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A sucessão de Fátima Bezerra não priorizará sua vontade

Fátima, Lula, Walter e Gleisi Hoffmann: tudo amarrado (Foto: cedida)
Fátima, Lula, Walter e dirigente petista Gleisi Hoffmann em 2022: o presidenciável decidiu em 2022 (Foto: Arquivo)

Encontro dois amigos petistas de origem e de longo curso. Um deles lança duas previsões vinculantes. Duas em uma: “A governadora Fátima Bezerra (PT) vai ficar até o fim do segundo mandato. Ela não concorrerá ao Senado.”

Retruco na hora: “Será candidata ao Senado e, portanto, não concluirá o mandato.”

Fixado o impasse, cada lado passou a seu arrazoado. Tese e antítese, em busca de uma conclusão.

“A governadora não vai deixar o governo de mão beijada para um Alves (vice-governador Walter Alves-MDB),” ouço. Ela mesma foi clara em entrevista no Podcast de Thaísa Galvão,” suplementa.

De fato, a governadora em entrevista à jornalista e blogueira Thaísa Galvão, dia 25 de setembro último, admitiu essa possibilidade. Implicitamente atingiu o seu vice, como se antecipasse que ele não tem chance mínima de ser o candidato a governador do sistema. Cutucou a onça com vara curta.

“Uma hipótese que eu tenho que ser muito franca, muito sincera, é sim cumprir na íntegra meu mandato e cuidar da minha sucessão. Eu posso ficar até 31 de dezembro e cuidar da sucessão,” afirmou Fátima no Podcast.

Meu interlocutor cita o exemplo da Bahia em 2022, para arrimar sua tese. “O governador Rui Costa não concorreu ao Senado e ficou até o fim do mandato, mesmo tendo uma eleição certa.”

Vamos entender o que correu na Bahia. Seis e meia dúzia não são a mesma coisa aqui.

O governador Rui Costa (PT) realmente seguiu no cargo até o fim, 31 de dezembro de 2022, abrindo caminho para que o então secretário de Educação, Jerônimo Rodrigues (PT), fosse eleito à sua sucessão. O petista venceu ACM Neto (DEM, hoje União Brasil).

Aliado do Partido dos Trabalhadores, o senador Otto Alencar (PSD-BA) não quis correr o risco de disputar o governo estadual, como defendia uma ala do PT e o presidenciável Lula (PT). E o partido evitou colocar em xeque a aliança com PSD, no estado, se lançasse Rui Costa contra Alencar. Vale lembrar que não foi uma situação nova na Bahia.

Costa foi o segundo governador a continuar no cargo na Bahia (Foto: Jonne Roriz/Veja/Arquivo)
Costa foi o segundo governador a continuar no cargo na Bahia (Foto: Jonne Roriz/Veja/Arquivo)

O atual senador Jacques Wagner (PT) ficou até o fim do segundo mandato de governador em 2014,  viabilizando outro candidato petista – o próprio Rui Costa. O PP indicou o vice João Leão e o PSD apresentou Otto Alencar, vice-governador de Wagner, ao Senado. O arranjo deu certo naquele ano e continuou em 2018.

Os sacrifícios assumidos em 2014, 2018 e 2022, na Bahia, tinham uma razão: manter coalizão de forças poderosas: PT, PSD e PP. Mesmo assim, houve baixa. Ano passado, o PP rompeu essa composição e o lugar de vice acabou ficando para o MDB, com Geraldo Júnior.

No RN, pelo que transpirou a governadora à Thaísa, a razão disfarçada seria impedir seu vice Walter Alves de ser candidato do PT. Ora, ora. Portanto, ínfima semelhança com a situação da Bahia em 2022.

Para não se calar, meu interlocutor insiste: “O PT não vai dar o governo de mão beijada a ‘Waltinho’.” E reforça: “Fátima não quer.”

Reajo.

Fátima não terá vontade própria na hora de decidir a chapa de 2026, como não teve em 2022. Tudo foi resolvido ‘democraticamente’ por quem manda: Lula. Ele retirou o nome preferido da governadora e pré-candidata à reeleição, seu vice Antenor Roberto (PCdoB), fixando Waltinho no lugar.

Lula fez o que os baianos aprenderam há mais tempo: política. Candidato presidencial, ele precisava do MDB e sua capilaridade nacional, à vitória contra Jair Bolsonaro (PL). Walter Alves vice era uma das exigências do emedebismo. E assim aconteceu.

Para 2026, de novo quem manda vai decidir e os aliados e devotos no RN vão baixar a cabeça, murchar as orelhas e obedecer. Se Lula quiser Walter Alves candidato a governador, se precisar dele nessa posição, assim vai acontecer.

Deixei o germe da desconfiança na cabeça dos meus amigos petistas. Como nenhum de nós tem bola de cristal, vamos dar tempo ao tempo. E seguirmos em frente nessa amizade.

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Há 50 anos morria o homem que explicou a pobreza no Brasil

Por Edison Veiga (D.W.com)

Josué de Castro representando o Brasil na ONU (Foto: Brasilianischen Nationalarchiv)
Josué de Castro representando o Brasil na ONU (Foto: Brasilianischen Nationalarchiv)

Logo depois que se graduou, o médico Josué de Castro (1908-1973) passou a dividir seu tempo entre o consultório e uma fábrica de tecidos no Recife — onde atuava como médico do trabalho. O patrão acusava os funcionários de indolência. Depois de examiná-los, Castro sentenciou: “a doença dessa gente é fome”.

O jovem médico acabou demitido da indústria. Mas o assunto, uma chaga do Brasil daquela época que persiste no Brasil do século 21, jamais saiu de seu foco. Morto há exatos 50 anos, Josué de Castro, continua sendo um intelectual necessário para a compreensão da pobreza brasileira, principalmente por seus livros Geografia da Fome, de 1946, e Geopolítica da Fome, de 1951.

“Ele deu início a uma longa tradição de estudos, mobilização e políticas públicas sobre o tema da fome, assim como são marcos do mesmo processo a campanha iniciada por Betinho [o sociólogo e ativista Herbert de Sousa (1935-1997)] e, em 2003, o binômio Fome Zero e Bolsa Família”, afirma o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais FGV Social.

Professora na Universidade de Brasília (UnB), a enfermeira Helena Eri Shimizu destaca que Castro “mostrou a real fotografia da fome no Brasil”, revelando que “era um problema oriundo das desigualdades sociais”.

GEOGRAFIA DA FOME foi inovador porque demonstrou as origens socioeconômicas do problema, esvaziando as explicações deterministas, então vigentes, sobre a situação. “O livro examina os regimes alimentares de cada região brasileira e as possibilidades oferecidas pelos fatores naturais, destacando a organização das formas de propriedade e as relações de trabalho vigentes”, explica o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A fome, desgraça que aflige os seres humanos que ingerem alimentos insuficientes para suprir as necessidades da vida, é tratada como consequência da organização econômica, política e social, não simplesmente como sensação fisiológica devida à carência de oferta, por exemplo.”

“Até então a fome era vista principalmente como um episódio crítico, uma crise que era atribuída a fenômenos naturais, como uma seca, ou temporários, como uma guerra”, contextualiza a historiadora Adriana Salay Leme, que recentemente defendeu seu doutorado sobre a obra de Castro. “No livro, ele sintetizou as discussões da época mostrando que essa fome provocada por uma crise, que ele chamou de fome epidêmica, não era mais importante que a fome endêmica. Por fome endêmica, ele entendia um fenômeno cotidiano e menos intenso, que podia não matar por inanição, mas que matava lentamente a população por doenças associadas.”

Leme acrescenta que o médico foi bem-sucedido em seus esforços para “divulgar esse alargamento do sentido de fome”. “Aí, tem algo essencial para pensarmos a fome nos dias de hoje: a ligação entre acesso aos alimentos e renda. A renda é um fator determinante para a capacidade de acessar alimentos de uma família e isso fez com que ele ligasse o olhar para a fome com pobreza e não com os fenômenos naturais”, diz ela.

Em Geopolítica da Fome, Castro levou o tema para uma escala mundial, novamente desnaturalizando a pobreza e explicando os fatores geográficos, biológicos, culturais e políticos que levam à fome. Mendes enfatiza que o livro “sepulta” a ideia de que o aumento populacional da Terra implicaria em oferta insuficiente de recursos.

“Na obra, há uma análise da lógica de funcionamento do sistema alimentar mundial, formado na esteira do colonialismo e baseado na antiga divisão internacional do trabalho”, diz o professor. “Hoje, num mundo em que a agricultura é intensiva e voltada para a produção de commodities, sobretudo nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, fica fácil compreender que a fome das populações é devida a um processo que gera riquezas que ficam concentradas.”

Para Neri, a obra de Castro “é um divisor de águas”. “Embora escritos há quase 80 anos, sua mensagem continua atual. O mundo tem produção agrícola mais do que suficiente para alimentar toda a população. O mesmo valia e vale para o Brasil”, argumenta o economista.

“Ele mostrou que os interesses políticos e a concentração de riquezas são as verdadeiras causas do flagelo alimentar que condena indivíduos e sociedades”, sintetiza Mendes.

Carreira

Nascido no Recife, Josué Apolônio de Castro cresceu em uma região pobre da cidade, próximo aos manguezais. Queria ser psiquiatra. Começou a faculdade de medicina na Bahia e concluiu no Rio. A essa altura já havia decidido que em vez da saúde mental, cuidaria dos problemas decorrentes de má alimentação: especializou-se em nutrição.

Em 1932, segundo informações do Centro de Estudos Josué de Castro, o médico realizou uma ampla pesquisa sobre as condições de vida do operariado recifense. Mudou-se para o Rio e aos 28 anos foi admitido, concursado, como professor de geografia na então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Nos anos 1940, empreendeu viagens de estudos sobre alimentação e nutrição em países como Argentina, Estados Unidos, México e República Dominicana. Em 1943 tornou-se professor de nutrição do curso de sanitaristas do então Departamento Nacional de Saúde. Em seguida, foi nomeado diretor do Serviço Técnico de Alimentação Nacional, depois rebatizado de Comissão Nacional de Alimentação.

Ele ainda ocuparia diversos cargos importantes. Foi deputado federal por dois mandatos, presidente do conselho executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e, em 1957, fundou a Associação Mundial de Luta Contra a Fome. Quando veio o golpe militar de 1964, ele era embaixador do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU) — acabou destituído do cargo e ficou exilado em Paris, onde morreu em 1973.

Nos últimos anos da vida, confessava sentir muita falta do Brasil. “Não se morre apenas de enfarte ou de glomerulonefrite crônica, mas também de saudade”, chegou a afirmar.

Castro chegou a ser indicado três ao Prêmio Nobel: em 1954, ao de Medicina; em 1963 e 1970, ao da Paz.

Um problema que persiste

“O Brasil se destaca internacionalmente no tema desde Josué de Castro”, ressalta Neri. “E hoje ainda mais, pelo paradoxo de ser um grande produtor de alimentos.”

Mendes lembra que oito décadas atrás o país era majoritariamente rural e “ensaiava a sua transição urbana e industrial”. “De lá para cá muita coisa mudou para permanecer igual. Os humilhados da terra, sem direitos políticos, sociais e trabalhistas migraram para as cidades movidos pelo efeito demonstração de um mundo que prometia mobilidade ascendente”, analisa o sociólogo. “O resultado foi a formação de um tipo novo de pobreza nas periferias das grandes cidades, onde a vida é precária. É para essa gente que os leitores de Josué de Castro olham hoje. Eles são vítimas do passado e do presente, estão num mundo que insiste em não os incorporar como cidadãos plenos, com direito à dignidade da vida e ao desenvolvimento de seu potencial humano. A sua fome dói.”

A historiadora Leme vê “mudanças e continuidades” no cenário. “Hoje não temos mais populações se retirando do semiárido quando há uma seca prolongada. Uma das maiores secas que esse território já teve aconteceu entre 2012 e 2017, mas políticas fundamentais como o Bolsa Família e o programa de cisternas, além de uma circulação mais rápida do alimento, fez com que essas famílias pudessem se manter em seu território”, comenta.

“Isso quer dizer que a fome epidêmica do semiárido mapeada por Josué diminuiu. Ao passado que a fome estrutural, que ele chamou de endêmica, se manteve”, explica ela. “Se a fome é estrutural, é apenas mudando a estrutura que vamos combatê-la efetivamente.”

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Manuelito, o fotógrafo número 1

Por William Robson

Manuelito deixou acervo com mais de 40 mil fotos (Reprodução)
Manuelito deixou acervo com mais de 40 mil fotos (Reprodução)

Num texto escrito em 17 de agosto de 1975, o jornalista Emery Costa se referia aos cinquenta anos de profissão do fotógrafo Manuelito: “Ele conseguiu, em quase meio século de vida profissional como artista da fotografia, sintetizar num slogan o atestado maior de sua fama com um atelier dos mais bem montados no interior nordestino”. Emery escreveu no mesmo dia em que Manuelito Pereira dos Santos Magalhães Benigno completava 65 anos de vida

Significando muito para a história de Mossoró, registrando os principais acontecimentos da cidade, Manuelito era um fotógrafo marcante e com força para influenciar. Prestes a se completarem 18 anos da sua morte, amanhã, o profissional é sempre lembrado.

O material de Manuelito é quilométrico. Pelo menos 40 mil fografias foram doadas ao Museu Municipal Lauro da Escóssia pela filha Maria Manolita Pereira Maia, isso sem contar com os milhares de negativos e equipamentos utilizados pelo artista. A particulandade de Manuelito era o tratamento que dava as fotografias.

Desenvolveu um aparelho que iluminava o negativo, a ponto de ele poder fazer o retoque nas fotos e também dava cores a elas quando era dictado “Considero Manuelito como o maior fotógrafo em preto e branco que o Estado já teve”, diz Elias Júnior, da Color Filme.

Pavilhão Vitória ficava na Praça Rodolfo Fernandes, sendo ponto de encontro durante muitos anos (Fotomontagem BCS)
Pavilhão Vitória ficava na Praça Rodolfo Fernandes (Fotomontagem BCS)

O museu se preocupou em oferecer um espaço somente para mostrar um pouco de Manuelito. Afora suas máquinas fotográficas e inúmeras lentes, ainda há livros do acervo pessoal que costumava ler. “Ele gostava muito de ler romance e tinha vários livros”, relembra a filha Maria Manolita. Não apenas de ler, mas de escrever também. Pouco tempo antes de morrer, Manuelito preparava sua autobiografia.

“Nós não somos fotógrafos, porque Manuelito fazia a foto e nós não conseguimos”, declara o fotógrafo Cézar Alves, da GAZETA, referindo-se à técnica que tinha em registrar as imagens em vidros, que serviriam de negativo. “Ele usava um pó de potássio que entrava em funcionamento, quando o flash explodia como um tocha”.

Em duas folhas datilografadas, o fotógrafo – considerado o n°1 de Mossoró – falava de seu nascimento em Fortaleza (CE), de sua iniciação na profissão em 1930, de sua chegada a Mossoró (veja texto nesta edição), além de fazer uma análise das técnicas fotográficas “Fazer um comparativo da arte fotográfica de 1930 a 1977 seria uma longa explanação”, dizia ele, no texto intitulado “Quase Meio Seculo Fotografando”, de 1977. “Contudo, vale ressaltar a diferença das técnicas e recursos durante essas quatro décadas. Acompanhei de perto essa evolução”.

Mossoró fazia parte da vida de Manuelito

“Fotografel a vida e a morte. Alegrias e tristezas”. Manuelito pôde afirmar que viveu as várias metamorfoses da cidade, bem como de sua profissão. O fotógrafo tinha um objetivo em mente: fotografar para deixar marcado na história a vida de Mossoró no passado.

Inauguração da primeira ponte no Centro da cidade (Reprodução)
Inauguração da primeira ponte no Centro da cidade (Reprodução)

O material de Manuelito, que está no Museu Municipal Lauro da Escóssia, registra fatos politicos importantes e passagens pela cidade de presidentes da República, como Juscelino Kubtischek, Getúlio Vargas, João Goulart, entre outros.

“Cliquei também ministros de Estado, governadores, prefeitos, politicos em geral, misses e diversas personalidades do mundo artistico e cultural”, disse em sua autobiografia.

Fotografar Mossoró era muito mais que um compromisso com a cidade, mas consigo mesmo. Para Manuelito, o arquivo que conseguiu montar não tem preço, porque fazia parte de sua vida. “Ele adorava Mossoró e não trocava por cidade nenhuma”, afirma a filha do fotográfo, Maria Manolita.

Considerando o seu trabalho como um Muscu da Imagem, Manuelito tinha o propósito de manter viva a história mossoroense. Che-gou a se dispor para qualquer um que mostrasse interesse em realizar uma pesquisa sobre a cidade nos últimos 40 anos. “Esta obra de grande valor estará sempre à mostra daqueles que desejarem conhecer”, dizia o profissional, que também desenhava e coloria as fotografias com tintas especiais importadas.

Fotógrafo veio de Fortaleza a pedido dos Escóssia

Quando Manuelito chegou a Mossoró, em 4 de outubro de 1933, a cidade não dispunha de fotógrafo. Para ser um fotógrafo não era como hoje, tão simples. “Antigamente eram poucos fotógrafos porque o equipamento não era de acesso fácil”, conta a filha Maria Manolita. Manuelito veio de Fortaleza a pedido da família Escóssia.

Antigo Hospital da Caridade de Mossoró, depois Hospital Duarte Filho (Reprodução)
Antigo Hospital da Caridade de Mossoró, depois Hospital Duarte Filho (Reprodução)

Manuelito já era profissional da fotografia havia três anos. Sua competência era incontestável bem como sua preocupação em dar tons artísticos a seu trabalho. Por isso, rapidamente conseguiu instalar seu próprio negócio na Praça Vigário Antônio Joaquim e ser reconhecido como o fotógrafo número 1 de  Mossoró.

O estúdio foi arrendado no finalzinho dos anos 70 e vendido poucos anos depois. O comprador foi Elias Júnior, hoje proprietário da Color Filme. Ao ser arrendado, Manuelito  ficou vivendo de sua aposentadoria e fotografava por puro prazer. “Fotografia é uma coisa que me empolga e faz a gente gostar e se apaixonar pelo que ela pode dar e ensinar”, acreditava.

Um infarto fulminante no dia 10 de agosto de 1980 dava fim à trajetória de Manuelito. Seu legado nunca foi esquecido, bem como o seu talento. Fotos históricas, que marcaram a cidade, estão em exposição permanente no Museu Municipal Lauro da Escóssia.

*Reportagem especial publicada no jornal Gazeta do Oeste em 9 de agosto de 1998, assinada pelo jornalista William Robson, que agora em blog com seu nome reproduz matérias diferenciadas que fez ao longo de décadas de profissão. Essa série tem o nome de “Acervo” (veja AQUI).

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Paulinho e os 20 anos da Honda em Mossoró

Por William Robson

Reprodução de página veiculada em 1997 (Foto: Carlos Costa)
Reprodução de página veiculada em 1997 (Foto: Carlos Costa)

Acreditando na força do seu trabalho, o empresário Luiz Teotônio de Paula Neto (o Paulinho da Honda), 52, conseguiu fazer da Motoeste — concessionária Honda em Mossoró — uma importante empresa mossoroense. Neste ano, a Motoeste completa 20 anos. Surgiu há alguns meses após a instalação da fábrica da Honda no Brasil.

No início, em 77, poucos acreditavam no sucesso do empreendimento de Paulinho da Honda. Na época, ele vendeu dez motos, mas o crescimento foi inevitável. Em 96, comercializou 2002 motocicletas, sendo 75% delas do modelo Titan 125. Nessa entrevista para a série “Conversando Com…”, Paulinho fala de vários assuntos, enfatizando o mercado de motos – sua especialidade. Destaca o seu pai, José Pereira de Souza, que também foi um importante comerciante em meados do século e fala das pretensões da Honda para 97.

 

Paulinho da Honda, em reprodução da página da Gazeta. Clique e baixe a página completa em pdf (foto: Carlos Costa).

Você começou com seu pai, que era comerciante. Como foi isso?

PAULINHO DA HONDA – Meu pai era cearense. Veio para Mossoró com oito anos de idade. Chegando aqui, foi crescendo até montar um pequeno comércio e ser funcionário da Shell durante dez anos. Foi dispensado da firma quando começou a ter uns problemas de coluna. Recebeu uma indenização, com a qual conseguiu algumas representações. Tudo isso aconteceu em 1959. Meu pai foi representante da Shell e das Tintas Ypiranga e, com a experiência que adquiriu quando estava na empresa, teve um acentuado crescimento. Chegamos a financiar combustível para a construção da barragem de Mendubim e Pau dos Ferros. Mas, com o advento da Petrobras, o produto tinha de ser comprado a ela e o nosso trabalho de distribuição começou a declinar. Para compensar, meu pai entrou no ramo de peças, onde ficou até falecer. Naquela época, existiam umas cinco lojas de peças. Hoje, esse número tem em apenas uma rua.

E quando foi que você começou a trabalhar com seu pai?

PH – Em 64. Quem começou com ele foi meu irmão Ney, já falecido. Fiquei com ele até 86, quando me desliguei para cuidar da Honda. A gente tem a concessão da marca desde 77. O interessante é que eu era sócio do meu pai no negócio dele e ele era meu sócio no meu negócio. A gente apartou a sociedade, mas tudo dentro da amizade.

Como foi para você conseguir a concessão da Honda?

PH- Foi bem interessante. Sempre gostei de motocicleta. Foi herança do meu pai, que também era motociclista. No início de 76, adquiri uma moto de 500 cilindradas da Honda e fui a Natal fazer um passeio e uma revisão na concessionária. Naquele tempo, motos da Honda eram todas importadas. A fábrica foi montada no Brasil em outubro de 76. Conheci o importador em Natal, que veio para Mossoró à procura de representante para revender as motos Honda. Ele percorreu todas as concessionárias de automóveis da cidade, a Volkswagen, a Ford, a Chevrolet… Então, ele me explicou que estava procurando alguém para revender as motos e não tinha encontrado e me perguntou se eu conhecia alguém que pudesse assumir o negócio. Eu disse: “A pessoa indicada sou eu. Aceito agora”. Impus a condição de colocar papai como sócio e iniciamos a firma.

Então, ele me explicou que estava procurando alguém para revender as motos e não tinha encontrado e me perguntou se eu conhecia alguém que pudesse assumir o negócio. Eu disse: “A pessoa indicada sou eu. Aceito agora”.

A Honda em Mossoró começou de que maneira?

PH – Nossa cota inicial era de dez motos por mês. Muitas pessoas não acreditavam no nosso negócio e achavam que nós iríamos devolver as motocicletas. Isso porque antes, o doutor Gabriel, da Agrotec, conseguiu uma concessão da Honda em Mossoró, que não deu certo. Inclusive, houve um fato que contribuiu para a descrença das pessoas. Os meus três primeiros clientes morreram, dois de acidentes, com as motos que eu vendi a eles.

As motos eram fabricadas no Brasil?

PH – Eram porque nós montamos a concessionária um ano após a instalação da fábrica da Honda no Brasil. Na época, éramos 40 revendedoras. Hoje, somos 400. A Motoeste começou bem simples, com quatro pessoas: um mecânico, um gerente, um responsável pela contabilidade e outro no setor de peças. Eu não dava tanta assistência à empresa. Comparecia eventualmente. Quando o negócio começou a evoluir, passei a dar uma maior atenção. A coisa cresceu tanto que eu tive de decidir. Ficar com o meu pai na empresa dele ou me desligar para ficar na Honda. Preferi ficar na Honda. Fiz um acordo com papai, dividimos a sociedade, peguei minha mulher que trabalhava no Banco do Brasil há doze anos para ficarmos cuidando do que era nosso.

Explique sobre o crescimento do mercado da Honda em Mossoró?

PH – Como falei, começamos em 77, com uma cota de 10 unidades. Em 79, a Honda promoveu um concurso nacional entre as concessionárias, dividindo em regiões. Era para incentivar as vendas. Os cinco primeiros ganhariam uma viagem a Europa. Ficamos em segundo lugar, atrás apenas de uma empresa de Fortaleza (CE). Vendemos naquele ano 250 motocicletas. Mas, tivemos momentos ruins, de não comercializarmos quase nada. No governo Collor, a Honda produzia apenas 5 mil motos por mês. Estamos atualmente num bom tempo. Vendemos 2002 motos em 96, que dá uma média de 166 por mês. Mas, nos últimos três meses, a nossa média foi de 250.

A quem o senhor atribui esse grande número de vendas?

PH – Ao Plano Real. Antes, no Plano Collor, a Honda estava numa situação muito difícil. Alguns concessionários estavam optando por outras alternativas de vida, porque ninguém queria moto. No Plano Cruzado, em 86, a empresa estava numa ótima fase, até a chegada do Plano Collor. Com o Real, o preço da moto não sobe há 34 meses. Hoje, matuto não anda mais em jumento, anda de moto.Paulinho da honda em declaração ao Gazeta do Oeste em janeiro de 1997, sobre concessão da Honda - Série Acervo

O consórcio e o financiamento colaboraram muito no sucesso da Honda?

