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Não fomos feitos para corridas de grandes exigências físicas

Do Catraca Livre

Lieberman mostra processo de evolução do homem desde as cavernas (Foto: The New York Times)
Lieberman mostra processo de evolução do homem desde as cavernas (Foto: The New York Times)

Você provavelmente já ouviu que ficar sentado o dia todo faz mal, que o sedentarismo é um dos maiores vilões da saúde moderna e que correr é a solução para quase tudo.

Mas e se a ciência dissesse que essa narrativa está, pelo menos em parte, errada?

É exatamente isso que o professor de Biologia Evolutiva da Universidade de Harvard, Daniel E. Lieberman, defende no livro Exercício, uma obra que virou o senso comum de cabeça para baixo ao argumentar que os seres humanos não foram biologicamente projetados para correr, e que sentar, ao contrário do que se prega por aí, é uma atividade completamente natural para a nossa espécie.

O que diz o livro

Lieberman argumenta que, ao longo da história evolutiva humana, nossos antepassados viviam em ambientes onde não havia nenhuma necessidade de ficar em pé por longos períodos ou praticar atividades físicas intensas por prazer. O que os movia era a necessidade de sobreviver, coletar alimentos e caçar.

No restante do tempo, sentar em círculo ao redor de uma fogueira, descansar e conversar era o comportamento padrão da espécie. Ou seja, o repouso não era preguiça, era estratégia de sobrevivência.

O autor vai além ao afirmar que o ser humano desenvolveu, ao longo de milênios, um instinto inato de economizar energia.

Isso explica, segundo ele, por que tanta gente tem dificuldade em manter uma rotina de exercícios: não é falta de disciplina, é biologia. Em uma entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, Lieberman foi direto ao dizer que nunca evoluímos para fazer exercícios e que essa resistência ao esforço físico desnecessário faz parte da nossa programação natural enquanto espécie.

Em resumo, para Daniel Lieberman, somos evolutivamente capazes de correr maratonas (e muito mais), mas a nossa biologia prioriza a eficiência energética e o movimento moderado em vez do exercício intenso de alto impacto. 

Sentar faz tão mal quanto dizem?

Uma das ideias mais provocadoras do livro é justamente a defesa do ato de sentar.

Durante anos, comparações populares colocaram o sedentarismo no mesmo nível de hábitos altamente prejudiciais à saúde, criando um alarmismo que, segundo Lieberman, confunde mais do que ajuda.

Para ele, demonizar uma atividade tão natural para o corpo humano não tem base científica sólida e acaba desacreditando mensagens de saúde que realmente importam.

O que o professor defende não é que se passe o dia inteiro na mesma posição sem se mover, mas sim que o problema não está em sentar, e sim em sentar de forma contínua e prolongada sem nenhuma interrupção. A diferença é importante e muda completamente a forma de encarar a questão.

As recomendações dele apontam para um comportamento mais equilibrado, como levantar com frequência ao longo do dia, em vez de transformar o simples ato de sentar em um inimigo a ser eliminado.

Dados que surpreendem

O livro reúne uma série de dados que surpreendem até quem já tem alguma familiaridade com o tema. Alguns dos pontos mais curiosos que Lieberman levanta ao longo das páginas de Exercício são:

Nossos ancestrais caminhavam mais de 12 quilômetros por dia, não para se exercitar, mas para conseguir alimento por meio da caça e da coleta. Esse tipo de esforço tinha uma finalidade prática e era seguido de longos períodos de repouso, o que é muito diferente da ideia moderna de exercício como atividade de lazer ou estética.

O metabolismo basal consome entre 60% e 75% de toda a energia gasta diariamente, mesmo sem nenhuma atividade física. Isso significa que uma pessoa de 82 quilos pode gastar cerca de 1.700 calorias por dia simplesmente existindo, respirando e mantendo o coração funcionando, sem sair do lugar.

Corpo é adaptado para caminhar

Lieberman destaca que o corpo humano está muito mais adaptado para caminhar do que para correr.

A corrida, especialmente em volumes altos e com frequência elevada, representa uma sobrecarga que o organismo não está naturalmente preparado para absorver sem consequências.

Isso não significa que correr seja proibido ou prejudicial em si, mas que existe uma diferença enorme entre o esforço moderado que nossos corpos toleram bem e o excesso que as redes sociais frequentemente glorificam como ideal de saúde.

O professor aponta que o problema contemporâneo não é o exercício em si, mas a forma como ele é apresentado culturalmente, como se mais fosse sempre melhor e como se qualquer pausa fosse um fracasso.

O livro defende o exercício moderado, com destaque para caminhadas regulares, e até menciona a recomendação de 10.000 passos por dia como uma referência acessível e compatível com a biologia humana, sem transformar o movimento em uma obsessão ou em uma competição contra os próprios limites do corpo.

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A aliança secreta que quase tira dos Marinhos a Rede Globo

Do Bastidores do Poder

Roberto Marinho criou uma marca gigante, que esteve a ponto de desabar nos primeiros anos (Foto: UOL/Acervo)
Roberto Marinho criou uma marca gigante, que esteve a ponto de desabar nos primeiros anos (Foto: UOL/Acervo)

Antes de se tornar a força onipresente que moldaria a cultura e a política brasileira por meio século, a Rede Globo viveu um episódio de extrema fragilidade. Um “se” histórico que quase abortou o império antes do nascimento. Nos primeiros anos da década de 1960, enquanto o país experimentava o otimismo desenvolvimentista de Juscelino e o caos institucional que o sucedeu, Roberto Marinho, então dono do Jornal O Globo, sonhava em transformar uma concessão de TV ainda incipiente no coração de um império de comunicação.

O problema era o mesmo que assolava boa parte das ambições brasileiras da época, faltava dinheiro e know-how. O Canal 4 do Rio de Janeiro, embrião da futura Rede Globo, precisava de equipamentos, estúdios, técnicos e de uma estrutura de produção que o país simplesmente não tinha. A televisão nacional ainda engatinhava e os custos para alcançar o padrão americano eram impeditivos. Foi nesse cenário que o empresário enxergou na associação com um gigante estrangeiro a tábua de salvação e, sem saber, assinou o que a história lembraria como o pecado original da emissora.

A parceira escolhida foi o grupo Time-Life, conglomerado que controlava as revistas Time e Life e expandia o império para o audiovisual. O acordo selado em 1962 prometia mais do que os cerca de US$ 6 milhões, uma fortuna para o período, mas também a importação do modelo de gestão e das técnicas de produção americanas. No papel, parecia a solução perfeita. Na prática, seria o início de uma das maiores crises políticas da história da televisão brasileira.

Quando os primeiros dólares atravessaram o Atlântico, vieram juntos os primeiros fantasmas. O Brasil tinha leis claras: a Constituição de 1946, no Artigo 160, proibia a participação estrangeira em empresas de radiodifusão e jornalismo. O Código Brasileiro de Telecomunicações (1962) reforçava o veto. A Globo havia encontrado o capital que faltava, mas à custa de violar o texto constitucional.

O sonho e a realidade do capital

O acordo firmado em 1962 previa financiamento e assistência técnica da Time-Life. Inicialmente, os americanos tinham direito a 30% dos lucros, com relatos de ampliação para 45% em 1965. Além do dinheiro, a parceria trouxe quadros experientes, como Joseph Wallach, e práticas administrativas importadas que, segundo a literatura, influenciaram a gestão e até a programação da jovem emissora. Oficialmente, o contrato era apenas de assistência técnica e financeira, uma versão sustentada até hoje pela Globo.

Para os críticos, tratava-se de uma sociedade disfarçada, com ingerência indevida de estrangeiros sobre uma concessão pública.

A engenharia jurídica para manter o acordo de pé era digna de um truque de ilusionismo corporativo. O dinheiro entrava como financiamento, mas as cláusulas davam à Time-Life poder de veto e influência operacional. Era o suficiente para que os adversários vissem ali uma violação aberta à soberania nacional e um prato cheio para a disputa política que fervia entre civis e militares nos bastidores de Brasília.

CPI da Globo foi instigada por Carlos Lacerda em 1966 (Reprodução do Bastidores do Poder)
CPI da Globo foi instigada por Carlos Lacerda em 1966 (Reprodução do Bastidores do Poder)

A CPI e o risco da implosão

Em 1966, sob pressão crescente de concorrentes e de setores nacionalistas, foi instaurada a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Globo. A ofensiva foi impulsionada por Carlos Lacerda, então governador da Guanabara e velho desafeto dos Marinho, e politicamente articulada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), presidida por João Calmon, na Câmara dos Deputados. O objetivo era apurar se a TV Globo estava sob controle de capital estrangeiro e, em caso afirmativo, aplicar a punição prevista em lei, que acarretaria no rompimento da concessão.

Os meses seguintes foram um teste de sobrevivência. Deputados convocaram executivos, examinaram contratos e ouviram testemunhos. O relatório final, assinado pelo deputado Djalma Marinho, foi taxativo ao reconhecer que o acordo feria a Constituição de 1946 e recomendava ao Executivo aplicar as sanções legais, com o rompimento do vínculo com a Time-Life. O império que ainda mal se erguera parecia prestes a ruir.

A salvação pela política

O destino da Globo, no entanto, não seria decidido no plenário, mas sim nos corredores do poder. Em março de 1967, o governo de marechal Castello Branco concluiu oficialmente que as acusações eram “infundadas” e arquivou o caso. A decisão soou como um perdão velado.

Para o regime militar, recém-instalado e em busca de meios eficientes de comunicação com a população, era estratégico preservar uma emissora em ascensão, moderna e tecnicamente superior às concorrentes.

Dois anos depois, em 1969, a Time-Life deixou o negócio e Roberto Marinho comprou novamente a participação americana com financiamento do Banco do Estado da Guanabara. A crise estava contida e o episódio se converteu em uma lição. No Brasil, um império de mídia se constrói com audiência e faturamento, mas ainda mais com a habilidade de navegar a favor do vento político.

O próprio jornal do grupo noticia o 'fim' das relações com grupo estrangeiro (Reprodução do Bastidores do Poder)
O próprio jornal do grupo noticia o ‘fim’ das relações com grupo estrangeiro (Reprodução do Bastidores do Poder)

A herança do pecado

O caso Globo e Time-Life encerrou-se nos papéis, mas nunca de fato desapareceu da biografia da emissora. O episódio ensinou a Roberto Marinho que, no Brasil, a legalidade é apenas uma das dimensões do poder e, talvez, não a mais determinante.

A Globo sobreviveu porque compreendeu o jogo. Para existir, era preciso estar dentro do sistema e não contra ele. A lição foi assimilada com precisão cirúrgica. Daquele momento em diante, a emissora passou a cultivar uma relação com o Estado que oscilava entre o pragmatismo e o vínculo. O “pecado original” foi o batismo de uma lógica de sobrevivência que atravessaria governos, crises e redemocratizações.

Com o tempo, o escândalo virou rodapé de livro didático e a Globo, purificada pela própria história que ajudou a narrar, transformou-se em voz dominante da nação. Sua influência política e cultural cresceu a ponto de se confundir com o próprio país que a quase devorou no berço.

O acordo com a Time-Life foi enterrado, mas o DNA permaneceu, com a crença de que nenhuma lei é intransponível quando se tem poder de audiência e de que, no Brasil, o perdão oficial costuma ser apenas uma questão de timing.

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O contraste entre o discurso e a realidade no mundo do STF

Fachi e Moraes compõem o STF, centro de muita polêmica, um mundo próprio sem controle (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
Fachi e Moraes compõem o STF, centro de muita polêmica, um mundo próprio sem controle (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Por Breno Pires (Revista Piauí)

Desde que assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Edson Fachin passou a trabalhar pela adoção de um código de conduta para os ministros da Corte, de modo a estabelecer parâmetros claros, explícitos e próprios de comportamento.

Inspirado no código de conduta do equivalente ao STF na Alemanha, Fachin fez a sua defesa mais explícita à proposta no discurso de encerramento do Ano Judiciário de 2025, em 19 de dezembro. Na ocasião, a reputação institucional do STF passara a ser questionada no caso do Banco Master. Fachin disse que a corte, para 2026, tem um “encontro marcado” com temas entre os quais estão as “diretrizes e normas de conduta para os tribunais superiores, a magistratura em todas as instâncias e no Supremo Tribunal Federal”.

“Cabe-nos exercer nossas atribuições com rigor técnico, sobriedade e consciência histórica. Não poderia, nessa direção, deixar de fazer referência à proposta, ainda em gestação, de debatermos um conjunto de diretrizes éticas para a magistratura. Considerando o corpo expressivo que vem espontaneamente tomando o tema no debate”, disse o presidente do STF, cuja proposta tem um único aliado público até agora entre os membros da corte: a ministra Cármen Lúcia.

A reação foi imediata. Oito ex-presidentes do STF defendem a adoção do código de conduta. Em outubro, o ex-ministro Cezar Peluso foi um dos subscritores de um documento da Fundação FHC com propostas para o aprimoramento do judiciário, incluindo, entre os pontos, um manual de conduta para o STF. Em 22 de dezembro, Ayres Britto, Carlos Velloso, Celso de Mello, Marco Aurélio Mello e Rosa Weber expressaram apoio à ideia, em reportagem de Rafael Moraes Moura, no jornal O Globo.

O ex-ministro Joaquim Barbosa, relator da ação penal do mensalão, afirmou à piauí que “apoia 100%” a criação do código, e que o caso Master reforça a necessidade de fazê-lo. “As duas coisas estão entrelaçadas. Código de conduta é o mínimo que se pode fazer neste momento”, disse Barbosa, em sua primeira declaração sobre o assunto.

Além deles, o antecessor de Fachin na presidência, Luís Roberto Barroso, apoia a iniciativa, mas ainda não se pronunciou publicamente. “Não é difícil imaginar o que eu penso. Mas desde que saí do Supremo, estou procurando ficar abaixo do radar e evitando declarações”, disse à piauí.

Internamente no STF, os demais ministros têm evitado falar do assunto, mas por outro motivo. “O silêncio da bancada desconfortável com o código de conduta é o sinal mais gritante da sua conveniência, para não dizer necessidade”, escreveu o colunista Elio Gaspari, dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo.

Gilmar acha tudo “bobagem”

O principal – e até agora único – porta-voz da resistência é o decano do tribunal, Gilmar Mendes, que falou sobre a proposta de Fachin em conversa com jornalistas de diversos veículos, na segunda-feira, 22. O ministro sustentou que já existem regras suficientes para regular a conduta de magistrados no Brasil, o que torna desnecessário adotar um código próprio para o STF.

Na conversa com os jornalistas, o decano chamou de “bobagem” as cobranças da imprensa sobre participações de magistrados em eventos e expressou seu desacordo em relação à ideia de moderação nas manifestações públicas de ministros, inclusive sobre processos em julgamento. “Eu travei toda aquela batalha contra a Lava Jato falando, denunciando. Se eu não tivesse falado, certamente nada teria mudado”, afirmou.

No mesmo dia, o gabinete de Gilmar Mendes divulgou aos jornalistas um levantamento comparativo para demonstrar que tudo aquilo que o código alemão exige de seus juízes — independência, imparcialidade, cuidado com a vida privada, recusa de benefícios, moderação na comunicação pública, quarentena depois da aposentadoria — já está contemplado, de uma forma ou de outra, no ordenamento jurídico brasileiro.

O levantamento divulgado por Mendes  cita a Constituição brasileira, a Lei Orgânica da Magistratura e o Código de Ética da Magistratura Nacional do Conselho Nacional de Justiça, além das regras previstas no Código de Processo Civil e no Código de Processo Penal. “Não há vácuo no ordenamento jurídico brasileiro quanto à disciplina da conduta, independência e imparcialidade dos juízes”, conclui o texto.

Entre os críticos da falta de contenção no comportamento de alguns magistrados, há aqueles que concordam que talvez não haja “vácuo” nas leis brasileiras. O problema, na verdade, está em outro lugar: o descumprimento das normas existentes, que vem sendo justificado por uma interpretação cada vez mais elástica das próprias normas.

Afinal, o próprio comparativo divulgado por  Gilmar afirma que o código de conduta alemão recomenda que os magistrados divulguem os rendimentos obtidos por palestras e eventos. Até hoje não se sabe quanto cada ministro recebeu ao participar de eventos como os fóruns do Lead, Esfera, grupos econômicos do setor dos bancos, planos de saúde e mesmo em eventos como o bancado pela Refit em Nova York neste ano. Neste ponto, o vácuo é explícito: nenhuma norma brasileira exige a divulgação de remuneração.

O código da Alemanha também veda que os juízes se envolvam em eventos que provoquem “dúvidas sobre independência, imparcialidade e integridade”. Mesmo assim , aqui no Brasil, Dias Toffoli pegou carona no jatinho do advogado do Master para ver a final da Libertadores em Lima, no Peru. E, ao desembarcar de volta, puxou para si o caso do Master e decretou sigilo sobre o assunto. Solicitado a explicar sua atitude, Toffoli disse que só recebeu o processo do Master depois da viagem e que não conversa sobre processos em ocasiões como essa. No entanto, o ministro já estava na capital do Peru quando foi sorteado relator do caso.

Ocaso que tornou o debate sobre código de conduta mais urgente envolve o ministro Alexandre de Moraes e, mais uma vez, o Banco Master. Primeiro, a jornalista Malu Gaspar*, de O Globo, revelou que o escritório de advocacia da mulher do ministro, Viviane, tinha um contrato milionário com o Master. Ganhava 3,6 milhões de reais por mês. Se o contrato não tivesse sido rompido depois do escândalo do Master, renderia um total de 129 milhões — um valor fora do padrão do mercado .

O escopo do contrato do Master com o escritório da mulher do ministro era amplo: representar os interesses do banco nos Três Poderes,  em órgãos como o Banco Central, a Receita Federal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicavam que os pagamentos ao escritório eram tratados internamente pelo Master como prioridade absoluta. Até agora não surgiram registros formais de atuação do escritório da mulher de Moraes junto ao Banco Central ou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica em favor do Master. O ministro Alexandre de Moraes e o escritório foram procurados pela imprensa, mas não responderam aos questionamentos.

Depois do contrato, a repórter Malu Gaspar revelou que o ministro manteve ao menos quatro contatos (três telefônicos e um pessoal) com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante o período mais sensível da crise do Master. Segundo a reportagem, o ministro Moraes buscou informações sobre o andamento da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Ouviu do regulador que havia indícios de fraude que inviabilizavam a transferência de mais de 12 bilhões de reais de crédito do Master para o BRB.

Moraes lançou duas notas em menos de 24 horas. Na primeira, afirmou que as reuniões com dirigentes do sistema financeiro ocorreram “exclusivamente” para tratar dos impactos da Lei Magnitsky – e não fez nenhuma menção ao Master. A jornalista Daniela Lima, do UOL, antecipou a versão de Moraes, mas divergiu em um ponto da nota: afirmou que, sim, houve menção ao Master em conversa com Galípolo.

Na segunda nota, Moraes foi mais explícito e disse que “em nenhuma das reuniões jamais foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão referente à aquisição do BRB pelo Banco Master”. Admitiu dois encontros com Galípolo, em seu próprio gabinete no STF, em 14 de agosto e 30 de setembro. Disse também que “jamais esteve no Banco Central e que inexistiu qualquer ligação telefônica entre ambos, para esse ou qualquer outro assunto” e que “o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central”. Sobre este último ponto, ninguém havia dito o contrário.

Segundo uma nova reportagem, agora do jornal O Estado de S. Paulo, Moraes chegou a ligar seis vezes em um único dia para Galípolo. Em sua resposta, o Banco Central não mencionou números, mas afirmou que todas as interações foram documentadas e que a instituição está à disposição para prestar esclarecimentos. Em coletiva de imprensa, em 18 de dezembro, Galípolo declarou publicamente que o BC registrou reuniões, telefonemas e trocas de mensagens relacionadas ao caso.

Daniel Vorcaro deixa membros do STF em situação embaraçosa (Foto: Arquivo pessoal)
Daniel Vorcaro deixa membros do STF em situação embaraçosa (Foto: Arquivo pessoal)

A única nota à imprensa divulgada pelo Banco Central, em 23 de dezembro, diz“O Banco Central confirma que manteve reuniões com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky”Nada do que se discute no caso Banco Master desmerece ou contamina os julgamentos dos envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro, conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes com base em um conjunto robusto e incontroverso de provas.

Confundir esses planos significa politizar as suspeitas, criando uma equivalência inexistente entre investigações sem relação entre si — algo distinto do que ocorreu em episódios como o da Lava Jato, em que a condução dos processos por Sérgio Moro violou os próprios princípios da operação.

Paradoxalmente, quem caiu na armadilha de criar a falsa equivalência entre o caso Master e o julgamento dos golpistas foi a própria esquerda, que invadiu as redes sociais atacando Malu Gaspar, como se suas revelações fizessem parte de um complô para desmoralizar o ministro que condenou Bolsonaro e seus militares.

A onda chegou a tal ponto que a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) lançou uma nota em defesa da jornalista. “Infelizmente, nos últimos anos, se tornaram comuns os ataques misóginos a mulheres jornalistas que fazem reportagens sobre pessoas que ocupam importantes espaços de poder”, diz a nota. “Quando qualquer jornalista sofre intimidação por exercer o seu ofício, perde a sociedade como um todo.”

STF sem controle

Nenhuma norma de conduta foi capaz de evitar todos esses acontecimentos. “Do ponto de vista institucional, não é tanto sobre a qualidade ou efetividade das normas”, diz o professor Rubens Glezer, da FGV-SP, “mas sobre a forma como o Supremo se organiza para controlar a atuação cotidiana de seus próprios ministros”. Glezer destaca que, ao reconhecer a constitucionalidade do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o próprio STF estabeleceu que seus ministros não estariam sujeitos a controle externo regular, e em razão disso o STF não tem uma instância institucional de controle sobre equívocos, atitudes abusivas, excessos e violações éticas de seus ministros.

“O controle existente é basicamente entre os próprios ministros e, no limite, o impeachment pelo Senado. E não é um bom instrumento”, afirma Glezer. Nesse contexto, de acordo com o professor, a proposta de um código de ética é uma tentativa de estruturar esse controle interno e preservar a autonomia do tribunal, evitando que a única resposta possível a crises recorrentes seja a intervenção externa ou soluções excepcionais.

Além disso, em 2023, o STF derrubou um dispositivo do Código de Processo Civil que ampliava as hipóteses de impedimento de juízes quando escritórios de seus parentes advogassem junto à corte. A decisão reduziu restrições criadas para prevenir conflitos indiretos de interesse e reforçou a aposta na autocontenção individual dos magistrados. Hoje, Brasília está tomada por parentes de ministros com escritórios de advocacia. De alguma forma, tornou-se comum que familiares de ministros do STF que já advogaram ou advoguem na corte – entre eles, as mulheres de Moraes, Toffoli e Cristiano Zanin, a ex-mulher de Gilmar Mendes, o filho do ministro Luiz Fux e a irmã do ministro Kassio Nunes Marques.

Um dos pontos que o caso Master evidencia é o despautério da presença frequente de ministros do STF em eventos patrocinados por empresas com causas bilionárias na corte. Antes disso tudo, entre 2022 e 2024, o Banco Master bancou ao menos cinco eventos — dos quais quatro no exterior: Nova York, Paris, Londres e Roma –, que contaram com a presença de ministros do STF, como Moraes, Gilmar, Toffoli, Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski, segundo levantamento do Poder360.

Um dos episódios mais citados ocorreu em 2022, durante a Brazil Conference, quando o controlador do Master, Daniel Vorcaro, ofereceu um jantar em Nova York que reuniu ministros do STF. No Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024, Moraes, Gilmar e Toffoli compareceram, assim como o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, que foi indicado recentemente por Lula para o STF e aguarda sabatina e votação de seu nome no Senado.

Nestes eventos, não há registro de encontros ou reuniões paralelas, não há divulgação de agendas, nem comunicação prévia de potenciais conflitos. A resistência a transformar esses escrúpulos em norma obrigatória revela mais do que divergências técnicas ou jurídicas, segundo o professor Davi Tangerino, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ela reflete um traço estrutural da vida pública brasileira: o patrimonialismo. “Muitos agentes públicos se sentem donos do cargo”, afirma Tangerino. Segundo ele, isso se manifesta em decisões moldadas por visões pessoais, na construção de posições de poder em relação a outros Poderes e, em casos extremos, há risco de corrupção.

Editoriais

A leitura dos editoriais publicados nos últimos dias por O GloboFolha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo revela enfoques distintos, mas convergentes. O Estadão afirmou que conexões pessoais mal explicadas de ministros do Supremo com o Banco Master “arriscam a credibilidade do STF” e colocam a Corte em “terreno pantanoso”, ao converter episódios individuais em um problema institucional. A Folha enquadrou o episódio como expressão de um déficit mais amplo de controles, advertindo que a ausência de freios institucionais favorece excessos e reforça a percepção de que “poderosos se protegem”.

Já o Globo, em editorial intitulado STF fracassa em transparência e prestação de contas, destacou que a corte demorou duas semanas para se manifestar sobre o vínculo entre Moraes e o Master. O jornal carioca classificou como “inaceitável” a continuidade do segredo imposto por Toffoli e defendeu explicitamente a adoção de um código de conduta para os ministros do Supremo, como forma de “dirimir todas as situações que gerem conflito de interesse” e preservar a integridade institucional da Corte.

No centro do debate não está um banco, nem um contrato, nem um voo, nem um telefonema. Está uma questão mais ampla: se um tribunal que cobra transparência dos demais poderes está disposto a submeter a si mesmo a regras capazes de transformar princípios éticos em procedimentos objetivos. Enquanto essa resposta não vier na forma de normas claras, casos como o do Master continuarão a explicitar que confiança pública é uma construção permanente.

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Brinquedos se transformam em “âncoras emocionais” de adultos

Do The News (especial para o BCS)

Adultos mergulham no universo dos brinquedos em meio ao caos da vida (Foto: Reprodução)
Adultos mergulham no universo dos brinquedos em meio ao caos da vida (Foto: Reprodução)

Imagine o quarto de alguém na casa dos vinte e poucos anos… A decoração, os objetos, os desenhos espalhados pelo espaço. Agora repare em um detalhe que parece fora de lugar: um ursinho de pelúcia. Pode soar estranho, mas não é incomum.

Nos últimos meses, imagens de jovens adultos exibindo pelúcias, bonecos Labubu e personagens “fofos” tomaram o TikTok e o Instagram. O que poderia ser visto apenas como trends com data de validade revela algo maior.

Um relatório recente da Circana mostra que 43% dos adultos no Reino Unido compraram brinquedos para si mesmos ou para outros adultos neste ano. Entre consumidores de 18 a 34 anos, esse número salta para 76%.

Na prática, adultos passaram a sustentar uma fatia relevante da indústria dos brinquedos, enquanto crianças trocam bonecas e carrinhos por telas e tablets.

Nostalgia como resposta ao caos

Segundo dados do GWI,15% dos jovens preferem pensar no passado em vez do futuro, e quase metade demonstra apego emocional a referências culturais que antecedem o próprio nascimento. Os números ajudam a dimensionar esse movimento:

As vendas de discos de vinil cresceram, em média, 18% ao ano nos últimos cinco anos, e cerca de 60% dos jovens afirmam comprar discos, segundo o relatório Audio Tech Lifestyles, da Futuresource Consulting. Em 2024, os vinis superaram os CD’s. Passaram a representar 76,4% das vendas de mídias físicas, consolidando o formato como um “novo velho hábito” entre consumidores jovens.

O mesmo acontece com tecnologias consideradas ultrapassadas: as buscas por câmeras digitais cresceram até 563% em 2024, com a Geração Z liderando esse resgate.

O que realmente é interessante: Mais do que consumo ou estética, tudo isso funciona como âncora emocional. Em contraste com uma vida hiperconectada e performática, o analógico passou a cumprir um novo papel: o de regulação emocional coletiva. O foco é desacelerar e criar algum pertencimento.

