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Pão nosso de cada dia

Por Marcos Ferreira

Foto do autor da crônica
Foto do autor da crônica

Presumo que poucas pessoas se interessem por esse conteúdo, por essa informação. Pois se trata, a bem da verdade, de uma sensaboria, algo de quem parece não ter coisa melhor para dizer. Teimoso, porém, vou contar esta história insípida. É que hoje acordei cedo. Cedinho mesmo: pouco depois das quatro da madrugada. A bexiga estava de fato nas últimas, então fui ao banheiro e não consegui reaver o sono. Volta e meia isso acontece; uma emergência fisiológica. Ainda assim, com o quarto na penumbra e naturalmente frio, retornei para a minha rede e os cobertores.

Vocês sabem que em ocasiões dessa ordem, quando a gente se encontra insone por inteiro ou parcialmente, mil e uma maluquices nos vêm à cabeça. Então nos alcança um monte de besteirol, pessoas e meio mundo de lucubrações. No meio disso, fato corriqueiro, vêm ao meu juízo determinados temas que julgo aproveitáveis, com certo potencial para converter em uma crônica garranchosa.

Recordei-me, por exemplo, de uma dúzia ou mais de amigos que têm (coloco-me no meio deles) esse alumbramento visceral, comunhão, enlace com o exercício da escrita. Sim. É o que estou dizendo. Somos, de forma saudável, reféns espontâneos e um tanto orgulhosos dos vencilhos, das amarras da escrita. Como no verso de Camões, é estar preso por vontade, é servir a quem vence o vencedor. O bardo caolho é fora de série, extraordinário, um fenômeno da poesia. É incomparável.

Então penso, após todo esse nariz de cera, nos meus pares, nos meus amigos literatos, homens e mulheres dominados pelo micróbio da literatura. Alguns desses indivíduos inéditos em livro (por razões que a própria razão desconhece) seguem fugindo da raia, fazem ouvidos moucos ao chamado da Literatura. Lembro, mas que isso fique apenas entre nós, de figuras preciosas e cheias de hesitações como nosso querido arquivo ambulante Rocha Neto. E não apenas o Rocha. Há outros desertores da tinta e do tinteiro nesta Macondo nordestina. Faço aqui a vez de dedo-duro.

O que tanto esperam (insisto que esse assunto fique só entre nós) os senhores Marcos Araújo, Bruno Ernesto, Odemirton Filho, Ailson Teodoro, Raquel Vilanova e, entre outros, Bernadete Lino? Pois é, meus caros. A senhora Bernadete Lino, pernambucana que mora em Caruaru, tem o que verter para o papel. Ela, que me oferece a honra de sua amizade e tem um forte elo com nossa terra, possui uma biografia muito bonita. Estou certo de que um livro seu de memórias, considerando a clareza de seu pensamento e intimidade com nosso idioma, seria uma ótima contribuição às letras. João Bezerra de Castro, gramático vocacionado, pode afiançar o que digo.

A labuta da escrita, perdoem esta metáfora talvez de mau gosto, representa o nosso pão de cada dia, mesmo em se tratando (repito) de personagens que ainda não estrearam em livro. De repente alguém pode saltar e dizer que estou cobrando dos outros uma produção que eu próprio não reúno. Quem isto afirma não está de todo errado, considerando que sou autor de um só livro publicado.

Todavia, para quem não sabe, possuo quase dez títulos inéditos nos gêneros romance, contos, poesia e crônicas, tudo isso à espera de melhores horizontes financeiros ou da possibilidade de ser pego no pente-fino de concursos literário que oferecem premiação em dinheiro e, no mais das vezes, publicam a obra vencedora. Este é o caminho que percorro há tempos.

Ressalto, claro, que estou a anos-luz da fecundidade, da prenhez e dos recursos econômicos de autores de minha estima como Clauder Arcanjo, Ayala Gurgel e o prolífero e versátil Marcos Antonio Campos, três mosqueteiros, três espadachins bem-sucedidos nos salutares duelos com a arte do fazer literário.

Além desses três, e não menos meritórios, temos no País de Mossoró e no estado manejadores da língua portuguesa bem-aventurados como Vanda Maria Jacinto, Fátima Feitosa, Dulce Cavalcante, Margarete Freire, Lúcia Rocha, Júlio Rosado, Caio César Muniz, Cid Augusto, Jessé de Andrade Alexandria, Crispiniano Neto, François Silvestre, Carlos Santos, Inácio Rodrigues Lima Neto, Airton Cilon, Thiago Galdino, Marcos Pinto, Francisco Nolasco, David Leite, Honório de Medeiros, Antonio Alvino e, devido às condições da memória, outros mais que ora não recordo.

Todos, com um nível maior ou menor de arrebatamento, buscam esse pão nosso de cada dia que resulta em crônicas, contos, romances, poemas. No que me toca, enquanto cativo deste mister de arranjar palavras e exibi-las em páginas com um mínimo de qualidade, produzo coisas desse tipo: uma crônica um tanto quanto prolixa, mas sempre com a mão na massa do verbo do qual nos alimentamos.

Marcos Ferreira é escritor

Os habitantes do BCS

Por Marcos Ferreira

Imagem ilustrativa da Web – Creative Sign
Imagem ilustrativa da Web – Creative Sign

Duvidar, não duvido. Pois decerto existe no Brasil e no mundo quem desconheça o significado da nossa familiar sigla BCS, tão notória, por exemplo, quanto SUS, FBI, CIA, ONU ou a temida e extinta KGB, agência de espionagem e polícia secreta da igualmente morta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Alguém ariscará dizer, entre outros equívocos, que se trata de Banco Central da Suíça. É possível, portanto, que existam indivíduos neste planeta que nunca tenham ouvido falar no Blog Carlos Santos (BCS). Além disso, alguns terráqueos não têm conhecimento (ignorância não menos grave) do rol de colaboradores do referido Blog.

Todo domingo, desde tempos imemoriais, cabeças singulares da intelectualidade mossoroense e de além fronteiras do RN exibem as suas tintas neste ilustrado espaço de opinião, arte e cultura. Temos aqueles que marcam presença de modo bissexto, esporádico, contudo há um punhado de articulistas que muito raramente deixam uma lacuna nestas manhãs domingueiras que contam ainda com o brilho e categoria de um sem-número de leitores e comentaristas de alto nível.

Os habitantes do BCS, tanto os cronistas, os poetas, os ficcionistas e, repito, o precioso rol de leitores e comentaristas, mantêm uma sintonia e fidelidade admiráveis. Encontramos neste gueto das palavras várias cucas talentosas, beletristas de responsa. Ninguém pode se queixar da produção intelectual que os homens de engenho deitam dominicalmente entre as quatro linhas desta vitrine da prosa, do verso e, como não poderia deixar de ser, com informes do atacado e do varejo da política norte-rio-grandense, nacional e mundial. Aqui, no tocante à informação e à cultura como um todo, os leitores dispõem de grande sortimento de ideias e debates.

Sendo um pouco indiscreto, permito-me citar os nomes de expressivos escribas que têm concorrido para o brilho e sucesso do BCS. Falo, entre outros, de malhadores de teclados como o próprio Carlos Santos, Marcelo Alves Dias de Souza, Honório de Medeiros, David Leite, William Robson, Marcos Pinto, Odemirton Filho, Bruno Ernesto, François Silvestre, Marcos Araújo e, mais recentemente, surge para enriquecer o escrete um tal de Ayala Gurgel. Este último, a meu ver, representa uma das mentes mais engenhosas e prolíferas da nova ficção norte-rio-grandense.

Quem quiser que diga que estou puxando o saco do BCS e dos seus habitantes dominicais. Não tem problema. O aplauso e a vaia são livres. Vivemos (ao menos até o momento) num país democrático. Sim. A democracia esteve seriamente ameaçada no governo anterior, todavia não sucumbimos ao golpismo.

Creio que em breve o “mito” (o espírito de porco, a degradante alma sebosa que infectou o Brasil, fez pouco-caso dos mortos pela pandemia e zombou de famílias enlutadas) está prestes a conhecer as acomodações de Bangu 8 ou da Papuda. Deixem estar.

Voltando à audiência e relevância do Blog, penso que não existem por aí muitos espaços assim, com tantos e tão bons poetas e prosadores. É um ambiente digital dos mais procurados pelo público leitor. Enfim, agora parodiando aquele frevo do Caetano Veloso, digo que só não vai atrás do BCS quem já morreu.

Marcos Ferreira é escritor

David Leite vai participar do programa Pedagogia da Gestão

David Leite falará sobre seu mais recente livro (Foto: Arquivo)
David Leite falará sobre seu mais recente livro (Foto: Arquivo)

Nesse domingo (17), o escritor David de Medeiros Leite terá espaço muito especial. Ele estará no programa Pedagogia da Gestão, na TV Cabo Mossoró (TCM), Canal 10, a partir das 10 horas.

Vai falar sobre carreira literária, especialmente o seu mais novo livro “Contos do Tirol” (Mossoró: Sarau das Letras, 2024).

Sua presença no programa faz parte da programação dos 20 anos de história do Pedagogia da Gestão na TCM Telecom.

A apresentação será de Clauder Arcanjo, Dinoá e João Maria.

Pedagogia da Gestão: dando asas ao seu talento – //www.tcmplay.tv.br/ (ao vivo).

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Uma nova Casa Branca

Por Marcos Ferreira

Imóvel que foi demolido para que pudesse nascer um lugar habitável...
Imóvel que foi demolido para que pudesse nascer um lugar habitável…
... e decente à vida modesta, mas digna (Fotos: Marcos Ferreira)
… e decente à vida modesta, mas digna (Fotos: Marcos Ferreira)

Tudo começou com o escritor David de Medeiros Leite. Àquela época David estava presidente da Companhia de Habitação do Rio Grande do Norte (Cohab/RN). O filho da saudosa senhora Hilda foi quem me apontou a disponibilidade do imóvel situado no Conjunto Walfredo Gurgel, no Alto de São Manoel.