PH – É verdade. O consórcio e agora o financiamento com o Banco do Brasil estão tendo boa repercussão. A procura está muito boa e a perspectiva de vendas é cada vez melhor. Para se ter uma ideia, basta ver os números. A Honda fabricou no ano passado 245 mil motos. A previsão no inicio do ano era de faturar 210 mil. Para 97, a previsão é de 330 mil. Essa projeção está com uma antecipação de dois anos. Quer dizer, a Honda estava esperando vender isso em 99. No ano 2000, a perspectiva é de 500 mil motos.

Como você tem visto a economia de Mossoró?

PH- Eu poderia falar no contexto geral, mas prefiro falar baseado no mercado de motos. Nisso, com o advento do Plano Real, a classe baixa ficou com um melhor poder aquisitivo e a média caiu um pouco. Como a moto não sobe de preço há 34 meses, a classe baixa está podendo possuir uma moto. Para você ter uma idéia, antigamente, o salário mínimo tinha valor equivalente ao preço de uma cota de consórcio de 50 meses de uma 125 cc. Hoje, com um salário mínimo, compra-se duas cotas e ainda sobra dez reais. E nem sempre uma família vive só de um salário. Outro detalhe: no início do Plano Real, a moto custava RS 3.200 e o carro popular, RS 7.500. Hoje, a motocicleta continua com o mesmo preço e o carro subiu para R$ 12 mil.

E a chegada da concorrência?

PH – A concorrência é muito saudável para o consumidor e para as empresas. Com a concorrência, a solução é procurar sempre melhorar. É muito normal e eu aceito com a maior naturalidade. Olha, o mercado de motos no Brasil ainda é virgem. Há campo para todo mundo. Em Mossoró vai chegar a Suzuki e uma importadora. A concorrência é muito boa, não tem problema algum. Vai dar para todo mundo e ainda sobra. Quem colocar motos na cidade, venderá.

E essa estabilidade no preço da moto Honda tem trazido algum beneficio para a fábrica?

PH – Houve uma mudança de direção da Honda no Brasil. Entrou um gerente comercial muito competente e a principal meta dele é a estabilidade. Ele não quer nem ouvir falar em aumento no preço das motos. Está preocupado é com o aumento da produção. Por isso, a moto ainda pode ficar mais barata. Do início do Plano Real até hoje, a Honda aumentou as vendas de 5 mil para 24 mil unidades/mês. A fábrica não aumentou o preço e está ganhando muito dinheiro, porque ganha em cima do volume de vendas.

Fale do comércio de motos em Mossoró.

PH – A moto Titan, que é o nosso carro-chefe, representa 75% das vendas de motocicletas na Motoeste. Vendemos aproximadamente 140 unidades por mês. Não vendemos mais porque a Honda não atende o nosso pedido. A Motoeste tem mercado para comercializar 20 motos CBX 200, mas a Honda só manda dez. Vendemos dez NX, por mês. A C-100 está tendo uma boa aceitação. A nossa previsão é de vendermos 20 unidades da nova XLR.

Para terminar, o senhor pode falar dos objetivos da Motoeste para 97?

PH – Esperamos crescer igual à fábrica ou um pouco mais. Percentualmente, temos sempre crescido um pouco, ainda mais quando ampliamos para algumas cidades da região Oeste. Abri a filial em Pau dos Ferros, Apodi, Umarizal, Assu, que respondem com pouco mais de cem unidades por mês.

Empresa nos primórdios em quadro do artista Careca (Reprodução)
Empresa nos primórdios em quadro do artista Careca (Reprodução)

*Entrevista especial publicada no jornal Gazeta do Oeste em 19 de janeiro de 1997, assinada pelo jornalista William Robson, que agora em blog com seu nome reproduz matérias diferenciadas que fez ao longo de décadas de profissão. Essa série tem o nome de “Acervo”. Veja AQUI, AQUI e AQUI as matérias anteriores.

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Como a Aceu chegou ao abandono

*Por William Robson

O Clube Aceu, antes das ruínas em que se encontra atualmente, foi palco de muitas alegrias. Antes denominado Ipiranga, o clube abrigava os ricos da época em grandes festas.

Prédio está em ruínas, diferente do glamour de décadas anteriores (Reprodução)
Prédio está em ruínas, diferente do glamour de décadas anteriores (Reprodução)

O prédio foi construído nos anos 30 para auxiliar no trabalho amador do time de futebol. E foi crescendo até começar a derrocada nos anos 60/70.

Quando o Ipiranga perdeu o seu glamour de outrora, o prédio ficou praticamente abandonado. Até que dois convênios passaram o patrimônio do extinto clube de futebol para a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

A sociedade mossoroense acreditava que a entidade, passando para a Uern, seria soerguida e as atividades socioculturais retomadas.

No inicio, parecia que iria dar certo. Até meados dos anos 80, atividades culturais e recreativas aconteciam com frequência, mas os anos 90 marcaram um triste capitulo na história do clube.

O prédio for abandonado e hoje serve apenas de depósito de material, arquivo e como sede do Sindicato dos Funcionários da Uern (SINDIFURRN).

O abandono é tanto que no inicio deste ano parte do pavimento superior caiu e deixou os funcionários apreensivos.

Foi feita uma inspeção e constatou que o prédio não poderia ser utilizado por não oferecer segurança Mas o atual reitor da Uern, Walter Fonseca, parece não se importar.

O clube Ipiranga é um dos mais tradicionais de Mossoró. O historiador Ra imundo Soares de Brito relembra os momentos das grandes festas e bailes pro- movidos no local onde hoje funciona a Associação Cultural e Esportiva Universitária (ACEU).

O lugar abrigava festas grandiosas e chegou a ser reduto da aristocracia mossoroense. Mas o que levou ao surgimento da Aceu foi mesmo o futebol. “Existia uma rivalidade entre dois clubes importantes na época: o Ipiranga e o Humaitá”, disse o historiador. Ambos não existem mais.

Do Ipiranga, restam apenas escombros da sede social, que estão à disposição da Uern.

Um dos sócios-fundadores, Enéas Negreiros, em entrevista à GAZETA, disse desconhecer as fórmulas de como todo o patrimônio passou para o nome da Uern, sem que os mais de 200 associados tomassem conhecimento.

Com a rivalidade no futebol, os diretores do clube resolveram, então, montar a sua sede. A principio, o futebol praticado pelo Ipiranga era considerado amador. O time não fazia parte do esquema profissional, nem seus jogadores tinham remuneração, mas o sonho de levantar uma sede social era grande, principalmente pelos dirigentes.

Houve uma certa facilidade de levantar o empreendimento. Os diretores do Ipiranga eram empresários respeitados e detentores de influência na sociedade.

Antes, o clube funcionava num prédio alugado na Praça da Redenção, mas o sonho de ver o Ipiranga um time profissional era grande. A Prefeitura apoiou a iniciativa, doando o terreno. “O padre Mota foi um dos grandes responsáveis pela construção do clube”, disse Raimundo Soares.

Enéas Negreiros explicou que a empreitada para levantar o Clube Ipiranga recebeu o apoio de pessoas como Dix-neuf Rosado, Pedro Fernandes Ribeiro e Manoel Fernandes Negreiros. “Eles se mostraram muito solícitos para apoiar a iniciativa”, comentou.

Prédio foi construído por forte patrocinador

O padre Mota doou o terreno para a construção do clube Ipiranga. Este clube, antes funcionando num prédio alugado, estava com mais de duzentos sócios cadastrados, e isso mostrava a importância que era não apenas para o futebol amador, mas para o entretenimento mossoroense.

Com a doação, seriam necessárias as campanhas para arrecadação de mate- rial de construção para levantar o prédio. Alguns abnegados começaram, então, a pedir apoio. Até mesmo os alto-falantes, muito utilizados no início do século.

Mas os apoios não eram suficientes para tocar a obra adiante. Até que o empresário Badeu Fernandes de Negreiros foi contatado.

Badeu era representante das Tintas Ipiranga em Mossoró. Ele e um grupo de abnegados do Ipiranga.

Usaram um argumento que pesou muito na hora de fechar o negócio: o clube existia em função da marca da tinta. O patrocínio foi fechado e doado uma grande quantidade.

A doação foi tão grande que apenas 20% das tintas davam para pintar todo o prédio. Os 80%, segundo Enéas Negreiros. foram vendidos e transformados em material de construção. O clube ficou pronto em meados dos anos 30.

Cessão à universidade é questionada

Um dos fundadores do Clube Ipiranga, Enéas Negreiros, em reportagem publicada na GAZETA no final do mês passado, questiona a forma como o antigo clube Ipiranga passou a ser propriedade da Uern. “Não recebi qualquer comunicação como sendo um dos sócios. Nem eu, nem ninguém”, disse.

Enéas Negreiros foi um dos fundadores (Foto: Familiar)
Enéas Negreiros foi um dos fundadores (Foto: Familiar)

Na época da transição, nos final dos anos 70, o Ipiranga contabilizava mais de 200 sócios, mas o clube vivia momentos difíceis por causa da fracassada administração.

Assim, os projetos culturais do Clube Ipiranga foram se enfraquecendo até chegar ao abandono do prédio.

Não parecia mais o Ipiranga dos anos 50 com as grandes festas e carnavais e a forte concorrência com a ACDP e AABB.

O presidente da Associação dos Docentes da Uern (ADFURRN), Carlos Filgueira, disse que a entidade vai se mobilizar para que o prédio – agora abandonado pela atual gestão da Uern – possa ser reformado. “E lamentável o estado em que se encontra o clube Aceu atualmente”, desabafou Carlos Filgueira

Segundo ele, que acompanhou o processo de cessão da estrutura do Aceu para a Uern, a sociedade local acreditava que a universidade pudesse zelar pelo patrimônio e reativar as atividades cultural e esportiva do clube. “Infelizmente isso terminou não acontecendo”, relatou.

Adfurrn protestará contra o abandono da Uern

A Adfurrn vai mobilizar a categoria para pressionar o reitor Walter Fonseca a iniciar os trabalhos de restauração do prédio da Aceu.

A última recuperação no edifício foi em 85, quando o processo de revitalização estava em andamento e o Diretório Acadêmico e outras entidades trabalhavam com atividades socio-recreativas no clube. Mas na década de 90 a Aceu não recebeu mais incentivo algum. Pelo contrário. Tornou-se um prédio abandonado, que mais serve de dispensa que para a sociedade mossoroense.

No inicio, as pessoas achavam que a Aceu serviria como antigamente, para festas e atividades culturais, mas não for isso que aconteceu. Agora, a Aceu é  tratada com desdém”, disse o presidente da entidade Carlos Filgueira.

A Adfurm prepara um documento protestando contra o abandono. “Não se pode deixar um prédio daquele cair. Deveria ser tombado como patrimônio histórico. Ele existe há mais de 60 anos e conta uma história bonita de Mossoró, relata Filgueira. “Estamos prontos para encampar a luta. Não entendo por que os dirigentes da Uem não se importam com as tradições da Aceu, se é deles a responsabilidade”.

Sociedade confiou que Uern zelaria Aceu

O Clube Ipiranga estava mal das pernas nos anos 70, e a administração do clube era considerada desastrosa. Não havia mais atividades culturais no local e, aos poucos, tudo foi ficando abandonado.

Até que um convênio entre o clube e a então FURRN for assinado pelo reitor da época, João Batista Cascudo Rodrigues, para administrar a quadra de esportes, no fundo do clube.

Alguns anos depois, o convenio se estendeu a todo o prédio. Os sócios não foram comunicados do convênio, nem houve uma assembleia para definir o destino do Ipiranga, mas mesmo assim o acordo for fechado. Segundo um dos sócios na época, o professor Carlos Filgueira, a sociedade mossoroense acreditava que o Ipiranga pudesse ser revitalizado e voltar as movimentações de outrora.

“O convenio com a universidade era considerado como algo bom para quem não queria ver as tradições do clube morrerem”. disse ele. No inicio, o Aceu foi revitalizado, mas aos poucos foi esfriando, até ser definitivamente abandonado.

Prédio está em ruínas

O prédio da Associação Cultural e Esportiva Universitária (ACEU) está em ruinas. O edifício, que não recebe manutenção desde 85, pode a qualquer momento vir abaixo.

E, com ela, toda a história da cultura local, do esporte e de atividades, como os da Luízas de Marilac – que promoviam eventos para angariar fundos para os pobres e idosos

Em maio, a parte superior caiu e o laudo constatou que o prédio não tem condições de uso. Mas isso parece não intimidar o reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Walter Fonseca.

Mesmo sabendo da ameaça da parte superior cair novamente, os funcionários do Sindicato dos Funcionários da Uern (SINDIFURRN) continuam trabalhando normalmente, e claro, apreensivos.

Vice-reitor diz que instituição espera Governo

O vice-reitor da Uern, Lúcio Ney, disse que o “abandono” do clube Aceu não é mais problema da instituição. Segundo ele, foi enviado um documento à Secretaria Estadual de Infra-estrutura relatando todos os problemas na estrutura do prédio.

Em maio, parte do andar superior do Aceu veio abaixo. Daí, o reitor da Uern, Walter Fonseca, determinou a inspeção do prédio. Foi constatado que caiu por falta de manutenção. “Pessoalmente fui a Natal entregar os laudos sobre o Aceu”, disse o vice-reitor. No laudo, ficou constatado que a parte superior não tinha as mínimas condições e que precisa de reforma urgente.

“Até o momento não há uma sinalização de quando será”, disse Lúcio Ney, acrescentando que um engenheiro fez todo levantamento dos curso da reforma, mas o valor não foi fornecido. “O prédio está sem condições”, garante. Mesmo com o perigo iminente, não houve qualquer interdição, e os funcionários da Uern continuam trabalhando normalmente.

Na Aceu, funciona o Sindicato dos Funcionários da Uern, o arquivo e o almoxarifado. “A situação é pior porque não temos recursos”, disse Lúcio Ney.

O clube Ipiranga, nas primeiras décadas do século passado (Acervo do IBGE)
O clube Ipiranga, nas primeiras décadas do século passado (Acervo do IBGE)

*Reportagem especial publicada no jornal Gazeta do Oeste em 19 de dezembro de 1999, assinada pelo jornalista William Robson, que agora em blog com seu nome reproduz matérias diferenciadas que fez ao longo de décadas de profissão. Essa série tem o nome de “Acervo” (veja AQUI).

Leia tambémA morte de Elizeu Ventania;

Leia também: A chegada da Internet a Mossoró.

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A chegada da internet em Mossoró

*Por William Robson

A Internet se tornou uma necessidade em Mossoró, de uns meses para cá. Somente em 99, três novos provedores surgiram, entre eles os dois maiores do pais. Isso mostra que o mercado local é promissor para o comércio virtual. Muitos lojistas estão de olho na idéia. A rede mundial de computadores fascina crianças, jovens e adultos.

Tela do Mirc, onde estava o Canal Mossoró (Reprodução de arquivo do Gazeta do Oeste)
Tela do Mirc, onde estava o Canal Mossoró (Reprodução de arquivo do Gazeta do Oeste)

Acredita-se que mais de dois mil computadores estão conectados à rede somente em Mossoró. Um número impressionante, que deverá aumentar, de forma considerável, nos próximos anos. A Embratel estima que, em 2003, serão oito milhões de computadores brasileiros na Internet. Hoje, são quatro milhões.

Esse meio de comunicação chegou para revolucionar o mercado e, o que é melhor, gerar mais empregos. A Internet possibilita que muitos mossoroenses trabalhem, seja na criação de sites, ou na parte técnica, ou ainda nos serviços oferecidos pelos provedores.

Internet abre inúmeras oportunidades de trabalho

Muitos mossoroenses estão fazendo da internet a sua profissão. E estão se dando bem. Além dos proprietários de provedores, a internet possibilitou a criação de mais empregos como os chamados webdesigners (aqueles que criam os sites) ou programadores, que simplesmente atualizam o conteúdo das home-pages.

Cliff Oliveira é webdesigner (Reprodução: Gazeta do Oeste)
Cliff Oliveira é webdesigner (Reprodução: Arquivo Gazeta do Oeste)

Um dos webdesigners mais requisitados em Mossoró é Cliff Oliveira (www.serv2000.com.br/cliff). Ele trabalhava na Rádio Rura, mas se desligou a fim de se dedicar à criação de sites. Chegou a receber grandes encomendas e, ao mesmo tempo, terminou contratado por muitas empresas para fazer o trabalho de atualização. Agora, foi convidado para trabalhar na Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (FIERN), cuidando das empresas filiadas, em Natal.

“O mercado de Internet em Mossoró é uma tendência inevitável”, comentou Cliff. O técnico em Internet, José Luís, que trabalha no provedor Netrn (www.netrn.com.br) disse que a linguagem do futuro será a Internet. “Antes, a preocupação era adaptar o computador à vida cotidiana. Agora é a rede”, disse.

Outro envolvido com Internet é o webdesigner conhecido como DJ Papa. Ele elaborou a página do concurso de moda Top Face, que recebeu mais de 1.500 visitas em menos de 15 dias. “Sou viciado em Internet”, disse.

Zé Maria, um dos coordenadores do IRC Mossoró (sala de bate-papo entre internautas mossoroenses), também faz sucesso com sua página de variedades e dedicada aos jovens locais. O endereço é www.nextway.com.br/zemaria.

Marcas nacionais tentam atrair consumidor mossoroense

Este ano foi marcado no campo da Internet com a chegada de dois dos mais importantes provedores de acesso do Brasil. O Universo On Line (UOL, www.uol.com.br) e o Zaz (www.zaz com br) se instalaram em Mossoró no segundo semestre deste ano. com a intenção de aboca- nhar uma fatia dos consumidores virtuais. O Universo On Line (UOL) é o maior provedor do Brasil e responde por 65% dos internautas do pais. O Zaz é o segundo maior, e pertence a um grupo de comunicação do Rio Grande do Sul.

Em Mossoró, o Universo On Line (UOL) aproveitou os equipamentos de um provedor já instalado, a Servpro. “Não se trata de um serviço de franquia”, deixa bem claro o diretor Hélio Duarte. “Na verdade, é uma parceria entre nós e o provedor paulista”. Com a chegada do Uol, houve um crescimento impressionante de usuários no Servpro. “Temos a perspectiva de dobrar no ano que vem”, comentou Hélio, em recente entrevista à GAZETA.

A parceria consiste na cessão dos equipamentos da Servpro para o Uol. O Uol, por sua vez, faria uma intensa campanha de divulgação e cuidaria de atrair novos assinantes Hélio explicou que o assinante paga ao Uol, que remete um percentual à Servpro.

No caso do Zaz, não se trata de uma parceria, mas de uma franquia. O Zaz no Estado é administrado pela CabugiSat, que percebeu um avanço no mercado virtual em Mossoró O provedor foi instalado há menos de um mês e já contabiliza mais de 50 usuários cadastrados A responsabilidade do Zaz em Mossoró é do comerciante Paulo Maia, que há tempos trabalha com informática.

Zaz, uma franquia de provedor, um dos primeiros a atuar em Mossoró (Reprodução: Arquivo do Gazeta do Oeste)
Zaz, uma franquia de provedor, um dos primeiros a atuar em Mossoró (Reprodução: Arquivo do Gazeta do Oeste)

Linha 321 dificulta acesso à rede

A linha 321 da Telemar vem se transformando num pandemônio para os usuários de Intemet. Os especialistas no assunto disseram que ela não e apropriada à rede mundial de computadores. Ciente disso, a Telemar já iniciou o processo de mudança do prefixo Acontece que o 321 estava provocando muitas quedas na conexão e demora no carregamento dos sites. “Isso faz com que qualquer usuário perca a paciência”, disse o diretor da Nextway, Wadih Asfora

Um dos que perderam a paciência foi o comerciante Porfírio Negreiros. Ele instalou Internet em sua empresa, mas percebeu que a conexão era constantemente interrompida. “Logo liguei para a Telemar e eles fizeram a mudança para um 316”, contou.

O 321 e uma das linhas telefônicas mais antigas de Mossoró e seu processo de funcionamento ainda é analógico. Para a Internet, as linhas apropriadas são as digitais, que oferecem mais resistência e rapidez. “A transmissão de dados na linha 321 e lenta, por isso os sites demoram a carregar (aparecer na tela do computador)”, explicou Wadih. Quanto às quedas o modem não suporta o alto nível de ruído da central 321”.

Para se ter uma ideia de como o 321 é lento para a internet, os provedores calculam a velocidade de acesso em bps Com a linha 321, a velocidade é de 28 800 bps. Com linhas digitais como o 316, 318 ou 312, passa a ser de 50 600 bps.

Internautas mossoroenses promovem festas pela net

Grande parte dos usuários de Internet gosta de Internet para trocar e-mails (correspondências eletrônicas) ou entrar nos chats (salas de bate-papo). Existe uma infinidade de salas na Internet. Mas, para o público mossoroense, existe uma que recebe uma média de 150 pessoas por dia. É o Canal Mossoró, que através da Internet promove até eventos de cultura e lazer, como aconteceu ontem à noite no Complexo Calimar

Um dos coordenadores do canal é o internauta Zé Maria. Ele organiza eventos, marca reuniões e promove uma confraternização entre os usuários do canal. “É interessante porque as pessoas acabam se identificando muito com outras através do computador”, diz. Os usuários não costumam usar seus nomes verdadeiros. Usam pseudônimos, que são chamados no mundo virtual de “nickname”. “Nas festas, muita gente fica conhecida pelos nicks”, diz Zé Maria, cujo nick é zZzZz.

Para poder acessar o canal e preciso ter o programa “The Seven Deadly Sins”, facilmente encontrado na página da Nextway. Depois de instalar, é só criar um nick, escolher o canal Mossoró (#mossoro) e conversar com as pessoas. Por esse programa e possível o bate-papo reservado em salas particulares.

Provedores oferecem vantagens a assinantes

Provedores em Mossoró em 1999 (Reprodução)
Provedores em Mossoró em 1999 (Reprodução: Arquivo Gazeta do Oeste)

Os provedores cobram uma taxa mensal para que seus assinantes possam “viajar” pela Internet. Em compensação, oferecem, além do serviço de conexão, uma série de outras vantagens exclusivas. O Universo On Line, por exemplo, disponibiliza todo o conteúdo de jornais e revistas Quem não é assinante, não tem acesso. No Uol, existe também o “discador automático”, que procura linha desocupada.

Mas o Uol é o que cobra mais caro a taxa de acesso ilimitado (sem limite de horas). Custa R$ 34 mensais, mas há planos mais baratos. No caso da Nextway, cuja tarifa de acesso ilimitado é de R$ 30, o cliente pode usufruir de alguns privilégios, como hospedagem de domínio próprio, montagem e manutenção em rede com plataforma Windows 95/NT e desenvolvimento de software personalizados e serviços on line.

“O mercado está cada vez mais competitivo e ganha o provedor que oferecer mais vantagens”, comentou José Luis, da Netrn, que coloca o usuário na Internet por R$ 29,90 (acesso ilimitado). O Zaz, que cobra em Mossoró R$ 34,00, vai sortear computadores com seus assinantes.

Empresas locais estão aderindo à nova fórmula

Algumas empresas mossoroenses estão um passo a frente dispondo seus produtos ao consumidor via Internet. Outras planejam entrar no esquema até o próximo mês. Existem muitas, como a Refimosal, lojas de informática como a Logus, locadora como a Visão Vídeo (que vai abrir um sistema de aluguel pela net) e de automóveis e motos, como é o caso da Motoeste.

“Isso mostra que muitos empresários estão com uma visão de futuro e eles sabem que isso é uma nova modalidade de venda”, diz o internauta Glauber Alves, que está estudando a criação da página da Glênio CD na Internet. “Esta página seria um catálogo do acervo da loja. O cliente pediria, nós deixaríamos em casa e discutiríamos a melhor forma de pagamento”, explicou. O empresário Glênio Soares é simpatizante da idéia e acredita que esta será uma nova fórmula de venda de discos, já que no Brasil as maiores vendas on line são do mercado fonográfico

Hoje, o comércio de Mossoró utiliza a Internet em escala impressionante Os negócios feitos a prazo levavam dias na análise do crédito do consumidor. Através da Internet, a análise é feita em dez minutos. “Isso é um avanço e mostra que temos que entrar nesta nova modalidade de venda o quanto antes”, disse Glauber.

Crescimento em 2000 deve ficar em 20%, prevê especialista

Segundo Wadih Asfora, as empresas estão sentindo a necessidade de se conectarem à Internet. “Hoje não faz sentir você possuir um computador e não ter internet”, disse. A Nextway, que foi instalada em Mossoró há três meses, é considerado um dos grandes provedores de Mossoró, mesmo diante dos maiores que chegaram recentemente.

A necessidade de Internet vem surgindo, em maioria, dos empresários locais, porque eles perceberam que através da rede poderiam divulgar seus produtos de uma forma mais completa e bem mais barata. Uma página na Internet custa em média R$ 300, variando de acordo com a qualidade gráfica apresentada.

