Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Penso aqui com os meus botões (como diz aquele adágio) no que terão escrito os demais colaboradores deste prestigioso BCS — Blog Carlos Santos. É possível que algum ou outro, assim como eu, se encontre a esta hora quebrando a cabeça para honrar nosso compromisso dominical. Sim. O pensamento que tenho é este, o de que determinados escribas só conseguem enviar as suas produções literárias em cima da hora, já no próprio domingo. Isto a julgar pelo horário que nosso Editor libera as respectivas páginas desses meritórios manejadores do nosso alfabeto.
Tal detalhe, entretanto, não é nada da minha conta. O que importa é que são quinze horas e vinte e oito minutos deste sábado, 27 de dezembro de 2025, e eu (embora sendo uma coisa rara de ocorrer) não estou com minha crônica pronta. Encontra-se tão só em curso e, como se percebe, este sapateiro das letras vai descambando para a velha receita de escrever sobre as dificuldades com que volta e meia nos deparamos. Pois não existe ou existiu nenhum literato que não tenha recorrido a essa estratégia.
Mesmo os melhores entre os melhores se valeram deste recurso. Citando apenas dois cronistas de nossa freguesia, estou convicto de que os saudosos mestres José Nicodemos e Dorian Jorge Freire também lançaram mão desse artifício no intuito de construir uma página para os órgãos de imprensa com os quais colaboravam.
Especialmente José Nicodemos, que heroicamente sustentou a peteca de produzir uma crônica para o também heroico Jornal de Fato todo santo dia. Pois é. O Jornal de Fato, dando a César o que é de César, embora com uma tiragem mínima, deveras simbólica, é o único veículo deste município, quiçá do nosso estado, que ainda põe nas ruas uma edição impressa. Por último, Dorian era cronista dominical da Gazeta do Oeste. Claro que não ouso insinuar que estou ao nível desses dois beletristas. Nem na capacidade de criação nem na estilística.
Vamos em frente. No momento quem está em apuros sou eu. O Editor, há mais ou menos uma hora e meia, cobrou-me o envio desta sensaboria pelo WhatsApp: “Vai enviar texto?”, escreveu laconicamente.
O polígrafo Carlos Santos, além de jornalista, é um cronista meritório, um escritor de fôlego. O rapaz escreve diariamente, chova ou faça sol. Não raro fico basbaque com o poder de realização desse homem de imprensa e literato. Nunca me vi em maus lençóis, então não sei se eu conseguiria produzir uma crônica sem falhar uma só vez. Tenho para mim que não dou conta de tamanho desafio.
Difícil, contudo, é dar à luz uma crônica que caia no gosto de Natália Maia, minha sortuda noiva. Aqui no blogue, a propósito, o cronista preferido dela é o talentoso Odemirton Filho, autor de uma escrita leve e sintonizada com os temas do momento, ainda que escreva com regularidade acerca de acontecimentos pretéritos, memórias do arco-da-velha.
Imagino que é bom eu ficar por aqui. Afinal de contas, bem ou mal, estou chegando bem pertinho de uma página e meia com essa tática de redigir, na maior parte do tempo, sobre o próprio ato de escrever. Acho que o meu Editor e os pacientes leitores perdoarão esta malandragem inofensiva.
Pavilhão Vitória ficava na Praça Rodolfo Fernandes, sendo ponto de encontro durante muitos anos (Fotomontagem BCS)
Benfazejas são algumas lembranças; fazem-nos recordar momentos e pessoas especiais. Sim, aprecio e fico feliz quando os leitores navegam comigo nesse mar de tempos idos.
Por quê? Porque o cotidiano é tão repleto de dificuldades, sobretudo de silenciosas batalhas subjetivas, que reviver momentos singulares acalma o coração. Quem não gosta de relembrar pessoas queridas? Pessoas que se foram, deixando uma lacuna imensa em nossas vidas? Pois bem, sempre procuro trazer a este blog textos livres, leves e soltos.
Sei que aqui e acolá faço alguma crítica. Contudo, faço de forma geral, sem ofender a honra de quem quer que seja. Já bastam a intolerância e o ódio disseminados diariamente nas redes sociais.
No entanto, cada pessoa tem o seu estilo de escrever, o que respeito, diga-se de passagem. Mas prefiro cultivar na alma, paz, apresentando aos leitores uma crônica suave, que aqueça o coração.
Assim, inspiro-me em crônicas que falam sobre o simples da vida. Exemplo? Um trecho de uma das belas crônicas do inigualável Jornalista Dorian Jorge Freire, a seguir transcrito:
“Procurar a Mossoró de ontem, procurei (…), tirei do baú o meu terno de linho irlandês diagonal, branco, passado com muita goma, mandei engraxar por Chico Doidinho os meus sapatos Fox de bicos finos, passei Glostora nos ralos e raros cabelos e subi a 30 de Setembro a procura da Vigário Antônio Joaquim. (…) Digam onde estão os charutos de padre Mota, a gargalhada de Motinha, o riso bom de Manuel Leonardo, o cafeísmo de Negus, os comícios do velho João Leite? Benício Gago, seu reco-reco e seu jumento”?
E continua o mestre Dorian:
“A praça Pé Duro, depois Praça do Pax, virou Rodolfo Fernandes e perdeu sua dignidade. Porque perdeu, na avalanche, o Pavilhão Vitória, a voz de Jorge Pinto anunciando deslumbrantes tecnicolors, o bozó do Bar Suez, onde se vendia a cerveja mais gelada do mundo”.
Percebe-se que ele escreve sobre um tempo distante, do dia a dia de uma Mossoró ainda com ares de cidade interiorana. Talvez, poucos leitores tenham vivido esses momentos e conhecidos referidas pessoas.
Ademais, costuma-se dizer que antigamente o tempo passava devagar, quase parando, porquanto as pessoas tocavam a vida sem a correria dos dias atuais. Sentavam-se nas calçadas, na boquinha da noite, para jogar conversa fora e falar da vida alheia; aos domingos, reuniam-se em família para saborear um lauto almoço.
Por isso, veio-me à memória um texto do poeta Mario Quintana: “havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio da parede. Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo”.
O tempo deve ser um aliado; jamais, inimigo.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
Dorian Jorge Freire – jornalista e cronista (Foto: Arquivo do extinto Gazeta do Oeste)
Há tempos eu procurava entre os poucos livros da minha “biblioteca”, o livro Os Dias de Domingo, de autoria do Jornalista Dorian Jorge Freire. Em vão. Entretanto, um dos meus cunhados, Raphael Valério, fez-me a gentileza de adquirir um exemplar, num desses sebos virtuais. Para um apaixonado por crônicas, não ter no acervo o mestre Dorian é erro crasso, imperdoável.
Aliás, abro um parêntese em relação às crônicas. Alguns dizem que existem três ciclos históricos. O primeiro, de 1852 a 1897, tendo como fundadores: Francisco Otaviano, José de Alencar e Machado de Assis. O segundo, de 1897 a 1922, com: Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto e Orestes Barbosa. O terceiro, de 1922 a 1945: Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Antônio de Alcântara Machado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. E o último ciclo, de 1945 até a década de 1970, com Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Sérgio Porto, Antônio Maria e José Carlos Oliveira.
Pois bem, voltemos a Dorian, que, para mim, está entre os cronistas do último ciclo. Sim, eu li o livro há muitos anos, agora, reli. Conforme já disseram, “temos que abrir o livro, aí eles despertam. Ler e reler. Reler melhor do que ler”. E Dorian continua insuperável na arte de escrever torneando frases, resgatando lembranças de tempos idos.
Numa de suas crônicas sobre Mossoró, revolvendo fatos pretéritos, ele escreveu:
“Mas a cidade mudou. Que mudou. Mudou. Por mais que eu procure nos becos e vielas, nas ruas da merda, no beco do pau não cessa, extensão do beco de Jeremias cego, não encontro sinhá Maria o boi bebeu. E nas caladas da noite de minha praça da Redenção, nunca mais voltei a ouvir o cantochão de Zé Alinhado”.
E continua a navegar no mar de lembranças:
“E o Bar Brahma? E Casablanca? Cadê todo o meretrício que ganhou de Américo de Oliveira Costa o nome de Art Nouveau, embora os seus exercícios fossem velhos como o mundo? Art Nouveau, Alto Nu Vou, Alto Louvor, rasga, lá em cima. Tudo desaparecera. Sumira. Mergulhara terra adentro, na sepultura aberta pela modernidade”.
O Alto do Louvor não foi do meu tempo de rapaz. Na minha época de estripulias estava decaído. Todavia, alguns leitores mais experientes do que eu, devem lembrar.
Já os meus dias de domingo, à época da minha infância e juventude, foram vividos na rua Tiradentes, no centro de Mossoró. De lá, sobejam lembranças. Quais? A vitrola do meu vizinho, Cesário, de dona Odete, a tocar músicas de Nelson Gonçalves e Lupicínio Rodrigues; o almoço em família (carne de sol com arroz de leite ou galinha); os primos que se esbaldavam na pequena piscina; depois do banho, saboreávamos o bolo de leite preparado por minha estimada Socorro.
Ah, e o pé de seriguelas do quintal da minha casa. Talvez, ele tenha sido o mais querido, o mais alegre, o mais terno amigo de minha infância, diria Rubem Braga.