Eu contava com um cargo miúdo na Prefeitura de Mossoró, e fomos (eu, David Leite e o também escritor Clauder Arcanjo) dar uma olhada na casa, que encontramos em escombros. Assim mesmo, com o apoio de David e Clauder, conseguimos tornar aquelas ruínas em algo habitável. Esse, portanto, foi o início.

Depois de vários anos, sempre entremeados de incontáveis apuros, não pude mais realizar nenhum benefício na residência, e esta foi estiolando-se rapidamente. Decorridos cerca de quinze anos, portanto, a situação se agravou. A ponto de eu colocar uma placa de venda, buscando assim adquirir outro imóvel noutro subúrbio mais distante deste município. Ressalto que o Walfredo Gurgel, exceto por alguns problemas estruturais, ainda é um bairro bem familiar, de cadeiras nas calçadas.

Ao saber da placa de venda, meu amigo petroleiro Elias Epaminondas bateu os coturnos e se opôs com veemência à venda de meu endereço. Sim. Eu costumava dizer que não tinha uma casa, mas somente um endereço. A placa de venda foi retirada. Miriam Ferreira, esposa de Elias, elaborou um simples e belo projeto para minha nova habitação e Elias deu início a um mutirão entre nossos amigos.

Agora, extremamente grato, eu me sinto na obrigação de relacionar aqui os nomes daqueles que se sensibilizaram e contribuíram, de maneira relevante, para tornar meu sonho e o projeto de Miriam Ferreira em realidade.

De largada, cito o amigo Clauder Arcanjo, que prontamente se comprometeu em adquirir todas as telhas. A seguir, embora sempre discretos, vêm Túlio Ratto e José Antero dos Santos, responsáveis por grande parte do cimento. Na sequência, em ordem aleatória, vou citando o restante dos nomes. Torço que isso não lhes pareça maçante ou enjoativo, tendo em vista que o nobre leitor sempre espera encontrar neste espaço o mínimo possível de literatura, sobretudo no gênero crônica.

Mas, repito, eis os bons samaritanos em ordem aleatória: Luiza Maria Freire de Medeiros, Raimundo Antonio, Fabrício Caymon, Raimundo César Barbosa, Odemirton Filho, Zilene Medeiros, Dr. Dirceu Lopes, João Bezerra de Castro, Aluísio Barros, Francisco Wanderley, Cristiane Reis, Marconi Amorim.

Acho que isto, com perdão do leitor, não se trata de prestação de contas ou cabotinismo imobiliário. Não é isso. Também não é subserviência, servilismo púbico. Quero apenas, no breve espaço de uma crônica, quiçá duas páginas, exibir, de maneira honesta, minha gratidão a essas pessoas que venho citando. Porque a gente não tem rédeas no instante de fazer determinadas críticas a terceiros, todavia se omite no momento de tornar notório aquilo de bom que lhe foi feito. Aqui eu falo de gratidão. E gratidão não está nem nunca esteve fora de moda. É algo bom a se praticar.

Contei, entre outros, com figuras como Rogério Dias, Flávio Quadrado, Ranniere Ferreira, Sandro Jorge, Jessé de Andrade Alexandria, Alexsandro Lopes Pinto, Laélio Ferreira, André Luís, Carlos Silva, Antonio Alvino, Dr. Lúcio Leopoldino, Francisco Nolasco, Francisco Amaral Campina, Gildemar Condados, Elder Nolasco, Anchieta Albuquerque, além do meu culto Editor Carlos Santos.

Não paramos por aqui. O mutirão prossegue. A velha choupana foi inteiramente demolida e uma nova casa branca (que não é a dos americanos) ergueu-se bela e majestosa sob as mãos dos pedreiros Jailson Batista, Rogério Cordeiro e Wellington Azevedo. “Agora não tem mais volta”, falei comigo mesmo.

Vamos aos demais: Francinaldo Rafael, Honório de Medeiros, Cid Augusto, Elisabete Stradiotto, Valdemar Siqueira, Ênio Souza, Luzia Praxedes Arcanjo, João Helder Alves Arcanjo, José Anchieta de Oliveira, Afrânio Melo, João Maria Souza da Silva, Antônio Railton, Marquinhos Rebouças, Nilson Rebouças, Jorge Alves, Vanda Maia, Arlete Jácome, Dr. Diego Dantas e Alexandre Miranda. Creio que não esqueci ninguém, isto graças a Natália Maia e às suas planilhas cheias de nomes e números. Também agradeço àqueles que, por um motivo ou outro, não puderam ajudar. Sei que muitos torceram pelo êxito desta empreitada construída graças a várias doações.

Não tenho, pois, o menor embaraço em escrever expondo meu agradecimento a todos esses amigos de primeira e de última hora. Porque a gratidão, repito, faz parte do meu DNA, da minha constituição e personalidade.

Todos são bem-vindos para um cafezinho.

Marcos Ferreira é escritor

Morre em Mossoró dona Hilda de Medeiros Leite

Dona Hilda, missão dignamente cumprida (Foto: cedida por sua família)
Dona Hilda, missão dignamente cumprida (Foto: cedida por sua família)

Uma notícia muito triste que veiculamos agora: faleceu na manhã dessa terça-feira (22), dona Hilda de Medeiros Leite, 91 (14 de dezembro de 1930), viúva de Aldemar Duarte Leite, 12 filhos (um já falecido).

Dona Hilda estava internada no Hospital Wilson Rosado (HWR) em consequência de uma pneumonia que acabou a levando à falência múltipla de órgãos.

Seu velório acontecerá na Capela de São Vicente no centro de Mossoró.

O sepultamento será às 16h de hoje no Cemitério São Sebastião, centro.

Mas, antes, às 15h, ocorrerá missa de corpo presente.

Ela era mãe de amigos como o professor-escritor David Leite, bancária Fátima, assistente social Helena.

Aluizista histórica, conservava em sua casa o que se denominou de “Acervo Bacurau”, um conjunto de peças (santinhos, livros, flâmulas, fotos etc.) que retrata sua identificação com o líder político Aluízio Alves. “Bacurau” legítima.

Que descanse em paz! Missão dignamente cumprida.

Leia também: Promessa de aluizista (Só Rindo – Folclore Político);

Leia também: A voz de Salomão (Só Rindo – Folclore Político);

Leia também: Outra ‘inleição’ (Só Rindo – Folclore Político);

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Geraldo Melo chega à Academia de Letras

Geraldo Melo - Foto TLPor Laurita Arruda (Do Território Livre)

Ex-senador, ex-governador, ex-vice-governador, um homem de inteligência privilegiada; Geraldo José de Melo, 85 anos.

Quando se dedicou à literatura não foi diferente, surpreendeu.

Com Luzes e Sombras do Casarão um romance  que já integra as melhores bibliotecas do país.

Hoje, o reconhecimento da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL).

GM foi eleito com 26 votos. Do outro lado, o advogado, escritor e intelectual mossoroense David Leite, com dez votos.

A maioria dos acadêmicos reconheceu que a hora era de Geraldo Melo.

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Mossoró

Capela de São Vicente no centro da cidade (Foto: autoria não identificada)
Capela de São Vicente no centro da cidade (Foto: autoria não identificada)

Por David Leite

Mossoró, nunca estou só, sinto você por perto.

Quero você assim, encontro, destino certo.

 

Quentes manhãs passadas.

Nordestinas tardes suavizadas.

Prenúncio de céu estrelado.

 

Sal, fruta, petróleo: riqueza.

Seca, fome, miséria: pobreza.

 

E agora é hora de lutar

para não deixar sua história, de tanto orgulho,

o rio poluído turvar.

David de Medeiros Leite é professor da Uern e doutor pela Universidade de Salamanca (Espanha)

Mulheres do Rio do Fogo

marisqueiras, mariscosPor David Leite

Existe um encontro diário entre o mar

e as mulheres do Rio do Fogo.

O mar oferece algas marinhas,

as mulheres as buscam na praia.

 

Pela praia, elas seguem catando

as algas e cantando mágoas.

O mar responde

com o murmúrio das ondas.

 

A música delas fala da vida,

de seus problemas e dilemas.

A sinfonia do mar é acalanto.

 

As algas são importantes para as mulheres.

As mulheres são vitais para o mar.

Dia após dia, maré após maré,

o mar não descansa,

e as mulheres não cansam.

 

As mulheres tiram

das águas seus sustentos.

O mar recebe, em troca,

a companhia amiga.

 

Algumas esperam, na mesma praia,

que o mar devolva seus companheiros.

E eles voltam, crestados pelo sol,

com peixes e saudades.

 

Chamam-nas “marisqueiras”.

Marisqueiras da praia do Rio do Fogo.

 

Mas, em verdade, em verdade,

elas são mulheres! Mulheres valentes!

Mulheres do Mar, do Rio, do Fogo.

David de Medeiros Leite é professor da Uern e doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha

A conversa de Carlos Eduardo Alves agora será com Mossoró

Carlos Eduardo Alves recebeu hoje o professor e escritor mossoroense David Leite, em Natal (Foto: rede social)
Carlos Eduardo Alves recebeu hoje o professor e escritor mossoroense David Leite, em Natal (Foto: rede social)

Do Blog da Chris

Na próxima semana Carlos Eduardo Alves (PDT) virá à Terra de Santa Luzia: Mossoró.

Na agenda, visitas a órgãos de comunicação, lideranças políticas e amigos.

O ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves esteve reunido na tarde desta terça-feira (10) com o professor universitário David de Medeiros Leite.

Na pauta, gestão pública e, claro, Mossoró.

David conhece como poucos a geografia humana da cidade e a política local.

Nota do Blog Carlos Santos – Mês passado, Carlos esteve no Seridó (veja AQUI).

Já na última semana, ele colecionou números interessantes para governo estadual e Senado, em pesquisa do Instituto Consult – veja AQUI, AQUI e AQUI).

Leia também: Tudo é muito frágil nas disputas ao Governo e Senado.

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Hoje não tem crônica

Por Marcos Ferreira

É isso mesmo, hoje não tem crônica. Não tem porque o texto que produzi para este domingo, iniciado na sexta-feira à noite e quase concluído neste sábado, por volta das cinco da tarde, foi apagado por mim acidentalmente, claro. De maneira desastrosa, portanto, numa infeliz e involuntária combinação de teclas enquanto eu digitava, eis que o documento do Word súbito se fechou. Gelei.