Mas o crescimento de computadores domésticos também é grande “Temos um grande número de usuários que têm seus computadores em casa mesmo”, disse o diretor da Nextway. Ele acredita que no ano que vem haverá um aumento de novas conexões em torno de 15% a 20%. A Embratel informou que existem conectados em todo o país 4 milhões de com- putadores e que este número vai dobrar até o ano 2003.

“Os recursos que a Internet oferece são impressionantes. Tem tudo que você possa imaginar. E acaba saindo bem mais barato e cômodo para o usuário”, disse Wadih.

Provedores em Mossoró

Nextway: www.nextway.com.br

Uol: www.uol.com.br

ZAZ: www.zaz.com.br

URRN: www.urrn.com.br

NETRN: www.netrn.com.br

Em Mossoró existem aproximadamente

Dois mil computadores conectados à internet

*Reportagem especial publicada no jornal Gazeta do Oeste em 12 de dezembro de 1999, assinada pelo jornalista William Robson, que agora em blog com seu nome reproduz matérias diferenciadas que fez ao longo de décadas de profissão. Essa série tem o nome de “Acervo” (veja AQUI).

Leia também: A morte de Elizeu Ventania.

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Sinte poupa Fátima e concentra sua ‘raiva’ em secretária da Educação

Durante a Assembleia Geral do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do RN (SINTE/RN), à manhã desta quarta-feira (29), em Natal, os professores estaduais em greve aprovaram manutenção do movimento, como já noticiamos (veja AQUI). Contudo, foram mais além: se voltaram contra a secretária de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer do Rio Grande do Norte, professora Socorro Batista.

Lugar-tenente de Fátima, Socorro é alvo de uma ira de laboratório do Sinte/RN (Foto: Saiba Mais)
Lugar-tenente de Fátima, Socorro é alvo de uma ira de laboratório do Sinte/RN (Foto: Saiba Mais)

Outra vez, na Assembleia Geral, o Sinte poupou a governadora e ex-presidente da entidade Fátima Bezerra (PT). Socorro Batista foi escolhida como alvo.

A categoria aprovou “a construção e divulgação de uma nota de repúdio em resposta à fala da secretária de Educação, Socorro Batista, em matéria publicada no jornal Tribuna do Norte on-line (segunda-feira, 27)”, informou o sindicato. Na Tribuna do Norte (veja AQUI), a titular da pasta afirmou que o fim da paralisação “está nas mãos do sindicato” e lamenta “profundamente que a categoria não compreenda” a situação fiscal do Estado.

Argumentou que a greve realizada pelo Sinte/RN penaliza “o aluno trabalhador, filho de trabalhador, das classes populares”. E deixou claro a inviabilidade de atender os grevistas: “Nós não podemos usar todo o recurso do Fundeb para pagar salários”. As propostas que o governo podia fazer nós já fizemos”.

Socorro Batista mostrou o estrangulamento das finanças, que impossibilitam o pagamento do Piso Nacional do Magistério. “Nós temos a manutenção das escolas, temos que fazer investimento, como estamos fazendo com o programa Nova Escola Potiguar. Então é um conjunto de medidas que a gente precisa usar o recurso para isso, não apenas para salário. A lei diz que é 70% no mínimo, nós já estamos com mais de 80% de salário”, relatou.

Socorro é cria do próprio Sinte/RN

O irônico nessa revolta de ocasião do sindicato, uma extensão do próprio governo, é que Socorro Batista teve seu nome aprovado pelo Sinte/RN para ser secretária. Em reportagem no dia 28 de dezembro do ano passado, quatro dias antes da posse ao segundo mandato de Fátima Bezerra, o portal Saiba Mais estampou em sua página frontal: Com aval do PT e do SINTE, Fátima confirma Socorro Batista no comando da Educação.

Na matéria, é assinalado textualmente o seguinte: A escolha de Socorro Batista foi um consenso no PT e contou com o apoio de lideranças sindicais, como a coordenadora-geral do Sinte Fátima Cardoso. Os parlamentares com mandatos também deram o aval para a indicação.

Essa crise de identidade do Sinte/RN, que não sabe separar seu papel de defensor do professorado de sua militância político-partidária, tende a deixar muitas sequelas no sindicalismo. Ser ou não ser? Um sindicato dos professores ou um anexo da Governadoria? Pelo visto, mais fácil é sacrificar Socorro Batista, lugar-tenente de Fátima na Educação.

Secretária já esteve ao lado de professores

A propósito, Socorro Batista, ex-candidata a prefeito de Mossoró em 2000 pelo petismo, foi adjunta da pasta da Educação no primeiro governo Fátima Bezerra, mas também na gestão Robinson Faria (PSD hoje no PL) – Veja AQUI e AQUI. Após sete meses na função, saiu exonerada ao cobrar do governador, publicamente, o fim da greve dos professores e servidores da Universidade do Estado do RN (UERN). A paralisação já durava mais de 100 dias”, recorda o Saiba Mais na mesma postagem.

Socorro dá sua versão sobre saída do Governo Robinson (Arquivo do Canal BCS/08-09-2015)
Socorro dá sua versão sobre saída do Governo Robinson (Arquivo do Canal BCS/08-09-2015)

“Sempre, sempre, entre um cargo e a coerência, entre um cargo e o respeito à luta dos trabalhadores, ficarei com o segundo”, justificou ela à ocasião.

No seu currículo, também aparece o cargo conflitante com seu perfil, de secretária da Segurança Pública e Defesa Social da Prefeitura de Mossoró. Isso mesmo. Indicação do PT no governo Francisco José Júnior (PSD), em 2014 (veja AQUI).

Greve burocrática e envergonhada

O Sinte/RN segue em sua greve burocrática e envergonhada, enquanto quase 200 mil alunos estão imersos em mais um vácuo de conhecimento e formação, como ocorreu no período de dois anos da pandemia da Covid-19.

São aproximadamente 20 mil professores – ativos e inativos – que estão nesse redemoinho.

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A morte de Elizeu Ventania

Por William Robson

O cantador Elizeu Ventania morreu teve fim de vida em condições precárias, praticamente abandonado pelo meio (Foto: reprodução)
O violeiro Elizeu Ventania morreu teve fim de vida em condições precárias, praticamente abandonado pelo meio (Foto: reprodução)

O violeiro Elizeu Elias da Silva, o Elizeu Ventania, 74, morreu ontem às 11h30 no Hospital Regional Tancredo Neves. Segundo o atestado de óbito, o artista sofreu uma parada cardiorrespiratória. Elizeu há um mês se internou no hospital por causa de deficiência pulmonar obstrutiva crônica ­­– um problema que atinge principalmente as pessoas que fumam.

A mulher de Elizeu, Benedita Neuma de Sena, muito abalada, disse que Elizeu era um fumante inveterado, mas que havia largado o fumo há alguns meses por recomendação médica. O corpo do mais conhecido repentista mossoroense ficou no velório do hospital até às 15h, quando foi transferido para a casa de seus filhos na Avenida Alberto Maranhão, bairro Bom Jardim, onde está sendo velado.

A previsão é de sepultamento por volta das 10h de hoje, no Cemitério São Sebastião.

Elizeu Ventania sentiu cansaço na noite do dia 6 de setembro e foi levado para o Hospital Tancredo Neves. Como seu quadro clínico se agravava, teve de ficar sob cuidados constantes na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Em entrevista à GAZETA, o médico Palmério Rabelo havia explicado que o caso de Elizeu era complicado. “Ele pode ter uma melhora agora, mas pode piorar imediatamente. Por isso, dele ficar na UTI”, disse.

O violeiro ficou durante uma semana no hospital. “Ele foi para casa, mas teve de voltar para o hospital com pouco tempo depois”, disse Benedita de Sena. Elizeu voltou a apresentar deficiência respiratória. Segundo o atestado de óbito, a parada cardio-respiratória foi provocada por enfisema pulmonar. Da segunda vez, o músico estava no hospital desde o dia 4.

Amigos e admiradores de Ventania ainda organizaram um evento para angariar fundos para o tratamento, bem como cestas básicas, já que, apesar do seu talento, era pobre e vivia somente de uma aposentadoria de R$ 130,00.

Sem reconhecimento

“Tenho vontade de mostrar minhas músicas novas em público, mas falta oportunidade”. Na entrevista que deu à GAZETA  no dia 19 de julho, Elizeu Ventania estava disposto a dar uma reviravolta em sua carreira. Decepcionado pela falta de reconhecimento por tudo que tinha feito pela cantoria em Mossoró, e por estar cego, Elizeu também mostrava-se revoltado com as brigas envolvendo repentistas mossoroenses.

LP de Elizeu, com apoio do Café Kimimo (Foto: Reprodução)
LP de Elizeu, com apoio do Café Kimimo (Foto: Reprodução)

Atualmente, o repente mossoroense é dividido em dois: o movimento encabeçado pelo presidente da Casa do Cantador, Luiz Antônio, e outra vertente mais moderna liderada pelo professor Aldacir de França. Elizeu achava-se excluído e ultrapassado, sem chance de mostrar o seu trabalho.

“O congresso de repentistas (organizado pela Casa do Cantador) só se preocupa em mostrar os violeiros atuais e esquece os antigos”, disse Elizeu, revoltado, na edição de julho. Esse congresso, considerado o evento mais importante da cantoria em Mossoró, reúne anualmente várias duplas de violeiros do Rio Grande do Norte e de outros Estados.

Só que, aos poucos, vem perdendo prestígio merecido, por falta de um bom gerenciamento. O congresso, que chegou a reunir um público superior a 700 pessoas no passado, não passou de cem na edição de 98.

Fim pobre e no abandono

Uma das figuras mais importantes da música em Mossoró morreu pobre, morando numa casa modesta na zona norte de Mossoró. Sobrevivendo com uma aposentadoria de um salário mínimo (R$ 130,00), foi desprezado pela sociedade e até mesmo pelos seus companheiros repentistas. Alguns ainda se manifestaram, organizando um show beneficente para conseguir cestas básicas, mas não passou disso. Cinco destas feiras foram doadas pela Petrobras.

 

A situação em que Elizeu Ventania vivia era um reflexo exato da decadência da cantoria no Brasil. O gênero perdeu a referência com o público e, portanto, tem de se satisfazer com pequenas pontas na programação da Rádio Rural.

No Hospital Tancredo Neves, momentos antes do velório, o corpo de Elizeu Ventania estava na pedra ao lado de um caixão simples. Somente a família foi vê-lo. No velório na casa dos filhos (Elizeu deixou cinco), foram poucas as  pessoas que foram dar o último adeus ao mais importante violeiro mossoroense.

Reportagem especial do Gazeta do Oeste em 20 de outubro de 1998 (Reprodução)
Reportagem especial do Gazeta do Oeste em 20 de outubro de 1998 (Reprodução)

Elizeu Ventania talvez seja o último poeta popular que levou o repente para os ouvidos das grandes gravadoras. Dos três LPs que lançou – nenhum remasterizado em CD –, o álbum “Canções de Amor” teve a melhor repercussão. Com o selo da Continental – hoje subsidiária da Warner Music –, Elizeu Ventania vendeu rapidinho 30 mil cópias. A música “A Voz do Prisioneiro” foi o hit entre os repentistas.

Adepto de um estilo tradicional de cantoria desde os 18 anos, Elizeu enfrentou a tempestade depois da bonança. Para melhorar o rendimento doméstico, montou uma banquinha no Mercado Público e começou a vender fitas com músicas novas e reproduzidas de maneira primitiva. Mas, a decadência da cantoria em toda a região o obrigou a fechar seu negócio e viver recluso em casa.

Cem músicas inéditas

Decepcionado com a falta de reconhecimento, o violeiro buscou isolamento do público desde que ficou cego há 13 anos, em consequência de conjuntivite. Porém mantinha a esperança de que voltaria a enxergar, embora não tivesse condições de custear a cirurgia.

Velório de Elizeu em sua casa, no Bom Jardim (Foto: Carlos Costa - Reprodução)
Velório de Elizeu em sua casa, no Bom Jardim (Foto: Carlos Costa – Reprodução)

Mesmo assim, não parava de compor. Estava com repertório de cem músicas inéditas, todas registradas em seu gravador, mas que não foram lançadas porque Elizeu mantinha uma certa decepção ao movimento repentista local. O momento que tinha era ideal para compor porque dizia que a tristeza atualmente era a sua única forma de inspiração.

“Depois que fiquei cego, larguei tudo na vida. Ela só é boa quando nós enxergamos, vemos o mundo. O mundo é uma inspiração para o poeta. Quando não vê, vive nas trevas”, disse em entrevista à GAZETA do dia 19 de julho.

*Reportagem especial publicada no jornal Gazeta do Oeste em 20 de outubro de 1998, assinada pelo jornalista William Robson, que agora em blog com seu nome reproduz série de matérias diferenciadas que produziu ao longo de décadas de profissão. Essa série tem o nome de “Acervo” (veja AQUI).

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A heroica mulher que salvou a vida de diplomata brasileiro sequestrado

Por Euler de França Belém (Jornal Opinião)

Livro mostra saga de uma mulher de muita fibra e fé (Foto: Reprodução)
Livro mostra saga de uma mulher de muita fibra e fé (Foto: Reprodução)

“Um Diplomata no Cativeiro — O Sequestro do Cônsul Aloysio Gomide Pela Guerrilha Tupamara em 1970, no Uruguai, e a Luta de Sua Mulher Para Libertá-lo” (Bella Editora, 199 páginas), da jornalista Ana Paula Alfano, ex-“Folha de S. Paulo”, é um excelente livro. A autora relata uma história que aconteceu há quase 53 anos, mas mantém a tensão, como se estivesse escrevendo uma reportagem sobre fatos que ocorreram ontem, digamos.

Lembro-me, no início da década de 1970, de ir à banca de revista, que ficava na rodoviária antiga de Porangatu, cidade do Norte de Goiás, para comprar publicações com notícias sobre o sequestro de Aloysio Marés Dias Gomide, cônsul brasileiro no Uruguai. Eu tinha 9 anos e meu pai, Raul Belém, lia tudo sobre o assunto, o que acabou despertando minha atenção. Tanto que me lembrei de uma reportagem que dizia: “Por quem chora Ana Maria”. Trata-se de uma lembrança falha. Porque o nome da mulher do diplomata era Maria Apparecida Gomide. Ana Maria era sua cunhada.

Aloysio Gomide foi sequestrado pelo Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros (MLN-T) no dia 31 de julho de 1970, em Montevidéu, capital do Uruguai.

Quatro homens e uma mulher — entre eles Adolfo “Nepo” Wasen e Luis Heber Correa Díaz — sequestraram o cônsul em sua casa. Articulada pelos tupamara Alicia Rey Morales, entre outros, a ação foi bem-sucedida.

Apparecida decidiu questionar os guerrilheiros: “Meu marido é apenas um cônsul nada tem a ver com o governo uruguaio. Por que ele?” Um dos sequestradores disse que os tupamaros estavam sequestrando Aloysio Gomide com o objetivo de forçar o presidente do Uruguai, Jorge Pacheco Areco, a ouvi-los.

Gomide e Apparecida em destaque na revista O Cruzeiro (Foto: Reprodução)
Gomide e Apparecida em destaque na revista O Cruzeiro (Foto: Reprodução)

Em poucos minutos, os membros da Coluna 15 do MLN-T levaram Aloysio Gomide, que não conseguiu nem mesmo levar seus óculos (era míope). Saíram com o diplomata vestido de pijama. O cônsul e Apparecida eram pais de seis filhos (tiveram o sétimo em 1972).

Assustada, mas decidida, Apparecida avisou a embaixada que o marido — homem de direita, católico tradicional, mas sem militância política — havia sido sequestrado.

Policiais mostraram álbuns com fotografias de tupamaros e pediu que Apparecida dissesse se algum havia participado do sequestro. Ela reconheceu dois, mas não disse à polícia, pois os tupamaros a alertaram que, se identificasse algum deles, matariam Aloysio Gomide.

O irmão de Apparecida, Marcos Penna, sua então mulher, Ana Maria, e Erycina Dias Gomide, mãe do cônsul, foram para Montevidéu para ajudar a mulher do diplomata.

Além de Aloysio Gomide, havia sido sequestrado Dan Mitrione, especialista em segurança dos Estados Unidos. A polícia confirmou que Raúl Bidegain Greising e Fernando Garin, importantes membros do MLN-T, eram alguns dos orquestradores da ação.

Num comunicado, os tupamaros informaram que libertariam Aloysio Gomide e Dan Mitrione se o governo uruguaio libertasse os guerrilheiros presos (cerca de 150, trinta eram mulheres).

Gomide escreve carta em tom desesperador (Foto: Reprodução)
Gomide escreve carta em tom desesperador (Foto: Reprodução)

O primeiro cativeiro de Aloysio Gomide foi na casa do tupamaro Juan Espinosa, enfermeiro do Hospital das Clínicas. O cônsul foi levado para o local sedado. Ferido, Dan Mitrione estava na mesma residência. Os guerrilheiros queriam saber o nome dos policiais uruguaios que haviam sido treinados nos Estados Unidos. Os captores da dupla disseram que o americano trabalhava para a Agency for International Development (AID) numa parceria com a polícia uruguaia. “Dan Mitrione estava no Uruguai para auxiliar o governo uruguaio no combate ao MLN-T e a outros movimentos considerados subversivos”, assinala Ana Paula Alfano. O americano teria ligação com a CIA, de acordo com Manuel Hevia Cosculluela, cubano infiltrado na agência americana.

Os sequestros de Aloysio Gomide e Dan Mitrione eram parte do Plano Satã, formulado pelo dirigente guerrilheiro Eleuterio Fernández Huidobro. Os tupamaros planejaram sequestrar personalidades estrangeiros e uruguaias — como o juiz Daniel Pereyra Manelli — com o objetivo de forçar o governo de Jorge Pacheco Areco a libertar presos.

Os tupamaros tentaram sequestrar Michael Gordon Jones e Nathan Rosenfeld, ambos da embaixada americana, e, como não conseguiram, sequestraram Claude Fly, técnico agrícola americano.

O governo uruguaio apertou o cerco contra os tupamaros, que, vistos como Robin Hood dos trópicos, eram admirados pelo povão.

O presidente Emilio Garrastazu Médici, alertado pelo embaixador brasileiro no Uruguai, Luiz Leivas Bastian Pinto, deu ordens para que “ninguém da embaixada dialogasse com os tupamaros. Caberia ao governo uruguaio, disse um telegrama do governo brasileiro, ‘tomar todas as providências para a solução do caso e a recuperação do representante brasileiro’”. O presidente do país radicalizou: não aceitava negociar com a guerrilha.

Os tupamaros divulgaram uma carta incisiva, exigindo a libertação de “todos os presos processados ou condenados por delitos políticos ou conexão com delitos políticos”. Informaram que Aloysio Gomide estava bem de saúde e que Dan Mitrione estava se recuperando.

Mujica foi do grupo guerrilheiro, chegando a ser preso (Foto: Reprodução)
Mujica foi do grupo guerrilheiro, chegando a ser preso (Foto: Reprodução)

Na sua primeira carta para Apparecida, Aloysio Gomide disse: “Estou bem, no sentido de que não me golpearam ou feriram”. E contou que havia tomado várias injeções, para ficar entorpecido.

O governo uruguaio resistia a negociar, por isso Apparecida decidiu que precisava agir para salvar o marido.

O cônsul, transferido para outro esconderijo, acreditou que seria assassinado. Um jovem apontou uma arma para Aloysio Gomide e ameaçou atirar. Porém, um guerrilheiro mais velho segurou sua mão. “A atitude mais calma e prudente do mais velho me salvou.” A partir de então, o diplomata passou a questionar menos os tupamaros. Ele era vigiado “quase sempre” por universitários.

O MLN-T conseguiu reunir entre 4 mil e 5 mil membros. Um dos guerrilheiros era José “Pepe” Mujica, que, mais tarde, se tornou presidente do Uruguai.

O que dava forças a Aloysio Gomide e a Apparecida era “a infinita confiança em Deus e em Nossa Senhora de Aparecida” (palavras da mulher do cônsul).

Hospedada na embaixada do Brasil em Montevidéu, Apparecida ia ao jardim sozinha, relatando ao irmão e à cunhada que precisava tomar ar. “Eu saía para ver se acharia o corpo do meu marido morto na grama”, anotou em suas memórias.

“Assim que as conversas com os sequestradores começaram e eu vi que o governo uruguaio nada faria, e que o brasileiro não poderia ajudar, percebi que teria de ser eu a libertá-lo. (…) Eu nunca planejei fazer tudo o que fiz, uma coisa foi levando à outra”, relata Apparecida.

Os tupamaros mataram Dan Mitrione no dia 10 de agosto de 1970. A família acreditou que o cônsul poderia ser a próxima vítima. Os tupamaros permitiram que Aloysio se inteirasse do assassinato pelo rádio. Ele ficou aterrorizado. “Tive uma sensação de medo brutal. Vi-me empurrado para a posição de próximo na fila.”

Após o sequestro de Claude Fly, a polícia uruguaia prendeu os tupamaros Edith Moraes, Asdrúbal Pereira Cabrera, Graciela Jorge, Alberto Jorge Candán Grajales, Raúl Sendic, Alicia Rey Morales, Efraín Martinez Platero, Diego Picardo e Raúl Bidegain Greising. Lucas Mansilla, o único da cúpula a escapar, refez “a direção tupamara em menos de 24 horas”.

Ante a intransigência do governo, que não negociava com os tupamaros, aumentou a tensão. Com receio de que matassem Aloysio Gomide, Apparecida entrou em contato com o presidente Médici e sua mulher, Scylla: “Depositamos nas mãos de Vossa Excelência o destino do meu marido”. Para manter alguma tranquilidade, tomava Valium.

Médici, no dia 7 de agosto de 1970, pressionou o presidente Pacheco Areco. Na mesma data, os tupamaros divulgaram um comunicado informando que matariam “os reféns caso” os guerrilheiros que haviam sido “presos fossem torturados”.

Apparecida decidiu ir à prisão para “falar com os sequestradores” de Aloysio Gomide. A embaixada brasileira tentou dissuadi-la. Mas ela não recuou: “Vou me plantar na porta [da penitenciária] até me receberem”. Ao perceber sua obstinação, registra Ana Paula Alfano, “a embaixada conseguiu a autorização judicial para a visita ao Presídio Central de Montevidéu”.

Apparecida faz apelo em programa de televisão de Flávio Cavalcanti (Foto: Reprodução)
Apparecida faz apelo em programa de televisão de Flávio Cavalcanti (Foto: Reprodução)

Na companhia da embaixatriz Célia Bastian Pinto e dos coronéis Leuzinger Marques Lima e Miguel Cunha Lanna, Apparecida dirigiu-se para a prisão. Recebida pela cúpula dos tupamaros, entre eles Raúl Sendic, ela disse: “Somente quero pedir-lhes que cumpram com sua palavra. Quando em minha casa, prometeram-me que nada de ruim aconteceria a meu marido. Confio em vocês”. Os guerrilheiros nada falaram.

A coragem e o posicionamento firme de Apparecida levaram os tupamaros a confiar no que dizia. “Daquele dia em diante os tupamaros exigiam falar apenas com a mulher do cônsul, mais ninguém”, escreve Ana Paula Alfano.

Numa conversa com Médici, Apparecida disse, aos prantos: “Pelo amor de Deus, presidente, mataram o Mitrione e vão fazer o mesmo com o Aloysio”. O general-presidente respondeu: “Calma, minha senhora, calma, não vai acontecer nada a seu marido”.

Um dos sequestradores ligou para Apparecida: “A vida do seu marido está em suas mãos, faça exatamente o que eu lhe disser. Vá às rádios e faça um apelo ao presidente Areco pela vida do seu marido. A vida dele está em suas mãos”.

Numa rádio, Apparecida fez um apelo ao presidente Areco: “Por amor a Deus, tenha pena do meu marido e meus filhos, atenda aos apelos dos tupamaros”. Para se acalmar, fazia tricô. O dirigente uruguaio permaneceu intransigente.

O governo brasileiro, depois de uma reunião entre Médici e o ministro das Relações Exteriores, Gibson Barboza, enviou uma mensagem ao chanceler uruguaio Jorge Peirano Facio: “Cresce o perigo de ser igualmente assassinado o cônsul Aloysio Gomide”. Pacheco Areco continuava resistindo às pressões brasileiras. No lugar de negociar, o presidente mandou intensificar as buscas aos guerrilheiros que mantinham Gomide e Claude Fly no cárcere.

Entra em cena o advogado uruguaio Victor Della Valle Bataille, casado com Marilia López, funcionária do consulado brasileiro.

Ao entrar em contato com pessoas ligadas aos tupamaros, Victor Bataille colheu a informação de que, cientes de que Pacheco Areco não libertaria os presos, os guerrilheiros agora “exigiam um resgate de 1 milhão de dólares”. O ministro Gibson Barboza disse a Apparecida que o governo brasileiro pagaria o resgate desde que os guerrilheiros doassem o dinheiro para “alguma entidade internacional, como a Cruz Vermelha”. Os esquerdistas não aceitaram a proposta.

