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A verdade é singular…

Por François SilvestreMentira, pinóquio, falsidade, fofoca

…a mentira é plural.

 

Uma verdade é coisa simples,/

solitária.

Não precisa de companhia./

 

A mentira é multidão,/

não se basta só.

carece do amparo de outras mentiras./

 

Pra cada mentira original,/

nasce uma ninhada.

Que se agasalha sob as asas da mentira mãe./

 

Parece o verso do Poeta João,/

lembra?

“Um galo sozinho não tece uma manhã.”/

 

A mentira solitária não tece uma versão,/

precisará de outra mentira.

Pra ir a outros quintais./

 

E de quintal em quintal,/

as mentiras tecem uma verdade.

Até que a teia do embuste/

se agasalhe nos ouvidos desatentos.

 

Se pra cada regra há exceção,/

há uma nessa regra.

Não é mentira a mentira da ficção.

François Silvestre é escritor

Tomás

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Por François Silvestre

Aproveite o recurso prometido/

E renove o estoque de Kaol./

 

Estrelas opacas/ nos ombros recentes/

Indicam Kaol vencido./

 

Vencido também o tempo/

do caráter opaco,/

Em cujos ombros brilhou a indecência.

 

Viu-se de tudo,/ menos o brilho das estrelas,/

Nos bolsos recheados do generalato/

da concupiscência./

Velhos, pijamados, cínicos,/

de trapaças e golpes sonhados./

Agora, recolhem-se, vencidos,/

Na alcova imunda, a lamber, no resmungo,/

as feridas nojentas dos decaídos./

 

Pois seja, General Tomás,/

o polidor de estrelas novas./

Exiba-se, sem temor, à luz do sol./

E em vez do viagra, na suspeita compra,/

ponha nos ombros o brilho da paz./

Renovando ou não o estoque de Kaol.

François Silvestre é escritor

Confidências a Ferreira

Por Clauder Arcanjo

Foto de Marcos Ferreira (Revista Papangu)
Foto de Marcos Ferreira (Revista Papangu)

Agora habita o meu olhar 

noturno este vazio estranho, 

esta memória de chuva 

que descolore o pôr do sol, 

que emudece as palavras 

e silencia o chocalho das horas. 

Noturnos, os poetas se emudecem no silêncio das madrugadas, a fim de encontrarem a raiz poética, (re)encarnada na cumeeira do vazio.

Enquanto a cidade dorme, a poesia se apresenta, antes do nascer do sol, como oferenda legítima e mundana do (des)colorido atormentado da vida.

Pois não sou este espírito a esmo 

Que me busca entre sombras e abalos 

Na infinita procura de si mesmo. 

&&&

Os passos 

no corredor, 

a luz acesa. 

O perfume 

da inocência 

brincando 

entre as mãos 

pervertidas 

do vento. 

— Poeta Marcos Ferreira, há sempre em nós uma confissão tardia! — Assombra-se Carlos Meireles, entre palavras de pecado e farta remissão.

Eu olho para a parede alta e nua à nossa frente. Um fero obstáculo a nos usurpar da liberdade de flertar com a arquitetura das nuvens, de antever o bulício dadivoso dos arrebóis.

Apenas o céu 

emoldurado 

na janela, 

a tia nas orações 

— tateando 

o paraíso 

nas contas 

encardidas 

do rosário. 

&&&

Perdi meu romantismo. Não sou mais 

O amante, o cavalheiro, o menestrel 

— O ingênuo cantador de madrigais. 

O que se perde, Poeta, mais se nos (re)define. Defino-me mais pelo que abandonei, desrespeitoso com meus despojos, do que pelo que levo na algibeira das minhas certezas vãs.

Hoje, neste ranzinza habitáculo em que meu corpo habita, quero recobrar os meus românticos perdidos, mas o mundo, cruel engenho, já cuidou dos seus funerais.

A poesia só me encontra quando me perco, pecador por palavras, nos seus cruentos madrigais.

Estremeço à tua passagem 

e meu olhar de chumbo 

se afunda na ilusão movediça 

do teu colo de aromas. 

A tarde boceja envolta 

num pijama de arrebol 

e as últimas cardigueiras 

desaparecem na linha 

ensanguentada do horizonte. 

