Por Marcos Ferreira
Achava-me no banheiro, enxugara-me parcialmente e estava prestes a passar o desodorante roll-on. Aí escuto umas pancadinhas no portão. Quem seria a essa hora? Momento de sol forte, calor demais. Imediatamente, como autoridade constituída, Juju se pôs a latir com teatral bravura, engrossando a voz de modo a me parecer autêntica protetora deste domicílio. Isso foi ontem, por volta das quatorze horas. Vesti-me da cintura para baixo com a toalha e fui ver o que havia.
Não abri, limitei-me a espiar e falar pela minúscula fresta entre o muro e o portão corrediço. Não estava em condições de receber ninguém semivestido com uma toalha. Já procedi assim algumas vezes com certas pessoas cuja voz não me pareceu familiar. Perguntei sobre quem era e o que desejava. Felizmente, talvez pela proximidade, fui logo visto e ouvido através da referida frincha. Um tanto surpreso, então, com o pouco cabelo despenteado e o corpo com bolhas d’água em determinados pontos, pude ver o recorte de um rostinho feminino. Pois é. Estava ali uma garota que se anunciou como testemunha de Jeová.
Tive, pelo timbre daquela voz, a impressão de que não tivesse nem dezoito anos. Julgando o falatório confuso do outro lado, presumi que a mocinha não estava só. Ela disse se chamar Luana e revelou que andava em companhia de outras duas moças cujos nomes não os recordo. Amigas talvez tão jovens quanto ela, quem sabe adolescentes. Indaguei de mim para comigo como alguém tão jovem possa se dizer testemunha de uma história tão velha quanto o próprio mundo.
É isso, a mocinha esperava ser recebida de maneira mais apropriada. Esforçava-se para usufruir do nosso mínimo campo de visão e diálogo. Eu não tinha o menor intuito de convidá-las a entrar, oferecer água ou café. Por isso dei um jeito de encurtar a conversa e me livrar daquela situação inoportuna para os dois lados. Uma lateral da armação dos óculos de grau dela tocava a parede do muro.
Imagino que Luana tenha visto ao menos que eu estava sem camisa. Educadamente, enfim, ela agradeceu pela atenção e disse que poderíamos conversar melhor em outra oportunidade. E lá se foram as testemunhas do Criador. Fico aqui imaginando se este relato pode interessar a quem quer que seja. Entrementes quero supor que a história sirva de exemplo, ao menos para que vejamos que ainda há neste planeta pessoas voluntariosas e de bom coração. Aquelas meninas não tiveram a chance de me transmitir a sua mensagem de fé e amor, porém acho justo fazer o registro dessas três boas almas que tentaram me catequizar na tarde de ontem.
Lembro que certa feita, há coisa de dois ou três anos, despachei sumariamente dois jovens mórmons que me encontraram em outro tipo de circunstância na qual não pude lhes dar maior atenção. Apareceram-me justamente quando eu ia chegando em casa apertado por uma perigosa dor de barriga. Argumentei às pressas sobre a impossibilidade do diálogo e por pouco não borrei as calças.
Marcos Ferreira é escritor















