Quando tornei a abrir o arquivo, cujo título era “Divina proteção”, sofri um baita choque: não continha uma palavra, uma letra sequer. Das quase três páginas que eu escrevera até àquele instante, restou só uma, mas rigorosamente em branco. Levei as mãos à cabeça, desnorteado. “Agora ferrou”, concluí.Tecnologia, informática, homens trabalhando,manutenção

Sim, eu estava (ainda estou, aliás) ferrado. O sentimento de impotência foi absoluto. Perdi tudo, tudinho, e, a esta altura, já noite de sábado, 7 de agosto de 2021, não tenho como tirar outro coelho da cartola. Não sou mágico das palavras, nem posso reescrever, do zero, o “Divina proteção”. Minha memória, durável quanto um Sonrisal num copo com água, não me permite essa façanha.

Após uma boa sequência de tantos domingos sem faltar com o prezado leitor e a gentil leitora, apareço nesta manhã de sol e céu azul (banco aqui a moça do tempo) com as mãos abanando. Achei por bem, contudo, prestar-lhes este esclarecimento por meio disto, que eu planejara ser uma simples nótula.

Todavia, como percebem, findei me alongando. A simples nótula descambou para relatório. Às vezes, apesar do hábito da concisão que adquiri na feitura de sonetos metrificados com rigor, especialmente nos versos decassílabos, tenho certa dificuldade em ser objetivo, de ir direto ao ponto. Aí, perdoem esta alegoria, falo algo proporcional a uma farmácia para expressar um comprimido.

Outro dia, porém, topei com um leitor generoso na calçada do antigo Cine Pax. Nossos caminhos eram opostos, ainda assim nos detivemos por uns breves minutos. Disse-me, entre uma coisa e outra, que acompanha meus escritos desde O Mossoroense e da Revista Papangu. De repente ele acrescentou:

— Aquele seu texto; que poder de síntese!

Vejam isso: “poder de síntese”. Trata-se de uma frase batida, genérica, não raro empregada na falta de algo melhor ou mais substancial a ser dito, mas não posso negar que me senti lisonjeado. Esse generoso e simpático leitor, que conheço apenas de chapéu, referia-se a uma crônica curtinha (pouco mais de uma página) que expus neste blogue, se não erro na conta, há dois ou três domingos.

— Qual?! — indaguei tomado de curiosidade.

— Você fala dos pirilampos. Esqueci o título.

— Sei… Chama-se “Um simples vaga-lume”.

— Ah, foi esse aí, rapaz! Achei uma beleza.

— Hum, obrigado — respondi todo satisfeito.

Natália Maia, por outro lado, minha adorável e sincera noiva, não se ilude com qualquer textinho que lhe apresento. É a mais insuspeita e impiedosa avaliadora que possuo. Certo dia me fuzilou com o seguinte parecer sobre um conto que escrevi para um concurso literário: “Fraco. História confusa, sem pé nem cabeça.” Resultado: não ganhei sequer menção honrosa no referido concurso.

Nem as ostras produzem somente pérolas. Como também os poetas, cronistas, contistas, etc., não dão a conhecer unicamente rebentos literários preciosos. Aqui e acolá, ou no mais das vezes, surgem pedras falsas, gemas sem luz própria, de brilho emprestado, meros arremedos de outros autores e obras.

É verdade que há depoimentos (perdoem a imodéstia) que me dão orgulho, pois tenho consciência de que fiz por merecê-los. Pudera. Nunca me dediquei a outra coisa na vida com que me identifique mais que escrever. É esperado, então, que eu possua autocrítica, condições de compreender quando produzo algo deveras apresentável ou digno não mais do que a lixeira de um computador.

Retomando o assunto do início, perdi o que eu escrevera para este domingo. Creio, por mais suspeito que seja, que ocupei a telinha com umas boas três páginas que poderiam agradar ao prezado leitor e à gentil leitora. Infelizmente, por uma trapalhada ao digitar, como foi dito, acabei sem nadica de nada.

Indaguei, de mim para comigo, se não haveria, no elenco da Igreja Católica, um santo protetor dos escritores. Se não propriamente dos escritores, protetor ao menos das produções dos literatos, para interceder e evitar o extravio de literatura. “Há tantos santos por aí para tantas finalidades e causas”, continuei a pensar. Julgo de grande importância, avaliem isto, um santo protetor das letras.

E que tal um São Aparecido das Palavras?

As horas voaram. Não pude resgatar, reescrever, a crônica extraviada. Perdeu-se, escafedeu-se. Duvido de que depois, com a cabeça mais fria, eu me aventure e obtenha êxito em extrair dos escaninhos da minha memória nebulosa aquelas quase três páginas que se perderam numa lambança dos meus dedos.

Carlos Santos, meu editor, a quem chamo em outro trabalho literário de “o homem dos suspensórios”, ele que é o único indivíduo que avistei nesta prosaica cidade com o referido adereço incorporado ao seu vestuário, há de publicar estas linhas de improviso torcendo o nariz, meio a contragosto, pois me paga um gordo pró-labore por algo melhor que isto. Lamento se fui indiscreto.

O perigo agora, diante desta nota indiscreta, é outros participantes do blogue (como David Leite, Rocha Neto, Odemirton Filho e Inácio Augusto de Almeida) entrarem com pedido de remuneração. Esses quatro, pelo que eu sei, escrevem de forma abnegada, por completo amor às letras municipais.

— Você tinha que bater com a língua nos dentes?! — protestará “o homem dos suspensórios” logo que pôr os olhos nestas páginas.

Longe de mim, porém, querer semear a discórdia ou atrair despesas para este prestigioso canal de informação, opinião e cultura. Quem sabe na próxima semana, se der o peru no jogo do bicho, eu banque um lauto almoço para o Carlos Santos no Restaurante Prato de Ouro, onde a comida é supimpa.

As horas voaram, repito. Meus olhos queimam. No mais, prezado leitor e gentil leitora, melhor dizendo, hoje temos crônica, sim!

Marcos Ferreira é escritor

Contos do Tirol – Dahora

Oficina e amor, coração, mecânica,Por David Leite

José Vitorino, é verdade, foi pronunciado pelo pároco da Matriz de Nossa Senhora dos Homens e, tal qual a água benta que lhe molhou a moleira, sumiu lá pelos sertões de Baixa Verde. Na adolescência, quando tornou-se lambaio de caminhão de um tio, além de minguados trocados, ganhou o apelido Dahora.

O tio, final dos anos 1940, vendeu o caminhão e resolveu instalar uma oficina na capital, num prédio que adquiriu no bairro Tirol. O sobrinho embarcou na migração. Duas décadas depois Dahora, de forma natural, herdou a titularidade da profissão, mas segue, até os dias correntes, inquilino da prima Juliana.

Mecânico à moda antiga, Dahora e sua oficina parecem estranhos em meio às modernidades. Hábitos e instalações que passariam despercebidos não fossem as excentricidades desse camarense. O município de nascimento de Dahora teve o nome mudado: Baixa Verde passou a chamar-se João Câmara. Pitar o cigarrinho de palha na calçada seria igualmente ignorado se Dahora, nesses intervalos, largasse os cacoetes de insinuantes olhares e gracejos às mulheres que passam.

Dahora pronuncia tais pilhérias em tom baixo, esboçando ar de desentendido, mas deixando escapar um riso sonso. Assim segue e, muitas vezes, as transeuntes nem percebem ou dão de ombros, por já conhecerem aquela figura.

Outro detalhe digno de registro: apesar dos muitos anos decorridos, Dahora conserva quase a mesma destreza no manuseio das ferramentas. Chaves combinadas, de boca com fresada, de torque para ajustes de parafusos dos motores… todas manejadas pelas velhas mãos, sem luvas. Sim, para ele vigora ainda a pasta de sabão e areia utilizada na remoção da graxa.

E o franzino corpo do ágil mecânico continua deslizando em seu carrinho de rolamentos, onde, deitado, consegue observar detalhes por baixo dos veículos. Enfim, Dahora seria objeto de estudo, ou um case, no que diz respeito à longevidade e resistência física.

Nesse cenário todo, outro dia ocorreu o seguinte: uma jovem professora de nome Maria de Fátima, sustentando livros pelo antebraço direito em encontro ao corpo, passou e sentiu-se incomodada devido à piada de Dahora:

— Que moça danada de bonita é essa?!

A professora nem olhou para o galanteador, mas seguiu martelando resposta à altura, caso aquela situação tornasse a ocorrer. Não deu outra. Igual cenário e personagens se repetiram dias depois:

— Que moça danada de bonita é essa?!

— Meu pai também é — respondeu incisivamente.

— Vige, então é a família toda — replicou o astucioso mecânico.

Maria de Fátima, ao chegar ao colégio, comentou com as colegas de trabalho que fora tomada por um misto de espanto e vontade de rir que resultou no apressar de passos e confessou que iria alterar seu percurso diário, embora aumentado-o em dois quarteirões, para não passar na calçada de Dahora:

— Oh, velho enxerido! — comentou em meio a risos.

David Leite é professor da Uern e doutor pela Universidade de Salamanca (USAL) – Espanha

Livro de linhagens

Por David Leite

Foi dito alhures que há distinção entre poetas que trabalham para a permanência e poetas que trabalham para o tempo. Paulo de Tarso Correia de Melo elegeu o “tempo” como uma das vertentes de sua poética, abrangendo, assim, significados lírico, metafórico e sentido cronológico.

Alencart e Tarso, Portugal e Brasil, afinidades e linhagem intelectual e poética (Foto: cedida)
Alencart e Tarso, Portugal e Brasil, afinidades numa linhagem intelectual e poética (Foto: cedida)

Livro de Linhagens (Ed. Sarau das Letras, 2011) revela um traço presente em todos os volumes publicados pelo poeta: intencional unidade temática. Observa-se, a partir daí, que cada trabalho desse literato potiguar delineia um corte temporal. Tempo que inclui, necessariamente, discussão do momento cultural escrutinado.