&&&

Ontem voltei à rua dos 

meus tempos de criança… 

O fantasma do amor imberbe 

atravessou-me num abraço diáfano. 

Sobre a laje negra do asfalto 

brincava o doido esqueleto 

do meu cavalinho de pau. 

A infância usurpa o nosso presente. De quando em vez, joga seus espectros em nossa frente. E, cabisbaixos e saudosos do ontem, caqueticamente, nos tornamos fantasmas do nosso passado.

Hoje, Poeta, esperarei a assombração do eu-menino com a roupa de homem, em frente à porta da frente. Se ele passar por mim e entrar… Bendito seja eu, Ferreira!

&&&

Acho que a velha casa 

dos meus sonhos mirins 

ameaçou um sorriso de janelas. 

Ainda hoje sonho com a velha casa de Licânia. Entre os meus, colhido pelos tipos da rua, recebi as minhas lições de maior valia. Na nossa rua, não havia pobres nem ricos, existiam amigos e amigas. Gente boa, gente crédula, gente simples.

Cresci e me formei. E o mundo, Poeta, depois de Licânia, só me deseducou; e, hoje, não sonho mais com o sorriso do nosso janelão da frente. Lições de menos-valia.

— E quando retornarás a Licânia?, você me indaga.

E Licânia algum dia saiu de mim?! Se tu te referes a este meu esqueleto, ele será plantado na terra que me viu chorar, e muito sorrir no peito.

Mesmo que a luz 

de nossas almas 

se apague e o tempo 

nos arraste para 

o mundo das sombras 

e da saudade, 

haverá sempre esta 

candeia de esperança 

ardendo na solidão 

lacrimosa do meu peito. 

&&&

Ontem concebi 

um poema 

bastardo. 

Cumpre-me agora 

escrevê-lo, 

pois larguei-o 

entre as águas 

do banho 

e ele se afogou 

na garganta 

escura do ralo 

Há versos concebidos na antevéspera do escarro; outros, na comunhão de um afago; alguns, não raros, no lusco-fusco da esperança. São raros os que resistem ao tempo, juiz cruel de muito enfado.

Não adianta te cercares das lições comezinhas dos vates de outrora, nem das homilias poéticas dos modernosos de agora, pois o poema, aprendiz de poeta, só se entrega (e se revela) a quem nunca o espera, e dele se torna um fiel escravo.

Um sopro de angústia vai movendo 

as dobradiças do silêncio. 

As teias do tempo se espalharam 

por todos os cômodos e móveis. 

Sequer o velho relógio de pêndulo 

reagiu à minha súbita presença. 

Vê, em frente ao teu espelho, o sopro lívido da tua última quimera se esvair por entre as nesgas do silêncio, e se acomodar nas engrenagens das horas extremas.

O mais é tudo sombra e frialdade. 

&&&

É tarde… Um galo canta no vizinho. 

Então ele retorna e continua 

Os versos que deixou pelo caminho. 

Levanta, Marcos, os raros leitores de poesia aguardam o recital do teu soneto esquecido na última tarde. O primeiro quarteto, em alexandrinos perfeitos, ultrajava a dor que te tornara forte; o segundo, rimado e bem urdido, decantava a flor que tu havias tido; o primeiro terceto, arejado e reverente, tecia a família que, de ti, se orgulhava. Já a última estrofe, Poeta, toma cuidado!, pois daqui antevejo o traquinas Chico de Neco Carteiro a tentar escandir-lhe os versos, com sua voz rascante de augusta e rutilante matraca.

É de lábios 

e línguas 

este anseio 

que deriva 

da curva 

do teu medo 

e se gruda 

nos fios 

do silêncio. 

Na curva do arremedo, os poetastros cevaram os espectros dos seus pretensos poemas. De paletó e gravata, cercados de muitos festejos, eles se esqueceram de convidar a musa humilde.

Acharam, por certo, que, para eles, não havia segredo. Cumularam-se de saberes, outorgaram-se detentores de uma fama de araque… e se defrontaram, fatal desencanto, com o “poema” oco, perdido na tepidez funérea do vazio.

Abracei-a com força, mas não creio 

Ter podido prendê-la muito assim… 

Ela foi e eu fiquei ali no meio 

Do silêncio noturno do jardim. 

