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Não foi ontem, e sim hoje

Por François Silvestre

Foto captada na Web, sem identificação de autoria
Foto captada na Web, sem identificação de autoria

O golpe militar, com apoio ostensivo da imprensa e setores reacionários de civis, inclusive partidos políticos, não se consolidou dia 31 de Março (1964), ontem, mas dia Primeiro de Abril. Ontem não foi o dia de comemorar, para uns, nem condenar, para outros.

Isso tem importância? Sim e não. Até porque datas em dias ou meses não refletem corretamente o que ocorre na História. Esse golpe foi maturado desde a redemocratização, em 1946. A queda da ditadura Vargas deixou sequelas nos seus adversários de sentimentos incuráveis. Pelo motivo simples de explicação.

Todas as eleições seguidas de 1945 em diante, teve um ou mais militar da Direita, sob a liderança do general Canrobert Pereira da Costa, contra alguém getulista ou remanescente do governo ditatorial de Vargas, sob a liderança do general Newton de Estilac Leal.

Em 45, General Dutra contra Eduardo Gomes. O primeiro, ex-ministro de Getúlio, por ele apoiado. O segundo, apoiado pela direita udenista e anti-getulista. Quem venceu? O getulismo. 1950, De novo Eduardo Gomes contra o próprio Getúlio. Venceu o ex-ditador, agora transformado em democrata e líder da luta trabalhista. Em 55, O general Juarez Távora contra o getulista Juscelino Kubitschek. Venceu JK.

Em 1960, finalmente a direita vence. Jânio Quadros derrota o general Teixeira Lott. Sossega o firo? Não. Jânio renuncia, com sete meses de governo, e assume o poder João Goulart, getulista da gema. Espécie de filho político de Getúlio.

Durante todo esse período houve incontáveis tentativas de golpes. Uns esclarecidos e conhecidos, outros abafados. Mas isso é outra história.

Nos fins de Março de 1964, a milicada conspirava a céu aberto. Sob o olhar incompetente e conivente da Esquerda e do próprio Jango. Quando o general Mourão Filho mobilizou tropas em Minas, elas seriam facilmente barradas pelo Segundo Exército, de São Paulo, chefiado pelo general Amaury Kruel, compadre de Jango, que fora seu padrinho de casamento.

Em vez de Jango ir pra São Paulo, de onde barraria o golpe, foi pro Rio Grande do Sul, onde o general Ladário nada podia fazer, pois até o governo local era aliado dos golpistas. Conta-se que Kruel foi cooptado pelo embaixador americano, com uma malinha de duzentos mil dólares. Dali saiu de São Paulo e cercou o Rio.

Foi no dia primeiro de Abril que o golpe se consolidou. Com o ódio antigo de Moura Andrade contra Jango, declarando vaga a presidência da Republica, na condição de presidente do Congresso. Na hora, recebeu uma cusparada do Deputado paulista Roger Ferreira e os gritos de “Canalha..canalha”… de Tancredo Neves. Estava ali consolidado o golpe, com Jango ainda no Brasil, saindo depois para o Uruguai.

Repetição da História; Jango no Uruguai, a tragédia. Bolsonaro na Hungria, a farsa. Hoje (1º de Abril) é o dia.

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Autran Dourado resgata em livro histórias de Juscelino Kubitschek

Por Euler de França Belém

Juscelino tem aspectos de sua vida, na presidência, narrados por quem viveu o dia a dia Foto: Reprodução)
Juscelino tem aspectos de sua vida, na presidência, narrados por quem viveu o dia a dia (Foto: Reprodução)

Juscelino Kubitschek (1902-1976), eleito presidente da República com 36% dos votos (a maioria, 64%, votou contra sua candidatura), deixou o governo consagrado. Na sua gestão, o país cresceu, em média, 7%. Seus adversários — os que avaliam que a função do governo é cortar gastos, não investir — criticavam, com acidez, a inflação de 30% ao ano e o endividamento externo (a dívida saltou de 1,9 bilhão para 3,1 bilhões de dólares). “Não houve crescimento [da dívida] tão grande como se alardeou”, assinala o coronel Affonso Heliodoro dos Santos, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília.

O JK dos dados está devidamente documentado, o que falta, mesmo, é ressaltar os traços do indivíduo que, articulada e rapidamente, se tornou estadista — embora não fosse, e embora quisesse ser, um Winston Churchill (na verdade, era tão malicioso quanto Franklin D. Roosevelt). Os livros de história, necessariamente sisudos, não dão conta do homem-personagem. Daí que as memórias, que podem destacar o indivíduo do meio da massa, possibilitam conhecer Juscelino, ou, pelo menos, facetas desse personagem que, se nos lembra o homem comum, era, na verdade, mais complexo do que nos garante a vã historiografia.

Daí a relevância de trabalhos como os de Josué Montello e, mais recentemente, o do escritor mineiro Autran Dourado. “Gaiola Aberta — Tempos de JK e Schmidt” (Rocco, 228 páginas), de Autran Dourado, é magnífico e, naturalmente, polêmico (o jornalista Mauro Santayana o atacou duramente). O resgate do poeta Augusto Frederico Schmidt vale o livro. Lendo Autran Dourado estamos bem próximos do homem Juscelino. O filé do livro é isto: a redescoberta do ser humano de carne e ossos (e sex appeal?).

Autran Dourado foi secretário de Imprensa de Juscelino durante oito anos, em Minas Gerais (JK governador) e Rio de Janeiro (JK presidente). É óbvio que o escritor-auxiliar sabe mais do que contou. Por discrição, ou não se sabe o quê, optou por calar-se. No entanto, há insinuações mais maliciosas do que maldosas.

O livro de Autran: JK no centro (Foto: reprodução)
O livro de Autran: JK no centro (Foto: Reprodução)

Certa vez, Schmidt, sempre espirituoso, disse a Autran Dourado: “Administrar e governar um país é uma coisa muito secundária”. O escritor mineiro riu e disse: “Muitíssimo”. Irritado, JK perguntou de que estavam rindo. Schmidt mentiu: “De uma história do poeta e anjo Jaime Ovale”. O presidente, não muito culto, sugeriu que Ovale fosse convidado para visitar o Palácio das Laranjeiras. Schmidt explicou que era impossível: “Ele morreu antes de você tomar posse”.

Íntimo de JK, Autran despachava com o presidente até em locais poucos ortodoxos. “A minha intimidade com JK ia a tal ponto que chegava mesmo ao ridículo de eu despachar com ele no banheiro, o que não me agradava muito. Me incomodava sobretudo ele ficar se ensaboando na banheira.” Mas, esclarece rápido Autran, “não havia nele o mais longínquo traço de homossexualismo. Uma vez, como ele mergulhasse o corpo na banheira, me deu uma aflição enorme, cuidando que ele ia estragar o relógio de ouro que tinha no pulso. Não resisti e disse ‘o relógio’! ‘Você é mesmo um capiau do sul de Minas, este relógio é à prova d’água’, disse ele. É a última novidade. JK sempre foi muito progressista e novidadeiro”.

Há um debate interminável sobre a retidão de JK: roubou ou não roubou? Não morreu rico, pelo menos (o presidente-general Ernesto Geisel disse que a investigação procedida pelos militares não provou nada contra o político de Diamantina). Como não poderia deixar de ser, JK fez seu tráfico de influência, mas, como Getúlio Vargas, se não roubava, deixava roubar (ou roubavam sem que ele soubesse ou pudesse impedir).

Autran Dourado é econômico nessa questão, mas conta uma história curiosa: “Eu estava no Palácio do Catete quando me chegou às mãos um papel da maior importância, um desses assuntos perigosos e inadiáveis, relativo a uma negociata em andamento, de um aparentado do Juscelino, que as más-línguas diziam ser sócio dele, não sei se verdade ou não. A fim de que a bomba não estourasse na minha mão, resolvi ir ao Palácio das Laranjeiras, residência presidencial”.

Enfurecido, JK jogou os papéis no chão. Esperou que Autran Dourado se abaixasse para pegá-los, mas o escritor continuou em pé. Então, JK abaixou-se, colheu os documentos e perguntou ao auxiliar o que deveria ser feito. “Eu disse como seria a melhor maneira de ser detida a negociata, e sobretudo que não aparecesse o nome do seu aparentado. Ele releu, e ficou algum tempo de cara amarrada, sem dizer nada; acabou concordando comigo. Ao nos despedirmos, disse ‘não fale disso a ninguém. Muito obrigado’.”

Oscar Niemeyer, arquiteto , e Juscelino Kubitschek: dois dos “construtores” de Brasília (Foto: reprodução)
Oscar Niemeyer, arquiteto , e Juscelino Kubitschek: dois dos “construtores” de Brasília (Foto: Reprodução)

Como qualquer pessoa normal, JK não gostava de portadores de mensagens ruins, mas, diferentemente dos imbecis, sabia examiná-las com isenção. “A serviço del-Rei, prudência; el-Rei de perto queima, de longe esfria”, a frase do padre Antônio Vieira era uma espécie de mantra para Autran.

Josué de Castro era um condestável para o meio intelectual, devido, sobretudo, ao seu livro “Geografia da Fome”. O livro de Autran Dourado deixa a imagem de Josué de Castro um tanto arranhada, até porque o trecho é pouco esclarecedor. Josué de Castro, deputado pelo PTB, “disse ao presidente que Jango estava de acordo com sua nomeação para ministro da Agricultura”. JK mandou o secretário de Imprensa encaminhar o ato para publicação. “Não sei que inspiração maldita me assaltou o espírito, que resolvi guardar o ato na minha gaveta e esperar para ver”, conta.