À tarde, eram os vesperais no Cine Pax. Boquinha da noite, juntamente com meus pais, íamos à sorveteria do Juarez; à pizzaria de Patrício, o português; sem esquecer das Missas na Catedral de Santa Luzia. Ao término da Celebração Eucarística, a turma jovem ficava na praça, flertando, para usar uma expressão de antigamente. Nas cidades interioranas, sobretudo nas menores, a praça da Igreja Matriz sempre foi um local de encontro. E todos eram conhecidos, sabíamos quem era filho de fulano ou beltrano.
Por derradeiro, permita-me transcrever um fragmento do prefácio do livro de Dorian, escrito por Nilo Pereira:
“Lendo (ou melhor relendo) as crônicas de Dorian Jorge Freire, sinto que estou diante de um fenômeno diversificado: há o cronista propriamente dito, o homem de luta e de convicção, o observador inteligente da vida, o filósofo, o cristão, o escritor, sempre voltado para as agonias do nosso tempo”.
Eu assino embaixo. E dou fé.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
Jaime Hipólito Dantas em sua biblioteca (Fotomontagem do Blog Papo Cultura)
Jaime Hipólito Dantas; dá tristeza andar tão esquecido o contista mais rematado que nunca existiu em Mossoró. No mais, crítico literário de altos méritos, pelo que é possível dizê-lo, sem dúvida nenhuma, à altura dos maiores, do Rio Grande do Norte e de fora.
Seu livro de contos “O Aprendiz de Camelô” ficou mesmo na primeira edição, se Mossoró pudesse dar-se ao luxo de relegar ao esquecimento o valor mais alto da sua literatura de ficção, se o leitor se der ao trabalho de examinar-lhe os contos como estrutura artística.
Quer do ponto de vista da estrutura interna, quer da estrutura externa, são os contos de Jaime Hipólito, em cada grupo temático, legítimas obras de arte literária, que não têm inveja às melhores do gênero, não só produzidas por estas bandas. Direi, sem medo de errar, trata-se do literato mais perfeito e rematado que Mossoró ainda produziu, opinião que era também do nosso inigualável estilista Dorian Jorge Freire, correspondente à possibilidade dos mais elevados conceitos sobre o contista de Mossoró.
Seu conto “A Tragédia do Negro Jesus”, em que tematiza uma época marcada pelas lutas sindicais, pode-se considerar uma pequena obra-prima, pela possibilidade de linguagens, urdidas com os traços do elemento humano, que caracterizam, decerto, a verdadeira obra de arte literária, atenta a criação literária como interpretação da vida pelo prisma da arte. É bem para dizer que Jaime Hipólito , sobre ser um ficcionista de largo faro humano, era também um teórico da literatura, fartamente lido nos mestres de mestres.
Assim é que coisa é muito para lamentar a inversão de valores que ora se vê em nossa cidade, atingindo em cheio esse vulto patrimonial da cultura mossoroense, que vem ser Jaime Hipólito Dantas. No último, em data, vestibular da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, sirva de exemplo, em que se pretendeu incluir um autor da cidade na lista dos autores literários indicados, desprezou-se Jaime Hipólito ou, seria melhor dizer, humilharam-no, preferindo às suas letras um valor menor, menorzinho.
Desculpem-me a maneira franca de encarar as coisas. Não é de admitir uma cidade que tem tradição em matéria de letras literárias, hoje com quatro instituições de educação superior, e coisa e tal, venha trocar ouro de lei por cobre. Desvirtuando-se do seu passado e do seu presente no que diz à referência intelectual.
Urge reabilitar, para esta geração nova, estudiosa, a obra e o nome de Jaime Hipólito Dantas, com Dorian Jorge Freire, as legítimas referências literárias da Mossoró.
Somos uma cidade com pretensão a capital brasileira da cultura.
José Nicodemosde Souza foi professor, vereador em Areia Branca, escritor, jornalista, poeta, cronista e contista com atuação em jornais de Mossoró como O Mossoroense, Gazeta do Oeste e De Fato, falecido nesse sábado (18) – veja AQUI.
*Crônica originalmente publicada no Jornal de Fato de 20 de dezembro de 2006, republicada por nós em sua homenagem.
Estou próximo de completar 39 anos de atividade continua no jornalismo e 17 desta plataforma – www.blogcarlossantos.com.br. Dei-me conta há poucos dias que os 40 estão rondando por aí. Sinceramente, não sei se chego lá. Dobrei o Cabo da Boa Esperança e estou na etapa final, quase uma prorrogação.
De verdade: nunca imaginei tanto nessa longa estrada da existência terrena e numa atividade profissional que não estava nos meus planos mais primários.
Até pensei, menino mirrado e asmático que fui, adolescente também, que jamais chegaria tão longe na vida. E, nesse ofício, menos ainda.
O jornalismo me salvou, me abduziu, me deu a chance de viver com apetite e querendo viver mais. De ser feliz, mesmo quando os manchetes do meu íntimo diziam: “Não. Não vai dar certo.” É meu lazer, meu parque de diversões. Onde me encontro e reencontro-me todos os dias.
Sigo aprendiz, sobretudo porque gosto da companhia e dos ensinamentos dos mais jovens. Mas, impossível esquecer o encantamento com professores como Cassiano Arruda Câmara, Dorian Jorge Freire, Jaime Hipólito Dantas, Givanildo Silva, Aluízio Alves e Vicente Serejo, por exemplo. Ricardo Kotscho, Luiz Fernando Imediato, Hélio Fernandes, Mauro Santayana, Elio Gaspari, Sylvio Costa, David Nasser, Gilberto Dimenstein, Carlos Lacerda…
Quero mais e mais fazer o que faço no webjornalismo, no rádio e televisão. Sem esquecer a escola do jornal impresso, a experiência inovadora e surpreendente do Herzog Press (jornal via fax que lancei em fins dos anos 90).
A disposição física não é aquela de décadas. Mas, o apetite em aprender, a curiosidade, a febre da reportagem, o detalhismo da textualização, o foco no título, o zelo nas legendas e fotos, tudo continua como antes.
Tive frustrações, tentei largá-lo, senti-me atraído pela advocacia, mas a paixão e um pouco da razão de viver me chamaram de volta. Puxaram-me uma, duas, três vezes ou mais às redações.
Desisti de desistir. Chega.
Eloísa, meus filhos, netos, amigos, webleitores, por favor não fiquem com ciúmes. Essa não é uma crônica que menospreza vocês, mas uma confissão de amor para me sentir vivo.
Já disse e repito: enquanto der, dará.
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Dorian morreu aos 71 anos de idade (Foto: Arquivo do extinto Gazeta do Oeste)
Há exatos 18 anos (24 de agosto de 2005), falecia em Mossoró, o escritor e jornalista Dorian Jorge Freire. Nascido em Mossoró em 14 de outubro de 1933, filho de Jorge Freire de Andrade e da professora Maria Dolores Couto Freire de Andrade, Dorian iniciou a sua vida no jornalismo nos passos do pai. Logo aos 12 anos de idade já ocupava uma coluna no jornal O Mossoroense.
Ao longo da sua vida, morou no Rio de Janeiro e São Paulo, onde se firmou como um jornalista combativo e de grande estilo. Entrevistou figuras importantes como Jânio Quadros, Aldous Huxley e Jean-Paul Sartre (Prêmio Nobel de Literatura).
Também manteve contatos com Fidel Castro, Elizabeth II, Craveiro Lopes, Raymond Cartier e Greene. Foi fundador, juntamente como Alceu de Amoroso Lima e Samuel Wainer, do jornal Brasil Urgente, um dos precursores da imprensa independente do país.
No Rio Grande do Norte escreveu para os jornais Tribuna do Norte, O Mossoroense e Gazeta do Oeste. Dorian faleceu aos 71 anos de falência múltipla dos órgãos.
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Apesar de ter publicado dois livros, escritor não sou. Repito o amigo e também jornalista – Jânio Rêgo: “Sou prisioneiro do ‘lead'”. Jornalistas me entendem.
Ah, gostaria, sim, de ser um romancista! Talento algum. E aqui, deixe-me ser claro: não é caso de humildade, mas de crença.
Por vezes em que me chamam para fazer alguma palestra (palestrante não sou), até me apresentam como escritor. Sempre, de chofre, faço reparo:
– “Eu não sou escritor. Apenas publiquei dois livros.”
Da poesia, do canto, duas outras paixões, também fui vetado.
Falam que existe a “inveja boa”. Discuto.
Sinto admiração, uma completude no talento que não me pertence, mas que me encanta.
Isso é inveja boa?
Inveja boa é o pecado disfarçado. Jogo semântico.
Os felizes com a magia alheia sorriem para ela.
Aplaudem-na.
Eu aplaudo e meus olhos brilham com a poesia de Paulo de Tarso Correia de Melo, Cid Augusto, Antônio Francisco e Aluísio Barros (virou bissexto na produção).
A prosa de Tarcísio Gurgel, o romance de Marcos Ferreira, a crônica escultural de Vicente Serejo, o detalhismo histórico romanceado de José Almeida Júnior; Dorian Jorge Freire e Jaime Hipólito – sacrários de minha infância ainda, quando não imaginava que um dia poderia escrever e ser lido. Honório de Medeiros: único.
Tantos, tantos outros. Eu, tantinho assim.
Sou prisioneiro do lead. Do jornal impresso, revistas, do rádio, da televisão – episodicamente. Da blogosfera há uma infinidade de tempo
Eu não sou escritor. Infelizmente!
Carlos Santos é fundador e editor do Canal BCS – Blog Carlos Santos
Vez ou outra me lembro das manhãs de domingo doutros tempos. Lá pelas nove horas, do meu quarto, eu ouvia o som de uma radiola, a tocar discos de vinil. Eram músicas “das antigas”. Tocava-se Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues, Altemar Dutra, entre outros.