Ao receber uma nova carta de Aloysio, Apparecida ficou ainda mais desesperada. Ele escreveu: “Na verdade, do que eu percebi, pressinto a proximidade de minha morte”.

Uma jornalista, aparentemente francesa, entrevistou Aloysio Gomide e Claude Fly. Suas palavras e fotografias chegaram à revista argentina “Panorama”, que repassou o material para a “Veja”. Em novembro de 1970, a revista publicou uma reportagem de capa com a história, sob o título de “Gomide na prisão do terror”.

No cárcere a “companhia” frequente de Aloysio Gomide era uma bíblia, em espanhol, da qual não se desgrudava. Lia a bíblia católica, mas, como estava sem óculos, com dificuldade.

Arrojada, Apparecida prometeu que repassaria 1 milhão de dólares aos tupamaros. Ela criou uma campanha para arrecadar dinheiro com o nome de “Só o amor constrói”, lançada em 13 de dezembro de 1970 durante uma entrevista no programa do apresentador Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. “Consegui uma brecha para liberar meu marido. Peço ao povo brasileiro que me ajude a salvá-lo.”

Jornal noticiou execução de norte-americano nas mãos de guerrilheiros (Reprodução)
Jornal noticiou execução de norte-americano nas mãos de guerrilheiros (Reprodução)

Autorizada pelo governo da ditadura civil-militar, Apparecida também apareceu nos programas de Chacrinha e de Cidinha Campos. Ela esteve com o arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. “Além das contas correntes abertas pelo Brasil, empresas e grupos se uniam para ajudar no resgate. Funcionários da Cervejaria Ouro Preto, em Belo Horizonte, doaram um dia de salário. O Jóquei Clube de Santos ofereceu a renda de uma corrida. Um circo no Rio de Janeiro deu toda a receita de um fim de semana”, reporta Ana Paula Alfano.

Apparecida ligou para o jogador Pelé, o craque do Santos e da Seleção Brasileira de futebol: “É você, Pelé? Aqui é Maria Apparecida Gomide. Você sabe da minha tragédia?” O jogador respondeu: “Soube sim, senhora. (…) Vou ajudar na sua campanha. Farei o depósito”.

As contas para receber o dinheiro do resgate foram abertas no Banco Nacional, dirigido por José Magalhaes Pinto, que ajudou na campanha. O presidente do Sindicato dos Bancos do Rio de Janeiro, Theóphilo de Azeredo Santos, primo de Bebela Ziemmer e Celeste Loureiro, amigas de Apparecida, ajudou nos “trâmites burocráticos”. O banqueiro chegou a ser levado ao Dops.

O país se mobilizou para ajudar Apparecida e Aloygio Gomide. Ao perceberem a envergadura da campanha, os tupamaros não gostaram, pois passava-se a impressão de que eram mercenários.

O ministro Gibson Barboza “concedeu ‘todo o seu apoio’” à campanha. “No Brasil, a luta de Apparecida a transformou em uma quase celebridade”. Se era reconhecida, os taxistas se recusavam a cobrar pela corrida.

Com roupas rasgadas e a bíblia como única “propriedade”, Aloysio Gomide foi transferido para um cativeiro na casa do tupamaro David “Chichi” Câmpora. Ele e Claude Fly dividiram o porão da residência. Aí pôde ler “Anna Kariênina”, romance de Liev Tolstói, e contos policiais.

Os sequestradores, por avaliarem Aloysio Gomide como “reacionário”, não gostavam dele. Assim como o cônsul não apreciava os tupamaros, “por considerá-los um bando de criminosos idealistas”.

Apparecida continuava com a campanha para obter dinheiro e tentou falar com Pacheco Areco, que não quis recebê-la.

Em 1971, no dia 8 de janeiro, os tupamaros sequestraram o embaixador inglês no Uruguai, Geoffrey Jackson. As garantias individuas foram suspensas por Pacheco Areco por 40 dias.

No início de janeiro de 1971, Apparecida decidiu suspender a campanha “Só o amor constrói”. Era hora de levar o dinheiro para o Uruguai. Detalhe: a mulher do cônsul só havia conseguido reunir 250 mil dólares.

Marcos Ribeiro de Azevedo e Inácia Almeida foram contatados para levar o dinheiro do resgate de Aloysio Gomide até Rivera, no Uruguai. “Os dois aguardariam um tupamaro pegar o resgate. A senha seria: ‘Nossa Senhora Aparecida nos proteja’. E Inácia responderia: ‘Estamos protegidos’.”

Jorge Pacheco Areco: presidente do Uruguai em 1970 (Foto: Reprodução)
Jorge Pacheco Areco: presidente do Uruguai em 1970 (Foto: Reprodução)

De acordo com Gibson Barboza, o governo brasileiro fez “vista grossa a uma travessia à fronteira por um portador com a soma recolhida”.

Inácia Almeida e Marcos Ribeiro de Azevedo dirigiram-se para o local do encontro combinado com os tupamaros. Lá, na porta da loja Cairo, no Chuí — do lado brasileiro —, no dia 3 de fevereiro, um jovem apareceu, disse a senha e levou o dinheiro. Ao contrário do previsto, não era um tupamaro.

O diplomata brasileiro Quintino Symphoroso Deseta decidiu buscar o dinheiro, num automóvel da embaixada, com receio de que fosse apreendido pela polícia uruguaia, que estava à espreita.

Deseta levou o dinheiro para Montevidéu e não foi incomodado pela polícia. Apparecida avisou Victor Bataille que já estava com as notas em cruzeiro, a moeda brasileira, pesos argentinos e uruguaios. Havia também joias. “Entre as muitas que chegaram até nós para ajudar no resgate, duas eu não tive coragem de entregar aos tupamaros: um anel doado por dom Paulo Evaristo Arns e um pequeno terço de pérolas e ouro. Ofertei essas duas peças a Nossa Senhora, na igreja que frequentávamos no Rio de Janeiro”.

Cassado pela ditadura, o presidente Juscelino Kubitschek orientou Apparecida a revelar que não havia conseguido juntar 1 milhão de dólares só no último minuto. “Recomendou que eu não desse tempo para os tupamaros exigirem outra coisa no lugar do dinheiro que faltava, que os pegasse de surpresa”, relatou Apparecida.

Os tupamaros ficaram “danados da vida. No fim deram o ok, acho que queriam libertar Aloysio de qualquer maneira”, anota Apparecida. Porém, para não ficarem desmoralizados, o valor real do resgate não deveria ser explicitado.

Os tupamaros libertaram Aloysio Gomide no dia 21 de fevereiro de 1971, num domingo. Ele ficou 205 dias no cativeiro. Um sequestrador disse para o diplomata: “Su mujer es muy buena”. De fato, graças a Apparecida, à sua luta diária, o marido foi libertado. “Sem ela não sei qual teria sido o destino de Aloysio”, disse o advogado Victor Bataille. “Apparecida foi muito importante para o destino de Aloysio.”

A mãe do cônsul, Erycina, disse: “Quero destacar a força de vontade de minha nora, que lutou com todo seu vigor para liberar o marido”. O ministro Gibson Barbosa disse que Apparecida era uma mulher “admirável”. Nas suas memórias, o diplomata acrescentou que ela foi “a grande responsável pela libertação do marido. (…) Quem realmente salvou” a vida de Aloysio Gomide “foi Maria Apparecida”.

Ana Paula Alfano: jornalista, autora de um livro sensacional (Foto: Reprodução)
Ana Paula Alfano: jornalista, autora de um livro sensacional (Foto: Reprodução)

O presidente Emilio Médici perguntou a Aloysio Gomide: “Como é, você está estranhando a liberdade?” Apparecida respondeu pelo marido: “Não, presidente, ele está amando a liberdade”.

Aloysio Gomide se aposentou da carreira diplomática, em 1989. Ele serviu no Canadá e, como embaixador, no Haiti. Nunca mais voltou ao Uruguai.

Aloysio Gomide morreu em 2 de dezembro de 2015, aos 86 anos, e Maria Apparecida faleceu em 2 de setembro de 2019, aos 88 anos. Foram casados durante 61 anos e tiveram sete filhos.

O livro de Ana Paula Alfano, resultado de uma pesquisa bem-sucedida, contém documentos e informações originais, como cartas e fotografias. Era o livro que faltava a respeito dos turbulentos anos 1970 no Brasil e no Uruguai, notadamente sobre o sequestro do cônsul Aloysio Gomide, um homem de bem.

A jornalista relata, com mestria, a saga intimorata de Maria Apparecida para libertar o marido. Eis uma grande história — dolorosa mas bela — que valoriza uma mulher admirável, praticamente um exército de uma só pessoa.

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Entenda o porquê de Natália Bonavides se apresentar, ‘logo’, à prefeitura

Causou surpresa a muita gente o anúncio no sábado (11), em Natal – veja AQUI, em reunião do Diretório Municipal do PT, do nome da deputada federal Natália Bonavides (PT) como pré-candidata à sucessão natalense 2024. Por que ainda tão distante do pleito, ela apresentou-se à disputa?

Natália finca bandeira e fecha porta a 'companheiros' de palanque no ano passado. Agora é PT, PT, PT (Foto: redes sociais)
Natália finca bandeira e fecha porta a ‘companheiros’ de palanque no ano passado. Agora é PT, PT, PT (Foto: redes sociais)

A explicação começa por Brasília e o novo inquilino do Palácio do Planalto, o presidente Lula (PT). Ele e seu partido querem retomar forças e ampliar representatividade partidária nos estados, além do próprio Congresso Nacional.

No RN, por exemplo, Natal e Mossoró seguem inexpugnáveis em 43 anos de história da legenda. Nunca o partido fez um prefeito nas duas comunas.

Agora, é prioridade a ocupação dos executivos nos maiores colégios eleitorais do estado. E existem meios e nomes com vigor, consideram.

Fechando a porta

Natália Bonavides ao se ‘antecipar’, também fecha a porta a postulantes aliados do partido no pleito do ano passado, em torno das candidaturas vitoriosas da governadora reeleita Fátima Bezerra (PT) e de Lula. Casos dos ex-candidatos ao Senado Carlos Eduardo Alves (PDT) e Rafael Motta (PSB).

O PT não abre e não abrirá mão da cabeça de chapa. Natália fincou bandeira. Marcou posição. Fechou a porta, sejamos claros.

A construção semântica da “Frente Ampla” que Lula resgatou 56 anos depois, na política brasileira, põe-se ainda de pé no imaginário e noticiário político. Sobretudo, pela necessidade extrema do governo petista em conseguir grande maioria na Câmara dos Deputados e Senado e o anseios dos seus signatários, na ocupação de espaços no governo.

Contudo, na prática é PT, PT, PT a prioridade máxima de Lula e sua legenda. Ocupar prefeitura em capitais e municípios estratégicos do país é um foco muito acima da ideia nuclear da Frente Ampla de 2022, pregada por Lula como reunião de diferenças forças partidárias e ideológicas, em nome da democracia. Tudo contra o ‘mito’ Jair Bolsonaro (PL).

Agora, é PT, PT, PT. No caso do solo potiguar, Natal e Mossoró são focos preferenciais.

História

A Frente Ampla surgiu no Brasil como articulação política democrática, suprapartidária e interideológica em 1966, quando regime militar começava a recrudescer. Carlos Lacerda, um dos estimuladores do movimento ditatorial, costurou diálogo com adversários históricos: os ex-presidente João Goulart (o “Jango”) e Juscelino Kubistchek.

Renato Acher (representante de JK), Jango e Lacerda: costuras que não vingaram (Foto: Memória da Democracia)
Renato Acher (representante de JK), Jango e Lacerda: costuras que não vingaram (Foto: Memória da Democracia)

Porém, a luta pela redemocratização e reforma partidária, suas prioridades, com realização de novas eleições livres, não prosperou. Lacerda teve seus direitos políticos cassados e foi preso, JK chegou a se exilar em Portugal, o mesmo acontecendo em relação a Jango, mas no Uruguai, até sua morte em 1976.

A Frente Ampla, versão Lula, serviu muito a si e à sua sigla, mas deverá se dissipar nos próximos meses, com chegada de novos atores e partidos. Alguns – ou muitos -, que se diga, ex-bolsonaristas. O tamanho tende a dissipá-la. O jogo agora é outro.

Ainda tivemos movimento parecido, porém com outras características e bem mais alargado e com base popular maciça, na luta pelas “Diretas, já”. Teve início em março de 1983, com objetivo da retomada das eleições diretas a presidente no país, o que só aconteceu em 1989.

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Bolsonarismo, em fúria, ataca as três torres do Estado de Direito

Do Canal Meio, CNN, Folha, G1, Canal BCS e outras fontes

Palácio do Planalto depredado (Foto de Gabriela Biló-Folhapress)
Palácio do Planalto depredado (Foto de Gabriela Biló-Folhapress)

Acumulada desde as eleições, a retórica bolsonarista de violência golpista explodiu nesse domingo (8) numa série de ataques às sedes dos Três Poderes da Repúblicas, instituições do Estado Democrático de Direito, sob o olhar complacente da Polícia Militar do Distrito Federal. A violência provocou a decretação de intervenção federal na área de segurança do DF e ao afastamento por 90 dias do governador Ibaneis Rocha (MDB), por ordem do ministro do STF Alexandre de Moraes. (UOL)

Grupos criminosos saíram da frente do QG do Exército, incluindo os que chegaram a Brasília em uma centena de ônibus no fim de semana, tomaram a Praça dos Três Poderes e, por volta das 15h, invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.

Alguns dos terroristas usavam máscaras de gás e capacetes. Enquanto a invasão acontecia, PMs filmavam e conversavam com os criminosos sem intervir. No Planalto, os golpistas roubaram as armas do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). O estrago já estava feito quando, após a decretação da intervenção, a polícia começou de fato a agir.

Segundo as autoridades do DF, 300 pessoas foram presas, e o controle dos prédios públicos foi retomado por volta das 20h. Ibaneis Rocha chegou a gravar um pedido de desculpas a Lula e aos presidentes dos Poderes. (UOL)

À tarde, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estava em Araraquara (SP), decretou a intervenção, afirmando que as autoridades do DF tiveram “incompetência, má vontade ou má-fé”, especialmente após os atos de vandalismo no dia de sua diplomação. Ele responsabilizou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem se referiu repetidamente como “genocida”.

Secretário-executivo do Ministério da Justiça e homem de confiança do ministro Flávio Dino, Ricardo Capelli será o interventor. Lula voltou a Brasília à noite e vistoriou os estragos no Planalto e no STF. O presidente convocou para hoje uma reunião com os 27 governadores para discutir ações contra os movimentos golpistas pelo país. (Poder360)

Ibaneis afrouxou, temendo o pior, mas acabou afastado do poder (Foto: reprodução)
Ibaneis afrouxou, temendo o pior, mas acabou afastado do poder (Foto: reprodução)

Já era início da madrugada quando o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou o afastamento do governador Ibaneis Rocha por 90 dias. A decisão, tomada no âmbito do inquéritos dos atos antidemocráticos, atendeu a um pedido da Advocacia-Geral da União e do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Segundo o ministro, os crimes de ontem “somente poderiam ocorrer com a anuência, e até participação efetiva, das autoridades competentes pela segurança pública e inteligência, uma vez que a organização das supostas manifestações era fato notório e sabido, que foi divulgado pela mídia brasileira”. (g1)

De fato, não foi por falta de aviso. Grupos bolsonaristas articulavam a ação em Brasília abertamente em redes sociais desde, pelo menos, terça-feira. Nas mensagens, organizavam-se viagens “com tudo pago” para a capital federal e, prevendo enfrentamentos, convocam-se ex-policiais e outras “pessoas com porte de arma”. O grupos começaram a se deslocar para Brasília na sexta-feira, sem que um esquema reforçado de segurança fosse montado no Distrito Federal. (Estadão)

O presidente dos EUA, Joe Biden, tuitou uma mensagem de apoio a Lula e ao Brasil, condenando o “atentado à democracia”. Na mesma linha seguiram praticamente todos os líderes da América Latina e nomes importantes da política mundial, como o presidente da França, Emmanuel Macron, e do governo espanhol, Pedro Sánchez. Assumidamente de direita, a premiê italiana Giorgia Meloni criticou os ataques em Brasília. (g1)

Os criminosos deixaram um rastro de destruição nas sedes dos Três Poderes, como mostra um vídeo gravado pelo repórter Marcos Losekann no STF e outro divulgado pela Secretaria de Comunicação da presidência com os estragos no Palácio do Planalto. (g1)

Jair Bolsonaro só se manifestou seis horas após os ataques. Dos EUA, disse que atos violentos “fogem à regra” e os comparou a atos da esquerda em 2013 e 2017, embora em nenhuma dessas ocasiões as sedes dos poderes tenham sido invadidas.

Bolsonaro se posiciona em redes sociais (Reprodução do Canal BCS)
Bolsonaro se posiciona em redes sociais (Reprodução do Canal BCS)

Ele também negou envolvimento nos ataques. “Repudio as acusações, sem provas, a mim atribuídas por parte do atual chefe do Executivo do Brasil”, concluiu, no primeiro reconhecimento público de que Lula é o presidente. (g1)

Além de Lula, os líderes dos demais Poderes reagiram ao ataques terroristas. A presidente do STF, Rosa Weber, disse em nota que a “Suprema Corte não se deixará intimidar por atos criminosos e de delinquentes infensos ao estado democrático de direito”. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), além de condenar a invasão, cobrou que os senadores “independentemente de posições ideológicas ou políticas”, se manifestassem em defesa do Parlamento. Ele marcou para hoje uma sessão do Congresso para confirmar a intervenção na segurança do DF. Aliado de Bolsonaro, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que o Congresso “não dará espaço para vandalismo e baderna”. (Poder360)

A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu ao STF ontem a prisão do ex-secretário de Segurança do DF Anderson Torres, que havia sido exonerado mais cedo pelo governador Ibaneis Rocha. Torres, que é delegado federal, foi ministro da Justiça e um dos mais próximos auxiliares de Jair Bolsonaro. Ele é acusado de omissão pela falta de um esquema de segurança que impedisse a invasão dos palácios e pela aparente conivência de policiais. (CNN Brasil)

De férias na Flórida, Torres negou que tivesse ido aos EUA se encontrar com Bolsonaro. “Não me encontrei com ele em nenhum momento. Estou de férias com a minha família. Não houve nenhuma trama para que isso [os atos golpistas] ocorresse”, disse o agora ex-secretário. (Folha)

Nos bastidores, os ministros do STF responsabilizam o ministro da Defesa, José Múcio, por conta de sua “ação fraca” diante dos atos antidemocráticos. Ele defendia que as manifestações estavam se esvaziando naturalmente, o que se mostrou falso. (Globo)

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Lula sobe a rampa como presidente do Brasil pela terceira vez

Do Poder 360 e outras fontes

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) tomaram posse no domingo (1º). A chapa foi eleita em 2º turno com 50,9% dos votos válidos (60.345.999 votos), derrotando a chapa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com 49,10% (58.206.354 votos).

O Poder360 acompanhou presencialmente as solenidades da posse de Lula na Esplanada dos Ministérios, no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto, no coquetel no Itamaraty e também no Festival do Futuro.

Lula acena para povo no parlatório do Planalto, em Brasília (Foto oficial)
Lula acena para povo no parlatório do Planalto, em Brasília (Foto oficial)

Veja passo a passo como foi a posse:

Desfile no Rolls-Royce – com atraso de 29 minutos, Lula e Alckmin iniciaram o desfile no Rolls-Royce presidencial às 14h29. Havia uma dúvida se ambos iriam no automóvel ou em um veículo blindado por razões de segurança. O carro saiu da Esplanada dos Ministérios, na altura da Catedral de Brasília;

Figurino da posse – Lula vestia um terno azul e gravata da mesma cor; a primeira-dama, Janja, usava um terninho dourado com bordados. Já Alckmin estava de terno azul e gravata vermelha, e sua mulher, Lu Alckmin, com um vestido branco;

Presidente e vice desfilam em carro aberto (Foto: Tomaz Silvla/Agência Brasil)
Presidente e vice desfilam em carro aberto (Foto: Tomaz Silvla/Agência Brasil)

Congresso – Lula e Alckmin chegaram ao Congresso às 14h45, onde foram recebidos por Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado.

Começa a sessão solene no Congresso – Pacheco dá início à sessão que irá empossar Lula e Alckmin; antes, pede 1 minuto de silêncio em homenagem a Pelé (1940-2022) e o papa emérito Bento 16 (1927-2022);

Caneta de 1989 – antes de assinar o termo da posse, Lula relatou que assinaria o documento com uma caneta que, segundo ele, foi dada por um apoiador durante a campanha presidencial de 1989. Disse também ter usado o objeto em 2003 e em 2007;

Juramento da posse – Lula e Alckmin fizeram o juramento constitucional às 15h04. O presidente falou 1º, na sequência, foi a vez do vice;

Discurso de Lula no Congresso – depois de tomar posse, o presidente discursou por 30 minutos e disse ser necessário reconstruir o país. Quis transmitir uma mensagem de esperança e falou em “democracia para sempre”;

Discurso de Lula no Congresso 2 – o petista também indicou punição a Bolsonaro pelo o que chamou de “genocídio” na pandemia, chamou o teto de gastos de estupidez e anunciou que iria revogar os decretos de armas do governo anterior;

O que disse Arthur Lira – o presidente da Câmara afirmou que é hora de torcer pelo futuro do Brasil e dos brasileiros;

O que disse Rodrigo Pacheco – o presidente do Senado afirmou que a nova âncora fiscal será prioridade do Congresso.

Rumo ao Planalto – depois de deixar o Congresso, Lula passou as tropas em revista e seguiu, ao lado de Alckmin, ao Planalto; presidente e vice-presidente foram no Rolls-Royce presidencial;

Representantes de segmentos da sociedade e etnias subiram rampa com Lula (Foto: Web)
Representantes de segmentos da sociedade e etnias subiram rampa com Lula (Foto: Web)

Sobe a rampa do Planalto – Lula e Alckmin subiram a rampa às 16h54 ao lado de um grupo de brasileiros e Resistência, a cadelinha do petista e de Janja;

Representantes de segmentos da sociedade e etnias subiram rampa com Lula (Foto: Sérgio Lima/Poder 360)
Perfilado diante do público, Lula recebeu faixa presidencial das mãos de uma catadora (Foto: Sérgio Lima/Poder 360)

Quem passa a faixa? – um dos mistérios da posse de Lula era quem passaria a faixa ao presidente. No final, 8 pessoas ficaram responsáveis pelo gesto simbólico. Aline Sousa, uma mulher, de 33 anos, catadora desde os 14, passou-lhe a faixa presidencial. Conheça uma a uma as oitos pessoas de origem simples que subiram a rampa com o presidente (AQUI): uma criança negra, um líder indígena, uma catadora, uma cozinheira, um professor, um artesão, um operário e uma pessoa com deficiência.

Discurso no parlatório do Planalto – às 17h05, o presidente iniciou seu discurso de 27 minutos; falou em união e fez um apelo aos bolsonaristas, dizendo que governará para todos os brasileiros;

Grande público na Esplanada dos Ministérios participou da programação (Foto: Lúcia Izquierdo)
Grande público na Esplanada dos Ministérios participou da programação (Foto: Lúcia Izquierdo)

Paz e união, pero no mucho – embora tenha pregado a pacificação do país, Lula indicou um cerco ao bolsonarismo ao dizer que possíveis crimes cometidos na pandemia serão apurados e punidos;

Choro no discurso – ao falar de crianças fora da escola e pessoas pedindo ajuda nos semáforos, Lula chorou e ficou com a voz embargada;

Primeiras medidas – já no 1º dia, Lula assinou às 19h04 atos que viabilizam o Auxílio Brasil de R$ 600, prorrogam a isenção de impostos sobre combustíveis e revogam decretos que facilitavam o acesso a armas de fogo e munições;

Ministros empossados – às 19h19, o presidente deu início à cerimônia de posse dos seus 37 ministros;

Lula e Alckmin posam ao lado dos 37 ministros (Foto: Daniel Teixeira/Estadão)
Lula e Alckmin posam ao lado dos 37 ministros (Foto: Daniel Teixeira/Estadão)

Lula & autoridades – depois de empossar seus ministros, Lula, Janja, Alckmin e Lu Alckmin receberam e cumprimentaram autoridades.

Coquetel no Itamaraty – encerrada a cerimônia no Planalto, presidente e vice foram para o Itamaraty, onde foi realizado um coquetel para cerca de 2.000 convidados;

Figurino do coquetel – Lula e Janja chegaram ao Itamaraty no início da noite (algumas delegações já haviam ido embora) de roupa trocada. O presidente vestia terno preto e gravata vermelha, enquanto Janja foi ao evento com um vestido roxo;

Cardápio do coquetel – bolinho de feijoada, acarajé, pastel de carne seca, salada de bacalhau etc.