No silêncio da noite, sem a algaravia dos falsos arpejos, aprendi que a graça da poesia só nos alumbrará se riscada em laivos transparentes, pendidos, com a força solfejante da cola de uma mísera rima, sob a platitude lírica do abismo.

Não te maldigas pela sorte escassa 

Nem pela vida muita vez tão dura… 

Aqui no mundo nada sai de graça, 

Ainda mais quando se tem ternura. 

Quando a última ternura me caiu no colo opresso, nem percebi quando se deu tão sublime esmola, obrou-se o milagre de me ver em festa, quando todos lá fora se consumiam em desenganos.

E, se ao fim e ao cabo, tu, ternura, me tornares imprestável para a lida cotidiana, só me restará a lira… e a sina malsinada de me fazer poeta.

Hoje amanheceu bonito 

Como fosse primavera… 

Sem metáforas de sombra, 

Nem pedaços de quimera. 

&&&

Declaro, para todos 

os fins que se fizerem 

necessários, que não possuo 

bem algum neste mundo 

em que os homens 

declaram a guerra 

e sonegam a paz 

E tu, Marcos Ferreira, cuida de assinar o teu último armistício poético; eu, por aqui, rabiscarei o testamento do meu degredo.

Entre os fulgores da morte, as sonegações da paz, nós, tortos poetinhas, finalizaremos o nosso espólio, declarando fé no amanhã, apesar do risco de sermos fuzilados por isso.

No coração da noite segue uma tristeza 

Com passos muito lentos e desmotivados 

Obs.: os trechos em itálico foram extraídos do livro A hora azul do silêncio, de Marcos Ferreira. — 2ª edição — Mossoró: Editora Verboletras, 2016.

Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras

*Texto originalmente publicado na revista Papangu

Festival Literário da Ufersa vai ocorrer entre os dias 16 e 18

A Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) promove entre os dias 16 e 18 de novembro a primeira edição do Macambira – Festival Literário da Ufersa, com extensa programação cultural envolvendo o mundo da literatura, dança, artes cênicas, exposições fotográficas, jogos educativos, oficinas, palestras e lançamentos de livros.

O premiado cearense Mailson Furtado é um dos nomes do evento cultural (Foto: divulgação)
O premiado cearense Mailson Furtado é um dos nomes do evento cultural (Foto: divulgação)
José Almeida Júnior é mossoroense com sucesso de público e crítica em seus trabalhos (Foto: divulgação)
José Almeida Júnior é mossoroense com sucesso de público e crítica em seus trabalhos (Foto: divulgação)

Para abrir a programação, dia 16, a partir das 18h, o Festival recebe o poeta cearense Mailson Furtado Viana, vencedor do Prêmio Jabuti 2018 nas categorias Poesia e Livro do Ano. Na noite do dia 17 será a vez do escritor mossoroense José Almeida Júnior compartilhar a sua produção literária. Proeminente no estilo romance histórico, Almeida é vencedor do Prêmio Sesc e finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

Na noite de encerramento, sexta, dia 18, serão anunciados os vencedores do primeiro Concurso Literário da universidade. Lançado em julho, a chamada pública recebeu mais de 50 textos inéditos nos gêneros crônica, conto e poesia. Os selecionados serão publicados em um livro pela Editora Universitária da Ufersa (EdUfersa).

Teatro

A programação é integralmente gratuita e acontece na lateral da Biblioteca Orlando Teixeira, Lado Leste, Campus Sede, em Mossoró. Além de literatura, o evento será abrilhantado com a apresentação dos grupos de teatro Cia Escarcéu, Grupo Baobá da Ufersa, Pessoal do Tarará e GRUTUM, Maracatu Reis de Paus, o rapper Cumpadi Caboclo e os artistas Airton Cilon e Álex Martins.

Durante os três dias, estarão à disposição dos visitantes mostras fotográficas e exposições de HQ’s, competição de grupos de K-Pop e, para o público infantil, será montada a Casa de Leitura, uma iniciativa destinada à contação de história e recreação.

O Macambira – Festival Literário da Ufersa nasce com o objetivo de promover um ambiente pluricultural na instituição a partir da valoração das diversas linguagens artísticas e literárias.

Confira a íntegra da programação e mais conteúdo AQUI no Portal Ufersa.