“No dia seguinte os jornais publicaram a notícia e a foto. Juscelino mandou me chamar. Quando me viu, perguntou ‘o que você fez com o ato de nomeação do Josué’. O coração em pânico, disse guardei-o, ou mandei-o para o Sette (Câmara), não me lembro. Juscelino ergueu os braços e disse ‘bendita inspiração! O Jango esteve aqui e me disse não concordar com a nomeação’”. Autran Dourado não diz se Josué mentiu ou se João Goulart recuou.

A história julga com muito rigor os governantes que só se preocupam em conter despesas e em acatar as ordens dos organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse sentido, melhor do que Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek negociavam com mais perspicácia. Cumpriam pouco do que estava prescrito nos acordos. Autran Dourado acredita que JK, por ser “ingênuo”, achava que poderia iludir o FMI. No Ministério da Fazenda, JK colocou um ministro rigoroso, Lucas Lopes (pai de Chico Lopes, o que esteve no Banco Central), mas não atendia seus rogos de cortar os gastos públicos. “JK era um homem imaturo. Mas, sem os homens imaturos que têm um grande sonho, o que seria do mundo?”

Jânio enganou JK

Não há político bobo — há, isto sim e às vezes, político inculto. Mesmo os incultos aplicam rasteiras nos intelectuais e jornalistas. Um auxiliar de Juscelino, Geraldo Carneiro, julgando-se muito esperto, caiu na lábia de Jânio Quadros.

João Goulart, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek: histórias que vem à tona (Foto: Reprodução)
João Goulart, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek: histórias que vem à tona (Foto: Reprodução)

Se dizendo depressivo por causa da morte do pai, a barba por fazer, Jânio Quadros dizia a Geraldo Carneiro: “Vou renunciar ao governo de São Paulo. Diga ao presidente que não tenho recursos e vou precisar de um emprego”. Geraldo contou a história a JK, que apresentou uma solução: “Vai haver em Paris uma reunião da Unesco. O Jânio se licencia do governo de São Paulo e eu o nomeio delegado do Brasil. Ele vai ganhar uns 10 mil dólares e descansar e beber em Paris. Quando voltar, estará outro. Calmo, reassumirá, e se chegará mais a mim”.

Habilidoso, Jânio Quadros exigiu uma carta de JK nomeando-o para a “missão”. No fim, por recomendação de Autran Dourado, JK mandou apenas um telegrama. “Três dias depois Jânio reuniu a imprensa e leu o telegrama. ‘Infelizmente não posso no momento abandonar o povo de São Paulo’, disse ele. ‘Não aceitarei o convite do presidente’. Quando eu entrei no gabinete de JK, ao contrário do que esperava, ele estava sorridente. Perguntei se ele havia lido o jornal de São Paulo que eu lhe enviara. Ele disse que sim, mais uma vez aprendera que em política qualquer moleque pode lhe passar a perna”. JK, como diz Autran Dourado, foi ludibriado como um patinho, por confiar no auxiliar.

Se Jânio Quadros era maneiroso, João “Jango” Goulart, pelo contrário, era “pouco” inteligente. “Jango era sabidamente muito ignorante. Eu guardava comigo uns bilhetes que ele escrevia ao presidente, sempre pedindo alguma coisa para os seus pelegos. A fim de não cair em erro de regência, ele os escrevia à maneira de mensagem telegráfica. Que esperto, o mocorongo, disse San Thiago [Dantas]. O que não impede de ser de uma ignorância comovedora. E se dobrou de rir. Quando viu o que tinha dito, recolheu o riso.”

Com uma viagem de JK para Portugal, Jango assumiu, e, conversando com Augusto Frederico Schmidt e Autran Dourado, disse que a Europa era muito velha, não tinha nada de interesse maior. “Que o Brasil, sim, era o país do futuro. O Schmidt, embora eu lhe segurasse o braço, se levantou e disse ‘um homem da sua posição, pelo seu cargo, não tem o direito de dizer uma bobagem dessas’. E se levantou, dizendo baixinho para mim: ‘Diga ao Juscelino que foi um gesto impensado, volto mais tarde para explicar’”.

O John Kennedy dos Trópicos

Juscelino, conclui Autran Dourado, amava mesmo as pessoas humildes, que também o adoravam. Tanto que era favorito para as eleições de 1965. JK só pensava nelas (eleições e, vale acrescentar, mulheres).

Juscelino era uma espécie de Kennedy patropi. Como Kennedy, adorava as mulheres, o poder, divulgar o que fazia. Ao contrário de Kennedy, não era bonito, mas sua simpatia abundante virava beleza depois de alguns minutos de conversa, pelo menos para as mulheres, que o achavam irresistível. Mas talvez JK fosse mais parecido, do ponto de vista político, com outro norte-americano, Franklin D. Roosevelt. JK, como Roosevelt, avaliava que o Estado devia, sim, financiar o desenvolvimento.

No final do livro, Autran Dourado diz: “Não conseguira entender bem o homem Juscelino, tão contraditório, que havia atrás do mito que eu ajudara a criar”.

Resgate de Augusto Frederico Schmidt

Nos governos há “personagens” que, mesmo decisivos, não são captados pelos historiadores, sempre em busca dos grandes homens, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. A história esquece quem não está na proa. Ao recuperar a figura de Augusto Frederico Schmidt — visto em outras memórias tão-somente como lobista ou autor de frases grandiloquentes postas na boca de Juscelino Kubitschek —, Autran Dourado praticamente justifica o livro.

As relações de Autran Dourado e Schmidt eram boas, mas às vezes tensas. “Se eu fosse você, não teria junto de mim um escritor com uma capacidade de observação como a dele, como demonstra nesse livro. E sabendo o que ele deve saber de você”, disse Schmidt a Juscelino.

Autran Dourado demorou a escrever as memórias, e só o fez instado pelo escritor e crítico literário Silviano Santiago. A rigor, com o livro, não prejudica, em nada, a imagem do mineiro JK. Deixa o mais nuançado, digamos.

Schmidt é visto amorosa e criticamente por Autran Dourado. “O Schmidt seria um belo exemplo de homem político que nunca exerceu cargo público, exceto sua missão à ONU, mas influenciou bastante o governo de JK. Ele só se prejudicava por ser um homem extremamente vaidoso e de apetite às vezes desmedido. Era o ghost-writer (escritor fantasma, numa tradução literal) de JK, que a ele confiava os discursos realmente importantes, nos quais desejava dizer alguma coisa.

O presidente não carecia de dizer o que queria, o poeta era de um faro e de uma visão impressionante sobre o Brasil. Depois de escrito o discurso, JK dizia ‘é incrível, Schmidt, era isso mesmo que eu queria dizer!’ Eu ria escondido”, escreve Autran Dourado. (Hoje, em vez de ir adiante do que pensa o governante, os auxiliares costumam ficar aquém. Preferem preservar os empregos a dizer uma verdade inadiável ao chefe.)

Se há exageros nos elogios a Schmidt, pelo menos Autran Dourado dimensiona uma voz que estava silente. “O poeta foi muito injustiçado, e boa parte dessa injustiça se deve ao fato de ter sido ele rico, intelectual, muito inteligente e de grande visão [era amigo de Valéry Larbaud]. É preciso que se diga, e disso dou testemunho: metade da grandeza do governo de JK se deve a ele, e eu lhe faço agora justiça. Em geral os políticos brasileiros gostam de aves de voos rasteiros, das rolinhas por exemplo, tão à maneira de seus espíritos acanhados. Para mim, uma das virtudes de JK foi ter sabido escolher o Schmidt e saber usá-lo. Mas JK no fundo tinha inveja da grandeza, brilho e capacidade dele.”

Juscelino Kubitschek, Autran Dourado (ao centro, escondido) e Augusto Frederico Schmidt com bastidores do poder (Foto: Reprodução)
Juscelino Kubitschek, Autran Dourado (ao centro, escondido) e Augusto Frederico Schmidt (Foto: Reprodução)

Um fato irritava JK: Schmidt escrevia seus discursos e não guardava segredo da autoria. “Outro defeito de Schmidt era introduzir nos discursos interesses seus de natureza não muito canônica.” Num discurso, Schmidt introduziu ideias para favorecer a Orquima, empresa que presidia (na verdade, a empresa era dirigida por Kurt Weill. Delicado, Autran Dourado diz que Schmidt era “uma espécie de relações públicas”, sinônimo de lobista). Para evitar contratempos, o secretário de Imprensa podava trechos e insistia para JK ler os discursos antecipadamente. JK não lia e ainda dizia para Autran: “Vá pentear macaco”. JK não tinha paciência para ler textos extensos e, mesmo, curtos. Registre-se que Schmidt ficava irritado com os cortes.

O presidente Café Filho — aliado de militares e de Carlos Lacerda (que dizia: “Juscelino não será candidato, se for candidato não será eleito, se for eleito não tomará posse, se tomar posse não governará”) — mostrou a JK um manifesto dos militares que vetavam a sua candidatura.

