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domingo - 04/09/2022 - 12:34h

Maranhão – Capítulo IV

Por Inácio Augusto de Almeida

Juan Lopez tinha o costume de passar as suas horas livres no tombadilho do Regina. O barulho das ondas a baterem no casco do navio de Alonso de Ojeda. E aquele marulhar era, para Lopez, como uma canção de ninar. Fitando as estrelas da noite clara daquele luar de agosto, recordava-se da sua Espanha querida.

Foto ilustrativa (Web)

Foto ilustrativa (Web)

“Carmem, Carmem. Com quem estará Carmem dormindo esta noite?”

No céu mais do que estrelado daquele verão no Atlântico Sul surgiu como por encanto uma pequena luz. A princípio, Juan Lopez não fez muito caso daquele brilho. Acostumado a navegar por todos os oceanos do planeta, já vira de tudo. Numa ressaca braba, saindo de um porto que o porre fez com que esquecesse o nome, viu uma sereia que subiu a amurada deste mesmo Regina para lhe convidar a um mergulho. Só não afundou com aquela coisa linda porque já tinha ouvido falar de Ulisses. Estava bêbado, sim, mas não era doido. Nem doido, nem besta.

Juan Lopez riu ao se lembrar da sereia. E lembrou-se também da Greta. Greta, a mais envolvente de todas as mulheres de cais do porto.

Mas a luz se tornava cada vez mais forte. O que antes parecia uma moeda de dobrão, agora já se mostrava do tamanho da lua. E com mais brilho, mesmo sendo uma noite de fase cheia.

Quando observou que aquela luz começava a se movimentar com uma velocidade estonteante, fazendo movimentos curvilíneos, deu um salto e, de pé, tentando se equilibrar ao balanço do navio, passou a gritar feito um desesperado. Alguns marujos que acorreram ainda conseguiram ver alguma coisa diferente no céu. Mas a grande maioria nada viu. E para o comandante Alonso de Ojeda, aquela gritaria toda não tinha passado de mais uma presepada do Lopez.

–  Quatro dias a ferro, para não assustar a marujada. E outra desta eu te deixo no primeiro chão de terra que avistar.

Mesmo já estando quase que acostumado à solitária, Lopez sentia muita revolta. Ele tinha visto a luz, não inventara nada. Outros também tinham visto, mas por covardia, calavam-se. No fundo do seu coração crescia um sentimento enorme de revolta, de vontade de tudo e de nada.

A luz do sol doía-lhe os olhos. Levou algum tempo até voltar a se acostumar com a claridade. Só então se deu conta de que o Regina já não navegava em mar aberto. Com as velas arriadas, lentamente se aproximava de uma praia de ondas tranquilas e de águas límpidas, transparentes. Nas brancas areias, dunas cobertas de uma vegetação rasteira, nenhuma presença de animais ou de selvagens.

– Arriar bote, gritou Alonso.

– Quantos homens mando no bote?

– Mande cinco, Júlio.

E cinco homens foram mandados à terra. E só quatro homens voltaram.

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Leia tambémMaranhão – Capítulo I;

Leia tambémMaranhão – Capítulo II;

Leia também: Maranhão – Capítulo III.

Inácio Augusto de Almeida é Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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Categoria(s): Conto/Romance

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