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Menina de trança

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Ilustração da Web

Por Inácio Augusto de Almeida

Quando eu morrer

Verás nos meus olhos

A tua imagem

II

Nada a temer

Ninguém leva da vida

O que leva a vida da gente

III

A tua imagem é que irá

Molhada pelas lágrimas

Nunca vistas nas minhas faces

IV

Lágrimas que rolaram dentro do meu coração

Sufocando o grito do amor não vivido.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

Retrato falado

Por Marcos Ferreira

Escriba mau-caráter, sem-vergonha,

Também difamador da pior marca.

No entanto eis que essa víbora bisonha

Pretende-se um poeta qual Petrarca.

 

Não fez nunca um soneto, como sonha,

Porque o seu intelecto não abarca…

O quengo inteiro inchado de peçonha,

A inspiração é sempre muito parca.

 

Raquítico qual tudo quanto escreve,

Não raro esse esqueleto ainda se atreve

A difundir calúnia e pabulagem.

 

É um tipo bem malhado nesta aldeia,

Um pulha descarado e bom de peia,

Que arrota valentia sem coragem.

Marcos Ferreira é escritor

Diáspora

Pão, pobreza, dividindo pão, fome. misériaPor Marcos Ferreira

O menino pequeno e negro abre a lixeira.

Revira o lixo e encontra um pedaço de pão.

Parece que contém um pouco de sujeira…

Estuda o fragmento e logo passa a mão.

 

Depois, espertamente, o garotinho cheira

A massa descartada e ele mordisca. Então

Descobre que seu gosto não é de primeira,

Porém não desperdiça aquela refeição.

 

É magro e cabeçudo, pernas bem cambadas.

Decerto o pobrezinho não tem nem dez anos.

À noite, com a mãe, dormindo nas calçadas.

 

Divide o pão com ela, cerca da metade.

A mãe quanto o pequeno são bolivianos,

Sozinhos e invisíveis na grande cidade.

Marcos Ferreira é escritor

“Misturando as poesias” vai estrear no próximo dia 21

Nildo da Pedra Branca e Maurílio Santos - poetas, programa na FM 98.7 Cidadania - Misturando as Poesias,estreia em 21 de maio de 2022No próximo dia 21 de maio – um sábado – teremos que estreia na FM 98.7 de Mossoró.

Os poetas Nildo da Pedra Branca e Maurílio Santos vão apresentar (todos os sábados), às 6h, o programa “Misturando as poesias”.

Radinho ligado, ou pela Internet, boa pedida pro amanhecer.

Sucesso, pessoal.

Ouça a emissora clicando neste endereço eletrônico //98mossoro.com.br/.

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Quinze anos do Canal BCS

15Por Marcos Ferreira

No Blog do Carlos Santos

Encontramos toda a nata

Dos intelectos maiores

Desta terrinha insensata

Pela qual, apesar disso,

A gente briga e se mata.

Então se deu terça-feira,

Em muito recente data,

Quinze anos deste Blog

Do qual digo sem cascata

Sentir orgulho de ser

Desta casa humilde prata.

Marcos Ferreira é escritor

Leia também: Quinze anos do Blog Carlos Santos.

Poesia sem caráter

Por François Silvestre

Foi o que pensei ao imaginar este verso fotográfico, ajustando a câmara, para registrar a fisionomia deste tempo de trevas. Aí descobri que não é hora de poesia.chuva, vidro embaçado, inverno, parabrisa de carro,

Não é. Mesmo a aroeira parindo brotos de futuras flores, informando que suas raízes começam a sugar a seiva doce do massapê, mesmo a moita do mofumbo soltando as primeiras flores que só cheiram ao nascer, mesmo o riacho descendo em busca de uma foz raquítica, mesmo as águas do baixio no aluvião convidando ao plantio do milho e do feijão, mesmo o canto da mãe-da-lua informando que a madrugada não tem destino, mesmo o correr do calango fugindo da baladeira do moleque ainda existente, mesmo a jitirana enfeitando a subida das grotas, mesmo a espingarda de pederneira pendurada inútil num armador do alpendre, mesmo o sonho de uma mãe que esperou do filho retirante uma carta ou um mimo, mesmo a desmama de um bezerro preso à pata traseira da vaca para oferecer leite à mama do filho do tirador do seu leite, mesmo o som do trovão informando o desgosto de Tupã.

Não dá pra fazer poesia. Não dá.