Ao sair do gabinete de Café Filho, JK ligou para Schmidt, que desconfiava da coragem do pessedista. Autran Dourado confirmou que JK era corajoso. E sugeriu uma frase para o discurso que marcaria a posição de Juscelino a respeito do veto dos militares: “Deus poupou-me o sentimento do medo”. “É bonita e de muito efeito, disse Schmidt. Mas será que o nosso homem a dirá? Vamos ver, acho que sim, experimentemos, disse eu.” JK e o general Nelson de Melo encresparam-se com a frase. A mulher do general Nelson, Odete, foi chamada para “decidir”. Convencida por Schmidt de que Nelson seria o chefe da Casa Militar, Odete deu o “parecer”: “Pode dizer, numa hora como esta é preciso se mostrar homem. É o que se espera”.

Pronunciado o discurso, a frase ficou famosa. “JK parecia realmente convencido de que era muito corajoso”, ironiza Autran Dourado. Adiante, contemporiza: “O convívio veio me revelar, junto a um certo lado mesquinho, um Juscelino para mim desconhecido: corajoso, firme, decidido, generoso ao extremo, tendo mesmo a coragem de enfrentar o general Lott, que, já no governo e intramuros, com muito sentimento é verdade, ele chamava de o Condestável, cuja presença o incomodava, talvez por ver nele seu protetor e vigilante. Quando Lott teve de deixar o Ministério para se candidatar à Presidência, JK me disse todo alegre e eufórico: ‘até que enfim fiquei livre do Condestável’”.

Num de seus livros de memórias, Juscelino se diz o único criador da Operação Pan-Americana. Autran Dourado resgata a história do verdadeiro formulador — o poeta Schmidt, que tinha o hábito de receber os amigos pelado (“gordo, grande e peludo, o sexo à mostra”, anota o escritor).

Autran Dourado contou ao poeta que o vice-presidente dos Estados, Richard Nixon, foi recebido pelo povo em Caracas a pedradas, “depois de ser cuspido em Lima”. Schmidt perguntou: “O que o Juscelino pretende fazer? Ele me telefonou para que fosse providenciado um telegrama formal de solidariedade ao Eisenhower, disse eu”.

Inteligente, Schmidt percebeu a oportunidade de um gesto mais grandioso. “Nada disso, um telegrama é muito miúdo e provinciano. Juscelino não é mais simples mineiro, mas o chefe da nação, a quem compete dirigir a nossa política externa. Onde está o homem?”

Localizado JK, Schmidt disparou a metralhadora: “Chegou o momento de você crescer internacionalmente, afirmar-se como um grande estadista. Na carta que me proponho a escrever, você deve manifestar-se a sua convicção de que alguma coisa necessita ser feita para recompor a face da unidade continental, que foi duramente atingida. Dizer-lhe que você ainda não tem um plano minucioso, detalhado e objetivo, apenas umas ideias sobre o pan-americanismo, cujo destino o preocupa. Que poderá expor-lhe oportunamente o que pensa, se a ocasião se apresentar. Vou escrever uma carta memorável!”

Schmidt desligou o telefone e disse: “Tenho até o nome, Operação Pan-Americana”.

José Maria Alkmim perguntou quem havia escrito a carta, e JK, sem sequer corar, disse: “São umas ideias antigas que eu tinha sobre pan-americanismo, o Schmidt foi apenas a mão que escreveu”. Alkmim, língua de trapo, replicou: “Só a mão?” JK enfureceu-se: “Você está querendo insinuar, na presença deles (Sette Câmara e Autran), que eu sou um mentiroso!?”

Chanceler Foster Dulles foi recebido por Juscelino (Foto: Reprodução)
Chanceler Foster Dulles foi recebido por Juscelino (Foto: Reprodução)

O Departamento de Estado Norte-Americano espantou-se com a proposta de JK-Schmidt. O chanceler Foster Dulles veio ao Brasil e sugeriu que os investimentos maciços fossem apenas no país, não para os vizinhos. Schmidt disse “não” e Juscelino repetiu o “não” — queria apoio para toda a América Latina.

Depois da Operação Pan Americana (OPA), os Estados Unidos aumentaram os investimentos na América Latina, até em empresas estatais, como a Petrobrás. Schmidt acreditou que, até por gratidão, seria nomeado ministro das Relações Exteriores.

Mas JK vetou. E explicou o “motivo” para Autran Dourado: “‘O Schmidt está certo de que será o ministro do Exterior. Eu mesmo um dia tive a leviandade de chamá-lo de ministro. Procure o homem e lhe diga que eu, por poderosas razões políticas, não tenho outro jeito senão nomear o San Thiago Dantas’, disse o presidente. Mas o senhor vai mesmo nomear o San Thiago? disse eu. Ele sorriu e disse ‘não’, é porque o Schmidt é inimigo do San Thiago e, à ideia da nomeação do San Thiago, ele abrirá mão de suas pretensões. Mas por que o Schmidt, com tantos títulos e serviços prestados, não pode ser ministro? disse eu”.

Autran Dourado diz que “JK demorou a responder, vi que ele se sentia envergonhado diante de mim”. Mas teve coragem de dizer: “Por vários motivos, principalmente porque ele é um homem muito inteligente e brilhante. Diga a ele que pode indicar quem quiser para ministro e que quem vai mandar na política externa do Brasil é ele. O outro será pro forma. Sugira alguém medíocre como o Negrão de Lima, que é quem na verdade me convém”.

Ao ser informado do veto, Schmidt chorou e disse: “O Juscelino é um canalha!” Depois, mais contido, arranjou uma explicação: “É, Autran, a política não é feita por homens de alma delicada como a nossa”. Autran Dourado diz que JK tinha inveja de Schmidt. “Se Schmidt tivesse ido para o Itamaraty, por seu jeito de ser, pelo seu grande talento, a grande figura da política externa brasileira seria ele e não o presidente. A OPA é realmente de quem a concebeu: de Augusto Frederico Schmidt”. Justiça, tardia, mas feita.

Um JK mulherengo

Juscelino Kubitschek era mulherengo, dos piores (ou melhores, dependendo da ótica). Cantava até as mulheres dos amigos, as que davam sopa, lógico. Amigos contam que algumas mulheres achavam JK charmosíssimo — não era raro ser cantado por mulheres do primeiro escalão da beleza.

A atriz Kim Novak ficou impressionada com a conversa e o charme daquele homem “feio”, mas jeitosíssimo com as mulheres. Segundo o biógrafo Claudio Bojunga, nada aconteceu entre eles. Não por falta de vontade de Kim Novak e, sobretudo, de JK. Mas não deu tempo.

A bela Kim Novak gostou do "feio" Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)
A bela Kim Novak gostou do “feio” Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)

Os casos de Juscelino eram muitos. O amor por Maria Lúcia Pedroso parece ter sido o mais intenso. “Maria Lúcia era linda, apesar da baixa estatura. Loiríssima, era parecida com a atriz Kim Novak”, conta João Pinheiro Neto, autor do sensacionalista “Juscelino — Uma História de Amor”.

Maria Lúcia, casada com o deputado José Pedroso, era ciumenta: “Ou você dissolve seu comitê feminino, ou nunca mais vai me ver”. JK não dissolveu, nem Maria Lúcia (Lucinha, segundo Autran Dourado) sumiu. Pinheiro Neto, fofoqueiro exemplar, garante que JK quis se casar com Maria Lúcia.

No seu “Gaiola Aberta”, Autran relata uma desavença com o marido de Maria Lúcia: “O deputado José Pedroso mandou me dizer que ia me dar um tiro na cara”. O coronel Nélio Cerqueira Gonçalves ofereceu um revólver para o escritor: “Eu agradeci a gentileza e disse ‘do José Pedroso eu só tenho medo de chifrada’. O Nélio riu, sabia o que eu queria dizer, no Palácio do Catete não era segredo”.

Sarah, a oficial, metia medo em JK, que a chamava, para os amigos, de “tigre” e “onça”. Certa vez, apaixonado, disse para seus auxiliares mais próximos: “Não volto mais para o Rio. Para a Sarah, jamais! Para a Presidência, não sei”. Dias depois, JK estava bem, sorrindo, “lampeiro”, como diz Autran Dourado.

Juscelino, segundo o bem informado Geraldo Carneiro, teve várias paixões, mas, “descabeladas”, só três.

Homem descuidado, Juscelino perdeu uma parte de seus diários, que foi encontrada por um chantagista. O escroque exigiu que JK o indicasse para diretor financeiro de uma empresa privada. JK conseguiu a nomeação.

Sarah Kubitschek, Maria Lúcia Pedro e Juscelino Kubitschek: poder e alcova (Foto: Reprodução)
Sarah Kubitschek, Maria Lúcia Pedro e Juscelino Kubitschek: poder e alcova (Foto: Reprodução)

O infarto do presidente 

Medo de político Autran Dourado não tinha, mas pelava de medo de Sarah Kubitschek. “Como Juscelino, como toda gente, eu tinha medo dela.” Chamado por Sarah, às 7h30, o secretário de Imprensa ficou arrepiado.

“Chamamos você aqui porque o Juscelino teve um infarto, disse ela. Queríamos saber a sua opinião, você que é o secretário de Imprensa. Todos aqui são favoráveis a que não se divulgue nada. A minha opinião, dona Sarah, é que se deve revelar o fato. De jeito nenhum, disse ela. Primeiro tem o Jango, vice-presidente, que é figura suspeita para os militares. Juscelino não pode demonstrar fraqueza.”

