• Cachaça San Valle - Topo - Nilton Baresi
domingo - 20/11/2022 - 13:46h

Maranhão – Capítulo XV

Por Inácio Augusto de Almeida 

– Enfim, voltou. Outro vale?

– Não Bórgia, não. Você só pensa em dinheiro. Tá sabendo que Sarney está na chapa do Tancredo?

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

– Você tá brincando! Você, Conversinha, morre e não aprende. Vai, diz logo de quanto é o vale, diz.

– Bórgia, nem o rádio você ouve mais. Que diabo de jornalista é você? Vai, liga o rádio em qualquer estação, liga.

Bórgia começou a se dar conta de que o Vladimir não estava brincando. Além do mais, em matéria de política, sabia que nada era impossível.

– Tá bem, Conversinha. E daí?

-Ufa, ah inteligência brilhante. Você não tem medo de que eu morra primeiro?

– Se Você morrer primeiro, eu lhe enterro e pronto.

– Ainda bem que você me enterra, não vai fazer como a Viúva Louca que mandou dar o corpo do marido aos urubus e que os ossos fossem jogados no lixo.

– Que história é esta, Conversinha?

– O filho do morto tem isto por escrito. Mas não é da Viúva Louca que eu vim tratar com você. O que eu quero lhe dizer, QI superior, é que nós temos que embarcar nesta maré logo. Mande parar de rodar o jornal. Temos de mudar a manchete.

– Parar?! E o que já está pronto?!

– Vende no quilo ou joga onde a Viúva Louca mandou jogar os ossos do marido.

– Para, para de rodar, Jeremias. Vai, Conversinha, qual vai ser a manchete do O INDEPENDENTE?

– Segura esta, Bórgia. TANCREDO E SARNEY FORMAM CHAPA DEMOCRÁTICA.

– Sei não, Vladimir. Está me parecendo uma manchete fria.

– Fria, não. Cautelosa. A porta está apenas entreaberta. O homem que gosta de cheiro de cavalo pode resolver…

– Resolve nada. Se pensar em retrocesso, Conversinha, o povo escancara a porta de vez.

– Vladimir riu. O Bórgia não tinha mesmo jeito.

– Então tá. Vamos entrar com tudo. Não é assim que você quer? Veja se desta você gosta.

TANCREDO E SARNEY UNEM-SE E DITADURA AGONIZA.

-Tá doido, tá doido. Você com seus exageros ainda vai terminar fechando o jornal.

– O INDEPENDENTE?

– De que jornal estamos falando, seu capadócio?

– Seu o quê?

– Para de gracejos, Conversinha. Tá todo mundo esperando o diabo desta manchete. Já são quase duas da madrugada, deste jeito o jornal vai atrasar.

– Atrasa não, vamos tentar outra.

Passando as mãos na cabeça, o Bórgia era o retrato vivo da angústia, da aflição, da ansiedade. O desejo de agradar Sarney se contrapondo ao medo de uma reviravolta no quadro político. Aí, lembrou-se do calcanhar de Aquiles do Conversinha.

– Se você fizer a manchete e a matéria em menos de quinze minutos, nós saímos daqui direto para a Maria Araújo, e vai ser cerveja até amanhã.

– Pegamos o sol com a mão?

– Com a mão, palavra do Bórgia.

– Vem, senta aqui atrás da minha cadeira…

E a máquina de escrever começou a funcionar numa velocidade estonteante.

REDEMOCRATIZAÇÃO: TANCREDO E SARNEY UNIDOS.

Conversinha virou-se na cadeira e perguntou:

– Tá boa, começo a matéria?

Bórgia suspirou aliviado.

-Vai, tá ótima, faz a matéria.

Levantou-se da cadeira e, andando em círculos, enquanto esfregava as mãos, olhava para o Conversinha e se animava até a cantarolar um tango. Quando sentia-se feliz tinha este hábito. Passava a sentir-se o próprio Gardel. Conversinha é que é que não aguentava o desafino. E cheio de moral.

– Ou você para, ou paro eu.

– Claro, claro, vai, continua a escrever.

A cadência da máquina de escrever lembrava o matraquear de uma metralhadora. Conversinha escrevia numa velocidade assustadora.

