisas terríveis, incontornáveis, das quais nunca conseguimos nos recuperar. Por mais que tentemos nos reerguer ou nos iludir com a autossugestão de que batemos a poeira e demos a volta por cima, os traumas e sequelas ficarão para sempre e jamais seremos os mesmos. Como afirmou o ator e filantropo americano Robin Williams, ganhador, entre tantas outras premiações, de um Oscar: “Ninguém finge que está com depressão. As pessoas fingem que estão bem”.

Williams cometeu suicídio em agosto de 2014, aos sessenta e seis anos. Sofria de depressão, ansiedade e foi diagnosticado com mal de Parkinson. Ainda há indivíduos que dizem que isso é malandragem, besteira, frescura.

Um sem-número dos melhores psiquiatras e psicólogos fazem uso da mais avançada psicologia e de um arsenal de medicamentos poderosos, no entanto, às vezes, esse conjunto de ciência e aconselhamentos finda derrotado por uma única mente atormentada. Não importa que o céu esteja azul e propício para um banho de mar, que os pássaros cantem lindamente, que o Sol brilhe, que nasça e se ponha todo santo dia, que as estrelas e a Lua ainda sejam uma fonte inesgotável de poesia. Embalde. Chega um dia em que vemos que a casinha do nosso amor-próprio caiu.

Antes que a casa de nossa alma caia, é preciso tomar algumas providências cruciais: fortalecer nossas fundações psíquicas, tirar o salitre do coração, pintar tudo de branco, exceto as portas e janelas, que podem ficar agradáveis na cor azul.

Se houver sótão ou porão, afugentar os fantasmas com pinturas de Laércio Eugênio, Túlio Ratto e Airton Cilon. Não esquecer de extinguir os cupins do pessimismo que danificam a madeira que sustém o teto do nosso bom humor. Recomenda-se também colocar um arco-íris em nossa moringa, como naquela canção do Paulo Diniz.

Existe a possibilidade de que nada dê certo, que nademos bravamente e morramos na praia. Contudo, reunindo as últimas fibras do nosso instinto de autopreservação, quem sabe possamos nos agigantar diante da morte e mandá-la para os quintos. Aí será possível reaprendermos que viver sempre valerá a pena.

Marcos Ferreira é escritor

Clube do Cafezinho

Por Marcos Ferreira

Esta semana precisei ir ao banco. Parei diante da porta giratória e dentro de uma caixa em acrílico (creio que fosse em acrílico) larguei alguns pertences que trazia comigo. Eram nada mais que um celular, as chaves de minha casa e algumas moedas embaladas numa fita adesiva transparente. Apenas depois disso foi que a desconfiada porta autorizou o meu ingresso naquele típico reduto do capital.

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Peguei uma ficha no porteiro eletrônico e, a seguir, tomei uma maçada de quase hora e meia até meu número ser chamado no monitor de televisão afixado no alto de uma parede. Nem sei dizer se toda aquela espera valeu a pena, pois o motivo de eu estar ali era um só: receber um novo cartão do Banco do Brasil. O outro estava vencido e com uma rachadura. Então, para obter esse objeto de importância nenhuma no tocante a dinheiro em caixa, lá estava eu, um cidadão ordinário e igualmente desimportante com uma merreca de setenta e quatro reais na conta-corrente.

Deixei a agência da Alberto Maranhão convicto do quanto o meu viver é uma espécie de zero à esquerda. Hoje me permitam estar assim, melodramático. É uma espécie de trejeito, um cacoete. Imagino que não se trate de vitimismo ou autocomiseração. Como se alguém houvesse perguntado, digo também que no próximo dia 10 de abril (peço que isto fique somente entre nós) completarei cinquenta e três anos de idade. Até o momento, para lhes ser franco, não me tornei outra coisa à exceção de um homem de letras sem relevo nesta terra e menos ainda por aí afora.

O que possuo de valor, outra vez sendo honesto comigo e com um bocado de gente bacana, não é muita coisa material, mas amigos que me têm honrado com sua amizade e consideração gratuitas. Alguns são de longa data, desde 1912, como Antonio Alvino, outros se achegaram não faz muito tempo. Talvez devido à minha súbita mudança de açougueiro do verbo para cronista dominical. Então, feito um sonâmbulo, eu caminhava devagar pela Avenida Alberto Maranhão, escolhendo os passos nas calçadas irregulares desta cidade, pensando à toa numa coisa e noutra.

Meti a mão no bolso, peguei o telefone e consultei as horas: 16:05. Com a mixaria no banco e aquelas moedinhas, cogitei entrar num café e pedir uma xícara da rubiácea. Mas, num reflexo de bom senso, larguei tal ideia e rumei para outro endereço: o do meu próprio casulo, onde uma porção do velho e saboroso moca não desfalcaria o meu orçamento como certamente ocorreria no comércio.

Quem sabe num dia qualquer, acompanhado de cafezistas como Elias Epaminondas, Marcos Rebouças, Odemirton Filho, Rocha Neto, Antonio Railton, Clauder Arcanjo, Carlos Santos, todos esses notórios apreciadores do líquido citado, sentemos para tomar essa bebidinha quente e odorífica. Por onde andarão Mário Gaudêncio, Ayala Gurgel, José Arimatéia, Francisco Amaral Campina, Túlio Ratto?… Estarei feliz ao redor dessas pessoas. Ontem mesmo, antes que eu me esqueça, recebi a visita do Dr. Marconi Amorim. E, evidentemente, tomamos mais um cafezinho.

Marconi veio conferir como ficou esta nova morada da Euclides Deocleciano, 32, fruto, em grande parte, do apoio de amigos. Claro que esta crônica não deveria ser tristonha, como se vê de modo predominante, todavia alguns ímpetos depressivos ainda me acometem, morbidez que combato seguindo as prescrições do Dr. Dirceu Lopes. Então, geralmente devido ao meu estado psíquico, às vezes esqueço do quanto a vida é maravilhosa e este mundo não é tão ruim quanto parece.

Portanto, às quatro e pouco da tarde, lá ia eu um tanto sem rumo, decerto em busca de algum amigo com o qual não havia agendado me encontrar. Realmente não encontrei ninguém, nenhum dos meus colegas batendo pernas.