Os jornalistas desconfiaram e começaram a cobrar informações sobre a doença do presidente. Para enganá-los, Autran colocou o chapéu de JK e entrou num helicóptero. “A uma certa distância acenei para os jornalistas, como fazia JK.”

Em Belo Horizonte, Autran ligou para um jornalista, que falou do infarto. Resposta do secretário de Imprensa: “Infarto coisa nenhuma, você quer uma declaração dele? Redigi uma declaração de JK sobre um fato qualquer importante, li para o meu amigo, que informou ao Rio que o presidente estava bem e que tudo não passava de boato”.

Fina flor da intelectualidade

Talvez por ser “inculto” (ma non troppo), mas não bobo, Juscelino Kubitschek cercou-se da mais fina flor da intelectualidade de seu tempo. Cristiano Martins, tradutor da “Divina Comédia”, a obra-prima de Dante, de Goethe e Rilke, escrevia para JK. Suas muito bem escritas cartas nada diziam, conta Autran Dourado. O governante precisa de cartas desse estilo que, aparentando dizer muito, nada dizem.

Os poetas Alphonsus Guimaraens e Nilo Aparecida Pinto, além de Cristiano, cuidavam da correspondência. O diplomata Sette Câmara — competente, segundo Autran Dourado — era subchefe de gabinete. A tese de direito de Sette Câmara, “The Retification of International Treatise”, ganhou prefácio de Hans Kelsen.

Cyro dos Anjos, escritor, era da equipe de Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)
Cyro dos Anjos, escritor, era da equipe de Juscelino Kubitschek (Foto: Reprodução)

O grande crítico literário Álvaro Lins (que começou bem e terminou mal) era o chefe da Casa Civil. O secretário de Lins era Francisco de Assis Barbosa (biógrafo de Lima Barreto). O subchefe do gabinete civil era o autor de “O Amanuense Belmiro”, Cyro dos Anjos, que contava com o apoio de Darcy Ribeiro (que, jovem, já era bem falastrão). O contista Murilo Rubião foi chefe de gabinete do JK governador de Minas.

“JK, que tinha mania de escritor, nunca teve nenhum problema de corrupção com qualquer dos seus escritores de estimação”, sustenta Autran Dourado.

Se adorava seus escritores, ou pelo menos fingia, JK não tolerava intelectuais, sobretudo os pedantes. Os do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), JK achava meio ridículos, mas tolerava. O Iseb tinha como membros notórios “o filósofo Roland Corbisier, de pensamento muito confuso, Hélio Jaguaribe e o diplomata Oscar Lourenzo Fernandes, que vinham tentando atuar no governo da República desde o segundo período de Getúlio Vargas, sem muito êxito, e que eram motivo de chacota”.

Embora inteligente e, politicamente, muito esperto, JK, na opinião de Autran Dourado, “tinha às vezes ideias que à primeira vista me pareciam brilhantes, mas ele não se detinha nelas, não as aprofundava. Assim como apareciam, iam embora como o vento. E surpreendentemente uma ideia insignificante o prendia de maneira estranha. Eu atribuo o fato ao seu entourage, de que ele gostava tanto, de algo grau de ignorância e mesmo cafajestismo”.

De novo, o autor de uma ideia “original” não foi JK, mas Augusto Frederico Schmidt. “Logo no início do governo JK, o Schmidt aconselhou-o a conviver com gente mais culta e inteligente. Cafajeste é para campanha, para carregar nos ombros, disse ele. Já tenho os meus escritores, que não me dão problemas, disse JK. Mas você não convive com eles, não os convida para almoçar e jantar, não lhe dá importância, disse o poeta. Eles são máquinas de trabalhar, mas de qualquer maneira dão nome ao seu governo. Quando chega a hora de jantar estão mortos de cansaço.”

JK disse para Schmidt sugerir um intelectual. Schmidt indicou Afonso Pena Júnior. “Aquela múmia ainda está viva? disse JK dando uma enorme gargalhada, no que foi seguido pelo entourage. Um grupo de intelectuais da altitude de Afonso Pena Júnior jamais faria coro de gargalhada a um dito que o presidente considerava brilhante ou inteligente.” É por isso que todo governante “precisa” ter, ao seu lado, gente que não pensa, mas que sabe seguir e adornar o poderoso. JK “não se sentia muito à vontade diante dos homens cultos ou eruditos”.

Certa vez, sentindo-se só, JK mandou chamar Autran Dourado. Depois de conversas miúdas, pediu sugestão sobre um bom estudo a respeito de políticos. O escritor indicou “Mirabeau ou o Político”, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset. “Filósofo? disse ele franzindo o nariz.”

As relações de Juscelino com os donos de jornais e os jornalistas eram muito boas. Pompeu de Sousa, diretor do “Diário Carioca” (DC), procurou Autran Dourado e disse: “Depois de amanhã o jornal não sai mais. É que o Horácio [de Carvalho, dono do jornal] raspou o caixa, foi para Paris, não temos dinheiro para pagar o pessoal da redação e da oficina, e já estamos no dia 12”.

Autran Dourado contou a história a Juscelino, que disse: “O jornal não pode parar. Telefone para o Sebastião”. Sebastião Paes de Almeida, o empresário-presidente do Banco do Brasil. Paes de Almeida pediu que Autran Dourado levasse uma mala ao Copacabana Palace. “No outro dia, lá estava eu com a mala. Cumprimentei o Sebastião, que chamou alguém. Veio um jovem com outra mala, apanhou a minha, trocou-a pela dele, cheia de dinheiro. Meu coração batia descompassadamente.”

Machado de Assis 

No governo de Juscelino, a obra de Machado de Assis ainda não estava sob domínio público e, por isso, as edições “oficiais”, da Jackson Inc., eram muito descuidadas. Autran Dourado decidiu, então, pregar uma mentira. Disse ao amigo Marco Aurélio Matos que “o presidente estava interessadíssimo em desapropriar a obra do grande escritor ou declará-la de domínio público, só carecia de apoio popular e cultural, sobretudo jurídico, pois lhe teriam dito que a obra era legalmente da Jackson Inc. E ele lê Machado? disse Marco Aurélio. Pelo tipo psicológico [católico e sentimental] não parece. Algum amor mal contrariado, ultimamente só tem lido o mestre, disse eu”.

Empolgado, Marco Aurélio reuniu grandes jornalistas, como Carlos Castelo Branco, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira, todos machadianos, que começaram a defender a “desapropriação” da obra de Machado de Assis. Autran Dourado também agiu: “Procurei o dr. Gonçalves de Oliveira, consultor-geral da República, a quem disse que o presidente estava interessadíssimo em considerar a obra de Machado de Assis de domínio público. O caso é sério, diga a ele que eu preciso de uma semana para estudar bem o assunto e dar o meu parecer”.

Machado de Assis: autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Foto: Reprodução)
Machado de Assis: autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Foto: Reprodução)

Com o parecer nas mãos, Autran convocou a imprensa para o dia seguinte, “quando o presidente assinaria o ato. Levei comigo para o palácio o meu exemplar de ‘Dom Casmurro’, disse ao presidente que fingisse que estava lendo. O que você está me aprontando, me perguntou. Basta assinar aqui, amanhã o senhor vai ver que maravilha. No alto do parecer estava escrito apenas APROVO. JK assinou sem me perguntar o que era”.

“No dia seguinte foi fotografia de JK na primeira página de todos os jornais. Quando entrei no seu gabinete, ele disse isso, sim, é que é serviço. Eu não entendo a imprensa: fiz uma coisinha de nada e veja que repercussão.” Os machadianos deveriam agradecer, de joelhos, a mentira, uma mentira verdadeira, de Autran Dourado.

Um intelectual, Álvaro Lins, sai malíssimo do livro de Autran Dourado. Era honesto, concede Autran Dourado. O refinado crítico literário — que escreveu por exemplo sobre Proust — queria ser governador de Pernambucano.

Chefe do Gabinete Civil de JK, Álvaro Lins “tinha um hábito muito engraçado. Quando um parlamentar ou político importante ia procurá-lo, ouvia atenciosamente, tomava nota num papelucho, deixava-o sobre a mesa, e nele parecia não mexer mais. Como os assuntos não se resolvessem, alguns políticos procuravam principalmente o oficial de gabinete Geraldo Carneiro, que ficava mais perto do presidente”.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras, Álvaro Lins compareceu no dia da posse bêbado e com um discurso enorme e confuso. A “Tribuna da Imprensa” destacou a bebedeira de Lins. JK nomeou-o embaixador em Portugal. Não satisfeito com os problemas que deixara no Brasil, o embaixador começou a conspirar contra Salazar.

“Sobre a sanidade mental do Álvaro nada posso dizer com bastante certeza, somente dar dois indícios. O primeiro se refere à visita da rainha Elizabeth a Portugal, quando numa carta ao presidente ele disse que fez questão de se sentar ao lado dela para melhor lhe dizer como era Juscelino, traçar um retrato perfeito do grande estadista que ele era. Seguia-se uma narrativa um tanto ou quanto estapafúrdia, que não fazia muito sentido”, registra, com certo mau-humor, Autran Dourado.

Noutra carta, Álvaro Lins foi ainda mais ridículo: “Álvaro dizia que havia levado consigo alguns discos com discursos do presidente. Para matar a saudade, ele se deitava no chão e se punha a ouvir a voz de JK. O presidente não leu a carta, passou-a para mim”, diz, maldoso, Autran Dourado.

