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Obrigado, Inácio

Por Odemirton Filho 

“Escreva de forma simples, Odemirton, para as pessoas entenderem, não faça um texto extenso, escreva com o coração, dê um tempo, e depois corrija”.

outono da vida, folha seca, partida, varalFoi esse um dos muitos ensinamentos repassados pelo jornalista-escritor-boêmio-sonhador Inácio Augusto de Almeida.  Eu o conheci através deste Blog. Li muitos dos seus comentários e crônicas neste espaço. E não foram poucos.

Ele era um guerreiro no combate à corrupção, gostava de dizer que “onde existe corrupção não existe salvação”. Às vezes, era duro em seus comentários, em razão disso, atraiu a antipatia de alguns; bom de briga, usava as palavras como arma.

Escrevia como poucos, sabia transmitir sentimentos e emoções em suas crônicas. No campo político-ideológico tínhamos as nossas diferenças, mas o respeito e admiração recíprocos sempre falaram mais alto.

Ano passado fui à sua casa, num domingo à tarde. Uma chuvinha gostosa molhava as plantas do seu quintal, enquanto tomávamos café e comíamos pão com queijo de coalho. Presenteou-me com três livros de sua autoria: Maranhão, Versos & Prosa e Liberdade Trancada. Contou-me várias histórias, inclusive um pouco sobre sua família.

Eu ouvi, atentamente, a sua inteligência singular.

O livro Maranhão teve alguns capítulos publicados no Blog. Entretanto, devido à sua dificuldade para escrever por causa das fortes dores, não conseguiu concluir. Semanalmente, ele me repassava as suas crônicas para que eu formatasse e remetesse para o editor do “Nosso Blog”. No finalzinho do ano passado, disse-me que não enviaria mais as crônicas. Estava cansado. Sentia que a hora do encontro final estava chegando.

Honrava-me a sua confiança. “Considero você um filho, Odemirton”, dizia.

Diariamente ele mandava mensagens para o meu “zap”. Na ultima semana, recebi uma ligação do seu celular. Não pude atender e, infelizmente, esqueci de retornar. Talvez fosse a sua mulher ou uma de suas filhas para me comunicar sobre a sua doença.

Calou-se a voz firme contra os corruptos. Para quem quiser apreciar um artesão das palavras, as suas crônicas estão eternizadas no Blog. A sua partida me deixou triste. Aliás, nos últimos tempos, perdi amigos queridos. Eu sei, é a vida. Mas, dói, como dói.

Pois é, mestre, desculpe-me se o texto não ficou do seu agrado. Contudo, escrevi com o coração. Poucas foram as palavras para agradecer todos os ensinamentos. Todavia, garanto que sobraram emoção e sentimento de saudade.

Conforta-me o fato de ter agradecido, por diversas vezes, quando ainda estava no plano terrestre.

Obrigado, Inácio, pelas lições e leveza da amizade.

Transcrevo, ao fim desta singela homenagem, um fragmento de uma de suas belas crônicas:

“Chego ao ocaso da vida com a tranquilidade dos que não se deixaram dobrar por um punhado de lentilhas. Breve partirei com a certeza do dever cumprido. Usei o cobertor que recebi para aquecer não só a mim nas noites de frio. Partirei tranquilo por não temer os deuses”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

A extrema curva do senhor Inácio

Por Marcos Ferreira

Inácio Augusto de Almeida faleceu nessa sexta-feira última (Foto: família)
Inácio Augusto de Almeida faleceu nessa quinta-feira última, 16 (Foto: família)

— Inácio Augusto?! — indagou a voz rouquenha.

— Aqui estou! — respondeu o velho cronista.

Ele atendeu à convocação e partiu, destemido.

Agora este eclético espaço, infelizmente, fica sem a opinião do senhor Inácio Augusto de Almeida. O homem, que não conheci de maneira pessoal, foi convocado pela Moça da Foice. Não sei, portanto, detalhes da pessoa nem da vida do senhor Inácio. Tão somente o que ele, de modo incansável, publicava no Canal BCS. Era, quem sabe, o mais atuante, o único ombudsman do Blog Carlos Santos.

Que sua família encontre a necessária força, conformação. Porque Deus é assim: envia e manda buscar pessoas. Possui os seus desígnios, e todo mundo (ou quase todo mundo) aceita isso de bom grado, de forma resignada. O senhor Inácio foi chamado por Deus para uma conversa mais próxima entre ambos. Sem conforto, conheço bem esse tipo de partida: já me tiraram meus pais e dois irmãos.

Também ainda no campo da suposição, imagino que este seja o segundo óbito, o segundo sinistro que este espaço dominical sofre desde o princípio de suas atividades. Não sei, posso estar enganado. Sou o mais novo entre os colaboradores do Canal BCS. Não vou ligar para Carlos Santos para fazer esse tipo de pergunta. O fato, porém, é que perdemos um expressivo colaborador. Suas ideias, contraditórias ou não, bem aceitas ou não, farão muita falta. Era ele uma espécie de pedra no sapato de certos políticos e indivíduos da sociedade mossoroense. Malquisto, ridicularizado.

Enquanto cidadão, personagem humana, não vou entrar nesse mérito, pois, como eu disse, não o conhecia nem mesmo de chapéu. Nunca nos avistamos, jamais trocamos um aperto de mãos. E assim (como eu) era ele para muitos que acompanham estas páginas do domingo um simples desconhecido, só um nome.

Com pouco mais de setenta anos, pelo que ouvi dizer, o senhor Inácio fez “a extrema curva do caminho extremo”. Sentença esta, mais uma vez, que pesco num soneto de Olavo Bilac. Então, sem retrato, sem foguetes, Inácio Augusto de Almeida partiu deste mundo para outro completamente indecifrável. Isto se deu na última quinta-feira, dia 16 de março do corrente ano. Foi sepultado no município de Granja, no Ceará. Talvez sua terra natal, coisa que não asseguro, ou de familiares.

Neste blogue, entre inúmeros comentários desferidos ao longo de mais de uma década, ele também deixou um romance incompleto.

De minha parte, embora não o conhecesse pessoalmente, como já referi, mantivemos um contado por telefone de pouca duração. Pois o senhor Inácio sempre esteve muito irritado com a política (com um determinado candidato à Presidência, na verdade) e deixava outros assuntos importantes de nossa amizade em segundo ou terceiro plano.

Enjoado daquele envio de conteúdo feroz, fui aos poucos me conservando em silêncio, e ele findou, não sei o motivo, me bloqueando no WhatsApp. Parou de me ligar e desapareceu da porfia política após seu candidato perder a eleição.

Ao fim e ao cabo, excetuando-se a sua virulência no tocante a alguns políticos, pude observar que o falecido era um indivíduo de bom coração, um sujeito de bem com Deus e respeitável. Torço que a sua obra inacabada (o romance chamado “Maranhão”) seja publicada, ainda que em edição póstuma e inconclusa. A pior coisa para um autor, ao menos para mim, é deixar algo assim, na orfandade.

Publique-se, portanto, preferencialmente com outras informações acerca do literato, o romance do senhor Inácio Augusto de Almeida.

Marcos Ferreira é escritor

A partida do Senhor Inácio

Pesar, morte, lutoCaro Carlos Santos e demais amigos do Nosso Blog,

Comunico ao querido Jornalista Carlos Santos e demais amigos do “Nosso Blog“, o falecimento do amigo Inácio Augusto de Almeida. Inácio sofreu um infarto e faleceu no Hospital Rio Grande, em Natal.

Conheci o Sr.Inácio aqui no Blog quando ele pelejava adotar as duas crianças, filhas do primeiro casamento de sua esposa, Maria. Hoje, as crianças estão adultas. Uma já aprovada na Uern, no Curso de Administração.