É hora de arregaçar mangas, não de colhê-las. O momento é de luta e luta feroz. Dizer abertamente que vamos vencer e quem não aceitar a derrota que se prepare pra luta.

Se perdermos, aceitaremos. Se vencermos, venceremos sem medo de arreganhos ou ameaças.

O Brasil impõe o desafio: É vencer ou vencer!

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Sábado é dia de poesia no Teatro Lauro Monte Filho

É hoje! Sábado, 12 de março de 2022, é dia de poesia no Teatro Lauro Monte Filho em Mossoró. A partir das 18h, a gente tem o Grande Encontro de Poetas, idealizado pelo músico, compositor e poeta Zé Lima.Grande Encontro de Poetas - 12 de Março de 2014 - Mossoró

A entrada será de dois quilos de alimentos não perecíveis, que serão doados a artistas que estejam em dificuldade por conta da pandemia.

O evento é uma forma de comemoração do Dia Nacional da Poesia (14 de março), alusão ao aniversário do poeta baiano Castro Alves, o “poeta dos escravos” (1847-1871).

No palco, o próprio Zé Lima, Antônio Francisco, Nildo da Pedra Branca, Lalauzinho de Lalau, Zé Cardoso, Geraldo Amâncio, Moisés Marinho, Caio César Muniz, André da Mata e Symara Tâmara recitarão seus poemas e interpretarão poemas musicados.

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Adoráveis mulheres

mulheresPor Marcos Ferreira

Um brinde respeitoso e fraternal

A todas as mulheres deste mundo.

Principalmente àquelas que o iracundo

Putin já tem causado tanto mal.

 

Que Deus, ante a esta data especial,

Proteja tais mulheres com profundo

Cuidado até de um tipo nauseabundo,

Um certo deputado Arthur do Val.

 

Que a todas dediquemos muito amor

Em vez de só machismo e lhes impor

As guerras, o fuzil e a baioneta.

 

Brindemos, seja em prosa ou poesia,

Pois hoje, oito de março, é o grande dia

Do ser mais adorável do planeta.

*Nossa homenagem às mulheres, com o soneto do nosso colaborador dominical, escritor Marcos Ferreira, no Dia Internacional da Mulher.

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Oficina

escrever, escrita, escritor, literatura, caneta,Por Marcos Ferreira

Palavra após palavra, siga em frente

Deixando que o seu texto lhe conduza

Sem pressa nem arroubos, calmamente,

Ao gosto e bel-prazer da sua musa.

 

Escreva com vagar, porém não tente

Subestimar a língua — esta Medusa

Que às vezes petrifica a nossa mente,

Paralisando a verve mais profusa.

 

Evite empregar termos rebuscados.

É bom sempre tomar esses cuidados,

De modo que seu texto seja limpo.

 

A escrita exige esforço, dá trabalho.

Das frases nós limpamos o cascalho

Assim como pepitas num garimpo.

Marcos Ferreira é escritor

Poeticidade

marcos-ferreira-jan22 - Papangu na rede - Ilustração para crônicaPor Marcos Ferreira

Busco nas cerdas invisíveis do vento uma suave escova que deslize sobre meus cabelos despenteados. Hoje estou carente desses afagos imateriais. Quero o beijo da aragem. Deixo-me estar à janela de minha alma, com vista para a rua de pedras e areia trazida pelas chuvas. Há estrelas cintilando no céu, grilos e sapos executam suas típicas sinfonias nos escaninhos da noite. Alguns audazes morcegos, como pequenos aviões de caça furtivos, cortam os ares arrojadamente.

O rock metálico do trânsito indica que as pessoas têm pressa de viver. Sim, a vida pulsa sobre o paralelepípedo e nos corações, apesar desse desgoverno nefasto que atua em desfavor dos pobres, da maldade de sua política contra a mesa e o prato dos brasileiros. Meu povo, neste Brasil e cidade, come lagartos, carcaças, cartilagens, e cerca caminhões de lixo à procura de comida.

Estou sempre sujeito (quem não está?) às influências do meio. Ou, para ser mais preciso, às influências do inteiro, do completo, do geral. Da vida, do mundo, enfim. Exatamente. Sou, como todos somos, influenciável. Embora algumas vezes eu também exerça alguma influência sobre terceiros. Basta uma lua obesa no céu, como aquela que ora contemplo, para a minha alma de poeta suburbano pensar num verso estratosférico, numa estrofe e rimas de brilho emprestado.