Quase sessões de análise

O trabalho pesado na Presidência da República comia o tempo de Autran Dourado, que acabava praticamente nada escrevendo. Estafado, tentou se matar: “Acabei o resto do uísque, fui para o banheiro. Fechei o basculante e liguei o aquecedor. E comecei a sentir muito forte o cheiro de gás. E acreditei ouvir nitidamente uma voz feminina me dizer, estranhamente soando nítida dentro de mim, não faça isto, não se deixe vencer. Não se deixa vencer pelo demônio. Na sua mesa, no escritório, há uma coisa para você”. De fato, havia.

Seguindo conselho do psicanalista Hélio Pellegrino, Autran se curou escrevendo. JK, ao saber das sessões de análise, disse que, ao acabar o governo, faria análise.

Fidel Castro e Juscelino Kubitschek : conversa chata e discurso para botar qualquer um para dormir (Foto: Reprodução)
Fidel Castro: conversa chata e discurso para botar qualquer um para dormir (Foto: Reprodução)

Mijar para se livrar de Fidel

O construtor de Brasília, Israel Pinheiro, detestava gastar dinheiro com publicidade. Talvez por isso a imprensa bombardeava a construção da capital — a Ferrovia Norte-Sul da época. Autran Dourado, ampliando ideia do coronel Afonso Heliodoro, sugeriu que Juscelino Kubitschek convidasse o escritor inglês Aldous Huxley e o ministro da Cultura da França, André Malraux, para visitar Brasília.

Malraux apaixonou-se por Brasília, a capital da esperança. Huxley, sempre extravagante, depois de ter viajado de Ouro Preto para Brasília, disse: “Uma viagem do ontem para o amanhã, do que terminou ao que vai começar, das velhas realizações para as novas promessas”. Sucesso absoluto, Malraux e Huxley.

Dos visitantes de Brasília, Fidel Castro foi o mais entediante. Escreve Autran Dourado: “Mal nos assentamos e o carro se pôs em movimento, dois policiais cubanos treparam nos para-lamas dianteiros e começaram a dar pancada em quem tentasse se aproximar de JK e Fidel. JK, que não gostava de seguranças e guarda-costas, me disse depois ter ficado horrorizado. Eles não careciam daquilo, os candangos são gente calma e pacífica, desejavam apenas nos ver de perto e saudar o visitante”.

Enjoado do papo-quase-cabeça de Fidel Castro, JK chamou Autran, que não pôde atendê-lo. “Quando me dirigia para o interior da biblioteca, fui barrado pelo barbudo que ali estava como guardião. Estranhei e disse alto que a casa era minha, que eu era secretário de Imprensa do presidente. Mesmo assim o barbudo não me deixava entrar. Vendo o meu estado, JK me perguntou o que estava acontecendo. É este barbudo que não quer me deixar entrar, disse eu. Não tenho o interesse pelo que estão conversando, o senhor é que me chamou, mas eu só fico de fora se aquele outro barbudo sair. Era nada mais, nada menos do que o famoso revolucionário Che Guevara, viria a saber depois.”

A confusão foi proveitosa para JK. “Estou louco para mijar, não aguento mais este cucaracha!” Na hora do banquete, Fidel Castro fez um discurso de uma hora. Até os pratos, certamente, “dormiram”.

Darcy Ribeiro e a Universidade de Brasília

Darcy Ribeiro tentou convencer o escritor Cyro dos Anjos a levá-lo a Juscelino Kubitschek. Darcy queria sugerir a construção de uma universidade em Brasília. Autran Dourado disse: “Posso tentar, mas não leve nada escrito para ler (sabia de sua fama)”.

Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, nomes importantes em Brasília (Foto: Reprodução)
Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, nomes importantes em Brasília (Foto: Reprodução)

Quando Autran Dourado relatou a ideia de Darcy, o presidente fechou a cara. “Não, de jeito nenhum! Não quero nem estudante nem soldado em Brasília, no máximo corpo de guarda.” O secretário de Imprensa retrucou: “…(a universidade) será a base cultural da cidade. O senhor está pensando que constrói uma cidade monumental, uma capital modelo e, no final das contas, está fazendo a maior cidade do interior, acanhada e provinciana. JK arregalou os olhos e disse é capaz de você ter razão, vou pensar no assunto”.

Convencido de que a ideia era boa, e daria repercussão, JK recebeu Darcy, que, falando demais, agradou o presidente, que não queria, porém, ouvir nada sobre currículos. “O que interessava mesmo a ele era dizer que estava erguendo a mais importante e moderna universidade do Brasil. Era o que ele mais perguntava ao Darcy. O Darcy percebeu logo esse lado de JK e era sobre o que ele mais falava.”

Euler de França Belém  é editor do Jornal Opção(Goiânia-GO) e essa resenha especial foi publicada originalmente em 2000 e reeditada em março de 2020.

Allyson decide não repetir ranço e indelicadezas que marcam Rosalba

Allyson Bezerra tratou de pautas administrativas com Isolda, num período de tensão e ataques (Foto: PMM)
Allyson Bezerra tratou de pautas administrativas com Isolda, em período de tensão e ataques (Foto: PMM)

O prefeito Allyson Bezerra (Solidariedade) concedeu audiência à deputada Isolda Dantas (PT) nessa quarta-feira (28), às 13h. Foi a primeira oportunidade de encontro pessoal e institucional entre dois adversários nas últimas eleições, novamente em posições distintas e importantes, mas não de gládio (em tese), após o resultado das urnas.

E não foi uma audiência qualquer. Explícita e implicitamente existiam senões da campanha e rusgas recentes, que podiam tensionar. Pelo menos aparentemente, ambos lidaram bem com as diferenças. A conversa fluiu.

O encontro cordial e republicano foi provocado pela parlamentar a partir de solicitação formal no último dia 12, Portanto, 16 dias depois ela estava no Salão dos Grandes Atos do Palácio da Resistência, sede da Prefeitura Municipal de Mossoró.

A deputada é uma privilegiada, que se diga. Tem sorte até. Se a cadeira do executivo estivesse outra vez com a ex-prefeita Rosalba Ciarlini (PP), talvez nunca fosse ser recebida, principalmente depois de passar os últimos dias hostilizando o prefeito, na polêmica não sanada de vacinas para Covid-19, em Mossoró.

Ela e sua militância virtual foram incansáveis na pregação anti-Allyson. Deu para lembrar as últimas semanas da disputa municipal 2020 (veja AQUI), quando viraram força-auxiliar de Rosalba.

No dia 12 de março de 2019 (veja AQUI), pouco mais de um mês após assumir seu primeiro mandato eletivo, o então deputado Allyson Bezerra pediu através do ofício 024/2019GBAB, protocolado às 10h no Palácio da Resistência, para ser recebido pela prefeita Rosalba. Justificava que aspirava discutir assuntos do interesse do município, para defendê-los na Assembleia Legislativa.

Nunca ocorreu resposta alguma nem jamais foi recebido.

Por outro lado, Rosalba só descobriu realmente quem era aquele jovem político no dia 15 de novembro de 2020 (veja AQUI). Ou seja, da pior forma possível: derrotada por ele à reeleição.

Pauta, política, ranço e dedetização

Bem, voltemos à audiência que aconteceu. À mesa, Isolda listou pleitos de cunho social ao governo municipal. Contudo, foi surpreendida pelo prefeito que empilhou uma pauta para ela leve ao Governo do Estado. São pendências delicadas e que afetam diretamente setores importantes, sobretudo a saúde local.

Apresentando-se como principal representante da administração Fátima Bezerra PT) em Mossoró, Isolda Dantas retornará a Natal dando ciência, por exemplo, de que há um débito do Governo do Estado com o município – somente quanto a serviços de alta e média complexidades -, da ordem de R$ 29 milhões. Outras pendências e pedidos foram apresentados.

Esse diálogo entre adversários de 2020 alimenta muito o imaginário popular. Fustiga bastante a cultura política nativa dominante, que em décadas foi moldada pelo rancor, populismo barato e empáfia. Os indivíduos eram classificados como súditos ou inimigos. Quase ninguém era visto como cidadão.

Ao se negar a receber um legítimo representante popular, capaz até de colaborar com seu governo, Rosalba repetiu essa seletividade maniqueísta e rançosa. Não foi exceção. Muitos outros sofreram essa humilhação.

FHC aboletou-se numa cadeira, certo da vitória, mas Jânio foi à forra nas urnas e na dedetização (Foto: Web)
FHC aboletou-se na cadeira, mas Jânio dedetizou o lugar do virtual eleito, logo que assumiu (Foto: Web)

Pelo menos no início de gestão, Allyson Bezerra faz bem diferente. Amém! Poderia repetir o ex-presidente Jânio Quadros. Eleito prefeito de São Paulo em 15 de novembro de 1985, ao chegar para o primeiro dia de expediente na sede da municipalidade, dia 2 de janeiro de 1986, dedetizou a cadeira que sentaria.

– “Gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram”, declarou o histriônico prefeito, agarrado a um inseticida que aspergiu no assento. Era uma provocação que fazia ao adversário derrotado no ano anterior, senador Fernando Henrique Cardoso, que chegou a posar e pousar naquela cadeira, como ‘eleito’, dias antes do pleito em que foi derrotado.

A presunção e vaidade de FHC não morreram ali, é bom que seja assinalado. A história provou adiante.

Um campeão de votos, apaixonado pela política, Allyson deve saber – por experiência própria também – como não fazer errado. A giratória onde Rosalba aboletou-se por quatro mandatos, não lhe pertence.