Vejam, amigos do “Nosso Blog“, como uma amizade nascida aqui solidificou-se e permaneceu firme. Todos em minha família conheciam sr.Inácio pela troca de WhatsApps. Ele acompanhava o desenvolvimento de meus netos e eu, o de suas filhas.

Perdi um amigo, nascido nas ondas da Internet e abençoado por um Blog excepcional. Deixo nessas linhas, lágrimas de saudade, na certeza de que ele descansa em paz.

Naide Maria Rosado de Souza

Nota do Canal BCS (Blog Carlos Santos) – Querida Naide, eu já tinha informações sobre o quadro delicado de saúde de Inácio Augusto de Almeida (escritor e jornalista), que começou a ser tratado em Mossoró na rede de saúde municipal e Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM). Em seguida, seria levado para o Hospital Wilson Rosado, por sua intervenção direta com o primo e diretor-médico dessa empresa, doutor Bernardo Rosado, que se prontificou a recebê-lo.

Mas, acabou transferido para Natal, também com acompanhamento seu – apesar da distância aí do Rio de Janeiro-RJ.

Por aqui ficam registros de milhares de comentários, opiniões, análises, crônicas, artigos e até um romance incompleto, além de vários arranca-rabos. Foi uma presença diária, compulsiva, caudalosa e, por essência, questionadora e inquieta.

Comigo mesmo arengou várias vezes, além de amuos com outros comentaristas. Reatamos, arengamos, reatamos, arengamos…

Sua participação ocorria há mais de 12 anos, diariamente, nesta página. E, nesse ínterim, nunca tivemos um contato pessoal, ao vivo e em cores. Mesmo caso seu. Coisas desse admirável mundo novo.

É isso.

Descanse em paz, cara.

P.S – Ele será sepultado na cidade de Granja, no Ceará, Cemitério Simbaíba, até o final da manhã dessa sexta-feira (17). Familiares já providenciam translado do corpo.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e YouTube AQUI.

Maranhão – Capítulo XVII

Por Inácio Augusto de Almeida

Quando o Henrique terminou de dar as cartas, Fernando gelou. Tinha recebido um rei, um valete, uma dama e um dez. Todas as cartas do naipe de ouros. A quinta carta não teve coragem de olhar. Preferiu não vê-la de imediato.

Zé Leite foi o primeiro a apostar. Apenas abriu a mesa. Como era o primeiro a falar, pela ordem, disse que jogava. Arrupiado continuava sem coragem de olhar a quinta carta.

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Agora era a sua vez de falar. Tinha cinco cartas na mão, fechadas. Mas só tinha visto quatro.

– As suas duas fichas, Zé Leite, as quatro do Luís e mais oito minhas. Agora o Henrique já diz se entra com quatorze.

O ar superior de falar procurava transmitir aos outros jogadores a certeza de que estava senhor da situação. Mas isto não foi suficiente para expulsar o Henrique da parada. Emérito jogador de pôquer, o coronel reformado não disse uma só palavra. Apenas colocou sobre a mesa as quatorze fichas que o Fernando Arrupiado apostara e, lentamente, contando-as uma a uma, colocou mais vinte e oito fichas. E sequer olhou para o Fernando ou para algum outro jogador.

– Zé Leite olhou bem as cartas e resolveu abandoná-las. Preferia perder as duas fichas iniciais a investir mais quarenta. Luís pensou, pensou, finalmente resolveu completar. Não dobraria, mas também não abandonaria.

Arrupiado sentia-se tentado a olhar a quinta carta. Chegou mesmo a abrir lentamente o baralho. Mas ao chegar na quarta carta, parou. Além do mais sabia que se ela não fosse o ás de ouro, o que completaria o Royal, poderia ser um nove de ouros, o que formaria um street. E mesmo que não fosse um ás ou um nove de ouros, poderia ser muito bem uma carta do naipe de ouros, o que lhe daria ainda um bom jogo. E havia ainda a chance de, mesmo sendo uma carta diferente, poder arriscar pedindo uma carta. E eles iriam pensar que estaria de four.

– Vai jogar, senhor Fernando. Estamos esperando.

– Suas vinte e oito fichas e mais cinquenta e seis.

– Suas cinquenta e seis e mais cento e doze.

O coronel falou calmamente. Fernando e Luís trocaram um rápido olhar.

– Eu passo, disse Luís.

Arrupiado acendeu um cigarro. Passou a mão no queixo. Começou a abrir as cartas. Mas, novamente, parou antes de abrir a quinta.

– Aí estão as cento e doze fichas.

“Se esta carta for o ás de ouros, eu como os galões deste corona. Como não redobrei, ele jamais vai imaginar que eu tenho um Royal de ouros.”

– Vai querer cartas, senhor Fernando?

Aquele senhor colocado antes do seu nome pelo Henrique, deu a Fernando a certeza de que o coronel estava até a tampa. No mínimo é um flash. Tá mais para um street, já que dificilmente poderá haver um four. Zé Leite não jogou, o que indica cartas diferentes. No máximo tinha dois pares. Eu tenho quatro cartas sequenciadas do mesmo naipe. Como o Luís acompanhou até 28 fichas, é provável que estivesse com uma trinca ou uma sequência máxima. Não, o coronel não deve ter four. Ele está com um street. No mínimo com um Flash.

– Vai querer cartas, SEU FERNANDO?

Lentamente começou a olhar a quinta carta. Aos poucos um ás negro foi surgindo. E aquele ás de espadas parecia rir dele. Agora a dúvida. Tinha em mãos uma sequência máxima. Se não pedisse carta, poderia pagar para ver o jogo do coronel. Ele poderia também estar de sequência. E poderia muito bem estar blefando.

– Vai querer cartas, SEU FERNANDO!!!

– Uma carta. Apenas uma.

O coronel Henrique colocou a carta em cima da mesa, em frente ao Fernando e, num gesto lento, abandona o resto do baralho bem no centro da mesa. Apenas as cinco cartas que tirara de mão permaneceram com ele.

– É o senhor quem aposta, SEU FERNANDO!

– Veio em Arrupiado o impulso de, sem olhar a carta, apostar duzentas fichas. Daria ao Henrique a impressão que estaria de four. Mas lembrou-se que estava enfrentando o maior jogador de pôquer do Maranhão.

– Lentamente começou a “chorar” a nova carta.

O ás vermelho começou a surgir. Quando o A ficou totalmente visível, parou. Não sabia se era de ouros. Sabia que era um ás vermelho.

– Duzentas e vinte e quatro fichas, SEU HENRIQUE!

O velho coronel olhou novamente as cartas que tinha. Encarou o Fernando bem de frente e numa voz mais do que firme:

– Aqui estão suas duzentas e vinte e quatro e mais quatrocentas e quarenta e oito, seu Fernando.

Sentiu que o Henrique não tinha Royal. Disto agora tinha certeza. Voltara a aposta, mas já não pronunciava as palavras com tanta firmeza. O coronel tinha um street. Tinha certeza que era um street o jogo dele. Agora, bastava aquele ás ser de ouros. Se fosse, era só apostar mais mil e tantas fichas e passar uns seis meses farreando por conta do Royal.

Começou a puxar lentamente o ás vermelho. Era preciso saber o naipe. Ouros era tudo, copas era nada. E quando o coração vermelho começou a aparecer, teve a impressão de que o seu subia pela boca.

– Vai pagar para ver, SEU FERNANDO?!!!

Não, não podia pagar, nem muito menos tentar um blefe desesperado. O tom de voz do Henrique deixava claro que tinha percebido a sua frustração.

– Não, Henrique, desta vez você ganhou. Pode levar as fichas. Mas, por gentileza, quero ver que jogo você tinha!

– Estamos jogando pôquer, Fernando.