A vegetação nos campos, como em toda parte, após muito tempo trajando o grave cinza da estiagem, cobriu-se de verde. O útero do solo voltou a ser fecundado e a procriar com o milagre da água que o céu tem vertido sobre nós. Que importa que os enxames de muriçocas estejam de volta com redobrado apetite por sangue? Isso, diante do benefício do inverno, é café pequeno.

Entretanto, por característica desta região semiárida, o astro-rei continua dando as cartas. Predomina na maior parte do tempo. Em Mossoró ninguém morre de hipotermia. Não há qualquer dificuldade, por exemplo, para secagem de roupas expostas nos varais. Desde os tecidos mais leves aos mais pesados, tudo fica sequinho em minutos. Mofo?! Nada de mofo! A umidade relativa do ar está quase ao nível dos nossos pés. Aqui se frita, como se diz, ovo no asfalto.

A máquina fotográfica de um relâmpago iluminou momentaneamente o quintal. Esperei por um trovão, mas ele não veio. Talvez tenha preferido não interromper a cantoria dos sapos e grilos. Sem pudor, um gato e uma gata se amam em algum terreno ou telhado próximo. Discrição nunca foi o ponto forte desses adoráveis seres de patinhas acolchoadas. Circula um vento úmido.

Apesar das chuvas, ainda não há fartura. Nem sei se haverá. Não para as pessoas humildes. Muitas continuam nos semáforos exibindo cartazes pungentes, pedidos de socorro. São indivíduos que não têm o que comer. Outros não têm o que vestir nem onde morar. Fala-se muito na fartura dos grandes empresários agrícolas, porém essa riqueza toda é somente para eles próprios. Vai tudo para os bolsos deles, cuja maioria parece incapaz de oferecer um pão a um doido.

Bom, hoje não quero me alongar. Vim apenas dizer, entre outras coisas, que uma orquestra de sapos e grilos cantadores, além de uma constelação intermitente de vaga-lumes, trouxe um pouco mais de poesia para estas minhas horas de ócio criativo. Deixo à margem, em prol do lirismo, a horrenda metáfora da fome representada por tanta gente podre de rica, mas miserável de espírito.

Nós até resistimos, damos voltas no corpo, suportamos uma vida sem pão, sem teto e sem outras dignidades que nos negam e furtam, entretanto creio que a gota d’água de nossa existência será o dia em que nos faltar poesia. Porque poesia é a chama, é a força que nos faz resistir e lutar por dias melhores, é o nosso talento e pendor para a superação, mesmo perseguidos por inúmeras adversidades e privações. Poesia é a nossa coragem para sorrir na cara da tristeza.

Portanto, que nunca nos falte poesia. Coisa esta que não representa meramente uma composição em versos, mas a graça, o encantamento que estar vivo deve significar. Daí advém a poesia escrita, que é o retrato literal da humanidade e do mundo. Se esses sapos e grilos cantantes, além dos morcegos nos seus voos acrobáticos, se tudo isso não for poesia, então não sei o que é poesia.

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede.

Os Estatutos do Homem

Por Thiago de Mello

(Ato Institucional Permanente)

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

Artigo V.

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha sempre

o quente sabor da ternura.

Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,

a qualquer hora da vida,

o uso do traje branco.

Artigo XI.

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo.

muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade.

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

Amadeu Thiago de Mello (1926-2022) foi poeta e tradutor, com obras traduzidas para mais de 30 idiomas

*Os estatutos do homem” é o vídeo em que o autor declama sua poesia, acompanhado do Duo GisBranco (Bianca Gismonti and Claudia Castelo Branco – dois pianos), no Circo Voador, Rio de Janeiro, na abertura do Poesia Voa 2.0 | Festival Poesia Direitos Humanos – 10 de dezembro de 2006.

Leia também: Morre o poeta amazonense Thiago de Mello aos 95 anos.

Para bem viver

Por Inácio Augusto de Almeida 

Não pense

Eis a regra primeira

E depois…

Depois acredite em tudo

Pois esta é a regra número dois.

     II

Por hipótese alguma

Perca um capítulo da novela

De preferência as globais

Ou não seguirás a terceira regra.