A música vinha lá da casa dos meus vizinhos, seu Cesário e dona Odete, ali, em frente à praça Felipe Camarão, “a praça dos ônibus”, como se conhece hoje em dia. Sinceramente, eu não conhecia aquelas músicas. A minha cultura musical, sobretudo, na infância, não é lá essas coisas. Meu pai é que me falava de quem eram as músicas e seus compositores. Ele ouvia e viajava, lembrando do seu tempo de rapaz.
Hoje em dia, poucos escutam esse gênero musical, creio eu. Só os mais experientes na vida. A maioria da galera jovem curte outros estilos, como o sertanejo, o piseiro e a sofrência. Enfim. Deve-se respeitar, gostando-se ou não das baladas atuais.
As manhãs de domingo trazem, ainda, a lembrança da leitura dos jornais da cidade. Eu lia o Jornal Gazeta do Oeste e a coluna de Canindé Queiroz. O Mossoroense, com Emery Costa. E lia, lia pra valer, Dorian Jorge Freire. Talvez, o nosso maior jornalista. De vulto nacional. Um cronista de mão cheia.
Aliás, dia desses, foi republicada aqui neste espaço, uma crônica do mestre Dorian sobre Mossoró (veja AQUI). Reproduzo um fragmento, para o nosso deleite:
“Estarei falando demais de Mossoró? Conversa! De Mossoró fala-se sempre de menos. Deve estar acontecendo que o meu subconsciente não aprova a minha ausência. Não aprova que eu fique longe do 30 de setembro, longe de Santa Luzia, longe das valsas de Zé de Ana, longe das matinês do Ipiranga, longe dos bailes da ACDP, longe do sol da seca ou da água da inundação”.
Eis a tinta indelével de um cronista de escol. Eu Conheci Dorian e a sua Maria Cândida. Fui apresentado à sua imensa biblioteca, no casarão da rua 30 de setembro. Entre milhares de livros, ele ficava absorto em suas leituras. Não por acaso, temos uma estátua em sua homenagem, em frente à Biblioteca Municipal. Justíssimo!
Pois bem. Eu ouvia a fina flor da música e lia o melhor da nossa literatura paroquial. Nem me dava conta de tamanho privilégio. Eu até procurei, na bagunça da minha pequena estante de livros, o exemplar de Os Dias de Domingo, do mestre Dorian, para relê-lo. Não o encontrei, para o meu desalento.
De todo modo, ficaram as lembranças daquelas manhãs de domingo.
Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça
Lembrando Pedro Nava, eu sou mossoroense “de propósito”. “Só de mal”, como diria meu querido Guido Leite, assassinado impunemente.
Não poderia ter nascido em outra parte. Nem no Aracati de meu Pai, nem em São Paulo de minhas saudades mais leais.
Definitivamente, Mossoró.
Conhecendo – como Jaime Adour da Câmara – Oropa, França e Bahia, sendo tiete das velhas cidades mineiras e também de Olinda, Alcântara e São Luís, minha opção preferencial é sempre por Mossoró.
Paris, eu amo antes da primeira vista. Florença, amor à primeira vista. Ainda assim, sou mais Mossoró.
Dirão que há, em Paris, o Café Procope. Mas eu fico com o Café Tavares.
Ainda em Paris, encontramos as ruas St. Séverin e St. Jacques, roteiro de Dante. Mas eu prefiro a 30 de Setembro.
Cortot? Temos o Beco de Jeremias Cego. Chevalier de la Barre? Vicente Sabóia.
Mossoró não me deu apenas a certidão de nascimento. Deu-me, também, o seu temperamento. E, uma a uma, as suas idiossincrasias.
Sou vidrento como Mossoró é vidrenta. E não sou exceção. Qualquer mossoroense é assim.
Em São Paulo, por exemplo, o velho Estevão Cruz colecionava rótulos de Cerveja Mossoró, que lavava com as suas lágrimas. No Recife, um grupo chefiado por Mário Marques tem reuniões sucessivas em Boa Viagem para falar em Mossoró.
No Rio, no bairro de Ipanema, Raimundo Nonato não falava em outra coisa dia após dia – Mossoró, Mossoró, Mossoró. Em Brasília, 24 horas diárias, Vingt Rosado faz mossoroísmo. Wilson Lemos, exilado há mais de 30 anos, telefona dos confins de Mato Grosso para pedir notícias.
Meu Pai, cearense, vivendo seus últimos dias no país do sul, pedia que as suas cinzas e sementes fossem plantadas em Mossoró. Jaime Hipólito Dantas, em Natal desde março, trancado em seu apartamento, curte as saudades mais melancólicas.
Não é bairrismo. É mania. Mania? É vício. Os mossoroenses somos viciados em Mossoró.
Disseram – parece que foi Grimaldi Ribeiro – que Vingt Rosado era um deputado municipal. Vingt inflou de orgulho.
Duas vezes impediram Dix-huit de governar o estado. Sabem a resposta mossoroense? Duas vezes fizemos Dix-huit nosso prefeito.
Dias atrás anunciaram que o meu exílio natalense estava no fim e que eu voltaria para Mossoró. Foi um alvoroço no meu coração e lá em casa. Os netos vibraram, o pé de cajá deu uma carga temporã, os coelhos ficaram mais ativos, o canário – mesmo belga! – cantou o Hino Nacional com o charme da Nova República de Fafá de Belém. E meus 10 mil livros? Machado valsou com Colette, num assanhamento que só vendo.
Não sabem os filisteus e saduceus, os nefelibatas, que exílio de mossoroense é marcado pela transitoriedade? Mossoroense está sempre voltando à sua terra. Senão em vida, na força do homem e da mulher, no molho de ossos bem lavados. Basta encostar o ouvido no chão, que há o chamado da terra.
Estarei falando demais de Mossoró? Conversa! De Mossoró fala-se sempre de menos. Deve est ar acontecendo que o meu subconsciente não aprova a minha ausência. Não aprova que eu fique longe do 30 de Setembro, longe de Santa Luzia, longe das valsas de Zé de Ana, longe das matinês do Ipiranga, longe dos bailes da ACDP, longe do sol da seca ou da água da inundação.
Sei que não faço falta, que há 180 mil irmãos voluntários da pátria a serviço do capitão Dix-huit. Ainda assim…
Ainda assim, Mossoró. Mossoró, sempre.
E se me permitem, deixem que eu puxe a memória e lembre histórias. Não sou dos fundadores da cidade, nem vi bangolando por estas capoeiras os índios monxorós, nossos bisavós. Mas prestei, calado, muita atenção a conversas dos mais velhos. E arquivei na memória alguma história e muitos causos.
Sei que éramos simples e cordiais, hospitaleiros, que pensávamos que o visitante poderia ser Nosso Senhor e era preciso acolhê-lo carinhosamente, com renda limpa, lençol cheiroso, água fria e café quente.
Sei também que vivíamos em paz uns com os outros, embora não habitássemos o Paraíso e vez por outra caningássemos com nossos irmãos em querelas sempre terminadas ao redor de uma tapioca.
Essa situação indiscutivelmente cordial, partida só de quando em vez por encharcamento mais febril, subsistiu até os anos 40, começo da dezena seguinte. Quando éramos mais ou menos 30 mil orgulhosos mossoroenses.
Respeitávamos o prefeito, venerávamos o bispo, temíamos o delegado de polícia, confiávamos no juiz, admirávamos os intelectuais, estimávamos os tipos populares, amávamos as mulheres e não trancávamos nossas portas nem nossos corações.
Mas veio a política roxa sucedendo a queda da ditadura. PSD de um lado, do outro UDN, e o mais era enfeite. E veio a ambição do poder, a disputa acesa como brasa de acender o pito. Começou, então, a ciranda do desaforismo. Em crescendo. Cada vez mais agressivo, mais contundente. Era doutor Tarcísio contra doutor Nicodemos. Era Walter Wanderley contra Mário Negócio. Eram Mota Neto, José Luiz, Dix-sept .
Dois jornais se digladiavam. Afora eles, havia os folhetins, os alto-falantes, os comícios perigosos. Um boletim surgia contra um, dissecando um sabujo. Menos de 12 horas depois, vinha a resposta furiosa: dissecando um cadáver. Parecia até que a política municipal se fazia num Instituto Médico-Legal…
Foi a partir daí – lembro – que começou a invadir a cidadezinha, antes serena e boa, hospitaleira e cristã, um cheiro de rosas machucadas das que enfeitam a morte antes de enfeitarem a vida. Seguido do cheiro aziago de vela de velório.
Mau presságio. Todos tínhamos nossos partidos, todos estávamos partidos e repartidos pelas paixões inflamadas, mas não havia ninguém que quisesse ir ao enterro do outro. E quando a coisa descambou da política para caso de polícia, os contendores receberam convite do padre Mota, ex-prefeito de M ossoró e vigário-geral da diocese, para uma conversinha.
Todos atenderam ao chamamento. Iam chegando à casa do gordo padre, que os esperava, despreocupado, fumando seu charutão e indo lá dentro buscar a cadeira para escutar o cura d´aldeia.
E levavam um baita carão:
– Tenham modos! Vocês não são crianças! Lembrem-se que todos somos uma mesma família, sem Caim, só Abel.
Todos ficavam com os olhos no chão, feito Capitu. E um a um, cada qual foi levando sua cadeira lá para dentro e saindo com o sorriso irmão do grande padre.