– Sim, sei, mas é que foi uma parada tão interessante…

Juntando as fichas e rindo, Henrique completou:

– Melhor não olhar, Fernando, melhor não olhar. O pôquer, Fernando, é como a vida. Nunca queira saber como seria se não tivesse sido como foi.

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Leia tambémMaranhão – Capítulo I;

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Leia também: Maranhão XVI.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

Maranhão – Capítulo XVI

Por Inácio Augusto de Almeida

– Senhor, escutai a minha prece. Por que tanto sofrimento, Senhor? Que tanto mal eu fiz?fé, oração, 2Lopez falava baixinho, sua voz era um bisbilho. Respirava sem muito ânimo. Quando um raio de sol, atravessando a palha, veio sobre a sua cabeça e tocou os seus olhos, deixando-o encandeado, ergueu a vista para olhar de frente aquela luz. E uma grande esperança começou a tomar conta de si. Começava a crescer nele a esperança. E continuou a rezar… a rezar… a…

 Acordou com uma linda índia a lhe oferecer, dentro de uma cuia, um líquido de uma cor estranha. Pelo gesto que ela fazia, entendeu que era para ele tomar. Ao provar, percebeu que o gosto era agradável. Bebia e olhava a bela índia a sorrir. Lembrou-se de que os canibais, antes de degustarem suas presas, tinham o costume de engordá-las. Deu um pulo e jogou o resto do líquido fora. A índia trocou o sorriso por uma cara fechada. Nos seus olhos, antes ternos, havia agora uma dureza sem brilho.

– Não quero mais, não quero mais.

Lopez falava e gesticulava. Sabia que a índia não entendia o que dizia, por isso se esforçava nos movimentos, principalmente nos das mãos e da cabeça. Ela apenas abaixou-se e pegando a cuia, tomou o resto que ficara, como querendo mostrar ao Lopez que a bebida era boa, que não iria lhe fazer nenhum mal.

Lopez respirou fundo. Era a primeira vez que conseguia algum tipo de comunicação. E bastou isto para o seu espírito irreverente aflorar.

“Se estes índios deixarem eu conseguir me fazer entender, se eu conseguir entendê-los..”

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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo XV

Por Inácio Augusto de Almeida 

– Enfim, voltou. Outro vale?

– Não Bórgia, não. Você só pensa em dinheiro. Tá sabendo que Sarney está na chapa do Tancredo?

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

– Você tá brincando! Você, Conversinha, morre e não aprende. Vai, diz logo de quanto é o vale, diz.

– Bórgia, nem o rádio você ouve mais. Que diabo de jornalista é você? Vai, liga o rádio em qualquer estação, liga.

Bórgia começou a se dar conta de que o Vladimir não estava brincando. Além do mais, em matéria de política, sabia que nada era impossível.

– Tá bem, Conversinha. E daí?

-Ufa, ah inteligência brilhante. Você não tem medo de que eu morra primeiro?

– Se Você morrer primeiro, eu lhe enterro e pronto.

– Ainda bem que você me enterra, não vai fazer como a Viúva Louca que mandou dar o corpo do marido aos urubus e que os ossos fossem jogados no lixo.

– Que história é esta, Conversinha?

– O filho do morto tem isto por escrito. Mas não é da Viúva Louca que eu vim tratar com você. O que eu quero lhe dizer, QI superior, é que nós temos que embarcar nesta maré logo. Mande parar de rodar o jornal. Temos de mudar a manchete.

– Parar?! E o que já está pronto?!

– Vende no quilo ou joga onde a Viúva Louca mandou jogar os ossos do marido.

– Para, para de rodar, Jeremias. Vai, Conversinha, qual vai ser a manchete do O INDEPENDENTE?

– Segura esta, Bórgia. TANCREDO E SARNEY FORMAM CHAPA DEMOCRÁTICA.

– Sei não, Vladimir. Está me parecendo uma manchete fria.

– Fria, não. Cautelosa. A porta está apenas entreaberta. O homem que gosta de cheiro de cavalo pode resolver…

– Resolve nada. Se pensar em retrocesso, Conversinha, o povo escancara a porta de vez.

– Vladimir riu. O Bórgia não tinha mesmo jeito.

– Então tá. Vamos entrar com tudo. Não é assim que você quer? Veja se desta você gosta.

TANCREDO E SARNEY UNEM-SE E DITADURA AGONIZA.

-Tá doido, tá doido. Você com seus exageros ainda vai terminar fechando o jornal.

– O INDEPENDENTE?

– De que jornal estamos falando, seu capadócio?

– Seu o quê?

– Para de gracejos, Conversinha. Tá todo mundo esperando o diabo desta manchete. Já são quase duas da madrugada, deste jeito o jornal vai atrasar.

– Atrasa não, vamos tentar outra.

Passando as mãos na cabeça, o Bórgia era o retrato vivo da angústia, da aflição, da ansiedade. O desejo de agradar Sarney se contrapondo ao medo de uma reviravolta no quadro político. Aí, lembrou-se do calcanhar de Aquiles do Conversinha.

– Se você fizer a manchete e a matéria em menos de quinze minutos, nós saímos daqui direto para a Maria Araújo, e vai ser cerveja até amanhã.

– Pegamos o sol com a mão?

– Com a mão, palavra do Bórgia.

– Vem, senta aqui atrás da minha cadeira…

E a máquina de escrever começou a funcionar numa velocidade estonteante.

REDEMOCRATIZAÇÃO: TANCREDO E SARNEY UNIDOS.

Conversinha virou-se na cadeira e perguntou:

– Tá boa, começo a matéria?

Bórgia suspirou aliviado.

-Vai, tá ótima, faz a matéria.

Levantou-se da cadeira e, andando em círculos, enquanto esfregava as mãos, olhava para o Conversinha e se animava até a cantarolar um tango. Quando sentia-se feliz tinha este hábito. Passava a sentir-se o próprio Gardel. Conversinha é que é que não aguentava o desafino. E cheio de moral.

– Ou você para, ou paro eu.

– Claro, claro, vai, continua a escrever.

A cadência da máquina de escrever lembrava o matraquear de uma metralhadora. Conversinha escrevia numa velocidade assustadora.

Em silêncio, Bórgia se afasta e fica encostado na porta de entrada do jornal, de lá, olhando para Conversinha. Tinha por ele uma profunda admiração, sabia o quanto era competente. Pena que seu pouco senso de responsabilidade e o amor à bebida o tornava um profissional de pouca confiabilidade. Era dotado de grande senso jornalístico, mas…

– Na porta, Bórgia.

– É, olhando estrelas.

– Vai ver procurando nelas um homem honesto como você.

– Vai te lascar, Lopes.

Arrupiado riu. Aquele Lopes não perdia uma chance de sacanear o Bórgia.

– E vocês, que diabos estão fazendo por uma hora destas? Perderam o sono?

– Não, Bórgia. Eu passei lá no Grêmio para fazer uma horinha e como o Fernando já ia saindo, resolvemos dar uma volta nas meninas.

O barulho da máquina do Conversinha parou.

– Lopes, Arrupiado! Vamos, entrem.

– Vão entrar não. Eles já estão indo para a Maria Araújo. Vão, vão, digam a Maria que eu e o Conversinha tamos já chegando. E podem ir bebendo que a festa é minha. Vão, vão, antes que eu mude de idéia.

E, virando-se para Conversinha.

– Vai, continua a escrever. Você só vai se levantar daí quando terminar.

Mal o Lopes e o Arrupiado dobraram a esquina, o Conversinha puxou o papel da máquina, anunciando o término, e já puxando o Bórgia pelo braço.

–  Vamos, vamos que hoje vai ser uma noitada inesquecível. Pode deixar que daqui pra frente o Jeremias faz o resto.