Vinil virou uma febre com mercado crescente (Foto: Getty Images)
Vinil virou uma febre com mercado crescente (Foto: Getty Images)

Rir para não surtar

A Geração Z já ganhou o rótulo de the unserious generation (A geração duvidosa). Mas o tom leve engana. Na prática, o humor vira um mecanismo de sobrevivência ou de fuga dos desafios da realidade — a velha lógica de rir para não surtar.

Vídeos dançando na chuva durante furacões, piadas sobre uma possível Terceira Guerra Mundial, prepare-se comigo para o apocalipse, são bons exemplos.

O que diz a ciência

Outro estudo recente da Universidade de Cambridge apontou que o cérebro humano permanece em “fase adolescente” até os 32 anos. É o período de maior eficiência neural, mas também de maior sensibilidade emocional. Ou seja, do ponto de vista biológico, muitos jovens adultos ainda estão consolidando identidade, vínculos e sensação de segurança, justamente em um mundo que oferece cada vez menos estabilidade.

Amor, trabalho e o medo de se comprometer

Esse atraso simbólico da vida adulta aparece também nos afetos. Noutra pesquisa, 75% dos jovens estavam solteiros e não se relacionavam durante a pandemia — um dado que ajuda a entender a ruptura afetiva que se consolidou nos anos seguintes.

Desde então, o termo burnout amoroso ganhou força, representando uma aversão aos aplicativos de namoro, medo de se apegar e uma vigilância constante sobre “red flags” e “icks”.

Relacionar-se virou um campo minado: muita expectativa, pouca entrega e alto custo emocional.

No trabalho e no dinheiro a lógica é parecida. Dados recentes mostram isso:

27% da Geração Z têm mais dívidas do que economias, reflexo de um consumo mais imediato e da descrença no longo prazo;

58% dos jovens aceitam um emprego sem intenção de permanência;

46% dos jovens concorda com a afirmação: “Não importa o quanto eu trabalhe, nunca serei capaz de comprar uma casa que eu realmente ame”.

Infantilização ou adaptação

A geração claramente demonstra dificuldades de lidar com frustrações inevitáveis da vida adulta. Como consequência, surge esse “escapismo” da realidade, que se materializa através do consumo e dos comportamentos. O ursinho de pelúcia aos 20 e tantos anos é só a ponta do iceberg…

Brinquedinho de criança também é atração para adultos (Foto: reprodução)
Brinquedinho de criança também é atração para adultos (Foto: reprodução)

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Venda de sentença judicial, um lucrativo negócio de família

Por Breno Pires (Revista Piauí)

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

No Tribunal de Justiça do Piauí (TJPI), o gabinete do desembargador José James Gomes Pereira funcionava como uma empresa de família. Em cima da mesa de madeira escura, um notebook permanecia conectado ao sistema eletrônico do tribunal, o PJe, com o nome do magistrado visível no canto da tela. Mas quem redigia as decisões, despachava ofícios e determinava sentenças não era o desembargador. Era sua filha, Lia Rachel, advogada.

Com o token digital do pai plugado à porta USB, Lia assinava decisões e ordens judiciais como se fosse o próprio desembargador. Segundo a Polícia Federal, ela escolhia quais causas priorizar, quais partes favorecer, quais pedidos ignorar. O gabinete era o coração de um esquema de venda de sentenças. Até que, no dia 2 de outubro, o desembargador foi alvo de busca e apreensão, por autorização do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A investigação teve início de forma acidental. Em 2024, uma apuração sobre invasões ao sistema do TJPI revelou que e-mails falsos haviam sido criados e vinculados a perfis internos do tribunal. A manipulação permitia inserir minutas fraudulentas de decisões e induzir magistrados ao erro. Ao examinar as mensagens, os agentes encontraram um arquivo intitulado Esquema-TJPI.pdf, enviado por um assessor do próprio desembargador para si mesmo.

O assessor era João Gabriel Costa Cardoso, um jovem de 26 anos que havia trabalhado no gabinete de Gomes Pereira. O arquivo continha capturas de tela, conversas de WhatsApp e bilhetes manuscritos. Nele, Cardoso descrevia, com a minúcia de quem documenta crimes para se proteger, o funcionamento da engrenagem: Lia Rachel determinava o conteúdo das decisões, e o assessor as assinava usando o token do pai dela. O arquivo valeria como um seguro de vida, já que ele se considerava o “elo mais fraco” do esquema. O cargo era da Lia e tudo o que ela determinasse deveria ser feito, orientou o desembargador, segundo o depoimento de Cardoso à PF.

De acordo com o inquérito, o gabinete de Gomes Pereira tinha uma dinâmica própria. A primeira reunião do servidor Cardoso foi na própria casa do desembargador. Em reuniões semanais, Lia Rachel entregava papéis manuscritos com números de processos e ordens diretas: “falar c/ Des.”, “pautar urgente”, “dar provimento”, “deixar parado”. O assessor executava. O token — que, pelas regras do tribunal, deveria ser guardado pelo magistrado — ficava nas mãos do assessor.

Antes dele, o dispositivo era controlado por Jailson, sobrinho da esposa do desembargador. Mesmo depois de passar em concurso para a Polícia Rodoviária Federal (PRF), Jailson continuava a frequentar o gabinete, assinando decisões “nos fins de semana”, segundo o depoente. A cada semana, Lia Rachel enviava novas instruções. Quando havia muito dinheiro envolvido, dizia Cardoso, ela pedia para avisar o pai antes de assinar. “Trate comigo e com o desembargador apenas nesses casos grandes”, ela disse, segundo relato do ex-assessor, na primeira reunião que tiveram.

Em meio a casos suspeitos na primeira vasculhada da polícia, um específico trouxe a prova que os investigadores queriam: o Relatório de Inteligência Financeira nº 118.426, do Coaf. O documento revelou uma transferência de 200 mil reais da conta do advogado Juarez Chaves de Azevedo Júnior para a filha do desembargador. A PF rastreou a operação e descobriu que, dias depois da transação, o magistrado concedeu uma liminar favorável a um cliente de Juarez — a empresa Sundeck Holding, que pedia a posse de uma fazenda de 22 mil hectares. O recurso, distribuído “por prevenção” ao gabinete do desembargador, foi decidido em menos de 48 horas. A petição da PF fala em “transferências bancárias a título de pagamento de propina”.

Várias situações suspeitas

Ampliando a apuração, a Polícia Federal (PF) viu indícios de que o empresário João Antônio Franciosi, sócio do Grupo Franciosi, corrompeu a Justiça para garantir a posse de um imóvel rural de 22.545 hectares. Não é a primeira vez, pois João Antônio Franciosi figura como réu no âmbito da Operação Faroeste, que investiga venda de sentenças e grilagem de terras na Bahia.

No Piauí, segundo Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf, detalhados em documentos da PF, Franciosi transferiu 106 milhões de reais à empresa Villa Bella das Furnas Participações, que pertence ao advogado Paulo Augusto Ramos dos Santos. A Villa Bella, em seguida, repassou um total de 26.206.460 reais para os escritórios de advogados intermediários — sendo 16.984.480 reais ao advogado Juarez Chaves e 9.221.980 reais ao advogado Germano Coelho. Essas transferências ocorreram entre setembro de 2023 e agosto de 2024, período que coincidiu com a decisão de mérito final favorável à parte interessada (Sundeck Holding, direitos foram adquiridos pelo Grupo Franciosi) proferida pelo desembargador Gomes Pereira no Agravo de Instrumento nº 0750602-73.2023.8.18.0000 em 07/11/2023, e é considerado, pelas investigações, o pagamento final pela aquisição fraudulenta da propriedade.

No dia seguinte à publicação da reportagem, a assessoria de imprensa de Paulo Augusto Ramos Santos enviou uma nota na qual afirma que “a movimentação financeira de sua empresa é lícita e integralmente declarada ao fisco” e que “as transferências feitas a advogados investigados ocorreram após os fatos sob apuração e se referem a outros serviços sem relação com a investigação”.

Um outro episódio descrito no inquérito é uma ação da empresa de ônibus Transcol, que resultou na liberação de uma quantia entre 5 e 6 milhões de reais bloqueados em primeira instância, segundo depoimento de João Gabriel. O dinheiro foi pago pela Caixa Econômica Federal em menos de 24 horas, segundo ele. A decisão contrariava determinação expressa de outro desembargador, Ricardo Gentil, que havia proibido Gomes Pereira de atuar no caso. Mesmo assim, o despacho foi assinado — e, de acordo com o ex-assessor, “a ordem veio de Lia Rachel”.

Quando a liminar saiu, houve tumulto dentro da corte. Colegas repreenderam o magistrado. Lia Rachel, a filha do magistrado, recebia valores por decisões previamente alinhadas com os advogados, segundo os investigadores. A investigação aponta que ela quitou uma casa de 2,1 milhões no Condomínio Aldebaran com 800 mil reais em propina paga pelo advogado Juarez Chaves. O pagamento foi dissimulado por transferências diretas aos vendedores, coincidindo com a distribuição viciada de processo para relatoria do pai e liminar favorável à Sundeck.

O desembargador Gomes Pereira tinha o hábito de atrair processos por “prevenção” — um expediente que pode ser legítimo quando um magistrado reivindica para si casos que têm conexões com outros que está julgando, mas que em suas mãos tinha outro objetivo.

Nem tudo era dinheiro. Algumas decisões atendiam a pedidos políticos. Num bilhete, Lia Rachel ordenou: “Segurar o caso do Edilson Sérvulo até março. Foi pedido do deputado Georgiano [Georgiano Fernandes Lima Neto, do MDB].” Era uma referência ao prefeito de Barras, Edilson Capote (PSD), alvo de ação que poderia cassar seu mandato. Lia pediu para “deixar parado”. O assessor obedeceu. Quando a PF confrontou Cardoso sobre o bilhete, ele confirmou: “Ela disse que era um pedido de deputado. Eu só cumpri.” Em outro manuscrito, Lia escreveu ao lado do número de um processo: “Aplicar multa de 5%. Parte contrária está enchendo de embargos.” No canto inferior, a anotação: “Falar com Des.” — uma forma discreta de confirmar que o pai sabia.

Apurações apontam que gabinete do desembargador José James Gomes Pereira era um balcão de negócios escusos (Foto: Reprodução)
Apurações apontam que gabinete do desembargador José James Gomes Pereira era um balcão de negócios escusos (Foto: Reprodução)

O depoimento de Cardoso oferece um retrato completo da inversão de autoridade. O assessor trabalhava sob ordens diretas da filha do desembargador. Ela, por sua vez, reportava-se ao pai apenas quando havia risco e dizia que estava ali para blindar o desembargador. As ordens se repetiam com naturalidade de rotina administrativa: “dar provimento”, “analisar embargos”, “ver possibilidade de conceder liminar”. Lia fornecia até a fundamentação jurídica das decisões. O assessor digitava, assinava, e a Justiça do Piauí seguia em movimento — com o nome de Gomes Pereira na assinatura digital e a vontade da filha no conteúdo.

Entre os itens apreendidos no quarto do desembargador, está o manual de uma máquina de contar cédulas e um caderno de capa amarela com as inscrições “Operação Paraíba”, recheado com “comprovantes, manuscritos e documentos”.

Procurado pela piauí, o escritório Almeida Castro, Castro e Turbay Advogados, que defende Gomes Pereira e Lia, enviou uma nota na qual afirma que os dois são inocentes.

Em razão das notícias veiculadas na imprensa sobre a investigação envolvendo o nome do Desembargador José James Gomes Pereira, faz-se necessário esclarecer que o Desembargador nunca solicitou, autorizou ou compactuou com qualquer prática que violasse os princípios da legalidade, moralidade e ética que sempre nortearam sua trajetória na magistratura. A defesa técnica do Desembargador e de sua filha, a advogada Lia Raquel, refuta qualquer juízo precipitado sobre os fatos. Como o processo está em segredo de justiça, neste momento, a defesa não poderá aprofundar qualquer análise técnica.

Os defensores dizem também que o manual não pertencia ao desembargador.

A Polícia Federal enquadrou os envolvidos nos crimes de corrupção ativa e passiva, fraude processual, organização criminosa e lavagem de dinheiro. A representação afirma que o desembargador “tinha plena ciência e anuía às práticas ilícitas de sua filha”. Em setembro de 2025, a PF pediu a prisão preventiva de Gomes Pereira e Lia Rachel, além de buscas e apreensões em endereços ligados ao magistrado, à filha e aos advogados Juarez Chaves e Germano Barbosa. O pedido foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça, no bojo da Cautelar Inominada Criminal 176/DF (2025/0342130-3).

O pedido de prisão se baseava na gravidade dos fatos e na dimensão institucional do esquema de venda de sentenças, apontado como uma estrutura criminosa que teria operado de forma reiterada dentro do Tribunal de Justiça do Piauí. A PF sustentou que as prisões eram necessárias para garantir a ordem pública e a instrução criminal, diante da possibilidade de interferência dos investigados em processos e servidores ainda vinculados ao tribunal.

O ministro Sebastião Reis Júnior, relator do caso no STJ, negou o pedido de prisão. Em sua decisão, escreveu que “a suposta atuação ilícita encontra-se adstrita à possibilidade de o magistrado representado proferir decisões” e que não havia nos autos indícios concretos de que qualquer dos alvos tivesse ameaçado, intimidado testemunhas ou atuado para dificultar a investigação. Entendeu que as medidas já em vigor — como o afastamento do cargo por um ano e as restrições de contato entre os investigados — eram suficientes para resguardar o andamento do inquérito.

O ministro, porém, concordou com o afastamento de Gomes Pereira do cargo, sob o argumento de que havia indícios robustos de uso criminoso da função pública. No despacho, registrou:

“Consoante já assinalado, existem fundadas suspeitas de que o Desembargador José James Gomes Pereira utiliza sua função pública para a prática de crimes, o que justifica o afastamento cautelar do cargo. Os supostos crimes imputados ao magistrado estão diretamente ligados ao exercício funcional, trazendo efeito deletério à reputação, imagem e credibilidade do Poder Judiciário, justificando, assim, o seu afastamento do cargo.”

Estranho

Ao fim de sua manifestação, o Ministério Público Federal pediu ao STJ a suspensão das decisões assinadas por Gomes Pereira que beneficiaram as empresas Sundeck Holding, Vila Bella das Furnas e o Grupo Franciosi, sob o argumento de que havia indícios de tratativas e possível venda de sentenças. O ministro Sebastião Reis Júnior reconheceu a gravidade dos indícios, mas negou o pedido, afirmando que o MPF não apresentou fundamentação suficiente nem indicou os processos afetados.

“Desse modo, por ora, indefiro o pedido”, decidiu Sebastião Reis.

O curioso caso em que o julgador acusado de vender sentenças é afastado, mas as sentenças suspeitas, não.

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Lições sobre a polarização brasileira

Por Flávia Tavares e Giullia Chechia (Canal Meio)

Brasília, o epicentro do poder e o núcleo das diferenças que se transformaram em fosso (Foto: Reprodução do Canal Meio)
Brasília, o epicentro do poder e o núcleo das diferenças que se transformaram em fosso (Foto: Reprodução do Canal Meio)

Há quem considere que chegamos a um nível de polarização intransponível. Há quem resista à noção de polarização por negar que os extremos sejam equivalentes. Há ainda quem responsabilize sempre o outro pela situação. Só não há quem ignore que o Brasil vive um momento de divisão acentuada — e que, ao interditar o diálogo, essa cisão corrói a qualidade da nossa democracia.

Compreender o que nos polariza politicamente é o único caminho para superar esse afastamento. Pensadores de diferentes formações vêm se dedicando à tarefa de investigar, por meio de pesquisas, a polarização no Brasil. O Meio ouviu os quatro maiores especialistas no tema para extrair lições que possam iluminar as portas de saída.

Pablo Ortellado é filósofo, professor de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo e diretor-executivo da More in Common Brasil. Felipe Nunes é cientista político, CEO da Quaest e diretor do ConnectLab, novo laboratório de estudos da escola de economia da FGV-SP. Mauricio Moura é economista, fundador do Instituto Ideia e professor da Universidade George Washington. Renato Meirelles é comunicólogo, escritor e presidente do Instituto Locomotiva. Todos esquadrinham, indo a campo, o que nos divide. Aqui, eles apontam algumas de suas conclusões.

Ortellado e Nunes concentram seus achados na polarização afetiva, a divisão que supera aquela diferença de opiniões e de preferências partidárias, saudável num ambiente democrático. Ambos oferecem dados inéditos de suas pesquisas para explicar o movimento de calcificação de identidades que torna o outro, o diferente, tão ameaçador — e, portanto, um inimigo a ser eliminado.

Moura e Meirelles analisam os efeitos eleitorais dessa cisão. A maneira binária como o Brasil elege presidentes da República, em dois turnos, e a onipresença do PT e de Lula, direta ou indiretamente, desde 1989 consolidaram os polos entre petismo e antipetismo — mas há alguma porosidade a ser explorada entre as duas pontas. A seguir, alguns dos principais pontos das conversas com os quatro pesquisadores.

O outro como a negação de mim

Há sete anos, o Brasil fervia às vésperas do segundo turno que levaria Jair Bolsonaro à Presidência da República. No dia 21 de outubro de 2018 — exatamente uma semana antes do pleito —, o Hino Nacional ecoava na Praia de Copacabana. Um buzinaço atravessava todas as faixas que ligam o Museu da República ao Congresso Nacional em Brasília. E, em São Paulo, a Avenida Paulista se tingia de verde e amarelo.

Agitando o público paulistano, falando pelo telefone — ele estava em casa de casa se recuperando da facada —, Bolsonaro bradou: “Petralhada, vai tudo vocês (sic) pra ponta da praia. Vocês não terão mais vez em nossa pátria porque eu vou cortar todas as mordomias de vocês. Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil”. Seu discurso foi entrecortado pelos gritos dos manifestantes: “Mito, mito, mito!”.

Aquele era, essencialmente, o mesmo público que se reunira um ano antes em apoio à Lava Jato. Mas algo havia mudado no âmago do movimento.

Em março de 2017, no ato liderado por Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre (MBL) e Revoltados Online, apenas 31% dos manifestantes se definiam como de direita. Outros 27% se colocavam no centro; 4% se diziam de esquerda, mas estavam ali. A maioria, 36%, não se encaixava em nenhum espectro. Nem mesmo os valores os uniam: 47% se consideravam muito conservadores, 34% pouco e 15% nada conservadores. O que realmente os conectava era o antipetismo: 85% se reconheciam nesse sentimento.

Em outubro de 2018, a autopercepção dos manifestantes da Paulista havia mudado. A direita dominava: 72% se declaravam assim. O centro minguara a 17%. A esquerda sumiu daquela cena. Apenas 9% continuavam sem se encaixar em nenhum lado. O antipetismo cresceu ainda mais: 91% eram muito antipetistas, 5% pouco e 3% nada. Nos costumes, 74% se diziam muito conservadores, 23% pouco e apenas 2% nada conservadores.

Com o passar do tempo, ser de direita, conservador e bolsonarista foi se consolidando em uma única identidade. Numa outra manifestação, em setembro de 2022, 82% dos entrevistados já se reconheciam no campo da direita (3% permaneciam no centro e outros 3% continuavam fora de qualquer etiqueta política); 80% muito conservadores, e 77% muito antipetistas.

Os dados colhidos pelo Monitor do Debate Político da USP revelam que, nesse intervalo, os manifestantes afinaram suas identidades políticas. O que antes se apresentava como um levante antipetista, mas diverso, passou a movimento alinhado: mais do que antipetistas, aquelas eram pessoas de direita e conservadoras. E essa, segundo Pablo Ortellado, é uma das chaves para entender a polarização.

Primeiramente, ele observa que há dois tipos de polarização que preocupam mais os cientistas sociais. A primeira é a polarização de opinião, que mede a migração gradual da opinião pública para os extremos. A segunda, e mais alarmante, é a polarização afetiva. “É a animosidade de quem adota uma identidade por quem adota a identidade adversária”, explica. “É a ojeriza e o desgosto de uma pessoa de esquerda por uma de direita — e vice-versa.” O problema, segundo ele, é que os estudos recentes indicam que a polarização afetiva tem avançado mais rápido do que a de opinião.

Na tentativa de compreender esse descompasso, Ortellado se apoia nos estudos da cientista política americana Lilliana Mason, da Universidade Johns Hopkins. Suas pesquisas se enraízam na Teoria da Identidade Social, desenvolvida a partir de um experimento clássico conduzido em 1971 pelo psicólogo britânico Henri Tajfel.

Tajfel provou, num experimento, o quanto o simples fato de pertencer a um grupo já bastava para que as pessoas favorecessem “os seus” e hostilizassem “os outros”, mesmo sem motivos concretos.

Mason transpôs essa lógica para o campo político. Até os anos 1990, media-se a polarização apenas pela radicalização das ideias. O afastamento das opiniões para os extremos parecia bastar para explicar o todo. Mas, em meados de 2010, ela notou que as peças não se encaixavam. Sim, as opiniões estavam mudando, se radicalizando. Só que este deslocamento aos extremos se dava lentamente, enquanto a hostilidade entre os grupos crescia rapidamente.

“Era muito comum a pessoa ser republicana e liberal, ou conservadora e democrata”, lembra Ortellado. Essas identidades cruzadas, as sobreposições, funcionavam como amortecedores. Impediam o choque direto entre mundos. Havia zonas de contato, frestas por onde o outro ainda parecia humano, familiar, possível.

Com o tempo, essas frestas se estreitaram. As identidades começaram a se cristalizar, a se empilhar umas sobre as outras até formarem blocos densos, compactos. A lealdade ao grupo cresceu — e, com ela, o reflexo automático da hostilidade. O outro deixa de ser apenas alguém que pensa diferente: virou a negação de tudo o que sustenta o meu mundo. E, por isso, passa a ser visto como uma ameaça à minha própria existência.

Ortellado vê o mesmo processo em curso no Brasil — e embasa essa percepção com dados inéditos, que compartilhou com o Meio. Alguém que antes se dizia apenas antipetista, ao se reconhecer também como de direita e conservador, passa a fazer parte de uma constelação inteira de identidades alinhadas. E, dentro desse alinhamento, o confronto ganha potência.

“A vida é um mosaico de identidades. Quando elas se equilibram, os efeitos são suavizados.” Mas, segundo o professor, atravessamos um momento em que o movimento é inverso: o mosaico está sendo fundido em um bloco único. As peças se colam, e seus efeitos não apenas se somam. Se amplificam.

Para testar a hipótese, a More in Common, em parceria com a Quaest, convidou participantes a se posicionarem em três eixos: esquerda ou direita, bolsonarista ou petista, progressista ou conservador. Depois, pediram que avaliassem o quanto gostam ou desgostam dos pares e dos opostos. O resultado demonstrou que, quanto mais coerentes e alinhadas as identidades, maior o ódio ao grupo adversário.

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
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Mas que adversário? Outra pesquisa, feita em São Paulo, buscou desenhar o rosto desse ódio. Os entrevistados foram convidados a se definir ideologicamente e a definir os grupos no polo oposto. “Cada grupo projetou no adversário aquilo que nega em si mesmo”, explica Ortellado.

Na prática, as descrições ficaram assim: a direita, em sua maioria (36%), se vê como guardiã da família, da ordem e dos valores tradicionais. Mais 22% se enxergam como pessoas de bem, contra a corrupção e os bandidos. E como eles veem a esquerda? Para eles, 17% são contra a família, a ordem e os valores tradicionais; e 12% são corruptos, bandidos e a favor da corrupção.

Do outro lado, ficaram assim: 56% da esquerda se define como defensora dos trabalhadores e dos mais pobres. Mais 38% são a favor dos direitos humanos e do direito de mulheres, negros e população LGBT. E como eles veem a direita? Para eles, 22% são capitalistas, ricos ou egoístas e a favor das desigualdades sociais; e 16% são contra os direitos humanos ou contra o direito de mulheres, negros e população LGBT.

Ortellado traduz o que esses números expressam: “Quando você projeta no outro a negação de si mesmo, ele deixa de ser apenas alguém diferente. Vira uma ameaça existencial. Não enxergamos a diferença, mas a contradição. Ou melhor: nem enxergamos — imaginamos. E o outro se torna, na nossa cabeça, o oposto absoluto de quem somos”.

A ferocidade do outro

A reação a uma ameaça depende também da dimensão atribuída a ela. Quanto maior o medo, maior a energia empenhada na autoproteção e no contra-ataque. Um dos efeitos da polarização que o Brasil vive apareceu em uma parte ainda inédita da pesquisa Polarização Política no Brasil – 2025. O estudo foi coordenado pelos professores Felipe Nunes, Nara Pavão, Fred Batista e Natalia Bueno, todos pesquisadores do ConnectLab, da FGV.

“A polarização afetiva só existe porque eu tenho medo de que o outro seja uma ameaça a mim”, explica Nunes. Essa percepção de ameaça acaba sendo um terreno fértil para a desumanização do outro. Para se ter uma ideia do grau que isso atinge, os pesquisadores incluem entre as perguntas uma sobre em que grau de evolução estaria o grupo político oposto ao seu. Eles usam aquela foto que todos já vimos na escola, da evolução humana representada do macaco ao Homo sapiens. Lulistas colocam os bolsonaristas na escala macaco. Bolsonaristas fazem o mesmo com lulistas. Todos se veem como mais evoluídos, e isso mostra que o Brasil está num padrão parecido com o dos Estados Unidos de desumanização do outro.

Além disso, cada grupo numa das pontas percebe a si próprio maior do que realmente é. A pesquisa faz questão de segmentar os grupos de maneira a identificar e dimensionar os polos, separando-os dos campos maiores em que eles estão inseridos. Assim, nas proporções autodeclaradas, os lulistas são 20% dos entrevistados. Aqueles da esquerda não-lulista são 15%. Os bolsonaristas são 13%. A direita não-bolsonarista chega a 22%. E os que não se identificam com nenhuma ideologia, os independentes, são 29%. “Ou seja, o lulismo é maior do que a esquerda. A direita é maior do que o bolsonarismo. Isso diz muito sobre como o bolsonarismo consegue ser ruidoso dentro da direita, mesmo não sendo majoritário, e como a esquerda identitária consegue ser ruidosa, mesmo não sendo majoritária na esquerda.”

Mas Nunes e seus colegas queriam extrair mais dessas autopercepções e passaram a perguntar também o seguinte: Qual você acha que é o tamanho do bolsonarismo na sociedade brasileira? E o do lulismo?

A surpresa foi grande. Os lulistas acreditam ser 41% da sociedade, quando são 20%. Do outro lado, os bolsonaristas acham que são 46% do Brasil, quando são 13%. Ambos subestimam grandemente os independentes. As percepções de tamanho de cada segmento estão totalmente distorcidas.

E os pesquisadores foram além. Questionaram ainda sobre o que cada grupo acha que o outro lado quer fazer com o seu. Mais de 80% dos lulistas acreditam que bolsonaristas apoiam a violência contra o seu grupo. A estatística se repete na mão contrária. Na prática, estão todos achando que são muitos e que o lado de lá quer atacar. “A polarização existe na cabeça dos brasileiros. Há uma crença equivocada de que seu grupo é ‘fortão’. Mas por que a polarização persiste na cabeça das pessoas? Porque temos medo que o outro grupo possa nos atacar. Todo mundo, mesmo os independentes, tem medo de que o outro, qualquer outro, faça algo para lhe prejudicar”, acrescenta Nunes.

Seria possível imaginar, então, que conforme o líder de um dos polos se retire do cenário político-eleitoral, já que Jair Bolsonaro está inelegível e preso, essa polarização diminua?

Nunes não é otimista aqui. Isso porque, para ele, grande parte da polarização que o Brasil vive tem uma fonte institucional importante, que é o sistema eleitoral brasileiro de dois turnos. No livro Biografia do Abismo, que escreveu com Thomas Traumann, já havia começado a explorar a diferença de polarização em sistemas presidenciais de primeiro turno e de segundo turno. “ O segundo turno reforça a tese de que você, eleitor, tem de ter um lado e força esse eleitor a escolher o time logo no primeiro turno, abrindo mão do voto sincero e já adotando o estratégico.”