Entrei no meu lar, tomei um banho, fiz café e bebi uma xícara sozinho. Após uns minutos o telefone tocou. Era o poeta Rogério Dias. Trocamos umas ideias através da invenção de Graham Bell e combinamos em ele vir aqui na próxima semana. Trará os seus apetrechos culinários para produzir algumas de suas boas e famosas tapiocas recheadas. De minha parte ficarei encarregado do café.

No fim das contas, dando o braço a torcer, reconheço que esta tarde não foi nada infecunda. Vez por outra, cheio de caraminholas, é o meu quengo que inventa as penas em que vivo, como no belo soneto de Olavo Bilac.

Marcos Ferreira é escritor

Boêmio sem boemia

Por Marcos Ferreira

Nunca fui de fato um boêmio. Não ao menos por natureza. Embora tenha ido a certos lugares etílicos por um determinado tempo. Isto em companhia dos notívagos Caio César Muniz, Túlio Ratto e Cid Augusto. Eu frequentava os bares e alguns outros endereços onde se adquiria bebida alcoólica, no entanto nunca passei de uma garrafinha ou duas de refrigerante.

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Hoje, por respeito à saúde, não bebo nem mais isso. Só uma vez por ano sucumbo à tentação de uma KS geladinha.

Há outras coisas que mudaram. Refém da Netflix, costumo assistir a vários filmes. O mais recente que vi foi “O Pálido Olho Azul”, longa-metragem bem-bolado que destaca a vida do poeta americano Edgard Allan Poe. Há poucos dias, a propósito, essa película ganhou uma bela resenha de Cid Augusto. Então, quanto a “O Pálido Olho Azul”, depois da resenha de Cid, não tenho mais nada a declarar.

Com o tempo, em especial quando a literatura “se fez mais forte/ mais sentida”, como na canção do Peninha, tornei-me recluso. Durante determinada parte do dia, embora não seja aposentado, eu me dedico ao exercício da palavra escrita, feito agora acontece. À noite, para descontrair, armo uma rede e vou me entreter com a sétima arte. A essa altura, porém, já tenho tomado meu arsenal de remedinhos e aí acontece de eu deixar cerca da metade das cenas para a noite seguinte.

É isto. Não mais me sinto confortável ou à vontade nesses espaços muitas vezes barulhentos, com música ao vivo e pessoas falando alto ao mesmo tempo. É por essas e por outras razões que não boto meus pés na praia de Tibau nessa época do ano. Um empresário ricaço deste município chegou a me oferecer duzentos mil reais para que eu passasse o final de semana em Tibau, porém recusei.

Como dizia Camões: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Além de não mais ir a bares, lugares que se encontram cheios de homens vazios, segundo afirmou Vinicius de Moraes, habituei-me a viver só e a ter uma vida social mínima, com um pequeno número de amigos de fato verdadeiros.

Com isto não pretendo dizer que as pessoas que frequentam os referidos bares sejam inferiores ou vazias. Não. Tal frase, a meu ver, não passa de uma boutade do autor de “Pátria Minha”.

No momento, para que ninguém diga que veio a esta casa e não bebeu coisa nenhuma, tenho a oferecer um bom café numa residência novinha. Como a obra está nos acabamentos, não entrarei em detalhes. Mas Carlos Santos e Elias Epaminondas já cantaram a bola e disseram que devemos (regado a café) promover um sarau para inaugurarmos a casa.

Concordo e todos serão bem-vindos.

Marcos Ferreira é escritor

“Paisagem Potiguar”, passeio deslumbrante em cores e sentimentos

Areia Branca retratada na arte de Túlio Ratto (Reprodução do Canal BCS)
Areia Branca retratada na arte de Túlio Ratto (Reprodução do Canal BCS)

Chargista, caricaturista, ilustrador, o irrequieto Túlio Ratto amplia sua arte e desenvolve projeto artístico-cultural que retrata em quadros panoramas de cada município do Rio Grande do Norte. Desenvolvido desde dezembro de 2021, o “Paisagem Potiguar” se propõe a mostrar num lance de olhar mais que uma extensão de território, mas também os elementos sociais que compõem a compreensão do espaço a partir de um recorte específico.

“O isolamento da pandemia me possibilitou uma dedicação às artes plásticas e à pintura em diversas técnicas. Quando comecei a pintar paisagens, surgiu a ideia do projeto e de retratar cada município do estado”, conta Túlio.

Com cerca de 100 prefeituras já aderindo ao projeto, o “Paisagem Potiguar” repassa ao município uma tela de 1m x 0,80cm pintada a óleo com uma imagem característica ou representativa do local. Além disso, as imagens também são disponibilizadas na Internet junto com um pequeno perfil das cidades, escritos pela jornalista Ana Paula Cadengue, que em breve podem ser conferidos no site www.paisagempotiguar.com.br.

Ceará-Mirim, na visão detalhista do pintor multifacetado (Reprodução do Canal BCS)
Ceará-Mirim, na visão detalhista do pintor multifacetado (Reprodução do Canal BCS)
A cidade oestana de Patu nas cores vivas do pintor (Reprodução do Canal BCS)
A cidade oestana de Patu nas cores vivas da tela de Túlio Ratto (Reprodução do Canal BCS)
Caicó de tantas tradições, de Sant'anna, também é retratada (Reprodução: Canal BCS)
Caicó de tantas tradições, de Sant’Ana, também é retratada (Reprodução do Canal BCS)
Pau dos Ferros, a "Princesinha do Oeste", está eternizada no pincel de Ratto (Reprodução do Canal BCS)
Pau dos Ferros, a “Princesinha do Oeste”, é um dos focos do pincel de Ratto (Reprodução do Canal BCS)

Mas, o projeto “Paisagem Potiguar” vai além dos quadros e pretende, adiante, se transformar também em livro.  “Todo o material será compilado em livro, resultando num recorte que mostrará às gerações futuras a história e o desenvolvimento de cada lugar, interação entre a sociedade e sua paisagem, servindo como fonte de pesquisa e referência”, detalha Túlio Ratto.

Sobre o artista 

Pintor, desenhista, chargista, caricaturista, ilustrador e editor da Revista Papangu e do site Papangu na Rede, o mossoroense Túlio Ratto transita com sucesso nas artes visuais há mais de 20 anos.