Por que rememoro isso? Por nada, nadinha. Apenas para lembrar, mossoroense que sou desde o início dos tempos.
Como todo operário da palavra, o cronista escreve pensando em determinado grupo de leitores. Em algumas ocasiões, feito agora, ele pensa num leitor específico. Na verdade, para ser sincero, hoje eu penso numa certa leitora que esses dias, por telefone, desferiu contra mim uma saraivada de reprovações às minhas crônicas. Leitora esta que, vez por outra, assina um texto desse gênero.
Trata-se de uma jornalista experiente, cobra criada, e que maneja medianamente bem o nosso idioma. Mas entende tanto de literatura quanto de engenharia atômica. A mulher, entre outros pontos que lhe desgosta, acha um grande saco (expressão dela) essa coisa de eu dialogar com meus hipotéticos leitores, referindo-me a estes por meio do vocativo “prezado leitor e gentil leitora”. Pois é, a tal jornalista acha essa sintonia um negócio meloso, cacoete terrível, algo piegas.
Não sei até que ponto ela está certa ou errada. De repente, convenhamos, outras pessoas podem pensar assim. Esse ofício de cronista, a exemplo do que ocorre em qualquer ramo de arte, tem seus dias de glória e de fracasso, feedbacks bons e alguns bastante ruins. E estes últimos, se a gente não tiver humildade e convicção do que é e faz, podem sepultar a carreira de um autor inseguro.
São estes, digamos, os ossos do ofício. Claro que a jornalista, das mais competentes que conheço nesse ramo, não tem má vontade em relação a mim, não lhe passa pela cabeça o propósito de me fazer parar de escrever. Apenas, num rompante de sinceridade, desabafou. Notei que aquilo estava reprimido há um bom tempo, entalado em sua garganta, sem que ela tivesse coragem de me jogar na cara suas impressões acerca do meu exercício literário enquanto cronista.
Não sei, por sinal, o que ela acha da minha produção em versos e da prosa de ficção. O que dirá dos meus sonetos? Será que conhece e tem algum juízo sobre meus contos? Quem sabe esteja represando outros pareceres negativos e qualquer dia resolva me fuzilar com novo desabafo. Careço dizer, entretanto, que a crítica foi construtiva, embora suave como papel de embrulhar pregos.
— Vá tomar naquele canto! — disparou.
Isso me foi dito não de maneira rude nem chula, mas brincalhona, como é próprio da sua personalidade forte e sem muito asseio verbal. De fato, além de outros pontos que não me animo a citar, a questão do vocativo, do meu diálogo com os leitores, foi o que mais a tirou do sério. Espero que esta réplica não soe como revanchismo da minha parte, entretanto estou certo de que essa leitora, que possui inteligência acima da média, é bem pouco versada em matéria de crônicas.
Não quero me comparar aos monstros adiante, todavia, em se tratando de diálogo com os leitores, imagino que a competente e vocacionada jornalista curitibana nunca leu, sobretudo, as crônicas de Machado de Assis, de Rubem Braga, de Antônio Maria, de Fernando Sabino ou de Otto Lara Resende. Nem de José Nicodemos nem Dorian Jorge Freire. Se leu, não assimilou muita coisa.
É possível, e isso é absolutamente compreensível, que ela simplesmente não goste das minhas crônicas, do meu estilo ou falta dele. Pronto! Acabou-se! O que se há de fazer? Nada. Seria tão só uma questão de gosto, o que nem sempre é discutível. Há autores, nacionais quanto estrangeiros, tidos como mestres da literatura, de que eu, por questões muito pessoais, não gosto. Até os respeito e reconheço como nomes de relevo, porém, ao fim e ao cabo, não me agradam.
Que dirá um Ferreira (ou ferreiro) das letras. Ainda assim, modéstia à parte, por intimidade e ambiência com o mundo literário, possuo certo tirocínio e discernimento. Por exemplo, sei quando um jornalista com aspirações a escritor (ou a escritora) tem e quando não tem talento para a literatura de verdade. Há jornalistas que são ótimos escritores e vice-versa, outros são uma só coisa.
Conheço indivíduos que têm o dom do jornalismo, como é o caso da mulher com quem conversei ao telefone, porém não passam disso. Tais pessoas são craques no texto puramente noticioso, informativo, sabem fazer uma matéria benfeitinha, etc., entretanto, quando se aventuram no campo da literatura, dão com os burros n’água. Não têm talento para a escrita verdadeiramente literária. Até escrevem uns artiguetes bonitinhos, contudo ficam nisso. Feito minha leitora curitibana.
Repito que a crítica que recebi foi construtiva. Tanto que agora está me rendendo, goste ou não a sinceríssima jornalista, uma nova crônica. Porque até as críticas negativas que a gente recebe podem servir de aprendizado ou aprimoramento. Precisamos apenas aguentar o tranco, assimilar o golpe e tocar o barco. Que a minha amiga não se aborreça ao ler estas páginas a ela dedicadas.
— Vá tomar naquele canto! — não fui.
Imagino que a jornalista há de se reconhecer diante deste texto como se estivesse em frente a um espelho. Mesmo eu tendo lhe preservado o nome e o veículo de comunicação para o qual trabalha na capital paranaense. Talvez ela diga de si para consigo que “quem fala o que quer ouve o que não quer”, como reza o ditado. Mas acredito que ela, bem-humorada que é, levará isso na esportiva e dará uma de suas gostosas gargalhadas ao deparar com esta crônica que me inspirou.
Acho justo lhe render tal homenagem, ainda que se tratando de crítica negativa, embora construtiva. Pois lembro que já escrevi textos referindo comentários elogiosos que recebi de leitores por ocasião de narrativas publicadas no Canal BCS (Blog Carlos Santos) e na Revista Papangu, do Túlio Ratto. Hoje, após a morte dos veículos impressos, a Papangu ressurge em suporte eletrônico.
Pois é, prezado leitor e gentil leitora, fui desancado sem piedade. Entretanto, embora depois eu receba mais uma ligação implacável da minha amiga jornalista, aqui vai outra vez o vocativo que a transtornou. Não interromperei, em virtude de uma só crítica negativa, o meu diálogo com os amigos leitores. Ache ruim quem quiser. Sugiro que minha amiga curitibana vá ler Machado de Assis, Rubem Braga, Antônio Maria e outros ases da crônica nacional. É o remédio.
Quando meu pai e minha mãe morreram, exatamente nesta ordem, ele com apenas cinquenta e quatro anos de idade e ela com sessenta e dois, demorei alguns anos até conseguir escrever umas linhas (versos, aliás) sobre a partida e a ausência de ambos. Uma ausência irremediável e nunca confortada.
Senti algo semelhante, no sentido de me ver bloqueado, sem palavras, por ocasião do passamento dos mestres Dorian Jorge Freire, Raimundo Soares de Brito e Vingt-un Rosado. Pois é. Foram estes os três primeiros indivíduos de grande representatividade nos meios intelectuais de Mossoró que enxergaram o meu então microscópico talento naqueles começos da minha aparição nas letras.
Raimundo Soares de Brito (carinhosamente sintetizado Raibrito) recortava todas as poesias e croniquetas que eu publicava aos domingos no caderno de cultura do Jornal O Mossoroense. “Você precisa publicar um livro com essas produções”, disse-me ele uma vez. Algum tempo depois, com apoio financeiro de Vingt-un, lancei o meu primeiro livro, Um Poema de Presente. Isto em 1996.
Dorian Jorge Freire, por mais de uma vez, brindou-me com notas de estímulo à minha escrita em sua coluna dominical na Gazeta do Oeste. Até que um dia, quando a Petrobras se ofereceu para relançar um livro de crônicas do emérito estilista, Os Dias de Domingo, o próprio Dorian fez este pedido a Clauder Arcanjo, então gerente da Base-34: “Quero que Marcos Ferreira seja o revisor”.
Ou seja, uma demonstração e tanto de prestígio, uma enorme honra e carinho para com um ex-sapateiro e Dom Pixote da literatura. Que me perdoe o prezado leitor Amorim, que há poucos dias me deu um carão aqui no Canal BCS (Blog Carlos Santos) por eu haver me autoproclamado Dom Pixote.
Todo este nariz de cera, chamemos dessa forma, é para evocar a memória de outro grande homem, filantropo e mecenas da cultura mossoroense, embora sempre discretíssimo nas suas ações: Milton Marques de Medeiros, o Menino do Poré, falecido aos 22 de abril de 2017, “a pouco menos de três meses de completar 77 anos”, conforme noticiou o Blog Carlos Santos no último 3 de julho.
A exemplo de Vingt-un, Raibrito e Dorian Jorge Freire, o Dr. Milton Marques não tardou a conquistar minha admiração e benquerença. Sobretudo após nos tornarmos mais próximos devido à nossa participação enquanto articulistas da Papangu, no início de 2004. Milton assinava a coluna Entrelinhas.
Assim como Dorian Jorge Freire, o Menino do Poré confiava a mim a revisão dos escritos que enviava, por e-mail, à revista do Túlio Ratto: “Ferreira, dê uma olhada aí, por favor. Escrevi meio à pressa. Deve ter algum escorrego”, dizia-me, vez por outra, algo desse tipo em telefonema para a redação da Papangu. Dificilmente eu encontrava qualquer escorrego. Texto limpo, de boa sintaxe.
Um pouco antes, véspera da minha estreia na Revista Papangu, Milton me convidou a entrevistar, junto com ele e o jornalista Marcos Antônio, da Rádio Rural, o professor João Batista Cascudo Rodrigues, de saudosa memória, para o canal TCM – TV Cabo Mossoró. Foi uma das seis primeiras entrevistas do marcante programa “Mossoró de Todos os Tempos”, apresentado por Milton.