A decorrência é que há um padrão recorrente de votação nos municípios, nos estados, e que está tornando cada vez mais difícil mudar a opinião das pessoas, porque, quando vestem uma camisa, elas sentem a obrigação de defender aquele time mesmo depois que o jogo já acabou e se ele não for tão bem. “Essas camisas estão sendo vestidas cada vez com mais antecedência e mais constância”, diz Nunes. Prova disso é que o índice de correlação de uma eleição anterior para outra, na comparação de urnas, beira os 95%. Ou seja, se o PT teve 800 votos numa urna, numa eleição, ele tende a ter 800 nessa urna na eleição seguinte. “A identidade de time, de grupo, reforçada pela ameaça de que o outro grupo pode te aniquilar, é tão forte hoje na mentalidade brasileira que isso está calcificando preferências eleitorais. Mesmo sem Bolsonaro, mesmo sem Lula, a gente tende a ter uma certa organização da política em torno dos afetos a essas duas lideranças.”

O antipetismo como vetor

E se tem um afeto que polariza é o antipetismo. É em torno dele que o Brasil se divide, ao menos eleitoralmente, na visão de Mauricio Moura. Ao destrinchar o conceito de polarização, ele revisita a ameaça existencial citada por Ortellado, a desumanização por Nunes e reforça a camada da rejeição.

“Ao demonizar o opositor, o eleitor vai para a urna convicto de que qualquer coisa é melhor do que o adversário. É o que chamamos de batalha de rejeições. No Brasil, isso se potencializa pelo sistema binário de escolha. Não temos apenas dois partidos, mas temos um segundo turno que obriga o eleitor a transitar entre um polo e outro”, explica Moura. Ele argumenta que o parlamentarismo tende a frear isso. Na Alemanha, por exemplo, há uma extrema direita crescente, mas ela não governa o país justamente pelo sistema parlamentarista — assim como na Holanda.

O binarismo brasileiro se dá, para Moura, com o agravante de que Lula e o PT estão na urna, no segundo turno, de alguma maneira desde 1989. “Isso faz com que seja muito difícil encontrar alguém que não tenha uma opinião forte sobre Lula e PT, certo? Seja uma opinião anti-Lula ou anti-PT, seja uma opinião favorável.” E, embora a polarização nas eleições estaduais seja bem menos acentuada, com maior trânsito dos eleitores entre os grupos, como elas coincidem com as presidenciais acabam contaminadas.

Ficando estabelecido que em um polo está o PT ou o lulismo, no outro, sabemos que o bolsonarismo, em si, tem uma representatividade perto dos 13%. Mas ele conta, a cada nova eleição, com o que Moura chama de “antipetismo de chegada”. Já no primeiro turno, eleitores abriram mão, em 2018, de votar em Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e qualquer outro, apenas para votar em quem tinha mais condição de derrotar o PT. Em 2022, idem. E, assim, o polo bolsonarista parece se fortalecer, mas o que dita mesmo o polo oposto é o antipetismo.

Moura admite que Lula é maior que o antipetismo, tendo testemunhado aquele estranho fenômeno de pessoas que diziam, em 2018, que votariam em Bolsonaro só porque Lula não era o candidato. O que acontece, então, se Bolsonaro sai de cena? O grande desafio do lulismo, no ciclo de 2026, é mobilizar seu eleitorado a ir votar, diz Moura. Afinal, sempre que se trata de uma tentativa de reeleição, o presidente incumbente é o protagonista. A pergunta que polariza é se aquele presidente deve permanecer no cargo.

Ocorre que, tradicionalmente, incluídos no alto índice de abstenção, estão eleitores de baixa renda e baixa escolaridade, perfis que tendem a votar no PT. Não raro, as pesquisas indicam o candidato lulista na frente por mais de 10 pontos e, no dia da eleição, ele ganha por 3 ou 4. “E na segunda-feria todo mundo diz que as pesquisas erraram. Não se trata disso. Só que muitos daqueles que diziam que votariam no candidato do PT simplesmente não comparecem.”

Além disso, há uma pequena massa de insatisfeitos, ali na casa dos 3%, que não entram automaticamente na lógica da polarização, a serem conquistados. Sim, para Moura, ela é pequena assim. Do ponto de vista quantitativo, a prova disso é que, quando se pergunta ao eleitor de Bolsonaro no segundo turno qual a avaliação do governo Lula, a resposta é taxativa. “Não tem ninguém que votou no Bolsonaro que aprova esse governo. E isso independe de elas serem bolsonaristas convictas.” Hoje, embora em alta, a aprovação de Lula é menor do que a do primeiro trimestre do governo. O teto dele é baixo.

Arte ilustrativa
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A porosidade eleitoral

Se à primeira vista a polarização parece um muro intransponível, Renato Meirelles insiste em procurar as brechas. À frente do Instituto Locomotiva, ele investiga onde ainda há espaço para diálogo. Um compilado de estudos revela que, por trás dos ruídos estridentes, persistem zonas de contato entre os brasileiros. São territórios em disputa – e excedem os 3%.

A partir do comportamento eleitoral e do autoposicionamento ideológico, o Locomotiva traçou um mapa do que nos divide. E descobriu que 7 em cada 10 brasileiros vivem nesse terreno movediço que separa um polo do outro. É gente que se inclina, hesita, muda de ideia. É o eleitorado da permeabilidade, que transita de um lado a outro, mas resiste a se fixar.

Entre os que pendem à esquerda, 27% votaram no PT em 2022 e não se arrependem, embora não necessariamente tenham feito o mesmo em 2018, ou sequer se reconheçam como parte da esquerda. Do outro lado, 18% tendem à direita. E há ainda um grupo expressivo que se descolou completamente de qualquer polo: 26% de desiludidos, desmotivados, abstenções, votos nulos, arrependimentos. Esses percentuais deixam de fora os extremos do espectro político e descrevem justamente o espaço intermediário, a área onde predominam as nuances e as mudanças de rota. É a fatia do meio.

Nesse cenário de instabilidade, Meirelles identifica os primeiros sinais de frestas para romper a polarização. Duas cenas ilustram a permeabilidade: dos inclinados à direita, 39% defendem que o Estado deve intervir na economia para garantir o crescimento do país. Entre os que se aproximam da esquerda, 36% acreditam que o aborto deveria continuar sendo considerado crime. “Isso é importante porque você começa a entender onde estão os pontos de porosidade dentro dessa suposta calcificação do eleitorado — e percebe também algumas incoerências.”

Longe de serem apenas paradoxos, essas contradições apontam caminhos possíveis. “Quando pensamos em superar a polarização, precisamos perder menos tempo com os convictos e caminhar em direção ao grupo mais intermediário”, defende. É um eleitorado que, muitas vezes, não se envolve o suficiente para sequer ir votar. Ou que decide o voto na ponta do laço.

A cada eleição, o Brasil repete um velho padrão: indecisão prolongada e alta abstenção. No último pleito presidencial, 1 em cada 5 eleitores não compareceu às urnas no segundo turno, e 14% escolheram o candidato apenas na véspera ou no próprio dia. Ao acompanhar o mesmo grupo de eleitores por quatro semanas, durante o segundo turno, o Locomotiva encontrou 30% de volatilidade — votos que mudavam de direção entre uma rodada e outra. A instabilidade se concentrava entre os mais pobres, os mais jovens e os menos escolarizados. Destes, 18% alteraram o voto efetivamente depositado nas urnas em relação à intenção declarada três dias antes do pleito.

E a oscilação passou longe de se encerrar no domingo da eleição. Atravessou o tempo, ressurgiu nas conversas, nas avaliações de governo, no vai e vem das opiniões. A volatilidade tornou-se quase um modo de estar na política. Mesmo com o governo avançando para o último ano, cerca de um terço dos eleitores ainda se declara disposto a mudar de opinião sobre Lula. Em números, isso significa que o presidente pode alcançar até 56% de aprovação, enquanto o teto do descontentamento se estabiliza em 43%. Esse movimento no centro reverbera nas bordas do espectro político.

Mesmo nas extremidades do debate, onde o ruído é mais intenso, Meirelles identifica pequenas rachaduras. São os territórios mais rígidos — 11% de petistas convictos e 18% de bolsonaristas fiéis —, mas nem eles escapam das contradições. Quando provocados em temas como tributação, porte de armas, aborto e drogas, até os mais convictos vacilam. Entre os petistas ferrenhos, 69% sustentam opiniões progressistas em três desses temas ou mais; entre os bolsonaristas, 63% mantêm posturas conservadoras.

Percepções que, aliás, também não estão tão distantes quanto parecem. O instituto presidido por Meirelles replicou no Brasil uma pesquisa da Pew Research, feita nos Estados Unidos, e perguntou a eleitores de Lula e Bolsonaro sobre temas de costumes e de Estado. Identidade de gênero, posse de armas, família, casamento, eficiência do governo, programas sociais e auxílios entraram no balaio. “Na dimensão dos costumes, há 19 pontos percentuais separando eleitores de Lula e Bolsonaro. Na visão de Estado, 16 pontos. Ou seja, em média, o que divide os brasileiros são 18 pontos percentuais — contra 50 nos Estados Unidos, entre eleitores de Donald Trump e Kamala Harris. Temos, portanto, uma polarização real, mas muito menos profunda que a norte-americana”, afirma.

O retrato pintado por Meirelles revela um país menos aprisionado em trincheiras e mais como um solo vivo, que se reorganiza a cada passo. A polarização, pondera, é real, mas jamais inquebrável. As fissuras no eleitorado abrem pequenas frestas de diálogo, passagens tênues por onde o sopro da conversa pública ainda circula. É por essas aberturas que surge a possibilidade de reconstruir pontes e dar novo fôlego à democracia.

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O endereço do crime em plena Avenida Paulista

Fachada do Edifício Patrimônio em São Paulo (Foto: Revista Piauí)
Fachada do Edifício Patrimônio em São Paulo (Foto: Revista Piauí)

Por Allan de Abreu e Juliana Faddul (Revista Piauí)

O edifício Patrimônio, na Avenida Paulista, em São Paulo, possui 21 andares com dezenas de salas comerciais. No 15ª piso do prédio, a sala 1513 destoa por ter a porta de entrada pintada na cor cinza, e não branca, como as demais. É o único diferencial, já que todas as salas têm um tamanho padrão, 28 m². Grudada na porta cinza, uma folha sulfite improvisada, pregada com fita adesiva, informa que, naquele espaço, funciona uma empresa de coworking.

Segundo funcionários do prédio, a sala permanece vazia e fechada na maior parte do tempo. O que soa estranho, já que, ao menos no papel, aquele pedacinho de chão corporativo  é um poderoso “hub” empresarial, sede de 108 empresas, cujo capital social soma 530 milhões de reais, segundo informações da Receita Federal. Há firmas de todo tipo de ramo: holdings, empreendimentos imobiliários, provedor de internet, lojas de roupa, fábrica de produtos em cerâmica, joalheria, escritórios de contabilidade.

Está ali também a empresa B3T4 International Group, razão social de três bets ativas no mercado brasileiro: Bet4, Aposta Bet e Faz o Bet. A B3T4, por sua vez, tem conexões com empresas acolhidas na mesma sala e que formam a engrenagem do esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que tomou de assalto o mercado financeiro paulistano, segundo investigações da Operação Carbono Oculto, do Ministério Público de São Paulo.

A suspeita de conexão entre a empresa de apostas esportivas e a facção criminosa se dá por meio do empresário Mohamad Hussein Mourad. Seis companhias ligadas ao PCC estabelecidas na sala 1513 são utilizadas para maquiar seus rendimentos obtidos ilegalmente, segundo o MP de São Paulo.

As empresas Urban Prime, Stellar, Horizon, Vitality e Orbit eram controladas por um fundo de investimento e utilizadas para blindar o patrimônio imobiliário de Mourad, um dos líderes do esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa (a  Polícia Federal pediu sua prisão, ele está foragido desde o fim de agosto). Já a Scotia Holdings e Participações servia para ocultar Mourad como o real proprietário da frota de caminhões utilizados pela organização criminosa para escoar o etanol produzido pelas usinas do esquema no interior paulista.

Até dezembro do ano passado, as empresas Urban Prime e Vitallity estavam sediadas no terceiro andar do edifício Faria Lima Offices, na Rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. É o mesmo local que abrigava a B3T4. Juntas, em um intervalo de três meses, as três empresas mudaram-se para a sala 1513 do edifício da Avenida Paulista. Outro ponto que aproxima a B3T4 do esquema de Mourad, segundo o Ministério Público, é que ambos se valeram de um mesmo banco, o BS2*, para movimentar parte dos seus recursos.

Há um outro personagem oculto no emaranhado de negócios vinculados a Mourad e o PCC: o advogado Walter Silva Souza, atual chefe de gabinete do vereador em São Paulo Marcos das Neves Palumbo, o Major Palumbo (PP). Além de dono de uma das 108 empresas hospedadas na sala 1513 do edifício Patrimônio (Virginia Holdings e Participações), Souza é sócio da Higienópolis Empreendimentos Imobiliários e da Londrina Fundo de Investimento, que segundo as investigações são utilizadas para blindar o patrimônio de Mourad. Souza também atua como advogado para a Duvale Distribuidora, a quem cabia transportar o etanol das usinas para os postos, cujos reais donos, de acordo com o Ministério Público, são Mourad, o narcotraficante do PCC Daniel Dias Lopes, e Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco. Por fim, Souza figura como sócio da Newib Participações, uma holding estabelecida no terceiro andar do prédio na Rua Cardeal Arcoverde, em São Paulo.

A B3T4 não é a primeira bet sob suspeita de ligações com o PCC. No ano passado, uma investigação da Polícia Federal revelou indícios das ligações de duas casas de apostas do Ceará, Fourbet e Loteria Fort, com a família de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da facção paulista. De acordo com policiais ouvidos pela piauí, as bets são propícias à lavagem de dinheiro por possibilitarem, por exemplo, que testas de ferro simulem apostas com o capital do tráfico de drogas. Assim, o dinheiro sujo sai devidamente lavado na contabilidade formal da plataforma.

AB3T4 foi fundada em 14 de agosto de 2024 em uma parceria entre a SDMP, uma empresa mexicana, e a catarinense Liliane Alberti. Para o capital social da nova empresa, a SDMP investiu 28 milhões de reais, enquanto Alberti aportou mais 7 milhões. Chama a atenção o fato de que, naquela mesma época em que investia milhões na B3T4, Alberti era procurada pela Justiça por uma dívida de apenas 6,6 mil reais com uma universidade (o débito ainda não foi quitado). Moradora de Herval d’Oeste, cidade de apenas 22 mil habitantes no Oeste de Santa Catarina, ela trabalhou a maior parte do tempo como auxiliar de escritório (seu último emprego formal foi como assistente administrativa em uma firma de certificação digital). Alberti não foi localizada pela piauí – segundo familiares, ela atualmente mora na Argentina.

Sociedade

Seis dias após a fundação da B3T4, em 20 de agosto, ingressou na sociedade a Media 4 Brasil, que, por sua vez, é controlada pela Media4 Curaçao, uma offshore na ilha caribenha cujo diretor é o advogado surinamês Jair Almeida Toussaint. Aqui, um outro ponto que aproxima a B3T4 do PCC: foi Toussaint quem assinou, pela Vaidebet, o contrato de patrocínio de 360 milhões de reais com o Corinthians em 2024. Uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público demonstrou que, do montante total do contrato, cerca de 1 milhão de reais foram parar em uma empresa ligada ao PCC (por conta disso, o então presidente do clube, Augusto Melo, foi destituído do cargo em um processo de impeachment e atualmente é réu em ação penal na Justiça, acusado de furto qualificado, associação criminosa e lavagem de dinheiro).

Atualmente a B3T4 tem como sócios, além da Media 4, Victor Muchiutti Maritan, engenheiro em Marília (SP); Abilio Del Cioppo Elias, empresário de Valinhos (SP); Cristina Dias Tavares Rehem, ex-servidora comissionada no Senado Federal; Eduardo Vinicius Fonseca Silva Cordeiro, um jovem advogado de Goiânia; e o ator Erich Rodrigues Cardoso Pelitz. Atualmente, Liliane Alberti é a representante da SDMP no Brasil. Apesar de citados na investigação do Ministério Público contra o esquema de lavagem do PCC, nem o advogado Walter Silva Souza, nem os donos da B3T4, foram alvos de mandados de busca na Operação Carbono Oculto.

O advogado Souza negou ter relação tanto com o esquema de Mohamad Mourad quanto com a gestora de bets B3T4. “Não conheço [Mourad] e não tenho nenhuma relação com essas empresas. Inclusive já apresentei carta de renúncia [da Higienópolis Empreendimentos Imobiliários e da Newib Participações] porque não tinha conhecimento desses fatos [apresentados pela reportagem]”, disse por mensagem de WhatsApp.

O advogado Eduardo Cordeiro, sócio da empresa, encaminhou a seguinte nota à piauí: “No momento, não estamos dando entrevistas ou participando de compromissos com a mídia. Valorizamos e respeitamos profundamente seu trabalho profissional e solicitamos que nossa privacidade e posição atual sejam preservadas.” Também em nota, divulgada dias após a deflagração da operação do MP, a defesa de Mourad negou os crimes imputados a ele na investigação.

O outro lado

*Às 14h40 do dia 26 de setembro, a assessoria de imprensa do banco BS2 procurou a piauí e enviou a seguinte nota:

O BS2 informa que a empresa B3T4 nunca movimentou recursos por meio de conta no banco. O BS2 também informa que Mohamad Mourad nunca esteve entre seus correntistas Pessoa Física.

Apesar de não termos sido procurados pelas autoridades para esclarecimentos, após a deflagração da operação Carbono Oculto, o banco realizou uma varredura preventiva em sua base de clientes.

Encontramos a empresa Scotia Holdings, que realizou operações em 2023 e 2024 e tem Mohamad Mourad em seu quadro societário. Foram cinco operações para aporte de capital, devidamente documentadas por bancos de primeira linha dos Estados Unidos. Na época, a empresa passou pelas devidas diligências internas de PLD e não foram encontrados fatos que a desabonassem.

Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, o BS2 realizou imediatamente o bloqueio cautelar da Scotia Holdings, ainda que ela não tivesse registrado operações no banco desde maio de 2024.

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Lei usada por Trump contra Moraes é descabida, diz o seu criador

Por Pedro Dória (Canal Meio)

Sir William Browder fomentou lei que ganhou dimensão internacional, a partir de uma experiência dolorosa (Foto: Canal Meio)
Sir William Browder fomentou lei que ganhou dimensão internacional, a partir de uma experiência dolorosa (Foto: Canal Meio)

“O ministro Alexandre de Moraes não é um violador grave de direitos humanos, não é acusado de sê-lo, tampouco é um grande cleptocrata que ganhou bilhões em corrupção.” A frase é de Sir William Browder, 61 anos, americano naturalizado inglês, financista e, a um tempo entre finais de anos 1990 e princípios deste século, o maior investidor estrangeiro na Rússia. Browder é, também, o pai da Lei Magnitsky, aquela utilizada pelo governo de Donald Trump contra o relator do processo de tentativa de golpe de Estado no Supremo Tribunal Federal. “Essas são as únicas categorias pelas quais alguém deve ser sancionado pela lei.”

Em entrevista ao Meio, disponível na íntegra, em inglês, no nosso streaming, Browder se mostrou simultaneamente indignado e aliviado. “Eu temia que eles quisessem acabar com a Lei Magnitsky”, diz sobre o atual governo americano. “Este é claramente um abuso da lei mas, ironicamente, agora eles também estão comprometidos com ela.”

No princípio do governo de Vladimir Putin, o Kremlin começou a partir contra os negócios em que o fundo de Browder havia investido. Era um leque de companhias focadas em energia como Gazprom, Surgutneftegaz, Unified Energy Systems e Sidanco. Foram pressionadas de toda forma, vieram processos estapafúrdios até, no fim, serem encampadas. Para questionar nas cortes o que era o início dos muitos abusos do governo Putin, ele constituiu um jovem advogado tributarista chamado Sergei Magnitsky. Quando descobriu uma fraude fiscal de US$ 230 milhões cometida pelo governo, Magnitsky foi preso, torturado por 358 dias e, ao fim, morto. Tinha 37 anos.

Perante o choque, Browder fez de sua missão de vida constituir um aparato legal que permitisse punir os responsáveis por crimes de alto grau de violência e corrupção como este. A Lei Magnitsky não é apenas americana — há legislações equivalentes a ela no Canadá, no Reino Unido, na União Europeia e na Austrália. A praxe é de que quando um dos governos decide após muita análise punir alguém com ela, que o ato ocorra em concerto com os outros. Esta rede faz com que os grandes corruptos e violadores de direitos humanos tenham muita dificuldade de transitar com seu dinheiro pelo mundo.

Para o criador da Lei Magnitsky, o uso da lei contra Moraes é tão absurdo que, se o governo brasileiro entrar na Justiça americana, ganha já desde a primeira instância. “Os tribunais são independentes; e a lei, escrita de forma muito clara”, ele diz. “As instituições americanas são muito fortes, mas vamos sofrer um tanto porque este presidente ainda tem mais três anos e meio de mandato.”

Sir William, como surgiu a Lei Magnitsky? O que aconteceu?

Fui o maior investidor estrangeiro na Rússia por cerca de uma década, do fim dos anos 1990 ao início dos anos 2000. Comecei a descobrir corrupção nas empresas em que investia e denunciei esses esquemas. Como retaliação, fui expulso do país. Meus escritórios foram invadidos e a polícia confiscou diversos documentos. Pedi a um jovem advogado, Sergei Magnitsky, que investigasse por que estavam apreendendo esses papéis. Ele descobriu que os documentos vinham sendo usados numa fraude fiscal complexa em que autoridades corruptas e membros de organizações criminosas se uniram para desviar e roubar US$ 230 milhões em impostos que minha empresa havia pagado ao governo russo. Sergei expôs o crime, testemunhou contra os envolvidos e, em seguida, foi preso, torturado por 358 dias para tentar fazê-lo retirar seu depoimento e, depois, assassinado sob custódia da polícia russa aos 37 anos. Isso foi em 16 de novembro de 2009. Desde então, abandonei a vida empresarial para dedicar todo o meu tempo, energia e recursos a buscar justiça contra os responsáveis.

Acabei chegando a uma ideia: a Rússia é um país sem justiça, totalmente dominado pelo crime, mas talvez esses criminosos se sentissem pior se seus bens no Ocidente fossem congelados, e eles não pudessem viajar para lá. Levei essa ideia a Washington, depois ao Reino Unido, ao Canadá, à União Europeia e a outros lugares, perguntando: “Podemos congelar os ativos e negar vistos a esses violadores de direitos humanos e cleptocratas russos?”. Essa proposta se tornou a Lei Magnitsky. A lei foi aprovada nos Estados Unidos em 2012, no Canadá em 2017, no Reino Unido em 2018, na UE em 2020 e na Austrália em 2021. Hoje, ela existe em 36 países e é a ferramenta mais poderosa para responsabilizar abusadores de direitos humanos, torturadores, assassinos e grandes cleptocratas que antes eram intocáveis.

Normalmente, quando alguém entra na lista da Lei Magnitsky nos EUA, essa decisão é espelhada no Canadá, no Reino Unido, na UE e na Austrália, certo?

Certo. Não é 100 %, mas, em geral, se uma pessoa é considerada violadora de direitos humanos num país, isso é reconhecido em outros. É muito difícil colocar alguém na lista Magnitsky. É preciso ter feito algo realmente horrível. Por exemplo, os responsáveis pelos campos de concentração dos uigures em Xinjiang, na China — cinco ou seis generais envolvidos em genocídio —, estão na lista. Autoridades nicaraguenses que mandaram atirar em manifestantes pacíficos também. É preciso ser alguém bem perverso para entrar ali.

Pois o governo americano atual optou por usar a lei politicamente e incluiu um ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro. Não temos uma democracia perfeita no Brasil, mas há Estado de Direito: um ex-presidente está sendo julgado por tentar um golpe por um colegiado, e esse ministro, que conduz o julgamento, agora aparece na lista. O que isso significa?

Até onde sei, o juiz Alexandre de Moraes não é um grande violador de direitos humanos nem um cleptocrata que ganhou bilhões com corrupção — as duas categorias que justificam sanções pela Lei Magnitsky. Apontar alguém por razões políticas é um abuso da lei. Além disso, se um governo usa essa lei para ajustar contas políticas em outro país, essa decisão degrada o objetivo nobre da legislação. Não é um bom dia para a Lei Magnitsky.

A lei existe para incentivar comportamentos corretos e fortalecer democracias. Quando ela é usada assim…

A Lei Magnitsky foi pensada para países sem Estado de Direito — lugares onde assassinos e torturadores são intocáveis e vítimas não têm recurso. São esses indivíduos que devem ser sancionados. Veja o exemplo da África do Sul sob Jacob Zuma, um governo totalmente corrupto. E muitos sujeitos ajudaram Zuma a operar sua corrupção. Os irmãos Gupta, da Índia, supostamente roubaram dezenas de bilhões do Estado, e o país não conseguia puni-los. Os EUA e outros usaram a Lei Magnitsky contra eles. Esse é o uso correto da lei.

Quais são as consequências de usar esse poder contra democracias consolidadas que combatem corrupção e autoritarismo? Se os EUA impõem sua própria visão a outras democracias, o que acontece?

A questão vai além da Lei Magnitsky. O atual governo está abusando de outras leis: tarifas via IEEPA (International Emergency Economic Powers Act), o chamado “Alien Invasion Act” e mais. Isso faz muita gente estremecer. Democracias costumam cooperar. A Lei Magnitsky existe em vários blocos democráticos justamente para isso. Mas hoje há um grande país que se retirou de acordos como o Acordo de Paris e de instâncias da ONU. Os EUA, antes âncora do Estado de Direito e da democracia, se afastaram.

Há quem acuse grandes democracias de hipocrisia. Usar a Lei Magnitsky desse modo parece confirmar isso, não?

O mundo é vasto, com muitas opiniões. Democracia, Estado de Direito, bem e mal não desapareceram. Muitos tentam fazer o certo; alguns não. Também se pode criticar o Brasil por se alinhar a Vladimir Putin na guerra da Ucrânia. É complicado.
Trump sancionou o juiz porque seu amigo Bolsonaro está na berlinda, assim como ele esteve. Ele vai longe por isso. O mundo — e a Lei Magnitsky — seguirão. Eu temia que Trump desmontasse a lei, mas, ironicamente, ao abusar dela, ele também se compromete com ela. Este é um abuso específico. Se Moraes recorrer à Justiça dos EUA para contestar a sanção, provavelmente vencerá.

Túmulo de Sergei Magnitsky (Foto: James Hill - The New York Times)
Túmulo de Sergei Magnitsky (Foto: James Hill – The New York Times)

Esse caminho jurídico é viável?

Com certeza. Os tribunais nos EUA são independentes do Executivo, e a lei é clara: ele não se enquadra nas categorias. Se fosse ele, entraria com revisão judicial imediatamente.

Democracias no mundo se sentem atacadas pelo atual governo dos Estados Unidos. Trump é um erro passageiro corrigível no próximo mandato ou estamos diante de uma crise prolongada?

Não acredito que o movimento Maga (Make America Great Again) represente a maioria dos americanos. É uma minoria barulhenta. Muitos se sentem sem opção. Mas um grande grupo quer um governo normal — sem “britadeiras” de notícias todo dia. Confio na força das instituições americanas. Vi na Rússia o que é um governo tomado por criminosos. As instituições dos EUA são fortes. Teremos de aguentar mais — este presidente ainda tem três anos e meio —, mas eleições intermediárias, juízes, imprensa e estados decidirão as coisas. Um grupo só não toma um país sem representar a maioria.

No Brasil, muitos políticos se sentem reféns do bolsonarismo, como republicanos do Maga. Acham que precisam escolher entre ter votos ou ter uma espinha dorsal. O que lhes diria?

Não sei bem o que dizer a essas pessoas. Ao governo atual eu diria: se vocês não entregam para a maioria e continuam atendendo só a um grupo pequeno, líderes populistas surgirão. Foi o que ocorreu nos EUA — o governo Biden não entregou para a maioria, e um populista raivoso, com promessas falsas, capturou a atenção do público. Isso acontece em qualquer lugar onde o governo falha com a maioria. As pessoas têm razão de estar frustradas, mas precisam decidir se acreditam em promessas vazias ou em quem realmente entrega resultados.