Nota do Canal BCS – Deslumbrante! Cada lugar retratado está perpetuado não apenas numa moldura, mas em sentimento, apego, pertencimento, na autoestima que o artista fomenta com sua arte. Repetindo: Deslumbrante!

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Artistas criam estandartes para homenagem à padroeira

Um projeto de arte e fé homenageia Santa Luzia, a padroeira de Mossoró. Idealizado pela Sociedade Amigos da Pinacoteca Potiguar, o ‘Viva Santa Luzia’ convocou os artistas de Mossoró e de outras cidades para criarem estandartes artísticos representando diferentes olhares sobre a santa protetora dos olhos. As obras serão apresentadas nesta terça-feira (29) às 9h na Catedral de Santa Luzia. O objetivo do projeto, que conta com a parceria da paróquia, é incrementar as festividades e movimentar o segmento das artes visuais.

Kelly Lira é uma artista com trabalho à exposição (Foto: Divulgação)
Kelly Lira é uma artista com trabalho à exposição (Foto: Divulgação)

As obras serão recepcionadas pelo padre Flávio Melo e o bispo Dom Mariano. Logo após será aberta a exposição dos estandartes na Catedral, que ficarão expostos até dia 1º de dezembro. Na abertura da Festa de Santa Luzia, dia 1º de dezembro, haverá o cortejo das peças até o altar.

A partir do dia 02/12 as obras ficarão expostas no Coração de Jesus. Dia 13 de dezembro, os estandartes vão integrar a procissão conduzida por jovens do Segue-Me. Segundo a coordenadora do projeto, Liana Duarte, a Sociedade Amigos da Pinacoteca fará uma programação dos estandartes pelas paróquias da cidade.

Integram o projeto os artistas Careca, Ângela Almeida, Ney Morais, Marcelo Morais, Iaperi Araújo, Paulo Pedrosa, Kelly Lira, Isaías Medeiros, Tulio Ratto, Laércio Eugênio Marcelo Amarelo, Rogério Dias, Eduardo Falcão, Maria Luíza Neo, Luzia Moura e Carolina Veríssimo, Naide Bessa, Maria Emilia Queiroz, Kátia Fleischmann, Clarissa Torres.

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“Mossoroando” mostra a cultura efervescente em Mossoró

Está no ar a revista Mossoroando. O neologismo parte do seu editor, o chargista, artista plástico e caricaturista Túlio Ratto. O trabalho é uma obra de arte no passeio pelo conhecimento e compreensão sobre arte, cultura, história, a partir de Mossoró.

Veja o que ele diz no seu editorial da publicação que tem 34 páginas:

Mossoroando é uma revista documental feita com muito zelo por seus autores (Reprodução Canal BCS)
Mossoroando é uma revista documental feita com muito zelo por seus autores (Reprodução Canal BCS)

Enaltecer a nossa cultura e quem a produz. Esse é o nosso objetivo. Para mostrar um pouco do que Mossoró tem a oferecer, a revista Mossoroando, com o patrocínio da Lei Aldir Blanc e Prefeitura de Mossoró, conversou com artistas e jornalistas sobre a produção cultural da terra de Santa Luzia.

Como a princípio gostaríamos também de mostrar como o natalense percebe a cultura local, fomos surpreendidos com a recusa de muita gente em se pronunciar sobre o assunto. A desculpa mais utilizada foi o desconhecimento. Algumas pessoas de Mossoró também se negaram a emitir opinião sobre o assunto para não ferir suscetibilidades ou ainda por reconhecer que só consumia os grandes eventos da cidade.

O isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19 nos dois últimos anos é um fator importante nesse “esquecimento” ou afastamento de eventos culturais e de lazer. Mesmo assim, e até por isso, a Mossoroando está aqui e tenta trazer até o leitor a opinião de algumas pessoas que produzem e consomem cultura.

Trazemos também uma panorâmica sobre Mossoró, seus eventos históricos transformados em espetáculos, uma mostra dos mossoroenses no panteão dos imortais da Academia Norte-riograndense de Letras e destacamos o que é destaque por onde passa: o poeta Antônio Francisco e seu orgulho em ser de Mossoró. Um orgulho que dividimos.

Veja na íntegra a Mossoroando clicando AQUI. Um primor, que também traz textos e fotografias da jornalista Ana Cadengue, filha do meu saudoso amigo jornalista Rogério Cadengue, ícone da imprensa potiguar.

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Querido Texto…

Por Marcos Ferreira

Bom dia, querido Texto. Ou boa tarde ou boa noite, a depender do momento em que você se faça presente ao longo destas páginas.

Aqui estamos, mais uma vez, neste encontro ameno e silencioso. E é sempre assim, você comigo e eu com você, sujeito às suas conveniências. Escrevo, porém, com o mesmo carinho, com renovada alegria e prazer. Exatamente, querido. Toda vez é uma grande satisfação colocar-me diante deste velho notebook, sentado a esta escrivaninha já bamba, e estabelecer contigo este diálogo. Jamais um solilóquio. Porque sei que da sua parte, com as suas particularidades, interagimos.

Como percebe, hoje amanheci coberto de lirismo. Sinto a alma leve. Estou de bem com a vida, aqui tomando o meu cafezinho escoteiro e ouvindo a passarada trinando na copa da mangueira, no quintal da residência aos fundos da minha. É uma beleza essa trilha sonora. Isso ocorre, sobretudo, cedinho.escrita, texto, escrever, diálogo,

Nessas ocasiões sequer aciono a playlist com oito horas de blues. Dou preferência à maviosa e diversa música dos cantores alados. Sei que isso não é novidade, recordo que falei sobre esses artistas outro dia. No entanto, como costumo dizer, não faz mal recordar o que faz bem. Ao menos a mim, que desafino até batendo palmas, a música propicia um lenitivo, um bem-estar indescritível.

Então, querido Texto, ouçamos mais o que nos têm a dizer os passarinhos. Quanta poesia existe em suas vozes polifônicas! É um privilégio poder ouvi-los, “mal rompe a manhã”, como no verso de Drummond. Quisera eu ter maior engenho, um tanto mais de poeticidade na escrita para homenageá-los.