O próprio autor diz no texto que epigrafa o tomo: “Estas linhagens me ocuparam desde o meu primeiro livro de poemas”. Sânzio de Azevedo, escritor e crítico literário, em comentário na contracapa, declara: “Percorrer os poemas deste Livro de linhagens, de Paulo de Tarso Correia de Melo, é navegar, no espaço e no tempo, rumo às terras de Portugal e da Grécia”.

Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, com pós-graduação na Universidade de Michigan (EUA), Paulo de Tarso esboça tentativa de resumo da marca helênica no mundo neolatino, amalgamando recorte temporal e metáfora.

No segundo capítulo do livro, intitulado “Caderno de viagem grego”, ocorre um hipotético encontro entre Píndaro e Apolo:

“O vento quase estival

em face hoje enrugada

veio da Grécia, é igual

ao de uma idade passada.

 

Passou em pele onde restava

o ouro e o sol de outro verão

e uma ou outra marca que ficava

das aventuras da estação…”.

As duas estrofes acima transcritas iniciam o “Velho marinheiro do porto de Bríndisi”. Na sequência, no mesmo azimute, emergem os poemas “Palavras rituais: Cassandra” e “Passante em Glyfada”.       Paulo de Tarso explora temas do além-mar e, rumando para o epílogo do livro, encontraremos poemas do mesmo quilate, a exigirem leitura mais acurada: “Reflexão do aprendiz de Fídias”, “Diário de bordo dos argonautas”, “Alexandre” e “Poiesis”.

Em 2011, resultado de parcerias editoriais, a obra de P.T.C.M. extrapola limites da província, ocorrendo lançamentos em Portugal, que, segundo o conimbricense Eduardo Aroso, “persiste ancião e menino”, como também, na Espanha, pátria de Don Miguel de Unamuno.

Momentos que marcam Paulo de Tarso: “Não tenho muitas ilusões. Consola-me os ecos positivos dos Encontros Ibero-americanos de Poesia em Salamanca, aos quais tenho comparecido recentemente e que já me renderam figurar em uma dúzia de antologias internacionais, bem como as traduções de dois volumes por Alfredo Pérez Alencart”.

Nestes tempos de pandemia, um tanto reticente, Paulo de Tarso deixa escapar que segue produzindo: “Um diário poético a ser chamado Caderno de Quarentena e um volume que não sei se levarei a termo”.

Paulo de Tarso Correia de Melo, que frequentou o concorrido terraço do casarão de Câmara Cascudo (1898–1986), segue ancorado na “aldeia de Poti”, contemplando o azul do mesmíssimo Atlântico, sem procelas.

David Leite é escritor, professor, advogado e doutor pela Universidade Salamanca (Espanha)

Souzinha e Almair – exemplos na linha de frente

Por David Leite

— Qual a expectativa que você cria quando sai de casa para ir a um restaurante? Essa expectativa muda quando você se dirige a uma instituição pública?

Do ponto de vista acadêmico, estudo e discuto características de atendimento ao público, estabelecendo um paralelo sobre o que, geralmente, acontece nas áreas pública e privada. E sempre começo com uma pergunta-provocação. Instigo o debate: o que se passa em nossas cabeças quando estamos trocando de roupa e colocando perfume para irmos a um desses destinos?

Souzinha e Almair Gonçalo de Paiva e um perfil semelhante (Fotomontagem BCS)
Souzinha e Almair Gonçalo de Paiva, um perfil muito semelhante no atendimento (Fotomontagem BCS)

Via de regra, as respostas são bastante dispares: “Ah, professor, quando penso em ir a uma repartição pública já sei que serei mal atendido e perderei o dia pela demora”. Porém, sinto que mudanças, de forma lenta e gradual, estão em andamento.

Observamos algumas gestões públicas implantando ouvidorias ou outros serviços de atendimento ao público. Como, também, o velho e tão arraigado patrimonialismo, hoje de forma um tanto disfarçada devido ao avanço das tecnologias, vai dando lugar a um novo estilo governamental, em que alguns dos princípios constitucionais que regem a Administração Pública, como o da Impessoalidade e o da Publicidade, aqui e acolá, mostram sinais de efetividade.

Porém, voltemos ao título do texto. Creio que todos nós conhecemos alguns exemplos de atendimento que nos marcaram; de forma positiva ou negativa, diga-se de passagem. Particularmente, os tenho em profusão. Mas, comentarei dois exemplares.

Se falássemos no empresário de nome de batismo Francisco Fernandes de Souza, talvez poucos iriam identificá-lo. Porém, na realidade mossoroense das últimas quatro décadas, arrisco declarar que todos foram atendidos ou, pelo menos, souberam de como Souzinha do Parque Elétrico recebia a sua clientela.

Atentem bem: tento dizer que Souzinha atendia a todos de forma solícita, educada; fosse esse cliente rico ou pobre, bem vestido ou mal vestido.

Existe uma filósofa espanhola chamada Adela Cortina que desenvolveu sua tese acadêmica baseada em torno da “aporofobia” (que significa: “Repúdio, aversão ou desprezo pelos pobres ou desfavorecidos; hostilidade para com pessoas em situação de pobreza ou miséria. [Do grego á-poros, ‘pobre, desamparado, sem recursos’ + -fobia.]”).

E, tal qual o racismo ou a homofobia, a aporofobia se manifesta, também, nos atendimentos ao público.

Quem foi Souzinha? Menino nascido, em 1948, na cidade de Encanto (RN), que migrou para Mossoró e trabalhou num estabelecimento de um tio. Pouco depois, montou a loja Parque Elétrico; e lá trabalhou até um câncer levá-lo em 2011, aos 62 anos de idade e com um vigor de ciclista que era. No entanto o seu legado é inequívoco, como “case” de empreendedorismo e, repito, de padrão exemplar de atendimento.

Em Natal, nos dias atuais, até por questões de comodidade geográfica, tornei-me freguês de uma farmácia na qual, quase sempre, sou atendido por Almair Gonçalo de Paiva. Fiz-lhe perguntas acerca de como ele havia ingressado no segmento farmacêutico. Em linhas gerais, ele é natural da cidade de Martins (RN), migrou para Natal ainda criança, acompanhando os pais. Seu genitor estabeleceu-se no ramo, e ele e outro irmão deram seguimento, cada um com sua farmácia em bairros diferentes.

Sem mais delongas, posso sintetizar que Almair atende no “padrão” Souzinha.

Existem outros ângulos da questão? Claro que sim. Atentem para os balconistas e garçons, por exemplo, a cumprirem jornadas extremas e que são “vigiados” para manterem o sorriso de acolhimento da primeira à última hora. Além de outros tantos trabalhadores que lidam com o público e não podem cometer um pequeno deslize, pois vivem sob ameaça. Mas essa é outra vertente que merece análise própria e mais aprofundada.

Fiz questão de registar os exemplos de atendimento de dois proprietários. Ambos que, além de não ficarem restritos ao elegante birô de observação, assumiram a chamada “linha de frente” com seus colaboradores, sem muitas vezes o cliente distinguir entre o patrão e o empregado.

Como apregoa a velha máxima, os dois absorveram que o discurso mobiliza, mas é o exemplo que arrasta.

*David de Medeiros Leite – Professor da UERN e doutor pela Universidade de Salamanca (Espanha)

“Não vou ser silêncio” será lançado segunda-feira, 28

Livro é o segundo do autor (Foto: divulgação)

Com o selo da Editora Sarau das Letras, Danielson Santos da Silveira vai lançar na próxima segunda-feira (28) o seu segundo livro. Graduado em engenharia têxtil, mas com incursões à produção cultura, o autor apresentará “Não vou ser silêncio“, às 16h, na loja da TV Cabo Mossoró (TCM-Telecom), no Partage Shopping Mossoró.

Prefaciado pelo escritor e editor David Leite, o livro conta a história de José Batista dos Santos, o “Zé da Volta” (seu avô), de Maria do Socorro Rodrigues Santos, “Socorro da Volta” (sua tia), e da comunidade da Volta.

Não vou ser silêncio é um livro de memórias. Um resgate.

– “Foi-se o tempo em que as memórias de família ficavam restritas apenas a álbuns de fotografia. A ideia de desenvolver este livro é de preservar a história através de uma pesquisa histórica. Isso é uma tendência mundial que vem sendo cada vez mais utilizada aqui no Brasil. A preservação das histórias de famílias para as futuras gerações tem criado um novo nicho no mercado literário. Diante da nova realidade, o livro vem a atender a essa necessidade”, justifica.

A jornalista Lúcia Rocha colabora com a publicação, que tem ilustração de capa e contracapa de Nôra Aires, diagramação de Augusto Paiva, além de revisão de Carlos Adams.

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Nas águas da literatura

Por Marcos Ferreira

Alguns livros a gente termina de ler, digamos assim, para não perder a viagem. Ou tornar menos inútil o tempo investido. Daí que só acabei a leitura de certos “clássicos” (locais quanto planetários) porque já havia, embora a duras penas, atravessado mais da metade do rio, ainda esperançoso de que a segunda margem reservasse algo de compensador para o final da travessia.

Embalde. Fica-se no prejuízo e pronto. Não é possível você tocar no ombro do dito-cujo e dizer: “Ei, Fulano, dê-me de volta o tempo que empreguei na leitura do seu ‘clássico’. Não me serviu. Sobrou pano em cima e faltou embaixo.” Não dá. O máximo que podemos fazer é acendermos uma vela em respeito às árvores que foram ceifadas para o fabrico daquele papel.Estou sendo indelicado? Possivelmente. Talvez delicadeza não seja o meu forte. Se, porventura, possuo algum. Ressalto, no entanto, que é necessário botarmos os pés na água para sabermos se esta é rasa ou profunda. Tal preceito se aplica à literatura. É leviandade, para dizer pouco, aplaudirmos ou reprovarmos um determinado livro e seu autor sem sequer molharmos a ponta dos dedos.