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Relações entre Brasil e EUA têm pontos delicados além do tarifaço

Por Leonardo Pimentel (Canal Meio)

Arte ilustrativa do Canal Meio
Arte ilustrativa do Canal Meio

A partir da próxima sexta-feira, 1º de agosto, a menos que aconteça uma grande reviravolta, todos os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos sofrerão uma sobretaxa de 50%, anunciada no último dia 9 pelo presidente Donald Trump. Na carta em que justificava a tarifa, ele atacou o processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe, chamando a ação de “caça às bruxas”, e a regulamentação também pela Corte da atuação das redes sociais, pertencentes a big techs americanas. A única justificativa econômica, a de que os EUA eram prejudicados no comércio com o Brasil, é falsa, já que a balança comercial entre os dois países é superavitária para o lado americano.

Embora não conste da carta de Trump, analistas indicam que as tarifas seriam também uma resposta às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na conferência do BRICS defendendo que os países adotem outras moedas em vez do dólar no comércio internacional. E, para acrescentar mais um item à lista de interesses de Washington, o encarregado de negócios da embaixada americana em Brasília, Gabriel Escobar, disse que seu governo quer o acesso de empresas dos EUA aos minerais estratégicos e terras raras do Brasil. Como explicamos cá neste Meio em uma reportagem de Yan Boechat, esses insumos são fundamentais para novas tecnologias, de carros elétricos à inteligência artificial.

Seja qual for o motivo, o tarifaço de Trump empurra Brasil e Estados Unidos para o momento mais tenso de suas relações. Pelo menos nas relações às claras, não contando apoio de Washington a conspirações como o golpe de 1964. Mas, mesmo no campo legítimo da diplomacia e da economia, os dois países já se estranharam. Vamos relembrar os casos mais importantes, fazendo primeiro uma viagem ao início desse relacionamento.

Primeiro parceiro

Dizer que a relação entre Brasil e Estados Unidos é antiga se trata, no mínimo, de um eufemismo. Em agosto de 1824, menos de dois anos após o célebre grito de Pedro I, o presidente James Monroe reconheceu a independência do Brasil. No ano seguinte, já com John Quincy Adams morando na Casa Branca, os EUA abriram no Rio de Janeiro uma legação, que seria elevada a embaixada em 1905.

O reconhecimento do Brasil não se devia a nossa simpatia ou às belas suíças (aquele bigode-costeleta) do imperador. O movimento de Washington refletia o empenho de Monroe em aplicar a doutrina geopolítica que implementara e que levaria seu nome. Seu princípio fundamental era deixar as potências europeias de fora do Novo Mundo, apoiando a libertação das colônias existentes nas Américas e impedindo o estabelecimento de novas possessões coloniais. Também defendia o isolacionismo em relação a conflitos fora do continente. Embora fossem uma república independente e estável havia quase 50 anos, os Estados Unidos estavam longe do poder que viriam a deter. Tinham 24 estados e menos da metade de seu território atual. Manter longe os impérios europeus era uma questão de segurança.

Os registros mais detalhados das relações comerciais entre os dois países só começam de fato em 1901, mas elas vinham desde antes da independência. O império brasileiro via nos Estados Unidos uma alternativa à conturbada Europa como comprador de matérias primas e produtos agrícolas e fornecedor de manufaturados, especialmente a partir da segunda metade do século 19, com a forte industrialização americana. Em 1891, o Brasil, já republicano, assinou com os EUA um tratado de reciprocidade para reduzir tarifas e expandir o comércio.

A situação continuou mais ou menos a mesma até a crise de 1929 nos EUA e a revolução de 1930 no Brasil. Embora a relação comercial e política com Washington fosse predominante, o governo Vargas buscou diversificar a parceria, incluindo uma potência europeia (re)emergente, a Alemanha. Na década seguinte, o presidente Franklin Roosevelt usou muito soft power e dinheiro, incluindo o financiamento para construir a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a fim de manter o Brasil longe da esfera nazista e, mais tarde, levá-lo a entrar na Segunda Guerra com os Aliados.

O fim do conflito em 1945 e a Guerra Fria com a União Soviética fizeram o poder econômico e políticos dos EUA sobre a América Latina ser cada vez menos soft. Governos de inclinação esquerdista ou apenas nacionalista enfrentaram forte oposição e conspiração por parte do Washington, culminando com o apoio ao golpe que depôs o presidente João Goulart em 1964. Como revelou 13 anos depois o jornalista Marcos Sá Corrêa em reportagem no Jornal do Brasil, o presidente Lyndon Johnson chegou a enviar uma frota para dar suporte aos golpistas caso Jango resistisse, o que não ocorreu.

Pois foi justamente durante a ditadura militar que o primeiro entrevero grave entre Washington e Brasília se instalou.

O caipira, o alemão e os alemães

Com o Partido Republicano em frangalhos devido ao escândalo de Watergate, os americanos elegeram presidente em 1976 o democrata Jimmy Carter, um plantador de amendoins da Geórgia cuja política em relação à América Latina ia na contramão do que os Estados Unidos fizeram nas décadas anteriores. Carter era desde a campanha um crítico enfático às violações dos direitos humanos por parte das ditaduras militares que pululavam pelo continente, em particular no Chile, na Argentina e no Brasil. Ao mesmo tempo, prometia aprofundar a política de desarmamento nuclear iniciada por Richard Nixon. As duas posturas o puseram em rota de colisão com o Brasil.

O Palácio do Planalto era ocupado então por Ernesto Geisel, quarto general-presidente da ditadura de 1964. Filho de um imigrante alemão luterano, tinha uma vontade férrea e uma postura imperial que o levaram a enquadrar a linha-dura militar contrária a seu projeto de abertura “lenta, gradual e segura”. Havia exonerado o general Ednardo D’Ávila do comando do 2º Exército após os assassinatos sob tortura do jornalista Vladimir Herzog e do metalúrgico Manoel Fiel Filho e abortado um “golpe dentro do golpe” por parte do próprio ministro do Exército, o general Sylvio Frota.

Arte ilustrativa de balança comercial
Arte ilustrativa de balança comercial

Oficialmente, o Brasil negava as violações de direitos humanos, e Geisel tomou a postura de Carter como uma afronta dupla: uma interferência nos assuntos internos do país e um desrespeito a seu processo de abertura. O presidente americano, após criticar abertamente o Brasil no Congresso dos EUA, enviou a primeira-dama Rosalynn em visita oficial para apaziguar os ânimos. A emenda, porém, foi pior que o soneto. Não só Geisel antipatizou de primeira com a visitante, como o encontro dela com políticos de oposição, ativistas dos direitos humanos e vítimas de torturas azedou de vez o clima.

Mas os porões da ditadura não eram o único ponto de atrito. Em 1975, Geisel assinara um acordo com a Alemanha Ocidental (sim, havia duas Alemanhas) para a construção de oito usinas nucleares e a transferência de tecnologia para o ciclo completo de beneficiamento de urânio. Os militares brasileiros não escondiam o interesse em construir, não bombas atômicas, mas submarinos nucleares. O Estados Unidos, então presididos por Gerald Ford, eram contra e ficaram mais contra ainda sob Carter. Tão logo tomou posse, ele enviou seu vice, Walter Mondale, a Bonn com a missão de convencer os alemães a desistirem do acordo. Não conseguiu, embora até hoje apenas duas das oito usinas nucleares tenham saído do papel, ambas em Angra dos Reis (RJ).

A irritação de Geisel com a interferência foi tamanha que ele encerrou um acordo de cooperação militar entre Brasil e EUA firmado em 1952 para fornecimento de equipamento às Forças Armadas brasileiras. Carter ainda nos fez uma visita oficial em 1978, mas as relações entre os dois países só foram se normalizar na década de 1980, com Ronald Reagan na Casa Branca. Ou quase…

O chip é nosso

A ditadura militar brasileira era indiscutivelmente de direita e, fora o entrevero com Carter, alinhada aos Estados Unidos. Por outro lado, era nacional-desenvolvimentista e estatista como boa parte da esquerda, com a preocupação de não depender de tecnologia e empresas americanas. Por exemplo, ao buscar um padrão para a TV em cores no Brasil, os militares preferiram criar uma gambiarra do PAL alemão, o PAL-M, em vez de adotar o NTSC dos EUA. Uma das áreas que o regime considerava estratégica era a de computadores, acreditando que o país precisava de tecnologia própria e fabricação local. Em 1979, no governo de João Figueiredo, foi criada a Secretaria Especial de Informática (SEI) para ajudar a formular a política do setor.

Em outubro de 1984, no apagar das luzes da ditadura, o Congresso aprovou a Política Nacional de Informática, com validade de oito anos e dentro de um espírito protecionista que regia praticamente toda a produção industrial brasileira. A norma previa, entre outras medidas, o veto à importação de computadores e componentes e o incentivo a empresas 100% nacionais.

Acreditava-se que, sem a asfixia da concorrência com gigantes como a IBM, o Brasil poderia desenvolver uma indústria de informática (TI para quem tem menos de 40 anos) própria e sólida. Desnecessário dizer que não deu certo. Sem concorrência, a indústria nacional de fato cresceu, mas com produtos que não acompanhavam a velocidade de evolução do setor no mundo, afetando todo o resto da economia.

E, claro, como a maioria dos gigantes internacionais tinha sede nos EUA, Reagan partiu para a ofensiva. Não se tratava apenas de protecionismo; havia acusações de violação de patentes de hardware e softwares. Em 1985, o governo americano abriu uma investigação por práticas comerciais desleais e, em dois anos depois, Reagan impôs tarifas sobre uma série de produtos brasileiros, como couro, tubos de alumínio e autopeças e proibiu a venda para os EUA de equipamentos de informática brasileiros.

Em 1991, na esteira da abertura da economia brasileira promovida por Fernando Collor, a Lei de Informática foi alterada, permitindo que empresas estrangeiras se associassem a brasileiras para produzir aqui, mas a reserva de mercado de fato só caiu em outubro do ano seguinte, quando a legislação expirou.

Arapongagem made in USA

As encrencas entre Brasil e Estados Unidos não obedecem a limites ideológicos, tanto que a última delas, antes da atual, envolveu dois presidentes identificados com a esquerda, Barack Obama (ok, esquerda para os padrões dos EUA) e Dilma Rousseff. Em 2013, a ONG Wikileaks revelou um amplo esquema de espionagem por parte da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) americana contra o Brasil, incluindo a presidente, mas sem entrar em detalhes. Espionar aliados é uma prática comum em qualquer país que tenha um serviço de inteligência minimamente desenvolvido, mas ser pego em flagrante é feio.

A arapongagem contra o Brasil, dizia a Wikileaks, havia acontecido em 2011, logo no início do governo Dilma. A Casa Branca procurou sair pela tangente. Não negou, mas pediu desculpas e disse que a operação envolvia combate ao terrorismo, sem qualquer interesse econômico ou tentativa de prejudicar o governo brasileiro. Com protestos explodindo nas principais cidades do país e a perspectiva de uma campanha eleitoral dura no ano seguinte, Dilma aceitou as desculpas e as explicações e, uma vez reeleita, fez em 2015 uma visita oficial cheia de sorrisos a Obama.

Nem bem a presidente havia voltado ao Brasil quando um pool de veículos de comunicação publicou os detalhes dos dados vazados — não o teor das conversas, mas a lista dos telefones espionados. Entre os números brasileiros grampeados estavam as linhas fixas do gabinete no Palácio do Planalto e do comitê de campanha de Dilma e os celulares de autoridades ligadas à presidente, como o ex-ministro da Casa Civil Antônio Palocci. Até mesmo a linha por satélite do avião presidencial, supostamente segura, estava grampeada.

Pior, a afirmação de que a operação não tinha viés econômico caiu por terra. A Petrobras e o Ministério de Minas e Energia foram espionados, e mais uma vez o governo americano disse que estava atrás somente de dados sobre eventuais financiamentos a atividades terroristas.

Ficou no ar, porém, a suspeita de que se buscavam informações estratégicas sobre exploração de petróleo no pré-sal, o que azedou as relações do Planalto com a Casa Branca. A deposição de Dilma em agosto do ano seguinte e, meses depois, a primeira eleição de Trump nos EUA, acabaram jogando no esquecimento o incidente.

Agora é aguardar a sexta-feira e ver se o presidente americano vai de fato avocar o título de causador da maior crise de seu país com o Brasil.

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Praticagem marítima, paixão e desafios que atravessam décadas

Por Felipe Salustino (Repórter da Tribuna do Norte)

Sebastião nasceu em Areia Branca, onde começou a se afeiçoar à profissão ainda jovem (Foto: Anderson Régis)
Sebastião nasceu em Areia Branca, onde começou a se afeiçoar à profissão ainda jovem (Foto: Anderson Régis)

Há quase quatro décadas e meia, a missão de Sebastião Leite, de 80 anos, é garantir a entrada e saída de navios do Porto de Natal com o máximo de segurança. Ele é piloto de praticagem, uma profissão pouco conhecida, mas que exige dedicação intensa. A paixão pelo ofício, que muitas vezes requer decisões rápidas, é o que move Sebastião, o mais antigo entre os oito pilotos em atividade no Rio Grande do Norte. O desejo de navegar pela praticagem começou ainda na juventude, em Areia Branca, cidade natal de Leite, quando ele foi apresentado à profissão pelo cunhado. “O contato humano é o que há de mais apaixonante nesse universo”, relata, ao revelar que não pretende parar tão cedo.

Tamanha paixão fez Sebastião Leite deixar a Costa Branca potiguar para morar em Natal, cidade onde ele construiu carreira e criou os filhos. “Para ser prático é necessário passar por um processo na Marinha. Eram duas vagas, uma aqui para a capital, e outra para Areia branca. Fui aprovado com o melhor desempenho, então, ganhei a chance de escolher onde queria trabalhar. Escolhi Natal, porque queria criar meus filhos em uma cidade grande, com melhor estrutura para educá-los”, conta.

O contato com a profissão, lembra Leite, foi possível graças ao aspecto econômico de Areia Branca, ancorado no seguinte tripé: indústria salineira, pesca e transporte marítimo. “Meu cunhado, Jairo Josino [que foi prefeito de Areia Branca] era prático na cidade. Ele foi transferido para Natal após a morte de um piloto que atuava por aqui. Nós conversávamos muito sobre a profissão e isso foi criando em mim um interesse pela área”, relata o piloto. Jairo Josino faleceu em 2017. Com mais da metade da vida dedicada à profissão, Leite confessa que o mais lhe cativa é a relação com as pessoas.

“Todos os dias nos deparamos com gente de diferentes nacionalidades – alguns são muito tranquilos e educados, enquanto outros já não têm o mesmo comportamento. Recentemente, um navio atracou por aqui com um comandante russo e um chefe de máquina ucraniano. Com os dois países em guerra, fiquei curioso para saber como era o relacionamento dos dois. Eles demonstraram boa convivência e lamentaram o que está acontecendo. Havia uma associação de muito respeito entre ambos, embora o ucraniano, que vive com a família na zona de guerra, demonstrou bastante preocupação diante do conflito”, contou o prático.

Questionado se pretende se aposentar, o piloto é categórico: “Já pensei em parar várias vezes, mas estou resistindo, porque sou apaixonado pelo que faço”, diz.

A profissão exige qualificação constante, o que, segundo Leite, funciona como um estímulo para seguir aprendendo e se desafiando na praticagem. “Independentemente da experiência, é preciso se qualificar sempre. Fazemos um treinamento anual. Já temos um curso programado para este ano em Brasília”, detalha.

Histórico

O histórico da praticagem marítima no país remonta ao século 19, quando entrou em vigor o Regimento para os Pilotos Práticos da Barra do Porto da Cidade do Rio de Janeiro, assinado pelo Visconde de Anadia, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos no período regente de D. João VI. Segundo o Conselho de Praticagem do Brasil, com isso foram implantados os primeiros serviços do tipo, com características preservadas até os dias atuais.

Sebastião Leite conta que no Rio Grande do Norte os primeiros registros da profissão se deram em Macau, também na Costa Branca. Geralmente, pescadores mais experientes eram usados para auxiliar na chegada e saída de navios da região. Depois, as empresas começaram a se organizar em torno de pessoas ‘práticas’ que pudessem auxiliar os navios com segurança. Daí, o nome da atividade – praticagem. “Aqui no Rio Grande do Norte, a prática tem mais de 100 anos”, afirma Leite.

Até por volta da década de 1950, a profissão esteve organizada em torno da Corporação dos Práticos, ligada à Marinha do Brasil. Depois, a corporação passou a se chamar Associação dos Práticos dos Portos do Rio Grande do Norte, com sede em Natal e também em Macau, para onde iam os navios que faziam o transporte de sal marinho. Nesta época, uma seção seguia, ainda, para Areia Branca, onde, em 1974 foi construído o Porto Ilha. “Com isso, a seção de Macau foi extinta e os dois práticos que existiam lá foram incorporados à de Areia Branca”, conta Leite.

Por falta de incentivos do Governo, as associações foram encerradas em 2007, dando lugar a duas empresas de praticagem – uma delas, a Natal Pilot, de Sebastião Leite, que fica na Ribeira, na zona Leste da capital e conta com cinco pilotos. A outra está localizada em Areia Branca e tem atualmente três profissionais. “Hoje, os práticos são prestadores de serviços e sócios das empresa ao mesmo tempo”, explica Leite. Para se tornar um piloto de praticagem é preciso participar de um rigoroso processo de seleção organizado pela Marinha.

A primeira etapa consiste em uma prova sobre conhecimentos de Marinharia, que envolve questões climáticas como comportamento dos ventos e chuvas, além de temas que envolvem as condições do local onde o profissional irá atuar. Em seguida, se aprovado, o candidato irá passar um ano acompanhando as manobras de um piloto experiente – metade desse período será dedicado à atividade na prática. Depois, o profissional é submetido a mais um prova, a última do processo seletivo. Para esta prova é formada uma banca, que envolve a participação de oficiais da Marinha de Guerra e da Marinha Mercante, outros práticos, além do instrutor que acompanhou o candidato desde o início.

“Esse grupo vai analisar se o praticante está apto para atuar. Na ocasião, o instrutor entrega um documento à Marinha atestando a aptidão do candidato. Qualquer pessoa com Ensino Superior e com inglês fluente pode se candidatar ao processo. O interesse é grande. Tem gente que se prepara de cinco a seis anos para o concurso”, conta Sebastião Leite, que foi o primeiro piloto do Rio Grande do Norte a passar por esse tipo de seleção.

Rotina repleta de desafios

O trabalho dos pilotos é dividido por zonas de praticagem, as quais possuem escalas próprias de serviço, encaminhadas antecipadamente à Marinha. Em Natal, um prático trabalha em sistema de rodízio – são seis dias seguidos como piloto titular e mais seis como reserva. “O reserva fica de sobreaviso em casa para qualquer intercorrência em que o titular não possa atuar, como impossibilidade de chegar ao porto, por exemplo. Depois, a escala é invertida”, afirma Sebastião Leite. Para o titular, a primeira e principal atividade é manter a comunicação em dia.

“Inicialmente, a empresa requisita o titular por telefone e depois todas as informações acertadas são confirmadas por e-mail. São dados como a data de chegada do navio, com nome, registro e bandeira da embarcação, nome do oficial de segurança e do armador, natureza do navio (se é de longo curso ou cabotagem) e se vai fazer a distribuição da carga em outros portos. O prático precisa receber todas essas informações logísticas com antecedência”, conta o piloto.

De posse delas, o prático ajusta a entrada do navio à maré e checa se há vaga no cais do porto. “Tudo tem que ser visto bem antes para evitar incompatibilidades”, comenta Sebastião Leite. A chegada do navio ao porto precisa ser acompanhada do prático para que sejam dadas comunicações como qual a melhor lâmina d’água para a escada de quebra-peito (usada para embarque e desembarque), por exemplo. Se o navio estiver com mais de nove metros de altura, a recomendação é para que se use outro tipo de escada – a conjugada. Lidar constantemente com o desconhecido é um dos desafios da profissão, segundo Leite. “Estar a bordo de um navio em que você nunca pisou antes, é complexo”, sublinha o prático. Some-se a isso, as questões estruturais do local de trabalho.

Porto de Natal é pequeno, sofre assoreamento e enfrenta outros problemas (Foto: Canindé Soares)
Porto de Natal é pequeno, sofre assoreamento e enfrenta outros problemas (Foto: Canindé Soares)

“Além de o Porto de Natal ser pequeno, estamos passando por um problema sério de assoreamento. Tivemos recentemente um episódio em que um navio entrou com a maré relativamente baixa e encalhou. Conseguiu sair uma hora depois, mas não deixa de ser uma situação desagradável. Sem contar que aqui temos uma área de pedra, o canal é estreito e tem toda a questão que envolve a Ponte Newton Navarro”, afirma.

Outro questão é o mercado bastante limitado no RN. “A quantidade de práticos é definida pela Marinha. Somos oito em todo o Estado, número considerado alto para a nossa praticagem, que é pequena. Em Natal, recebemos apenas dois navios mensalmente, mas o ideal seriam 10, porque temos cinco práticos e ganhamos por manobra. É permitido a cada piloto manobrar duas embarcações por mês”, conta Sebastião.

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Os negócios da máfia italiana no Rio Grande do Norte

Por Allan de Abreu da revista Piauí

Negócios são vultosos e enredo é marcado por fraudes e mortes (Arte ilustrativa)
Negócios são vultosos e enredo é marcado por fraudes e mortes (Arte ilustrativa)

Era quase noite em Palermo, capital da Sicília, quando dois jovens, um deles com uma faca, entraram em uma pequena loja de produtos de limpeza na Via Altofonte. Depois de renderem os funcionários, os assaltantes levaram 4,5 mil euros que estavam na caixa registradora. Era 29 de agosto de 2019. Cinco dias depois, no mesmo horário, novo roubo na mesma loja: dois rapazes, fingindo estarem armados, levaram mais 2,8 mil euros.

O caminho natural do dono da loja seria procurar a polícia. Mas não foi o que aconteceu. Francesco Paolo Bagnasco preferiu telefonar para Giovanni Caruso, um membro da Cosa Nostra, organização mafiosa que desde o século XIX controla boa parte das relações socioeconômicas na Sicília. Ao analisarem imagens captadas por uma câmera de vídeo, os mafiosos identificaram três assaltantes (um deles havia participado dos dois roubos).

Na tarde de 7 de setembro, quatro dias após o segundo assalto, os três ladrões foram sequestrados e levados para um galpão. Caruso notificou o seu chefe, Giuseppe Calvaruso, bem como o dono da loja, e os três foram até o cativeiro, onde assistiram ao brutal espancamento dos assaltantes. Horas depois, Caruso descreveu, para outro membro da máfia, a face de um dos assaltantes, dizendo que parecia uma “peneira”. O dinheiro roubado foi devolvido a Francesco Bagnasco.

Sete meses depois, em abril de 2020, Bagnasco e outros cinco empresários recorreram a Calvaruso para adquirir nove partes de um grande armazém. Coube à máfia afastar outros pretensos concorrentes na compra do imóvel. Em troca, a Cosa Nostra exigiu uma taxa total de 90 mil euros – 40 mil a serem pagos apenas por Bagnasco por ele ter adquirido quatro partes do armazém. Foi a vez do empresário e seus sócios sentirem na pele a ira da máfia palermitana.

Em telefonema captado pela polícia italiana, Calvaruso ordenou que Caruso exigisse o dinheiro dos empresários antes que o negócio fosse formalizado em cartório. “Não tenha piedade”, disse o chefe. Bagnasco pagou, mas apenas uma parte – 15 mil euros. Em dezembro de 2020, Calvaruso reforçou as ameaças. “Se eles não me derem o dinheiro, tudo pode acontecer”, disse a Caruso. Em fevereiro de 2021, duas semanas antes da formalização do negócio no cartório, o chefe mafioso aumentou o tom das ameaças. “Se alguém ousar fazer a escritura sem ter pagado, não deixe ir ao cartório e meta um revólver na boca dele”, ordenou. Calvaruso falava de um lugar muito distante de Palermo, do outro lado do Oceano Atlântico – mais precisamente, de Natal, no Rio Grande do Norte.

Parte do dinheiro extorquido dos empresários custeou as despesas de familiares dos membros da Cosa Nostra que estão presos. Outra parte foi enviada ao Rio Grande do Norte, onde, ao longo de dezessete anos, sob o comando de Calvaruso, a máfia siciliana investiu 800 milhões de reais no mercado imobiliário por meio de uma engenhosa máquina de transferir e lavar dinheiro. Durante esse tempo, a Cosa Nostra deixou no estado nordestino um rastro de golpes milionários, fraudes cartorárias, corrupção, grilagem de terras e dois assassinatos.

Não se sabe ao certo por que a máfia siciliana escolheu o Rio Grande do Norte para limpar seu dinheiro sujo. Mas há algumas pistas: a relativa proximidade com a Europa e o boom imobiliário na cidade nos anos 2000, impulsionado em parte por investidores da Espanha, Portugal e Itália que desejavam replicar nas praias potiguares condomínios e hotéis do Mar Mediterrâneo. Outro atrativo é o turismo sexual. Não à toa, em 2005 a Polícia Federal desvendou um esquema de tráfico de drogas e aliciamento de mulheres para a prostituição em Natal, comandado pela Sacra Corona Unita, organização mafiosa italiana baseada na região de Puglia, Sudeste da Itália.

Laços históricos

A Cosa Nostra tem laços históricos com o Brasil. Basta lembrar que Tommaso Buscetta, um dos principais líderes da organização, esteve ao menos três vezes no país entre os anos 1960 e 1980. Preso em São Paulo, em 1983, foi extraditado para a Itália, onde fez um acordo de delação com a Justiça, quebrando pela primeira vez o voto de silêncio sobre as atividades da Cosa Nostra. Seus depoimentos embasaram o Maxiprocesso de Palermo, que resultou na condenação de 475 mafiosos.

Giuseppe Calvaruso tem cabelos castanho-claros, repartidos ao meio, e baixa estatura, o que lhe rendeu o apelido, entre os mafiosos sicilianos, de u curtu (o curto, literalmente, ou o baixote). Em 47 anos de vida, a maior parte atuando como empresário da construção civil, adquiriu o respeito da cúpula da Cosa Nostra, sobretudo depois de ter ajudado na fuga de Giovanni Motisi, no fim dos anos 1990. Motisi foi um dos mais sanguinários assassinos de aluguel de Salvatore “Totò” Riina, mafioso que aterrorizou a Sicília e foi o mandante dos assassinatos, em 1992, dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, responsáveis pelo Maxiprocesso de Palermo. Em 1993, Riina foi preso. Morreu em 2017, aos 87 anos.

Por causa do envolvimento na escapada de Motisi (que segue até hoje foragido), Calvaruso foi denunciado à Justiça por associação criminosa e detido em 2002. Acabou sendo solto quatro anos depois – condenação tão breve que ele próprio zombou dela. “Esse juiz idiota vai me dar quatro anos. Ele deveria me dar quarenta anos, não quatro. Eu vim aqui, vim mijar e vou embora”, disse, em conversa interceptada pela polícia. Em 2008, porém, foi preso novamente, dessa vez por participar de um plano para restabelecer um comitê reunindo os principais capi (chefes) da máfia.

Cada município da Sicília (ou, no caso das maiores cidades, cada bairro ou distrito) possui um líder mafioso, chamado capomandamento (mandamento é uma região controlada por determinado clã criminoso). Antonino Rotolo, o capomandamento de Pagliarelli, está preso desde 2006. Quem o substitui desde 2015 é Calvaruso, mas na condição de “regente”, como se chama o líder temporário. Ao assumir o posto, Calvaruso pôs seu conhecimento empresarial a serviço da Cosa Nostra, com uma atitude muito diferente da do violento Riina.