Há ainda o farfalhar dos ramos da grande árvore, expostos ao sabor do vento. Isso, de repente, lembra-me “as folhas de coqueiro amareladas pelo tempo” aqui e acolá referidas pelo cronista Inácio Augusto de Almeida, visão de que usufrui deitado em sua cama, através da janela do quarto. Inácio, não nos enganemos, é um enfeitiçador de palavras. Possui o que contar e faz isso com qualidade.

— Canta, canta, passarinhos — murmuro aqui, como se eles fossem capazes de ouvir e de entender o que eu digo. Não é, Bilac?

Após um bocejo leonino, tomo mais um gole da rubiácea. Estalo os dedos, conserto os óculos no alto do nariz, e me aprumo na cadeira giratória. Penso em soltar o blues, porém o trinado do passaredo continua em alto e bom som. Gudãozinho, minha grácil e trêfega gatinha, aninha-se aos meus pés.

— Oi, Gudãozinho? — converso com ela, como de costume. Isso ocorre o dia todo. Ela ronrona, comprime os olhos azuis. Adora deitar-se sobre meus chinelos. Arranha de leve meu pé esquerdo, ameaça mordiscar-me o tornozelo. É brincalhona à beça. Mas só comigo. Quando recebo alguém, ela foge, vai se esconder no banheiro, atrás do vaso sanitário. Fica lá encolhida até a visita ir embora.

— Quer seu sachê? — aí ela arregala os olhos.

Permita-me uma digressão, ou um parêntese.

Imagine você, querido Texto, o estado em que Gudãozinho me apareceu. Certa manhã, quando abri o portão para colocar um saco de lixo na calçada, era dia de coleta, notei aquele vulto branco invadindo o quintal. “Um gato!”, concluí imediatamente. Larguei o saco e voltei para expulsar o suposto invasor.

Coisa nenhuma. Ao me inteirar da situação da felina, não tive coragem de jogá-la de volta na rua. Quando me aproximei, Gudãozinho correu para o fundo do muro. De tão fraca, entretanto, ela tropeçou nas próprias pernas e caiu. Não mais se ergueu, abdicou da fuga. Encontrava-se às vascas da morte. Era tão somente pele e ossos. Consegui uma xícara de ração com uma vizinha e dei à gata.

Estimei que tivesse uns três meses de idade. Comeu deitada, as patas dianteiras sob o colo. Não conseguia ficar de pé. Adotei Gudãozinho, que é felpuda e branquinha. Então apliquei essa corruptela à palavra algodão. Era abril. Daí para cá Gudãozinho dobrou de peso e, agora, esbanja saúde e boniteza.

Bom, fechemos o parêntese, retomemos a pauta. Penso em você, querido Texto, a cada palavra inserida nesta crônica adocicada. Sim. Um pouco de doçura não faz mal. Vivemos tempos tão amargos, nefastos. Viu aquele bizarro desfile bélico em Brasília? Pois é. Que ridículo! Felizmente, sempre combativo, temos aqui um François Silvestre, que já entra dando uma voadora nesses fascistas.

Basta! Não quero (por higiene mental) discorrer acerca de política. Não pelo menos nesta crônica, que desejo oferecer exclusivamente a você, meu querido Texto. Que estas páginas, ao fim e ao cabo, adquiram algum brilho, exibam algo de belo, quem sabe como os lindos olhos azuis de Gudãozinho.

— Não é, Gudãozinho? — ela nem liga.

Repito, com alguma variação, o que falei ao meu editor Carlos Santos e à amiga Rozilene Ferreira da Costa: você, querido Texto, dignifica estas publicações dominicais. As pessoas (leitores) me vêm saudando, parabenizando por nossa parceria. Isso tem feito valer a pena cada minuto, cada hora que dedico a esta sadia relação; eu que passei longos quinze anos sem publicar em periódicos.

Portanto, querido Texto, tenho recebido muitos incentivos de leitores também queridos e gentis. Vem-me à lembrança a amiga Cristiane dos Reis, que domingo passado me brindou com este gratificante comentário: “Por favor, não ouse me deixar sem crônica no café da manhã. Já estou acostumada”.

Como posso não me inspirar com essas pessoas? Daí a pouco surge alguém do quilate de um João Bezerra de Castro, autor de Pegadinhas da Língua Portuguesa, rica obra publicada em três volumes, e declara isto:

“Com o texto ‘Hoje não tem crônica’ o autor esbanjou talento e nos encantou. Sem dúvida, é um craque do gênero crônica. Estou na fila aguardando o livro com todas as crônicas já publicadas porque, pela excelente qualidade, precisam ficar registradas na história da Literatura Brasileira”. Obrigado, João.

Nesse exato domingo, no espaço do leitor, Luiza Maria escreveu a certa altura: “Alguns clientes batiam na mesa para chamar minha atenção para poder pagar… eu estava totalmente enfeitiçada… e esse mesmo feitiço se repete toda vez que leio Marcos Ferreira. Continuo encantada!” Gratíssimo, Luiza.

Desculpe se, porventura, exibir tais vozes lhe parece cabotinismo. Não é cabotinismo, tão só orgulho. Orgulho de ser lido, entre outros, por um Odemirton Filho, um Marcos Rebouças, uma Vanda Jacinto, um Rocha Neto, uma Simone Martins, um Aluísio Barros, uma Rizeuda da Silva, um Jessé Alexandria, um Airton Cilon, um Marcos Aurélio, um Fabiano Souza, um Marconi Amorim.

Gente de lugares diversos. Daqui: Mário Gaudêncio, Francisco Nolasco, Zilene Medeiros, Elias Epaminondas, Vanda Maia, Misherlany Gouthier… De fora, uns mais longe, outros menos: Túlio Ratto (Natal); Clauder Arcanjo (Fortaleza), e Alcimar Jales (Rio). Sinto-me honrado com a leitura de todos.

— Esqueci-me de alguém, Gudãozinho?

Mirando meus olhos, ela balança a cabeça afirmativamente. Bom, fiquemos por aqui. Receba o meu abraço, querido Texto. Aproveito para erguer um brinde com café a este nosso antigo e prazeroso convívio. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

Meu ópio negro

Café na xícaraPor Marcos Ferreira

Ela poderia, em se tratando de outro indivíduo, ter ofertado um litro de uísque escocês, por exemplo. Quem sabe uma garrafa de vinho espanhol. Ou, no caso de um tabagista esnobe, ostentoso, uma caixa de charutos cubanos. Chique, não é?! Pois há pessoas, inclusive entre aquelas que compõem a fauna dos literatos, que apreciam artigos ou mimos dessa natureza e origem.