Discurso no palco – Lula foi ao Festival do Futuro por volta de 23h. Discursou por 8 minutos, falou em consertar o país e encerrou sua fala com um beijo em Janja – ele ainda convidou o vice, Geraldo Alckmin, a fazer o mesmo com Lu, o que ele fez.

Alckmin, Lu, Janja e Lula foram ao palco do Festival do Futuro e ele discursou novamente (Foto: Reprodução)
Alckmin, Lu, Janja e Lula foram ao palco do Festival do Futuro e ele discursou novamente (Foto: Reprodução)

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Partido dos Trabalhadores tem que melhorar muito para ter prefeitura

Para conquistar a Prefeitura do Natal, o Partido dos Trabalhadores (PT) do Rio Grande do Norte tem que melhorar muito, muito mesmo, seu desempenho na capital. PT - Partido dos Trabalhadores

O histórico é ruim nas pelejas municipais de Natal.

Nas dez eleições municipais desde o início do processo de reabertura democrática do país, o PT teve desempenho que ficou longe do Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura do Natal: 1985, 1988, 1992, 1996, 2000, 2004, 2008, 2012, 2016 e 2020. Em duas delas, sequer teve candidato, em 1985 e 1988.

Vamos à retrospectiva:

1985

Garibaldi Alves Filho (PMDB) – 53,21%
Wilma Maia (PDS) – 44,63%

*Essa foi a primeira eleição direta para prefeito da capital potiguar, após o fim da ditadura militar.
*Wilma ainda tinha o sobrenome Maia, originário do casamento com o ex-governador Lavoisier Maia (PDS).
*Garibaldi era deputado estadual e venceu seu primeiro pleito majoritário.
*O prefeito à época, de ascensão indireta obtida durante o regime militar, era Marcos Formiga (PDS).
*O PT não teve candidato a prefeito ou vice-prefeito.
*A contenda eleitoral teve quatro chapas à prefeitura.

1988

Wilma Maia (PDT) – 46,92%
Henrique Alves (PMDB) – 43,45%
Waldson Pinheiro (PSB) – 6,75%

*Corrida eleitoral teve quatro chapas concorrendo à municipalidade.
*O PT não teve candidato próprio à prefeitura, compondo chapa do PSB com Hugo Manso de vice.

1992

Henrique Alves (PMDB) – 39,32% (primeiro turno) e 49,79% (segundo turno)
Aldo Tinoco (PSB) – 26,98% (primeiro turno) e 50,21% (segundo turno) foi o vencedor
Ana Catarina Alves (PFL) – 21,35%
Júnior Souto (PT) – 6,89%
Pedro Lucena (PSC) – 5,45%

*Natal teve cinco candidatos a prefeito.
*
Wilma de Faria (PSB) era prefeita e não existia o instituto da reeleição. Ela apostou à sua sucessão no engenheiro sanitarista Aldo Tinoco, imberbe em disputas, para vencer o favorito deputado federal Henrique Alves, a quem já tinha vendido em 1988.
*Aldo Tinoco venceu o segundo turno por apenas 961 votos, num universo de 225.025 votantes no segundo turno. Ele somou 112.993 votos, enquanto Henrique chegou a 112.032 votos.

1996

Wilma de Faria (PSB) – 35,79% (primeiro turno) e 51,68% (segundo turno)
Fátima Bezerra (PT) – 28,88% (primeiro turno) e 48,32% (segundo turno)

*Foram seis chapas concorrendo à prefeitura.

2000

Wilma de Faria (PSB) – 57,71%
Fátima Bezerra (PT) – 29,38%

*Foram oito candidatos à municipalidade.

2004

Carlos Eduardo Alves (PSB) – 37,30% (primeiro turno) e 51,92% (segundo turno)
Luiz Almir (PSDB) – 30,46% (primeiro turno) e 48,08% (segundo turno)
Miguel Mossoró (PTC) – 18,17%
Fátima Bezerra (PT) – 7,41%

*Disputa teve ao todo sete candidatos à prefeitura.
* Carlos Eduardo foi reeleito. Chegou à prefeitura em 2002 com renúncia de Wilma de Faria (PSB) para concorrer e vencer Governo do RN.

2008

Micarla de Souza (PV) – 50,84%
Fátima Bezerra (PT) – 36,82%

*Foram oito chapas concorrentes à prefeitura.

2012

Carlos Eduardo Alves (PDT) – 40,42 % (primeiro turno) e 58,31 % (segundo turno)
Hermano Morais (PMDB) – 23,01 % (primeiro turno) e 41,69 % (segundo turno)
Fernando Mineiro (PT) – 22,63 %

*Corrida eleitoral teve seis chapas concorrentes.

2016

Carlos Eduardo Alves (PDT) – 63,42%
Kelps Lima (Solidariedade) – 13,37%
Fernando Mineiro (PT) – 10,15%

*Natal teve sete chapas concorrendo à prefeitura.

2020

Álvaro Dias(PSDB) – 56,58%
Jean-Paul Prates (PT) – 14,38%

*A capital potiguar chegou ao recorde de 13 candidatos a prefeito.
* Álvaro Dias tinha sido eleito vice de Carlos Eduardo em 2016 e, com renúncia desse, para concorrer ao Governo do RN em 2018, cumpriu restante do mandato como titular e venceu o pleito de 2020.

Leia também: “Chegou a hora do PT administrar Natal”, avisa Mineiro;

Leia também: Carlos Eduardo quer a Prefeitura do Natal, com ou sem o PT.

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O Rolls-Royce do “Tremendão” Erasmo Carlos tem muita história

Por Alessandro Reis (UOL)

O cantor e compositor Erasmo Carlos, que morreu aos 81 anos no último dia 22, nunca escondeu sua paixão por automóveis. Sobretudo no começo da carreira, na década de 1960, o Tremendão se inspirou nos carros e na cultura automotiva em canções de sucesso como “O Bom”, “O Carango” e “Jeep”.

Veículo, com Erasmo em cima, tem origem inglesa (Foto: reprodução)
Veículo, com Erasmo em cima, tem origem inglesa (Foto: reprodução)

Foi nessa época que o artista começou a fazer sucesso e comprou seu primeiro carrão – que até hoje é preservado por um colecionador em São Paulo, que prefere não dar entrevista.

Trata-se de um Rolls-Royce Silver Wraith, modelo inglês de alto luxo com carroceria do tipo Sedanca de Ville – feita sob encomenda pela também inglesa H.J. Mulliner.

Segundo publicações, Erasmo adquiriu o carro inglês de luxo em 1966 diretamente do primeiro proprietário – o ex-governador paulista Adhemar de Barros – por cerca de 22 milhões de cruzeiros ou aproximadamente R$ 450 mil nos dias de hoje.

Especialistas consultados por UOL Carros estimam que esse carro, em bom estado, hoje poderia ser vendido facilmente por mais de R$ 1 milhão – sem considerar seus ex-donos famosos ao arriscar um valor.

Capa de disco

Embora tenha ficado pouco tempo com o Rolls-Royce, o astro da Jovem Guarda usou fotos do possante para ilustrar a capa do álbum “Erasmo Carlos”, de 1967, e até mencionou o veículo na autobiografia “Minha Fama de Mau”, (Editora Objetiva, 2009).

“O carro era um barato, de cor grafite, extremamente silencioso, volante e câmbio do lado direito, persianas dobráveis, forro de tecido e farolões”, descreve o eterno parceiro de Roberto Carlos.

Disco do artista mostrou veículo (Foto: reprodução)
Disco do artista mostrou veículo (Foto: reprodução)

No livro, Erasmo Carlos acrescenta que contratou um motorista chamado Sebastião para conduzi-lo no automóvel britânico, que necessariamente precisava estar familiarizado com a condução de carros de mão inglesa e “acostumado com o difícil trânsito ” – na ocasião, o artista, nascido na capital do Rio de Janeiro, morava na cidade de São Paulo.

“Imediatamente incorporei ao terno e gravata do Tião um estiloso chapéu preto de caubói, que era o principal lançamento da minha grife Tremendão. Então, carregando o cachorro Brasinha, mascote da Jovem Guarda, fomos conferir ‘in loco’ os agitos de Sampa”.

O cantor também conta na autobiografia que, naquele tempo, surgiram boatos, segundo ele infundados, de que a Rolls-Royce o estaria processando por supostamente “depreciar” a tradicional marca ao transportar animais com um motorista usando chapéu chamativo.

“Tudo mentira, enquanto em Londres John Lennon desmistificava o seu [Rolls-Royce], pintando-o com motivos psicodélicos”.

Carro de 75 anos

Para saber mais sobre o primeiro carrão de Erasmo Carlos, conversamos com Alexandre Galindo, pesquisador especializado na montadora inglesa.

De acordo com Galindo, embora o Silver Wraith do Tremendão tenha sido registrado em 1950, o Rolls é do modelo 1948 e foi encomendado em Londres pessoalmente por Adhemar de Barros, que comprou o carro zero-quilômetro e o trouxe ao Brasil.

Galindo prossegue, dizendo que o atual proprietário adquiriu o veículo em 1970 diretamente de Erasmo Carlos – portanto, seria apenas o terceiro dono.

“Esse carro tem cabine do motorista com teto removível e todos os detalhes foram escolhidos pessoalmente pelo ex-governador. Até onde eu sei, esse exemplar tem bastante originalidade e teria passado apenas por reparos pontuais – considerando que se trata de um carro fabricado há quase 75 anos.

O especialista destaca que o Silver Wraith de Erasmo tem apenas outro exemplar “gêmeo” no Brasil, com a mesma configuração de carroceria e itens opcionais.

‘Carro do amor’

Carro foi muito utilizado para eventos como transporte de noivas (Foto: Reprodução)
Carro foi muito utilizado para eventos como transporte de noivas (Foto: reprodução)

Sabemos que o Silver Wraith já pegou bastante no batente desde 1970 e até alguns anos atrás era bastante requisitado para aluguel em cerimônias de casamento – daí o “carro do amor” do título desta reportagem.

Além de ser disponibilizado para aluguel diretamente pelo próprio dono, o Rolls também foi alugado para casamentos pela empresa do colecionador Dante Forestieri, também recentemente falecido.

“É um carro que nunca nos deixou na mão. Esse carro andou, fez casamento para caramba, era bastante requisitado”, relembra o empresário Léo Forestieri, filho de Dante.

Para os curiosos sobre dados técnicos, Alexandre Galindo traz as informações básicas: o Silver Wriath que um dia pertenceu ao Tremendão traz sob o capô motor de seis cilindros em linha com 4.257 cm³, equipado com carburador da Stromberg.

O câmbio manual tem quatro marchas, enquanto os freios dianteiros têm assistência hidráulica – os traseiros são acionados por varão.

Para proporcionar o conforto esperado em um Rolls, o modelo traz amortecedores hidráulicos nas quatro rodas.

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“Porta giratória”, o movimento de bilhões com executivos do petróleo

Por Lucas Ferraz (The Intercept Brasil)

Maior empresa brasileira e uma das gigantes mundiais no ramo de petróleo, a Petrobras tomou um novo rumo no governo Bolsonaro ao acelerar a venda de parte de seu patrimônio — uma mudança de perfil que deve ser revista no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a partir de janeiro de 2023.The Intercept e reportagem especial sobre executivos da Petrobras na iniciativa privada - Porta giratória 19-11-2022

Iniciada durante o governo de Dilma Rousseff, a política que permitiu o surgimento de novos atores privados no mercado ganhou um forte impulso com o atual governo, responsável por vender a maioria dos ativos negociados pela Petrobrás até o momento.

Quem liderou essas aquisições foi uma pequena e até há pouco tempo desconhecida petrolífera, a 3R Petroleum, que tem em sua cúpula alguns ex-diretores da Petrobras e atua exclusivamente em campos comprados da estatal.

Fundada em 2014, a 3R Petroleum tornou-se expoente do novo mercado adotando uma velha prática do setor, a chamada porta giratória – quando executivos envolvidos em uma ponta do processo passam para o outro lado do balcão, atuando em companhias privadas que compram justamente espólio da estatal da qual vieram.

Pelo menos 12 profissionais da 3R vieram da Petrobrás, inclusive o ex-presidente da estatal, Roberto Castello Branco, responsável por alavancar o programa de desinvestimento no governo Bolsonaro. Castello Branco é o atual presidente do Conselho de Administração da 3R.

O caso chama a atenção por iluminar os bastidores de um mercado e seus novos atores privados, admitidos no país desde a edição da Lei do Petróleo, em 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, responsável por derrubar o monopólio da Petrobrás. Quando a legislação entrou em vigor, o país extraía 1 milhão de barris de petróleo por dia. Hoje, são mais de 2,8 milhões de barris por dia, produzidos por mais de 40 empresas – a Petrobrás é a gigante absoluta, respondendo por 93% da produção.

Além de diretores experientes e o aproveitamento no programa de desinvestimento da Petrobrás, o que impulsionou a 3R foi o preço competitivo de algumas das aquisições. A companhia comprou nove polos de gás e petróleo ofertados pela estatal – três deles, ainda em fase de transição.

Todos os ativos foram negociados no governo Bolsonaro, cujo ministro da economia, Paulo Guedes, é um declarado entusiasta da privatização da Petrobras e ex-sócio (e fundador) do BTG Pactual, banco que detém uma pequena parte (3,68%) do capital social da 3R. O BTG Pactual também ajudou a levantar dinheiro para o grupo adquirir ativos.

Mudança de cenário

A primeira tentativa da 3R de comprar um espólio da Petrobrás ocorreu no final do governo Michel Temer, presidente cuja agenda liberalizante acelerou ainda mais o programa iniciado no governo Dilma.

O alvo era o polo de Riacho da Forquilha, no Rio Grande do Norte, com alguns dos maiores poços onshore (extração de gás ou petróleo realizada em terra) do Brasil. Mas a companhia renunciou ao direito de compra. Segundo noticiou-se à época, exatamente pela desconfiança do mercado em relação ao faturamento e à inexperiência da 3R no setor.

O cenário mudou desde então. A companhia estreou na bolsa de valores há dois anos e chamou a atenção do mercado financeiro exatamente num momento em que o barril de petróleo valorizou por causa da invasão na Ucrânia e da alta da inflação em todo o mundo. Nos canais de jovens investidores no YouTube, a 3R é comparada à Petrorio, outra petroleira nacional, em atividade há mais tempo, que cresceu comprando campos maduros (aqueles que já passaram do pico de produção) da Petrobrás.

“Quando a Petrobras decide vender é que se inicia. Construímos a 3R para esse tipo de oportunidade. Somos a empresa que mais assinou contratos de compra com a Petrobras. Foi muito trabalho nessa primeira fase, onde o segredo é precificar corretamente”, afirmou o CEO da empresa, Ricardo Savini, em entrevista ao jornal O Globo neste ano. Ele é geólogo, formado na Petrobrás, tendo trabalhado lá por mais de uma década.

Empréstimos

Além do BTG Pactual, a companhia conta com outros fundos e bancos para capitalizar e realizar novas aquisições. E tem atraído parceiros de peso como a família Gerdau, dona de 10,9% do capital da empresa, por meio da Gerdau Investimento.

Castello Branco teve embate com Bolsonaro em momento delicado do governo (Foto: Tomaz Silva, Agência Brasil)
Castello Branco teve embate com Bolsonaro em momento delicado do governo (Foto: Tomaz Silva, Agência Brasil)

Neste ano, a 3R contraiu dois empréstimos de 500 milhões de dólares cada para poder pagar o polo Potiguar, o maior e mais valioso ativo da Petrobrás que entrará para o portfólio do grupo. O acordo de compra e venda foi assinado em janeiro deste ano – o preço supera 1,3 bilhão de dólares. No primeiro empréstimo, anunciado num comunicado ao mercado em agosto, a 3R informou que o valor foi emprestado por um grupo de credores que conta com Morgan Stanley, Citibank, Banco do Brasil, Itaú, Deutsche Bank, entre outros. O segundo, firmado dois meses depois, foi com o BTG Pactual.

As cifras poderão ser pagas em até cinco anos, mas os bons resultados mostram que o débito deve ser honrado bem antes.

No último balanço divulgado, a 3R registrou receita líquida no terceiro trimestre deste ano de R$ 502 milhões, um aumento de 161% em relação ao mesmo período de 2021. Já o lucro líquido foi de R$ 469 milhões, um fabuloso crescimento de 1.364%, comparado ao trimestre anterior.

Nos dois anos e três meses da gestão de Castello Branco na Petrobrás, a estatal vendeu 37 campos de petróleo. Só com a 3R, nesse período, os campos negociados renderam cerca de R$ 3,8 bilhões, em valores atuais.

Castello Branco virou presidente da Petrobrás após as eleições de 2018. Foi indicado por Guedes e ocupou o cargo de janeiro de 2019 até 12 de abril de 2021. No discurso de posse, ele – defensor da privatização da estatal, assim como seu padrinho político – criticou a existência de monopólios e pregou menor intromissão do Estado na economia.

Durante a gestão Castello Branco, a Petrobrás realizou sucessivos reajustes no preço da gasolina e do diesel provocando um choque direto com Bolsonaro, que desejava controlar os preços dos combustíveis. O presidente demitiu o executivo. Em resposta, Castello Branco acusou Bolsonaro de usar a empresa como se fosse dele e deu a entender que tinha mensagens em seu telefone corporativo que poderiam incriminá-lo.

Sigilo de 100 anos

Seguindo uma praxe que se tornaria recorrente ao longo do mandato, Bolsonaro colocou o assunto sob sigilo e decretou o prazo de 100 anos para acesso às mensagens.

Menos de um ano depois de ser demitido, em março de 2022, o mercado tomou conhecimento de que o ex-chefe da Petrobrás assumiria o cargo máximo no conselho de administração da 3R Petroleum. Apesar de ter suscitado críticas, a ida do executivo para a petrolífera não é ilegal, já que foi respeitada a quarentena de seis meses prevista em lei para evitar conflito de interesses. A restrição temporária também vale para ministros, “presidentes e diretores de empresas públicas ou sociedades de economia mista”.

A Petrobrás informou ao Intercept que o descumprimento dos princípios e compromissos internos (os mesmos previstos na lei em questão, nº 12.813/2013) podem acarretar medidas disciplinares, mas ressaltou que não “comenta casos específicos”.

Em nota enviada ao Intercept, Castello Branco ressaltou que o desinvestimento de “um ativo está sujeito a rigorosas normas de governança requerendo aprovação” de diferentes órgãos da empresa, além de auditoria do Tribunal de Contas da União, sendo um processo decisório do qual participam pelo menos 40 pessoas. “É incorreto dizer que a decisão é do presidente [da Petrobrás]”, afirmou.

A 3R, também em nota, informou que a escolha de Castelo Branco se deu por sua experiência no setor de óleo e gás e por sua atuação como diretor de grandes companhias — como a Vale e o Banco Central.

Outro caso de porta giratória verificado na relação entre a Petrobras e a 3R envolve o engenheiro elétrico José Luiz Marcusso, que trabalhou por 38 anos na estatal e ocupou posições como a gerência de recursos humanos e da área de produção e exploração no Espírito Santo — estado onde se encontra o polo Peroá, um dos ativos colocados à venda no programa de desinvestimento.

Marcusso deixou a Petrobras em março de 2021, um mês antes da empresa vender o polo. Após cumprir os seis meses de quarentena previstos em lei, o engenheiro assumiu, já no primeiro mês livre, o cargo de gerente de ativos na 3R, que acabou por fechar o negócio em Peroá.

Quando as operações foram finalmente transferidas à 3R, em agosto passado, quem representava a companhia era o mesmo Marcusso, que tinha comandado as operações na área pela Petrobrás uma década antes.

“Ele é o caso mais cristalino disso tudo”, ressaltou Etory Sperandio, diretor do Sindipetro, o Sindicato dos Petroleiros, do Espírito Santo.

O negócio foi vantajoso, segundo o relatório de produção publicado no site da 3R, dona de 85% do polo, ao custo de 55 milhões de dólares.

Foram mais de 78 mil barris de petróleo extraídos em agosto deste ano, primeiro mês de operação, quando o valor do barril superou os 90 dólares no mercado internacional. O faturamento bruto da empresa chegou à casa de 7 milhões de dólares nos primeiros 30 dias. Em oito meses, com os preços e a produção mantidos no mesmo patamar, a 3R terá faturado no Peroá mais do que todo o valor que gastou na aquisição do ativo: 56 milhões de dólares.

Esse exemplo foi citado no levantamento realizado pelo Sindipetro do Espírito Santo, que levanta casos de conflito de interesses e critica a política de “desmontar” a Petrobrás.

Expertise em formar profissionais

A estatal criada em 1953 desenvolveu ao longo dos anos uma grande expertise na formação de profissionais, o que ajuda a entender o porquê de tantos executivos e diretores de carreira serem cobiçados por outras empresas – nacionais e estrangeiras. Alguns estão perto da aposentadoria e veem as ofertas como oportunidade para ganhar excelentes dividendos e estender o tempo útil da carreira. A Petrobrás diz possuir “uma política de remuneração e benefícios alinhada às melhores práticas de mercado”.

O Intercept encontrou outro caso de porta giratória do ano passado que envolve um ex-diretor-executivo da Petrobras. Diferente dos demais casos citados, este recebeu uma reprimenda da Comissão de Ética Pública da Presidência por conflito de interesses e, por coincidência, justamente durante a gestão de Roberto Castello Branco.

Onshore tem foco do setor privado, uma necessidade da Petrobras priorizar o Pré-sal (Foto: Arquivo)
Onshore tem foco do setor privado, por uma necessidade da Petrobras priorizar o Pré-sal (Foto: Arquivo)

No início do governo Bolsonaro, houve uma troca na cúpula da estatal. Na diretoria de desenvolvimento da produção e tecnologia, saiu Hugo Repsold Júnior – que iria trabalhar para a 3R, abandonando o posto meses depois – e entrou Rudimar Andreis Lorenzatto.

Lorenzatto atuou na Petrobras por quase 25 anos e foi um dos profissionais formados em Macaé, no Rio de Janeiro, participando das descobertas do pré-sal, em 2006 (no final do primeiro mandato de Lula).

O processo na Comissão de Ética Pública ocorreu após ele deixar a empresa no primeiro semestre de 2021. Atualmente, Lorenzatto atua na Karoon Energy Brasil, como vice-presidente de operações.

“Essa porta giratória faz parte do mercado, pelo menos desde os anos 1990. O estado se encarrega de formar e qualificar o profissional, que depois é contratado por uma empresa. Assim, ele ganha muito dinheiro e ajuda a capitalizar uma empresa nova”, contou Cloviomar Cararine, economista do Dieese.

Uma característica dessas pequenas e médias empresas, segundo o economista Eduardo Costa Pinto, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, é nortear a produção de acordo com o preço do barril do petróleo no mercado internacional: quando ele sobe, a produção automaticamente aumenta; quando cai, a produção segue o mesmo ritmo. “Elas vivem na dependência do mercado internacional”, ressaltou Cararine.

Venda de ativos se justifica

A venda de ativos da Petrobrás se justifica pela necessidade de focar a produção na exploração do pré-sal. O objetivo dos desinvestimentos é reduzir a dívida da empresa, algo que já preocupava muito antes da Lava Jato, operação que puxou um grande novelo de corrupção na estatal e que serviu de estímulo para acelerar as vendas.

São três os perfis das empresas que adquirem os ativos: gigantes multinacionais, como Shell ou Exxon; as empresas controladas por estatais de outros países, como China e Noruega; e as companhias de pequeno e médio porte nacionais ou estrangeiras, fundadas há não muito tempo — neste grupo está a 3R.

A Petrobras informou em nota enviada ao Intercept que já concluiu mais de “50 transações com um valor total acumulado de mais de 40 bilhões de dólares”. Elas incluem campos de petróleo, gás, refinarias e terminais, além da venda da BR Distribuidora, rebatizada de Vibra.

Com o retorno de Lula, espera-se por mudanças nesse modelo de negócio. O próprio presidente eleito afirmou durante a campanha, e tem repetido nos últimos dias, que as empresas públicas brasileiras serão respeitadas e que a “Petrobrás não vai ser fatiada”. Da esquerda, muitos criticam Dilma Rousseff pelas “concessões” feitas ao mercado no seu segundo mandato, interrompido precocemente.

O debate que se iniciará nas próximas semanas mostrará as diferentes visões políticas do mundo do petróleo: uma ala, mais liberal, vê o produto meramente como uma commodity, um bem para exportação; a outra o encara como algo estratégico para a soberania nacional e o financiamento de políticas públicas.

Para os aliados de Lula, que estendem a crítica até os anos Dilma, o programa de desinvestimento em curso nada mais é do que um eufemismo para a privatização em pedaços da empresa, um símbolo do desenvolvimentismo brasileiro.

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‘O homem mais perigoso da Europa’

Do História Definitiva e outras fontes

Alguém poderia pensar que, de todos os membros seniores do regime nazista, alguém como Adolf Hitler, o líder dos nazistas, ou Heinrich Himmler, o chefe da SS, seria considerado “O homem mais perigoso da Europa”.