Em conversa interceptada pela polícia italiana, o regente disse ter à disposição cerca de 1 bilhão de dólares para investir. Em nome da Cosa Nostra, negociou a compra de um empreendimento imobiliário na Ilha de Vulcano, perto da Sicília, e intensificou as obras de um resort à beira-mar em Marsala, no extremo Oeste siciliano. “Agora, os mais eficientes membros da máfia caminham com uma pasta, e não com uma arma”, compara um policial antimáfia de Palermo, que pediu anonimato à piauí, por não ter autorização para dar entrevistas.

Lavagem de dinheiro

Quando Calvaruso assumiu o comando em Pagliarelli, a lavagem de dinheiro da máfia no Brasil já estava a todo vapor. A Polícia Federal brasileira, que também investigou o esquema, calcula que a organização mafiosa desembarcou em terras potiguares em 2008, quando Antonino Spadaro, o Nino, viajou pela primeira vez a Natal. Ele é filho de Tommaso Spadaro, famoso capo do distrito de Kalsa, em Palermo. Morto há seis anos, Tommaso fez fortuna com o contrabando de cigarros. Já o filho, um homem parrudo de calvície resplandecente e nariz protuberante, decidiu investir no tráfico de drogas, crime pelo qual foi preso no aeroporto de Milão-Malpensa em dezembro de 2008, quando voltava de uma estadia em Natal.

Em fevereiro de 2009, apenas dois meses depois da prisão de Spadaro, outro italiano, Pietro Ladogana, um homem alto de queixo anguloso que, para a PF, era testa de ferro da Cosa Nostra, também desembarcou em Natal. Na capital potiguar, ele fundou três empresas do ramo imobiliário, com um capital social total de 3,8 milhões de reais, e casou-se com Tamara Maria de Barros. A brasileira seria usada como laranja pelo italiano, que colocou no nome dela boa parte dos imóveis que adquiriu. Outro laranja foi o pedreiro Carlos Antonio Lopes da Silva, que, segundo a Receita Federal, recebeu um depósito bancário de 1 milhão de reais.

Ladogana transferiu para contas no Brasil, por meio de operações regulares registradas no Banco Central, um total de 5,7 milhões de dólares, segundo a PF. O montante, aplicado na compra de ações na Bolsa de Valores de São Paulo, vinha da Europa, sobretudo da Suíça e da Croácia. A quem perguntava sobre a origem de tanto dinheiro, ele dizia trabalhar com revenda de veículos na Alemanha.

Mas Ladogana também começou a grilar terras com o uso da violência. Chegou a criar uma milícia formada por policiais militares para expulsar moradores em Extremoz, município na Região Metropolitana de Natal, onde contava com a ajuda do então tabelião do cartório local e ex-prefeito João Soares de Souza, e de servidores da prefeitura para falsificar documentos que garantissem a posse dos imóveis. Quando o então secretário de Tributação de Extremoz Giovanni Gomes contrariou os interesses do esquema, Ladogana ordenou que um dos PMs de sua milícia, Alexandre Douglas Ferreira, “desse um susto nele” – como a mulher do mafioso contou à Polícia Civil. Gomes levou um tiro de raspão na perna quando saía da festa de formatura do filho, em uma noite de agosto de 2013.

No caso de outro desafeto, o desfecho foi trágico. O empresário italiano Enzo Albanese, que dirigia um time de rugby em Natal e não tinha relações com a Cosa Nostra, descobriu as fraudes fundiárias de Ladogana, bem como desvios de parte do dinheiro da máfia para o próprio bolso, e ameaçou denunciar tudo à polícia. Em março de 2014, Albanese foi ameaçado de morte, caso ousasse delatar seus esquemas. Mas ele não recuou.

Arte ilustrativa
Arte ilustrativa

Em 2 de maio do mesmo ano, ele fechava o portão de entrada de sua casa quando o policial Ferreira se aproximou em uma moto e atirou. O italiano morreu no local. Um mês depois, a Justiça de Natal decretou a prisão preventiva de Ladogana, que foi detido no aeroporto de Roma, onde tentava embarcar para o Brasil com 120 mil euros escondidos na roupa. Acabou liberado meses depois, na Itália, e ficou no país natal.

(Divorciado da primeira mulher, Ladogana se casaria em julho de 2019 com outra brasileira, Regina Souza da Silva. A festa de núpcias foi em Bagheria, município vizinho à cidade de Palermo, em um palacete do século XVIII. A polícia italiana não tem dúvida de que a Cosa Nostra bancou a luxuosa cerimônia, que teve Nino Spadaro como um dos convidados. Dois meses mais tarde, ao retornar ao Brasil, Ladogana foi preso novamente. Tempos depois, recebeu uma pena de catorze anos de reclusão, que ele cumpre na penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Ferreira não chegou a ser julgado – a Justiça o considerou inimputável, depois que foi diagnosticado com esquizofrenia.)

Em 2016, com Ladogana encrencado na Justiça e obrigado a permanecer na Itália, Calvaruso iniciou o processo de troca do operador da lavanderia de dinheiro da máfia no Brasil. Recorreu então ao empresário Giuseppe Bruno, cuja família lavava dinheiro para a máfia desde os anos 1990 na construção civil da Sicília, de acordo com a polícia italiana.

Antes de chegar ao Brasil, Bruno mudou-se para a Suíça, para assumir o controle de uma empresa da Cosa Nostra no país. De lá, foi para Hong Kong e Cingapura, onde, a mando de Calvaruso, abriu outra empresa e quatro contas bancárias. Por meio da simulação de contratos de empréstimos e de transferências de ações entre as empresas, o dinheiro saiu das contas das firmas da Cosa Nostra na Sicília na direção dos bancos suíços, e dali para as contas bancárias recém-criadas em Hong Kong.

Em fevereiro, depois de passar alguns dias em Cingapura, onde visitou as agências bancárias das contas recém-criadas, Bruno mudou-se de vez para o Brasil, destino final do dinheiro da Cosa Nostra. Em Natal, Bruno assumiu no mesmo ano o controle das empresas de Ladogana e intensificou os investimentos da Cosa Nostra. “Pietro, fizemos um programa que você nem imagina, estamos trabalhando e conhecendo pessoas no Brasil desde que cheguei. Montamos uma máquina de guerra”, contou ele a Ladogana, que continuava na Itália.

Em um primeiro momento, Bruno e Calvaruso investiram 830 mil euros na compra de novas áreas nos arredores de Natal, inclusive uma fazenda que seria transformada em loteamento com perspectivas de ganhos milionários. “Gostaria de salientar que estamos falando de 180 hectares, onde há a possibilidade de construir cerca de 7.500 casas, que por 100 mil reais são 750 milhões de reais de faturamento, com um lucro residual de mais de 50%…”, escreveu Bruno, por e-mail, a um integrante da máfia na Sicília. No total, segundo o Ministério Público Federal, a máfia adquiriu 76 imóveis no Brasil. Parte dos recursos foi usado para engordar o capital das empresas da máfia (uma delas, a América Latina Hemisfério Investimentos Imobiliários, tinha sede em um imóvel residencial simples de Natal, mas possuía capital de 100 milhões de reais).

Apesar de movimentar quantias milionárias, Bruno levava uma vida espartana em Natal. Morava de aluguel em um bairro da periferia, possuía um automóvel popular usado e almoçava em restaurantes baratos. Assim, mantinha a discrição necessária e cumpria uma tradição de décadas da Cosa Nostra: evitar as tentações do dinheiro fácil, em respeito aos “irmãos” que cumprem pena no cárcere.

Certo dia, em um shopping de Ponta Negra, local abastado da cidade, Bruno conheceu Sara da Silva Barros, de 37 anos de idade. Logo, ela se tornaria não só a mulher de Bruno, como sua testa de ferro preferida, já que não tinha antecedentes criminais. “Sara é cem por cento limpa”, escreveu ele para Calvaruso, por WhatsApp. Foi em nome dela que Bruno e Calvaruso montaram a pizzaria e cafeteria Italy’s, na orla de Natal. “Cem pizzas por dia com uma média de 50 reais é 5 mil por dia. Por trinta dias é 150 mil. Em dois meses já se pagou”, contabilizou Calvaruso, em conversa com Bruno (a pizzaria, entretanto, não prosperou, e fechou as portas algum tempo depois). Em abril de 2022, Barros registrou um boletim de ocorrência na polícia em que acusava o marido de agressões físicas e psicológicas e admitia ser laranja do italiano.

O caminho do dinheiro

O dinheiro da Cosa Nostra fluía para o Brasil de três maneiras: por cartões internacionais pré-pagos em nome de laranjas (o dinheiro era depositado no exterior e sacado em Natal), por meio de mulas, que o transportavam na bagagem ou no corpo, e através de operações dólar-cabo – um complexo sistema de compensação bancária em que o doleiro recebe o dinheiro em determinado país e deposita valor equivalente em conta no exterior, com isso burlando os sistemas de fiscalização, pois não há transferência direta de valores entre os países.

Segundo a polícia italiana, essas operações ilícitas, com frequência semanais, eram orquestradas pelo brasileiro José Reinaldo Valandro, doleiro radicado em Roma, e pelo mafioso Nino Spadaro. Orientado pelos dois, Bruno depositava as quantias em contas bancárias indicadas na Alemanha, na Espanha, em Portugal, Luxemburgo ou Chipre. Valandro, por sua vez, transferia quantia equivalente em reais para contas no Brasil.

No caso das transferências físicas de dinheiro, seja da Itália para o Brasil, seja no caminho contrário (quando a máfia queria reaplicar o dinheiro já limpo na Sicília), a principal mula de Bruno era sua mãe, Rosa Anna Maria Simoncini, que já beirava os 70 anos. Em um primeiro momento, a idosa atuou sobretudo na Itália: apanhava o dinheiro em espécie em Roma (levado do Brasil por outros mulas) e o transportava na bagagem para Palermo. “[Quando chegar a Roma] Você deve dizer que vai continuar para Milão para fazer uma operação [médica] e voltar para Palermo no dia seguinte. Eu recomendo absolutamente que você não diga que vai pegar o navio de volta na mesma noite”, orientou Bruno à mãe, em mensagem via WhatsApp.

A partir de novembro de 2017, Simoncini passou a transportar milhares de euros em espécie da Itália para Natal, e vice-versa. Em algumas dessas viagens, Bruno orientou a mãe a ir de navio da Sicília até próximo de Roma, e só então apanhar o avião para o Brasil, a fim de despistar a polícia. Em uma delas, foi escoltada por Carlos Eduardo Ferreira de Menezes, policial civil em Natal contratado por Bruno. “Então, dez mil [euros] você dá para o Carlos, dez mil você também pode guardar na sua bolsa e o resto você coloca no seu sutiã”, ordenou o filho. O próprio Bruno transportou 130 mil euros da Itália para o Brasil, em janeiro de 2018.

O policial e advogado Carlos Menezes conheceu Bruno em 2016, quando o italiano e Nino Spadaro foram até a Delegacia de Apoio e Assistência ao Turista (Deatur), em Natal, onde o então agente trabalhava, para fazerem um boletim de ocorrência contra João Soares de Souza, tabelião do cartório de imóveis de Extremoz, e seu filho, Gustavo Eugênio Costa de Souza. Segundo Bruno, o tabelião e o filho haviam falsificado a escritura de uma área de 29 hectares adquirida pela empresa Tecnobloco Construções Ltda., da qual o italiano se dizia sócio e procurador, para revendê-la a terceiros por 16 milhões de reais.

Por causa do alegado prejuízo pela perda do terreno, Bruno e Spadaro passaram a pressionar o tabelião, que se comprometeu a pagar 1,2 milhão de reais e a entregar outra área a eles. Mas Souza só pagou 150 mil reais, e os italianos descobriram que os documentos da área oferecida eram falsos.

Na discussão com os italianos, o tabelião ameaçou Bruno e seu advogado com um revólver, dentro do cartório de Extremoz, o que motivou um segundo boletim de ocorrência contra Souza, agora por ameaça, registrado pelo então policial Menezes no fim de 2017, na mesma Deatur. A aproximação com o policial fez com que este fosse convidado a trabalhar como segurança para a viagem que a mãe de Bruno fez da Itália ao Brasil.

Em março do ano seguinte, Souza e o filho foram denunciados à Justiça por estelionato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, acusados de uma série de fraudes documentais. Souza morreu um mês depois, de causas naturais. Gustavo, seu filho, foi absolvido. Sem saída, Bruno ingressou com ação na Justiça contra o tabelião e o filho, e a 1ª Vara de Extremoz condenou o espólio de Souza e também Gustavo a indenizarem Bruno em 22 milhões de reais.

No fim de 2017, Menezes aposentou-se da Polícia Civil e passou a advogar para Bruno na regularização e na intermediação da compra e venda de imóveis. Aqui, as versões divergem.

Segundo o italiano, Menezes disse que poderia influenciar o juiz da 1ª Vara de Extremoz, onde tramitava o processo contra o tabelião Souza, e pediu dinheiro para repassar ao magistrado. Ele também solicitou verba para subornar policiais militares, que, em troca, fariam a vigilância dos terrenos, impedindo possíveis invasões. Como não foram constatados indícios de corrupção por parte do magistrado e de PMs, o Ministério Público denunciou Menezes e mais duas pessoas por formação de quadrilha, exploração de prestígio, estelionato e ameaça (a ação penal ainda não foi julgada).

Na versão de Menezes, ele foi alertado em 2019 por um topógrafo que era falsa a procuração por meio da qual os supostos donos da Tecnobloco Construções na Itália davam poderes para Bruno gerenciar os negócios da empresa no Brasil. Ao contatar o cartório em Roma onde o documento foi formalizado, Menezes confirmou a fraude. “Com isso, o meu acordo com o Bruno não valia nada. Fiquei no prejuízo”, diz ele à piauí. Menezes encaminhou o caso à Polícia Civil, que indiciou Bruno por uso de documento falso. A Justiça, porém, acabou arquivando a investigação, a pedido do Ministério Público, para quem a representação contra Bruno deveria ter partido dos donos da empresa na Itália, e não de Menezes.

No segundo semestre de 2019, o próprio Giuseppe Calvaruso, regente da Cosa Nostra, decidiu se mudar para Natal, a fim de cuidar mais de perto dos investimentos da máfia e fugir do cerco policial na Sicília. Em julho, o italiano foi para Cingapura, onde esteve nos mesmos bancos onde o sócio Bruno havia passado três anos antes (segundo a polícia italiana, provavelmente para alinhar novas injeções de capital no Brasil). Em novembro, desembarcou na capital potiguar.

Uma vez no Brasil, Calvaruso acelerou os investimentos da máfia. Concluiu a construção de uma casa dentro de um resort em Bananeiras, interior da Paraíba; comprou dois apartamentos em Cabedelo, município vizinho a João Pessoa; adquiriu duas empresas em Natal (uma delas dona de imóveis avaliados em quase 4 milhões de reais, no total) e fundou a pizzaria Italy’s. “Se você puder concluir [os investimentos], você salva todo mundo, acredite em mim”, escreveu a Calvaruso o seu braço direito em Palermo, Giovanni Caruso, em julho de 2020. “Conclusão: eu só tenho que me segurar, faz anos que eu sempre salvo tudo e todos”, vangloriou-se Calvaruso. “Acredite em mim, estou um pouco cansado, especialmente por viver sozinho, longe da minha família. […] Mas, se eu não resolver isso como eu digo, não voltarei [para a Itália] de mãos vazias.” As mensagens foram trocadas por meio do aplicativo Sky ECC, com forte criptografia – o que não impediu que, no ano seguinte, as polícias francesa e belga conseguissem acessar os diálogos e repassá-los à polícia italiana.

Para fincar raízes no Brasil e evitar uma possível extradição para a Itália, Calvaruso “comprou” a paternidade de um recém-nascido em Natal, em junho de 2020. O passo seguinte foi pedir a cidadania brasileira, acreditando que o país não extradita seus cidadãos. Semanas antes do nascimento da criança, Calvaruso mandou Caruso enviar 3 mil euros para ele no Brasil, por meio de cartões pré-pagos.

“Preciso disso porque tenho que resolver minha autorização de residência, caso contrário, eles não me darão o visto. É muito importante. Na segunda-feira, preciso que as transferências sejam feitas. Invente alguma coisa”, escreveu no Sky ECC. Dias depois, pelo mesmo aplicativo, reforçou seus planos a Caruso: “Na próxima semana ou mesmo nesta semana nasce o bebê, que vou registrar em meu nome. Então eles me dão uma autorização permanente. Dentro de dois anos a cidadania. […] Eles [policiais italianos] devem se esquecer de mim.”

Não se sabe se o dinheiro foi dado como pagamento aos pais do bebê ou ao cartório onde foi registrado o nascimento, para que fizessem vista grossa sobre a paternidade fraudada. Fato é que o pai biológico da criança, também italiano, não só permitiu que o filho fosse registrado em nome do mafioso como emprestou a Calvaruso o seu cartão pré-pago.

A artimanha não funcionou. Calvaruso foi preso tão logo desembarcou no aeroporto de Palermo, vindo de Natal, em 4 de abril de 2021, para passar o feriado de Páscoa com a família. Outros de seus quatro acólitos também foram presos, incluindo o braço direito Caruso. De Natal, Bruno, em conversa via WhatsApp com a mulher de Calvaruso, Rosa Rita Catalano, lamentou a prisão do chefe: “Às vezes eu rezo, pensando: mas nós merecemos tudo isso?”

Desde então, Calvaruso ocupa uma cela em uma penitenciária de segurança máxima na Ilha da Sardenha, a noroeste da Sicília. Em conversas captadas dentro do presídio, ele disse à sua mulher que tem vontade de se mudar em definitivo com a família para o Brasil: “Tenho que saber a cidade que é mais conveniente para nós… você sabe quanto é [o tamanho] do Brasil, Ro? Tanto quanto toda a Europa.”

Conversas monitoradas

Desde 2016, a polícia italiana monitorava todas as conversas mantidas por Calvaruso no seu celular, por meio de um programa espião instalado no aparelho com autorização judicial (nos autos da investigação, não fica claro qual seria esse programa). Com isso, a Direção Distrital Antimáfia de Palermo reuniu informações suficientes para iniciar o rastreio do esquema de lavagem de dinheiro mantido pela Cosa Nostra no Brasil. Em 2021, os primeiros policiais italianos desembarcaram em Natal para rastrear o patrimônio amealhado pela máfia e seguir de perto os passos de Giuseppe Bruno.

No ano seguinte, em maio, o governo italiano decidiu solicitar formalmente um acordo de cooperação com o Ministério Público Federal (MPF) brasileiro para “a obtenção de dados confiáveis sobre rastreabilidade dos grandes fluxos financeiros movidos da Itália para o Brasil e informações sobre bens atribuídos a Giuseppe Calvaruso e outros”. A investigação do MPF, da PF e da Receita Federal, iniciada em outubro de 2022, não só confirmou os dados já investigados desde a Itália como encontrou novas suspeitas sobre o patrimônio do trio Calvaruso-Ladogana-Bruno no Rio Grande do Norte.

No caso deste último, os auditores fiscais constataram uma diferença superior a 4 milhões de reais entre a renda declarada e a movimentação bancária no período entre 2016 e 2020. Já Ladogana recebeu 10 milhões de reais em suas contas entre 2009 e 2016, mas declarou no imposto de renda apenas 450 mil reais, um indicativo, segundo a Receita, de que ele movimentou dinheiro de origem ilícita.

Em novembro de 2023, a PF encaminhou à Justiça os pedidos de prisões preventivas e de buscas. Em poucas semanas as requisições foram acatadas pela 14ª Vara Federal de Natal, mas a operação tinha de ser deflagrada ao mesmo tempo no Brasil e na Itália, onde havia outros participantes do esquema mafioso. A Justiça italiana demorou a conceder os pedidos de prisão (só o fez em agosto de 2024), e a PF perdeu o rastro de Bruno.

Foi graças às constantes brigas entre ele e sua mulher (embora estivessem já divorciados), quase sempre com registros de boletins de ocorrência na Polícia Civil, que uma agente da PF descobriu que Bruno estava morando em um flat em Ponta Negra, um bairro em Natal (em um dos registros policiais, Sara Barros disse que o ex-marido a obrigou, sob ameaça de morte, a assinar documentos em que ela renunciava às sociedades das empresas do esquema da máfia).

Bruno foi preso na manhã de 13 de agosto de 2024. No mesmo dia, a Direção Distrital Antimáfia de Palermo prendeu na Itália a mãe dele, Rosa Simoncini. No Brasil, nove pessoas, incluindo Calvaruso, Bruno e sua ex-mulher, Ladogana, sua ex-mulher, Tamara Barros, e a atual, Regina Souza, são réus em ação penal, ainda não julgada, na 14ª Vara Federal de Natal, acusados de associação criminosa e lavagem de dinheiro. Em dezembro passado, o inquérito da polícia italiana seguia em andamento.

O advogado de Calvaruso na Itália, Michele Giovinco, disse à piauí que a Justiça ainda não provou a responsabilidade do réu na suposta extorsão aos compradores do armazém na via Altofonte, em Palermo, nem na lavagem de dinheiro na compra e venda de imóveis no Brasil. “Não há provas processuais nas investigações italianas de transferência de dinheiro de Hong Kong ou Cingapura, nem para a Itália e nem para o Brasil”, afirmou.

Giovinco alega que Calvaruso se mudou para o Rio Grande do Norte em 2019, porque desejava deixar seu país natal. “Ele sempre disse em seus interrogatórios [à polícia] que queria ir embora de Palermo e se mudar definitivamente para longe da Itália.”

Em nota, a defesa de Ladogana informou apenas que o patrimônio dele no Brasil “foi adquirido com muito trabalho” e que o empresário nunca teve envolvimento com a Cosa Nostra. Nino Spadaro não quis se manifestar. A defesa de Bruno não foi localizada.

Assassinato

Última ponta solta dos esquemas da máfia siciliana no Rio Grande do Norte é o assassinato de Carlos Antonio Lopes da Silva, o taxista que se tornou laranja de Pietro Ladogana e era dono formal de duas empresas e de dezenas de imóveis no estado. Mesmo depois da prisão do italiano, em 2019, Silva continuou próximo dele – era uma das pessoas autorizadas por Ladogana a visitá-lo na prisão em Alcaçuz.

Na noite de 1º de março de 2023, Silva dormia em sua casa no bairro Pitangui, em Extremoz, com a mulher e as duas filhas do casal, quando ouviu a porta da entrada sendo arrombada. Pegou um bastão e conseguiu atingir um dos invasores, mas acabou levando sete tiros de pistola de outro criminoso. Morreu ao lado da sua cama.

A principal suspeita da polícia é que Silva tenha sido morto a mando de um empresário potiguar que teria grilado parte dos terrenos da Cosa Nostra no estado. Responsável pelo inquérito, o delegado André Kay, titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Ceará-Mirim, não revela a identidade do suspeito para não atrapalhar as investigações. Passados quase dois anos do crime, o inquérito ainda não foi concluído.

Allan de Abreu é repórter da Piauí e autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)

A força do sertanejo como gênero musical e sua guinada ideológica

Por Guilherme Werneck (Do Canal Meio)

Gênero musical e seus artistas estão pulverizados por todo o país (Foto: Meio)
Gênero musical e seus artistas estão pulverizados por todo o país (Foto: Meio)

Gusttavo Lima emergiu nesta semana como presidenciável. Sem partido, sem atuação política para além da de soldado na linha de frente da guerra cultural bolsonarista, o cantor, que tem 12,5 milhões de ouvintes mensais no Spotify, surge como a mais nova força da direita na pesquisa Quaest divulgada na última segunda-feira. Se o presidente Lula aparece com folga na preferência dos eleitores nos quatro cenários que combinam como opositores Tarcísio de Freitas (Republicanos), Gusttavo Lima (Sem Partido), Pablo Marçal (PRTB), Eduardo Bolsonaro (PL), Ciro Gomes (PDT), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União), as intenções de voto no cantor mineiro radicado em Goiânia foram a maior surpresa do levantamento.

No pior cenário para o sertanejo, ele fica em terceiro lugar, com 12% das intenções de voto, apenas um ponto percentual atrás de Tarcísio de Freitas, ou seja, empatado ao se considerar a margem de erro. Já no melhor deles, sem Marçal nem Tarcísio na disputa, consegue um segundo lugar folgado, chegando a 18%.

O desempenho fez com que alguns partidos se mobilizassem em torno de seu nome nesta semana. PRTB e Avante já fizeram propostas de filiação. Nos próximos dias, ele deve conversar com o PRD — partido criado em 2023, a partir da fusão de PTB e Patriota. Legendas maiores, com mais dinheiro do fundo eleitoral, também se aproximaram de Lima. Mas União Brasil, PL e PP não conseguem vê-lo na disputa presidencial, preferem que o cantor tente concorrer ao Senado por Goiás.

Essa projeção de Gusttavo Lima pode ser pensada para além de sua própria figura e do papel que desempenhou nos últimos anos na corte de Bolsonaro. Reflete também o poder da música sertaneja hoje no Brasil. Na mesma segunda-feira, uma pesquisa sobre hábitos culturais, realizada pela consultoria JLeiva Cultura & Esporte e apresentada em um seminário no Itaú Cultural, mostrou que o sertanejo é o gênero musical favorito em 15 das 27 capitais brasileiras. Também é citado por 34% do público como um de seus três ritmos prediletos, superando o pagode (18%) e o samba (11%) somados.

Dá para dizer que, além de conquistar corações partidos e cotovelos doloridos, a música sertaneja também ocupa um papel importante dentro do Brasil polarizado, com uma associação direta com o agro, pop ou tradicional, e também com a direita. Mas nem sempre foi assim. Ao analisar historicamente os principais expoentes do gênero ao longo dos anos, havia uma fluidez política grande.

Contudo, desde o seu nascimento como gênero, o sertanejo é marcado por disputas nos campos simbólico e da cultura. Além disso, a maneira como o negócio da música sertaneja se estrutura ao longo dos anos e a oposição que sofre de setores progressistas têm muito a ver com a recente guinada à direita.

Jeca Tatu versus Jeca total

A música sertaneja como conhecemos hoje começa a se formar nos anos 1970, durante a ditadura militar, embora só vá dominar os ouvidos da classe média a partir dos anos 1990. E nasce de uma ruptura dupla. De um lado, quer se diferenciar da música tradicional caipira; de outro, da idealização do homem do campo combativo e revolucionário, feita por compositores que viriam a formar a MPB nos anos 1960, como Geraldo Vandré, Milton Nascimento e Edu Lobo.

A distinção entre os dois estilos está bem descrita no livro Cowboys do Asfalto – Música Sertaneja e a Modernização do Brasil, lançado pelo historiador Gustavo Alonso em 2015, a partir de sua tese de doutorado — curiosamente a primeira a se debruçar sobre o gênero no país, mais de quatro décadas depois de seu surgimento.

Alonso trata dessa lacuna no livro, e aponta alguns fenômenos para que a música sertaneja não seja objeto de estudo. O primeiro deles é uma espécie de conservadorismo saudosista. Escreve-se sobre a música caipira a partir de uma idealização do homem do campo e de sua relação com a cultura.

Nesse sentido, entender a criação da figura do caipira — e sobretudo os preconceitos e idealizações — é fundamental para dar contorno à gênese desse gênero. No imaginário do Brasil educado, o símbolo do caipira é Jeca Tatu, personagem de Urupês, publicado em 1918 por Monteiro Lobato. Uma figura preguiçosa, que não queria melhorar de vida, à mercê do voto de cabresto, símbolo do atraso.

Um estudo mais bem acabado sobre o caipira só surgiria em 1964, Os Parceiros do Rio Bonito, escrito pelo professor de literatura da USP Antonio Candido, sob uma chave marxista. Deixar esse homem do campo parado no tempo, a despeito das transformações sociais e do êxodo rural que ocorre com a industrialização, preenche o imaginário de toda uma linha de pensamento sobre a música caipira.

Tradição caipira

O cantor Sérgio Reis vive sérios problemas após fazer propagação de ideias antidemocráticas (Reprodução BCS)
O cantor Sérgio Reis faz parte de um segmento tradicional, segundo alguns estudiosos (Reprodução BCS)

“Os escritores da linha saudosista aceitam como legítimos apenas artistas que se identificam com a tradição caipira e a respaldam, como Inesita Barroso, Sérgio Reis, Rolando Boldrin, Pena Branca & Xavantinho e Renato Teixeira. Esses artistas não teriam esquecido as suas origens rurais e seus legítimos representantes, músicos como João Pacífico, Angelino de Oliveira, Raul Torres, Cornélio Pires e Tonico & Tinoco”, escreve.