Ele é inquilino, assim como ela já foi, do Palácio da Resistência. Se não repetir alguns péssimos hábitos de quem passou, já estará de bom tamanho. Não lambuzar a cadeira executiva com Baygon e receber Isolda, polidamente, causam impressão animadora.

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Duelo do “tostão contra o milhão” desenha luta desigual

Uma inspeção mais acurada no Jornal Oficial do Município (JOM) de Mossoró, nos últimos meses, mostra que a prefeita Rosalba Ciarlini (PP) prepara campanha como nunca antes vista. Vai para o tudo ou nada em seu projeto de reeleição, mas ‘dentro da lei’ – lógico.

A estrutura multimilionária passa pela contratação em massa de empregados terceirizados, por exemplo. O que em tese é justificado como necessidade administrativa, acaba tendo propósitos inconfessáveis que não estão nos editais licitatórios. Há uma pressa eleitoral, que se diga.

O recrutamento é até difícil de rastrear em números, porque o Portal da Transparência da municipalidade (veja AQUI) é pouco zeloso na prestação de informações obrigatórias. Abundam dispensas de licitação (veja caso recente AQUI), aditivos e outros recursos legais que não perdem de vista as eleições 2020, mesmo que os atrasos salariais sejam rotina (veja AQUI).

Rosalba aposta tudo na estrutura para não deixar margem à surpresa; Jânio surpreendeu em 1953 (Fotomontagem BCS)

Porém o empréstimo de quase R$ 150 milhões (veja AQUI) para investir em obras de infraestrutura no último ano de governo, é um dos principais instrumentos dessa aposta, depois de três anos de administração estagnada. O feito é tão comemorado no governismo, que rendeu até título de cidadania para o presidente da instituição financiadora, Pedro Guimarães, da Caixa Econômica Federal (CEF) – veja AQUI, que nunca tinha desembarcado em Mossoró até então.

Rosalba e seu grupo não querem sofrer maiores sustos. Com razão.

A gestão terminou 2019 com reprovação administrativa e enormes sobressaltos, como a ‘visita’ da Polícia Federal ao seu apartamento (veja AQUI), condenação judicial do marido Carlos Augusto Rosado (veja AQUI), desabastecimento de remédios (falta de insulina, o mais grave), atraso na folha de remuneração de servidores, bloqueio de contas para pagamento de hospitais/médicos…ufa!!

Na oposição, as conversas inconclusas e subdivisões em pré-candidaturas até aqui sem o selo da “união” consistente de forças, também concorre para fazer da tarefa de enfrentar a prefeita e sua estrutura, uma missão desafiadora.

Será nitidamente uma campanha do “tostão contra o milhão”, seja lá quem for o adversário que apareça do outro lado em condições mínimas de embate. É uma aposta desproporcional, mas também bem representativa do poder que o clã Rosado exerce em sua comuna, há mais de 70 anos contínuos. Resiste e tenta uma sobrevida numa época de desmanche de grandes grupos político-familiares como Maias e Alves.

Jânio Quadros contra a máquina milionária

O slogan “o tostão contra o milhão” foi usado pela primeira vez pelo então deputado estadual Jânio da Silva Quadros (PDC) em 1953, na campanha à Prefeitura de São Paulo-SP. Muitos outros candidatos, Brasil afora, adotaram essa fórmula ao longo das décadas que se seguiram.

Professor, ex-vereador e jovem deputado estadual, Quadros desafiou a estrutura governista avassaladora representada pelo ex-secretário de Saúde do Estado Francisco Antônio Cardoso (PSP).

Empresariado e a alta sociedade paulistana também maciçamente apoiavam o governista.

Jânio venceu assim mesmo com 67% dos votos válidos, justamente mostrando o uso indiscriminado e despudorado da coisa pública para manutenção do poder. Uma vassoura para varrer a corrupção da prefeitura foi seu estandarte e símbolo.

Leia também: Rosalba não pode perder; oposição não precisa ganhar;

Leia também: Rosalbismo faz caixa e atua em várias frentes para campanha.

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Manhã de domingo

Por Inácio Augusto de Almeida

Maurílio passara em frente ao Grêmio Mossoró, mas não entrara. Sabia que lá dentro só estavam os carteadores. A turma do bilhar nunca comparecia pela manhã. E como o Grêmio aos domingos só funcionava até o meio-dia, o médico resolveu ir papear no barzinho  do Carlos, como sempre fazia quando não ia a Tibau, a exemplo da metade da população de Mossoró.

Nas manchetes dos jornais espalhados pela calçada de forma ordenada, leu que Jânio Quadros prometia varrer a corrupção do país. Riu, discretamente, intimamente, riu. A dúvida era se ria do Jânio ou de si mesmo. Mas tinha certeza de que alguém estava pensando que alguém era ingênuo.Enquanto atravessava a rua observou que, no átrio da igreja, algumas pessoas papeavam.

– Maurílio, Maurílio!

Era Conversinha com aquele seu jeitinho insinuante e agradável. Sentiu que não escaparia de algumas cervejas.

– Viu as manchetes, Conversinha?

– A do O INDEPENDENTE eu li.

– E você acredita que ele consiga?

– Há, há, há.

– Tá rindo de quê?

– Da sua pergunta, há,há,há.

– Você é mesmo um gozador.

– Eu? Ou você que tá querendo zombetear…

– Vai uma cerveja?

– Claro, claro.

A garapeira do velho Guará estava fechada. Ele nunca a abria aos domingos. Quem gostava disto era o Pelado, pois assim podia ir dar o seu mergulho nas águas quentes de Tibau. Durante toda a semana, Pelado era o incansável servidor de caldo de cana e pão semolina. Mas aos domingos, ninguém o afastava da praia.

-Veio tomar cerveja, Maurílio, ou tá querendo caldo de cana? Você não pára de olhar para a garapeira.

-Sabe, Conversinha, eu às vezes ainda me surpreendo com a solidariedade que existe entre os pobres. Você sabe que o Pelado, o Pelado do Guará.

Fez uma pausa. Engoliu um pouco de cerveja, como se quisesse recompor-se.

-Vai, continua. Eu sei quem é o Pelado. Todos em Mossoró conhecem-no.

Com este conhecem-no do Conversinha, numa conversa de beira de balcão regada a cerveja numa manhã de domingo, Maurílio trocou o ar sério, quase sorumbático, por um meio riso.

– Pois bem. O Pelado, um homem pobre, inculto, é capaz de atos fraternos, de atos fraternos, de atos solidários, coisa que muita gente que vive papando hóstias, pessoas ditas cultas, não são capazes de fazer.

– Maurílio, limpar hostiários não significa estar com Deus. E este tipos a que você se referiu como ditos cultos, na realidade são cultos. Muito cultos. Só que sensibilidade, amor ao próximo, bondade, não são coisas que se aprende lendo. Franz Kafka, Niccoló Machiavel, Michel de Montaigne ou Bernardo de Almeida, todos eles colocaram em suas obras a importância da solidariedade, da fraternidade, do amor. Mas isto não depende de quem escreve. Estes sentimentos são inerentes aos puros, aos de bom coração. Não, não se adquire estes valores através da cultura. Eles brotam de dentro, do fundo do coração.

Maurílio olhava para Conversinha de maneira respeitosa. Sabia das traquinagens que o jornalista fazia, dos “traços” que dava em alguns poderosos e vaidosos. Mas sabia também da bondade existente na alma daquele homem de menos de metro e meio de altura.

– Você tem razão, Conversinha. Enquanto o Pelado arrisca o emprego, a sobrevivência, para dar dois pães a quem só tem ficha pra um, por saber que ali está a primeira e talvez a única refeição de pobres meninos de rua, tipos ricos e cultos negam uma moeda a pedintes famintos.

– Maurílio, o domingo tá bonito, a cerveja tá bem gelada e já vai para quase dois mil anos que Cristo foi pregado numa cruz. A injustiça social vem desde que começou o mundo. Eu já estou é para fundar o PIS.

– PIS, Conversinha?

– Sim, Maurílio. O Partido da Injustiça Social. Uma coisa que já existe há tanto tempo, que todo mundo diz combater e que continua existindo, só pode ser uma coisa muito forte. Forte e boa para quem a quem pratica. E já tenho as palavras  de ordem. Veja: pela exploração do homem pelo homem. Pela desigualdade social. Por aumento nas taxas de juros. Pela criança fora da escola. Por uma anistia ampla e irrestrita a todos os deslizes do colarinho branco.

– Deslizes, Conversinha?

– Deslizes, sim, Maurílio. Pobre é que comete crime. A turma do colarinho branco fica só no deslize. Deixe-me continuar, ou você não quer saber o restante do programa do nosso partido?

Esforçando-se para controlar o riso, Maurílio conseguiu dizer:

– Nosso, não. O seu partido.

– Meu ou nosso, vamos em frente. Por igrejas alternativas mais fortes e em maior quantidade. Pela manutenção dos privilégios e criação de novas castas. Pela acentuação da divisão de classes. E como ponto inegociável do nosso programa: a defesa do direito adquirido! Neste não admitimos que ninguém toque. Ninguém!

Maurílio ria a não mais poder. Chegava mesmo a curvar o corpo. Os seus olhos ficaram cheios de lágrimas, talvez de tanto rir ou, quem sabe, de constatar que tudo aquilo que o Conversinha falava acontecia realmente todos os dias e ninguém se tocava.