– Só se eu estivesse louco, mandar rodar um jornal sem ler a matéria da primeira página. Principalmente quando feita por você, seu irresponsável.

Conversinha ria. Sabia do bem que o Bórgia lhe queria. Mas sabia também o quanto o dono do O INDEPENDENTE era cauteloso… Aproveitou enquanto Bórgia lia para pentear os cabelos, mania que tinha sempre ao terminar uma matéria que achava ter ficado boa.

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(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo XIV

Por Inácio Augusto de Almeida

Dentro do ônibus, Izaías não conseguia tirar da cabeça a figura da velha cigana. A bolsa em que trazia as cadernetas de anotações que o Sandoval lhe entregara estava embaixo dos seus pés. Em nenhum momento dela perdia contato. Representavam aquelas cadernetas, para ele, a certeza de uma boa gratificação e a possibilidade de novos serviços.cigana,mesa de cigana,adivinhação, ler o futuro, adivinhação, oráculo, magia

Num banco ao lado, um homem obeso, bastante obeso, que tempos depois Izaías iria saber ser, aquele gordo, o maior orador político do Maranhão. Um paraibano que falava de uma forma fluente e vibrante e que era capaz de convencer um padre das vantagens do pecado. Mário de Almeida, Mário Cavalcanti de Almeida, de quem José Américo de Almeida era tio.

A estrada de terra fazia com que o ônibus sacudisse um pouco, mas isto não era o mais ruim. O pior era o gosto de terra, a poeira que entrava pela janela quando um outro carro cruzava. Olhou para os outros passageiros. Mário de Almeida dormia o sono dos justos. Os outros pareciam assustados com os solavancos provocados pela buraqueira que Dr. Feriado tinha apelidado de estrada. Contando ele mesmo, Izaías viu que havia apenas oito passageiros dentro do ônibus. E havia lugar para mais de vinte. Para ser exato, havia vinte e cinco lugares dentro daquela carroceria de madeira.

A figura da cigana teimava em voltar. Às vezes tinha a impressão de que ela estava ali, dentro daquele ônibus.

“Eu ser um escritor… Sandoval tem razão. Aquela cigana queria mesmo uma moeda. E conseguiu…”

Mário Cavalcanti de Almeida começou a roncar.

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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

Maranhão – Capítulo XIII

Por Inácio Augusto de Almeida

As índias eram realmente bonitas. Lopez vivia a dúvida da aproximação. Navegava entre o medo de índios canibais e o esplendor daquelas índias. A libido do espanhol foi mais forte do que o medo. Esgueirando-se a vegetação quase rasteira da margem do rio. Lopez ia pouco a pouco aproximando-se do grupo alegre que se banhava.lenda amazônica, índia, mulher, ilustração

O voo das garças e das jaçanãs, não conseguia desviar os olhos de Lopez.

Nem mesmo quando quase esbarra num bando de marrecas, que assustadas, alçam voo, tirou os olhos das índias. Lopez estava fascinado, mas as índias não. E ao verem a revoada de marrecas, perceberam que havia alguém a espiá-las. E quando deram o alarme…

– Senhores, senhores…

Colocado numa pequena casa de palha, bem no fundo da taba, o marujo espanhol sentiu-se pela primeira vez em sua vida sem forças para continuar lutando. Havia o cansaço, a desesperança, a falta de tudo. De joelhos começou a rezar. Sabia que só um milagre poderia salvá-lo.

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Inácio Augusto de Almeida Boêmio/Sonhador

Maranhão – Capítulo XII

Por Inácio Augusto de Almeida 

O domingo amanhecera radiante. Maurílio passara em frente ao Grêmio 1⁰ de Janeiro, mas não entrara. Lá dentro estavam os carteadores. A turma do bilhar nunca comparecia pela manhã. E como o Grêmio aos domingos só funcionava até o meio-dia, o médico resolveu ir papear nos abrigos da João Lisboa, como sempre fazia quando não ia ao Olho d’Água, a exemplo de metade da população de São Luís. cerveja-e-corrida

Nas manchetes dos jornais espalhados pela calçada de forma ordenada, leu que Jânio Quadros prometia varrer a corrupção do país. Riu, discretamente, intimamente, riu. A dúvida era se ria de Jânio ou de si mesmo. Mas tinha certeza de que alguém estava pensando que alguém era ingênuo.

Enquanto atravessava a rua, olhou que, nos relógios da coluna, os ponteiros marcavam dez horas em ponto. Nas escadas da Igreja, algumas pessoas papeavam.

– Maurílio, Maurílio!

Era Conversinha com aquele seu jeitinho insinuante e agradável. Sentiu que não escaparia de algumas cervejas.

– Viu as manchetes, Conversinha?

– A do O INDEPENDENTE eu fiz.

– E você acredita que ele consiga?

– Há, há, há.

– Tá rindo de que?

– Da sua pergunta, há, há, há.

– Você é mesmo um gozador.

– Eu? Ou você é que tá querendo zombetear.

– Vai uma cerveja?

– Claro, claro.

A garapeira do velho Guará estava fechada. Ele nunca a abria aos domingos. Quem gostava disto era o Pelado, pois assim podia ir dar o seu mergulho nas águas quentes da Ponta d’Areia. Durante toda a semana Pelado era o incansável servidor de caldo de cana e pão semolina. Mas aos domingos, ninguém o afastava da praia.

– Veio tomar cerveja, Maurílio, ou tá querendo caldo de cana? Você não para de olhar a garapeira.

– Sabe, Conversinha, eu às vezes ainda me surpreendo com a solidariedade que existe entre os pobres. Você sabe que o Pelado, o Pelado do Guará.

Fez uma pausa. Engoliu um pouco de cerveja, como se quisesse recompor-se.

– Vai, continua. Eu sei quem é o Pelado. Todos em São Luís conhecem-no.

Com este conhecem-no do Conversinha, numa conversa de beira de balcão regada a cerveja numa manhã de domingo, Maurílio trocou o ar sério, quase sorumbático, por um meio riso.

– Pois bem. O Pelado, um homem pobre, inculto, é capaz de atos fraternos, de atos solidários, coisa que muita gente que vive papando hóstias, pessoas ditas cultas, não são capazes de fazer.

– Maurílio, limpar hostiários não significa estar com Deus. E estes tipos a que você se referiu como ditos cultos, na realidade são cultos. Muito cultos. Só que sensibilidade, amor ao próximo, bondade, não são coisas que se aprende lendo. Franz Kafka, Niccoló Machiavelli, Michel de Montaigne ou Bernardo de Almeida, todos eles colocaram em suas obras a importância da solidariedade, da fraternidade, do amor. Mas isto não depende de quem escreve. Estes sentimentos são inerentes aos puros, aos de bom coração. Não, não se adquire estes valores através da cultura. Eles brotam de dentro, do fundo do coração.

Maurílio olhava para Conversinha de maneira respeitosa. Sabia das traquinagens que o jornalista fazia, dos “traços” que dava em alguns poderosos e vaidosos. Mas sabia também da bondade existente na alma daquele homem de menos de metro e meio de altura.

Você tem razão, Conversinha. Enquanto o Pelado arrisca o emprego, a sobrevivência, para dar dois pães a quem só tem ficha pra um, por saber que ali está a primeira e talvez a única refeição de pobres meninos de rua, tipos ricos e cultos negam uma moeda a pedintes famintos.

– Maurílio, o domingo está bonito, a cerveja bem gelada e já vai para quase dois mil anos que Cristo foi pregado numa cruz. A injustiça social vem desde que começou o mundo. Eu já estou é para fundar o PIS.

– PIS, Conversinha?

