domingo - 04/01/2026 - 10:04h

A formação de Dante

Por Marcelo Alves

A Barca" de Delacroix, espelhando "A divina comedia" (Reprodução do BCS)

A Barca” de Delacroix, espelhando “A divina comedia” (Reprodução do BCS)

Os romances de formação são um tipo de “gênero literário”, muito comum na literatura alemã, cujo enredo está centrado na evolução moral e psicológica de um protagonista, geralmente desde a sua juventude até a idade adulta. “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796), obra seminal de Goethe (1749-1832), é o seu marco referencial, ao mesmo tempo um ponto de chegada e de partida, que exerceu enorme influência sobre a subsequente literatura ficcional no estilo. No mais, eles são universalmente designados pela expressão alemã “bildungsroman”, que, “desconstruída” para o português, nos dá “romance de formação” ou “romance de educação”.

Embora típico da literatura alemã, os “bildungsromane” não são desconhecidos em outras literaturas. Em inglês, por exemplo, podemos apontar “Jane Eyre” (1847) de Charlotte Brontë (1816-1855), “David Copperfield” (1850) e “Grandes Esperanças” (1861) de Charles Dickens (1812-1870) e “As aventuras de Huckleberry Finn” (1884) de Mark Twain, entre tantos outros.

Outrossim, muito embora “estritamente falando o termo não possa ser aplicado a texto anterior ao Wilhelm Meister”, o “bildungsroman”, de fato, como bem registrado na “Benét’s Reader’s Encyclopedia” (HarperCollins Publishers, 1996), “representa a culminância de uma longa tradição”. E podemos citar, como grande exemplo de “romance de formação” anterior ao “Wilhelm Meister”, nada mais nada menos que a “Divina Comédia” (1321), de Dante Alighieri (1265-1321), texto fundador da língua italiana e, de resto, uma das obras fundamentais da literatura mundial. Nela, como consta da minha edição da “Comédia” (Martin Claret, 2015), “acompanhado por Virgílio [seu mentor e guia], o poeta percorre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso” em busca da verdade revelada. Dante, claro, também vai ao encontro da amada Beatriz.

Noves fora a Bíblia e Shakespeare, nenhum outro autor ou obra é tão badalado e dissecado quanto Dante e a sua “Comédia” (não só nas letras, mas também na arte pictórica, tendo ela assim formado a nossa visão – falo aqui de imagem mesmo – do mundo, dos céus ao inferno e vice-versa). Há inúmeras maneiras de se ler a “Comédia”, todas elas, como não poderia deixar de ser com esse tipo de monumento-esfinge do saber, incompletas. E numa dessas leituras, a Comédia é interpretada como “um épico do aprendizado”.

Como anota George Steiner (em “Lições dos mestres”, Record, 2005), “as fontes, o moto spirituale da Comédia, são as da pedagogia. O poema instrui no seu desenrolar e isso se dá através de sucessivas lições e master classes. As condições e ações de mestre e discípulo são essenciais à jornada”.

Lembremos sempre que, para Dante, o seu maestro supremo é uma “Divindade Suprema”, mas o seu mestre/guia, como peregrino do aprendizado, pelo Paraíso, Purgatório e Inferno, é o grande pagão Virgílio (70aC-19aC). De fato, “o grande achado de Dante, radical e determinante de sua obra, foi fazer do autor da Eneida o guia do peregrino, figura paterna, exemplar. A parceria eletiva entre Mestre e discípulo torna-se o eixo da jornada.

A densidade da interação, articulada e subconsciente, é tal que qualquer abordagem adequada requer, virtualmente, uma releitura verso por verso tanto do Inferno quanto do Purgatório. A condição de pupilo é declarada desde o início: ‘Tu sei lo mio maestro e ‘l mio autore’. (…) A Comédia é a anatomia dessa natureza de rapport. Mais do que qualquer outro texto a partir de então, ele é o nosso Bildungsroman”.

De toda sorte, há algo de curiosamente trágico na interpretação da “Divina Comédia” como “bildungsroman”, em especial no final da relação entre Dante e Virgílio, entre o pupilo e seu mentor/guia: a negação a Virgílio, por parte de Dante, de qualquer possibilidade de salvação na vida em Cristo. Como se cumprindo o seu fatum ao mesmo tempo teológico e literário, Virgílio, o mestre/pagão, que guia seu pupilo à luz, é, ao final da peregrinação de ambos, condenado ao limbo, o primeiro círculo do Inferno.

E nos resta a questão: não havia mesmo jeito de Dante “salvar” o seu “dolicissime patre” Virgílio? Ou estamos diante, como se referiu o já citado George Steiner, da “sombra da traição projetada onde mais se concentrava a luz da felicidade [paternidade]”?

Sobre essa “tragédia da comédia” nós conversaremos na semana que vem. Paciência.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica

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