Olhou para Conversinha com uma enorme simpatia. Taí a razão de gostar daquele jornalista falante. E quando pensava em dizer alguma coisa, sentiu uma mão pousar no seu ombro.

– Na cervejinha, hein, Doutor.  Vai ver o Conversinha já lhe fez dar umas boas risadas.

– Ainda não, Lopes. Hoje ele está mais para o trágico do que para o cômico.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista

Palanque de barro

Por François Silvestre

Os inimigos da Direita eram os comunistas, socialistas, anarquistas. Cuba, China, Castro, Guevara. Agora é vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB).

Até o guru anda chamando o Exército de “milicos covardes”. Nem nisso a Direita consegue avançar. Falta de inimigos ou de competência para realizar o “sonho” da fartura e da ordem?

A Direita ainda não descobriu que ganhou a eleição? Continua a fazer oposição aos derrotados? Cômodo, não?

É o disfarce para esconder que não sabe o que fazer.

Quanto ao espectro do comunismo, a direita bolsonariana ampliou o leque dos suspeitos. Reinaldo Azevedo, guru sagrado até bem pouco tempo, virou agente duplo. Era um comunista infiltrado na Veja. E Diogo Mainardi? Suspeitíssimo. Deve ser o Reinaldo d’O Antagonista.

Enquanto o “mártir” Bolsonaro, segundo o guru sagrado Olavo, precisa trabalhar em paz. E já começou a trabalhar.

Agora mesmo decretou o fim do horário de verão. Jânio só acabou briga de galo.

O “mártir” reduziu o limite da Lei Rouanet.

Jânio só proibiu biquinis na praia.

Isso faz lembrar uma musiquinha dos tempos do governo Dix-Sept Rosado: “Cala a boca língua ferina,/ apaga a lamparina,/ e deixa Dix-Sept trabalhar”.

O passado era mais inteligente, o que significa menos idiota.

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Errar é humano, mas não para Lula, Bolsonaro e Pompeia

– “Quando nós viramos referência, nós não podemos errar, não temos o direito de errar e não temos o direito de fracassar”, presidente Lula da Silva (PT), dia 13 de fevereiro de 2004.

– “Nós não podemos errar. Se errarmos, os senhores bem sabem quem poderá voltar. E as pessoas de bem, que foram maioria, não poderão se decepcionar conosco”, presidente Jair Bolsonaro (PSL), dia 7 de janeiro de 2019.

As duas frases destacadas acima em negrito, em dois momentos distintos, separadas em mais de 14 anos uma da outra, pronunciadas por políticos antagônicos e dirigidas em especial a seus eleitores e militantes, tratam em essência da mesma natureza semântica: o verbo “errar”.

Lula avisou que ele, sua equipe e o PT não podiam errar; Bolsonaro repete retórica em meio à turbulência (Foto: Web)

Em cada contexto histórico, a fala desses personagens cumpriu-cumpre o papel de fomentar um exercício prático além da própria retórica dos líderes inspiradores. Não errar, é não pecar, não cair nas tentações que o poder produz.

Lula discursou quando o PT completava 24 anos de vida. No emblemático Hotel Glória no Rio de Janeiro, símbolo neoclássico da burguesia carioca no século passado, ele dava os primeiros passos do segundo ano do seu primeiro mandato presidencial.

Mensalão e petrolão

Adiante, em 2005, o escândalo do “mensalão” – narrativa sobre compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional do Brasil – começou a desconstruir a imagem asséptica que Lula e seu partido tentavam vender. Depois vieram outros escândalos, como o infindável “petrolão” – nome dado para um esquema de corrupção e desvio de fundos que ocorreu na Petrobras -, envolvendo governos petistas e diversos partidos, políticos e outros personagens.

Eleito sob a égide da moralidade, para varrer a corrupção do Planalto, Esplanada dos Ministérios e Brasil, bem ao estilo Jânio Quadros nos anos 60, o capitão reformado do Exército e deputado federal Jair Bolsonaro mal começou seu mandato e já convive com embaraços. Na verdade, antes mesmo de cruzar a faixa presidencial no peito dia 1º de janeiro deste ano.

No dia 6 de dezembro do ano passado, portanto após as eleições, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) detectou que Fabrício Queiroz – policial militar da reserva, ex-motorista de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), senador eleito e filho do presidente, fez uma movimentação bancária de 1,2 milhão de reais, “incompatível com seu patrimônio”, entre 2016 e 2017. Até a futura primeira-dama Michelle Bolsonaro tinha dinheiro transferido para sua conta por Queiroz.

De lá para cá, nunca o caso ficou razoavelmente esclarecido. Esquiva-se desde então do Ministério Público.

Civismo e mérito

Poucos dias depois, o deputado federal e braço direito de Jair Bolsonaro, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), é denunciado por ter utilizado indevidamente verba da Câmara Federal em 2018 em trabalhos da campanha presidencial. Acossado pela imprensa, defendeu-se com evasiva superior: “Eu não tenho que me defender de nada”.

Segundo Lorenzoni, agora ministro-chefe da Casa Civil, a justificativa para utilizar recursos públicos de forma irregular tinha um componente cívico: “Eu estava ajudando a construir o que, hoje, nós estamos vivendo: a transição de um novo futuro para o nosso país”.

Na segunda-feira (7), quando o presidente Bolsonaro empossava no Palácio do Planalto os novos dirigentes do Banco do Brasil, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Caixa Econômica Federal (CEF), repetiu inadvertidamente a frase cunhada por Lula na década passada. Dia seguinte, porém, veio outra contrariedade.

O vice-presidente da República, general reformado Hamilton Mourão (PRTB), teve o filho Antonio Hamilton Rossell Mourão nomeado para um cargo com remuneração em torno de R$ 36 mil/mês no Banco do Brasil, onde é funcionário de carreira há 18 anos.

Instado a se pronunciar sobre a ascensão, Mourão fez uma avaliação particular do currículo do seu rebento, como se fizesse parte do setor de RH (Recursos Humanos) do BB: “Ele tem mérito.” Ah, tá!

O eco do salto meritório do filho de Mourão, no BB, chegou ao Planalto provocando ruídos. O presidente Jair Bolsonaro soube do caso pela imprensa que tanto combate e desdenha e não por seu Twitter (rede social que mais usa).

É lugar-comum uma frase atribuída ao general Júlio César há mais de dois mil anos, quando tratava de imagem pública de Pompeia, sua segunda mulher, perante o patriciado (elite republicana romana), plebeus e escravos: “À mulher de César não basta ser honesta; precisa parecer honesta.”

O clã Bolsonaro deve conhecer pelo menos razoavelmente a história do apogeu e declínio de César. Sobre o PT, bem mais, com certeza. Errar é humano, mas ‘mitos’ não têm direito ao pecado.

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Simbolismos do atraso na difícil marcha do “novo”

Por Carlos Santos

Política é uma atividade carregada de simbolismos, naturais ou artificiais. Sempre. Formam-se por força laboratorial do marketing, ou decorrem da espontaneidade do povo. Um clique e… pah! Eureca! Acerta-se o alvo.

Um jingle, um slogan, cores e um gestual ajudam a inocular a imagem do candidato/partido/ideário no inconsciente popular. É por esse canal e não a face “consciente” do cérebro, que a identidade/mensagem bate à porta do eleitor – às vezes até arredio.

Uma ofensa – ou troça do adversário – também pode ser utilizada como peça de propaganda, virando uma marca a favor.

O “Cigano” Aluízio Alves converteu o desdém dos contendores em combustível para vitória ao Governo do RN em 1960.

O “Tamborete”, apelido de menosprezo a Geraldo Melo, foi anabolizante de sua conquista estadual em 1986.

A “Vassoura” contra a corrupção levou Jânio Quadros à Presidência da República em 1960, com a promessa de higienização do país.

O “Retrato do Velho” (clique no boxe acima) içou Getúlio Vargas ao Palácio do Catete outra vez, agora pela via democrática, na campanha de 1950.

Barack Obama falou para uma nação multifacetada a essência da alma americana, no slogan simples e certeiro: “Yes, we can!” (Sim, nós podemos!). Passou à história como o primeiro presidente-negro da América.

A propósito, o “Movimento RN Melhor” dos ex-candidatos a prefeito e vice de Mossoró, Tião Couto (PSDB) e Jorge do Rosário (PR), não podia ter sido mais imprevidente ao escolher a antiga mansão da ex-prefeita Fafá Rosado (PMDB), para promover reunião política na quarta-feira (20), em Mossoró.

O local é encharcado de símbolos na contramão do que eles pregam: modernidade, meritocracia, eficiência, probidade e alternativa de poder. Várias pessoas que estavam no evento político se sentiram “em casa”, de braços dados com o atraso e não com o “novo”.

Mais um pouco e não causaria estranheza se uma manada de ex-comissionados amestrados, da prefeitura, ressuscitasse em êxtase seus gritos de louvação à ex-prefeita: “Uh-huuuuu! Linda, maravilhosa! Arrasou!!!”

No próximo encontro, se os dois imberbes políticos tentarem, podem conseguir emprestado o “Sítio Cantópolis”, local de reuniões do rosalbismo em campanhas. Liguem para Carlos Augusto Rosado. Ele sabe muito de Simbologia, Semiótica e Política.