A oposição se dá com artistas que teriam deturpado os valores autênticos do caipira. Alonso lista justamente os modernizadores do gênero, que não apenas trocam as violas pelas guitarras, baixos, baterias e teclados, como ousam sacrificar a pureza caipira ao incorporar em seus sons o rock americano por via do iê-iê-iê da Jovem Guarda, as rancheras mexicanas e as guarânias paraguaias. São artistas dos anos 1970 como Leo Canhoto & Robertinho, Milionário & José Rico ou Trio Parada Dura.

É uma crítica semelhante à feita aos tropicalistas, lembrando que o tropicalista de primeira hora Tom Zé já cantava sua moda de viola 2001 com os Mutantes. Mas diferentemente dos tropicalistas, que após o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil passaram a ser aceitos no seleto clube da Música Popular Brasileira, os sertanejos não conseguiram fazer a travessia para o gosto da elite intelectual.

O sucesso desses primeiros artistas que ousaram romper com a tradição é concentrado em algumas gravadoras populares, como a Continental, a Chantecler, a Copacabana. E a partir de 1977, quando a rádio FM é introduzida no país, eles ficam relegados à banda AM. Mesmo duplas que têm sucessos enormes de vendas nos anos 1980, como Chitãozinho & Xororó, não conseguem romper a barreira do FM nessa década.

A grande mudança vem nos anos 1990, quando o sertanejo explode em todo o país e, ao lado do pagode e do axé, se torna não só a música mais vendida como garante também uma ampla difusão em rádio e TV. Ninguém conseguiria mais ignorar o estilo, independentemente de classe social. Não por acaso, é o som que embala as festas do presidente Fernando Collor de Mello na famosa Casa da Dinda.

Para parte da esquerda, a leitura é de que essa música, que agora se aproxima mais do som country pop de Nashville, de artistas como Garth Brooks, além de cafona e pobre liricamente, é também a trilha sonora de um neoliberalismo collorido. Nada de muito novo para uma turma que já vinha apanhando há anos por conta de seu som impuro e entreguista, mero produto da indústria cultural.

Não que isso importasse. Essa geração colecionou discos de platina e lotou por anos as casas de show mais cobiçadas das capitais, como o Canecão, no Rio de Janeiro, ou o Olympia em São Paulo. E, enquanto as grandes gravadoras davam as cartas do mercado e dominavam rádio e televisão, continuaram a vender como água e a fazer shows grandiosos, não só nos rodeios do interior e nas festas de peão — a mais famosa delas acontece em Barretos, no interior de São Paulo—, como nos grandes centros urbanos.

Criando raízes nas capitais, a cultura sertaneja passa a se instalar de uma maneira que não pode ser mais desprezada. Mesmo quando a indústria do disco começa a morrer com a chegada do MP3 no começo dos anos 2000, ela se adapta com facilidade. Mas agora com uma nova geração, ainda mais pop, batizada de sertanejo universitário.

Essa leva começa com duplas como João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano e depois desemboca nos sucessos de Luan Santana e Michel Teló. É dessa época, por exemplo, a abertura do Villa Country em São Paulo, até hoje o maior templo da música sertaneja da cidade.

Conversando com Gustavo Alonso, ele vê uma virada na distribuição da música nesse momento. As rádios seguiam importantes, mas, com as gravadoras em declínio, a nova geração abraça a pirataria. “Eles gravavam disco pirata e davam os CDs. E claro, já tinha a internet, o MP3.

Estratégias

Curioso que alguns deles fizeram sucesso antes em alguns lugares que não esperavam. Por exemplo, Vitor & Leo foram morar em São Paulo achando que iam bombar na cidade, onde gravava a geração anterior, e começam a ver a música deles tocar em Uberlândia, por conta da internet”, diz.

Começa aí uma mudança importante que impacta a geração de hoje. Como manter o interesse — e os negócios lucrativos — quando a música produzida tem de competir com canções de todas as épocas disponíveis nas plataformas de steaming? Como migrar do tempo da TV para os canais de YouTube?

Duas estratégias se mostraram vencedoras. A primeira foi a aposta no ao vivo, em grandes espetáculos, festivais, rodeios. Produtoras como a Talismã Music, a Workshow, a AudioMix ou a FS Produções Artísticas passam a dominar esse mercado, não apenas vendendo shows em grandes centros, mas trabalhando as cidades médias, muitas vezes vendendo shows para prefeituras. E, para fazer a música circular, se valeram de uma estratégia emprestada das igrejas evangélicas: não pagar jabá (dinheiro para tocar música na rádio), mas comprar estações de rádio para ajudar a difundir os artistas. Isso sem deixar de fazer um trabalho sério de divulgação junto aos principais streamings e em redes sociais.

Ao mesmo tempo, a música não para de se modernizar e se multiplicar. O que hoje chamamos de sertanejo engloba uma série de subgêneros, do sertanejo raiz ao universitário, do pop ao romântico, da sofrência ao feminejo, além de interseções com outros gêneros populares como o arrocha e o piseiro. É uma cultura muito mais fluida, que já não faz distinção entre arranjos com instrumentos acústicos, elétricos ou eletrônicos.

Política, sucesso e identidade

Se hoje culturalmente o som sertanejo é tão amplo, como explicar a sua guinada para a direita? Na nossa conversa, Alonso identifica alguns movimentos sociológicos. Primeiro é a transformação do campo em agronogócio. A cultura sertaneja hoje é uma cultura urbana. “Apesar do nome sertaneja, eu diria que hoje ela é mais a música das cidades médias brasileiras. Não é exatamente a música de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, embora esteja nessas cidades. Mas são as músicas de Maringá, de Araraquara, de Uberlândia, de Sinop. É o som de um Brasil interiorano, mas que também é urbano.”, diz

E existe o fator de crescer junto com a ideia do agro. “O agro nasce nos anos 1970, com a Embrapa fazendo os estudos de química dos solos que permitem com que comece a se plantar no cerrado, que antes vivia de agricultura de subsistência.” Enquanto o braço do Estado transforma o interior do Brasil em um celeiro mundial, o som sertanejo passa a ser a trilha sonora das cidades que concentram as populações que vivem nessas cidades em franca expansão populacional.

Correndo por fora, existe essa pecha de neoliberal que vem desde os anos Collor. Alonso pensa que, de certa maneira, o campo progressista entregou a música sertaneja para o agro, e desconsiderou seus matizes. “A música sertaneja poderia ser a grande trilha sonora da era Lula, se houvesse uma mínima simpatia por ela. Veja, Lula integrou uma multidão às universidades na mesma época em que surge o sertanejo universitário”, diz.

Zezé e Luciano chegaram a fazer trabalho para Lula (Foto: divulgação)
Zezé e Luciano chegaram a fazer trabalho para Lula (Foto: divulgação)

Salienta, que em seus dois primeiros mandatos como presidente, Lula nunca rompeu com o agro, que Blairo Maggi foi ministro de Dilma Rousseff e que o agro sempre esteve próximo a todos os governos. E que, mesmo entre os sertanejos, havia apoio ao governo Lula. Zezé di Camargo & Luciano, por exemplo, chegaram a fazer jingle para a campanha do petista em 2002.

Nessa questão do preconceito da esquerda, há um paralelo muito próximo com o Brasil evangélico, na visão de Alonso. “Eu arrisco uma hipótese de por que foi tão difícil para os progressistas negociar com essa estética: acho que, no final das contas, é uma dificuldade em ler o Brasil, o Brasil real, o Brasil profundo.”

A guinada à direita viria, então, desse sentido de exclusão, de falta de diálogo e que se torna mais radical com o ambiente de polarização após o impeachment de Dilma. “Nessa hora, a maior parte escolhe um lado. Mas não dá para tratar isso como um fenômeno absoluto. A gente tem exemplos, principalmente dentro do sertanejo mais feminista, de negar esse lugar. Em cultura, nada está dentro de uma caixinha absoluta”, argumenta.

Processo de branqueamento

Uma outra hipótese levantada com frequência é de que a música sertaneja chega a esse lugar através de um processo de branqueamento, que vem junto com a modernidade. Marcos Queiroz, professor no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, desenvolve essa tese em um dos episódios mais interessantes da série Música Negra do Brasil, produzida pela Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles.

Para ele, o gênero sertanejo é antropofágico, bebe de todo o tipo de influências da música de diversas partes do mundo, mas só os brancos conseguem digerir as referências e se manter no mercado. E que esse branqueamento acaba trazendo o apagamento das raízes negras, acarretando em uma falta de representatividade na cena atual.

Alonso tende a relativizar esse branqueamento, dizendo que a polarização o incomoda. “Há uma retórica atual, muito ligada às pautas identitárias, que só quer ver o indígena ou o negro quando ele atua como se espera que o indígena ou o negro atuem. Quando ele não atua desse jeito, não é nem reconhecido como negro nem como indígena” diz.

Ele lembra de uma série de exemplos de negros e indígenas na música, como João Paulo, da dupla com Daniel, de Rick, par de Renner ou, mais recentemente,  de Gabriel Vittor, dos Agroboys, uma das duplas mais entusiastas do agronejo. “Chitãozinho & Xororó têm claros traços indígenas. Claro que isso foi sumindo ao longo da carreira porque o enriquecimento e as plásticas diminuem isso”, diz. “Não é que não haja esse embranquecimento, mas eu fico mais preocupado com o embranquecimento do olhar.”

Fato é que de Ouro Fino à descida pra BC, passando pelo Rancho Fundo, o sertanejo hoje fala com e sobre o Brasil. É só ouvir.

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Partidos de centro e de direita tiveram os melhores desempenhos

Infográfico do Poder 360
Infográfico do Poder 360

Do Poder 360

Os partidos de centro e de direita foram os grandes vencedores das eleições de 2024. Com os resultados do 2º turno divulgados no domingo (27.out.2024), é possível constatar com precisão quais legendas se saíram melhor em 8 critérios nacionais objetivos analisados pelo Poder360.

São eles:

-Prefeitos eleitos: PSD (891);

-Prefeitos eleitos em capitais: PSD e MDB (5 cada um);

-Eleitores governados: MDB (27,9 milhões);

-Prefeitos eleitos no G103 (grupo das 103 cidades com mais de 200 mil eleitores no Brasil): PL (16);

-Votos recebidos para prefeitos: PL (15,7 milhões);

-Vice-prefeitos eleitos: MDB (813);

-Vereadores eleitos: MDB (8.050);

-Votos recebidos para vereadores: MDB (11,2 milhões).

Infográfico do Poder 360
Infográfico do Poder 360

Só 3 partidos (MDB, PL e PSD) venceram nos 8 critérios citados acima. O destaque vai para o MDB, 1º colocado em 5 categorias (prefeitos em capitais, votos recebidos para prefeito no 1º turno, vice-prefeitos, vereadores e votos recebidos para vereadores no 1º turno).

Mais prefeitos eleitos

Quem venceu/quantos eleitos: PSD (891).

O partido comandado por Gilberto Kassab, 64 anos, conquistou 891 prefeituras. Foram 27 a mais que o MDB, o 2º colocado. Trata-se de um avanço de 34,6% em relação aos 662 eleitos em 2020. Quando se consideram os dados do PSD de abril de 2024, no entanto, o que se observa é uma queda.

O Partido Social Democrático tinha 1.040 prefeitos até o fim de abril. Agora tem 891. O que explica a alta de 2020 para abril de 2024: trocas partidárias. Kassab é hoje um dos políticos mais habilidosos. O PSD perdeu 157 prefeituras, mas cooptou 538 prefeitos no período. A maioria veio do PSDB, sigla que vive uma crise existencial e se apequena a cada eleição.

Infográfico do Poder 360
Infográfico do Poder 360

Veja reportagem completa clicando AQUI.

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Conheça um pouco das últimas 14 eleições municipais de Mossoró

Por Carlos Santos

Município teve Lei Complementar aprovada semana passada, tratando da questão (Foto: PMM)
Sede da Prefeitura Municipal de Mossoró, o Palácio da Resistência  (Foto: PMM/Arquivo)

Como fazemos há várias eleições municipais de Mossoró, postamos um resumo de pleitos ao longo das últimas décadas. Neste 6 de outubro de 2024, novamente apresentamos reportagem especial para fomento ao bom debate, disseminação de informações importantes e para aguçar a curiosidade de interessados em geral.

O levantamento atualizado de resultados e cenários políticos das eleições municipais de Mossoró começa por 1968, até o ano de 2020, eleições que ensejaram a eleição do jovem deputado estadual Allyson Bezerra (SDD, hoje no UB), num embate tenso e renhido.

Ao todo, nós viajamos juntos por 14 eleições municipais – o que compreende 56 anos de história.

O esforço é no sentido de continuarmos ofertando produto diferenciado aos nossos webleitores. Fruto de muita pesquisa e levantamento em arquivo próprio, além de outras fontes, bem como a colaboração de pessoas interessadas no tema.

Ao mesmo tempo, reitero que no uso de dados parcial ou por completo, não esqueça de citar a fonte. É uma questão de ordem legal, mas principalmente respeito ao trabalho árduo que realizamos em quase 40 anos de profissão e perto de completarmos 18 anos com o domínio Blog Carlos Santos.

Bom proveito:

Eleições de 1968: 

– Antônio Rodrigues (Arena 2/verde) – 11.132 votos;
– Vingt-un Rosado (Arena 1/vermelha) – 11.034 votos;
– Maioria pró-Antônio Rodrigues – 98 votos.

O pleito municipal de 1968 foi emblemático. Quem viveu essa disputa testemunhou (participou) da mais renhida campanha municipal mossoroense de todos os tempos.

Antônio Rodrigues : 98 votos

A vitória de “Toinho do Capim” (Antônio Rodrigues) foi comandada nas últimas 72 horas pelo ex-governador Aluízio Alves, que fez mais de 170 comícios-relâmpagos, com resultado tida até então como improvável, sobre Vingt-un Rosado.

O líder enfrentou e contrariou grupo de aliados locais na escolha de Toinho, pois desejavam o médico Cid Duarte, filho do senador Duarte Filho, como candidato a prefeito.

*Fonte:  Vingt-un Rosado, Coleção Mossoroense.

Eleições de 1972: 

– Dix-huit Rosado (Arena) – 16.194;
– Lauro Filho (MDB) – 11.995;
– Brancos – 205;
– Nulos – 296;
– Maioria Pró-Dix-huit Rosado –  4.199 votos.

O eleitorado habilitado ao voto era de 28.690. Dix-huit venceu as eleições tendo o professor Canindé Queiroz como vice, deixando para trás a chapa Lauro Filho-Emery Costa avalizada pelo aluizismo.

Os Rosados, com a vitória, retomavam o poder em Mossoró, após o hiato provocado pelo feito de Antônio Rodrigues de Carvalho em 1968, que suplantou Vingt-un Rosado nas urnas por apenas 98 votos de maioria.

*Colaboração de levantamento de números de Bruno Barreto.

Eleições de 1976:

– João Newton da Escóssia (Arena 1) – 20.165
– Leodécio Néo (MDB 1) – 10.840
– Assis Amorim (MDB 2) 6.970
– Antônio Rodrigues de Carvalho (Arena 2) – 1.327
– Maioria Pró-João Newton sobre a soma dos emedebistas  – 2.355 votos.

Neste ano, o regime militar em curso produziu o casuísmo da “sublegenda”, permitindo que o mesmo partido pudesse ter mais de um candidato. Vivíamos fase do bipartidarismo (Arena e MDB). A ideia era sufocar a “oposição consentida”, feita pelo MDB, que possuía bem menor representatividade em todo o país, com condições raquíticas de lançar mais de um candidato a prefeito.

Em Mossoró, com melhor representatividade oposicionista, o MDB chegou até a apresentar duas candidaturas, mas o cunhado do líder Vingt Rosado (Arena), João Newton da Escóssia, levou a melhor com folga – tendo o empresário Alcides Fernandes, o “Alcides Belo”, como vice.

*Dados numéricos com colaboração do Blog do Barreto.

Eleições de 1982:

Dix-huit: cartaz de campanha em 82 (Foto: Arquivo)

– Dix-huit Rosado (PDS) – 21.510 (41,68%);
– João Batista Xavier (PMDB) – 15.466 (29,97%);
– Canindé Queiroz (PDS) – 4.388 (8,50%);
– Mário Fernandes (PT) – 428 (0,83%);
– Paulo R. Oliveira (PTB) – 48 (0,09%);
– Brancos – 8.145 (15,79%);
– Nulos – 1.621 (3,14%);
– Abstenção – 15.435 (23,02%);
– Maioria Pró-Dix-huit – 6.044 (11,71%).

O eleitorado habilitado ao voto era de 67.041, em 275 secções. Compareceram 51.606 (76,98%) eleitores. A abstenção atingiu um recorde com 15.435 (23,02%) votantes.

Neste ano também ocorreram eleições para Governo do Estado, deputado estadual, deputado federal, além de uma vaga ao Senado e Câmara Municipal. Foram as primeiras eleições com a retomada do pluripartidarismo, na reta final do regime militar de 1964. O mandato dos prefeitos/vereadores foi de 6 anos em vez de 4, como temos desde o pleito de 1988.

Com a existência do casuístico instituto da sublegenda, cada partido poderia lançar mais de um candidato a prefeito, foi o que ocorreu em Mossoró. O grupo Rosado, unido, lançou Dix-huit Rosado pelo PDS.

Já o sistema Maia apresentou o jornalista Canindé Queiroz, pelo mesmo partido, para dar suporte à candidatura a governador do engenheiro e ex-prefeito indireto de Natal, José Agripino Maia (PDS). Agripino venceu seu principal adversário, o ex-governador Aluízio Alves (PMDB), com mais de 107 mil votos de maioria no estado.

Eleições de 1988:

– Rosalba Ciarlini (PDT) – 37.307 (49,7%);
– Laíre Rosado (PMDB) – 30.226 (40,2%);
– Chagas Silva (PT) – 2.507 (3,3%);
– Brancos – 3.594 (4.8%);
– Nulos – 1.503 (2%);
– Abstenção – 5.180 (6,44%);
– Maioria Pró-Rosalba – 7.081 (9,5%).

Rosalba foi eleita três vezes, a começar de 1988 (Foto: reprodução do Blog Carlos Santos)

O eleitorado habilitado ao voto era de 80.397, em 275 secções. Compareceram 75.217 eleitores. As abstenções foram de 5.180 votantes. Pela primeira vez na história, dois integrantes da família Rosado disputam o voto diretamente, na luta pela Prefeitura de Mossoró.

Rosalba, mulher do então deputado estadual Carlos Augusto Rosado (PFL), leva a melhor em chapa ao lado do empresário Luiz Pinto (genro do vice-prefeito à ocasião, empresário Sílvio Mendes).

O prefeito Dix-huit Rosado, só no mês final de campanha anuncia seu apoio à Rosalba, num momento em que ela já tinha dianteira em relação a Laíre Rosado (PMDB) e de sua vice Rose Cantídio (PMDB).

Eleições de 1992:

– Dix-huit Rosado (PDT) – 37.188 (47,79%);
– Luiz Pinto (PFL) – 32.795 (42,15%);
– Luiz Carlos Martins (PT)– 6.557 (8,43%);
– Paulo Linhares (PSB) – 1.273 (1,64%);
– Brancos – 5.669 (6,49%);
– Nulos – 3.913 (4,48%);
– Eleitores Aptos – 99.623
– Abstenção – 11.381 (11,42%);
– Maioria pró-Dix-huit Rosado – 4.393 (5,64%)

O eleitorado cadastrado à época era de 99.623. Compareceram 87.395, as abstenções chegaram a 11.381 e os votos nominais atingiram 77.813.

Tendo Sandra Rosado (PMDB) como vice, sua sobrinha e filha do irmão Vingt Rosado (deputado federal), Dix-huit retoma hegemonia política. Em 1988 os dois irmãos tinham rompido politicamente, devido o apoio de Dix-huit à Rosalba.

Eleições de 1996:

Sandra e Francisco José (pai): humilhação (Foto: reprodução)

– Rosalba Ciarlini (PFL) – 57.407 (62,64%);
– Sandra Rosado (PMDB) – 26.118 (28,50%);
– Jorge de Castro (PT) – 4.878 (5,32%);
– Valtércio Silveira (PMN) – 3.237 (3,53%);
– Brancos – 1.549 (1,60%);
– Nulos – 3.802 (3,92%);
– Válidos – 91.640 (94,48%
– Abstenção – 17.227 (15.08%)
– Maioria pró-Rosalba Ciarlini de 31.289 (24,14%).

Existiam 114.218 eleitores aptos, mas compareceram 96.991. As abstenções atingiram 17.227 (15.08%), com 91.640 sendo a votação nominal.

Rosalba tem vitória acachapante, graças principalmente ao desgaste do prefeito Dix-huit Rosado, que lançou o engenheiro e seu ex-secretário de Obras Valtércio Silveira como candidato governista. Sandra Rosado, dissidente do prefeito e tio, enveredou por candidatura própria. Teve a companhia do deputado estadual Francisco José (pai), mas experimentou resultado humilhante.

Eleições de 2000:

– Rosalba Ciarlini (PFL)– 57.369 (54,86%);
– Fafá Rosado (PMDB) – 42.530 (40,67%);
– Socorro Batista (PT) – 4.447 (4,25%);
– Mário Rosado (PMN) – 228 (0,22%);
– Brancos – 1.757 (1,59%);
– Nulos – 4.395 (3,97%);
– Abstenção – 17.168 (13.42%)
– Maioria pró-Rosalba Ciarlini de 14.839 (14,19%).

Existiam 127.894 eleitores aptos, mas compareceram 110.726. As abstenções atingiram 17.168 (13.42%), com 104.574 (94.44%) sendo a votação nominal em 358 urnas.

Rosalba foi candidata utilizando o novo instituto da reeleição. Enfrentou o grupo da adversária e prima Sandra Rosado, que temendo novo fracasso direto apostou no nome da enfermeira (e prima) Fafá Rosado, que nunca disputara uma campanha eleitoral.

Num comparativo com as eleições de 1996, esses números guardam uma preciosidade. Rosalba obteve menos votos do que na eleição anterior.

Enquanto em 96 tinham sido 57.407 em eleitorado de 114.218 aptos, em 2000 – contra Fafá, conseguiu 57.369 num contingente de 127.894 aptos. Ou seja, 38 votos a menos, apesar de aumento de 13.676 votantes.

Eleições de 2004:

– Fafá Rosado (PFL) – 57.743 (49,06%);
– Larissa Rosado (PMDB) – 34.688 (29,45%);
– Francisco José (PSB) – 21.210 (18,02%);
– Crispiniano Neto (PT) – 4.083 (3,47%);
– Brancos – 2.063 (…);
– Nulos – 5.708 (…);
– Abstenção – 17.376 (12%);
– Maioria pró-Fafá Rosado de 23.075 (19,61%).

Existiam 143.235 eleitores aptos, mas compareceram 125.475. As abstenções atingiram 17.376 (12%).

Nesta eleição, Fafá foi cooptada pelo primo Carlos Augusto para ser candidato do seu grupo, na sucessão de Rosalba. Venceu com relativa facilidade à deputada Larissa Rosado, filha de Sandra.

Eleições de 2008:

– Fafá Rosado (PFL) – 65.329 (53,01%);
– Larissa Rosado (PSB) – 46.149 (37,44%);
– Renato Fernandes (PR) – 11.306 (9,17%);
– Heronildes Bezerra, “Heró”  (PRTB) – 464 (0,38%);
– Brancos – 3.678 (2%);
– Nulos – 7.400 (5%);
– Abstenção – 18.701 (12%)
– Maioria pró-Fafá Rosado de 19.018 (16%).

Existiam 153.027 eleitores aptos, mas compareceram 134.326. Desse volume, 123.248 foram considerados válidos. As abstenções atingiram 18.701 (12%). Existiam 416 seções eleitorais.

Outra vez a força do rosalbismo e estrutura da Prefeitura deixaram a filha de Sandra Rosado, a deputada estadual Larissa Rosado, em segundo lugar.

Eleições de 2012:

Larissa e Cláudia: disputa acirrada (Foto: arquivo)

– Cláudia Regina (DEM) – 68.604 (50,90%);
– Larissa Rosado (PSB) – 63.309 (46,97%);
– Josué Moreira – 1.932 (1,43%);
– Raimundo Nonato Sobrinho, “Cinquentinha” (Psol) – 948 (0,70%);
– Edinaldo Calixto (PRTB) – 0 (0%);
– Brancos – 2.323 (1,61%);
– Nulos – 6.737 (4,68%);
– Abstenção – 21.122 (12,80%);
– Maioria pró-Cláudia Regina de 5.295 (3,93%).

Existiam 164.975 eleitores aptos. Desse volume, 134.793 (93,70%) foram considerados válidos a prefeito, 137.463 votos válidos à Câmara Municipal, entre votos diretos aos candidatos (283 ao todo) e os votos de legenda. O comparecimento ocupou 460 secções organizadas pela Justiça Eleitoral.

As abstenções atingiram 21.122 (12,80%).

A chapa Cláudia Regina-vice Wellington Filho (PMDB), apesar de eleita por pouca margem de votos em relação à Larissa Rosado (PSB)-vice Josivan Barbosa (PT), terminou sendo cassada em 4 de dezembro de 2013, quando faltava poucas semanas para completar o primeiro ano de gestão. Vereadora, recebera maciço apoio das estruturas da Prefeitura e do Governo do Estado, ocupados respectivamente pelas aliadas Fafá Rosado (DEM) e Rosalba Ciarlini (DEM).

Eleições de 2014 (Pleito Suplementar):

– Francisco José Júnior (PSD) – 68.915 (53,31%);
– Larissa Rosado (PSB) – 37.053 (27,55%);
– Raimundo Nonato Sobrinho, “Cinquentinha” (Psol) – 3.825 (4,90%);
– Josué Moreira (PSDC) – 3.025 (3,88%);
– Gutemberg Dias (PCdoB) – 2.265 (2,90%);
– Brancos – 4.428 (3,29%);
– Nulos – 15.000 (11,15%)
– Abstenção – 30.429 (18,45%);
– Maioria pró-Francisco José Júnior de 31.862 (25,76%).

A apuração apontou ao final o total de 134.511 (81,55%) votos válidos, no dia 4 de maio de 2014. Mossoró tinha 164.940 eleitores aptos ao voto.

Houve alto percentual de abstenção, com 30.429 (18,45%) votos. Foi a primeira eleição suplementar da história de Mossoró, em face da cassação e afastamento da prefeita eleita em 2012, Cláudia Regina (DEM), no dia 4 de dezembro de 2013. Ela ainda tentou concorrer no pleito suplementar, mas não obteve registro e seu partido não promoveu substituição.

A Justiça Eleitoral tinha colocou em funcionamento 514 urnas eletrônicas distribuídas pelos 72 locais de votação durante o pleito. Pela primeira vez, também, foi utilizado o sistema biométrico de identificação do eleitor. Foram juízes no pleito os magistrados Ana Clarisse Arruda (34ª Zona) e José Herval Sampaio Júnior (33ª Zona).

Eleições de 2016:

– Rosalba Ciarlini (PP) – 67.476 (51,12%)
– Tião Couto (PSDB) – 51.990 (39,39%)
– Gutemberg Dias (PCdoB) – 11.152 (8,45%)
– Josué Moreira (PSDC) –  1.370 (1,04%)
– Francisco José Júnior (PSD) – 602 (Votos inválidos)
– Branco – 2.974 (2,06%)
– Nulo – 9.416 (6,54%)
– Válidos – 131.988 (91,40%)
– Eleitores Aptos – 167.120
– Abstenção – 22.683 (13,59%)
– Maioria pró-Rosalba Ciarlini de 15.486 (11,73%).