– Sim, Maurílio. O Partido da Injustiça Social. Uma coisa que já existe há tanto tempo, que todo mundo diz combater e que continua existindo, só pode ser uma coisa muito forte, forte e boa para quem a pratica. E já tenho palavras de ordem. Veja: pela exploração do homem pelo homem. Pela desigualdade social. Por aumento nas taxas de juros. Pela criança fora da escola. Por uma anistia ampla e irrestrita a todos os deslizes do colarinho branco.

– Deslizes, Conversinha?

– Deslizes, sim, Maurílio. Pobre é que comete crime. A turma do colarinho branco fica só no deslize. Deixe-me continuar, ou você não quer saber o restante do programa do nosso partido?

Esforçando-se para controlar o riso, Maurílio conseguiu dizer:

– Nosso, não. O seu partido.

– Meu ou nosso, vamos em frente. Por igrejas alternativas mais fortes e em maior quantidade. Pela manutenção dos privilégios e criação de novas seitas. Pela acentuação da divisão de classes. E como ponto inegociável do nosso programa: a defesa do direito adquirido! Neste não admitimos que ninguém toque. Ninguém!

– Maurílio ria a não mais poder. Chegava mesmo a curvar o corpo. Os seus olhos ficaram cheios de lágrimas, talvez de tanto rir ou, quem sabe, de constatar que tudo aquilo que o Conversinha falava acontecia realmente todos os dias e ninguém se tocava. Olhou para o Conversinha com uma enorme simpatia. Taí a razão de gostar daquele jornalista falante. E quando pensava em dizer alguma coisa, sentiu uma mão pousar no seu ombro.

– Na cervejinha, hein, Doutor. Vai ver o Conversinha já lhe fez dar boas risadas.

– Ainda não, Lopes. Hoje ele está mais para o trágico do que para o cômico.

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Leia também: Maranhão – Capítulo XI.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo XI

Por Inácio Augusto de Almeida 

Lázaro de Melo, com suas feições disformes, mais lembrava uma destas figuras saídas do folclore. O nariz bastante largo, apesar de não ser negro, os olhos muito juntos, os dentes irregulares, a boca torta e enfeiada por lábios excessivamente grandes, como se estivessem eternamente inchados.homem e mulher, banco de praça, praça, homem, mulher, casal separado, separação

O corpo era empenado, como se vivesse sempre a carregar um peso num dos lados. Tinha um andar descompensado. Mas era o irmão de Luzia.

Beckman não conseguia entender como uma mulher da fibra de Luzia tinha como irmão um tipo como Lázaro. Se ela era a coragem, Lázaro era a covardia. A lealdade e a perfídia estavam postas em corpos diferentes, porém da mesma origem familiar.

Beckman amava Luzia. E por amá-la, tinha que aceitar o tipo desprezível. Afinal, Lázaro era o único membro da família de Luzia que restava. Viúva e sem filhos, ainda jovem, restara-lhe apenas aquele irmão. E por ele sentia-se responsável, já que perderam os pais quando ainda eram crianças.

O maior contraste estava na aparência de ambos. Luzia era de uma beleza quase indescritível. Corpo esbelto, pele macia, olhos negros de um brilho exagerado. Seios firmes, coxas roliças. Enfim, um corpo perfeito. E o rosto era de uma beleza angelical.

Difícil acreditar que fossem irmãos. Na verdade, não tinham nada em comum. Nem o corpo, nem o espírito.

Mas eram irmãos.

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Leia também: Maranhão – Capítulo X.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo X

Por Inácio Augusto de Almeida 

Não foi muito difícil enganar os outros marujos. Embrenhou-se na mata e rezava para que logo escurecesse. Sabia que os outros voltariam ao navio antes do sol se pôr. Tinham medo de criaturas fantásticas. Lopez tinha mais ódio do Alonso.

Foto ilustrativa da Web
Foto ilustrativa da Web

Sentia, com a chegada da noite a presença de mosquitos. Não era de acreditar em monstros d’água. Sempre desconfiara destas estórias. Achava que eram lendas contadas aos marujos para que não desertassem. Somente quando a jiboia açu roçou as suas pernas foi que se deu conta de que uma enorme cobra estava ao seu lado. O medo o tornara estático. Nem respirar conseguia. Soprou todo o ar que estava nos pulmões ao ver o grande réptil mergulhar por completo na água.

Já tinha caminhado bastante desde que se afastara dos marinheiros. Olhou para cima e por entre a folhagem, viu estrelas que brilhavam intensamente. O cansaço da caminhada em ritmo forçado, os dias na solitária, o medo, tudo lhe dava uma fadiga que começava a tomar conta de todo o seu corpo. Não sentia sede nem fome. Estava totalmente exausto.

Sentiu no rosto os primeiros raios de sol de uma manhã que se mostrava bastante clara, apesar da vegetação espessa. O céu que deu para vislumbrar era de um azul total. Descobriu que na sua caminhada desvairada tinha chegado a um rio. Um grande rio.

Olhou para cima novamente e, vendo o grande céu azulado, deu ao rio o nome de rio Anil. Não era assim que faziam os grandes descobridores?… E conseguiu rir. Riu por se sentir um grande descobridor e por se lembrar da cara que o Alonso devia estar fazendo.

Na outra margem notou que havia movimento. De imediato, deitou-se, certo de que eram os marujos do Alonso à sua procura. Estava disposto a morrer, mas jamais voltaria àquele navio. Lopez permaneceu totalmente imóvel até notar que eram uns selvagens chegando para o banho e para a pesca. E viu que as índias eram bonitas. E jurou que nestas terras ficaria.

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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo IX

Por Inácio Augusto de Almeida

– Comadre, o mingau de arroz está melhor do que nunca!

Foto ilustrativa (reprodução da Web)
Foto ilustrativa (reprodução da Web)

Socorro riu, mostrando a bonita dentadura. Seus olhos brilhavam mais do que as estrelas nas noites de verão do Maranhão. Nada lhe deixava mais feliz do que ouvir elogios. Mas sabia dos exageros do Lopes.

– Compadre, não vai dizer nada hoje?

Lopes pensou, pensou. O menino de cabelos cortados à escovinha se aproximou mais da banca da Socorro e ficou com a cabeça inclinada.

– O caminho do inferno passa por uma mulher louca.

Socorro deu uma gargalhada. E, enquanto ria a não mais poder e servia um outro freguês, derramando mais mingau do que conseguindo colocar no copo, ainda conseguiu dizer:

– O compadre conhece o caminho do inferno?

Lopes olhou para aquela negra inteligente, a quem tanto queria bem, e devolveu a pergunta:

– E quem não conhece?

O menino afastou-se lentamente. Não ria. A Socorro também não ria.

Uma chuvinha miúda teimava em continuar caindo…

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo VIII

Por Inácio Augusto de Almeida

Vargem Grande poderia ter, no máximo, dois mil habitantes. O único hotel da cidade era a pensão da Dona Luzia, uma mulher bastante robusta, de cabelos aloirados e olhos esverdeados. Os quartos eram delimitados por tabiques.

Na verdade, um grande salão tinha sido dividido em vários cubículos pela Dona Luzia. Sandoval já estava na pensão há uns dois dias, tempo que dedicara a conhecer a filha de Luzia, uma mocinha linda que começava a desabrochar para a vida. Muita gente em Vargem Grande falava que a pensão vivia quase sempre cheia mais pela menina-moça do que pelo conforto ou pela comida. Talvez falaços de uma cidadezinha do interior maranhense nos anos 50 deste último século do II milênio.