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Gostei de conhecer o ex-candidato a vereador Paulo Frutuoso Machado (PDT), jovem mossoroense muito antenado com a política, de boa capacidade de observação. Obrigado por nos acompanhar aqui no Blog Carlos Santos. Voltaremos a prosear. Abraços.

No lançamento do livro “Os Rosados Divididos – Como os jornais não contaram essa história“, do jornalista Bruno Barreto, à noite da última quinta-feira (21), em Mossoró, escassos integrantes desse clã focalizado apareceram para prestigiá-lo. É certo, porém, que o autor não produziu uma hagiografia nem é dado à modalidade do “jornalismo de incenso”, o que pode explicar a distância. O trabalho merece ser lido como objeto de pesquisa e fomento ao bom debate. Recomendamos.

O ex-prefeito de São Gonçalo do Amarante Jaime Calado, marido da deputada federal Zenaide Maia (PR), tem-se municiado de pesquisas quantitativas e qualitativas, monitorando as passadas dela ao Senado. Aos mais próximos, até fala com convicção: “Ela vai ser eleita”. Sua aposta faz sentido, sim. Mas claro que é cedo para assertivas irreversíveis.

Eudo Leite: muito a ser investigado (Foto: PGJ)

Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), da Região Oeste, do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), parece que trabalha silenciosamente. Só para lembrar ou esclarecer: ele foi implantado pelo procurador geral de Justiça, Eudo Leite, no dia 18 de julho deste ano. Está sediado em Mossoró e cobre 21 municípios (veja a resolução AQUI).

O ex-vereador Tomaz Neto (PDT) resolveu mergulhar. Tomou distância de atividades do seu partido, adotando a ausência e o silêncio (pasme!) quanto aos seus rumos em Mossoró e no estado, como no tocante à postulação ao governo do prefeito natalense Carlos Eduardo Alves (PDT).

O segundo voto ao Senado é uma preocupação de todos os principais pré-candidatos ao Senado em 2018. Ele pode decidir na contagem final, quais serão os eleitos. Os principais concorrentes, até aqui, sabem e trabalham estratégias quanto a isso. Os senadores Garibaldi Filho (PMDB) e José Agripino (DEM) observam que um deles pode “sobrar”, com o crescimento de Zenaide Maia (PR), atual deputada federal.

O governador Robinson Faria (PSD) segue em Brasília. Tempo integral para tentar viabilizar socorro financeiro para pagar dívidas com servidores, principalmente após pronunciamento contrário ao apoio financeiro do Governo Michel Temer (PMDB), de Júlio Marcelo de Oliveira, procurador do Ministério Público de Contas junto ao TCU (veja AQUI).

Promete ser eletrizante a corrida eleitoral à Câmara Federal no segmento evangélico no Rio Grande do Norte. O atual deputado federal Antônio Jácome (PMN) e Carla Dickson (PROS) podem protagonizar uma disputa à parte por uma das oito vagas do estado.

TÚLIO RATTO – JANELA INDISCRETA

EM PAUTA

Casa Moraes – Uma marca comercial vitoriosa em Mossoró e região vai atingir idade sexagenária. É a Casa Moraes. No próximo ano completará 60 anos de atividades. Parabéns a José Moraes, Moraes Neto e todos os seus colaboradores.

Gonzaga – O empresário Gonzaga Souza (Gonzaga Veículos) está novamente em Mossoró, após checape na saúde em São Paulo-SP. Voltou tinindo, após preocupar muito os amigos e familiares. Cuide-se, meu caro.

Empreendedor – Na próxima quarta-feira (27), o Governo do RN vai botar para funcionar o “Escritório do Empreendedor” no Partage Shopping Mossoró. Não haverá inauguração formal desse equipamento público, criado para facilitar a vida da livre iniciativa.

François – Articulista de Nosso Blog, o escritor François Silvestre deverá ter reeditado o seu livro “A pátria não é ninguém”. Os editores David Leite e Clauder Arcanjo burilam o projeto para viabilizá-lo através da sua editora, a Sarau das Letras. Livraço, que se diga.

Princesa do Vale – A convite do seu diretor, jornalista/radialista Lucílio Filho, o Blog Carlos Santos vai participar do programa “Panorama do Vale” (18h) em uma de suas edições desta semana. Combinado.

Lucieudes – O empresário Lucieudes da Silva (Lucieudes Material de Construção e Posto Tibau), da cidade-praia do Tibau, estuda o mercado mossoroense para novo investimento. Bem a seu estilo discreto, sem alardes.

FM do Apodi – Está em fase experimental a migração da Rádio AM Vale do Apodi para Frequência Modulada (FM). Sintonize-a clicando AQUI. É a FM 98.3, do Sistema Oeste de Comunicação, que tem como empresa-âncora a TV Cabo Mossoró (TCM).

Milícias – Em alguns setores comerciais e residenciais de Natal, a ausência da polícia nas ruas fez surgirem “milícias” à proteção patrimonial e de vidas, forças paramilitares armadas e com licença para matar.

SÓ PRA CONTRARIAR

Alves, Maias e Rosados vão arriscar novo chapão às eleições do próximo ano, num momento em que há crescente repulsa à política, aos políticos profissionais e aos partidos?

GERAIS… GERAIS… GERAIS

Dia de ontem foi de chuvas com pequenas precipitações em algumas cidades do estado, como regiões Oeste e Seridó. Nos últimos dias, também temos informações de chuvas ainda fracas no Ceará.

O bom filho a casa retorna. O jornalista Fábio Oliveira está de volta aos quadros da TV Cabo Mossoró (TCM)/FM 95.7, fazendo aquilo no qual é craque: jornalismo esportivo de qualidade. Parabéns ao grupo pelo enorme acerto.

O tempo passa sem que percebamos, no bate-papo com os ex-jogadores Agnaldo (lateral-esquerdo) e Isaías (goleiro), sobre a jornada épica do Baraúnas na Copa do Brasil 2005. Relatam o que as câmeras não captaram, entre diálogos e algumas curiosidades em campo, no jogo em que o tricolor fez 3 x 0 no Vasco da Gama em São Januário.

Obrigado à leitura de Nosso Blog a Pádua Júnior (Mossoró), Edinael Castro (Upanema) e Tibúrcio Marinho (Apodi).

Veja a Coluna do Herzog do domingo passado (17) clicando AQUI.

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De Lacerda a Aécio

Por François Silvestre

A política se faz em ciclos, lições e consequências. O grave é que os ciclos não se completam coerentemente, as lições não são apreendidas e as consequências fogem do controle.

Quando o governo Jango chegou às vésperas das eleições presidenciais, marcadas para 1965, o próprio Jango pensava num saída legal para ser candidato. O PSD já lançara, em convenção, a candidatura de Juscelino Kubistchek, e a UDN fizera o mesmo lançando Carlos Lacerda.

Nas paredes dos muros do Brasil havia a chamada do marketing da época: JK-65. Lacerda flutuava favorito, nas pesquisas. E Jango “incendiava” o país com a proposta das reformas de base. Brizola promovia agitação das massas.

Jango fazia o jogo da oposição. Oposição quer instabilidade. O comício da Central do Brasil, no início de Março de 64, foi o pretexto que a Direita precisava para estimular o apoio material, e militar se necessário, dos Estados Unidos, ao golpe de Estado que vinha sendo costurado desde a eleição de JK, em 1955.

A disputa entre americanos e soviéticos, pelo domínio e controle do planeta, punha o Brasil na condição estratégica do interesse do Tio San. Não suportariam uma “grande Cuba”. E era essa a impressão que a Direita demonstrava aos EEUU com as fotos e filmes daquele comício.

Nos quartéis, havia um partido político sem filiação eleitoral. Aqueles generais nunca foram militares, no sentido castrense do termo. Políticos desde que tenentes, nos Anos Vinte; coronéis, nos Anos Quarenta; e generais, nos Anos Sessenta. Políticos e politiqueiros. Só o PSD e a UDN não percebiam isso.

O golpe retirou Jango da disputa e da vida pública. Lacerda participara do núcleo da conspiração. Queria caminho livre. Juscelino apoiou o golpe, depois de consumado, e votou em Castelo Branco, que lhe prometera manter a calendário eleitoral.

Se Castelo fosse militar teria cumprido a promessa. Mas era político, e mentiu. Cassou Juscelino. Lacerda, dessa forma, pensava livrar-se dos únicos candidatos capazes de vencê-lo.

Só que os políticos da caserna tinham outros planos. No segundo governo da Ditadura, Lacerda foi preso e cassado. Para tirar Jango do jogo, Lacerda e Juscelino caíram do cavalo e foram pastar no ostracismo. Sem o apoio deles, a milicada não teria chegado ao poder.

Sem fazer comparação de mérito com o quadro atual, por serem absolutamente distintos, numa coisa há semelhança: A sucessão.

Aécio Neves quase derrota Dilma. Tinha tudo para chegar ao pleito de 2018 na condição de líder inconteste da oposição. Tinha. Passado imperfeito.

A queda de Dilma, acusada de “pedaladas”, mudou o cenário. Primeiro pela fragmentação política da liderança de Aécio, depois pelo seu envolvimento nas mesmas práticas que tanto denunciara.

Pobre de líderes o cenário aposta na mediocridade. Os fanáticos não aposentam os chavões; à direita e à esquerda. Há de tudo, menos Inteligência política e espírito público. Nunca, como agora, a ignorância foi tão atrevida.

Té mais.

François Silvestre é escritor