Em silêncio, Bórgia se afasta e fica encostado na porta de entrada do jornal, de lá, olhando para Conversinha. Tinha por ele uma profunda admiração, sabia o quanto era competente. Pena que seu pouco senso de responsabilidade e o amor à bebida o tornava um profissional de pouca confiabilidade. Era dotado de grande senso jornalístico, mas…

– Na porta, Bórgia.

– É, olhando estrelas.

– Vai ver procurando nelas um homem honesto como você.

– Vai te lascar, Lopes.

Arrupiado riu. Aquele Lopes não perdia uma chance de sacanear o Bórgia.

– E vocês, que diabos estão fazendo por uma hora destas? Perderam o sono?

– Não, Bórgia. Eu passei lá no Grêmio para fazer uma horinha e como o Fernando já ia saindo, resolvemos dar uma volta nas meninas.

O barulho da máquina do Conversinha parou.

– Lopes, Arrupiado! Vamos, entrem.

– Vão entrar não. Eles já estão indo para a Maria Araújo. Vão, vão, digam a Maria que eu e o Conversinha tamos já chegando. E podem ir bebendo que a festa é minha. Vão, vão, antes que eu mude de idéia.

E, virando-se para Conversinha.

– Vai, continua a escrever. Você só vai se levantar daí quando terminar.

Mal o Lopes e o Arrupiado dobraram a esquina, o Conversinha puxou o papel da máquina, anunciando o término, e já puxando o Bórgia pelo braço.

–  Vamos, vamos que hoje vai ser uma noitada inesquecível. Pode deixar que daqui pra frente o Jeremias faz o resto.

– Só se eu estivesse louco, mandar rodar um jornal sem ler a matéria da primeira página. Principalmente quando feita por você, seu irresponsável.

Conversinha ria. Sabia do bem que o Bórgia lhe queria. Mas sabia também o quanto o dono do O INDEPENDENTE era cauteloso… Aproveitou enquanto Bórgia lia para pentear os cabelos, mania que tinha sempre ao terminar uma matéria que achava ter ficado boa.

ACOMPANHE

Leia tambémMaranhão – Capítulo I;

Leia tambémMaranhão – Capítulo II;

Leia tambémMaranhão – Capítulo III;

Leia tambémMaranhão – Capítulo IV;

Leia tambémMaranhão – Capítulo V;

Leia tambémMaranhão – Capitulo VI;

Leia tambémMaranhão – Capítulo VII;

Leia também: Maranhão – Capítulo VIII;

Leia tambémMaranhão – Capítulo IX;

Leia tambémMaranhão – Capítulo X;

Leia tambémMaranhão – Capítulo XI;

Leia tambémMaranhão – Capítulo XII;

Leia tambémMaranhão – Capítulo XIII;

Leia também: Maranhão – Capítulo XIV.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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Categoria(s): Conto/Romance

Comentários

  1. Inácio Augusto de Almeida diz:

    Faltaram os capítulos já publicados

  2. Marcos Pinto. diz:

    Estes instigantes artigos nos remonta ao tempo em que o Inácius residiu no estado do Maranhão e foi um empedernido discípulo do José Sarney.quando o mesmo foi governador daquele estado na década de 60 .(1960-1969). É mentira Inácius !. Essa é de lascar.

    • Inácio Augusto de Almeida diz:

      Barão de Apodi.
      Realmente morei no Maranhão. Realmente conheci José Sarney. Conheci bem mais a irmã do Sarney, Concy Sarney. Uma alma boníssima. Eu um moleque de recados que ia comprar o lanche dela, um misto com um guaraná jesus, e ela sempre me dava o troco que servia para eu almoçar nas Cáritas. Tempos duros.
      Conheci a Dona Kiola, mãe da Concy. Dela ganhei até um beijo na testa. São histórias difíceis de acreditar. No Maranhão conheci até o Cauby Peixoto, que ali foi fazer um show, e ele, ainda não usava peruca, até me pagou sorvete e me aconselhou a estudar, estudar, estudar. Outro que conheci foi o João do Vale, CARCARÁ, de quem ouvi estórias fantásticas.
      Nasci na Paraíba, mas me sinto maranhense. Descobri isto quando vibrei com um gol da seleção maranhense num jogo com a seleção paraibana.
      Qualquer dia eu lhe conto mais…
      Quero bem a você por ter se solidarizado comigo no processo de adoção das crianças que adotei.
      Um forte abraço.

  3. Marcos Pinto. diz:

    TMJ Inácius. A recíproca para todo o sempre será verdadeira. Abraço

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