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Diariamente tinha que caminhar mais de vinte quilômetros carregando um teodolito e o respectivo tripé. Coisa de uns trinta quilos, pois a madeira do tripé era de maçaranduba-do-pará. Mas nem mesmo este esforço que deixaria extenuado um homem comum conseguia cansar Sandoval. Acostumado que estava, desde garoto, à prática de esportes, principalmente o halterofilismo, para ele, aquilo representava um esforço normal. Além do mais, a perspectiva do ganho que iria lhe possibilitar alimentar-se pelos próximos dois meses…

O vento batia um pouco forte e levantava alguns redemoinhos aqui e ali. A areia seca do verão chegava a tocar os olhos de Sandoval. Olhos que estavam umedecidos pela saudade do tempo em que galopava pelas grandes campinas, montado num fogoso alazão.

Sandoval estava sentado na borda de uma cacimba. Um pé a balançar e o outro colocado em cima do anel que circundava o poço. Brincava de balançar a corda da lata, talvez imaginando-se a laçar algum touro bravio. A tarde de domingo apenas começava.

– Sandoval. Sandoval.

– Hein.

Levantou os olhos e viu aquele garoto de cabelos que lembrava uma escova de sapato.

– Você, por aqui? O Lopes também arranjou alguma coisa para você?

 – Não, não. Eu apenas tenho que apanhar uns papéis, umas cadernetas de anotações. Mas foi seu Lopes que arranjou para mim esta viagem.

 – Já sei. São as cadernetas de anotações das leituras do teodolito. Estão lá no hotel, no quarto do Ribamar.

Quando Sandoval começava a ficar de pé, percebeu a aproximação de uma senhora de idade bastante avançada. Magra, de olhos fundos, maltrapilha. Tentou desviar os olhos daquela velha que parecia ser fantasmagórica, mas não conseguiu. Estava como que cristalizado por aquela imagem. Notou nos olhos da velha uma profunda ternura, uma simpatia irradiava do semblante da velhinha. Olhou para o garoto e viu que ele também estava embevecido.

– Sente, meu filho, sente.

– Eu?

– Sim, você. E você, menino, fique também.

Izaías, que já pensava em começar a sair, meio a contragosto, ficou.

– Dê-me a sua mão, eu leio mão.

Sandoval relaxou. Abriu o sorriso e com os olhos brilhando:

– Eu não tenho dinheiro. Nem eu, nem este garoto. Nós somos dois lascados.

– Eu estou pedindo sua mão para ler. Eu não estou lhe pedindo dinheiro.

– Tudo bem, mas estou lhe avisando que não tenho dinheiro.

– Eu estou pedindo a sua mão para ler. Eu não estou lhe pedindo dinheiro.

A velha começou a olhar a mão de Sandoval. Ficou muito séria. Olhou para cima como se buscasse, nas nuvens que passavam, explicação para o que acabara de ver nas linhas da mão daquele moço. Coçou a cabeça, fechou a mão do Sandoval, dobrando os dedos fortemente. Uns dois minutos se passaram, tempo em que pareceu mergulhar num profundo transe. Por fim, abriu os olhos e, bruscamente, voltou a espalmar a mão dele. Sandoval já não sorria. O ar de gracejo tinha desaparecido do seu rosto.

– Você vai viver para sempre no Maranhão. Você já viveu outras vezes aqui no Maranhão. Esta não é a primeira vez que você vive aqui. Você vai ser uma autoridade muito grande. Não vai ser maior porque uma mulher vai lhe prejudicar muito.

Nesse momento, Sandoval lembrou-se da história de que toda cigana sempre fala que uma loura ou uma morena…

A velha voltou a falar:

– Não é isto que você está pensando. Eu falo de uma mulher que devia lhe proteger, lhe ajudar. E que tudo fará para lhe destruir. Não, não me pergunte quem é esta mulher. Quando for o tempo de saber, você saberá. Eu só posso lhe dizer isto.

 –  Diga-me, diga-me quem é esta mulher.

 – Não posso.

 – Se ela me fizer tanto mal, assim como você está me dizendo, eu mato a cachorra.

 Quando Sandoval falou em matar a mulher que iria prejudicá-lo, pela primeira vez a velha sorriu.

 – Esta mulher que vai prejudicar muito a sua vida, esta mulher você não poderá matar.

 – Por quê?!

 – Quando o tempo chegar você saberá porque.

 O garoto Izaías estava meio assustado.

 – E quanto a minha vida? Perguntou Sandoval?

 – Você vai se casar e terá filhos.

 – Casar, ter filhos?

 – E conhecerá seus netos. E passeará com seus bisnetos.

 – Então eu vou viver muito?

 – Isto eu já lhe respondi. Desta vez você veio para se demorar mais.

 Izaías estava meio tonto. A velhinha já lhe era até simpática. Quase sem voz, estirou a mão e pediu que ela também lhe dissesse alguma coisa.

 – Você, meu garoto, não vai ficar aqui no Maranhão.

 A velhinha levantou a vista e meio séria falou:

 – Você vai virar o mundo. Sua vida é sem muitas novidades. Talvez por isso você termine escrevendo livros.

 -Ele, este garoto, vai ser um escritor? Há, há, há, esta eu vou contar para o Lopes.

– Fale nada para o Lopes não. Ajude o Lopes nos anos que virão. Lembre-se sempre destes anos de agora. E agora eu já me vou. Nós ainda nos veremos, no dia que você voltar a Vargem Grande como autoridade.

– Quando a velhinha ia saindo, Izaías tirou do bolso a única moeda que tinha e deu àquela que acabara de predizer o futuro dele e o de Sandoval.

Ao ver Izaías dar a moeda, Sandoval riu.

Então, garoto, você acreditou?

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Leia também: Maranhão – Capítulo VII.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo VII

Por Inácio Augusto de Almeida 

Na taverna do Caolho, o vinho tinha corrido frouxo a noite toda. J. Hidalgo, a quem carinhosamente chamavam de Caolho, tinha distribuído a bebida de graça. São Luís era uma festa só. Apenas a tentativa de saque do armazém do Estanco, empresa que controlava e explorava todo o comércio de alimentos de São Luís, tinha desgostado um pouco Bequimão. Mas ele entendia perfeitamente o quanto o povo era revoltado com os exploradores.caneca medieval para vinho

O Estanco tinha sido a causa principal da revolta que tinha determinado a revolução. Os padres jesuítas estavam reclusos em seu colégio. O Capitão-Mor tinha sido deposto e se achava preso. Uma Junta Governativa tinha sido proclamada. Bequimão, por unanimidade, foi escolhido o chefe e com a ajuda do Frei Elias de Santa Tereza e do seu irmão Tomás Beckman, escolheu os demais membros.

Os sinos de todas as igrejas a tocar eram ouvidos em toda a cidade. Nas ruas os jovens festejavam dançando e cantando. Desciam em bandos no rumo do Largo do Carmo, já repleto de pessoas de todas as idades e níveis sociais.

Naquele dia não havia ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, apenas vitoriosos. E todos se sentiam vitoriosos e sonhavam com um porvir livre de toda e qualquer exploração. J. Hidalgo Lopez, o Caolho, pensava em como recuperar o vinho que tinha distribuído de graça na noite anterior. Assim, alegando que o vinho que agora estava servindo era de uma outra qualidade, aumentara o preço da botija.

– Eita espanhol ladrãozinho. Acabamos com o Estanco e você ficou no lugar daquela quadrilha!

– Poeta, é que o vinho é de uma qualidade melhor.

– Coisa nenhuma Lopez, continuou a reclamar Bernardo Almeida.

– Prove do vinho, prove, Poeta!

O poeta Bernardo Almeida, o maior conhecedor de vinhos de toda São Luís, riu. Gostava daquele Lopez, mesmo sabendo ser aquele maranhense metido a espanhol, um perito em aumentar as contas dos embriagados. Gostava do orgulho que ele sentia da sua origem hispânica.

Lopez havia lhe contado que o seu tataravô tinha chegado a São Luís antes dos portugueses, desertor que fora de uma caravela comandada por um tal de Ojeda. Alonso de Ojeda. Daí o poeta, quando queria admoestar o Lopez, dizia:

– Para com esta alonsada.