Após quebrar a cara dezenas de vezes, influenciado pela reputação de algumas “lagoas azuis”, hoje em dia não pulo mais de ponta-cabeça nas correntezas da literatura. Vou devagarinho, banhando-me aos poucos, aclimatando-me com uma cuia. Nada de choque térmico. Careço sentir a temperatura da água, observar o termômetro, averiguar a voltagem da escrita. Mesmo que seja o autor um marinheiro de primeira viagem na ficção, como é o caso do escritor mossoroense David de Medeiros Leite. Sim.

David Leite acabou de dar à luz o seu primeiro romance: “2020”. Título intrigante quanto lacônico. Estreia, no mínimo, respeitável. Cumpriu, com absoluta competência, sua travessia no oceano das letras romanescas, sem fazer água, sem se perder na costura do enredo nem da linguagem. Não arremedou escritor algum, não afetou erudição e, muito menos, surfou na perigosa onda do rebuscamento. Entretanto, com domínio da pena e do tinteiro, zela pelo nosso idioma, oferece um “2020” atemporal, com riqueza de detalhes e verossimilhança, sob a proposta fictícia.

Conciso, “2020” tem pouco mais de duzentas páginas. O bastante para que David Leite trouxesse a lume um romance de estreia bem-sucedido, sem pontas soltas, cosido com a precisão e propriedade de um autor familiarizado com temática escolhida para o aparelhamento do seu enredo.

Apresenta-nos, competentemente, repito, as memórias de José Silvestre de Araújo, religioso que larga sua vida na Ordem Carmelita, no Recife, e se abala para Mossoró obcecado por encontrar uma botija supostamente oculta nas ruínas da Casa do Carmo. É uma história que não cai no lugar-comum da fantastiquice, mas que adquire singularidade por meio de um personagem expressivo, plausível e não menos singular.

Faz o mergulho valer a pena.

Agora estou aqui, sentindo-me de todo embevecido, imerso no mais profundo êxtase, com uma obra superior. Trata-se de “Peregrina”, novo livro de versos da excepcional poetisa (mossoroense por adoção) Kalliane Amorim, que me orgulha de ser seu contemporâneo. Como escreve bem essa moça, cuja trajetória literária tive a satisfação de acompanhar desde o tempo em que fui editor do caderno de cultura do Jornal O Mossoroense, há exatos vinte anos.

Há época, já com uma verve diferenciada, Kalliane me forneceu alguns dos seus poemas para publicação. Daí por diante, com luz própria, com uma impressão digital inconfundível entre nossos autores, essa mocinha terna, franzina e muito corajosa agigantou-se, sobressaiu-se. Conquistou, inclusive, o concorrido Prêmio Luís Carlos Guimarães de Poesia (2005), da Fundação José Augusto, em Natal-RN.

Como o romance de David, “Peregrina” saiu em uma caprichada edição da Sarau das Letras Editora. Traz primorosas ilustrações de Nilton Xavier e projeto gráfico de Augusto Paiva. Até a dedicatória que a autora me fez em um exemplar do livro, que não reproduzo aqui por mero pudor, é quase um poema, tão especial é a sua intimidade com o manejo do alfabeto.

Kalliane Amorim é uma escritora que atingiu a maioridade no ofício da escrita. A seu favor, entre outros méritos que me furto a esmiuçar, possui uma acuidade artística como poucas vezes observei nesta seara das letras potiguares. Não se contenta apenas com o propósito de comunicar, de se fazer entender, mas também chama para a si a responsabilidade de oferecer ao leitor algo além da rima, da métrica ou daquilo que ouso definir como poesia do enter, quando o sujeito comete um fraseado à toa e sai quebrando as linhas. Não.

O VERBO DE KALLIANE é joia burilada, trabalho de ourives. Ao mesmo tempo em que sua sofisticação, esmero com a polidura não compromete a mensagem, transmitida sem prejudicar o entendimento. Isto me recorda o português padre Antônio Vieira, quando diz:

“Aprendemos no céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo (…); muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem”.

O tato, a sensibilidade artística e a poética de Kalliane estão nesse patamar. Nem indecifrável, como tantos que se queixam de ser poetas, nem ao rés do chão. Permite aos que se julgam muito por cima descer um pouco; e aos que estão embaixo, elevar-se.

Do poema “Deserto”, página 71, pinço este fragmento da mais elevada poeticidade: “Assovia tão de perto/ o silêncio do deserto,/ que até posso acarinhar/ o seu flanco aveludado/ como um pássaro de ar.”

Quando crescer eu quero escrever bem desse jeito. “Peregrina” (entre outros relevantes trabalhos da escritora) afiança o que acabei de declarar. Ou deixei de dizer. Então, se querem saber mais sobre o conteúdo de “Peregrina” ou sobre o que narra o romance de David Leite, recomendo que leiam. Pois há muito o que saber.

De minha parte, seguirei com a navegação das leituras, ancorando em um porto-livro aqui, noutro acolá. Atento aos escolhos. Se pressentir que estou em barca furada, salto fora. Isso resulta em menos queima de pestanas, menos desperdício de tempo. Pois, ao contrário do papel, não se pode reciclar o tempo.

Felizmente, portanto, sem querer chover no molhado, o que é quase inevitável, existem aqueles autores e obras que fazem valer cada minuto que destinamos às suas páginas. Quem já leu, por exemplo, um “Memórias do Subsolo”, um “Humilhados e Ofendidos”, sabe do que estou falando.

De um modo geral os russos dominam os mares da ficção. Dostoiévski é um monstro, um monumento, uma força da natureza. Assim como Tchekhov e Tolstói. Machado de Assis e Graciliano Ramos, não necessariamente nessa ordem, outros dois ícones supremos da literatura brasileira.

Li e reli Graciliano (vai a metonímia) até mais do que li Machado. O bruxo do Cosme Velho, meritoriamente, é o grande astro da cena literária tupiniquim. No entanto o velho Graça é o meu fraco.

Refestelei-me sobre “Angústia” e “São Bernardo” — quero citar apenas esses dois — não sei quantas vezes. Coisa que não se deu com a obra de Machado. Estou devendo ao autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Então, para ficarmos apenas entre a Rússia e o Brasil,Crime e Castigo” e “São Bernardo” representam para mim o que há de melhor na ficção.

Dostoiévski e Graciliano, feito Augusto dos Anjos na poesia, são ímpares, desconcertantes, singularíssimos. Extrapolam todos os experimentos, as convenções, receitinhas. Deixam na poeira, a meu ver, James Joyce, Miguel de Cervantes, José Saramago, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Gustave Flaubert, José de Alencar, etc. Não ponho na balança só o que é contado, mas, sobretudo, o modo como se conta.

Na minha modesta visão de peregrino das letras, são autores que pegam uma história ordinária, um tema banal, e revestem o paupérrimo assunto com uma espessa camada de ouro. Isto é, tiram leite de pedra, dão peso e rutilância a histórias que resvalariam para a mediocridade ou coisa pior na escrivaninha de outrem.

A literatura, a arte literária, possui essa alquimia. Transforma nonadas, montículos, em grandes montanhas verbais. Como “A Montanha Mágica”, do Thomas Mann, gigante na compleição quanto na qualidade.

Por hoje é só. Hora de recolher as velas e atracar o barco.

Marcos Ferreira é escritor

A ausência de Odilon Ribeiro Coutinho

Por David de Medeiros Leite

A campanha “Diretas Já” mobilizou o país nos primeiros meses de 1984, exigindo que o Congresso aprovasse a emenda constitucional que instituía eleição direta para o sucessor do presidente João Figueiredo. As praças foram tomadas por comícios gigantescos. Além de políticos, havia participação de cantores.

Em Natal, por exemplo, lembro-me da presença de Chico Buarque e de Fafá de Belém.

Coutinho: oratória com vigor (Foto: arquivo)

Geraldo Melo, dirigente do PMDB e coordenador estadual do movimento, recebeu a caravana em festivo almoço. Em um de seus terraços, Odilon Ribeiro Coutinho (1923 – 2000), sustentando sua indefectível dose de uísque, ouvia atentamente um antigo correligionário do interior potiguar, quando é surpreendido pela voz inconfundível de Fafá de Belém:

— Onde está Odilon Ribeiro Coutinho? Preciso falar com ele…

Odilon bate no ombro de seu interlocutor e dispara:

— Meu amigo, em qualquer situação, as mulheres merecem primazia. Portanto, nosso papo ficará para outra oportunidade, pois, agora, darei atenção a esta simpaticíssima artista.

O velho sertanejo arremata de forma bem-humorada:

— O senhor tá coberto de razão… faria o mesmo em seu lugar.

Em verdade, Fafá de Belém desejava falar com Odilon acerca de Teotônio Vilela (1917 – 1983). Odilon e Teotônio foram amigos e isso interessava a Fafá, que gravara a música “Menestrel das Alagoas”, composição de Milton Nascimento e Fernando Brant, que se transformaria, assim como “Coração de estudante”, em hinos daquele movimento Diretas Já.

Há de se registrar que Odilon e Teotônio, em que pese a amizade, durante boa parte do Regime Militar estiveram em campos opostos. Em 1964, Odilon estava no exercício do mandato de deputado federal, pelo Rio Grande do Norte, e Teotônio Vilela era vice-governador de Alagoas. Odilon se posiciona contra o golpe, filiando-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e Teotônio filia-se a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), agremiações partidárias que surgem no bipartidarismo de 1965.

Teotônio Vilela se elege senador em 1966 e é reeleito em 1974. Nesse segundo mandato, o alagoano desfraldou a bandeira da redemocratização, colocando-se como porta-voz do processo de distensão e assumindo a posição de “oposicionista da ARENA”.

Além de assumir posições pró-democratização, buscou contatos com personalidades e instituições para elaborar um Projeto de institucionalização política para o Brasil. Em abril de 1978, apresentou no Senado o que ficou conhecido como o Projeto Brasil, com inclusão de diversas propostas liberalizantes. No mês seguinte, aderiu à Frente Nacional pela Redemocratização.

A Frente queria a candidatura do general Euler Bentes Monteiro, à presidência, e do senador emedebista Paulo Brossard para a vice-presidência da República, buscando agrupar, além do MDB, militares descontentes e políticos dissidentes da Arena.