Tião e Jorge: estreia em 2016 (Foto: arquivo)

O pleito municipal de 2016 foi marcado por um acontecimento incomum, em se comparando com diversas eleições anteriores desde o fim dos anos 80 do século passado: o clã Rosado juntou suas principais forças, que se digladiavam há quase 30 anos.

O grupo da ex-prefeita (três vezes), ex-senadora e ex-governadora Rosalba Ciarlini (PP) atraiu o sistema da prima e ex-deputada federal Sandra Rosado (PSB), numa aliança que parecia não ter adversários.

Mas, o movimento “Mossoró Melhor” que começou a se desenhar em meados de 2015, em costura dos empresários Michelson Frota, Tião Couto e Jorge do Rosário, acabou apresentando chapa que cresceu dentro da própria disputa, ameaçando uma “vitória certa” de Rosalba e sua vice Nayara Gadelha (PP).

A campanha teve ainda pela desistência (AQUI) de candidatura do prefeito Francisco José Júnior (PSD), que tinha sido eleito em maio de 2014 à municipalidade, em eleição suplementar. Com altos índices de reprovação, custou a tomar essa decisão, quando tudo indicava bem antes da campanha, que não teria a menor condição de competir.

Veja clicando AQUI, uma série de matérias especiais que resumem como foi essa disputa vencida por Rosalba e Nayara.

Eleições de 2020:

– Allyson Bezerra (SDD) – 65.297 (47,52%)
– Rosalba Ciarlini (PP) – 59.034 (42,96%)
– Isolda Dantas (PP) – 8.051 (5,86%)
– Cláudia Regina (DEM) – 4.046 (2,94%)
– Professor Ronaldo Garcia (Psol) – 611 (0,44%)
– Irmã Ceição (PTB) – 378 (0,28%)
– Branco – 2.282 (1,57%)
– Nulo – 6.052 (4,15%)
– Válidos – 137.417 (94,28%)
– Eleitores Aptos – 175.932
– Abstenção – 30.181 (17,15%)
– Maioria pró-Allyson Bezerra de 6.263 (4,56%).

Allyson, Cláudia, Ceição, Isolda, Ronaldo e Rosalba estão na disputa municipal deste ano (Fotomontagem: BCS)
Allyson, Cláudia, Ceição, Isolda, Ronaldo e Rosalba estavam na disputa de 2020 (Fotomontagem: BCS)

O êxito nas urnas de Allyson Bezerra, eleito deputado estadual em 2018, foi emblemático. Sua vitória teve enredo de grande dramaticidade durante toda a campanha e na apuração, também. Com problemas no processo de contabilização eletrônica da Justiça Eleitoral, só após as 21 horas do dia 15 de novembro é que houve anúncio oficial do resultado.

Ele derrotou Rosalba Ciarlini (PP), que estava em seu quarto mandato como prefeita, além de ter sido senadora e governadora. Era considerada imbatível, não obstante grande desgaste.

Allyson era um ‘azarão’, sendo tratado com chacotas no governismo – onde termos como “deputadozinho”, “doido”, “idiota” e “lesado” substituíam seu nome nos diálogos em redes sociais e cotidiano de gestores e aliados.

Na campanha, ele enfrentou além do de Rosalba, seu nome e estrutura municipal, adversários mais tradicionais que terminaram se juntando à própria Rosalba Ciarlini, nos últimos dias de campanha, para combater seu crescimento e iminente vitória – que se confirmou.

A campanha atípica, também teve uma carga emocional adicional, pois Mossoró e país viviam a atmosfera pesada da Covid-19, com milhares de mortes. O próprio calendário eleitoral sofreu alteração e em vez do pleito acontecer no dia 4 de outubro, acabou se efetivando no dia 15 de novembro.

Allyson Bezerra, saída da zona rural, engenheiro, servidor federal concursado e que durante vida sempre estudou em escola pública, fazia história. Empalmou 65.297 (47,52%) votos, contra 59.034 (42,96%) da prefeita.

O resultado final apontou maioria de 6.263 votos, ou seja, 4,56 pontos percentuais.

Fracasso

Os demais concorrentes tiveram votação pífia.

A terceira colocada, deputada estadual Isolda Dantas (PT), empilhou apenas 8.051 (5,86%) votos.

Já a ex-prefeita Cláudia Regina (DEM) não passou de míseros 4.046 (2,94%) votos.

Professor Ronaldo Garcia (Psol) somou 611 (0,44%) votos e Irmã Ceição (PTB) teve microscópicos 378 (0,28%) votos.

Números

Os números definitivos das eleições a prefeito em Mossoró mostraram grande percentual de abstenções, num comparativo com o pleito anterior em 2016. Foram 30.181 (17,15%) eleitores ausentes, enquanto que em 2016 atingiu 22.683 (13,59%) votantes.

No pleito, 7.498 eleitores a mais do que em 2016 preferiram não votar em 2020, ou seja, 3,56 pontos percentuais a mais do que na votação municipal quatro anos antes.

Série Especial

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Renovação em Câmara Municipal começa mesmo antes das eleições

Legislativo recebeu matéria no último dia 30 (Foto: Edilberto Barros)
Plenário terá modificação no total de cadeiras e nos nomes à próxima legislatura (Foto: Edilberto Barros)

A renovação na Câmara Municipal de Mossoró à próxima legislatura, a partir de 2025, começou mesmo antes das eleições de 6 de outubro próximo. Dois fatores já promovem a dança das cadeiras: a desistência de alguns atuais vereadores e a redução do número de vagas de 23 para 21.

Desistências

Seis dos 23 vereadores não vão concorrer a novo mandato legislativo. E tem um detalhe muito interessante: os quatro mais bem votados em 2020 estão nessa lista: Isaac da Casca (MDB), Carmem Júlia (MDB), Zé Peixeiro (Republicanos) e Tony Fernandes (Avante). Veja abaixo:

Pablo Aires (PV) – Com imagem bastante desgastada e problemas no campo judicial, preferiu negociar apoio à candidata Plúvia de Oliveira (PT), em articulação feita pela deputada estadual Isolda Dantas (PT);

Tony Fernandes (Avante) – Tentou ser candidato a prefeito ou mesmo vice e acabou sobrando. Também não foi aceito na nominata a vereador por seu partido;

Carmem Júlia (MDB) – Desistira da reeleição, mas resolveu aceitar ser vice na chapa de oposição à prefeitura, encabeçada por Lawrence Amorim;

Isaac da Casca (MDB) – Campeão de votos em 2020, não tentará a reeleição, mas aposta em sua mãe, Heliane Duarte (Republicanos), para ocupar sua cadeira;

Zé Peixeiro (Republicanos) – Foi pré-candidato a prefeito até à semana passada, mas postulação foi retirada e não tentará reeleição;

Lawrence Amorim (PSDB) – Presidente da Câmara Municipal, ele concorre à Prefeitura de Mossoró.

Mudança enorme em 2020

A maior renovação da Câmara Municipal de Mossoró, em sua história, aconteceu nas eleições passadas de 15 de novembro de 2020. Foram 17 novos parlamentares distribuídos em 14 partidos, num total de 23 vagas.

Em 2016, 13 novos vereadores chegaram à Casa, porém com total de 21 assentos.

A maior bancada eleita foi do Solidariedade (legenda do prefeito eleito Allyson Bezerra), com quatro parlamentares.

Apenas seis vereadores (veja em boxe abaixo, em negrito) conseguiram a reeleição, de um total de 21 componentes da legislatura 2017-2020. Vale lembrar que oito não concorreram (veja AQUI), por razões diversas.

Sete tentaram e não conseguiram: Petras Vinícius (DEM), Tony Cabelos (PP), Alex do Frango (PV), Aline Couto (PSDB), Rondinelli Carlos (PL), Flávio Tácito (PP) e Ozaniel Mesquita (DEM).

Duas vereadoras, em especial, acabaram substituídas por filhas nas eleições 2020: Izabel Montenegro (MDB), que era presidente desse poder, e Sandra Rosado (PSDB). A primeira teve problema judicial por condenação na Operação Sal Grosso e lançou Carmem Júlia. A segunda optou por lançar a ex-deputada estadual Larissa Rosado (PSDB).

Maria das Malhas (PSD) não tentou reeleição, mas lançou o neto Lucas das Malhas, que se elegeu.

Ao longo da legislatura eleita em 2020, pelo menos três vereadores foram cassados: Larissa Rosado (PSDB), Naldo Feitosa (PSC) e Lamarque Oliveira (PSC). Entraram em suas respectivas vagas Adjailson Fernandes Valdeger (DC), o “Marrom Lanches”, Tony Cabelos (PP) e Ozaniel Mesquita (DEM).

Eleitos e Reeleitos em 2020

Isaac da Casca (DC) – 3.113 (2,26% dos votos válidos)

Carmem Julia de Izabel (MDB)- 3.112 (2,26%)

Zé Peixeiro (PP) – 3.034 (2,20%)

Cabo Tony Fernandes (Solidariedade) – 2.530 (1,83%)

Larissa Rosado (PSDB) – 2.516 (1,82%)

Ricardo de Dodoca (PP) – 2.324 (1,68%)

Professor Francisco Carlos (PP) – 2.297 (1,66%)

Naldo Feitosa (PSC) – 2.132 (1,55%)

Pablo Aires (PSB) – 1.857 (1,35%)

Lucas das Malhas (MDB) – 1.849 (1,34%)

Wiginis do Gás (Podemos) – 1.740 (1,26%)

Lawrence (Solidariedade) – 1.739 (1,26%)

Marckuty da Maísa (Solidariedade) -1.729 (1,25%)

Marleide Cunha (PT) – 1.528 (1,11%)

Didi de Arnor (Republicanos) – 1.528 (1,11%)

Genilson Alves (Pros) – 1.502 (1,09%)

Lamarque Oliveira (PSC) – 1.501 (1,09%)

Raério Cabeção (PSD) – 1.301 (0,94%)

Costinha (MDB) – 1.221 (0,88%)

Gideon Ismaias (Cidadania) – 1.088 (0,79%)

Omar Nogueira (Patriota) – 964 (0,70%)

Paulo Igo (Solidariedade)- 929 (0,67%)

Edson Carlos (Cidadania) – 924 (0,67%)

*Em negrito estão os vereadores reeleitos em 2020.

Últimas quatro eleições a vereador

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A primeira onda do desenvolvimento de Mossoró

No cruzamento da Rui Barbosa com Frei Miguelinho, Centro, unidade do Samerf (Foto: Reprodução)
No cruzamento da Rui Barbosa com Frei Miguelinho, Centro, unidade do Samtef (Foto: Reprodução)

Por Tomislav R. Femenick

Na última quadra do século XIX, o cenário empresarial de Mossoró registrou uma grande expansão. A cidade já contava com quase uma centena de firmas e teve um crescimento que superou todos os mercados concorrentes. Essa onda de desenvolvimento atraiu, inclusive, pessoas e empresas de outros países que para lá foram, tais como: Johan Ulrich Graf, Feles Finizola, Leges & Cia., William Dreifles, Henri Adams & Cia., Gustav Brayner, Guines & Cia., Conrad Mayer e o português José Damião de Souza Melo. Afora os estrangeiros, mossoroenses e pessoas de outros lugares do Nordeste também abriam casas de negócios.

Foi o caso da Casa Mossoró & Cia., do cearense Joaquim da Cunha Freire, o Barão de Ibiapaba, Oliveira & Irmão, Souza Nogueira & Cia., Mota & Cavalcanti, Vicente da Mota & Cia., as firmas de Joaquim Zeferino de Holanda Cavalcanti, Teodoro José Pereira Tavares, Miguel Faustino do Monte, Antonio Soares do Couto, Manuel Lucas da Mota, Benício Mota e muitos outros. Dentre eles destacou-se Francisco Tertuliano de Albuquerque.

A presença de todos esses homens de negócios se refletia na intensa movimentação do porto de Areia Branca. De 1893 a 1895, cento e cinquenta e seis embarcações atracaram naquele porto e em 1911, cento e treze navios nacionais e outros 153 estrangeiros levaram produtos negociados por empresários de Mossoró, sendo 33 noruegueses, 30 ingleses, 50 alemães, 17 dinamarqueses, 10 suecos, seis holandeses, quatro portugueses, um americano, um francês e um russo.

O porto de Areia Branca movimentava anualmente de 200 a 250 mil toneladas de cargas, enquanto o porto de Natal movimentava cerca de 40 mil e os de Fortaleza e Cabedelo, 90 mil cada um deles. Era o sétimo maior porto do Brasil, em movimentação de tonelagem. O porto dos mossoroense contribuía com 58% das receitas portuárias do Estado, enquanto que Natal contribuía com 40%, e Macau apenas com 2%.

Até o final do século XIX, todas as mercadorias exportadas pelas firmas de Mossoró seguiam-se até o Porto de Santo Antônio, localizado a jusante do Rio Mossoró, em carros de bois ou comboios de burros, que conduziam fardos de algodão, peles e cera. Dali, os volumes eram transferidos em embarcações à vela até Areia Branca, de onde por sua vez, eram levados aos navios de maior calado, que ficavam ancorados em alto mar.

De volta, os carros de bois e comboios traziam mercadorias importadas do exterior ou outras regiões do país, que eram levadas para Mossoró, de onde eram remetidas ao alto sertão potiguar, ao Ceará, à Paraíba ou mesmo para Pernambuco.

Foi nesse cenário que, no ano 1869 o jovem Francisco Tertuliano de Albuquerque iniciou o seu comércio de fazendas, ferragens e miudezas, tudo em pequena escala, tanto assim que o seu capital inicial foi de apenas dezenove contos de réis. No ano seguinte a empresa foi devidamente regularizada, com o nome de F. T. de Albuquerque, e com a marca de fantasia de “Casa Tertuliano”. Depois sua razão social foi alterada, sucessivamente, para F. T. de Albuquerque & Cia., Tertuliano Fernandes & Cia. e, finalmente, S/A Mercantil Tertuliano Fernandes (SAMTEF), em 1949.

O primeiro gerente da firma foi o Dr. Euclides Saboia. A história da empresa está intimamente ligada à figura de Raimundo Nonato Fernandes, que nela ingressou como simples contínuo, foi nomeado gerente e, mais tarde, tornou-se sócio de seus antigos patrões.

A expansão das atividades do grupo (incluindo a negociação de cera de carnaúba, peles e outros produtos da região) e a adoção de técnicas modernas no setor algodoeiro e salineiro levaram a Samtef a ser o maior grupo empresarial do Rio Grande do Norte.

Embarque de sal ensacado no Porto Franco, em 1940 (Reprodução do Baú de Macau)
Embarque de sal ensacado em 1940 (Reprodução do Baú de Macau)

O império do sal

No início do século passado, o sal potiguar era bem conhecido e aceito no Nordeste e em poucas outras regiões do país, enquanto que no Sudeste, no Centro-Oeste e no Sul, era consumido quase que exclusivamente sal importado de Cádiz, na Espanha. Raimundo Nonato Fernandes conseguiu vender a uma firma sulina trezentas toneladas de sal, por preço irrisório. Não queria lucro com essa transação, sim abrir o mercado para o nosso produto. Com esse ato o sal de do Rio Grande do Norte se impôs aos compradores nacionais.

Esse foi o primeiro passo para a criação do verdadeiro império empresarial representado pelas empresas produtoras e refinadoras de sal, controladas pela S/A Mercantil Tertuliano Fernandes: a Sosal, Salinas Guanabara e Salmac.

Até o final da primeira metade do século passado, nas margens dos rios Mossoró e Assú e de seus afluentes, o sal era produzido por processos arcaicos e antieconômicos. Somente a privilegiada localização das salinas é que pode sustentar essa “indústria artesanal”, com uma enganadora não necessidade de novas técnicas para se produzi-lo, muito embora o produto fosse caro, industrialmente falando.

O sol abrasador, os ventos constantes, o solo impermeável e água com grau de salinidade superior à da água do mar escondiam essa carência. Porém, novos tempos chegaram e a Samtef correu em busca de novas tecnologias, que representassem menos custos.

A Salinas Guanabara S/A foi a primeira salina brasileira integralmente planificada e totalmente mecanizada. Uma verdadeira fábrica de fazer sal. A Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) a considerou como um dos empreendimentos prioritários para o “desenvolvimento zonal salineiro”, com produção de 150 mil toneladas/ano, nos primeiros anos de sua atividade.

Ocupava uma érea de 10.000.560 metros quadrados e operava com apenas 114 empregados, em perfeitas condições de trabalho. Dispunha de uma vila operária modelo, ambulatório, cooperativa de consumo, posto de saúde, escritórios, oficinas e garagem, tudo com água encanada, energia elétrica e rede de esgotos.

A unidade produtora da Salineira do Nordeste (SOSAL-S/A) ocupava uma área de 26 milhões de metros quadrados, com uma zona de cristalização de 200 mil metros quadrados, onde no final dos anos 1960 eram produzidas 400 mil toneladas de sal. Tinha 80 empregados fixos e mais de 1.200, de setembro a março.

Seu projeto incluía uma vila operária, oito alojamentos, um laboratório, um posto de observações meteorológicas, um restaurante, cooperativa de consumo, escola, clube para funcionários, ambulatório médico, escritórios, almoxarifado, posto de serviço e garagem.

Por sua vez, a Salicultores de Mossoró Macau Ltda. (SALMAC) era proprietária da Salina São Vicente, também em Mossoró, cuja capacidade de produção era de 30 mil toneladas anuais. Entretanto suas atividades principais eram o refino e a distribuição da produção de do sal do grupo nos mercados consumidores, principalmente nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e Espírito Santo.

No porto de Santos-SP, possuía instalações de desembarque, com equipamentos que possibilitavam um fluxo normal de 300 toneladas por hora e, ainda, um depósito com capacidade de armazenamento para 25 mil toneladas de sal. Na capital paulista possuía outro depósito, com capacidade de cinco mil toneladas, e, ainda, um centro de moagem e refino. No Rio de Janeiro, tinha um depósito para sete mil toneladas de sal e instalações de moagem e refino.

Visando obter recursos para incrementar o seu crescimento empresarial, a S/A Mercantil Tertuliano Fernandes se associou ao grupo do banqueiro Walter Moreira Sales (Unibanco), cedendo 50% das ações da Sosal e Guanabara. Posteriormente, o grupo Moreira Sales transferiu sua participação para a norte-americana Morton International Inc. (hoje, Morton Nortwich Products Inc.), através de sua subsidiária Morton’s Salt Company, de Salt Lake City.

O império do algodão

Cultura do algodão foi um importante ciclo econômico (Foto ilustrativa)
Cultura do algodão foi um importante ciclo econômico (Foto ilustrativa)

O complexo algodoeiro da S/A Mercantil Tertuliano Fernandes se espalhava por toda região oeste potiguar. Possuía unidades de compra e/ou beneficiamento de algodão nas cidades de Pau dos Ferros, Apodi, Caraúbas, São Miguel, José da Penha, Marcelino Vieira, Patu e outras, além de grandes instalações de descaroçamento, enfardamento de algodão e linter e prensagem e extração de óleo em Mossoró. Nessa última foi utilizado pela primeira vez no Estado, no início dos anos 1960, o sistema de extração de óleo com a utilização de solvente químico.

Nessa mesma década, foram criadas duas empresas subsidiárias: a Usina São Vicente S/A passou a cuidar das operações de compra e descaroçamento de algodão, bem como a venda do produto para o mercado nacional. Por sua vez, a Fábrica Raimundo Fernandes S/A realizava a extração de óleos vegetais. Sua linha de produção era composta de óleo bruto, semirrefinado e refinado; linter, borra de linter, torta magra (farelo), casca e borra de óleo. Dentre esses produtos, destacava-se o óleo comestível da marca Pleno.

O próximo passo seria a implantação de uma unidade produtora de margarina, cuja maquinaria já estava sendo adquirida. Com o lançamento desse novo produto, a Fábrica Raimundo Fernandes completaria o ciclo de utilização integral dos recursos industrializáveis do caroço de algodão. A nova unidade estaria capacitada para produzir anualmente 2.290 toneladas de óleo bruto de algodão, 2.106 toneladas de óleo refinado, 1.310 toneladas de gordura hidrogenada, 1.700 toneladas de margarina, 61 toneladas de linter, 61 toneladas de borra de linter, 7.350 toneladas de torta magra (farelo), 1.225 toneladas de casca e 366 toneladas de borra de óleo.

Outras atividades

Além dos complexos salineiro e algodoeiro, a S/A Mercantil Tertuliano Fernandes se dedicou também ao comércio e exportação de cera de carnaúba e couros, importação, navegação, agenciamentos, comissões, representações, consignações, agricultura, pecuária, administração de bens próprios ou de terceiros e particulares em outras empresas. Na Fazenda Itaoca, localizada nos municípios de Caraúbas e Apodi (com uma área de 6.000 hectares que continha dois açudes) possuía cerca de 2.000 cabeças de gado e aproximadamente 10 mil carnaubeiras.

Também faziam parte do grupo as empresas Apodi de Administração e Participações S/A, a holding do grupo, e a Sociedade Brasileira de Transporte Rio Mossoró Ltda (SOTRAN). Essa última fazia o transporte do sal das salinas ao costado dos navios em alto mar, com embarcações próprias.

Os empreendedores

Antônio Florêncio, de Pau dos Ferros, quatro mandatos (Foto: Arquivo)
Antônio Florêncio era a cabeça pensante (Foto: Arquivo)

A S/A Mercantil Tertuliano Fernandes somente conseguiu crescer graça ao espírito empreendedor de seus dirigentes. Homens com a visão de Francisco Tertuliano de Albuquerque e Raimundo Nonato Fernandes, na implantação da empresa, e Euclides Saboya, Vicente José Tertuliano Fernandes, Francisco Xavier Filho, Rodolfo Fernandes, Paulo Fernandes, Rafael Fernandes Gurjão, Julio Fernandes Maia, José de Oliveira Costa, e José Martins Fernandes, na etapa seguinte da sua consolidação.

No seu grande momento, durante a expansão de seus negócios pelo país, o grupo Samtef foi conduzida por Valdemar Fernandes Maia (presidente) e Antônio Florêncio de Queiroz, bem como Aldemar Fernandes Porto e Francisco de Queiroz Porto, além de Heriberto Escolástico Bezerra, Renato Costa, Gabriel Fernandes de Negreiros, Jorge Paes de Carvalho, Humberto Vieira Martins, Fernando Paes de Carvalho, Francisco de Assis Queiroz, Fausto Pontes, Francisco Canindé de Queiroz, João Marcelino, Genésio Rebousas e muitos outros. Todavia, o artífice do seu crescimento foi Antônio Florêncio de Queiroz. Dele foram todas as grandes ideias e todos os grandes projetos; era o porta-voz das inovações e da modernização da empresa. Foi eleito deputado federal por quatro legislaturas consecutivas.

A crise do algodão

É comum, inclusive entre estudiosos do assunto, atribuir-se ao bicudo (Anthononus grandis) a causa da crise da cotonicultura do Nordeste e, por extensão do nosso Estado. O certo é que foi uma série de fatores – que se sucederam e se repetiram ao longo do tempo – que impactaram o setor, provocando uma verdadeira hecatombe na agricultura, no comércio e na indústria ligada ao cultivo e beneficiamento do algodão. O bicudo apenas foi mais um desses fatores; muito danoso, porém não o mais letal.

A ação de combate à praga exigia a pulverização das plantações utilizando agrotóxicos altamente danosos a outras espécies; vegetais e animais. Dependendo da região e das condições locais, o custo anual do produtor no combate ao bicudo variava entre R$ 200,00 e R$ 300,00 (em moeda corrente), por hectare, o que inviabiliza a continuidade de muitos produtores no setor. Entretanto, “causa mortis” da nossa cultura algodoeira foram fatores econômicos, acoplados à baixa produtividade.

A escassez de recursos, as altas taxas de juros para financiamento da produção e beneficiamento da pluma e do caroço foram problemas levantados há quase sessenta anos nos “Encontros de Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”, organizados pela Sudene em Mossoró, Caicó e Pau dos Ferros. Pelo que ali foi dito, o montante das linhas de créditos, oferecidas pelo Banco do Brasil e Banco do Nordeste aos agricultores e maquinistas, sempre foram insuficientes, fato que ensejou o aparecimento dos atravessadores. Esses agentes foram importantes para o sistema, porém agregavam os custos, que já eram exorbitantes.

Ainda no campo econômico, outro aspecto encarecia (e ainda encarece) a produção do algodão potiguar: a quase ausência de economia de escala. A nossa cotonicultura é oriunda de unidades produtoras familiares de pequenas dimensões, verdadeiros minifúndios, além do mais em espaços não contínuos. Cada uma dessas unidades cuida do seu preparo da terra, do seu plantio, da sua aplicação de defensivos, da sua colheita etc., numa cadeia de custos que se multiplicam. Por outro lado, a pequena dimensão das propriedades dificulta a mecanização dos processos, geralmente realizada com máquinas caras, até quando alugadas.

Matéria-prima prima escassa (e cara) sustou os projetos de crescimento e mesmo de continuidade das unidades algodoeiras do grupo Samtef.

A crise do Sal

A primeira grande crise nas unidades salineiras ocorreu em 1961, quando o Rio Mossoró invadiu as salinas de Mossoró, Grossos e Areia Branca, provocando um serio prejuízo aos industriais salineiros, pela destruição de aproximadamente 600 toneladas de sal e das benfeitorias existentes nas salinas. Entretanto o maior prejuízo foi causado às iniciativas de mecanização das salinas, principalmente aquelas desenvolvidas pelos grupos S/A Mercantil Tertuliano Fernandes, F. Souto, Paulo Fernandes e Miguel Faustino Souto do Monte.

A esse cenário se juntavam os altos custos de carregamento dos navios, transporte e desembarque nos portos do centro e sul do país, o mercado consumidor do produto. Essa fase era tão ou mais arcaica que a primeira, fazendo com que o sal produzido no Rio Grande do Norte custasse mais de seis vezes quando chegava a São Paulo e no Rio de janeiro.

A situação, que era delicada, caminhava para ficar alarmante. Durante a visita que realizou a Mossoró, em fevereiro de 1967, Mario Thibau, o então Ministro das Minas e Energia, declarou que a indústria salineira do Rio Grande do Norte poderia sofrer um grande abalo dentro de prazo médio. No mesmo ano, o Instituto Brasileiro do Sal foi extinto e em 1970 os norte-americanos adquiriram o restante das ações da Sosal e da Guanabara, ficando com a totalidade do capital social de ambas, para o que teriam contado com recursos do grupo Rockefeller.

Foi o início do fim do maior grupo empresarial do Rio Grande do Norte.

Tomislav R. Femenick é economista, jornalista e escritor

*Texto originalmente publicado no Tribuna do Norte em 7 de setembro de 2014.

Uma campanha sem Rosado em Mossoró

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

A campanha municipal de Mossoró de 2024 está se desenhando com várias características incomuns à história das contendas municipais, em décadas, pelo desenho visto até agora. Uma delas, é a enorme possibilidade de não ter sequer um integrante da oligarquia Rosado em cabeça de chapa, a vice ou alguém escolhido por sua iniciativa para representá-la.

A banda Rosado capitaneada pela ex-deputada federal Sandra Rosado (PSB) jogou a toalha. Nem a vereador (veja AQUI) terá candidato. O sistema político liderado pelo ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado (PP), também não. Sua mulher, a ex-prefeita (quatro vezes), ex-senadora e ex-governadora Rosalba Ciarlini Rosado (PP) não encontrou condições mínimas para tentar levantar voo. Deve ‘terceirizar’ o apoio.

O modelo oligárquico ortodoxo que produziu uma mentalidade de “eugenia política”, ou seja, de pureza e crença de superioridade com base apenas no sobrenome Rosado, está em xeque há vários anos. O grande baque foi em 2020. No momento, a família e suas vertentes políticos não possuem sequer um mandato eletivo. É improvável que o tempo rebobine a partir deste ano, para se repetir como no passado de glória. Passou.

Desde 1948, os Rosados pontificavam na política de Mossoró, a partir da eleição de Dix-sept Rosado a prefeito e seu irmão Vingt Rosado a vereador. Direta ou indiretamente, venceram quase todos os pleitos municipais até 2016 – ou seja, 68 anos de poder.