Otto Johann Skorzeny cumpriu missões de alto risco e foi inocentado em Nurenberg (Foto: Reprodução)
Otto Johann Skorzeny cumpriu missões de alto risco e foi inocentado em Nurenberg (Foto: Reprodução)

Mas não foi esse o caso. No final da Segunda Guerra Mundial em 1944, o homem que ganhou esse apelido era Otto Johann Skorzeny, engenheiro de 1,90 de altura. Então, quem era ele e como ele ganhou esse título?

Otto Skorzeny nasceu em Viena em 1908. Os Skorzenys eram uma família militar. Otto começou a esgrima desde muito jovem, um passatempo que o deixou com uma cicatriz dramática na bochecha esquerda depois de ser cortado em uma luta na universidade.

Em 1932 ele se juntou ao ramo austríaco do Partido Nazista. Após a anexação alemã da Áustria em março de 1938 e, em seguida, a eclosão da Segunda Guerra Mundial no ano seguinte, ele se ofereceu para o serviço militar alemão, terminando na Waffen-SS e treinando para se tornar parte da guarda pessoal de Adolf Hitler. Ele então serviu na Frente Oriental na Rússia em 1941.

O tempo de Skorzeny nas forças militares nazistas poderia ter permanecido bastante normal se não fosse pela nomeação de Ernst Kaltenbrunner, um colega nazista austríaco, como chefe do Escritório Central de Segurança do Reich no início de 1943, em sucessão a Reinhard Heydrich, que havia sido assassinado no verão anterior.

Kaltenbrunner conhecia Skorzeny e o promoveu para se tornar o chefe de uma unidade de Operações Especiais que estava sendo treinada para se envolver em missões de sabotagem e espionagem enquanto os Aliados partiam para a ofensiva contra a Alemanha nazista em 1943. Foi uma promoção que tornaria Skorzeny infame.

Libertação de Mussolini

A primeira missão liderada por Skorzeny, que atraiu a atenção generalizada, ocorreu em 12 de setembro de 1943. Ela recebeu o codinome Operação Carvalho (Unternehmen Eiche, em Alemão; em italiano Operazione Quercia), mas é mais conhecida como Raid Gran Sasso.

Mussolini e comando alemão começam fuga para Viena, após libertação do ditador (Foto: Reprodução)
Mussolini e comando alemão começam fuga para Viena, após libertação do ditador (Foto: Reprodução)

O objetivo era libertar Benito Mussolini, ditador fascista da Itália desde 1922, da prisão domiciliar a que fora submetido pelo governo italiano. Após a invasão aliada da Sicília no verão de 1943, o governo fascista em Roma decidiu que Mussolini não era mais adequado para liderar a Itália. Assim, eles o retiraram do poder e o prenderam antes de entrar em negociações de rendição com os americanos e britânicos.

Mas Hitler estava determinado a manter o controle da Itália. Assim, ele enviou tropas alemãs ao país e ordenou a Skorzeny que supervisionasse uma missão para resgatar Mussolini, que estava detido em um hotel no topo de uma montanha em Gran Sasso, perto de Roma.

Os agentes especiais de Skorzeny atacaram no dia 12 de setembro, pousando em Gran Sasso depois de parapente na montanha. “Duce, o Führer me mandou aqui para libertá-lo”, anunciou Skorzenu, ao que o ditador respondeu: “Eu sabia que meu amigo não ia me abandonar!”.

Ele foi então levado para Viena e depois para o norte da Itália, onde foi instalado como chefe de um novo governo italiano, que era efetivamente um estado fantoche alemão na cidade de Salo. Otto Skorzeny foi promovido a tenente-coronel e recebeu a grande honraria militar do regime nazista, a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro.

Outras operações

Várias outras missões foram planejadas ou executadas por Skorzeny no ano e meio que se seguiu, notadamente uma missão abortada para tentar assassinar os três principais líderes aliados, Winston Churchill, Joseph Stalin e Franklin Delano Roosevelt.

Isso não foi realizado, mas a Operação Greif foi em dezembro de 1944. Esta missão foi realizada como parte da Batalha do Bulge naquele inverno, uma contra-ofensiva alemã contra os Aliados na Floresta das Ardenas da Bélgica e Luxemburgo.

Skorzeny organizou unidades de tropas alemãs que se disfarçaram de soldados americanos e foram atrás das linhas inimigas a partir de meados de dezembro. Eles causaram o caos nos dias que se seguiram. Em alguns casos, eles viraram as placas de sinalização ao contrário e enviaram as forças aliadas na direção errada.

Os soldados, que falavam inglês e tinham sotaque americano razoável, até abordaram brigadas de tropas americanas e disseram que tinham ordens para recuar. Em poucos dias, os Aliados sabiam que tinham soldados alemães em seu meio, o que causou ainda mais caos, pois verificações excessivas de identidade viram generais aliados presos por seus homens sob a suspeita de que poderiam ser as tropas alemãs.

Finalmente, no início de 1945, Skorzeny foi encarregado de organizar um plano para continuar lutando contra os Aliados mesmo após o fim da guerra, mas isso foi abandonado quando a liderança nazista começou a cometer suicídio em Berlim no final de abril de 1945. A guerra terminou dias depois .

Fim da guerra

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Skorzeny foi levado a julgamento pelo Tribunal Militar Internacional, que processava criminosos de guerra nazistas na cidade de Nuremberg durante a segunda metade da década de 1940.

Skorzeny em sua cela em Nuremberg (Reprodução)
Skorzeny em sua cela em Nuremberg (Reprodução)

Ele foi, no entanto, absolvido após o testemunho de um oficial britânico de Operações Especiais que afirmou que ele teria agido da mesma maneira que Skorzeny agiu no Gran Sasso Raid e na Operação Greif e que as forças britânicas também enviaram suas tropas para trás das linhas inimigas vestidas como alemães.

Um segundo julgamento estava pendente em 1948, quando ele fugiu de um centro de detenção. Seus últimos anos foram passados ​​de forma variada na Espanha, onde foi protegido pelo governo fascista do general Francisco Franco; Argentina, onde o governo de Juan Perón abrigou muitos nazistas depois da guerra; e a Irlanda, um país que havia sido neutro na guerra e que mantinha uma relação profundamente antagônica com a Grã-Bretanha.

Ao longo desses anos, surgiram rumores de que ele facilitou a fuga de criminosos de guerra nazistas da Europa para a América do Sul e também que, contraditoriamente, ajudou o serviço de inteligência israelense, Mossad, a caçar nazistas envolvidos no Holocausto dos judeus da Europa.

Ele morreu de câncer em 5 de julho de 1975, aos 67 anos de idade, em Madrid, Espanha. Teve corpo cremado e suas cinzas foram enterradas no jazigo da família em Döblinger Friedhof, Viena.

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Entenda o porquê do fracasso mossoroense nas urnas 2022

São muitas as teorias, em boa parte com base em preferências e repulsas, que tentam explicar o baixo desempenho de Mossoró na eleição de nomes à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados. São muitas as razões que se somam e estabelecem esse quadro desolador de 2022.

Isolda conseguiu vitória com proporção de votos bem maior fora de Mossoró (Foto: Wigna Ribeiro)
Isolda conseguiu vitória com proporção de votos bem maior fora de Mossoró; prioridade do PT (Foto: Wigna Ribeiro)

Apenas a deputada estadual Isolda Dantas (PT) conseguiu vitória nas urnas, ou seja, sua reeleição. Em 2018, ela e o também estreante Allyson Bezerra (Solidariedade) tinham sido eleitos. O outro político com base local, deputado federal Beto Rosado (Progressistas), fracassou ao tentar chegar ao terceiro mandato consecutivo.

Que fique claro: não faltaram candidatos à peleja de acesso a essas duas casas legislativas. Ao mesmo tempo, não se pode reclamar da ausência de certa dose de bairrismo do mossoroense.

Entre os oito primeiro colocados à Assembleia Legislativa em Mossoró, todos são desse município. Em relação à Câmara dos Deputados, os três mais votados são de Mossoró. A partir daí, aparecem em 7º, 8º, 11º, 12º e 14º lugares outros concorrentes nativos.

Mas, por que o município que já elegeu quatro deputados estaduais em 1974 e três em 1990, 1998 e 2002 (veja AQUI), agora chegou a esse resultado pífio?

Por que zerou sua representação na Câmara dos Deputados, depois de já ter conseguido eleger três deputados num único ano (1998) e dezenas de mandatos desde 1945 (veja AQUI)?

Fracasso como gênese

O ponto de partida à compreensão está no próprio fracasso de quem dominou a política de Mossoró por mais de 70 anos: a oligarquia Rosado. É a gênese. Seu enfraquecimento continuado até a queda livre este ano, não elegendo ninguém, revela a perda de um mando que privilegiava apenas seus membros.

Sempre houve escassa oportunidade de prosperidade eleitoral a qualquer outro não-Rosado local ou de fora. Os fatos falam por si.

Com o vácuo, surgem não apenas candidaturas viáveis e propósitos ousados, mas também uma diversidade de nomes e projetos que ambicionam seu quinhão em terra arrasada. Muitos são aventureiros e sonhadores, mas mesmo assim fracionam bastante os votos.

Estadual – Mossoró

1º lugar – Jadson (Solidariedade) – 17.781 votos – R$ 174.500,00

2º lugar – Cabo Tony Fernandes (Solidariedade) – 15.647 votos – R$ 186.964,04

3º lugar – Isolda Dantas (PT) – 15.489 votos – R$ 551.814,54

4º lugar – Jorge do Rosário (Avante) – 6.861 votos – R$ 234.500,007

5º lugar – Isaac da Casca (MDB) – 6.520 votos – R$ 18.000,00

6º lugar – Zé Peixeiro (PMN) – 5.957 votos – R$ 57.386,08

7º lugar – Larissa Rosado União Brasil) – 5.796 votos – R$ 776.107,13

8º lugar – Marleide Cunha (PT) – 5.342 votos – R$ 181.346,80

Federal – Mossoró

1º lugar – Lawrence Amorim (Solidariedade) – 33.303 votos – R$ 782.5000,00

2º lugar – Pablo Aires (PSB) – 14.997 votos – R$ 513.636,00

3º lugar – Beto Rosado (Progressistas) – 11.136 votos – R$ 1.295,650,00

7º lugar – Samanda Alves (PT) – 4.216 votos – R$ 792.565,45

8º lugar – Sandra Rosado (União Brasil) – 3.254 votos – R$ 1.336,934,13

11º lugar – Fernandinho das Padarias (Republicanos) – 2.598 votos – R$ 553.405,74

12º lugar – Heliane Duarte (MDB) – 2.573 votos – R$ 546.277,14

14º lugar – Gideon Ismaias (Cidadania) – 1.589 votos – R$ 124.900,00

*Natália Bonavides (PT), com 10.290 votos; Fernando Mineiro (PT), com 6.963 votos e General Giral (PL), que empalmou 6.193 votos votos, ocuparam respectivamente a 4ª, 5ª e 6ª posição entre os mais votados. Major Brilhante (Progressistas) ficou em 9º com 3.233 votos; Carla Dickson (União Brasil) foi a 10ª com 3.141 votos e João Maia (PL) o 13º com 1.761 votos.

*Números financeiros atualizados até o dia 8 de outubro de 2022.

Esse abalo sísmico no modelo político meramente familiar, da oligarquia, tem eco forte e consequências diversas. O surgimento e a consolidação de sistemas de substituição não são instantâneos. Não é uma mero processo de reposição de peça avariada por algo novo ou recauchutado. O tempo e as urnas vão fazer essa maturação.

Fundão, nominata, concorrência

Outro ponto que passa despercebido à maioria, é a competitividade financeira proporcionada pelo Fundão Eleitoral. Diferentemente do passado de décadas, pequenos partidos e candidatos de menor posição econômica conseguem fazer campanhas eficazes, com visibilidade e meios à conquista do eleitor.

Com Rosalba longe da prefeitura, Beto buscou socorro fora, mas não deu (Foto: campanha/divulgação)
Com Rosalba longe da prefeitura, Beto buscou socorro fora, mas não deu (Foto: campanha/divulgação)

O quadro acima nesta postagem mostra, por exemplo, os dados financeiros e de votações oficiais disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobre candidatos a deputado estadual e a federal com origem mossoroense. Fácil perceber, que pela primeira vez em décadas um Rosado não é primeiro lugar nas duas disputas. Tem posições secundárias.

Nessa contabilidade, não se deve esquecer que Mossoró é município polo e todos procuram votos no seu acervo. Dos 187 candidatos oficiais a deputado federal, apenas 12 não foram votados em suas urnas. Dos 320 disputantes à Assembleia Legislativa, 49 não obtiveram nada num total de 129.956 válidos a estadual e 131.239 a federal.

Outro grau de dificuldade à eleição, seja federal ou estadual, foi a complexidade de montagem das nominatas, sob novas regras da minirreforma política, sem coligações, com cada partido se virando para fechar lista com bem menos candidatos do que em pleitos anteriores.

Voto em casa/voto fora

Vencer um pleito de dimensão estadual é uma campanha de guerra. Regionalizada ou estadualizada, mas de enormes exigências em termos de planejamento, organização e ação. No caso de Isolda Dantas, por exemplo, a grande maioria dos seus votos foi obtida fora de Mossoró. Somou 15.489 votos em Mossoró e 57.046 no estado. Venceu. Sua candidatura era uma das prioridades partidárias e foi trabalhada sob esse prisma.

Consciente que teria baixa no seu capital de votos em solo mossoroense, sem Rosalba Ciarlini (Progressistas) na prefeitura como antes, Beto Rosado apostou pesadamente na sua nominata (que não correspondeu), distribuição de emendas parlamentares em dezenas de municípios e deixou Mossoró em segundo plano. Colheu bons resultados fora e votação sofrível em sua terra. Foram 11.136 votos em Mossoró e 83.968 votos em termos gerais. Não se reelegeu.

Em relação ao grupo do prefeito Allyson Bezerra, os números da votação paroquial são muito bons. Seus candidatos foram campeões. Adiante, a performance não foi igual. Não se elegeram.

Lawrence, Allyson e Jadson numa campanha em que os interesses da cúpula estavam na capital (Foto: campanha/divulgação)
Lawrence, Allyson e Jadson numa campanha em que os interesses da cúpula estavam na capital (Foto: campanha/divulgação)

Faltaram votos além dos limites de Mossoró para a eleição de Jadson (Solidariedade) e Lawrence Amorim (Solidariedade), candidatos respectivamente a estadual e federal. Jadson conseguiu 17.781 votos em Mossoró e 27.763 no RN. Lawrence bateu um recorde com maior votação da história no município, a federal. Foram 33.303 votos. No plano estadual, ele recebeu 57.598 votos.

Erro capital: o governismo local ficou à mercê dos interesses próprios da cúpula partidária e chapa majoritária ao Governo do RN, em Natal, que tinham como prioridades a reeleição da deputada estadual Cristiane Dantas e a eleição de Luiz Eduardo à AL, além da candidatura do atual deputado estadual Kelps Lima à Câmara Federal. Só falhou a ascensão de Kelps, comandante-em-chefe do partido no estado.

Rescaldo

O ano de 2022 é emblemático. Vira a chave e arrima as condições primárias de uma nova era política em Mossoró. Todavia, é ainda muito vago o que deixa em números, para que possamos enxergar o que virá adiante e compreendermos completamente as mensagens das urnas.

É preciso um período de rescaldo, estudos, avaliação de cenário pós-eleições, para leitura mais precisa da voz do povo.

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Após 77 anos e dezenas de mandatos, Mossoró não elege ninguém

Que lástima. O segundo maior colégio eleitoral do Rio Grande do Norte, com um total de 183.285 eleitores aptos ao voto, não elegeu sequer um deputado federal este ano. É, de verdade, uma situação inusitada, se computados os pleitos desde a retomada do Estado Democrático de Direito, pós-Estado Novo, ditadura de Getúlio Vargas.

Vingt Rosado colecionou 7 mandatos e seu lado familiar totalizou 13 desde 1962 (Foto: arquivo/reprodução)
Vingt Rosado colecionou 7 mandatos e seu lado familiar totalizou 13 desde 1962 (Foto: arquivo/reprodução)

Levantamento em primeira mão e exclusivo do Canal BCS (Blog Carlos Santos) mostra como Mossoró sempre esteve presente na Câmara dos Deputados, desde uma época em que a Capital Federal ainda era o Rio de Janeiro.

Essa trajetória de eleições e eleitos está listada abaixo, tendo início há 77 anos, precisamente no pleito de 1945:

1945 – Mota Neto

1950 – Dix-huit Rosado e Mota Neto (Ficou na suplência, mas assumiu com a eleição a vice-presidente do natalense Café Filho, também eleito deputado federal, simultaneamente)

1954 – Dix-huit Rosado

1958 – Xavier Fernandes e Tarcísio Maia (Nascido em Catolé do Rocha-PB, mas radicado em Mossoró)

1962 – Vingt Rosado

1966 – Vingt Rosado

1970 – Vingt Rosado

1974 – Vingt Rosado

1978 – Vingt Rosado

1982 – Vingt Rosado

1986 – Vingt Rosado e Wilma de Faria

1990 – Laíre Rosado

1994 – Laíre Rosado e Betinho Rosado

1998 – Laíre Rosado, Betinho Rosado e Múcio Sá

2002 – Sandra Rosado e Betinho Rosado

2006 – Sandra Rosado e Betinho Rosado (Ficou na suplência de Nélio Dias, mas com morte desse em 20 de julho de 2007, assumiu o mandato)

2010 – Sandra Rosado e Betinho Rosado

2014 – Beto Rosado

2018 – Beto Rosado (Assegurou mandato judicialmente, em decisões liminares. O eleito foi Fernando Mineiro, do PT)

2022 – Nenhum

O empresário Mário Rosado, filho do ex-prefeito Dix-huit Rosado, chegou a assumir mandato interinamente no dia 1º de janeiro de 1995, final da legislatura eleita em 1990.

Mota Neto, o "Motinha", abriu a série de mandatos (Foto: Reprodução)
Mota Neto, o “Motinha”, abriu a série de mandatos (Foto: Reprodução)

Xavier Fernandes, com a morte do deputado federal Aristófanes Fernandes no 8 de dezembro de 1965, no Rio de Janeiro, acabou efetivado para seu segundo mandato parlamentar federal.

Outra curiosidade, entre tantas outras, é que de forma contínua o clã Rosado tinha eleições à Câmara dos Deputados desde 1962, quando foi eleito Vingt Rosado. Ele também é o segundo político do RN com mais mandatos federais, num total de 7, só perdendo para o ex-deputado Henrique Alves que somou 11 a partir de 1970 – consecutivamente.

21 mandatos Rosados

Os Rosados cumulativamente foram eleitos 21 vezes à Câmara dos Deputados e ainda assumiram mais duas, em virtude de falecimento de um titular e renúncia de outro.

Desde a eleição de 1945, Mossoró teve entre eleitos e suplentes o total de 30 mandatos federais.

A ala Rosado do tronco familiar de Vingt Rosado somou desde 1962 o total de 13 mandatos: ele, com sete; além de Laíre Rosado e Sandra Rosado com três legislaturas cada um.

DTV

Em 1958 há um fato muito interessante sobre a eleição de Tarcísio Maia. Ele foi eleito deputado federal, seu único mandato obtido pelo voto direto. Aliado aos primos Vingt Rosado e Dix-huit Rosado, ele formou chapa ‘não oficial’ denominada de DTV – Dix-huit/Tarcísio e Vingt,

Dix-huit foi eleito ao Senado e Vingt à Assembleia Legislativa do RN, além do próprio Tarcísio Maia à Câmara dos Deputados.

Três 

Em 1998, dos oito deputados federais eleitos pelo Rio Grande do Norte, três foram de Mossoró. Uma marca única até hoje: na lista de vitoriosos, Laíre Rosado, Betinho Rosado e Múcio Sá.

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Fátima Bezerra apresenta Rosalba como novo apoio à sua campanha

À manhã desta quinta-feira (22), em suas redes sociais, a governadora Fátima Bezerra (PT) anunciou publicamente o que o jornalista César Santos (Jornal de Fato) adiantara: “Quero agradecer à ex-governadora, ex-senadora e ex-prefeita de Mossoró, Rosalba Ciarlini (PP), por nos apoiar nesta eleição. Este posicionamento expressa o reconhecimento do trabalho que estamos fazendo para manter o RN no rumo certo e avançarmos cada vez mais! Obrigada!”

Postagem de Fátima Bezerra mostra fotos de encontro na terça-feira (Reprodução do Canal BCS)
Postagem de Fátima Bezerra mostra fotos de encontro na terça-feira (Reprodução do Canal BCS)

Segundo César Santos, as duas estiveram estiveram reunidas na terça-feira (20), mas só três dias depois Fátima Bezerra faz a publicação.

A ex-prefeita, que não se reelegeu em 2020 à prefeitura, também garantiu apoio à candidatura ao Senado do ex-prefeito natalense Carlos Eduardo Alves (PDT), no encontro em Natal com a governadora.

Ela e seu grupo marcam um “duplo” nessa campanha: seu sobrinho-afim e deputado federal Beto Rosado (PP) já proclamou voto em Rogério Marinho (PL), ex-ministro do Governo Jair Bolsonaro (PL).

Os comentários na postagem de Fátima Bezerra na rede social Twitter, por exemplo, são de maciça reprovação ao anúncio. Os comentários exalam desolação e perplexidade. “Eu não posso acreditar”, “multiverso da loucura”, “bem que o povo da igreja fala: é o fim dos tempos”, “acho que a intenção é botar o adversário na disputa; não tem condições”, “abafa”, “vou ficar calada”, “a eleição de 2022 oferta cada coisa estranha para a gente”, “Fatinha, esse apoio não precisava não”, “corre daí, Fátima, pelo amor de Deus” – entre outros.

Pesquisas

Beto e Rogério, em Jucurutu, dia 28 de agosto: apoio rosalbista (Foto: Assessoria/Arquivo)
Beto e Rogério, em Jucurutu, dia 28 de agosto: apoio rosalbista (Foto: Assessoria/Arquivo)

Já Rosalba, até às 12h30, não tinha publicado uma linha sequer sobre seu apoio e sobre seu próprio grupo.

Dia passado, no Blog do Barreto, pesquisa em parceria dessa página com o Instituto Seta, apontava que Fátima Bezerra tinha 43,4% de intenções de voto em Mossoró, contra 11,5% do segundo colocado, o senador Styvenson Valentim (Podemos), Maioria local de 31,9%.

No plano estadual, a sondagem mais recente, deu 46,4% para Fátima e 16,8% para Styvenson, números do Instituto DataVero com 98 FM de Natal. Uma maioria de 29,6%, com forte inclinação para o pleito ser resolvido no primeiro turno.

Chegada foi adiada

Em agosto último, pouco antes de começar campanha, Rosalba esteve a ponto de se apresentar como aliada de Fátima (veja AQUI bastidores que postamos na época). Em abril, quase se filiou ao Partido Verde (PV), legenda que compõe federação partidária com o PT. Houve recuo. A versão que a ex-governadora foi favorecida na CPI da Arena das Dunas, na Assembleia Legislativa, graças a manobra petista, gerou temeridade na acomodação.

Já em 2014, governadora em fim de mandato, Rosalba proclamou no dia 29 de setembro que a então deputada federal Fátima Bezerra era sua candidata ao Senado (veja AQUI). Faltavam seis dias pro pleito.

Agora, dez dias antes de nova eleição, a “Rosa” crava a mesma aposta.

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Luta familiar vai testar forças na disputa à Câmara Federal

Apesar de desmilinguidos em estrutura e eleitoralmente, os Rosados têm outro embate político-familiar marcado para as urnas em 2 de outubro. Em especial, à Câmara Federal. Isso, como ocorreu durante várias eleições seguidas, desde 1994.esgrimista-mulher-com-espada-de-esgrima-esgrimistas-duelo-conceito_183314-1062

De um lado, a ex-deputada federal Sandra Rosado (União Brasil), que novamente busca mandato. O último na Câmara dos Deputados foi conquistado em 2010, há 12 anos. Em 2014, não se reelegeu e em 2018, refugou para manter a “união” com o grupo da então prefeita Rosalba Ciarlini Rosado (PP), sua prima e adversária por décadas.

Em 2022, de novo elas estão separadas – mesmo que façam parte do mesmo campo político.

Rosalba, por sua vez, aposta de novo no sobrinho-afim Beto Rosado (PP), que tenta o terceiro mandato consecutivo.

O que ‘junta’ ambos sistema políticos, é a realidade diferente do passado que se distancia. Candidatos à Câmara dos Deputados das duas bandas da família Rosado chegaram a ter mais de 50% dos votos válidos em Mossoró. Eram literalmente donos do pedaço.

Avalanche de votos

Exemplo de 2002, há 20 anos, quando Sandra Rosado e Betinho Rosado (pai do atual deputado federal Beto Rosado-PP) somaram 53,09% dos votos a federal no município. Uma avalanche de 56.481 votos cumulativamente.

Alguns detalhes não podem passar despercebidos nesse pequeno relatório (veja boxe acima) do desempenho dos Rosados, neste século, em sua principal base eleitoral, quando tratamos de disputa à Câmara dos Deputados em 2002.