Eu, porém, sem finesse, fidalguia nem pedigree, não tolero nenhuma das opções referidas. Daí que me senti deveras feliz na manhã de ontem ao ser presenteado com um simples pacote de café. Sim. Um pacote desses de duzentos e cinquenta gramas, de cuja linha e fabricante não farei propaganda.

Estamos passando aí. Tenho um presentinho para você — disse-me, por telefone, a leitora e amiga Natália Amorim, esposa do também leitor e amigo José Arimatéia. Pouco após, em companhia dos pequenos Daniel e Joaquim, o casal parou o carro diante da minha casa, todos usando máscara. Natália desceu e me entregou a sacola por cima do meu muro, que tem frente baixa.

— Obrigado — falei sem examinar a sacola. — É muita gentileza de vocês, contudo eu não imagino qual seja o motivo desse presente. Hoje não é meu aniversário, dia da poesia, do escritor nem nada parecido.

— Não carece data especial para presentearmos alguém — contestou ela. — Depois me diga se gostou. Tomara que sim.

— Claro! Eu farei isso em breve.

Então, de bom grado e acertando na mosca, foi um pacote de café que minha leitora Natália Amorim (sentiram o orgulho quando digo “minha leitora”?) me trouxe na manhã de ontem. Tratei de levar a preciosa rubiácea à cafeteira. O inconfundível aroma ocupou a casa toda, decerto alcançando as narinas dos vizinhos mais próximos, como acontece comigo quando eles fazem café.

Permitam-me agora uma rápida digressão. Pois bem. Quem me conhece sabe do meu horror, da minha absoluta repulsa a álcool e a fumo. Tenho as minhas razões, acreditem. Um tanto análogo ao álcool, brinco ao dizer que a bebida mais forte que eu já ingeri foi Biotônico Fontoura. Aquilo descia queimando. Ao menos para o meu paladar de “menino mole”, dizia a minha mãe.

Tomei outras panaceias dessa classe e época, como o Leite de Magnésia Phillips e a intragável Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau), todos nas suas apresentações e sabores tradicionais. No caso específico do Biotônico, para fazer uma piadinha com o álcool, eu chegava a ficar puxando fogo.

Naqueles tempos bicudos de minha infância, enquanto o general João Batista Figueiredo só sabia mandar o povo apertar o cinto, volta e meia os meus pais recorriam a esses polivitamínicos, no mais das vezes sem receita médica. Esta, entre outras manobras, era uma estratégia intuitiva para mitigar a desnutrição, que campeava feroz em meio ao crepúsculo dos anos de chumbo.

Gostávamos mesmo era do Poliplex, com sabor e consistência semelhantes ao mel. Mas este não era nada indicado para mim e meus dez irmãos, posto que se tratava, também, de um estimulante do apetite. E apetite, senhoras e senhores, tínhamos de sobra. Ou, como se diz, para dar e vender.

Encerremos esta digressão medicamentosa. Voltemos ao assunto do café: meu ópio negro. Quero registrar que esta não foi a primeira vez que uma leitora me brindou com esse tipo de presentinho saboroso. Não faz muito a fisioterapeuta Luzia Praxedes, pelas mãos do esposo e escritor Clauder Arcanjo, também me enviou essa bebida apreciada por onze entre cada dez brasileiros.

Desculpem mais esta gracinha. Estou bem-humorado, como devem ter percebido. Nos últimos dias, entretanto, tenho me visto às voltas com uma saudade recorrente dos amigos, das boas conversas em torno de uma mesa, regadas a café e a taças de água mineral com gás. Exato, prefiro com gás.

Vem-me à lembrança, a propósito, a saudosa Livraria Café & Cultura, que funcionou ao lado do Teatro Municipal. Era o nosso ponto de encontro. Ali brotaram e cresceram amizades que nutro até hoje.

Penso nesses amigos enquanto escrevo e saboreio uma caneca de café escoteiro, forte e amargo. Por onde andarão meus colegas de ópio negro, como Leandro Tomé, Cid Augusto, Elias Epaminondas, Jessé de Andrade Alexandria, Gustavo Luz, Francisco Nolasco, Túlio Ratto, Antônio Alvino, André Luís? A pandemia, entre outros desfalques, prejudicou esse grêmio da cafeína.

Quando daquelas visitas, antes do coronavírus, eu disponibilizava um potinho de demerara. Só não tenho aqui, para quem possua glicemia elevada, adoçantes dietéticos, cujo travo final me lembra a dipirona e acaba interferindo no sabor do café. Melhor (na minha opinião) tomar totalmente amargo.

— Assim não dá! — dizem alguns.

Isto é uma questão menos de gosto que de hábito. Mas tudo bem. Com açúcar, adoçante dietético ou de todo amargo, o café nos une de alguma forma. Talvez quem se depare com esta crônica cafeinada, embora se tratando de leitores que não conheço pessoalmente, sinta o desejo de qualquer dia sentarmos para uma conversa descontraída, à volta de uma mesa com xícaras e taças.

O que acha, Carlos Santos? Refiro-me àqueles leitores que conheço apenas por nome: Rocha Neto, Fransueldo Vieira de Araújo, Naide Rosado, João Bezerra de Castro, Raniele Alves Costa. Outros ignoro o segundo ou o primeiro nome, a exemplo desses três: Magno, Fernando e Amorim.

Toda vez que me ponho a escrever, conforme participei a Odemirton Filho domingo passado, penso nos meus leitores. Penso no dever e desafio de fazer valer a pena o tempo que me dedicam. Eis um privilégio: contar com leitores, por menor que seja o número. Os meus, se não são tantos, ao menos são preciosos. Porque a qualidade me interessa ainda mais que a quantidade.

Observo o quanto estamos em sintonia nos depoimentos que me endereçam. Ao escrever, portanto, assumo um compromisso especial com leitores e leitoras não menos especiais. Tenho a agradável sensação de que os recompenso. Assim como me sinto recompensado e honrando por suas leituras.