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Leia também: Maranhão – Capitulo VI.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo VI

Por Inácio Augusto de Almeida

As largas avenidas bem iluminadas, o passar-passar de carros, o som do reggae, as motos envenenadas dos jovens que, apesar do calor, teimam em usar blusões de couro…

Avenida Beira-Mar em São Luís (Foto ilustrativa)
Avenida Beira-Mar em São Luís (Foto ilustrativa)

Na Avenida Litorânea, a brisa do começo de noite tornava menos quente, para os coopistas, a caminhada do fim de tarde.

Entre os muitos carros que iam e vinham, deu para o menino de cabelos cortados à escovinha ver o grande carro que levava a Viúva Louca para a pizza com guaraná champanhe. Não havia necessidade de olhar a folhinha. Com certeza, o dia era sábado.

Sentiu que aquela Avenida ainda não ganhara um nome definitivo porque esperava que um político de renome nacional se fosse desta para melhor. Tem coisas que só acontecem no Maranhão. Reserva de mercado de nome de Avenidas, Ruas, Cidades. Ou será que ruas vão ser chamadas infinitamente de rua 42, Avenida N etc.? E será que cidades vão manter nomes como São João dos Poleiros, Muriçoca, Curva Grande e Olho d’ Água das Cunhãs?

Cidades que estão cercadas por outras de nomes como: Vitorino Freire, Pio XII, Governador Archer, Gonçalves Dias, Presidente Dutra, etc. E olhe que Eurico Gaspar Dutra não era maranhense. Será que o Presidente José Sarney, maranhense de Pinheiro, maior expressão política do Maranhão em todos os tempos, vai ficar sem ter uma cidade com o seu nome?

O calçadão começava a ficar congestionado. Já não eram apenas os que iam fazer a caminhada diária. Chegavam com a noite os apreciadores de caranguejo, os degustadores de camarão. Os que tinham a felicidade de poder desfrutar daquela brisa, da noite mais que estrelada que só São Luís oferece.

Começou a limpar os vidros. Junto com a brisa vinha uma camada de areia gina que embaçava quase que por completo os para-brisas dos carros que ficava a vigiar. Tinha que fazer isto a cada meia hora. Embaixo do braço o livro. Era nos intervalos que tinha algum tempo para estudar.

Olhou para as luzes de São Luís e lembrou-se de Manuel Beckman, o Bequimão, o maior herói maranhense. Um português nascido em Lisboa, mas que tinha abraçado a causa dos maranhenses mais do que qualquer um outro da terra.

Coisas do Maranhão.

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Leia também: Maranhão – Capítulo V.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

Este capítulo é dedicado ao Marcos Ferreira, maior escritor mossoroense em atividade.

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo V

Por Inácio Augusto de Almeida  pagamento, dinheiro, salário, folha,

– O Doutor esteve por aqui procurando por você.

– Por mim, Lopes? O que ele quer comigo?

– Parece que é para você ir a Vargem Grande. Negócio de carregar um teodolito. Sei lá, parece que o nome é este. Diz ele que é uma peça muito pesada e precisa de um homem forte como você para carregá-la.

Sandoval afastou a trunfa de cabelos que teimava em cobrir-lhe os olhos. Não respondeu de imediato ao Lopes. Querer ir não queria, mas estava sem dinheiro até para comer. Às vezes,  virava as noites estudando como uma forma de espantar a fome. Ontem tinha sido uma delas. Fazer o quê…

– E ele paga bem?

– Se paga bem eu não sei. Mas que ele vai lhe pagar, vai. Ele é safadinho mas não é doido, há, há, há.

– Quando ele aparecer por aqui, diz que eu estou em frente ao Hotel Central. Se a grana compensar, se for coisa de eu passar lá dez dias e o dinheiro que eu ganhar der para eu comer vinte dias, eu vou.

– Vai dar é para mais.

Olhou bem para a estátua de João Lisboa. E lembrou-se de que não tinha visto ainda em São Luís nenhuma estátua de Manuel Bequimão. Continuou andando e quando passava na na praça Benedito Leite, já quase em frente ao Hotel Central, viu uma outra estátua. Mas também não era de Bequimão…

“Aos vencedores, tudo. Aos derrotados as cebolas. E isto enquanto estiverem baratas. Mas Bequimão não foi um derrotado. Bequimão foi o mais vitorioso de todos os maranhenses. Um dia, São Luís terá uma enorme estátua deste grande homem. Um dia, a maior praça desta cidade terá o seu nome. Por que não um grande parque, um enorme parque com o seu nome?”

– Sandoval.

– Sandoval, acorda homem! O Doutor quer falar contigo. É para ir a …

– Já sei, já sei. Vamos lá. Dependendo do dinheiro, eu viajo agora.

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Leia também: Maranhão – Capítulo IV.

Inácio Augusto de Almeida é Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo IV

Por Inácio Augusto de Almeida

Juan Lopez tinha o costume de passar as suas horas livres no tombadilho do Regina. O barulho das ondas a baterem no casco do navio de Alonso de Ojeda. E aquele marulhar era, para Lopez, como uma canção de ninar. Fitando as estrelas da noite clara daquele luar de agosto, recordava-se da sua Espanha querida.

Foto ilustrativa (Web)
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“Carmem, Carmem. Com quem estará Carmem dormindo esta noite?”

No céu mais do que estrelado daquele verão no Atlântico Sul surgiu como por encanto uma pequena luz. A princípio, Juan Lopez não fez muito caso daquele brilho. Acostumado a navegar por todos os oceanos do planeta, já vira de tudo. Numa ressaca braba, saindo de um porto que o porre fez com que esquecesse o nome, viu uma sereia que subiu a amurada deste mesmo Regina para lhe convidar a um mergulho. Só não afundou com aquela coisa linda porque já tinha ouvido falar de Ulisses. Estava bêbado, sim, mas não era doido. Nem doido, nem besta.

Juan Lopez riu ao se lembrar da sereia. E lembrou-se também da Greta. Greta, a mais envolvente de todas as mulheres de cais do porto.

Mas a luz se tornava cada vez mais forte. O que antes parecia uma moeda de dobrão, agora já se mostrava do tamanho da lua. E com mais brilho, mesmo sendo uma noite de fase cheia.

Quando observou que aquela luz começava a se movimentar com uma velocidade estonteante, fazendo movimentos curvilíneos, deu um salto e, de pé, tentando se equilibrar ao balanço do navio, passou a gritar feito um desesperado. Alguns marujos que acorreram ainda conseguiram ver alguma coisa diferente no céu. Mas a grande maioria nada viu. E para o comandante Alonso de Ojeda, aquela gritaria toda não tinha passado de mais uma presepada do Lopez.

–  Quatro dias a ferro, para não assustar a marujada. E outra desta eu te deixo no primeiro chão de terra que avistar.

Mesmo já estando quase que acostumado à solitária, Lopez sentia muita revolta. Ele tinha visto a luz, não inventara nada. Outros também tinham visto, mas por covardia, calavam-se. No fundo do seu coração crescia um sentimento enorme de revolta, de vontade de tudo e de nada.

A luz do sol doía-lhe os olhos. Levou algum tempo até voltar a se acostumar com a claridade. Só então se deu conta de que o Regina já não navegava em mar aberto. Com as velas arriadas, lentamente se aproximava de uma praia de ondas tranquilas e de águas límpidas, transparentes. Nas brancas areias, dunas cobertas de uma vegetação rasteira, nenhuma presença de animais ou de selvagens.

– Arriar bote, gritou Alonso.

– Quantos homens mando no bote?

– Mande cinco, Júlio.