Em 2002, o marido da prefeita à época, Rosalba Ciarlini Rosado (PFL), ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado (PFL), foi candidato a vice-governador do então senador Fernando Bezerra (PTB). Betinho Rosado, seu irmão, concorria à reeleição à Câmara dos Deputados. Enquanto isso, o deputado federal Laíre Rosado (PMDB), marido de Sandra, foi vice do governador Fernando Freire (PPB), ela sendo candidata em seu lugar.

Betinho e Sandra: montanha de votos (Fotomontagem/arquivo Canal BCS)
Betinho e Sandra: avalanche de votos (Fotomontagem/arquivo Canal BCS)

Câmara Federal – Mossoró

2002

Betinho Rosado (PFL) – 28.702  votos (27,4%)
Sandra Rosado (PMDB)– 27.779 votos (26,5%)
Total – 53,09% dos votos válidos de Mossoró

2006

Betinho Rosado (PFL) – 28.709 votos (25,43%)
Sandra Rosado (PSB) – 19.859 (17,59%)
Total – 43,02% dos votos válidos de Mossoró

2010

Betinho Rosado (DEM) – 32.245 (28,17%)
Sandra Rosado (PSB) – 25.072 (21,9%)
Total – 49,26% dos votos válidos.

2014

Sandra Rosado (PSB) – 18.271 (18,33%)
Beto Rosado, filho (PP) – 15.321 (15,37%)
Fafá Rosado – (PMDB) – 12.983 (13,02%)
Total – 46,72% dos votos válidos.

2018

Beto Rosado, filho (PP) – 16.241 (28,17%)
* Nenhum integrante do grupo de Sandra Rosado foi candidato e o subgrupo de Fafá Rosado, ex-prefeita, desapareceu.

O caráter “majoritário” local da contenda gerou polarização como se fosse uma disputa municipal. Os dois lados tiraram proveito. Dividiram-se para somar – literalmente. Mesmo assim, as duas chapas foram derrotadas por Wilma de Faria (PSB), uma mossoroense distante, que fez política em Natal. Elegeu-se ao governo potiguar.

Em nova eleição, em 2014, os Rosados apostaram em três candidatos à Câmara Federal, por esquemas político-partidários distintos. Totalizaram 46,72% dos votos válidos. Contudo, apenas Beto Rosado (substituindo o pai Betinho, que ficou inelegível) foi eleito. Sandra não se reelegeu e Fafá Rosado (PMDB), que vinha de dois mandatos como prefeita, também não vulnerou. 

Agora, é 2022. Um teste de fogo para o clã Rosado e seus candidatos. As urnas dirão muito sobre seu futuro.

Leia também: Campanha faz dos Rosados coadjuvantes em sua própria terra.

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Autran Dourado resgata em livro histórias de Juscelino Kubitschek

Por Euler de França Belém

Juscelino tem aspectos de sua vida, na presidência, narrados por quem viveu o dia a dia Foto: Reprodução)
Juscelino tem aspectos de sua vida, na presidência, narrados por quem viveu o dia a dia (Foto: Reprodução)

Juscelino Kubitschek (1902-1976), eleito presidente da República com 36% dos votos (a maioria, 64%, votou contra sua candidatura), deixou o governo consagrado. Na sua gestão, o país cresceu, em média, 7%. Seus adversários — os que avaliam que a função do governo é cortar gastos, não investir — criticavam, com acidez, a inflação de 30% ao ano e o endividamento externo (a dívida saltou de 1,9 bilhão para 3,1 bilhões de dólares). “Não houve crescimento [da dívida] tão grande como se alardeou”, assinala o coronel Affonso Heliodoro dos Santos, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília.

O JK dos dados está devidamente documentado, o que falta, mesmo, é ressaltar os traços do indivíduo que, articulada e rapidamente, se tornou estadista — embora não fosse, e embora quisesse ser, um Winston Churchill (na verdade, era tão malicioso quanto Franklin D. Roosevelt). Os livros de história, necessariamente sisudos, não dão conta do homem-personagem. Daí que as memórias, que podem destacar o indivíduo do meio da massa, possibilitam conhecer Juscelino, ou, pelo menos, facetas desse personagem que, se nos lembra o homem comum, era, na verdade, mais complexo do que nos garante a vã historiografia.

Daí a relevância de trabalhos como os de Josué Montello e, mais recentemente, o do escritor mineiro Autran Dourado. “Gaiola Aberta — Tempos de JK e Schmidt” (Rocco, 228 páginas), de Autran Dourado, é magnífico e, naturalmente, polêmico (o jornalista Mauro Santayana o atacou duramente). O resgate do poeta Augusto Frederico Schmidt vale o livro. Lendo Autran Dourado estamos bem próximos do homem Juscelino. O filé do livro é isto: a redescoberta do ser humano de carne e ossos (e sex appeal?).

Autran Dourado foi secretário de Imprensa de Juscelino durante oito anos, em Minas Gerais (JK governador) e Rio de Janeiro (JK presidente). É óbvio que o escritor-auxiliar sabe mais do que contou. Por discrição, ou não se sabe o quê, optou por calar-se. No entanto, há insinuações mais maliciosas do que maldosas.

O livro de Autran: JK no centro (Foto: reprodução)
O livro de Autran: JK no centro (Foto: Reprodução)

Certa vez, Schmidt, sempre espirituoso, disse a Autran Dourado: “Administrar e governar um país é uma coisa muito secundária”. O escritor mineiro riu e disse: “Muitíssimo”. Irritado, JK perguntou de que estavam rindo. Schmidt mentiu: “De uma história do poeta e anjo Jaime Ovale”. O presidente, não muito culto, sugeriu que Ovale fosse convidado para visitar o Palácio das Laranjeiras. Schmidt explicou que era impossível: “Ele morreu antes de você tomar posse”.

Íntimo de JK, Autran despachava com o presidente até em locais poucos ortodoxos. “A minha intimidade com JK ia a tal ponto que chegava mesmo ao ridículo de eu despachar com ele no banheiro, o que não me agradava muito. Me incomodava sobretudo ele ficar se ensaboando na banheira.” Mas, esclarece rápido Autran, “não havia nele o mais longínquo traço de homossexualismo. Uma vez, como ele mergulhasse o corpo na banheira, me deu uma aflição enorme, cuidando que ele ia estragar o relógio de ouro que tinha no pulso. Não resisti e disse ‘o relógio’! ‘Você é mesmo um capiau do sul de Minas, este relógio é à prova d’água’, disse ele. É a última novidade. JK sempre foi muito progressista e novidadeiro”.

Há um debate interminável sobre a retidão de JK: roubou ou não roubou? Não morreu rico, pelo menos (o presidente-general Ernesto Geisel disse que a investigação procedida pelos militares não provou nada contra o político de Diamantina). Como não poderia deixar de ser, JK fez seu tráfico de influência, mas, como Getúlio Vargas, se não roubava, deixava roubar (ou roubavam sem que ele soubesse ou pudesse impedir).

Autran Dourado é econômico nessa questão, mas conta uma história curiosa: “Eu estava no Palácio do Catete quando me chegou às mãos um papel da maior importância, um desses assuntos perigosos e inadiáveis, relativo a uma negociata em andamento, de um aparentado do Juscelino, que as más-línguas diziam ser sócio dele, não sei se verdade ou não. A fim de que a bomba não estourasse na minha mão, resolvi ir ao Palácio das Laranjeiras, residência presidencial”.

Enfurecido, JK jogou os papéis no chão. Esperou que Autran Dourado se abaixasse para pegá-los, mas o escritor continuou em pé. Então, JK abaixou-se, colheu os documentos e perguntou ao auxiliar o que deveria ser feito. “Eu disse como seria a melhor maneira de ser detida a negociata, e sobretudo que não aparecesse o nome do seu aparentado. Ele releu, e ficou algum tempo de cara amarrada, sem dizer nada; acabou concordando comigo. Ao nos despedirmos, disse ‘não fale disso a ninguém. Muito obrigado’.”

Oscar Niemeyer, arquiteto , e Juscelino Kubitschek: dois dos “construtores” de Brasília (Foto: reprodução)
Oscar Niemeyer, arquiteto , e Juscelino Kubitschek: dois dos “construtores” de Brasília (Foto: Reprodução)

Como qualquer pessoa normal, JK não gostava de portadores de mensagens ruins, mas, diferentemente dos imbecis, sabia examiná-las com isenção. “A serviço del-Rei, prudência; el-Rei de perto queima, de longe esfria”, a frase do padre Antônio Vieira era uma espécie de mantra para Autran.

Josué de Castro era um condestável para o meio intelectual, devido, sobretudo, ao seu livro “Geografia da Fome”. O livro de Autran Dourado deixa a imagem de Josué de Castro um tanto arranhada, até porque o trecho é pouco esclarecedor. Josué de Castro, deputado pelo PTB, “disse ao presidente que Jango estava de acordo com sua nomeação para ministro da Agricultura”. JK mandou o secretário de Imprensa encaminhar o ato para publicação. “Não sei que inspiração maldita me assaltou o espírito, que resolvi guardar o ato na minha gaveta e esperar para ver”, conta.

“No dia seguinte os jornais publicaram a notícia e a foto. Juscelino mandou me chamar. Quando me viu, perguntou ‘o que você fez com o ato de nomeação do Josué’. O coração em pânico, disse guardei-o, ou mandei-o para o Sette (Câmara), não me lembro. Juscelino ergueu os braços e disse ‘bendita inspiração! O Jango esteve aqui e me disse não concordar com a nomeação’”. Autran Dourado não diz se Josué mentiu ou se João Goulart recuou.

A história julga com muito rigor os governantes que só se preocupam em conter despesas e em acatar as ordens dos organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse sentido, melhor do que Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek negociavam com mais perspicácia. Cumpriam pouco do que estava prescrito nos acordos. Autran Dourado acredita que JK, por ser “ingênuo”, achava que poderia iludir o FMI. No Ministério da Fazenda, JK colocou um ministro rigoroso, Lucas Lopes (pai de Chico Lopes, o que esteve no Banco Central), mas não atendia seus rogos de cortar os gastos públicos. “JK era um homem imaturo. Mas, sem os homens imaturos que têm um grande sonho, o que seria do mundo?”

Jânio enganou JK

Não há político bobo — há, isto sim e às vezes, político inculto. Mesmo os incultos aplicam rasteiras nos intelectuais e jornalistas. Um auxiliar de Juscelino, Geraldo Carneiro, julgando-se muito esperto, caiu na lábia de Jânio Quadros.

João Goulart, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek: histórias que vem à tona (Foto: Reprodução)
João Goulart, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek: histórias que vem à tona (Foto: Reprodução)

Se dizendo depressivo por causa da morte do pai, a barba por fazer, Jânio Quadros dizia a Geraldo Carneiro: “Vou renunciar ao governo de São Paulo. Diga ao presidente que não tenho recursos e vou precisar de um emprego”. Geraldo contou a história a JK, que apresentou uma solução: “Vai haver em Paris uma reunião da Unesco. O Jânio se licencia do governo de São Paulo e eu o nomeio delegado do Brasil. Ele vai ganhar uns 10 mil dólares e descansar e beber em Paris. Quando voltar, estará outro. Calmo, reassumirá, e se chegará mais a mim”.

Habilidoso, Jânio Quadros exigiu uma carta de JK nomeando-o para a “missão”. No fim, por recomendação de Autran Dourado, JK mandou apenas um telegrama. “Três dias depois Jânio reuniu a imprensa e leu o telegrama. ‘Infelizmente não posso no momento abandonar o povo de São Paulo’, disse ele. ‘Não aceitarei o convite do presidente’. Quando eu entrei no gabinete de JK, ao contrário do que esperava, ele estava sorridente. Perguntei se ele havia lido o jornal de São Paulo que eu lhe enviara. Ele disse que sim, mais uma vez aprendera que em política qualquer moleque pode lhe passar a perna”. JK, como diz Autran Dourado, foi ludibriado como um patinho, por confiar no auxiliar.

Se Jânio Quadros era maneiroso, João “Jango” Goulart, pelo contrário, era “pouco” inteligente. “Jango era sabidamente muito ignorante. Eu guardava comigo uns bilhetes que ele escrevia ao presidente, sempre pedindo alguma coisa para os seus pelegos. A fim de não cair em erro de regência, ele os escrevia à maneira de mensagem telegráfica. Que esperto, o mocorongo, disse San Thiago [Dantas]. O que não impede de ser de uma ignorância comovedora. E se dobrou de rir. Quando viu o que tinha dito, recolheu o riso.”

Com uma viagem de JK para Portugal, Jango assumiu, e, conversando com Augusto Frederico Schmidt e Autran Dourado, disse que a Europa era muito velha, não tinha nada de interesse maior. “Que o Brasil, sim, era o país do futuro. O Schmidt, embora eu lhe segurasse o braço, se levantou e disse ‘um homem da sua posição, pelo seu cargo, não tem o direito de dizer uma bobagem dessas’. E se levantou, dizendo baixinho para mim: ‘Diga ao Juscelino que foi um gesto impensado, volto mais tarde para explicar’”.

O John Kennedy dos Trópicos

Juscelino, conclui Autran Dourado, amava mesmo as pessoas humildes, que também o adoravam. Tanto que era favorito para as eleições de 1965. JK só pensava nelas (eleições e, vale acrescentar, mulheres).

Juscelino era uma espécie de Kennedy patropi. Como Kennedy, adorava as mulheres, o poder, divulgar o que fazia. Ao contrário de Kennedy, não era bonito, mas sua simpatia abundante virava beleza depois de alguns minutos de conversa, pelo menos para as mulheres, que o achavam irresistível. Mas talvez JK fosse mais parecido, do ponto de vista político, com outro norte-americano, Franklin D. Roosevelt. JK, como Roosevelt, avaliava que o Estado devia, sim, financiar o desenvolvimento.

No final do livro, Autran Dourado diz: “Não conseguira entender bem o homem Juscelino, tão contraditório, que havia atrás do mito que eu ajudara a criar”.

Resgate de Augusto Frederico Schmidt

Nos governos há “personagens” que, mesmo decisivos, não são captados pelos historiadores, sempre em busca dos grandes homens, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. A história esquece quem não está na proa. Ao recuperar a figura de Augusto Frederico Schmidt — visto em outras memórias tão-somente como lobista ou autor de frases grandiloquentes postas na boca de Juscelino Kubitschek —, Autran Dourado praticamente justifica o livro.

As relações de Autran Dourado e Schmidt eram boas, mas às vezes tensas. “Se eu fosse você, não teria junto de mim um escritor com uma capacidade de observação como a dele, como demonstra nesse livro. E sabendo o que ele deve saber de você”, disse Schmidt a Juscelino.

Autran Dourado demorou a escrever as memórias, e só o fez instado pelo escritor e crítico literário Silviano Santiago. A rigor, com o livro, não prejudica, em nada, a imagem do mineiro JK. Deixa o mais nuançado, digamos.

Schmidt é visto amorosa e criticamente por Autran Dourado. “O Schmidt seria um belo exemplo de homem político que nunca exerceu cargo público, exceto sua missão à ONU, mas influenciou bastante o governo de JK. Ele só se prejudicava por ser um homem extremamente vaidoso e de apetite às vezes desmedido. Era o ghost-writer (escritor fantasma, numa tradução literal) de JK, que a ele confiava os discursos realmente importantes, nos quais desejava dizer alguma coisa.

O presidente não carecia de dizer o que queria, o poeta era de um faro e de uma visão impressionante sobre o Brasil. Depois de escrito o discurso, JK dizia ‘é incrível, Schmidt, era isso mesmo que eu queria dizer!’ Eu ria escondido”, escreve Autran Dourado. (Hoje, em vez de ir adiante do que pensa o governante, os auxiliares costumam ficar aquém. Preferem preservar os empregos a dizer uma verdade inadiável ao chefe.)

Se há exageros nos elogios a Schmidt, pelo menos Autran Dourado dimensiona uma voz que estava silente. “O poeta foi muito injustiçado, e boa parte dessa injustiça se deve ao fato de ter sido ele rico, intelectual, muito inteligente e de grande visão [era amigo de Valéry Larbaud]. É preciso que se diga, e disso dou testemunho: metade da grandeza do governo de JK se deve a ele, e eu lhe faço agora justiça. Em geral os políticos brasileiros gostam de aves de voos rasteiros, das rolinhas por exemplo, tão à maneira de seus espíritos acanhados. Para mim, uma das virtudes de JK foi ter sabido escolher o Schmidt e saber usá-lo. Mas JK no fundo tinha inveja da grandeza, brilho e capacidade dele.”

Juscelino Kubitschek, Autran Dourado (ao centro, escondido) e Augusto Frederico Schmidt com bastidores do poder (Foto: Reprodução)
Juscelino Kubitschek, Autran Dourado (ao centro, escondido) e Augusto Frederico Schmidt (Foto: Reprodução)

Um fato irritava JK: Schmidt escrevia seus discursos e não guardava segredo da autoria. “Outro defeito de Schmidt era introduzir nos discursos interesses seus de natureza não muito canônica.” Num discurso, Schmidt introduziu ideias para favorecer a Orquima, empresa que presidia (na verdade, a empresa era dirigida por Kurt Weill. Delicado, Autran Dourado diz que Schmidt era “uma espécie de relações públicas”, sinônimo de lobista). Para evitar contratempos, o secretário de Imprensa podava trechos e insistia para JK ler os discursos antecipadamente. JK não lia e ainda dizia para Autran: “Vá pentear macaco”. JK não tinha paciência para ler textos extensos e, mesmo, curtos. Registre-se que Schmidt ficava irritado com os cortes.

O presidente Café Filho — aliado de militares e de Carlos Lacerda (que dizia: “Juscelino não será candidato, se for candidato não será eleito, se for eleito não tomará posse, se tomar posse não governará”) — mostrou a JK um manifesto dos militares que vetavam a sua candidatura.

Ao sair do gabinete de Café Filho, JK ligou para Schmidt, que desconfiava da coragem do pessedista. Autran Dourado confirmou que JK era corajoso. E sugeriu uma frase para o discurso que marcaria a posição de Juscelino a respeito do veto dos militares: “Deus poupou-me o sentimento do medo”. “É bonita e de muito efeito, disse Schmidt. Mas será que o nosso homem a dirá? Vamos ver, acho que sim, experimentemos, disse eu.” JK e o general Nelson de Melo encresparam-se com a frase. A mulher do general Nelson, Odete, foi chamada para “decidir”. Convencida por Schmidt de que Nelson seria o chefe da Casa Militar, Odete deu o “parecer”: “Pode dizer, numa hora como esta é preciso se mostrar homem. É o que se espera”.

Pronunciado o discurso, a frase ficou famosa. “JK parecia realmente convencido de que era muito corajoso”, ironiza Autran Dourado. Adiante, contemporiza: “O convívio veio me revelar, junto a um certo lado mesquinho, um Juscelino para mim desconhecido: corajoso, firme, decidido, generoso ao extremo, tendo mesmo a coragem de enfrentar o general Lott, que, já no governo e intramuros, com muito sentimento é verdade, ele chamava de o Condestável, cuja presença o incomodava, talvez por ver nele seu protetor e vigilante. Quando Lott teve de deixar o Ministério para se candidatar à Presidência, JK me disse todo alegre e eufórico: ‘até que enfim fiquei livre do Condestável’”.

Num de seus livros de memórias, Juscelino se diz o único criador da Operação Pan-Americana. Autran Dourado resgata a história do verdadeiro formulador — o poeta Schmidt, que tinha o hábito de receber os amigos pelado (“gordo, grande e peludo, o sexo à mostra”, anota o escritor).

Autran Dourado contou ao poeta que o vice-presidente dos Estados, Richard Nixon, foi recebido pelo povo em Caracas a pedradas, “depois de ser cuspido em Lima”. Schmidt perguntou: “O que o Juscelino pretende fazer? Ele me telefonou para que fosse providenciado um telegrama formal de solidariedade ao Eisenhower, disse eu”.

Inteligente, Schmidt percebeu a oportunidade de um gesto mais grandioso. “Nada disso, um telegrama é muito miúdo e provinciano. Juscelino não é mais simples mineiro, mas o chefe da nação, a quem compete dirigir a nossa política externa. Onde está o homem?”

Localizado JK, Schmidt disparou a metralhadora: “Chegou o momento de você crescer internacionalmente, afirmar-se como um grande estadista. Na carta que me proponho a escrever, você deve manifestar-se a sua convicção de que alguma coisa necessita ser feita para recompor a face da unidade continental, que foi duramente atingida. Dizer-lhe que você ainda não tem um plano minucioso, detalhado e objetivo, apenas umas ideias sobre o pan-americanismo, cujo destino o preocupa. Que poderá expor-lhe oportunamente o que pensa, se a ocasião se apresentar. Vou escrever uma carta memorável!”

Schmidt desligou o telefone e disse: “Tenho até o nome, Operação Pan-Americana”.

José Maria Alkmim perguntou quem havia escrito a carta, e JK, sem sequer corar, disse: “São umas ideias antigas que eu tinha sobre pan-americanismo, o Schmidt foi apenas a mão que escreveu”. Alkmim, língua de trapo, replicou: “Só a mão?” JK enfureceu-se: “Você está querendo insinuar, na presença deles (Sette Câmara e Autran), que eu sou um mentiroso!?”

Chanceler Foster Dulles foi recebido por Juscelino (Foto: Reprodução)
Chanceler Foster Dulles foi recebido por Juscelino (Foto: Reprodução)

O Departamento de Estado Norte-Americano espantou-se com a proposta de JK-Schmidt. O chanceler Foster Dulles veio ao Brasil e sugeriu que os investimentos maciços fossem apenas no país, não para os vizinhos. Schmidt disse “não” e Juscelino repetiu o “não” — queria apoio para toda a América Latina.

Depois da Operação Pan Americana (OPA), os Estados Unidos aumentaram os investimentos na América Latina, até em empresas estatais, como a Petrobrás. Schmidt acreditou que, até por gratidão, seria nomeado ministro das Relações Exteriores.

Mas JK vetou. E explicou o “motivo” para Autran Dourado: “‘O Schmidt está certo de que será o ministro do Exterior. Eu mesmo um dia tive a leviandade de chamá-lo de ministro. Procure o homem e lhe diga que eu, por poderosas razões políticas, não tenho outro jeito senão nomear o San Thiago Dantas’, disse o presidente. Mas o senhor vai mesmo nomear o San Thiago? disse eu. Ele sorriu e disse ‘não’, é porque o Schmidt é inimigo do San Thiago e, à ideia da nomeação do San Thiago, ele abrirá mão de suas pretensões. Mas por que o Schmidt, com tantos títulos e serviços prestados, não pode ser ministro? disse eu”.

Autran Dourado diz que “JK demorou a responder, vi que ele se sentia envergonhado diante de mim”. Mas teve coragem de dizer: “Por vários motivos, principalmente porque ele é um homem muito inteligente e brilhante. Diga a ele que pode indicar quem quiser para ministro e que quem vai mandar na política externa do Brasil é ele. O outro será pro forma. Sugira alguém medíocre como o Negrão de Lima, que é quem na verdade me convém”.

Ao ser informado do veto, Schmidt chorou e disse: “O Juscelino é um canalha!” Depois, mais contido, arranjou uma explicação: “É, Autran, a política não é feita por homens de alma delicada como a nossa”. Autran Dourado diz que JK tinha inveja de Schmidt. “Se Schmidt tivesse ido para o Itamaraty, por seu jeito de ser, pelo seu grande talento, a grande figura da política externa brasileira seria ele e não o presidente. A OPA é realmente de quem a concebeu: de Augusto Frederico Schmidt”. Justiça, tardia, mas feita.

Um JK mulherengo

Juscelino Kubitschek era mulherengo, dos piores (ou melhores, dependendo da ótica). Cantava até as mulheres dos amigos, as que davam sopa, lógico. Amigos contam que algumas mulheres achavam JK charmosíssimo — não era raro ser cantado por mulheres do primeiro escalão da beleza.

A atriz Kim Novak ficou impressionada com a conversa e o charme daquele homem “feio”, mas jeitosíssimo com as mulheres. Segundo o biógrafo Claudio Bojunga, nada aconteceu entre eles. Não por falta de vontade de Kim Novak e, sobretudo, de JK. Mas não deu tempo.

A bela Kim Novak gostou do "feio" Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)
A bela Kim Novak gostou do “feio” Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)

Os casos de Juscelino eram muitos. O amor por Maria Lúcia Pedroso parece ter sido o mais intenso. “Maria Lúcia era linda, apesar da baixa estatura. Loiríssima, era parecida com a atriz Kim Novak”, conta João Pinheiro Neto, autor do sensacionalista “Juscelino — Uma História de Amor”.

Maria Lúcia, casada com o deputado José Pedroso, era ciumenta: “Ou você dissolve seu comitê feminino, ou nunca mais vai me ver”. JK não dissolveu, nem Maria Lúcia (Lucinha, segundo Autran Dourado) sumiu. Pinheiro Neto, fofoqueiro exemplar, garante que JK quis se casar com Maria Lúcia.