Teotônio filiou-se ao MDB no dia 25 de abril de 1979 e, em meados de junho, já  compondo a bancada oposicionista, fez duras críticas ao governo provocando a retirada geral dos parlamentares da ARENA do plenário do Senado. Teotônio Vilela também ficou conhecido como batalhador incansável pela anistia geral.

De outra parte, particularmente, conhecia Odilon Ribeiro Coutinho da campanha eleitoral de 1982. Vivíamos ainda sob o regime militar, ele, candidato ao Senado, e eu, na euforia dos meus dezessete anos, fazendo parte de um grupo estudantil que integrava aquela campanha.

Em reuniões com a militância, a postura de Odilon destoava das outras lideranças. Ouvia-nos com atenção. Dava importância e entendia as exaltadas intervenções juvenis que afloravam.

Teotônio defendeu mudança de rumo (Foto: arquivo)

Além da sólida formação humanista, o tratamento por ele dispensado também estava calcado em sua própria história de vida, pois fora presidente da União dos Estudantes de Pernambuco e, como acadêmico da Faculdade de Direito do Recife, teve intensa participação na luta contra o Estado Novo, sendo preso várias vezes por contestar o então regime antidemocrático.

Dessa campanha de 82, tenho guardado, na memória e retina, um emblemático episódio que, pelo viés cinematográfico, serviria como uma luva para ilustrar um documentário ou um filme acerca de Odilon. Naquela noite, o candidato ao governo pelo Partido Democrático Social (PDS) (sucedâneo da ARENA) – José Agripino Maia – tinha um jantar com empresários mossoroenses, na então chique e suntuosa Associação Cultural e Desportiva Potiguar (ACDP).

A coordenação de campanha do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) programou uma passeata, com parada estratégica justamente na subida da “Ponte Velha”. Quem conhece a geografia urbana de Mossoró sabe que, pelas posições referidas, as mobilizações ficariam separadas tão somente pelo leito do rio (ainda não poluído, diga-se de passagem). Odilon foi o orador escolhido, do lado oposicionista.

Imaginem a peça de oratória que emergiu daquele improviso.

Foi construído, de forma impecável, um paralelo entre os dois cenários. Com uma “ira santa”, gesticulava e mostrava a disparidade existente entre aqueles que estavam a se banquetear com alguns escolhidos, em contraponto com a sua corrente política, a valorizar o contato com o povo e, com esse povo, caminhava pelas ruas. Intercalando sua fala com metáforas arrebatadoras, a certa altura, vaticinou:

— Ai de ti, “Nabucodonosor”, porque os seus dias de império estão contados.

Outros tantos pronunciamentos memoráveis são lembrados na trajetória de Odilon. Um, sempre citado por quem teve a oportunidade de ouvi-lo, foi o da histórica convenção do MDB, em 1978, quando Odilon se insurgiu contra o acordo arquitetado para que o partido apoiasse o candidato ao Senado pela Arena.

O escritor Jurandy Navarro, em uma antologia de “Oradores do Rio Grande do Norte”, resgata outros dois importantes discursos de Odilon, ambos pronunciados na Câmara dos Deputados, quando exerceu o mandato de deputado federal entre 1962 a 1966.

Em um dos discursos, datado de novembro de 1964, Odilon registra a passagem dos cinquenta anos da morte do poeta Augusto dos Anjos e, a certa altura, assim o define: “Eis aí um homem que, exercitando a poesia, dilatou a linha da morte até a ilimitação da eternidade. Para quem a vida, através do ato da criação poética, não foi senão uma forma de iludir a morte”.

E no outro, datado de 1965, intitulado “Em defesa do legislativo, da democracia e das liberdades constitucionais”, Odilon inicia sua fala citando Miguel de Unamuno, dizendo que este grande pensador, poeta e filósofo espanhol convidado a comparecer a uma agitada reunião sindical, em meio à confusão e ao tumulto, quando lhe deram a palavra começou a declamar versos. E ele, Odilon, numa analogia ao grave momento brasileiro, devido a recém instalada ditadura militar, anuncia: “Pois eu que não faço versos e quando os faço são pífios e mofinos que não ouso chamá-los de poesia, me permito agora fazer algumas considerações que pretendo calmantes para amenizar o melancólico episódio que estamos vivendo”. E prossegue no seu belíssimo e contundente libelo em defesa da democracia.

Em 1986, Odilon foi candidato a deputado federal, porém não obteve sucesso. Registre-se que ele fora escolhido para participar de uma “Comissão Provisória de Estudos Constitucionais”, também conhecida por “Comissão Affonso Arinos”, que concebeu um anteprojeto que serviria de parâmetro para a própria Constituinte.

Bem, estive com Odilon, após as eleições, e, lamentando o resultado, confidenciei-lhe que, para mim, era custoso entender por que o Rio Grande do Norte, em termos eleitorais, era sempre injusto com ele. Odilon aumentou o sorriso, apertando os olhos miúdos, me abraçou, disparando magistralmente:

— Injusto, não. Digamos, apenas, equivocado.

Já disse em crônica, que consta do nosso livro Cartas de Salamanca, mas repito: saudades de Odilon.

Saudades de sua oratória potente em defesa das instituições democráticas. De seu exemplo. De sua postura digna. Pessoas como Odilon deixam lacunas imensas e fazem muita falta neste mundo de iniquidades.

David de Medeiros Leite é é professor da UERN e Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha

Leia também: Agenor Maria x Djalma Marinho – duelo histórico ao Senado.

Agenor Maria x Djalma Marinho – duelo histórico ao Senado

Por David de Medeiros Leite

Nas eleições de 1970 a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) elegeu os dois senadores no Rio Grande do Norte: Dinarte Mariz e Jessé Freire. Para governador não houve eleição, o regime militar iniciara o ciclo dos governadores indiretos, método que se repetiria em 1974 e 1978.

Em 1974, a disputa majoritária deu-se por uma vaga ao Senado. Os candidatos foram, respectivamente pela ARENA e Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Djalma Marinho (1908 – 1981) e Agenor Maria (1924 – 1997). Seus suplentes: empresário José Nilson de Sá e a senhora Maria Lucena (esposa do então deputado federal Pedro Lucena)

Agenor Maria: "Marinheiro só..." (Foto: arquivo)

Pela conjuntura política nacional e estadual, a candidatura de Djalma Marinho configurou-se com tanto favoritismo que o partido oposicionista teve dificuldades em encontrar um nome disposto a encarar tal disputa. Agenor Maria surge como um “azarão”. Ambos já militavam na vida partidária do RN.

Djalma Marinho havia sido deputado estadual e deputado federal. Era jurista de formação e, na Câmara Federal, ganhou notoriedade no episódio “Márcio Moreira Alves”.

Em 1968, Djalma Marinho exercia a presidência da Comissão de Constituição e Justiça, quando o governo militar, para processar o deputado Márcio Moreira Alves junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), protocolizou um “pedido” de autorização e esperava o apoio de Djalma que compunha a bancada governista. Djalma surpreendeu ao votar contra e, inspirado no poeta e dramaturgo espanhol Calderón de la Barca, pronunciou a célebre frase:

– “Ao rei tudo, menos a honra”.

Como consequência do referido episódio, o presidente Costa e Silva baixou o AI-5 recrudescendo o regime de exceção.

Agenor Maria, além de ter participado da criação da Cooperativa dos Produtores de Algodão do Rio Grande do Norte, na década de 1960, tinha militância política, pois se elegera vereador, em 1954 e 1958, e deputado estadual, em 1962. Em 1966 foi candidato a deputado federal, ficando como suplente, chegando a exercer por alguns meses o mandato via convocação.

Porém, em 1974, não estava em seus planos a disputa por um cargo majoritário. Levava a vida na boleia de seu caminhão, “fazendo feiras” nas cidades seridoenses. Foi surpreendido pelo convite de se candidatar ao Senado, e aceitou o desafio avisando que não dispunha de dinheiro algum.

No decorrer da campanha, seu desempenho surpreendeu positivamente. Manoel Mário, candidato a deputado estadual na referida campanha, relembra que quando chegavam aos municípios a caravana se instalava na casa do chefe político local, para lanches e conversas preliminares, até a hora do comício.

Agenor Maria não cumpria tal ritual, preferia sair caminhando pela cidade, conversando no mercado e outros logradouros públicos. Quando subia ao palanque seu discurso chamava atenção pela forma com a qual abordava os problemas da cidade e da região.

Na eleição de 1974, o MDB venceu dezesseis das vinte e duas disputas para o Senado no Brasil. Entre essas vitórias, contabiliza-se a de Agenor Maria, escolhido para representar os potiguares na Câmara Alta do país. Tal resultado fez o Regime Militar instituir o “senador indireto”, ou “biônico”, nas eleições de 1978, onde dois terços do Senado seriam renovados. Mas isso é conversa para outro texto.

No livro Brossard: 80 anos na história política do Brasil (Editora Artes e Ofícios, 2004), às folhas tantas, o jurista e senador Paulo Brossard (1924 – 2015) registra que ficou atento ao discurso de estreia de Agenor Maria no Senado e comentou: “Agora entendo por que meu amigo Djalma Marinho perdeu a eleição, esse homem fala a linguagem do povo”.

Tanto Djalma Marinho como Agenor Maria seguiram na vida pública. Djalma voltou à Câmara Federal em 1978 e posicionou-se a favor da Lei da Anistia, ingressando no PDS com a reforma partidária do governo João Figueiredo que restituiu o pluripartidarismo.

Seu último ato político foi a candidatura à presidência da Câmara dos Deputados, em 1981, numa dissidência apoiada por parlamentares de oposição, sendo derrotado por Nelson Marchezan.

Marinho: "Nunca juntei dinheiro" (Foto: arquivo)

Genro de Djalma Marinho, o saudoso ministro Francisco Fausto, também em livro de memórias, relata que, após o escrutínio da disputa pela presidência da Câmara, vários deputados foram ao apartamento de Djalma. Eram velhos amigos que com ele conviveram na UDN, ARENA e, naquele momento, no PDS, mas que não votaram em seu nome por orientação do comando partidário.