Imaginem uma coisa dessas, prezado leitor e gentil leitora. Eu, um tímido incurável, que nunca ousara pedir uma música no rádio, súbito me vi diante de uma câmera de televisão. Era manhã, 22 de novembro de 2003. Ouvimos o entrevistado na Fundação Ozelita Cascudo Rodrigues, situada no Centro.
O depoimento de João Batista, impelido pela boa atuação dos outros dois entrevistadores, eu entrei mudo e quase saí calado, foi de uma riqueza ímpar. Sobretudo pela vasta cultura de João e por sua enorme capacidade de juntar o passado com o presente, num belo desfile de experiências e recordações.
Transcorridos vários anos, no finzinho do primeiro semestre de 2016, os papéis se inverteram e passei à condição de entrevistado do “Mossoró de Todos os Tempos”. Uma noite, ao nos reencontrarmos num evento cultural nesta urbe, Milton me convidou. E lá fui eu, de novo, para diante das câmeras.
Houve outras oportunidades em que Milton demonstrou atenção e carinho para com a minha pessoa e meu exercício literário. Foi desse modo enquanto atuei como editor de cultura, durante três anos, à frente do caderno Universo, em O Mossoroense, como também durante os mesmos três anos que passei ajudando a editar a brava Revista Papangu, ora de volta em plataforma eletrônica.
Ainda em 2016, ao me envolver na arriscada aventura de realizar a edição comemorativa de dez anos do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que em 2005 conquistou o primeiro lugar nos “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, sendo lançado no ano seguinte pela editora da Universidade Federal do Amazonas, Milton tocou no meu ombro e disse: “Conte comigo, Ferreira”.
Não só me disponibilizou os jardins da TCM para a noite de autógrafos, isto no dia 11 de novembro, como adquiriu significativa quantidade de exemplares. Nessa noite, entre outras personalidades da cultura mossoroense, como Elder Heronildes, Wellington Barreto e o saudoso João Sabino, falecido recentemente, Milton pediu a palavra e fez uma tocante apresentação deste autor.
Esse notável Menino do Poré, cuja simplicidade e bom trato humano lhe eram apenas duas entre tantas características admiráveis, está fazendo enorme falta a esta província tão carente de figuras sensíveis às letras e às artes como um todo. Era um homem imprescindível o Dr. Milton Marques.
Esta pequena e extemporânea homenagem deságua do meu peito agora em que me chega às mãos, com afetuosa dedicatória da amiga Zilene Medeiros, viúva do homenageado, a edição póstuma de Memórias de Milton Marques de Medeiros — O Menino do Poré, obra organizada pela jornalista, youtuber e escritora Lúcia Rocha. Belíssima história de vida de um cidadão fora de série.
Hoje, portanto, decorridos mais de quatro anos do falecimento do médico, do pai amoroso e marido de toda uma vida, homem de letras e autêntico visionário Milton Marques de Medeiros, peço licença ao prezado leitor e à gentil leitora para ofertar este singelo e emotivo tributo a tão estimado amigo.
Assim, caro Menino do Poré, onde quer que você esteja, saiba que não esqueci de você. Um grande abraço e até qualquer dia.
Estou hoje, recolhido no meu “cantinho”, na praia do meio, em Natal. Isolado do mundo. Diferente de tantas outras vezes, em que do meu pequeno, porém aconchegante apartamento, me mostrava um cenário de uma beleza sem par.
Ao fundo a ponte Newton Navarro, o estuário do rio Potengi e a beleza do majestoso oceano, que em dias ensolarados, como hoje, limpava a vista, extasiado com a beleza da cor verde azulada do sagrado mar.
Só que hoje, o que vejo é um cenário totalmente diferente. Triste, interrogativo e indefinido. Mesmo assim, esperançoso, pois sou um homem de fé.
É que apesar de ter tomado duas doses da vacina para a Covid-19, o cuidado de sempre usar dupla máscara, preocupado com o distanciamento social, até por pertencer ao grupo de risco, para minha surpresa, após um exame laboratorial, na tarde de hoje (sexta-feira, 6), testei positivo para a horrível praga.
Como a viagem não estava prevista, fui convocado de última hora por meus filhos e noras em caráter de emergência, alegando os mesmos que aqui teriam mais condições de me darem uma assistência maior. E é o que tem ocorrido.
Nessa mudança de endereço, que com a graça de Deus, creio, será temporária, deixei em Mossoró, meus livros de cabeceira, que nessas horas difíceis, serve como um verdadeiro bálsamo para o espírito. “Dias de Domingo” e “Veredas do meu Caminho” do mestre Dorian Jorge Freire, que segundo o professor Vingt-Um Rosado, era o gênio da raça mossoroense.
Esses companheiros que sempre conduzo comigo, no atropelo da viagem, deixei na terrinha e está me fazendo muito falta. Mas, como dizia no início dessa narrativa, hoje o que se apresenta para mim é um misto de dúvida e interrogação. A doença é cruel e traiçoeira.
Entra em nossa vida sem pedir licença, para infernizar nossos dias e nos privar de ver nossos entes mais queridos, razão maior de nossa vida nos dias atuais.
Deus, me deu a graça de ter Simone, minha companheira há 57 anos, dois filhos maravilhosos, duas noras admiráveis e quatro netos que todo avô gostaria de ter. Por isso mesmo, tendo a família formidável que tenho, acometido da terrível doença, me vejo questionando sobre a vida.
E sobre o tema, alguém usando o anonimato afirmou que: “A vida é imprevisível e é isso que a torna bonita. Não podemos saber o que o futuro reserva, portanto, tudo é possível. Não somos a mesma pessoa a cada acontecimento em nossa vida. Nos reinventamos constantemente depois dos tropeços, das dores, das feridas, dos dissabores, buscando na fé e na vontade de seguir, um motivo a mais para continuar nossa caminhada”.
Paulo Menezes é meliponicultor e cronista
Nota do Blog – Vai dar tudo certo, Paulo! Estamos todos na torcida e na fé!
Amém!
*Crônica (e Nota do Blog) publicada no dia 9 de maio último (veja AQUI), quando o autor revelou estar com a doença que acabou provocando sua morte no dia passado (veja AQUI). É uma singela homenagem do Nosso Blog, local que abrigou inúmeras crônicas e artigos seus.
Descanse em paz, Paulo.
Veja AQUI série de textos publicados por Paulo Menezes em nossa página.
Estou hoje, recolhido no meu “cantinho”, na praia do meio, em Natal. Isolado do mundo. Diferente de tantas outras vezes, em que do meu pequeno, porém aconchegante apartamento, me mostrava um cenário de uma beleza sem par.
Ao fundo a ponte Newton Navarro, o estuário do rio Potengi e a beleza do majestoso oceano, que em dias ensolarados, como hoje, limpava a vista, extasiado com a beleza da cor verde azulada do sagrado mar.
Só que hoje, o que vejo é um cenário totalmente diferente. Triste, interrogativo e indefinido. Mesmo assim, esperançoso, pois sou um homem de fé.
É que apesar de ter tomado duas doses da vacina para a Covid-19, o cuidado de sempre usar dupla máscara, preocupado com o distanciamento social, até por pertencer ao grupo de risco, para minha surpresa, após um exame laboratorial, na tarde de hoje (sexta-feira, 6), testei positivo para a horrível praga.
Como a viagem não estava prevista, fui convocado de última hora por meus filhos e noras em caráter de emergência, alegando os mesmos que aqui teriam mais condições de me darem uma assistência maior. E é o que tem ocorrido.
Nessa mudança de endereço, que com a graça de Deus, creio, será temporária, deixei em Mossoró, meus livros de cabeceira, que nessas horas difíceis, serve como um verdadeiro bálsamo para o espírito. “Dias de Domingo” e “Veredas do meu Caminho” do mestre Dorian Jorge Freire, que segundo o professor Vingt-Um Rosado, era o gênio da raça mossoroense.
Esses companheiros que sempre conduzo comigo, no atropelo da viagem, deixei na terrinha e está me fazendo muito falta. Mas, como dizia no início dessa narrativa, hoje o que se apresenta para mim é um misto de dúvida e interrogação. A doença é cruel e traiçoeira.
Entra em nossa vida sem pedir licença, para infernizar nossos dias e nos privar de ver nossos entes mais queridos, razão maior de nossa vida nos dias atuais.
Deus, me deu a graça de ter Simone, minha companheira há 57 anos, dois filhos maravilhosos, duas noras admiráveis e quatro netos que todo avô gostaria de ter. Por isso mesmo, tendo a família formidável que tenho, acometido da terrível doença, me vejo questionando sobre a vida.
E sobre o tema, alguém usando o anonimato afirmou que: “A vida é imprevisível e é isso que a torna bonita. Não podemos saber o que o futuro reserva, portanto, tudo é possível. Não somos a mesma pessoa a cada acontecimento em nossa vida. Nos reinventamos constantemente depois dos tropeços, das dores, das feridas, dos dissabores, buscando na fé e na vontade de seguir, um motivo a mais para continuar nossa caminhada”.
Paulo Menezes é meliponicultor e cronista
Nota do Blog – Vai dar tudo certo, Paulo! Estamos todos na torcida e na fé!