No seu “Gaiola Aberta”, Autran relata uma desavença com o marido de Maria Lúcia: “O deputado José Pedroso mandou me dizer que ia me dar um tiro na cara”. O coronel Nélio Cerqueira Gonçalves ofereceu um revólver para o escritor: “Eu agradeci a gentileza e disse ‘do José Pedroso eu só tenho medo de chifrada’. O Nélio riu, sabia o que eu queria dizer, no Palácio do Catete não era segredo”.

Sarah, a oficial, metia medo em JK, que a chamava, para os amigos, de “tigre” e “onça”. Certa vez, apaixonado, disse para seus auxiliares mais próximos: “Não volto mais para o Rio. Para a Sarah, jamais! Para a Presidência, não sei”. Dias depois, JK estava bem, sorrindo, “lampeiro”, como diz Autran Dourado.

Juscelino, segundo o bem informado Geraldo Carneiro, teve várias paixões, mas, “descabeladas”, só três.

Homem descuidado, Juscelino perdeu uma parte de seus diários, que foi encontrada por um chantagista. O escroque exigiu que JK o indicasse para diretor financeiro de uma empresa privada. JK conseguiu a nomeação.

Sarah Kubitschek, Maria Lúcia Pedro e Juscelino Kubitschek: poder e alcova (Foto: Reprodução)
Sarah Kubitschek, Maria Lúcia Pedro e Juscelino Kubitschek: poder e alcova (Foto: Reprodução)

O infarto do presidente 

Medo de político Autran Dourado não tinha, mas pelava de medo de Sarah Kubitschek. “Como Juscelino, como toda gente, eu tinha medo dela.” Chamado por Sarah, às 7h30, o secretário de Imprensa ficou arrepiado.

“Chamamos você aqui porque o Juscelino teve um infarto, disse ela. Queríamos saber a sua opinião, você que é o secretário de Imprensa. Todos aqui são favoráveis a que não se divulgue nada. A minha opinião, dona Sarah, é que se deve revelar o fato. De jeito nenhum, disse ela. Primeiro tem o Jango, vice-presidente, que é figura suspeita para os militares. Juscelino não pode demonstrar fraqueza.”

Os jornalistas desconfiaram e começaram a cobrar informações sobre a doença do presidente. Para enganá-los, Autran colocou o chapéu de JK e entrou num helicóptero. “A uma certa distância acenei para os jornalistas, como fazia JK.”

Em Belo Horizonte, Autran ligou para um jornalista, que falou do infarto. Resposta do secretário de Imprensa: “Infarto coisa nenhuma, você quer uma declaração dele? Redigi uma declaração de JK sobre um fato qualquer importante, li para o meu amigo, que informou ao Rio que o presidente estava bem e que tudo não passava de boato”.

Fina flor da intelectualidade

Talvez por ser “inculto” (ma non troppo), mas não bobo, Juscelino Kubitschek cercou-se da mais fina flor da intelectualidade de seu tempo. Cristiano Martins, tradutor da “Divina Comédia”, a obra-prima de Dante, de Goethe e Rilke, escrevia para JK. Suas muito bem escritas cartas nada diziam, conta Autran Dourado. O governante precisa de cartas desse estilo que, aparentando dizer muito, nada dizem.

Os poetas Alphonsus Guimaraens e Nilo Aparecida Pinto, além de Cristiano, cuidavam da correspondência. O diplomata Sette Câmara — competente, segundo Autran Dourado — era subchefe de gabinete. A tese de direito de Sette Câmara, “The Retification of International Treatise”, ganhou prefácio de Hans Kelsen.

Cyro dos Anjos, escritor, era da equipe de Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)
Cyro dos Anjos, escritor, era da equipe de Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)

O grande crítico literário Álvaro Lins (que começou bem e terminou mal) era o chefe da Casa Civil. O secretário de Lins era Francisco de Assis Barbosa (biógrafo de Lima Barreto). O subchefe do gabinete civil era o autor de “O Amanuense Belmiro”, Cyro dos Anjos, que contava com o apoio de Darcy Ribeiro (que, jovem, já era bem falastrão). O contista Murilo Rubião foi chefe de gabinete do JK governador de Minas.

“JK, que tinha mania de escritor, nunca teve nenhum problema de corrupção com qualquer dos seus escritores de estimação”, sustenta Autran Dourado.

Se adorava seus escritores, ou pelo menos fingia, JK não tolerava intelectuais, sobretudo os pedantes. Os do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), JK achava meio ridículos, mas tolerava. O Iseb tinha como membros notórios “o filósofo Roland Corbisier, de pensamento muito confuso, Hélio Jaguaribe e o diplomata Oscar Lourenzo Fernandes, que vinham tentando atuar no governo da República desde o segundo período de Getúlio Vargas, sem muito êxito, e que eram motivo de chacota”.

Embora inteligente e, politicamente, muito esperto, JK, na opinião de Autran Dourado, “tinha às vezes ideias que à primeira vista me pareciam brilhantes, mas ele não se detinha nelas, não as aprofundava. Assim como apareciam, iam embora como o vento. E surpreendentemente uma ideia insignificante o prendia de maneira estranha. Eu atribuo o fato ao seu entourage, de que ele gostava tanto, de algo grau de ignorância e mesmo cafajestismo”.

De novo, o autor de uma ideia “original” não foi JK, mas Augusto Frederico Schmidt. “Logo no início do governo JK, o Schmidt aconselhou-o a conviver com gente mais culta e inteligente. Cafajeste é para campanha, para carregar nos ombros, disse ele. Já tenho os meus escritores, que não me dão problemas, disse JK. Mas você não convive com eles, não os convida para almoçar e jantar, não lhe dá importância, disse o poeta. Eles são máquinas de trabalhar, mas de qualquer maneira dão nome ao seu governo. Quando chega a hora de jantar estão mortos de cansaço.”

JK disse para Schmidt sugerir um intelectual. Schmidt indicou Afonso Pena Júnior. “Aquela múmia ainda está viva? disse JK dando uma enorme gargalhada, no que foi seguido pelo entourage. Um grupo de intelectuais da altitude de Afonso Pena Júnior jamais faria coro de gargalhada a um dito que o presidente considerava brilhante ou inteligente.” É por isso que todo governante “precisa” ter, ao seu lado, gente que não pensa, mas que sabe seguir e adornar o poderoso. JK “não se sentia muito à vontade diante dos homens cultos ou eruditos”.

Certa vez, sentindo-se só, JK mandou chamar Autran Dourado. Depois de conversas miúdas, pediu sugestão sobre um bom estudo a respeito de políticos. O escritor indicou “Mirabeau ou o Político”, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset. “Filósofo? disse ele franzindo o nariz.”

As relações de Juscelino com os donos de jornais e os jornalistas eram muito boas. Pompeu de Sousa, diretor do “Diário Carioca” (DC), procurou Autran Dourado e disse: “Depois de amanhã o jornal não sai mais. É que o Horácio [de Carvalho, dono do jornal] raspou o caixa, foi para Paris, não temos dinheiro para pagar o pessoal da redação e da oficina, e já estamos no dia 12”.

Autran Dourado contou a história a Juscelino, que disse: “O jornal não pode parar. Telefone para o Sebastião”. Sebastião Paes de Almeida, o empresário-presidente do Banco do Brasil. Paes de Almeida pediu que Autran Dourado levasse uma mala ao Copacabana Palace. “No outro dia, lá estava eu com a mala. Cumprimentei o Sebastião, que chamou alguém. Veio um jovem com outra mala, apanhou a minha, trocou-a pela dele, cheia de dinheiro. Meu coração batia descompassadamente.”

Machado de Assis 

No governo de Juscelino, a obra de Machado de Assis ainda não estava sob domínio público e, por isso, as edições “oficiais”, da Jackson Inc., eram muito descuidadas. Autran Dourado decidiu, então, pregar uma mentira. Disse ao amigo Marco Aurélio Matos que “o presidente estava interessadíssimo em desapropriar a obra do grande escritor ou declará-la de domínio público, só carecia de apoio popular e cultural, sobretudo jurídico, pois lhe teriam dito que a obra era legalmente da Jackson Inc. E ele lê Machado? disse Marco Aurélio. Pelo tipo psicológico [católico e sentimental] não parece. Algum amor mal contrariado, ultimamente só tem lido o mestre, disse eu”.

Empolgado, Marco Aurélio reuniu grandes jornalistas, como Carlos Castelo Branco, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira, todos machadianos, que começaram a defender a “desapropriação” da obra de Machado de Assis. Autran Dourado também agiu: “Procurei o dr. Gonçalves de Oliveira, consultor-geral da República, a quem disse que o presidente estava interessadíssimo em considerar a obra de Machado de Assis de domínio público. O caso é sério, diga a ele que eu preciso de uma semana para estudar bem o assunto e dar o meu parecer”.

Machado de Assis: autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Foto: Reprodução)
Machado de Assis: autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Foto: Reprodução)

Com o parecer nas mãos, Autran convocou a imprensa para o dia seguinte, “quando o presidente assinaria o ato. Levei comigo para o palácio o meu exemplar de ‘Dom Casmurro’, disse ao presidente que fingisse que estava lendo. O que você está me aprontando, me perguntou. Basta assinar aqui, amanhã o senhor vai ver que maravilha. No alto do parecer estava escrito apenas APROVO. JK assinou sem me perguntar o que era”.

“No dia seguinte foi fotografia de JK na primeira página de todos os jornais. Quando entrei no seu gabinete, ele disse isso, sim, é que é serviço. Eu não entendo a imprensa: fiz uma coisinha de nada e veja que repercussão.” Os machadianos deveriam agradecer, de joelhos, a mentira, uma mentira verdadeira, de Autran Dourado.

Um intelectual, Álvaro Lins, sai malíssimo do livro de Autran Dourado. Era honesto, concede Autran Dourado. O refinado crítico literário — que escreveu por exemplo sobre Proust — queria ser governador de Pernambucano.

Chefe do Gabinete Civil de JK, Álvaro Lins “tinha um hábito muito engraçado. Quando um parlamentar ou político importante ia procurá-lo, ouvia atenciosamente, tomava nota num papelucho, deixava-o sobre a mesa, e nele parecia não mexer mais. Como os assuntos não se resolvessem, alguns políticos procuravam principalmente o oficial de gabinete Geraldo Carneiro, que ficava mais perto do presidente”.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras, Álvaro Lins compareceu no dia da posse bêbado e com um discurso enorme e confuso. A “Tribuna da Imprensa” destacou a bebedeira de Lins. JK nomeou-o embaixador em Portugal. Não satisfeito com os problemas que deixara no Brasil, o embaixador começou a conspirar contra Salazar.

“Sobre a sanidade mental do Álvaro nada posso dizer com bastante certeza, somente dar dois indícios. O primeiro se refere à visita da rainha Elizabeth a Portugal, quando numa carta ao presidente ele disse que fez questão de se sentar ao lado dela para melhor lhe dizer como era Juscelino, traçar um retrato perfeito do grande estadista que ele era. Seguia-se uma narrativa um tanto ou quanto estapafúrdia, que não fazia muito sentido”, registra, com certo mau-humor, Autran Dourado.

Noutra carta, Álvaro Lins foi ainda mais ridículo: “Álvaro dizia que havia levado consigo alguns discos com discursos do presidente. Para matar a saudade, ele se deitava no chão e se punha a ouvir a voz de JK. O presidente não leu a carta, passou-a para mim”, diz, maldoso, Autran Dourado.

Quase sessões de análise

O trabalho pesado na Presidência da República comia o tempo de Autran Dourado, que acabava praticamente nada escrevendo. Estafado, tentou se matar: “Acabei o resto do uísque, fui para o banheiro. Fechei o basculante e liguei o aquecedor. E comecei a sentir muito forte o cheiro de gás. E acreditei ouvir nitidamente uma voz feminina me dizer, estranhamente soando nítida dentro de mim, não faça isto, não se deixe vencer. Não se deixa vencer pelo demônio. Na sua mesa, no escritório, há uma coisa para você”. De fato, havia.

Seguindo conselho do psicanalista Hélio Pellegrino, Autran se curou escrevendo. JK, ao saber das sessões de análise, disse que, ao acabar o governo, faria análise.

Fidel Castro e Juscelino Kubitschek : conversa chata e discurso para botar qualquer um para dormir (Foto: Reprodução)
Fidel Castro: conversa chata e discurso para botar qualquer um para dormir (Foto: Reprodução)

Mijar para se livrar de Fidel

O construtor de Brasília, Israel Pinheiro, detestava gastar dinheiro com publicidade. Talvez por isso a imprensa bombardeava a construção da capital — a Ferrovia Norte-Sul da época. Autran Dourado, ampliando ideia do coronel Afonso Heliodoro, sugeriu que Juscelino Kubitschek convidasse o escritor inglês Aldous Huxley e o ministro da Cultura da França, André Malraux, para visitar Brasília.

Malraux apaixonou-se por Brasília, a capital da esperança. Huxley, sempre extravagante, depois de ter viajado de Ouro Preto para Brasília, disse: “Uma viagem do ontem para o amanhã, do que terminou ao que vai começar, das velhas realizações para as novas promessas”. Sucesso absoluto, Malraux e Huxley.

Dos visitantes de Brasília, Fidel Castro foi o mais entediante. Escreve Autran Dourado: “Mal nos assentamos e o carro se pôs em movimento, dois policiais cubanos treparam nos para-lamas dianteiros e começaram a dar pancada em quem tentasse se aproximar de JK e Fidel. JK, que não gostava de seguranças e guarda-costas, me disse depois ter ficado horrorizado. Eles não careciam daquilo, os candangos são gente calma e pacífica, desejavam apenas nos ver de perto e saudar o visitante”.

Enjoado do papo-quase-cabeça de Fidel Castro, JK chamou Autran, que não pôde atendê-lo. “Quando me dirigia para o interior da biblioteca, fui barrado pelo barbudo que ali estava como guardião. Estranhei e disse alto que a casa era minha, que eu era secretário de Imprensa do presidente. Mesmo assim o barbudo não me deixava entrar. Vendo o meu estado, JK me perguntou o que estava acontecendo. É este barbudo que não quer me deixar entrar, disse eu. Não tenho o interesse pelo que estão conversando, o senhor é que me chamou, mas eu só fico de fora se aquele outro barbudo sair. Era nada mais, nada menos do que o famoso revolucionário Che Guevara, viria a saber depois.”

A confusão foi proveitosa para JK. “Estou louco para mijar, não aguento mais este cucaracha!” Na hora do banquete, Fidel Castro fez um discurso de uma hora. Até os pratos, certamente, “dormiram”.

Darcy Ribeiro e a Universidade de Brasília

Darcy Ribeiro tentou convencer o escritor Cyro dos Anjos a levá-lo a Juscelino Kubitschek. Darcy queria sugerir a construção de uma universidade em Brasília. Autran Dourado disse: “Posso tentar, mas não leve nada escrito para ler (sabia de sua fama)”.

Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, nomes importantes em Brasília (Foto: Reprodução)
Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, nomes importantes em Brasília (Foto: Reprodução)

Quando Autran Dourado relatou a ideia de Darcy, o presidente fechou a cara. “Não, de jeito nenhum! Não quero nem estudante nem soldado em Brasília, no máximo corpo de guarda.” O secretário de Imprensa retrucou: “…(a universidade) será a base cultural da cidade. O senhor está pensando que constrói uma cidade monumental, uma capital modelo e, no final das contas, está fazendo a maior cidade do interior, acanhada e provinciana. JK arregalou os olhos e disse é capaz de você ter razão, vou pensar no assunto”.

Convencido de que a ideia era boa, e daria repercussão, JK recebeu Darcy, que, falando demais, agradou o presidente, que não queria, porém, ouvir nada sobre currículos. “O que interessava mesmo a ele era dizer que estava erguendo a mais importante e moderna universidade do Brasil. Era o que ele mais perguntava ao Darcy. O Darcy percebeu logo esse lado de JK e era sobre o que ele mais falava.”

Euler de França Belém  é editor do Jornal Opção(Goiânia-GO) e essa resenha especial foi publicada originalmente em 2000 e reeditada em março de 2020.

Julgamento de assassinato de estudante não tem previsão para ocorrer

Por Esdras Marchezan

Um ano depois, a família do universitário Luan Carlos Melo Barreto, de 23 anos, mantém o mesmo grito de revolta e dor: Justiça por Luan! Ele foi alvejado com um tiro na cabeça, na noite de 1 de julho de 2021, quando passava pela avenida Lauro Monte Filho, em sua moto, em direção ao trabalho da namorada para buscá-la. A bala que matou Luan saiu de uma pistola Taurus, calibre .40, usada pelo sargento da Polícia Militar, Márcio Gledson Dantas de Morais.

Luan Barreto tinha 23 anos e era estudante do curso de Ciência e Tecnologia da Ufersa. Foto: Reprodução
Luan Barreto tinha 23 anos e era estudante do curso de Ciência e Tecnologia da Ufersa. Foto: Reprodução

Naquela noite, ele estava acompanhado de mais dois policiais, averiguando a  ocorrência de assaltos naquela área. Investigações das polícias Civil e Militar apontam que, ao ver Luan passando pela avenida, o sargento – sem nenhum tipo de abordagem ou confronto – decidiu atirar em direção ao rapaz, acertando-o na parte de trás da cabeça. Caído na calçada da concessionária Toylex, Luan foi levado por outros policiais ao Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM), onde morreu na madrugada seguinte. Acabava ali os sonhos de um jovem estudioso, trabalhador e apaixonado por motos.

Indiciado por homicídio simples nos inquéritos conduzidos pelas polícias Civil e Militar, denunciado à justiça pelo Ministério Público, tornando-se réu na justiça comum, o sargento Márcio Gledson deve ir a júri popular. Mas a data do julgamento pode demorar mais que o previsto.

Os advogados de defesa do policial solicitaram à justiça uma avaliação sobre a saúde mental do acusado, dando início a um novo processo, tecnicamente chamado de incidente de sanidade mental. A justiça acatou, em abril deste ano, mas o processo só foi aberto no final do mês passado. Para a avaliação ocorrer foi dado um prazo de 45 dias. Com isso, o processo que apura a morte do estudante está suspenso temporariamente.

O pedido de avaliação foi feito pelo advogado Francisco de Assis da Silva Carvalho, no dia 30 de março deste ano. A defesa anexou laudos médicos e atestados, assinados por um psiquiatra e um neurologista, apontando diversas prescrições de remédios para conter crises de ansiedade e depressão para o sargento Márcio Gledson. Todos os documentos são de datas posteriores ao crime.

“Transtorno”

Alegando que o cliente teria sido diagnosticado com “transtorno misto ansioso depressivo” após o episódio que resultou na morte do estudante universitário, a defesa quer que a justiça investigue se, à época do fato o policial sofria de algum distúrbio psicológico que possa ter tido alguma influência na sua ação. Para o advogado da família de Luan, Hélio Miguel, não há nenhum documento nos autos do processo que aponte que, à época dos fatos, o acusado tivesse algum distúrbio como os sugeridos pela defesa.

Entre as perguntas a serem esclarecidas pela avaliação médica, conforme determinação judicial, estão as seguintes: Ao tempo da ação imputada, era o acusado portador de doença mental?; Em caso afirmativo, qual a doença mental e quais são os seus sintomas?; Essa doença o tornava inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do fato cuja prática lhe é imputada?; Se a resposta for sim, que o perito justifique como é compatível essa resposta com o fato de ele trabalhar como policial militar combatendo e prendendo pessoas que cometem fatos como o que está sendo julgado?

Lucas Barreto, irmão de Luan, explica que tem sido difícil acreditar que haverá justiça para o caso. “Por isso fazemos questão de não deixar o assunto cair no esquecimento. Às vezes a gente desacredita. Mas vamos continuar cobrando até que se faça justiça”, comenta. A forma fria como o irmão foi morto ainda traz sequelas no dia a dia. “É muito difícil olhar para um policial hoje em dia”, disse.

Luan era estudante do curso de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) e havia completado 23 anos no dia 5 de junho de 2021. Apaixonado por motos, era só orgulho depois de ter conseguido comprar a sua motocicleta. Foi nela que ele estava, a caminho do trabalho da namorada, quando foi parado com um tiro na cabeça.

Imagens de vídeo feitas na hora do crime se espalharam pela internet e mostram duas viaturas policiais ao lado do corpo dele. No hospital, Luan ainda foi submetido a uma cirurgia na cabeça, mas morreu às 4h20m do dia 2 de julho.

PMs mentiram em depoimento 

Ao chegar à Delegacia de Plantão, na noite de 1 de julho de 2021, para relatar os fatos ocorridos, o sargento Márcio Gledson mentiu nas declarações prestadas ao delegado Roberto Moura. Em seu relato, que consta no boletim de ocorrência, o policial informou que: “em diligência pela avenida Lauro Monte, encontraram uma motocicleta NXR, cor branca, caída, e ao se aproximar encontraram um homem caído próximo à motocicleta”.

Morte aconteceu dia 1º, à noite, quando vítima estava em sua moto Foto: reprodução)
Incidente aconteceu dia 1º, à noite, quando vítima estava em sua moto (Foto: reprodução)

O relato é o mesmo que consta no Relatório Operacional do Fiscal de Operações ao Comando do Policiamento Regional, referente ao serviço do dia 1 para o dia 2 de julho. No documento, o fiscal de operações, capitão Júlio César, relata: “que durante o serviço ordinário foi comunicado pelo sargento PM Gledson de uma ocorrência acontecida em Mossoró de um elemento que teria sido alvejado após prática de assalto e que a guarnição teria encontrado esse elemento caído no local.”

Por assinar como testemunha, no boletim de ocorrência, atestando as declarações do sargento Márcio Gledson, o policial Felipe Francelino de Oliveira Neto, que naquela noite era o motorista da viatura – é acusado pelo Ministério Público de “concorrer para os fatos” ocorridos naquela noite.

No relatório final do Inquérito Policial Militar (IPM) do caso, o capitão Luiz Antônio Almeida do Nascimento, designado como responsável pela apuração, enfatiza: “o argumento de que estava em patrulhamento e encontrou um elemento não condiz com a verdade dos fatos quando nos atentamos para os exames de perícias acostados nesses autos”.

Tiros partiram de uma única pistola 

Os exames de comprovação balística são peças fundamentais na investigação do caso, derrubando a versão inicial apresentada na delegacia pelo acusado do crime. Os documentos apontaram que os projéteis recolhidos no corpo de Luan e no interior da concessionária Toyolex, pertencem a somente uma das três pistolas apreendidas para exame e que estavam em poder dos policiais envolvidos no caso: a pistola Taurus, calibre .40, que estava em poder do sargento Márcio Gledson.

Em seu relatório, o capitão Luiz Antônio Almeida do Nascimento apontou: “Ante o exposto, afirmamos que os projéteis retirados do cadáver de Luan Carlos Melo Barreto e retirado do imóvel comercial Toyota, loja concessionária Toyolex, são da pistola Taurus, .40, que estava sendo usada pelo Sargento PM Gledson no dia 01 de junho de 2021”. De acordo com a investigação da Polícia Civil, pelo menos cinco tiros teriam sido disparados pela arma do policial.

Amigos e familiares de Luan Barreto fizeram protestos e não deixam caso "morrer" (Foto: reprodução)
Amigos e familiares de Luan Barreto fizeram protestos e não deixam caso “morrer” (Foto: reprodução)

Na conclusão do documento, o capitão aponta: “Afirmamos ter sido o sargento Gledson responsável direto pela morte de Luan Carlos Barreto. Como dito, não foi feito acompanhamento tático, com faróis da viatura alto, sirene ligada, giroflex ligado, não houve verbalização. O sargento Gledson não colocou cones para fazer o bloqueio na avenida Lauro Monte ou alguma outra intervenção tática. Ao efetuar os disparos, com sua arma, ele tinha ciência das consequências e do resultado. A pessoa de Luan não atirou nos componentes da viatura.”

Em outro trecho do relatório, o capitão acrescenta: “O sargento não estava atuando em um ambiente hostil, nem ele nem seus comandados estavam em confronto ou corriam risco de morte. A única hipótese aceitável é que a viatura estava parada em um ponto base provisório, com as luzes apagadas, luzes do giroflex e sirene desligada, e ao avistar a aproximação de uma motocicleta, ele, sargento Gledson, efetuou os disparos no piloto, vitimando a pessoa de Luan Carlos Melo Barreto, que pilotava a moto”.

O capitão Luiz Antônio Almeida do Nascimento foi designado para conduzir o Inquérito Policial Militar do caso em 5 de julho, pela Portaria SEI Nº 2672/2021. O inquérito foi concluído em outubro de 2021. O inquérito da Polícia Civil que também indiciou o sargento Márcio Gledson foi conduzido pelo delegado Marcus Vinicius dos Santos e foi concluído em agosto.

O promotor Armando Lúcio Ribeiro ofereceu denúncia à justiça e é o responsável do Ministério Público pelo acompanhamento do caso.

Esdras Marchezan é jornalista e professor

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