E cinco homens foram mandados à terra. E só quatro homens voltaram.

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Leia também: Maranhão – Capítulo III.

Inácio Augusto de Almeida é Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo III

Por Inácio Augusto de Almeida

Do alto dos seus cento e quarenta e cinco centímetros, Conversinha abriu o seu riso safado. E, fazendo-se de vítima:

– Você me explora, Bórgia. Me coloca em missões impossíveis e ainda me acusa de ser, dentro deste jornal, um privilegiado. Ou será que ir a Belém, ficar dentro daqueles hotéis, enfrentar coquetéis, jantares e discursos, é tarefa para um jornalista qualquer? Só um vocacionado como eu suporta tarefa tamanha.

Foto ilustrativa (Web)
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– Explora o que, seu cascateiro. Quando é para ir ao Tirirical esperar a chegada de um político, você pula fora. Até adoecer, adoece.

– Bórgia, aeroporto é lugar de se esperar avião para embarcar.

– Você é como os outros que eu conheço. Dissimulado, ingrato e ambicioso.

– Tudo bem, Bórgia, tudo bem. Mas não se esqueça da verba da Secretaria de Comunicação Social que eu puxei para o jornal.

– Vai viver eternamente disto? Vai?

Conversinha resolveu sair da redação. No dia em que o Bórgia entrava nas suas enxaquecas… Até achar que os outros eram os dissimulados, ingratos e ambiciosos, ele achava. O Bórgia achando os outros ambiciosos… Dá para rir…

Na sorveteria que ficava no Ferro de Engomar, bem em frente ao jornal, pediu um sorvete de bacuri. Cada colherada era uma resmungada e uma praga atirada no Bórgia. O rapazinho de cabelos à escovinha começou a rir da sua maluquice. Ficou sério e concluiu que o Bórgia o estava levando à loucura. Nem mesmo se lembrou que tinha passado uma semana sem aparecer no jornal.

– Ainda bem, que ele não estava cantando nenhum tango.

– Conversinha. Tomando sorvete? Eita ressaca braba, hein?

– A ressaca não é nada. Brabo mesmo é enfrentar o Bórgia. Ainda bem que consegui o vale. Dele estou livre mais uma semana. E você, Arrupiado, deu-se bem no jogo?

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Leia também: Maranhão – Capítulo I;

Leia também: Maranhão – Capítulo II.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo II

Por Inácio Augusto de Almeida

Era um tipo baixinho, gordinho e tinha uma cara de safadinho. Andava sempre em companhia de um deficiente físico, a quem o Lopes costumava chamar de o único bideficiente físico do mundo. E explicava:

– Além do problema na perna, é deficiente, também, de caráter.

Foto ilustrativa (Web)
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Mas a grande restrição não era feita ao bideficiente. O gordinho safadinho é que o Lopes não conseguia engolir. Mas como a profissão o obrigava a alguns sacrifícios…

– Doutor! Manda o quê, Doutor?

– Tô atrás do Sandoval. Preciso mandá-lo até Vargem Grande. Ele é forte e estamos precisando de um cabra forte para carregar o teodolito. Coisa de poucos dias, já que o trabalho da topografia está quase terminando.

– Então o trecho Vargem Grande/Urbano Santos está terminado?

– Não, Lopes, quase terminado. Se acabar logo como você quer, deixa de chegar dinheiro, há, há, há.

– Claro, claro (ladrãozinho safadinho). Mas o Sandoval só costuma aparecer aqui lá por volta das dez horas. Fica lendo até tarde.

– Pelo menos nestes dias que ele estiver carregando o teodolito não vai estragar a vista.

– Preste atenção no que eu vou lhe dizer, Doutor. O Sandoval ainda vai ser gente. E gente muito importante. Ele já tomou consciência de que somente através do estudo se consegue avançar na vida.

– Tá bom, Lopes. Me ache o Sandoval. Eu quero que ele viaje amanhã.

– Tudo bem, Doutor.

As portas de vai-e-vem do Grêmio 1º de Janeiro não paravam. Era um entra e sai constante.

“Rui Barbosa tinha razão. Como tinha. Eita nulidadezinha que não se cansa de triunfar, de rir da honra… Honra? Será que ele sabe o que é honra?”

Maurílio, dono do único laboratório de análises clínicas de São Luís, na sua indefectível indumentária branca, posou a mão no ombro do Lopes e o convidou a uma partida de sinuca.

– Vamos, meu Sócrates dos trópicos. Vamos a uma partida de bilhar?

– É o jeito, meu estimado “drácula”. Vamos às bolas, meu bom “vampiro”.

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Leia também: Maranhão – Capítulo I.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Maranhão – Capítulo I

Por Inácio Augusto de Almeida

Na Magalhães de Almeida, ladeira que leva ao mercado central, já começavam a circular os primeiros ônibus. Pequenos, de carrocerias de madeira, lembravam mais pequenas caixas de fósforos. O sol, ainda tímido, ensaiava iluminar a cidade que teimava em não despertar.mingau-de-maisena_22052020154755

Lopes caminhava em direção ao mingau de arroz da Socorro, o melhor mingau de arroz do Maranhão, e pensava em como era comum as boas intenções provocarem resultados desastrosos.

Lembrava-se de alguns políticos. E ria, ria mostrando os dentes brancos e bonitos. O bonde, talvez o primeiro daquela manhã, passou em direção ao cemitério de São Pantaleão. Sentia um pouco de cansaço. A noite mal dormida, bebera quase até às três com o Arrupiado. Mas o hábito de acordar cedo o colocava de pé junto com o sol. Era sempre assim.

A negra gorda, com um avental de duas semanas, foi logo enchendo o copo do seu mais fiel cliente. E com um sorriso puro: Diga, meu compadre. Diga aquela fala bonita que todo dia você diz.

Lopes a olhou bem dentro dos olhos. Sentiu o mingau quente a queimar-lhe a língua e soltou:

– As almas não morrem.

– Como é esta estória, compadre?

Lopes tomou outro gole de mingau. Passou as costas da mão na boca e, meio rindo meio sério, repetiu:

– As almas não morrem, comadre. Nunca, nunca morrem!

– Como assim?

– A comadre já viu o enterro de alguma?

Pagou o mingau com uma moeda, beijou a testa da Socorro e mais nada disse.

Enquanto atendia a outros fregueses, entre eles um menino de cabelos cortados à escovinha, vestido numa calça de jeans barato e já muito gasto, a minguazeira resmungava que o compadre Lopes não ia muito bem da bola. Ou é muito sono, ou juízo meio fraco. Diamba eu sei que não é. O compadre não é destas coisas.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

Menina de trança

One Line Woman's Face and hair Braid. Continuous line Portrait of a girl In a Minimalist Style. Vector Illustration female. For printing on t-shirt, Web Design, beauty Salons, Posters and other things
Ilustração da Web

Por Inácio Augusto de Almeida

Quando eu morrer

Verás nos meus olhos

A tua imagem

II

Nada a temer

Ninguém leva da vida

O que leva a vida da gente

III

A tua imagem é que irá

Molhada pelas lágrimas

Nunca vistas nas minhas faces

IV

Lágrimas que rolaram dentro do meu coração

Sufocando o grito do amor não vivido.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

Sonho

Por Inácio Augusto de Almeida

Essa noite pensei tanto em ti

Tanto, tanto que adormeci vendo teus olhos negros

E me vi aninhado em tuas tranças

Tua boca a me sorrir

Eu mergulhando mais e mais nos teus braços

Vivendo inesquecíveis momentos de prazer

Na hora do beijo ardente

O despertar

A realidade

O sonho desfeito

E desperto

Apenas a ansiedade louca

A se juntar com o desejo

De amar-te novamente

Inácio Augusto de Almeida é escritor e Jornalista