A Academia Mossoroense de Letras (AMOL), realiza nesta quinta-feira (06) a eleição para ocupação de duas de suas cadeiras vagas. A de nº 02, que teve como último ocupante o jornalista Dorian Jorge Freire e a Cadeira de nº 33, do pesquisador e poeta João Bosco Queiroz Fernandes.
Caio, Clóvis, Antônio e Vanda são os nomes concorrentes na eleição de hoje (Fotomontagem Facebook)
A votação ocorre das 8h às 17h na Biblioteca Pública Ney Pontes Duarte, onde fica a sede da Academia, mas o voto também pode ser enviado por e-mail para a Comissão Eleitoral até o horário limite da votação presencial (17h).
Concorrem às vagas o poeta e jornalista Caio César Muniz e o advogado Clóvis Vieira, para a Cadeira deixada por Dorian Jorge Freire e para a vacância de João Bosco Queiroz Fernandes a poetisa Vanda Jacinto e o poeta Antônio Francisco.
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Muniz: primeiro inscrito à concorrência (Foto: Web)
O escritor, poeta e jornalista Caio César Muniz concorrerá à Cadeira nº 02 da Academia Mossoroense de Letras (AMOL), que tem como patrono o também jornalista Jorge Freire de Andrade. Foi ocupada pelo seu filho Dorian Jorge Freire, maior referência do jornalismo mossoroense.
A abertura de inscrições foi anunciada na quinta-feira (28) pela Academia, numa solenidade com a presença de familiares de Dorian, que foi homenageado pelo advogado e acadêmico Paulo Afonso Linhares.
A concorrência promete ser acirrada entre os pretendentes à vaga do autor de “Os dias de domingo” e “Veredas do meu caminho”, obras que imortalizaram a maioria das crônicas de Dorian Jorge Freire em suas passagens por vários veículos de imprensa do país.
Academias
Trinta votos estão em disputa, tendo em vista que a AMOL tem ainda pelo menos dez vagas sem ocupantes ou ainda não assumidas por novos acadêmicos. A previsão de eleições é no início de fevereiro do próximo ano.
Caio César foi o primeiro concorrente a formalizar inscrição à cadeira.
Natural de Iracema (CE), ele é autor de vários livros, sócio-fundador da Poetas e Prosadores de Mossoró (POEMA), além de integrante da Academia Apodiense de Letras (AAPOL) e da Academia Iracemense de Letras e Artes (AILA) – da qual é o atual presidente.
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O capitão Jair Bolsonaro (PSL) marcha para uma vitória superlativa nas urnas no segundo turno. Um fenômeno. É provável que supere o recorde obtido por Lula da Silva (PT) em 2002, que à ocasião empalmou 61,27% dos votos no segundo turno, contra José Serra (PSDB).
O petista acumulou 52.793.364 de votos há 16 anos.
Sempre comentei e repeti (antes até de campanha e das eleições no primeiro turno), não acreditar que Bolsonaro chegasse à vitória. Como ele chegou até aqui com tamanha força?
Numa visão primária e muito simplista, muita gente fala no “antipetismo” como a razão dessa onda. O antipetismo é a centelha, não o substrato. O voto maciçamente no primeiro turno foi antissistema. Votação em todo o país mostrou isso. Aqui mesmo no RN.
O candidato do PSL soube galvanizar os diversos segmentos sociais e reforçou retórica palatável, populista, em contraposição à desesperança e indignação de boa parcela do povo, em relação ao status quo e à elite social, econômica e política de um país, o denominado establishment.
EM SOLO POTIGUAR, o protesto varreu vários nomes imbatíveis e ‘certos’ à vitória, ao mesmo tempo em que catapultou a senadora Fátima Bezerra (PT) para o segundo turno, como a mais votada, além de surpreendentemente eleger dois deputados federais por seu partido, Natália Bonavides e Fernando Mineiro.
Esse mesmo votante fez do general Eliéser Girão (PSL), porta-voz de Bolsonaro no estado, um dos campeões de votos à Câmara dos Deputados.
Na Câmara Federal, o PT foi o partido que mais elegeu parlamentares (56), mesmo com número inferior ao obtido em 2014, quando foram 69 os efeitos (13 a menos).
Com tal postura, o eleitor implodiu a “presidenta” Dilma Rousseff (PT) em Minhas Gerais, em sua tentativa de ser senadora, mas também enxotou Eunício Oliveira (MDB) no Ceará e Romero Jucá (MDB) em Roraima, que queriam se manter no Senado.
Como postamos na coluna da semana passada, “essa tsunami também não ficou localizada à esquerda ou a direita. Foi generalizada” (Leia: O caráter punitivo do “voto útil”).
Lá adiante, o tempo e estudos que vão além do achismo, darão um retrato mais consistente sobre esse período. Agora, tudo está ainda efervescente, em ebulição. Soa arrogante se fazer alguma afirmação categórica. A sociologia, a antropologia, a psicologia, a psicologia social, a ciência política, a história e outros ramos dos estudos sociais terão respostas mais sólidas posteriormente.
PRIMEIRA PÁGINA
Pesquisas para todos os gostos e propósitos – Na reta final de campanha, você escolhe a pesquisa que quiser. Tem para todos os gostos nesse mercado de secos e molhados da política potiguar. Temos pesquisas informativas (sérias), tracking (de monitoramento), para consumo interno, pesquisa de araque (só para divulgação em WhtasApp) e também pesquisa com registro e tudo o mais, feita para indução ao voto. Aproveite, aproveite!
Ex-candidata a vice-prefeito segue carreira docente – Rayane Andrade (PT), candidata a vice-prefeito de Mossoró na chapa de Gutemberg Dias (PCdoB) em Mossoró, no ano de 2016, está em fase conclusiva de mestrado em Direito Constitucional na Universidade Federal do RN (UFRN), mas com atenção profissional voltada para o Centro-Oeste. Ela foi aprovada em concurso para docência da Universidade Estadual de Goiás (UEG), em Goiânia. Bacana demais. Parabéns!
Gustavo ficou com Carlos Eduardo e Ezequiel está com Fátima Bezerra em costura de olho na AL (Foto: arquivo)
Gustavo e Ezequiel cravam duplo na sucessão estadual – O grupo dos deputados estaduais Ezequiel Ferreira (PSDB) e Gustavo Carvalho (PSDB) cravou um duplo na sucessão estadual do RN no segundo turno. Cada um ficou de um lado. Ezequiel, com Fátima Bezerra (PT); Gustavo, com Carlos Eduardo Alves (PDT). A manobra não é por acaso. A estratégia visa fechar em 100 por cento a viabilização de candidatura de um ou de outro à Presidência da Assembleia Legislativa no próximo biênio (2019-2020). A astúcia conta com amplo apoio preliminar de eleitos e reeleitos, mas não é uma ciência exata. Atual presidente, Ezequiel venceu Ricardo Motta (PSB) em 2015 na disputa interna, quando tudo dava a entender que não aconteceriam surpresas. Ezequiel é a prova de que “surpresas” existem em eleições internas na AL.
Ex-candidato ao Senado é nome pensado para pasta da Saúde – Candidato ao Senado no primeiro turno das eleições no Rio Grande do Norte, na Coligação Do Lado Certo, o médico Alexandre Motta (PT) é cotadíssimo para ocupar pasta da Saúde, num eventual governo Fátima Bezerra (PT). Ele tem largo conceito além dos limites partidários e da própria categoria médica, além de circular no universo forense.
Tatiana Mendes não cruzou os braços no segundo turno – Titular “imexível” até o final do Governo Robinson Faria (PSD) na pasta do Gabinete Civil, Tatiana Mendes Cunha não cruza os braços na política eleitoral neste segundo turno. No primeiro, ela votou e trabalhou para o governador Robinson Faria (PSD), que não obteve êxito na reeleição. Agora, qualquer coisa, acionem Tatiana. Entendi.
STF não precisa de ninguém para desmoralizá-lo – Gravação em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), reeleito deputado federal por São Paulo, questiona força do Supremo Tribunal Federal (STF) e comenta que esse poder pode ser fechado por “um soldado e um cabo”, ganhou enorme repercussão no final de semana. Nem deveria. Mas como estamos num momento de tensão eleitoral, compreensível. O STF há muito que se desmoraliza sozinho, sem precisar de nenhum empurrão externo. Por vezes tem-se apresentado como força auxiliar de grupos e partidos ou compadre de interesses particulares. Precisamos de um STF autônomo, soberano, com gente de notável saber jurídico e zelo à Constituição. Nada mais do que isso.
Deputado federal verde-oliva é parlamentar federal do rosalbismo e de Mossoró – Ex-secretário de Estado da Segurança Pública e ex-secretário municipal da Segurança em Mossoró, ambos cargos em gestões da hoje prefeita Rosalba Ciarlini (PP), o general da reserva Eliéser Girão Monteiro Filho (PSL) é deputado federal do rosalbismo. Com o fracasso do projeto de reeleição do deputado federal Beto Rosado (PP), Girão passa a ser um representante político desse grupo na Câmara Federal, até pela afinidade que tem com quem o chamou para esses cargos. Sua eleição é um atenuante para o rol de fracassos até aqui desse esquema político.
Candidatos se esquivam de questões delicadas – A campanha vai chegando ao seu final, com os candidatos ao governo estadual se esquivando de questões delicadas. Evitaram ao máximo falar direta e francamente quanto aos remédios que pretendem utilizar para que estado saia da insolvência. Poderemos ter demissão até de servidores de carreira, proposta de aumento da alíquota previdenciária, privatização de empresas e venda de outros ativos públicos, além de tentativa de reordenamento de duodécimo da Assembleia Legislativa, Defensoria Pública, Ministério Público do RN (MPRN), Tribunal de Contas (TCE/RN) e Tribunal de Justiça do RN (TJRN). Para situação excepcional, medidas excepcionais. Não há remédio doce para problemas tão graves como os vividos pelo estado.
