Por Bruno Ernesto
Há dois lugares que reputo indissociáveis na minha vida: padarias e cafeterias.
Tenho pra mim que são lugares consagrados com ato litúrgico solene, talvez elevados a templos, altares, separados de forma permanente para o culto divino, tal qual uma igreja em Roma.
Todavia há um aspecto que considero muito importante: simplicidade.
Coisas sofisticadas e com protocolo demais são chatas, cansa e tira a naturalidade da vida.
Ninguém — eu pelo menos, não!
— tolera artificialidade do mundo moderno, onde o simples ato de tomar um copo d’água muitas vezes se revela uma verdadeira cerimônia.
Veja, por exemplo, o caso da água mineral. Algum gênio achou interessante vender água numa lata de alumínio, cujo conteúdo não é suficiente nem para deglutir uma cibalena.
Doutro ponto, inventam nomes esquisitos; isso quando não há estrangeirismos desenfreados.
Ainda sou favorável aos nomes tradicionais de muitas coisas, principalmente pão.
E foi aí que essa história da língua de sogra veio parar no título deste texto.
Digo, porém, que não se trata de uma ofensa à minha ou à sua sogra, ou à sogra alguma.
Uma padaria tradicional de bairro que vez ou outra frequento, reabriu suas portas após uma ampla modernização, mas manteve o padrão do seu panifício, o que muito me agradou.
Os balcões estavam belíssimos, com aqueles pães reluzentes dispostos lado a lado esperando cada freguês escolher, feito uma bela jovem aguardando para ser convidada para uma dança.
E nesse dia, notei que havia balconistas bem jovens e recém contratados, certamente entusiasmados com o grande movimento.
Eu era apenas mais um na fila do pão, e na minha vez de chamar um pão para uma dança, pedi àquela jovem balconista que colocasse, dentre outros pães, umas quatro línguas de sogra.
Ela olhou para mim e disse que tinha língua de sogro também, mas não estava sabendo qual era um e qual era outro pão, pois a única diferença que haviam lhe informado era o tamanho deles.
Olhei para ela sem entender muito bem a situação, pois língua de sogra, depois do pão francês, deve ser o pão mais tradicional disposto no balcão de uma padaria.
Ela olhava pra mim, eu olhava para ela. Ela olhava para a colega ao lado – novata como ela – e a colega a olhava de volta; e diante daquele impasse de cinco segundos infindáveis, não me fiz de rogado e disse que se falaram para ela que a única diferença entre os pães língua de sogra e lingua de sogro era o tamanho, certamente a língua de sogra era o maior.
Nem minha sogra resistiu à piada e gaitou solenemente na frente do meu sogro enquanto tomávamos um café e comíamos uma deliciosa língua de sogra.
Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog














