Pediam a Djalma que não guardasse mágoas, e ouviram uma resposta em tom de blague: “Eu nunca consegui guardar nem dinheiro…”. Pano rapidíssimo.

Agenor Maria não disputou a reeleição em 1982, optando por concorrer à Câmara Federal, onde cumpriu seu último mandato eletivo. Desse período, existe um significativo discurso de um colega seu, Raimundo Asfora, figura expressiva na vida pública do vizinho estado da Paraíba, que, naquela legislatura, considerava o colega potiguar como sendo “a mais bela voz rústica do parlamento brasileiro.”

Em texto recente, em meio aos fatos políticos, relembrei “jingles” (Leia: Emery Costa em 1972 – “Lá se vão…“, o que resultou em comentários positivos de amigos leitores, pela leveza que enseja. Pois bem, das eleições de 1974, a paródia do candidato Agenor Maria ficou bastante conhecida, a dizer mais ou menos assim:

– “Não é burguês, marinheiro foi, nem é um dotô, marinheiro foi, mas vai pro Senado, marinheiro foi, nosso Agenor… ”

Para contextualizar a paródia, Clementina de Jesus, em 1973, lançou pela Odeon o LP “Marinheiro só”. Produzido por Caetano Veloso, o disco trouxe do folclore popular a faixa “Marinheiro só”, com adaptação do próprio Caetano.

Por outro lado, Agenor tinha servido à Marinha; inclusive, seguindo velha tradição dos marinheiros, levava uma âncora tatuada em um dos braços. Isso serviu de mote para a paródia de sua campanha senatorial.

David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do RN (UERN) e Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha

Emery Costa em 1972 – “Lá se vão…”

Por David de Medeiros Leite

Nas eleições de 1972, a disputa em Mossoró foi protagonizada pelas chapas (candidatos a prefeito e vice-prefeito, respectivamente): Dix-huit Rosado e Canindé Queiroz, pela ARENA; Lauro da Escóssia Filho e Emery Costa, pelo MDB.

No pleito municipal anterior, em 1968, o MDB não apresentou candidato em Mossoró. E a ausência do partido na referida eleição derivava do quadro político no Rio Grande do Norte: após a institucionalização do bipartidarismo no país, em 1966, os dois grupos de maior projeção no Estado, liderados por Dinarte Mariz e Aluízio Alves, se filiaram ao partido que dava sustentação ao Regime Militar, apesar de continuarem adversários no âmbito local.

Chegaram a apelidar tal anomalia de “Arena verde” e “Arena vermelha”, considerando as cores que demarcavam a rivalidade na província.

Em 1969, o deputado Aluízio Alves, que compunha a bancada de apoio ao Regime Militar, teve seu mandato casado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Somente a partir desse episódio o grupo político de Aluízio se filiou ao MDB.

Com Emery Costa, Ulysses Guimarães e Lauro Filho em 1972, o MDB ia à disputa contra chapa da Arena (Foto: cedida)

Mas voltemos a Mossoró, relembrando quem era quem na disputa de 1972.

Dix-huit Rosado, desde 1945, atuava na seara política: havia exercido mandatos de deputado estadual, deputado federal e senador da República, além de ter ocupado a presidência do Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (INDA), durante a gestão do general Costa e Silva. Seu vice, Canindé Queiroz, era estreante na política partidária, porém conhecido na cidade por administrar empresas do tio, deputado federal Antônio Florêncio.

No MDB, Aluízio Alves, atuando nos bastidores, tentou “costurar” chapa encabeçada pelo padre Américo Simonetti, tendo como companheiro Lauro Filho, que já havia sido candidato a deputado estadual, obtendo considerável número de votos, o que lhe garantira uma suplência. Padre Américo não aceitou tal candidatura.

Ainda houve sondagens em torno de outros dois nomes do clero mossoroense: Sátiro Dantas e Alcir Leopoldo, que igualmente declinaram.

O nome de Lauro Filho foi alçado à condição de candidato a prefeito. A solução de Emery Costa, como seu companheiro de chapa, deu-se em consequência de sua atuação jornalística na Rádio Rural, cuja direção era exercida pelo padre Américo.  Solução engendrada com o intuito de manter os simpatizantes da frustrada candidatura do clérigo, colocando-se um nome que compunha a equipe de profissionais por ele liderada na emissora da Diocese.

A eleição de Mossoró concentrava atenção, pois o prefeito de Natal (como nas demais capitais) era nomeado pelo governador durante o período ditatorial, não havendo, por conseguinte, eleições naquela urbe. Para se ter uma ideia, Ulysses Guimarães, presidente nacional do MDB, veio a Mossoró. Então, se a cidade oestana constou no roteiro do dirigente, naturalmente a eleição interessava ao comando emedebista.

Empresário salineiro Francisco Ferreira Souto Filho (“Soutinho”) e sua esposa e Edith foram anfitriões da comitiva. Diga-se de passagem, o casal além de receber essas proeminentes figuras, fazia da residência um verdadeiro “birô político”, para usarmos uma expressão da época.

Por que me veio todo este caudal de lembranças? Porque a recente partida (veja AQUI e AQUI) de Emery me fez rememorar tanto os aspetos históricos imbricados, como alguns trechos dos “jingles”que eram cantados a plenos pulmões pelos partidários de cada corrente. E aí tínhamos tanto um “jingle” composto originalmente para a ocasião, como o de Dix-huit: “Que coisa linda, olha lá, olha lá, olha lá, tá na hora, vamos agora em Dix-huit Rosado votar” (autoria de Nepó, compositor areia-branquense); ou uma paródia adversária que conclamava: “Bandeira branca amor, é isso aí, com a vitória de Lauro e Emery…”

Carlito Costa do Nascimento, saudoso amigo, cujo hobby era escrutinar jingles políticos, falava de uma das paródias da memorável campanha que, com licença poética, repetia: “Lauro e Emery já tá eleito, Lauro e Emery já tá eleito, Lauro e Emery já tá eleito, prefeito de Mossoró”. Não consigo lembrar especificamente desse detalhe.

Uma campanha e só (Foto: família)

Até sou “consultado” sobre questões políticas mossoroenses anteriores (e não me faço de rogado para conversar sobre), mas essa paródia, especificamente, não vem à mente. Apesar de lembrar vivamente da referida contenda.

Pois bem, do pleito mossoroense de 1972, temos esparsas reminiscências compondo uma crônica aqui ou acolá, evidenciando certa fragilidade de registros da historiografia recente.

Dix-huit e Canindé venceram o pleito e seguiram militando na vida pública da cidade, inclusive ambos disputaram outras eleições. Lauro Filho mudou-se para Fortaleza onde dedicou-se ao exercício da advocacia. Emery continuou a trajetória na radiofonia, ampliando, nos anos seguintes, sua atuação em jornal e televisão, conquistando respeito e admiração por tão fecunda carreira profissional.

Com o passar do tempo, o próprio Emery, em seus escritos ou conversas informais, comentava que aquela participação partidária foi algo episódico e, rindo, se perguntava: “Como danado fui me meter numa campanha política?”.

Dúvidas que nem ele, Emery, nem nós, reles mortais, deciframos; são os enigmáticos desígnios em nossa existência.

Salve Emery!

David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do RN (UERN) e Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha

Nas veredas do romance, um novo caminho de David Leite

David: o Carmo como epicentro (Foto: Grospim)

Escritor e editor, David de Medeiros Leite que é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), com doutorado pela Universidade de Salamanca – Espanha, é autor de vários livros em diversos gêneros literários. Mas agora envereda por novo caminho.

Aproveitando esse período de quarentena, David Leite deu ponto final em seu primeiro romance. Trata-se de um trabalho cuja trama gira em torno da lenda de uma “botija” que os frades carmelitas deixaram na comunidade do Carmo, zona rural de Mossoró, vereadas que conhece bem.

– O título, David?

Um riso foi a resposta, em lugar do silêncio.

Livros

David Leite, que é membro da Academia Mossoroense de Letras (AMOL), pretende lançar a publicação ainda esse ano. “Espero que todos consigamos passar por essa anormalidade da pandemia”, pondera. Sairá com o selo da Editora Sarau das letras.

O escritor lançou livros em gêneros diversos. Como cronista temos “Cartas de Salamanca”, “Casa das Lâmpadas” ou “Ombudsman Mossoroense”. Na área poética, “Incerto Caminhar”, “Ruminar” e “Rio do Fogo”.

Sem esquecer os ligados aos fatos e pessoas de Mossoró, como é o caso da biografia que lançou em parceria com Lupércio Luis de Azevedo (in memoriam): “Duarte Filho: Exemplo de Dignidade na Vida e na Política”.

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Sejamos didáticos!

Por David de Medeiros Leite

À comunidade acadêmica da Universidade do Estado do RN (UERN)

A didática é-nos ferramenta elementar e fundamental; aprofundemos seu uso, pois. E, assim, possamos voltar às nossas salas ávidos pelo debate: aberto, ampliado e sustentado em pilares acadêmicos.

Sejamos didáticos para fomentarmos, ainda mais, o respeito à convivência dos contrários e que, em nenhuma hipótese, vislumbremos profissionais agredidos e vilipendiados. Didáticos ao ponto de esclarecermos que coveiro não mata ninguém: cumpre seu mister em não deixar irmãos insepultos. E

sclareçamos, também, sobre a existência de estatísticos que escrutinam óbitos, com o mesmo nó na garganta, por tratar-se de ceifadas vidas, não de meros números.

Sejamos didáticos para que estudiosos das Ciências Sociais avaliem contradições e interesses de classes, acurando-os em contraposição aos reflexos, avanços e retrocessos, norteados desde perspectivas econômicas à luz de ensinamentos como os de Celso Furtado, para citarmos um bravo nordestino, desprezando a monocórdia vociferação de preconceitos contra honrados trabalhadores.Sejamos didáticos para que nossos estudantes de Comunicação Social saibam que noticiarão o cômico e o trágico, compreendendo a existência de vidas nas entrelinhas dos parágrafos e argumentos postos, projetando-os, por conseguinte, aos leitores como verdades. Vale atentar: até as irresponsáveis fanfarras contra nossa própria existência serão noticiadas, causando nebulosa e contagiante fumaça.