Pecando pelo excesso, cito mais estes nomes: Aluísio Barros, Cristiane dos Reis, Leontino Filho, Rozilene Costa, Rogério Dias, Vanda Jacinto, Francisco Amaral Campina, Simone Martins, Valdemar Siqueira, Rizeuda da Silva, Marcos Aurélio de Aquino, Natália Maia, Airton Cilon, Luíza Maria, Gualter Alencar, Zilene Marques, David Leite, Fábio Augusto e Misherlany Gouthier.

Chega de citações! Não descambemos para o colunismo literário, ou algo pior. São oito e cinco da manhã e o aroma do meu ópio negro trescala pela casa. Então ergo a caneca e lhes saúdo com o gesto característico.

Um brinde a todos com café. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

Caricatura – muito além dos defeitos, com Túlio Ratto

Oficina---arteEstão abertas inscrições para a Oficina de “Caricatura: muito além dos defeitos”, oferecida pelo chargista, cartunista e caricaturista Túlio Ratto. O projeto, contemplado pela Lei Aldir Blanc/RN, oferece vagas limitadas e terá aulas gravadas e encontros online.

Segundo Túlio, “mais do que um desenho de observação, a caricatura envolve a distorção, o humor e o psicológico de quem é desenhado. Seja para usar profissionalmente ou por diversão, destacaremos nessa Oficina técnicas usando lápis e papel e também a arte digital, direto na tela do computador, que certamente fortalecerá as habilidades de desenho de caricatura”.

Observação

Na Oficina, além de difundir ideias, conceitos e o processo de produção para o público que quer aprender técnicas de caricatura, seja com a utilização de lápis e papel ou usando mesa digitalizadora, o chargista vai mostrar todo o processo de observação, estruturação, criação e finalização da caricatura.

“Caricatura: muito além dos defeitos” também trará dicas para desenvolver artes de alta qualidade, começando com um rascunho em papel e finalizando com Adobe Photoshop, exemplificando em cada etapa as práticas que permitem extrair o melhor na mistura de cores para representar, em profundidade e volume, as características que tornam o personagem caricaturado único e inconfundível.

As inscrições são gratuitas, com vagas limitadas e poderão ser feitas até amanhã (terça-feira, 06), no site www.blogdoratto.com.br.

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Carlos André – O gigante de Mossoró

Carlos André: reconhecimento vivo (Foto: divulgação)
Carlos André: reconhecimento vivo (Foto: divulgação)

Cantor, compositor, músico, produtor musical, o mossoroense Carlos André é um fenômeno no universo artístico. E quem traça o perfil dele é a revista on-line “Papangu na Rede” em sua nova edição.

Em matéria assinada por seu editor e criador, o chargista caricaturista Túlio Ratto, Carlos André fala de sua trajetória, desde os primórdios da música no rádio mossoroense e ao lado de irmãos no “Trio Mossoró”.

Com 82 anos, 1,90 de altura, Oséas Almeida Lopes, o Carlos André (nome artístico), se vangloria de não tomar remédio algum nesse estágio da vida. “Sou juventude acumulada, só tomo caldo de cana com pastel”, sustenta o artista.

Mágoas e sucessos

Ele tem mágoas de como é tratado em Mossoró, diferente do reconhecimento fora dos limites da cidade e divisas do RN. E avisa que não quer ser lembrado depois de morrer.

Compositor de sucesso, com mais de 100 músicas gravadas, Oséas Lopes também ficou conhecido como produtor musical, tendo trabalhado com dezenas de artistas de forró, entre eles Luiz Gonzaga, com quem produziu 5 LPs. O primeiro, Danado de Bom, vendeu mais de um milhão de cópias em seis meses. Sanfoneiro Macho, Forró de Cabo a Rabo, Forró de Fia Pavi, Duetos Luiz Gonzaga & Raimundo Fagner foram alguns outros trabalhos desta parceria.

Além do forró, Oséas Lopes também produziu diversos cantores românticos, como Cauby Peixoto, Nilton Cesar, Vanusa, Luiz Ayrão, Silvinho, Núbia Lafayete, Trio Yrakitan, Paulo Diniz, Lana Bittencourt, Orlando Dias, José Ribeiro, Balthazar, Fernando Mendes, Odair José, Waleska, Leonardo Sullivan, Anísio Silva, Bartô Galeno, Genival Santos, Roberto Muller, Adilson Ramos, Adelino Nascimento, Ivanildo Sax de Ouro, Messias Paraguai, Claudia Barroso, Valdirene, Abílio Farias, Banda Labaredas e Alípio Martins.

Veja matéria completa clicando AQUI.

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Papangu na Rede está no ar, com as graças de Aldir Blanc

Com o patrocínio da Lei Aldir Blanc/Mossoró, está no ar desde o último dia 20, o site Papangu na Rede (www.papangunarede.com.br).Um portal cultural, com atualizações diárias, dando vez e voz para as várias vertentes do setor, divulgando nomes e iniciativas e ajudando a fomentar a cena cultural de Mossoró e do Rio Grande do Norte.

Crônicas, contos, fotografia, charges, literatura, música, teatro, artes visuais, dança, poesia, literatura de cordel e tudo o mais que aparecer nas palavras e traços de Marcos Ferreira, Clauder Arcanjo, Cefas Carvalho, Alex Gurgel, Marco Túlio, Clarisse Tavares, Brito e Silva, Beto Viera, Brummm, Flor Antero, João Bosco, Gutemberg Dias, Erasmo Firmino(o Tio Colorau), Ramirez Fernandes, Sulla Mino, Ana Cadengue e Túlio Ratto.

Para quem sente saudades da antiga revista Papangu, que parou de circular em 2012, Papangu na Rede trará, uma vez por mês, uma versão flip com o melhor de novos e velhos colaboradores.

“Então, tá combinado, a gente se encontra todos os dias aqui //papangunarede.com.br/“, destaca o criador e editor Túlio Ratto.

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Aos Vivos! vai ter um traço de prosa com Túlio Ratto

O chargista Túlio Ratto aceitou o nosso convite.

Ele vai estar conosco na 21ª edição do Carlos Santos – AOS VIVOS!A gente vai jogar conversa fora, não fazer um monte de coisas e sei lá o quê!, a partir das 21 horas dessa segunda-feira (5 de outubro).