EM PAUTA
Sem pagamento – A empresa Infraestrutura em Controle do Espaço Aéreo e Aeroportos (INFRACEA), com sede em Brasília, e que administra o Aeroporto Dix-sept Rosado de Mossoró, está sem pagamento atualizado por seus serviços. O Governo do Estado não cumpre suas obrigações. A infracea tem comprometimento de folha de pessoal e outros compromissos devido essa situação. Teve publicação de edital como vencedora de licitação no dia 27 de junho deste ano (veja AQUI).
Beleza Urbana – Feliz, feliz muito pelo sucesso de uma história que conheço de perto e como poucos. Aplausos para Ana Cléa e seu Beleza Urbana – localizado à Rua Amaro Duarte, 170, pertinho da Praça do Rotary (Nova Betânia, Mossoró). O salão ficou no capricho para o culto à beleza, à autoestima e à Vênus que cada mulher tem em si. Mas os homens também são bem-vindos por lá. Sucesso, querida.
Ana Cléa: Beleza Urbana (Foto: redes sociais)
Dorian – Em alusão aos 85 anos do nascimento de Dorian Jorge Freire e 70 anos de seu início na imprensa, a Feira do Livro de Mossoró irá promover o bate-papo “Em busca de Dorian: entre crônicas e reportagens”, que acontecerá no dia 31 (quarta-feira). Participarão do evento os professores da Universidade do Estado do RN (UERN) Esdras Marchezan, Aluísio Barros e Marcílio Falcão. Nascido em Mossoró, Dorian foi jornalista, professor, escritor e integrante da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL). Faleceu em 24 de agosto de 2005 em Mossoró.
Clauder – O escritor Clauder Arcanjo vai ser empossado no próximo dia 1º de novembro na Academia de Letras do Brasil (ALB), em sessão marcada para começar às 20, na Associação Nacional de Escritores (ANE), em Brasília. Obrigado pelo convite, meu caro. Infelizmente não poderei comparecer.
Palavra de Mulher – O espetáculo “Palavra de Mulher”, misto de show e teatro em que as cantoras/atrizes Lucinha Lins, Tania Alves e Virgínia Rosa interpretam personagens femininas da obra de Chico Buarque de Holanda, vai ser apresentado em Mossoró. Será no dia 2 de novembro, às 21 horas, no Teatro Dix-huit Rosado.
Veron – O Real Madrid está interessado na contratação de mais uma jovem promessa do futebol brasileiro. Segundo informações divulgadas neste domingo (21 de outubro) pelo programa El Larguero, da rádio espanhola Cadena Ser, os merengues monitoram o jovem assuense Gabriel Veron, do Palmeiras. O atacante de 16 anos chamou atenção do Real durante a disputa do Mundial Sub-17 de clubes, disputado no último mês de junho. O Palmeiras foi campeão na final justamente em cima do Real Madrid. Naquela final, o time paulista venceu por 4 a 2, com um gol marcado por Gabriel. No total, o jovem balançou as redes nove vezes em seis partidas e foi o artilheiro e o melhor jogador da competição. (Blog Tatutom Sports/Fox Sports).
SÓ PRA CONTRARIAR
Depois da era do “voto de cabresto”, agora querem nos convencer da existência do “voto de zap-zap”.
GERAIS… GERAIS… GERAIS…
O radialista Jarbas Rocha (Princesa FM 90 do Assu) planifica retomada de página própria na Internet. Promessa de muito êxito.
Obrigado à leitura do Nosso Blog a Nadja Escóssia (Tibau), Carlos Nascimento (Mossoró) e Edinael Castro (Upanema).
Veja a edição anterior da Coluna do Herzog (15/10) clicando AQUI.
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Há duas categorias de pessoas que, sobretudo no Rio Grande do Norte, merecem um debruçamento maior, uma atenção mais atenta, um enfoque mais aproximado: o inteligente e o sabido.
O inteligente é como o grão. Se não morrer, será infecundo. A fecundidade do sabido é feita na cotidianidade dos seus sonhos.
O inteligente é aritmético. Consegue sobreviver. O sabido é geométrico. Quase sempre vive sobre.
O inteligente é polivalente na ordem do conhecimento. O sabido, na ordem do aproveitamento.
O inteligente é grosseiro às vezes, mas humano, profundamente humano. O sabido se irrita, mas é sempre fino. Fino e aderente. Sobretudo ao poder. E quando eu falo em Poder, não me refiro pura e simplesmente ao Sistema. Me refiro ao poder, podendo. Feito de números. Sobretudo de números.
O inteligente pode ser desligado. O sabido, nunca.
O inteligente gosta de se encontrar com velhos amigos. O sabido prefere localizar novos. Se vão lhe render dividendos.
O inteligente é simples. O sabido é complexo. Chegar a ele, às vezes não é fácil. O mundo é dos sabidos. A vida, dos inteligentes. Na sua intensidade.
A ambição do inteligente é limitada. Porque limitada, nem consegue ser ambição. O sabido é, sobretudo, ambicioso, explicação maior do seu sucesso. O inteligente poderá ser sábio. O sabido, jamais.
A fé do inteligente é escatológica. Do sabido, circunstancial.
O inteligente não consegue ser audaz. A ousadia, porém, é o oxigênio do sabido.
O inteligente aguarda a morte como passagem; para o sabido, ela não é objetivo de cogitações.
O inteligente gosta de bibliotecas; o sabido, de computadores.
O inteligente sonha com Paris, escreve maravilhosamente sobre Paris, mas suas notas são escritas em Tibau ou na Redinha.
O sabido dorme em Lisboa, acorda em Hong-Kong e janta em Ponta Negra.
O inteligente sorri. E no sorriso se esboça a silhueta da paz. O sabido ri. E ri gostosamente.
O inteligente tem saudades; o sabido, nostalgia.
O inteligente mergulha no silêncio. O sabido vira taciturno.
O inteligente fica só, para estar com os outros; o sabido, para libertar-se deles.
O inteligente cria; o sabido amplia.
O inteligente ilumina; o sabido ofusca.
O inteligente pensa em canteiros de flores; o sabido, em projetos de reflorestamento.
O antônimo de inteligente é burro, de sabido é besta; às vezes (quem sabe) viram sinônimos.
Ser, para o inteligente é fundamental. Parecer, para o sabido é prioritário. E como vivemos no mundo das aparências, nele o inteligente não terá vez. Desde que mude os seus critérios. Aí então, aflora a crise do desencanto. É quando a mediocridade se entroniza, o supérfluo se instala e a inteligência se rende. A não ser que o inteligente se chame Unamuno, reitor imortal. Por isso, ele foi magnífico. Do contrário não teria sido reitor, mas feitor. E de feitores o Brasil está cheio. Sabidos, por sinal.
Sabido é Diógenes da Cunha Lima. Inteligente é Jarbas Martins.
Cascudo é inteligente. Sabida é sua entourage.
Inteligentes são Zila Mamede e Otto Guerra. Inteligente é Waldson Pinheiro. Inteligente foi Miriam Coeli. Inteligente é Padre Ônio (de Cerro Corá) e Dom Heitor (de Caicó). Inteligente foi Dom Costa (de Mossoró). Inteligente foi o pastor José Fernandes Machado. Inteligente é Anchieta Fernandes. Inteligente é Vingt-un.
O inteligente compra livros. O sabido, ações.
Para o sabido, as letras que realmente valem são letras de câmbio. Inteligente é quem trabalha para viver razoavelmente. Sabido é quem consegue que outros trabalhem para que ele viva maravilhosamente. O inteligente sua. O sabido transpira.
O inteligente acorda cedo. Para ele, Deus ajuda a quem madruga. O sabido acorda tarde. Outros madrugam por ele.
Sem o inteligente, o que seria do sabido?
Inteligentes são Manoel Rodrigues de Melo e Raimundo Nonato.
Sabido é Paulo Macedo. Também “imortal”.
Inteligente é Dorian Jorge Freire. Sabido é Canindé Queiróz.
Inteligentes são Eulício e Inácio Magalhães. Inteligente era Hélio Galvão.
Sabido é Valério Mesquita. Inteligentes eram José Bezerra Gomes e João Lins Caldas.
Inteligente foi Jorge Fernandes. Sabido, Sebastião.
Inteligente é Erasmo Carlos. Sabido é Roberto.
Inteligente foi Garrincha. Sua inteligência, porém, não foi além de suas pernas. Com elas, encantava. Sabido é Pelé. Transformou suas pernas em objeto de lucro. Não é a toa que a cidade de Garrincha se chama Pau Grande. E Pelé nasceu onde? Não foi em Três Corações? Ao mesmo tempo pode amar Xuxa, o Cosmos ou as audiências na Casa Branca.
Há um campo, porém, onde o número de sabidos é pródigo. Mas pelo menos hoje, eu não quero pensar nos inteligentes e sabidos quando se trata de competição eleitoral. Aqui, o sabido leva sempre vantagem.
Quem não se lembra de 74?
O inteligente não era Djalma? Sabido, porém, foi Agenor. E o povo do RN optou por quem? Pelo inteligente ou pelo sabido?
José Luiz da Silva, ex-padre, escritor (na foto, já falecido)
* Texto originalmente publicado no dia 14 de Agosto de 1983 no jornal “O Poti” e posteriormente no Blog Carlos Santos em 6 de Setembro de 2009.