Três derrotas

Do fim dos anos 40, para cá, apenas três derrotas na conta em 20 eleições municipais: 1968 quando Vingt-un Rosado foi superado por Antônio Rodrigues de Carvalho; 2014, em pleito suplementar, vencido com facilidade pelo prefeito interino Francisco José Júnior (PSD), deixando Larissa Rosado (PSB) bem atrás (veja AQUI); e 2020, quando o deputado estadual Allyson Bezerra (SDD, hoje no UB) desbancou Rosalba do sonhado quinto mandato (veja AQUI).

Na eleição suplementar de 2014, pela primeira vez em 26 anos, o “rosalbismo”, derivação do rosadismo, não participou de uma eleição municipal com candidatura a prefeito com nome e sobrenome ou engendrando uma chapa. A história deve se repetir neste 2024.

Quanto ao rosadismo, ou “sandrismo”, a desnutrição tem um marco também em 2014, mas numa sequência acelerada. De lá até aqui, ladeira abaixo. Em 2016, saiu do papel de principal referência de oposição e topou se unir a Carlos Augusto e Rosalba (veja AQUI). Virou força-auxiliar de quem combateu durante décadas, e apenas elegeu Sandra Rosado como vereadora. Atrás de si, ela e seu grupo viram outros nomes assumindo o campo oposicionista no teatro de guerra.

Em 2020, o rosadismo-sandrismo almejava ser vice de Rosalba, como sonhou em 2016. Contentou-se em ter a ex-deputada estadual Larissa Rosado eleita como vereadora, depois cassada.

Nada mesmo sinaliza que 2024 possa ser o ano da renascença. De tudo falta um pouco: meios, votos e, principalmente, coragem. Tudo passa.

Apesar de sérias deficiências, RN tem caminhos para desenvolvimento

Painel teve discussão elevada com especialistas no evento da Fecomércio (Foto: Fecomércio/RN)
Painel teve discussão elevada com especialistas no evento da Fecomércio (Foto: Fecomércio/RN)

Um pequeno estado ou um celeiro de oportunidades? Essa pode ser uma das perguntas que os olhos mais atentos à economia potiguar fazem ao analisar os números que descrevem o Rio Grande do Norte no cenário nacional. Porém, a resposta mais precisa e aprofundada mostra que, se por um lado, o estado ocupa o quinto lugar em termos de Produto Interno Bruto da região Nordeste, por outro, ele pode ser comparado a países como Uruguai (em população), Nicarágua (PIB) e Costa Rica (área).

Essa e outras reflexões marcaram parte da programação do “Fórum Fecomércio RN 75 anos – Caminhos para o Futuro”, realizado na quarta-feira (24), no Teatro Riachuelo, em Natal. Esse dados e provocação ao debate foram apresentados pelo economista Guilherme Mercês, na abertura de sua palestra.

Destacou, que além disso, o RN lidera no ranking nordestino em rendimento mensal domiciliar per capita e possui a segunda menor taxa de desemprego. E mais: a recente descoberta de petróleo em águas profundas na Margem Equatorial, pode trazer grandes retornos ao estado em termos de investimentos e de geração de emprego e renda.

Junto com ele, participaram do debate sobre o tema principal, a coordenadora da Secretaria Executiva de PPP da Sefaz BA, Maíra Nieto, apresentando o case da Bahia na implementação de projetos nesta modalidade; e o secretário adjunto da Seplan RN, José Dionísio Gomes, que coordena o Programação de PPPs do Governo do Estado, falando sobre as ações em desenvolvimento.

Janelas para o desenvolvimento

“As parcerias com o setor privado são janelas de oportunidade para impulsionar o crescimento e o desenvolvimento do estado”, afirmou o economista. Durante sua apresentação, Mercês ressaltou que, diante das restrições à ampliação do investimento público no estado, as PPPs e concessões podem ser aproveitadas em diversas áreas, como saneamento, logística, gestão de resíduos sólidos e educação.

Mercês apresentou números preocupantes (Foto: Fecomércio/RN)
Mercês apresentou números positivos e outros preocupantes (Foto: Fecomércio/RN)

Dados apresentados mostram que, no Rio Grande do Norte, o estado tem conseguido tratar apenas 28% do esgoto gerado; e os municípios têm dificuldades para coletar, destinar e tratar uma quantidade cada vez maior de lixo, com apenas 40% dos resíduos com destinação adequada. Por sua vez, apenas 30 km de rodovias (de uma malha de quase 1,9 mil quilômetros) está em estado excelente. E ainda: na educação, mais de um quarto dos jovens não estudam nem trabalham, mas poderiam estar sendo profissionalizados através de um curso técnico integrado ao ensino médio.

Nesse contexto, Mercês destacou o papel do Sistema Comércio. Segundo ele, o cenário mostra que as atividades de exploração e produção de petróleo demandam diversos serviços, como alojamento, alimentação, saúde e segurança e cultura.

Com isso, a demanda por profissionais qualificados vai se ampliar e a Fecomércio RN pode desde já iniciar, através de parcerias com empresas do setor e com o poder público, a qualificação dessa mão de obra. “Trata-se de um setor que exige grande especialização de seus empregados e que, em contrapartida, oferece remunerações bem acima da média do mercado”, disse.

Aprendizados

Questionada sobre o que seu estado traz de boas práticas na área de PPPs, a coordenadora da Sefaz (BA), Maíra Nieto, explicou que a gestão dos contratos é o grande desafio. “O grande aprendizado está em como gerir esses contratos e não da estruturação dos produtos. É claro que é importante estruturar os projetos, mas é fundamental também saber como manter esse produto, se ele tem o retorno, como a iniciativa privada esperou”.

José Dionísio, coordenador do programa de PPPs do estado, destacou que o governo do RN vive hoje um novo momento em relação ao olhar sobre as Parcerias Público-Privadas. “Realmente, enfrentávamos, nos últimos anos alguma dificuldade, mas avançamos. E eu acho que a partir de agora nós iremos entrar numa fase de mudanças. Temos o planejamento de PPPs da Caern e vamos ver isso acontecer”.

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José Dionísio Gomes e Maíra Nieto também participaram das discussões no Painel (Fotos: Fecomércio/RN)

O secretário adjunto reconheceu que o processo é lento, mas os resultados serão visíveis. “Depois que a PPP se instala, ela muda tudo. Hoje, em 2024, estamos usufruindo de decisões tomadas em 2021, 2022. E dependíamos também da legislação. Mas vem novidades boas por aí”.

Motores da economia potiguar

Durante sua palestra, Guilherme Mercês ainda destacou outros dados. O setor de Comércio, Serviços e Turismo foi apontado como o principal motor da economia potiguar, gerando R$ 32,3 bilhões em PIB em 2021, o que representou 40,3% do PIB estadual. Ao final de 2023, o setor empregava 52,8% dos trabalhadores formais do estado, ou seja, um em cada dois trabalhadores potiguares.

O economista também abordou o crescimento dos setores da economia em 2023, com destaque para a indústria, que apresentou a maior taxa de crescimento do país, e os serviços, que cresceram o dobro da média brasileira.

Mercês alertou, no entanto, que a economia potiguar ainda não havia se recuperado das perdas decorrentes da pandemia de Covid-19 ao final de 2023. Isso é visto porque as receitas do varejo ampliado potiguar estavam 0,8% abaixo do nível de 2019, mesmo após decorridos três anos de crescimento nas vendas.

Veja slides com resumo da abordagem dos debatedores

Guilherme Mercês (Economista e consultor da Fecomércio RN: CLIQUE AQUI

Maíra Nieto (Coordenadora – Sefaz BA): CLIQUE AQUI

José Dionísio Gomes (Secretário adjunto – Seplan RN): CLIQUE AQUI

O especialista também comentou sobre a queda do Rio Grande do Norte no Ranking de Competitividade dos Estados, organizado pelo Centro de Lideranças Políticas (CLP).

“Em 2019, o Rio Grande do Norte ocupava a 15ª posição nacional no ranking. Em 2023, o estado potiguar caiu para a 23ª posição, com uma avaliação de 34,2 pontos de 100 possíveis”, disse o economista. Ele atribuiu essa queda a fatores como a piora na solidez fiscal e a eficiência da máquina pública.

Há um ano que não nasce um único bebê no Hospital da Mulher

Hospital da Mulher tem documento indispensável ao seu funcionamento (Foto: Assecom/RN)
Hospital da Mulher e a realidade como ela é (Foto: Assecom/RN/Arquivo)

Nesta sexta-feira (29), o Hospital da Mulher Parteira Maria Correia, em Mossoró, completa um ano de existência, após inauguração com pompas no ano passado, finzinho do primeiro governo estadual de Fátima Bezerra (PT). Nesse espaço de tempo, não nasceu sequer um bebê em sua estrutura, onde foram investidos R$ 134 milhões – recursos do Banco Mundial.

Na prática, ele é um imenso ambulatório e parte do prédio virou anexo do Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM), que ficará em obras por tempo a perder de vista (veja AQUI). Além disso, a novidade no período foi a oferta de atendimento especializado à população trans, desde o dia 10 de janeiro.

O investimento consagra o desperdício do dinheiro público e define como é indigente a gestão da saúde estadual. Foi entregue com governo sabendo que não tinha condições financeiras de colocá-lo em serviço completo. “Até o meio do ano de 2023 terá seu funcionamento pleno. Ao todo, serão mais de 163 leitos focados na atenção materno-infantil, ginecológica e obstétrica de média e alta complexidade. A meta é realizar 20 mil atendimentos anuais de pacientes de mais de 60 municípios,” informava notícia oficial do governo, no dia 27 de dezembro, dois dias antes da inauguração (veja AQUI).

O hospital ocupa uma área total de 36.000,00 m², sendo 15.000,00 m² de área construída e nesse tempo de vida, se destacou mais por greves de terceirizados (veja AQUI) do que por sua finalidade precípua. Eis a realidade.

Sem recursos

Mas, afinal, quando o Hospital da Mulher vai de fato existir como tal? No dia 28 de março deste ano, a diretora-geral Elenimar Costa Bezerra, a “Leninha Bezerra,” refazia planos e numa entrevista ao programa “Cenário Político” da TV Cabo Mossoró (TCM Telecom), canal 10, previu que tudo estaria à plenitude até o fim deste ano. Contudo, revelou que a obra não tinha sido entregue “em sua totalidade.” (vídeo abaixo)

A titular da Secretaria de Estado da Saúde Pública (SESAP/RN), pediatra Lyane Ramalho Cortez, admitiu profundas dificuldades para fazer o Hospital da Mulher funcionar. Em reunião na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Mossoró, dia 14 de agosto, ela apontou o custo financeiro como obstáculo principal. Mas, dezenas e dezenas de servidores estão lotados por lá. 

O Hospital da Mulher “contradiz, inclusive, as propagandas feitas pelo governo Fátima Bezerra, que se promoveu em período eleitoral de 2022, às custas de uma inverdade,” denuncia o Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do RN (SINDSAÚDE/RN). A entidade cobra contratação de pessoal em cadastro de reserva e abertura de concurso público.

A maternidade de verdade

O verdadeiro Hospital da Mulher de Mossoró e região, atendendo pacientes de mais de 60 municípios e até oriundas do vizinho Ceará, é o Hospital Maternidade Almeida Castro (HMAC), sob intervenção federal há mais de nove anos (pasme!). Somente entre janeiro e junho deste ano nasceram 4.146 bebês (veja AQUI).

Em 2022, o total de procedimentos chegou a 6.968. Dessa pequena multidão de crianças, pelo menos 3.978 foram de mães de outros municípios. E, 2.915 eram de parturientes de Mossoró.

Enquanto isso, o imenso ambulatório com nome de Hospital da Mulher aguarda se transformar naquilo que deveria ser.

Pobre RN Sem Sorte.

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Souza Luz e “O prato do dia” na mesa política do mossoroense

Por Tárcio Araújo (95 FM Mossoró, especial para o BCS)

Souza Luz nasceu em Areia Branca e faleceu aos 65 anos (Foto: Relembrando Mossoró)
Souza Luz nasceu em Areia Branca e faleceu aos 65 anos (Foto: Relembrando Mossoró)

Neste dia 07 de Novembro, quando se comemora no Brasil o Dia do Radialista, o Blog Carlos Santos (BCS) registra a data mergulhando num passado distante da radiofonia mossoroense. Num quadrante de tempo do século passado, a gente resgata a figura de José Maria de Souza Luz (1927-1992, 65 anos), radialista que dava voz ao programa “O Prato do Dia”, que entre as décadas de 50 e 60 teve seu ápice na Rádio Tapuyo (hoje, RPC).

Parte desse conteúdo é extraído do livro a ser lançado no início do próximo ano – “Memórias do rádio mossoroense” (Tárcio Araújo). O trabalho reúne pesquisa de 05 anos, num mergulho em fontes primárias e labirintos diversos, passando por livros, revistas, áudios, jornais antigos, bem como inúmeras entrevistas com familiares e ex-radialistas de Mossoró.

O Prato do Dia foi o programa político mais efervescente do rádio mossoroense durante a década de sessenta. Veiculado ao meio-dia pela Tapuyo, era apresentado pelo polêmico radialista areia-branquense “Souza Luz,” seu nome artístico e adotado no cotidiano da sociedade. Teve início em meados de 1956.

O seu nome sugestivo foi idealizado pelo notável jornalista e escritor Jaime Hipólito. Era dele que vinha o editorial diário lido e interpretado pela voz inconfundível de Souza Luz. Eram crônicas e artigos com duração média de 05 minutos, tendo como alvo preferencial os políticos adversários dos irmãos Rosado (Vingt e Dix huit), figuras mais proeminentes desse clã, desde a morte do governador Dix-sept Rosado em 1951 – irmão de ambos.

Jaime esquentava o texto para Souza Luz tocar fogo (Foto: Relembrando Mossoró)
Jaime esquentava o texto para Souza Luz tocar fogo (Foto: Relembrando Mossoró)

Dupla com Jaime Hipólito

Aluízio Alves, que veio a ser governador do RN, tinha cadeira cativa no programa, sendo objeto das críticas, eventuais denúncias e questionamentos. O programa foi um caso de amor e ódio em razão de sua linha editorial ácida e impetuosa. De um lado, milhares de ouvintes seguidores dos Rosados; do outro, adversários.

Naquela época o Rio Grande do Norte vivenciava o tempo da política a ‘ferro e fogo’, e não havia limites para as hostilidades. A crônica mordaz de Jaime Hipólito se potencializava na voz ressoante de Souza Luz com sua dramatização impecável, robustecida de ênfases, pausas estratégicas e transpirações que passavam uma ‘imagem’ do que era focalizado. Numa analogia coloquial, Jaime acendia o fogaréu e Souza Luz espalhava as brasas.

“(…) O locutor Souza Luz, que não tinha o timbre aveludado de Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, nem como este escandia sílabas, lendo a crônica denominada ‘Boa noite para você’, nem o timbre cristalino da voz de Genildo Miranda, estrela da emissora concorrente, fazia com sua voz roufenha leituras verdadeiramente memoráveis, abusando da ironia, pontuando palavras, valorizando pausas e acentuando imagens dramáticas,” lembra o escritor Tarcísio Gurgel, um ouvinte diário à época.

Texto e voz que se casavam na Rádio Tapuyo, nesse ‘prato’ diário servido à mesa do mossoroense, era mesmo recheado de ironias, imitações jocosas de políticos e comparações com criaturas do reino animal. A receita era um grande sucesso.

“O ex-senador Teodorico Bezerra, por exemplo, era reportado no programa como Rato Branco”, conta o radialista J.B de Andrade que trabalhou como operador de áudio da rádio Tapuyo neste período.

O ápice de O Prato do Dia foi nos anos de superlativo sucesso político nas urnas, na comunicação e no apelo de massas de Aluízio Alves, no governo estadual. O ‘cigano feiticeiro’ ameaçava o domínio dos irmãos Rosados em Mossoró e expandia no município uma crescente força que precisava ser combatida à moda daquele período: de forma radical, claro.

“(…) É fato que durante a campanha de 60 e depois da campanha, Aluízio dividia as famílias.  A gente via casos de rompimento entre pai e filho por conta do acirramento político daquela época, e o Prato do Dia retratava bem isso aqui em Mossoró. Quem era partidário de Aluízio odiava o programa. Mas quem era contra o governador se deleitava com as crônicas narradas por Souza Luz,” rememora Laíre Rosado, genro do deputado estadual Vingt Rosado.

O ‘resgate’ de Souza Luz 

Durante a campanha eleitoral para o governo do Estado em 1960, o radialista Souza Luz recebera constantes ameaças de surras dos eleitores de Aluízio Alves revoltados com as críticas que ele desferia ao político.  Quando estava próximo ao encerramento da contagem dos votos, o resultado apontava vitória do candidato ‘bacurau’ contra Djalma Marinho. Nessa ocasião, Souza Luz transmitia a apuração do primeiro andar do prédio da União dos Artistas Mossoroenses, na praça Antônio Vigário Joaquim.

Do lado de fora, uma multidão se aglomerava em frente ao edifício ameaçando linchar o radialista. Era uma espécie de vingança coletiva pela campanha difamatória impetrada pela rádio Tapuyo durante todo o processo eleitoral, tendo Souza Luz como figura mais representativa. Para sua sorte, alguns soldados do Exército, que garantiam a segurança do pleito, foram acionados pela direção da emissora, conseguindo resgatá-lo. Souza Luz desceu rindo, escoltado, e sob xingamentos impublicáveis.

O fim

Em 1978, o então governador Tarcísio Maia escolhera o primo Lavoiser Maia para o substituir no poder, num tempo em que a ascensão à governadoria era indireta, sob nomeação do regime militar. Os nomeados eram denominados de “governadores biônicos.”

Dix-huit, candidato ao Senado em 1958, tem Souza Luz ao microfone (Foto: Cedida)
Dix-huit, candidato ao Senado em 1958, tem Souza Luz ao microfone (Foto: Cedida)

Essa decisão gerou enorme insatisfação para Dix Huit Rosado que também pleiteava o posto. No rosadismo, a sua escolha era vista como “natural” e certa, tamanho seu currículo. Ex-deputado estadual Constituinte, ex-senador, ex-prefeito de Mossoró, Dix-Huit encomenda uma crônica inflamada contra Tarcísio Maia e encaminha o conteúdo para que Souza Luz a apresentasse no programa.

Mossoró inteira sabia que a voz e a interpretação de Luz ampliavam o poder da mensagem. E Dix-Huit Rosado tinha convicção de que o conteúdo da crônica só alcançaria o efeito desejado se fosse transmitido na voz do locutor-âncora da Tapuyo.

Para não desagradar nenhuma das partes, Souza Luz se recusou a narrar a crônica, mesmo a mando do patrão. Pediu para o colega François Paiva executar a missão, e foi embora pra casa passo a passo.

Ao tomar conhecimento que não era Souza Luz quem estava na apresentação, Dix-Huit, ordena a suspensão imediata do programa e o convoca à conversa olho no olho.

No entanto, apesar dos apelos, o radialista manteve a posição e por consequência desse fato deixou o trabalho na Tapuyo. Encerrava assim uma carreira de 23 anos dedicados à emissora.

“Dias depois Tarcísio Maia o procurou para agradecer a solidariedade. Noguchi Rosado (sobrinho de Dix-huit e Vingt Rosado) também foi lá em casa pedir pra ele voltar ao trabalho, mas ele já estava decidido. Meu pai não queria se indispor com nenhum dos lados. Tinha uma boa amizade e consideração pelos dois, tanto Tarcísio quanto Dix Huit, que se sentia traído naquele momento. Foi uma decisão muito coerente da parte dele,” relata o  filho do comunicador Souza Luz, José Maria de Souza Luz Filho, o “Zezinho.”

Depois disso, o radialista decidiu não atuar por outra emissora da cidade, apesar dos convites. Sua vida e trajetória estavam intimamente ligadas a rádio Tapuyo desde a fundação da emissora em 1955.

Nos anos 60, o radialista e o prazer, também, da Lambreta (Foto: cedida)
Nos anos 60, o radialista e o prazer, também, da Lambreta (Foto: cedida)

Três paixões

“Meu pai tinha três grandes paixões: a família, a política e a rádio Tapuyo,” aponta Zezinho.

Depois de deixar a rádio Tapuyo de forma prematura, aos 48 anos, Souza Luz deu sequência à atividade profissional de servidor público na coletoria do Estado. Permaneceu ligado politicamente à família Rosado até sua morte no ano de 1992.

Souza Luz foi um dos grandes nomes do rádio local, atuando no jornalismo político daqueles tempos, ao seu modo e de acordo com o método de comunicação exigido para a época.

Quer saber mais sobre histórias como essa, aguarde em 13 de Fevereiro de 2024 (quando se comemora o Dia Mundial do Rádio), o lançamento do nosso livro ‘Memórias do Rádio Mossoroense.

Leia também: “O prato do dia” na resenha política.

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Carlos Augusto adora ser ele mesmo até hoje

Antônio Abujamra era um personagem que se encaixou em Carlos Augusto e vice-versa (Foto: Arquivo)
Abujamra foi um personagem que foi adesivado em Carlos Augusto (Foto: Arquivo)

Habituado a adesivar apelido em qualquer um, seja aliado ou adversário político, o ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado coleciona essa modalidade de troça há décadas. Inocentemente, alguns ‘homenageados’ até pensam que é uma deferência ou afago.

Não mesmo.

A ex-deputada federal Sandra Rosado (PSDB), prima e por muito tempo adversária política, para ele é “A poderosa.” No seu íntimo, claro que não. O todo-poderoso é ele mesmo.

O bancário aposentado Pedro Moura é “Ministro,” na definição de Carlos Augusto. Pedro foi um conselheiro herdado dos tempos do rosadismo, grupo liderado pelo ex-deputado federal Vingt Rosado – tio do ex-deputado.

O jornalista Canindé Queiroz (in memoriam) era saudado como “Miséria.” Por trás, na frente, em qualquer lugar, qualquer conversa. Era Miséria aqui e acolá.

Canindé Miséria dava uma baforada no cigarro, cofiava a barba e ria.  Sabia bem o significado do tratamento pessoal. A-do-ra-va, que se diga. Contudo, não dava o troco. O tratava pelo prenome mesmo: Carlos.

Eu também não escapei do xará. Dos tempos de redação do extinto jornal Gazeta do Oeste, o codinome ‘nobre’ que me aplicou foi o de “Príncipe.” Plebeu, isso sim.

Para me ‘vingar’, sem querer ficar por baixo, atrevidamente revidava. A cada contato pessoal ou por telefone com o deputado, a saudação era uma só: “Diga, Vereador.”

Meu interlocutor não se incomodava. Sempre via tudo do alto, com olhos de enquadramento cinematográfico plongée (ângulo de cima para baixo), com todos a seus pés).

Sua mulher Rosalba Ciarlini Rosado tem um para deixá-la toda dengosa, ganho ainda nos  tempos de namoro: “Mãinha.” Entretanto, se ele está num daqueles dias de erupção, indócil… esqueça. Não cabe espalhar. Coisa de casal.

Nosso personagem também foi vítima do seu próprio veneno. Dos adversários, em tom provocativo, ganhou o epíteto de “Ravengar.” Era alusão ao personagem maquiavélico interpretado pelo ator Antônio Abujamra, na novela histriônica e satírica “Que rei sou eu?” (1989) – da Rede Globo de Televisão.

Mas, não pense você que isso lhe fez ou faz mal. Nadica de nada.

Carlos Augusto adora ser ele mesmo: Ravengar.

Vereador? Não. Esqueça essa minha bobagem.

Ravengar está de bom tamanho.

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Partido dos Trabalhadores vai à 9ª tentativa para conquistar prefeitura

Júnior Souto foi o primeiro candidato; Fátima tentou quatro vezes (Foto: arquivo do BCS/2017)
Júnior Souto foi o primeiro candidato; Fátima tentou quatro vezes (Foto: arquivo do BCS/2017)

Em 2024, o Partido dos Trabalhadores (PT) vai para sua nona campanha consecutiva à Prefeitura de Natal, sendo cabeça de chapa. Até aqui, “bateu na trave” em uma disputa e não aconteceu nas demais. Essa trilha começou em 1992. O candidato a prefeito à época foi o professor, sindicalista e primeiro deputado estadual da legenda, Júnior Souto.

Abaixo, conheça um pouco dessa história em reportagem exclusiva do Blog Carlos Santos (BCS):

Em 1988, Wilma de Faria (PDT) foi eleita contra Henrique Alves (PMDB) – 46,92% a 43,45%. Já o PT, apresentou apenas Hugo Manso como vice de Waldson Pinheiro (PSB), com chapa ficando em terceiro lugar com 6,75% dos votos válidos.

Júnior Souto

Natural de Mossoró, Júnior Souto ficou apenas em quarto lugar em 1992 com apenas 6,89% dos votos válidos, na primeira investida do petismo à prefeitura da capital. Tinha sido eleito deputado estadual em 1990. Foi eleito o engenheiro Aldo Tinoco (PSB), apoiado pela prefeita Wilma de Faria (PSB), superando Henrique Alves (PMDB). No primeiro turno, foi esse o resultado: Henrique com 39,32% e Aldo obtendo 26,98%.

No segundo turno, Aldo Tinoco chegou à vitória com 50,21%, enquanto Henrique Alves atingiu 49,79%. Maioria numérica de apenas 961 votos (112.993 a 112.032).

Fátima Bezerra

Em 2000, Fátima (Foto: Arquivo)
Em 2000, Fátima em nova disputa (Foto: Arquivo)

A atual governadora Fátima Bezerra disputou quatro vezes: 1996, 2000, 2004 e 2008.

Em 1996, perdeu nos dois turnos para Wilma de Faria: 35,79% a 28,88% e 51,68% a 48,32%.

Em 2000, o confronto foi em um só turno contra Wilma de Faria novamente: 57,71% a 29,38%.

Em 2004, um sonoro desastre com a vitória de Carlos Eduardo Alves (PDT) no primeiro e segundo turnos contra Luiz Almir (PSDB), enquanto a petista apareceu apenas em quarto lugar: 37,30% contra 7,41%. Ela foi superada até por Miguel Mossoró, terceiro colocado, que somou 18,17% dos votos.

Veja desempenho de Carlos x Luiz Almir em termos de porcentagem de votos válidos em primeiro e segundo turnos: 37,30% a 30,46% e 51,92% a 48,08%.

Em 2008, outra vez Fátima Bezerra voltou ao segundo lugar, porém distante, perdendo para a então vice-prefeita Micarla de Sousa (PV), que resolveu disputa ainda no primeiro turno: 50,84% a 36,82%.

Mineiro

Já o deputado federal Fernando Mineiro, bem antes desse primeiro mandato em Brasília, foi o escalado em 2012 e 2016.

Em 2012, Carlos Eduardo Alves voltou a vencer e Fernando Mineiro foi o terceiro colocado. 40,42 % a 22,63 %. No primeiro e segundo turnos, Carlos superou Hermano Morais (MDB) por 40,42 % a 23,01 %  e 58,31 % a 41,69%.

Em 2016, o prefeito Carlos Eduardo foi à reeleição e levou no primeiro turno a disputa. Fernando Mineiro foi o terceiro colocado: 63,42% a 10,15%. A segunda colocação ficou com o deputado estadual Kelps Lima (SDD), com 13,37%.

Fernando Mineiro e Carla Tatiane seguiram a receita da suavização do vermelho em 2016 (Print reprodução)
Fernando Mineiro e Carla Tatiane, a chapa em 2016 (Print reprodução/Arquivo)

Jean-Paul Prates

Na última jornada, em 2020, nenhum medalhão da cúpula partidária quis se arriscar. Empurraram o senador Jean-Paul Prates, que não tinha nada a perder.

O prefeito Álvaro Dias foi reeleito (era vice de Carlos Eduardo, que renunciou) logo no primeiro turno, com 56,58% contra 14,38% do senador.

Natália Bonavides

Com 2024 é diferente: a deputada federal Natália Bonavides (PT) tem tudo a ganhar, mesmo que não vingue.

E, é bom que se diga: sua postulação é viável, capaz de convertê-la em prefeita.

Veremos.

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