Encontro marcado em nosso endereço no Instagram – www.instagram.com/blogcarlossantos

Acesse e participe.

Vamos nos divertir juntos.

Até lá!

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Chargista mostra embaraço da professora-governadora Fátima

Em endereço próprio na Internet (veja AQUI), o chargista Túlio Ratto retrata com sarcasmo o embaraço vivido pela governadora Fátima Bezerra (PT), diante da categoria de onde emergiu para política: o professorado.“É, meu amigo e minha amiga, de onde se esperava sair alguma coisa de futuro acabou não saindo nada mesmo. E assim os professores vão fazer greve. A ex-professora vive um grande dilema. E do alto do seu trono resmunga: “Piso ou não piso?” – provoca o chargista.

Dia passado, os professores estaduais decidiram em assembleia geral em Natal (veja AQUI) rejeitar proposta do Governo do Estado do RN de pagamento parcelado do Piso Nacional do Magistério, índice de 12,84%. Farão greve a partir de segunda-feira (9).

Num passado muito longe, por bem menos, professores e outras categorias já estavam bradando “Fora, Rosalba” e “Fora, Robinson”, pregando saída do governadores Robinson Faria (PSD) e Rosalba Ciarlini (DEM, hoje no PP).

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A tragédia da omissão que se repete na terra do já-teve

Por Carlos Santos

A Universidade do Estado do RN (UERN) vive um momento crucial de sua história, que se aproxima dos 50 anos. Apesar de toda essa longevidade, ela não está firme, forte e consolidada.

Em boa parte, essa instabilidade pode e deve ser creditada à própria fragilidade do erário estadual e uma conjuntura nacional delicada. O governador Robinson Faria (PSD), chanceler da instituição estadualizada ainda nos anos 80, é o alvo das principais críticas, como se fosse culpado de tudo.

Mas é preciso também que olhemos nessa crise (que não é nova nem pontual) para a própria sociedade mossoroense, berço e útero da Uern, que costumo definir como “a maior obra humana de Mossoró”.

É estranho que nesse instante crucial da universidade, a sociedade praticamente fique alheia ao que acontece com a instituição. Para muitos, uma greve de mais de 100 dias não passa de radicalismo de professores e servidores em relação ao governo. Para outros, “devia fechar mesmo e pronto”.

Enfim, não é problema meu ou nosso.

Que a maioria pense assim, até por não ter capacidade crítica e conhecimento suficiente sobre o papel e importância da Uern, é compreensível. Mas é inaceitável que o próprio Executivo municipal não tenha uma atitude proativa no episódio. Esconde-se.

Como achar natural que entidades como Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Sindicato do Comércio Varejista (SINDIVAREJO), Associação Comercial e Industrial de Mossoró (ACIM), Rotary, Lions, Maçonaria e outras instituições de peso ignorem tudo e não se juntem – escudando “nossa Uern”?

Talvez só percebam seu valor numa eventual perda. Aí ficará valendo aquela máxima: somos a “Mossoró do já-teve”.

A história de omissão se repete como uma tragédia. É a prova também de que o epíteto “Terra da liberdade” deve ser compreendido como uma piada de mau gosto. Farsa. Não o leve a sério.

PRIMEIRA PÁGINA

Tem zunzunzum por aí sobre articulação para rifar a candidatura à reeleição do senador José Agripino (DEM). A empreitada envolveria gente do empresariado e até do outro extremo – a esquerda. Não faltaria ainda o “fogo-amigo”, digamos. Ouvido ao chão, senador. Acautele-se. O mais inocente aí gosta  de dar rasteira em cobra e olhar a mãe do outro tomar banho nua.

Apesar de ter ruminado a ideia de ser candidato ao Senado no auge da sua aceitação político-administrativa no primeiro semestre de 2014, o ex-prefeito mossoroense Francisco José Júnior (sem partido) calibra os passos noutra direção. Ele e a ex-primeira-dama Amélia Ciarlini projetam fazer curso de medicina no Paraguai, mas com residência em Foz do Iguaçu-PR. Um filho do casal já cursa medicina no Ceará. A política pode esperar.

Amélia Ciarlini e Francisco José Júnior já têm um filho como acadêmico de medicina no estado do Ceará (Foto: PMM, 2014)

O presidente da Câmara Municipal do Natal, da Federação das Câmaras Municipais do RN (FECAM) e mais recentemente do partido Avante, Raniere Barbosa, decidiu que não será candidato à Assembleia Legislativa, como chegou a planificar e agir durante muito tempo. A “Operação Cidade Luz” (veja AQUI) arranhou sua fuselagem política. A aposta é mesmo numa candidatura à Câmara Federal, de sua mulher Karla Barbosa, e montagem de uma nominata que viabilize eleição de pelo menos um deputado estadual.

O nome do empresário Luiz Roberto Barcelos (sem partido) é o preferido por algumas lideranças políticas e empresariais influentes, como segunda opção ao Senado. Mas nada dessa balela de “chapa empresarial”. As conversas podem evoluir nesse mês de março. Ou não.

O governador Robinson Faria (PSD) anima-se e sonha com a possibilidade de ser reeleito. Suas movimentações na mídia na última semana deram sinais disso. A estratégia no campo administrativo é criar uma bolha de otimismo e viabilizar saneamento de deficit da folha de pessoal, além de sensação de melhoria na segurança/saúde. Na esfera política, ele começou a provocar polarização com o atual prefeito do Natal e virtual candidato ao governo, Carlos Eduardo Alves (PDT). O Blog Carlos Santos na Coluna do Herzog do domingo passado (18) postou comentário sob outro viés. Leia: Tratem bem Robinson Faria; vocês podem precisar dele.

Ninguém ouse pelo menos insinuar que o deputado federal Beto Rosado (PP) será encaixado como vice, numa chapa majoritária este ano. Seu pai e ex-deputado federal Betinho Rosado (PP) é absolutamente arredio a ideia. Seu irmão e líder do rosalbismo, ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado, sabe bem disso.