Sejamos didáticos com os que manejam a historiografia. Vês? estão discursando contra “ditaduras” e, no mesmo instante, clamam pela volta do famigerado AI-5, cujo lapso temporal, notadamente próximo, não sarou nem cicatrizou feridas no corpo e na alma dos que, atônitos, não creem que ouvem tal despautério.

Sejamos didáticos com os que militam na (pela) Educação. Sim, isso mesmo: os educadores. Nós estamos imersos numa pororoca, na medida em que um pensador da envergadura de Paulo Freire é satanizado por figuras abjetas que esquartejam frágeis estruturas de pesquisa e ensino em nosso país. Arcabouço, diga-se de passagem, construído por lutas memoráveis, que vemos desmilinguir-se numa velocidade estonteante.

Sejamos didáticos para que as Escolas de Saúde percebam que formaram e formam profissionais que atuam com denodo em favor da humanidade. Se existe um “filho pródigo”, aqui ou acolá, bradando contra os ensinamentos bebidos em sala de aula? Ah, tal prodigalidade não abafará a magnânima ação coletiva que emerge, amenizando dores com medicamentos e procedimentos cientificamente responsáveis.

Desejam exemplo? Exemplo darei: como seria a realidade potiguar se não tivéssemos a atuação dos egressos dos cursos da área de saúde? E aqui se faz imperioso ressaltar quão importante foi a ampliação das Universidades Públicas, bem como dos programas governamentais que proporcionaram acesso dos mais carentes às instituições privadas.

Sejamos didáticos em quaisquer das áreas do conhecimento, ousando abranger, também, aqueles a quem lhes negaram acesso ou que são refratários por mera ignorância. Façamos que nosso discurso se contraponha à agilidade das fakes news que os enganam. Atrevamo-nos a tornar translúcido que o propalado “Estado mínimo” é engodo, emanado por quem sempre se assenhorou do próprio Estado, agravando a vulnerabilidade dos marginalizados.

Sejamos didáticos para que possamos traduzir, da forma mais singela possível, o pensamento do filósofo existencialista (ele não era comunista, pelo amor de Deus…) Miguel de Unamuno que, em delicado momento histórico, cunhou: “Me duele España”. Atentem: não era seu corpo nem sua alma que doíam, era seu país.

Parábola e síntese que devemos debulhar e subjacer à realidade corrente: o Brasil nos dói! Além da gravidade do vírus, urge restabelecermos o movimento pneumático da incipiente democracia, sob pena da ausência de oxigênio refletir em paralisação dos mínimos esforços galgados em busca da cidadania.

Sejamos didáticos em meio ao “sanatório geral”, parafraseando Chico Buarque, alardeando que, apesar dos pesares, cremos no raiar de um novo dia.

David de Medeiros Leite é professor da Uern e Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha

Festa de Sta. Luzia – da Amplificadora do Padre às redes sociais

Por David de Medeiros Leite

“Festa de Padroeira é uma coisa só”, dirão alguns. Pode-se admitir a assertiva; porém, contextualizando-a e elegendo algumas variáveis, tais como, demografia, expressão religiosa e o sistema de comunicação utilizado no e para os festejos. Portanto, teríamos que “trabalhar”, no mínimo, com esses três parâmetros para, mesmo que perfunctoriamente, avaliarmos a evolução da Festa de Santa Luzia na cidade de Mossoró.

A título de ilustração, usando números aproximados e intervalos de trinta anos, verificamos que a população de Mossoró, em 1960, era de 40 mil habitantes, saltando para 190 mil, em 1990, e, atualmente, alcançando os 300 mil habitantes. Somente esse aumento demográfico (mesmo sopesando o crescimento de outras vertentes religiosas) daria “panos pras mangas” numa abordagem específica.

Em termos de comunicação, torna-se imprescindível referir-se à aparição da Rádio Rural de Mossoró, em 1963, que funcionou como uma espécie de “divisor de águas”, considerando que, nas décadas anteriores, o que pontificava na Praça Vigário Antônio Joaquim, principal ponto geográfico da Festa de Santa Luzia, era um velho serviço de som, apelidado de “Amplificadora do Padre”, que pertencia à municipalidade.

Vale registrar que a referida denominação decorria do fato de ter sido o Padre Mota, quando prefeito da cidade, o responsável pela instalação de tal aparato sonoro, cujo “estúdio” funcionava no pequeno sobrado localizado onde hoje se encontra edificado o Teatro Lauro Monte Filho.

Durante a Festa de Santa Luzia, a audição dessa Amplificadora era disputada pelas precárias “bocas de som”, dos parques de diversão, instalados pelas redondezas, ou mesmo pelos esgoelados gritos de leiloeiros e pregoeiros das dulcíssimas “maçãs do amor” e outras guloseimas típicas e ansiadas naquelas ocasiões.

A Rádio Rural modificou a Festa, tanto no sentido religioso (transmissões de missas e novenas), como no âmbito profano. Quatro ou cinco linhas é um espaço demasiadamente curto para comentarmos, por exemplo, um evento promovido pela Rádio, durante a Festa de Santa Luzia, que marcou época: o concurso “A Mais Bela Voz”.

As cidades vizinhas realizavam etapas eliminatórias, e os finalistas disputavam o pódio do concurso em apoteóticas noites. E tudo na harmônica sequência: terminada a novena, a multidão naturalmente se voltava para o palco da “A Mais Bela Voz”. Muitos talentos ali foram revelados e consequentes carreiras iniciadas.

Claro que, concomitante e posteriormente ao momento concurso, barracas de jogos, brinquedos, doces e salgados, seguiam suas ofertas no mesmo largo e adjacências. Namoros, flertes e paqueras pululavam entre púberes olhares. Sem falar noutro lado menos romântico, quando àqueles chatos e exaltados “cavavam” empurrões e entreveros, a fim de exporem suas “machezas”. Acontecimentos, infelizmente, recorrentes em aglomerados humanos.

Pois bem, nos últimos anos, após as novenas, as atenções se voltam para o Oratório de Santa Luzia. Espetáculo teatral considerado sucesso de público e de crítica. Não vou adentrar em detalhes, mas aproveito o ensejo para homenagear (in memoriam) uma artista mossoroense que estava afastada do teatro e, com o Oratório, voltou à ribalta de forma extraordinária: Ivonete de Paula.

Pena que essa sua segunda fase tenha durado tão pouco. Citando-a, desejo estender essa singela homenagem a todos que já atuaram (e atuam) em cena ou nos bastidores.

A equivalência que se estabelece, considerando uma hipotética emulação entre o concurso “A Mais Bela Voz” e o Oratório de Santa Luzia, é que a Festa de Santa Luzia continua ensejando revelações artísticas e isso, por si só, suscita verdadeiro milagre, dado os reveses que talentosos jovens sofrem em nossa realidade.

Vale ressaltar que outros tantos eventos abrolharam nesses últimos anos: Cavalgada da Luz (na sua 13ª edição), Motorromaria da Luz (11ª edição), Pedalada da Luz (10ª edição), Caminhoneiros da Luz (3ª edição), Romaria Ciclista (1ª edição). A motivação religiosa cada ano amplia sua dimensão, graças à criatividade e ao engajamento das Comissões Organizadoras. Dando-se, claro, também o devido crédito à visão e ao direcionamento dos vigários-gerais às novas empreitadas.

A curva ascendente do volume da movimentação econômica fica evidenciada a olhos nus. No entanto, neste ano de 2019, temos a celebrar que um estudo acadêmico, protagonizado pela Faculdade de Economia, irá mensurar o impacto derivado dos festejos na economia da cidade e região.

No quesito midiático, mesmo considerando que Rádio Rural segue atuando como importante braço da Diocese, constatamos que as chamadas Redes Sociais emergiram como fenômeno transversal, avalanche igualmente observada em quaisquer segmentos.

Utiliza-se das redes para divulgação institucional dos eventos da Festa, ao mesmo tempo que os flashes dos celulares disparam e reverberam em grupos, momentos daqueles que curtem a festa, desaparecendo aquele vínculo dispendioso das fotos de outrora.

“E a Procissão, você não irá comentar?” Poderia resumir, de uma forma um tanto simplista, que é o ápice da Festa. Todavia, em verdade, em verdade, a Procissão de Santa Luzia é bem mais de que isso. Trata-se de uma manifestação em que o mossoroense, seja de nascimento ou adoção, prefere vivê-la e senti-la a descrevê-la.

Tarde-noite para caminhar, cantar, rezar e meditar sobre a vida, a sua terra… sob as bênçãos da “Virgemmártir, invicta heroína…”.

Viva Santa Luzia!

David de Medeiros Leite – Professor da UERN, atualmente assessor jurídico da Presidência do TRE. Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha.

* Texto publicado originalmente na Revista de Santa Luzia – 2019

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Henrique Alves participa do “Campanhas Memoráveis”

O ex-deputado federal Henrique Alves (MDB) prestigiou o evento “Campanhas Memoráveis” (veja AQUI) em Mossoró, à noite dessa quinta-feira (17), no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Subseccional local.

Henrique e Carlos Augusto conversam, sob presença de Izabel e Rosalba (Foto: Carlos Costa)

Chegou até a fazer pergunta aos participantes da mesa redonda.

Depois, jantou em restaurante no centro da cidade, ao lado da prefeita Rosalba Ciarlini (PP), ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado, ex-candidata a vice-prefeito Rose Cantídio (MDB), ex-vereador e atual presidente do Instituto Municipal de Previdência Social dos Servidores do município de Mossoró (Previ-Mossoró) Elviro Rebouças e a presidente da Câmara Municipal Izabel Montenegro (MDB).

O Campanhas Memoráveis é uma iniciativa do Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RN) e teve como mediador o professor e escritor David Leite.

O presidente dessa corte, desembargador Glauber Rêgo, prestigiou o evento.

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