     III

Nunca deixe de dizer sim

E nem em sonho discorde

Afinal…

 A quarta regra deve ser cumprida.

    IV

Questionar…

Nem com febre alta

Pois somente o estado de loucura

Pode justificar tamanho absurdo.

     V

Cumprindo estas regras

Certeza tenhas da felicidade

E um diploma de bem comportado

Em tua parede ficará

A provar que entraste na onda que pega.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Mulheres do Rio do Fogo

marisqueiras, mariscosPor David Leite

Existe um encontro diário entre o mar

e as mulheres do Rio do Fogo.

O mar oferece algas marinhas,

as mulheres as buscam na praia.

 

Pela praia, elas seguem catando

as algas e cantando mágoas.

O mar responde

com o murmúrio das ondas.

 

A música delas fala da vida,

de seus problemas e dilemas.

A sinfonia do mar é acalanto.

 

As algas são importantes para as mulheres.

As mulheres são vitais para o mar.

Dia após dia, maré após maré,

o mar não descansa,

e as mulheres não cansam.

 

As mulheres tiram

das águas seus sustentos.

O mar recebe, em troca,

a companhia amiga.

 

Algumas esperam, na mesma praia,

que o mar devolva seus companheiros.

E eles voltam, crestados pelo sol,

com peixes e saudades.

 

Chamam-nas “marisqueiras”.

Marisqueiras da praia do Rio do Fogo.

 

Mas, em verdade, em verdade,

elas são mulheres! Mulheres valentes!

Mulheres do Mar, do Rio, do Fogo.

David de Medeiros Leite é professor da Uern e doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha

Um novo livro quase no prelo

Marcos: crônicas vão marcar a publicação (Foto: arquivo)
Marcos: crônicas vão marcar a publicação (Foto: arquivo)

Escritor e poeta premiado, Marcos Ferreira prepara um novo livro.

Podemos dizer que está quase no prelo.

Dessa feita, ele vai nos premiar com uma publicação no gênero da crônica, uma seara que também domina bastante e passeia sem temor.

Nada mais posso adiantar, apesar da vontade.

Marcos Ferreira é um dos integrantes do nosso time de articulistas e colaboradores dominicais cá no Canal BCS – Blog Carlos Santos.

Que seja bem-vindo seu novo rebento.

Ave!

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Não creio

Por Inácio Augusto de Almeida

Não creio na força

De quem bajula os fortes

De quem humilha os fracos.

Não creio na força

De quem vive só para si

De quem esquece que somos irmãos.

Não creio na força

De quem julga sem conhecer

De quem condena sem convicção.

Não creio na força

De quem acredita

Ser possível felicidade sozinho.

Não creio na força

De quem não sorri

Ao ver crianças brincando.

Não creio na força

De quem não tem tempo para a beleza.

Não creio na força

De quem não tem tempo para o AMOR.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Ode ao dia

Por François Silvestre

As décadas são das crianças/ os anos, dos adultos./

Os meses são dos devedores./ Isso mesmo, somos todos devedores./dia, sol, luminosidade

Não há credores na vida./ Até os ricos, que nada devem aos seus, devem à vida./ E ela cobra./ E a promissória é a quitação da morte./

As semanas são invenções,/ com os atropelos das Segundas/ e as ilusões dos Sábados./ Nada mais que isso./

Sobram os dias./ E quem viveu tão ilusoriamente pouco/ chegando aos Setenta/ só se aboleta na tenda dos dias./ Não mais pra viajar/ ou adiar sonhos,/ apenas e a valer a pena, esperar o nascer de cada sol./

O dia não é só do sol./ É dele e da lua na noite./ Os dois completam o dia./ Ele nasce cedo, frio, e apressadamente esquenta./ Sem sequer esquentar a esperança da demora./ A lua, matreira, tem fases./ Some, novilúnia, após minguar,/ depois cresce, suave,/ e se enche de luminosidade falsa,/ como sói ser falsa toda luminosidade./ Plenilúnio da ilusão./

Sobra a tarde./ O último e único momento honesto do Dia./ O sol descambando no poente,/ o chumbo das nuvens no nascente,/ e a semelhança do ocaso/ com a dívida da vida. Viva o dia!/ O único tempo do calendário/ que dispensa medição do tempo.

François Silvestre é escritor