domingo - 12/04/2026 - 14:22h

Banhos de chuva

Por Odemirton Filho

Ah, você não sabe o quanto é bom esse banho de chuva (Foto ilustrativa)

Ah, você não sabe o quanto é bom esse banho de chuva (Foto ilustrativa)

O menino tomava banho de chuva. Feliz. Dava voltas e mais voltas em derredor da rua Tiradentes e da rua José de Alencar, no centro de Mossoró. Aproveitava as biqueiras dos prédios e das casas. Vez em quando, seu pai e suas irmãs o acompanhavam nesses banhos de alegria.

Às vezes, ao lado de amigos, o menino andava pelas ruas adjacentes, na sua bicicleta Caloi. Ele se arriscava, diga-se, pois os raios rasgavam o céu. No entanto, sabe-se que quando somos crianças o medo não faz parte do dia a dia, porquanto o desejo de se aventurar sempre fala mais alto.

É certo que a infância deixa um legado de bons momentos. O menino sente saudades dumas coisas. O banho de chuva é uma delas. Por quê? Porque a água que caia do céu era sinônimo de alegria. Naqueles anos do início da década de oitenta, o menino sonhava, brincava, sorria, e também chorava.

Em 1985 o rio Mossoró transbordou. Foi um inverno inclemente; uma enchente daquelas. As ruas do centro da cidade ficaram alagadas, e o comércio cerrou as portas. O menino estava lá, andando pelas ruas, com as águas batendo em sua cintura.

Muito jovem, ele começou a ajudar na padaria de seu pai em pequenas tarefas, condizentes com a idade, a exemplo de encher os pacotes com bolachas sete capas. Decerto, essa pequena labuta contribuiu sobremaneira para moldar o caráter do homem que enfrentou, e enfrenta, desafios.

Como toda criança, o menino cultivava sonhos. Quando se é jovem, na maioria das vezes não se sabe qual o rumo seguir. É preciso que os pais ou o responsável pela educação, mostre-lhe o caminho. Nem todos, infelizmente, podem contar uma história feliz sobre a sua infância.

E aí, com o passar do tempo, seguimos outros rumos. Encontramos pedras na estrada, dificuldades que embaçam a visão sobre o mundo. A vida, como sabemos, não é linear, já que existem sinuosas curvas no decorrer de nossa existência.

Entretanto, quando volvemos os olhos para a nossa infância, e lá tínhamos o mínimo de amor e de alegria, tem-se a certeza que, apesar de curta, a infância ocupa um pedaço no coração de cada um.

O menino, hoje adulto, aqui e acolá abre um tímido sorriso quando vê a chuva caindo, pois lembra daqueles banhos de chuva, quando, todo molhado, saboreava as bolachas sete capas da padaria de seu pai.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica

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