Há 13 anos, Mossoró despedia-se de um de seus maiores jornalistas. Morria Dorian Jorge Freire.
Maior expoente até hoje da imprensa mossoroense, com passagem pelos jornais O Mossoroense (RN), Última Hora (SP), Diário Carioca, Brasil, Urgente, Revista Escola (SP), Revista Realidade (SP), Diário de Natal (RN), Tribuna do Norte (RN) e Gazeta do Oeste (RN), é considerado um de nossos maiores cronistas.
Mas Dorian é muito maior que suas crônicas, iniciadas em 1948, nas páginas de O Mossoroense, sob a bênção do pai Jorge Freire e de Lauro da Escóssia.
A trajetória de Dorian na imprensa paulista, principalmente no Última Hora, de Samuel Wainer, e no ousado Brasil, Urgente, inserem ele no rol dos grandes nomes da nossa imprensa.
Iniciado como estagiário na redação paulista do jornal de Wainer, em alguns anos, Dorian ganhou espaço na cobertura política, chegando a assinar a principal coluna da editoria “Revista dos Jornais”. Suas opiniões eram repercutidas fortemente na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Na “Última Hora” entrevistou personalidades e fez grandes e ilustres amizades, como Hilda Hist, Alceu Amoroso Lima, e Ignácio de Loyola Brandão, apenas para citar alguns. Foi repórter, chefe de redação e articulista dos melhores.
No Brasil, Urgente, jornal combativo ligado à Igreja Católica, mostrou perseverança e coragem ao enfrentar o sistema político de então, com um periódico mantido praticamente por seus leitores. Não resistiu ao golpe de 64.
No Rio Grande do Norte, foi responsável pela modernização das redações do Diário de Natal e Tribuna do Norte. Regressando a Mossoró, em 1975, após concluir o bacharelado de Direito, em São Paulo, lidera uma das retomadas históricas de “O Mossoroense”, implementando muito do modernismo vivenciado no jornalismo paulista.
Traído pela saúde, como tantos de nós seremos ainda, dedica-se à escrita da crônica diária, prática que manteve até os seus últimos dias, mesmo com um dedo somente a bater nas teclas da máquina de escrever.
No ano passado, junto aos estudantes Marcos Leonel, Leonora Sales e Fernando Nícolas, dei início a um projeto de pesquisa com o objetivo de contar a história deste jornalista tão importante para a história da imprensa potiguar.
Os primeiros resultados serão apresentados em breve, e a pesquisa seguirá durante este ano, com apoio do amigo Clauder Arcando.
Não é justo deixarmos a nossa história à mercê das traças. É preciso resgatar e contar aos mais novos quem foi Dorian Jorge Freire, e toda sua grandeza para a imprensa potiguar.
Viva, Dorian!
Esdras Marchezan é jornalista e professor e subchefe de Gabinete da Universidade do Estado do RN (UERN)
Leitor voraz, o jornalista Aílton Medeiros publica nas redes sociais um ‘achado’.
“Dorian Jorge Freire, jornalista potiguar de Mossoró, é citado em livro sobre Hilda Hilst, lançado na Flip (Festa Literária de Paraty) 2018”, comenta Medeiros.
Na página 57 há abordagem de crítica literária diferenciada de Dorian Jorge Freire (Foto: reprodução)
O livro é “Eu e não outra – a vida intensa de Hilda Hist”, de Laura Folgueira e Luisa Destri. A escritora, que só agora é revisitada quanto à sua obra e postura transgressora, era incensada nos anos 60 na crítica literária de Dorian Jorge Freire no jornal “Última Hora”. Ele colocava grande valoração ao seu trabalho, em contraposição à maioria dos analistas culturais da época no país.
Dorian, mossoroense da gema, foi jornalista, professor, escritor e integrante da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL). Faleceu em 24 de agosto de 2005 em Mossoró. Leia “De jornais e jornalistas”, crônica de sua lavra (veja AQUI).
Hilda de Almeida Prado Hilst nasceu em Jaú-SP em 1930 e faleceu em Campinas-SP aos 73 anos. É considerada um dos nomes da literatura portuguesa do século XX, com trabalhos nos campos da ficção, poesia e crônica.
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O Programa Mossoró de Todos os Tempos (MTT), que era apresentado na TV Cabo Mossoró (TCM), Canal 10, por seu criador – o professor/empresário/médico Milton Marques de Medeiros – não tem perspectiva de continuidade, em face de seu falecimento.
Milton Marques e Ribamar Freitas no MTT (Foto: divulgação)
Provocada pelo Blog Carlos Santos, a direção da TCM se pronunciou assim, sobre o assunto, através de sua Assessoria de Imprensa:
– Não há perspectiva de retorno do programa, pelo menos não para este ano. Ficou um programa gravado. Mas também ainda não é assunto debatido sobre possível exibição.
Entrevistas
O MTT era um programa de entrevistas com perfis de pessoas de Mossoró ou que se converteram à história da cidade, nos mais diversos setores de atividade e estamentos sociais. Foi criado, produzido e dirigido pela jornalista Lúcia Rocha nos primeiros anos.
Começou a ser gravado em novembro de 2003 e os primeiros programas foram ao ar em 2006, como nomes como Canindé Queiroz, Dorian Jorge Freire, Enéas Negreiros, Antônio de Pádua Cantídio (Coconha), Ribamar Freitas (Oba Restaurante), Anchieta Alves etc.
Milton Marques faleceu dia 22 de abril deste ano (veja AQUI).
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Sucedem-se dias, meses, anos e décadas, no dito movimento dialético. Pessoas passam. Máquinas são mudadas. Trocadas. Modernizadas. Linotipos, offsets, computadores. Das xilogravuras às modernas diagramações.
A tinta, ou seu cheiro, deambula e impregna na alma do papel ou de quem, por ventura, passar-lhe a vista. Ideias defendidas, contestadas, combatidas e ressaltadas pairam no ar por séculos, seculorum, amém. Escafandristas mergulham em mares de papéis, arquivos físicos ou virtuais, resgatando notinhas, reportagens e fotos de antigos sucessos e insucessos.
143 anos! Como (re)contar essa história? Enxurradas de pingos de tinta e de suor. Falar em todos os nomes seria hercúlea empreitada. Pesquisa colossal. Escrutinar um sugere tarefa delicada, costeando-se o alambrado das injustiças. Todavia, pior é não fazê-lo. Malfazeja seria a omissão de não gravar, em suas próprias páginas, protagonistas de tão exitosa jornada.
Na dúvida da seleção, marco duplo: Lauro e Dorian. “Mas são dois nomes sempre comentados, quando o assunto é O Mossoroense!”, dirão. Ora, bolas, filio-me a Oscar Wilde quando leciona que, mesmo coisas que já foram ditas, carecem de repetição.
Dorian, no prefácio do livro de Lauro, Memórias de um Jornalista de Província, com o seu extraordinário poder de síntese, diz: “Em quaisquer mãos que esteja, hoje ou amanhã, O Mossoroense será sempre a Casa de Lauro da Escóssia”. Epítome frasal digna de frontispício.
No mesmo texto, Dorian consegue se superar ao descrever a rotina, imortalizando nomes com sua inconfundível pena: “Velhos e saudosos companheiros de meus começos de sonho. Quincão, Massilon, Surica, Tinteiro, Lauro e Danilo, Fernando Couto, Cizinho, Vicente e Vicentinho, Chico e Zé Abel. Quincão jogava com o pé, certeiro, bolotas de papel molhado e raramente errava o alvo. Zé Abel cantava músicas de Dick Farney, mentia ou dizia imoralidades. Lauro velho o repreendia incentivador:
– Deixe de ser imoral, seu fela da puta!”
Lauro da Escóssia e Dorian Jorge Freire. As convergências suplantam, em muito, as dissensões dos caminhos percorridos na saga do jornalismo. Para ambos, O Mossorense foi universidade, laboratório, porto seguro. Lauro nunca quis arredar o pé do jornal familiar. Até em momentos de ameaças, permaneceu irredutível. Cidadela, enfim.
Dorian andejou pelo Sul Maravilha. Fez-se respeitar pelos periódicos de lá, deixando marcas de resistência em momentos de escuridão democrática. E voltou ao seu “caritó”. Do reencontro com Mossoró e com o jornal, brotaram páginas dignas de releituras. Leiam-se Os Dias de Domingo e Veredas do Meu Caminho.
Bem menos do que desejei, convivi com ambos. No Abel Coelho, colégio onde fiz o ensino secundário, Lauro da Escóssia foi homenageado, nominando a Biblioteca. E, nesse período, por lá gostava de passar algumas horas, suportando nossas bobas perguntas. Amparado na bengala, ria o riso dos sábios, hoje consigo deduzir.
Com Dorian, algumas conversas em sua casa. Afoito, pedi um texto para orelhas do meu Ombudsman Mossoroense. Creme dos cremes. Orgulho de quem recebe uma chancela desproporcionalmente superior ao livro.
Drumonnd, no belo poema “Resíduo”, predica: de tudo fica um pouco. E fica mesmo. No caso de Lauro e Dorian, ficou muito deles n’O Mossoroense. Para nosso júbilo: do jornal e de Mossoró. Assim seja.
David de Medeiros Leite é professor da UERN e doutor pela Universidade de Salamanca (Espanha).
* Texto originalmente publicado em O Mossoroense, em edição especial dos seus 143 anos, sábado (17 de outubro de 2015)