Pai e filho: vice, não (Foto: Web)

Alerta, alerta geral. Para 2018, os partidos terão que alcançar ao menos 1,5% dos votos válidos, distribuídos em, no mínimo, nove estados, com ao menos 1% dos votos em cada um deles. Trata-se da “Cláusula de Desempenho” (entenda melhor clicando AQUI). Como alternativa, as siglas devem eleger ao menos nove deputados, distribuídos em, no mínimo, um terço das unidades da Federação. As exigências aumentarão de forma gradativa até 2030. Se não atingirem um desempenho eleitoral mínimo, não terão direito ao tempo de propaganda e acesso ao fundo partidário. Morrerão por inanição paulatinamente. Por isso que a prioridade dos partidos este ano não é disputa a governador, mas à Câmara Federal.

Costuras preliminares nos intramuros da política de Mossoró buscam a formação de um grupo político alternativo às próximas eleições municipais, lá em 2020. Nele, não entrariam as forças tradicionais nem emergentes que apareceram nas urnas nas eleições municipais de 2016. Ah, tá!

O PR pode ter um sobrepeso na chapa proporcional à Assembleia Legislativa neste ano. Nomes como do deputado estadual George Soares, da primeira-dama de São Gonçalo do Amarante, Terezinha Maia, além do empresário e ex-candidato a vice-prefeito de Mossoró em 2016, Jorge do Rosário, devem carregar a votação. Mesmo bem votado, alguém pode sobrar.

O quociente eleitoral (divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras em disputa) da eleição à Assembleia Legislativa em 2014 ficou em 69.097 votos. A expectativa que se tinha à época, era de que chegasse aos 75 mil votos. Em relação a 2018, se houver confirmação de debandada de eleitores e ampliação de votos nulo/branco, esse número pode cair mais. Campeão de votos como Ricardo Motta (PROS à época, hoje no PSB), com 80.249 votos, é praticamente impossível. Vamos recapitular como ficou a distribuição de votos à AL àquela época: Votos apurados – 1.935.105; Votos válidos – 85,70% (1.658.348); Brancos – 6,43% (124.441); Nulos – 7,87% (152.316); Abstenção – 16,83% (391.478); Quociente eleitoral – 69.097. Veja AQUI a relação dos eleitos e respectivas votações em 2014.

A vereadora grossense Clorisa Linhares (PSDC) movimenta-se desde o ano passado como o primeiro nome declaradamente pré-candidato ao governo do estado em 2018. Mas seu olhar de verdade mira outra disputa executiva. Objetivo é a Prefeitura de Grossos (região da Costa Branca) em 2020, num ambiente político em que a oposição há anos racha e sempre favorece o governismo.

Partido do vice-governador Fábio Dantas, o PCdoB vai se inclinar à coligação com o PT da senadora e pré-candidata a governador Fátima Bezerra (PT). A saída da legenda do vice-governador e de sua mulher e deputada estadual Cristiane Dantas será o divisor de águas dessa alteração de rumos. Fábio e a mulher já afivelam malas para o troca-troca partidário. Ele costura desembarque no PSB. Ela pode se encaminhar para o PPL ou outra sigla de pequeno porte.

EM PAUTA

Diocesana – A Faculdade Diocesana de Mossoró (FDM) lançou nova campanha de Pós-graduação, com 19 novos cursos oferecidos. Ao todo, a instituição sediada em Mossoró alcança 34 pós-graduações e marca o seu projeto de extensão para outros municípios. A primeira cidade a ter a presença da faculdade é Apodi. Depois virão Assu e Caicó. Acesse AQUI a página da FDM.

Pneumonia – Depois de passar alguns dias em repouso e afastado do trabalho, o radialista Haroldo Jácome retoma ritmo normal na Rádio Difusora de Mossoró esta semana, com o programa “Super Manhã Difusora”. Um princípio de pneumonia o afligiu. Pádua Júnior substituiu-o com louvor. Saúde, meu querido. Simbora!

Haroldo: saúde (Foto: arquivo)

Diária – O Governo do Estado publicou nesse sábado (24) no Diário Oficial do Estado (DOE), Lei Complementar que “Dispõe sobre o pagamento de diária operacional. O valor fica em R$ 107,40 (cento e sete reais e quarenta centavos). Veja detalhes AQUI.

Sátiro – O ex-reitor da Universidade do Estado do RN (UERN) e um dos mentores de sua estadualização, padre Sátiro Cavalcanti Dantas, apareceu na assembleia geral dos professores na sexta-feira (23). Aos 88 anos, segue na defesa da maior obra humana de Mossoró (veja AQUI).

TJRN – Sempre tão criticado, também merece aplausos o êxito do Tribunal de Justiça do RN (TJRN), que alcançou o 1º lugar entre as 27 cortes congêneres do país, em termos de desempenho na resolutividade processual. Atingiu esse patamar com o percentual de 154,12% em 2017, julgando maior número de demandas do que o número recebido. Bravo!

Pedro Lenza – O consagrado professor e escritor forense Pedro Lenza estará em Mossoró no dia 26 de abril, no Teatro Municipal Dix-huit Rosado. Ele é autor do livro de Direito Constitucional mais vendido do Brasil!

SÓ PRA CONTRARIAR

Alguém aí notou que Mossoró ficou sem prefeita e vice e a Câmara Municipal só retornará dia 2 de março? Ótimo.

GERAIS… GERAIS… GERAIS

Relo: “Mãe-Dágua” (Foto: Luís Gomes Tur)

A Cachoeira do Relo em Luís Gomes (a 195 quilômetros de Mossoró), nascente do Rio Mossoró, começou a vicejar com as chuvas desse inverno que ainda está longe de se consolidar. Ela tinha desaparecido há cerca de 6 anos, devido a seca. É nossa “Iara”, a Mãe-D’água.

São as mesmas águas que encharcam o chão/E sempre voltam humildes/Pro fundo da terra“. (Planeta Água, Guilherme Arantes – veja letra e música AQUI).

Em função de sobrecarga de trabalho, o chargista Túlio Ratto “pediu um tempo”. Sua secção “Janela Indiscreta” desta coluna vai ficar um período fora do ar, até ele dar outra vez o ar de sua graça. Combinado.

Obrigado à leitura do Nosso BlogChrystian de Saboya (Natal), Mário Ilo (Tibau) e João Carlos Brito (Mossoró).

Veja a Coluna do Herzog do domingo (18) passado, clicando AQUI.

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